Doses maiores

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15 de dezembro de 2014

Estados Unidos: o berço do narcocapitalismo

Em 13/12, o caderno Prosa, do Globo, trouxe matéria sobre o livro “Zero zero zero”, de Roberto Saviano. Entre outros temas, o jornalista italiano falou sobre as conexões entre o tráfico e a economia legal. É o caso dos gigantes financeiros Citibank e o HSBC, cujo envolvimento com o comércio de drogas foi comprovado pela Justiça estadunidense.

Saviano também denuncia a existência de uma comunidade do tráfico na América Latina. Nela desempenhariam papel importante Colômbia, Peru e Brasil e seu centro seria o México. Mas a formação dessa multinacional das drogas só foi possível graças às intervenções do governo estadunidense, com sua cara e criminosa “Guerra às Drogas”.

Não à toa, a organização ligada ao tráfico mais violenta e poderosa do México é formada por desertores do exército daquele país, treinados por americanos, israelenses e franceses. Trata-se de “Los Zetas”, que podem estar, por exemplo, por trás do massacre de 43 estudantes mexicanos, em setembro passado.

Luiz Eduardo Soares fez um comentário sobre o livro na mesma edição. Ele lembra que quando explodiu a crise de 2008, só um setor da economia mundial contava com dinheiro de sobra. Era o tráfico de cocaína, que injetou US$ 352 bilhões nas instituições. “Cerca de um terço da liquidez mundial era dinheiro sujo de sangue”, diz Soares.

Tudo isso mostra que a repressão ao tráfico acaba sendo a maior fonte de criminalidade. A legalização das drogas diminuiria muito esse problema e seria um golpe no narcocapitalismo, que patrocina a violência contra pobres, de um lado, e vende armas aos governos que as utilizam contra esses mesmos pobres, de outro.

Leia também: Você é contra a legalização dos cachorros?

25 de setembro de 2014

Você é contra a legalização dos cachorros?


Está disponível na internete o vídeo de uma palestra feita pelo professor Sidarta Ribeiro na Conferência Neurociências e Psicanálise, em 2011. 

Nela o neurobiólogo e diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte defende a legalização da maconha.


Ribeiro começa por afirmar que a maconha está para as plantas como o cachorro para os animais. Ambas são espécies moldadas por nossos ancestrais ao longo de milhares de anos, com muitas variações e diferentes utilidades.

Sidarta destaca os efeitos medicinais dos canabinoides. Eles são inegáveis e admitidos por muitos proibicionistas. Mas não adianta aceitar a utilização terapêutica das substâncias da maconha e não o uso da planta. Seria como confiar na cesariana e duvidar do parto natural, diz ele.


Mortes causadas por consumo de maconha praticamente inexistem. Já a ingestão de álcool e o uso de tabaco e de remédios à venda nas farmácias se mostram muito mais letais. Pessoas morrem não por causa da maconha em si, mas por seu comércio ilegal.


Claro que a erva pode causar problemas graves de saúde para quem é vulnerável a algumas de suas substâncias. Mas o mesmo acontece em relação à lactose, por exemplo. Nem por isso, o consumo de leite foi proibido, compara Ribeiro.


Ao contrário de manter na clandestinidade um consumo que não vai parar, é preciso legalizá-lo. Tal como já acontece com o álcool e o tabaco, substâncias perigosas, mas regulamentadas por órgãos da Saúde Pública. As outras drogas também devem sair da ilegalidade para que possam ter seu comércio fiscalizado.


“Ou você é contra a legalização de cachorros?”, pergunta Sidarta.


Assista ao vídeo, clicando aqui



20 de agosto de 2014

Turbinando o PIB com prostituição, tráfico, repressão e guerra

Uma notícia preocupante surgiu no cenário econômico. O PIB da Alemanha teve uma queda de 0,2% entre abril e junho. É a crise econômica atingindo o motor da economia da União Europeia.

