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7 de novembro de 2024

A esperança escondida em uma bomba aérea

Em uma cidade do País Basco, durante a guerra civil iniciada pelo ditador Francisco Franco, uma bomba atingiu a praça central, mas nunca explodiu. Os moradores não ousaram movê-la, muito menos desarmá-la. Lá permaneceu por anos durante a ditadura Franco como um símbolo de morte, do poder do regime e do castigo para quem se rebelou.

Um dia, um dos habitantes decidiu remover o dispositivo sozinho. Mas logo muitos se juntaram a ele. A ideia era desarmar a bomba e levá-la para longe. Mas no lugar do detonador, encontraram um papel contendo algumas palavras escritas em alemão. Felizmente, havia uma pessoa que conseguiu traduzi-las: “Saudações de um operário alemão que não mata inocentes”, dizia o bilhete.

A partir daquele momento, decidiram manter a bomba na praça como símbolo da resistência, do fim do medo e do poder de um povo com consciência de classe. Tudo isso porque um trabalhador alemão arriscou a pele, em meio à ditadura nazista, e deixou claro que nem o medo nem o regime seriam capazes de torná-lo mais um monstro.

Se você vive sob regime fascista ou sob qualquer regime de morte e tem o estranho “privilégio” de ser empregado, recebendo um salário, dentro dele, você o sabota. Não precisa estudar ciências políticas para saber disso. Você precisa somente de sensibilidade e empatia, e de saber as consequências humanas das políticas que estão sendo aplicadas diante do seu nariz.

O relato acima é o resumo de um capítulo do livro “Pelo buraco da fechadura”, recém-publicado por Mário Prata. Mostra como é possível arrancar esperança dos momentos mais trágicos.

Leia também: A aposta da melancolia na emancipação coletiva

4 de novembro de 2024

A única maneira de um nazista ser bom

“O crime do bom nazista”, de Samir Machado de Machado é um dos semifinalistas do Prêmio Jabuti na categoria romance de entretenimento. Trata-se de uma trama policial em que se destaca a homoafetividade dos personagens principais.

Mas para além do fascinante desafio de desvendar a autoria de um crime, o leitor ou leitora ficam sabendo da terrível perseguição a que eram submetidos os homossexuais sob o regime nazista. Por exemplo, no seguinte trecho:

E Rudolf então lhe contou da carga de trabalhos exaustivos a que os prisioneiros homossexuais como eles eram submetidos, muito maior do que a de qualquer outro prisioneiro, pois era crença corrente que o trabalho duro os curaria. Contou dos estupros que ele e outros homossexuais estavam sofrendo, das surras, de ter os testículos mergulhados em água fervente, as unhas arrancadas, contou das coisas que lhes introduziam no ânus para divertimento dos guardas, algumas tão compridas que perfuravam seus intestinos e os faziam sangrar até a morte, contou daqueles que foram simplesmente espancados até morrer, enfim, de como eram tratados como a mais baixa das criaturas. Pois, aos olhos nazis, que cultuavam sobretudo a própria masculinidade, eles eram mais baixos até mesmo do que ciganos ou judeus.

Também somos informados de que o primeiro movimento homossexual de que se tem notícia surgiu na Alemanha no final do século 19, com a fundação do Comitê Científico-Humanitário, pioneiro mundial na organização dos homossexuais, resistindo até a ascensão nazista, em 1933.

Por fim, o livro nos obriga a concordar quando um de seus personagens afirma que o único bom nazista possível é o que está morto.

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15 de janeiro de 2024

Capitalismo control C, control V

No livro “Pós-Capitalismo: um guia para o nosso futuro”, Paul Mason defende a hipótese de que formas básicas de uma economia pós-capitalista já podem ser encontradas no interior do sistema vigente.

Essa situação seria causada principalmente pelas modernas tecnologias da informação, cujo funcionamento corrói os mecanismos de mercado, mina os direitos de propriedade e destrói a velha relação entre salários, trabalho e lucro, diz o autor.

O raciocínio é o seguinte. Uma vez que você pode copiar e colar algo, sua reprodução torna-se gratuita. O sistema reage a isso tornando legalmente impossível copiar certos tipos de informação. Mas o fato é que qualquer que seja o expediente utilizado para protegê-las, essas informações permanecem copiáveis e compartilháveis a um custo insignificante.