Uma informação relacionada a estes números também chama a atenção. Dizem os jornais que a retração econômica seria maior se a Alemanha não tivesse incluído no cálculo do PIB negócios ilegais, como contrabando e tráfico de drogas.
                                            
A orientação também vem sendo seguida por outros países. É o caso do Reino Unido, que, em maio passado, anunciou que o tráfico de drogas e a prostituição movimentam cerca de 16 bilhões de dólares anuais.

A Itália disse que vai fazer o mesmo em relação ao cálculo de seu PIB. Ingleses e italianos não estão sozinhos na Europa. Adotam critérios semelhantes Estônia, Áustria, Eslovênia, Finlândia, Suécia e Noruega.

Uma das razões para a adoção dessa medida seria a uniformização contábil das economias na região. Afinal, na Holanda boa parte dessas atividades é legalizada.

O estado de Nevada, nos Estados Unidos, está bem distante da Europa. No entanto, também contabiliza atividades de prostituição em seu PIB.

Tudo isso mostra o quanto são hipócritas os governos que são adeptos da “guerra às drogas” e defensores da moral e dos bons costumes. Muitas daquelas atividades já deveriam estar legalizadas. Ainda que nem todas, como a exploração da prostituição.

O problema é que outro ramo muito lucrativo seria afetado. Trata-se da indústria da segurança e seus enormes lucros e gastos públicos com armamentos e aparatos repressivos. Sem falar no pretexto para controlar e vigiar nossas vidas.

Leia também: A droga corre nas veias do sistema bancário

5 de junho de 2013

A droga corre nas veias do sistema bancário

No início de abril, o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos revelou detalhes sobre mais de 120 mil empresas anônimas com sedes em paraísos fiscais. Por trás delas, gente como um ex-primeiro-ministro da Geórgia, o tesoureiro da campanha eleitoral do presidente da França e a filha de um ex-ditador das Filipinas.

Em 03/06, o Valor publicou um artigo sobre o levantamento. Em “Segredos e mentiras financeiras” Gavin Hayman destacou um detalhe que recebeu pouca atenção: lavagem de dinheiro e operações financeiras ilegais não ocorrem apenas em paraísos fiscais. Ao contrário, Estados Unidos, Reino Unido e outros centros financeiros importantes estão no centro dessas ilegalidades.

Na verdade, a maioria das empresas citadas pelo Consórcio estava registrada nos Estados Unidos. Para citar apenas um caso, em 2012, foi revelado que o HSBC permitiu que os cartéis de drogas mexicanos lavassem centenas de milhões de dólares por meio do sistema financeiro estadunidense.

Em 29/05, Gil Alessi publicou a reportagem “Contra o tráfico, investigar bancos é mais importante do que aumentar penas, dizem especialistas”. A matéria tratava das propostas de endurecimento das leis contra o tráfico de drogas que estão no Congresso Nacional.

Especialistas duvidam da eficácia de medidas desse tipo. Afinal, dados da ONU falam em mais de 400 bilhões de dólares anuais movimentados pelo narcotráfico. Todo esse dinheiro só pode circular por um caminho: o sistema financeiro.

Em abril, David Nutt, ex-assessor especial contra drogas do governo britânico, afirmou que a crise financeira foi causada por banqueiros que usavam muita cocaína. Ele quase acertou. O que realmente enlouquece o planeta é o capital que a ilegalidade das drogas gera. 

30 de abril de 2013

Delegado de polícia defende legalização das drogas

É isso mesmo. Ele se chama Orlando Zaccone, trabalha na Polícia Civil do Rio de Janeiro e seu depoimento foi publicado pela página virtual da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio.
Zaccone explica sua posição:

No Brasil, de acordo com dados da Anistia Internacional, em 2011, só nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, se matou mais do que em todos os países que têm pena de morte autorizada. Todas essas mortes provocadas por ações policiais pelo sistema penal têm como marca de legitimidade a condição do morto como traficante. Então, esta guerra produz letalidade, encarceramento em massa de pessoas que são as mais vulneráveis do extrato social. É uma guerra injusta e há muito tempo incentivada, apoiada e produzida pelo Estado brasileiro.

Com razão, ele diz que pobre preso com droga é traficante. Rico, é usuário. Mas diz que a atual política carioca de pacificação também não é solução:

Pacificação vem desde Duque de Caxias, que foi o grande pacificador, passa pelo Marechal Rondon com os índios, depois, Canudos, com a pacificação dos seguidores de Antônio Conselheiro, e no Araguaia até chegarmos ao modelo de hoje das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) no Rio de Janeiro. Temos que ter uma visão mais crítica de como vai se estabelecendo o paradigma bélico de uma pacificação como forma de construção do Estado brasileiro. E a guerra às drogas está nesse contexto.

Zaccone acredita na democratização das polícias. Mas não será isso que acabará com a vocação sanguinária delas. Só o seu desmantelamento pode começar a mudar realmente as coisas.

Leia a entrevista, clicando aqui.

Leia também: O pior efeito do crack

3 de abril de 2013

O pior efeito do crack

O pesquisador André Antunes publicou o artigo “Crack, desinformação e sensacionalismo”, na revista Poli, da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio. O texto mostra que há muito espetáculo interessado e pouca preocupação social envolvendo a questão.

Entre outros estudos, ele cita o “II Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil”, feito em 2005 pelo Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas da Universidade Federal de São Paulo.

Os dados mostram que 0,7% dentre 8 mil entrevistados já havia feito uso de crack na vida. Mas o consumo de álcool obteve 74,6% das respostas e o de tabaco, 44%. E entre as drogas ilegais, a maconha aparece com 8,8%, e a cocaína, com 2,9%.

É verdade que consumidores de crack morrem mais. Mas segundo o estudo “Causa mortis em usuários de crack”, do Departamento de Psiquiatria da Unifesp, de 2006, os óbitos estavam muito mais relacionados “à violência e à vulnerabilidade às doenças infectocontagiosas do que propriamente ao consumo da substância”.

Segundo Sergio Alarcon, psiquiatra e doutor em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, o crack incomoda porque “desnuda a miséria humana para muitos daqueles que certamente prefeririam mantê-la na invisibilidade”.

Devolver essa miséria às sombras é um dos objetivos da atual campanha de captura brutal dos usuários de crack. Outro é “limpar” os centros urbanos decaídos para viabilizar grandes empreendimentos imobiliários. Tudo com o apoio venenoso da grande imprensa.

O crack é uma praga, mas o pior de seus efeitos são as soluções adotadas pelas autoridades.

12 de agosto de 2011

Portugal legalizou drogas e acertou

No Rio e em São Paulo, vítimas do crack vêm sendo tiradas das ruas à força. As autoridades dizem que se trata de medida de saúde pública. Acredita, quem quiser. Não se trata apenas da comprovada inutilidade da internação forçada. As políticas públicas relacionadas às drogas costumam resumir-se a jogar os dependentes em depósitos sujos.

Enquanto isso, Portugal dá exemplo. Desde 2001, o país aboliu oficialmente todas as penas criminais para posse de drogas. É o primeiro país europeu a fazê-lo. Os resultados estão num relatório publicado pela revista Time, em abril:
...entre 2001 e 2006, as taxas de uso durante a vida de qualquer droga ilegal entre os alunos do sétimo ao nono ano caiu de 14,1% para 10,6%. O uso caiu também entre os adolescentes mais velhos. O consumo de heroína entre 16 a 18 anos de idade caiu de 2,5% para 1,8%. Infecções pelo HIV em usuários de drogas diminuíram 17% e as mortes relacionadas com a heroína e drogas similares caíram pela metade. Além disso, o número de pessoas em tratamento para dependência de drogas subiu de 6.040 para 14.877. Após a descriminalização, o dinheiro economizado com as punições aos usuários permitiu aumentar o financiamento para tratamentos.
Estes números mostram algo totalmente oposto ao que resultou da Guerra às Drogas promovida pelo governo americano. Abordagem adotada por vários países, incluindo o Brasil. Entre suas conseqüências, está a entrega de regiões inteiras do México ao controle violento dos traficantes. Ao mesmo tempo, aumentam a produção e o consumo ilegais de drogas.

Natural. A especialidade do governo americano é iniciar guerras para que sua indústria lucre com os trágicos resultados. Neste caso, o grande negócio são as próprias drogas. Cerca de 300 bilhões de dólares anuais são movimentados pelo comércio ilegal. Dinheiro injetado nas veias do sistema financeiro depois de devidamente lavado.

Fonte: http://www.time.com/time/health/article/0,8599,1893946,00.html

Leia também Drogas: das bocas aos bancos

29 de julho de 2011

Amy e o sentimento oceânico

A morte de Amy Winehouse colocou o consumo de drogas nas manchetes. Prevalece o tom moralista e alarmista, claro.

Mas, a sessão “Logo” do Globo, de 28/07, trouxe análises interessantes. O tema era a relação entre o uso de drogas e a criação artística. Um artigo de Marta Mestre lembrou a idéia freudiana de “sentimento oceânico”. Conceito que aparece no livro “O mal-estar na civilização”, de Freud.

Trata-se de um sentimento relacionado à experiência uterina. Nesta fase, o bebê ainda não conseguiria perceber a diferença entre ele e o mundo. Na barriga da mãe, as necessidades de nutrição, por exemplo, eram automaticamente atendidas. Fora dela, passa a valer o popular “quem não chora, não mama”.

Antes dessa descoberta traumática, tudo parecia ser uma coisa só. Daí, o tal “sentimento oceânico”. Mas, Freud acha que essa sensação pode ser recuperada. Principalmente, através de experiências eróticas, estéticas, religiosas e aquelas provocadas pelo uso de drogas.

O próprio Freud foi consumidor de cocaína. Chegou a recomendar a substância a seus pacientes. Mudou de idéia diante dos riscos de dependência.

Essa hipótese explicaria a impossibilidade de vivermos sem fazer uso de substâncias que alterem nosso estado mental. Da cachaça e o café ao crack e a cocaína.

É verdade que esse anseio vem sendo aproveitado pelo sistema de dominação. São as religiões opressoras, o narcocapitalismo, a pornografia, a indústria cultural.

Por outro lado, sua busca leva a coisas belas. Talvez, ela nunca acabe e explique a dor e a delícia de sermos o que somos.

Nossas lutas também devem buscar sentimentos oceânicos. Revolução de cara limpa, não rola.

Leia também: Amy, diversão e morte

6 de julho de 2010

Drogas: das bocas aos bancos

O tabaco e o álcool são as drogas que mais matam. As drogas ilegais matam mais rápido, é verdade. Mas suas maiores vítimas são os que as comercializam. A maioria dos usuários de drogas ilegais é de classe média. Pode lançar mão de clínicas de reabilitação, ser for necessário. Já os traficantes, sabemos quem são, onde ficam e como morrem.

Em seu livro sobre Cidade de Deus, Paulo Lins diz que os moradores ficaram mais tranqüilos quando as drogas começaram a ser comercializadas no bairro. É que os criminosos pararam de assaltar e roubar seus vizinhos. Passaram a vender drogas para os playboys. Se eles queriam se envenenar, azar o deles.

Só não contavam com a ação da polícia e os efeitos de mercado. Os “homens da lei” passaram a cobrar para fechar os olhos ao comércio ilegal. A ilegalidade fez subir o preço das drogas e detonou uma guerra pelos pontos de venda. O resto, já se sabe. No tiroteio, as maiores vítimas estão entre os 98% de moradores que não usam e não comercializam drogas.

Isso é tudo o que os aparelhos de repressão querem. Um álibi para matar pobres sem chocar a “sociedade respeitável”.

Já os 300 bilhões de dólares anuais movimentados pelo comércio ilegal não ficam nos colchões dos traficantes. Circulam pelo sistema financeiro depois de devidamente lavados. E as transações eletrônicas encurtam e disfarçam o caminho entre as “bocas de fumo” e os bancos. É para isso que serve a ilegalidade das drogas.

Leia recente reportagem sobre o assunto:
Bancos, lavagem de dinheiro e narcotráfico