A teoria dos economistas do sistema é incapaz de compreender um mundo de bens a preço próximo do zero, espaço econômico compartilhado, organizações não mercantis e produtos não proprietários, afirma Mason.

Desse modo, as condições objetivas para uma economia comunista estariam cada vez mais maduras no interior do sistema. Até aí, trata-se de um constatação compatível com o marxismo, que sempre parte das condições concretas para criar possibilidades revolucionárias. Mas entender que essa economia já está em funcionamento e prospera sob as leis econômicas implacáveis do capitalismo é uma ideia incompatível com o que pensa a maioria dos teóricos do marxismo, incluindo o próprio Marx.

De qualquer maneira, o livro vale a leitura pelo que revela sobre as agudas contradições em que a economia capitalista vem se metendo.

Uma resenha mais detalhada foi publicada na edição 15 da Revista Mouro, que pode ser adquirida aqui.

Leia também: A sociedade do espetáculo é capitalismo atualizado

22 de agosto de 2023

Livros: todo respeito é pouco

Chegou a hora de encerrar os comentários sobre o belo livro “O infinito num junco”, de Irene Vallejo. Nas linhas abaixo a autora revela um otimismo meio raro nos dias atuais, em que a tecnologia atropela quase tudo impiedosamente.

Quando comparamos algo velho e algo novo – como um livro e um tablet, ou uma freira sentada ao pé de uma adolescente que está a falar num chat no metrô –, acreditamos que o novo tem mais futuro. Na verdade, acontece o contrário. Quantos mais anos leva um objeto ou um hábito entre nós, mais futuro tem. O mais novo, em média, perece antes. É mais provável que no século 22 existam freiras e livros do que WhatsApp e tablets. No futuro haverá cadeiras e mesas, mas telas de plasma ou celulares talvez não. Continuaremos a celebrar com festas o solstício de inverno quando já tivermos deixado de torrar com os raios ultravioletas. (...) Muitas tendências que nos parecem inquestionáveis – desde o consumismo desenfreado até às redes sociais – abrandarão. E velhas tradições que nos acompanham há muitos anos – desde a música até à procura da espiritualidade
– nunca partirão


(...)

Não subsistem tantos artefatos milenares entre nós. São sobreviventes difíceis de desalojar (a roda, a cadeira, a colher, a tesoura, o copo, o martelo, o livro…). Há algo no seu design básico e na sua depurada simplicidade que já não admite melhorias radicais.

(...)

Por isso, perante a catarata de previsões apocalípticas sobre o futuro do livro, eu digo: um pouco de respeito.

Só uma observação. Um pouco, não. Muito. Porque respeito aos livros nunca é demais.

Leia também: Bibliotecárias a cavalo nos rincões estadunidenses

18 de agosto de 2023

José Paulo Paes e as cascas que o diabo espalhou

Mais poemas de José Paulo Paes, retirados do livro “Socráticas”, escrito às vésperas de seu falecimento. A obra inspira-se nos ensinamentos do filósofo Sócrates sobre a morte com dignidade. A ingestão voluntária de cicuta evitando a sentença que pretendia dar-lhe um fim humilhante.

Os crimes atribuídos ao filósofo foram ateísmo e corrupção dos jovens com seus ensinamentos. O poema “Promissória ao bom Deus” faz sutis provocações às relações com as divindades. Alguns trechos:

NÃO TE AMAREI sobre todas as coisas, mas em cada uma delas,
por mínima que seja. É o que compete aos poetas fazer.

NÃO TOMAREI teu nome em vão, mesmo porque nome é coisa séria. Inclusive os feios, que, ditos por dá cá aquela palha, perdem muito da sua eficácia.

GUARDAREI os domingos e quantos dias de festa houver, que ninguém é de ferro, como descobriste no sexto dia da Criação.

(...)

NÃO LEVANTAREI falso testemunho de ninguém, muito menos de ti, que hás por certo de preferir um agnóstico fora do teu templo a um vendilhão dentro dele.

NÃO COBIÇAREI coisas alheias. Deixo-as todas para os filisteus do meu país, fascinados pelas quinquilharias do que, enchendo a boca, eles chamam de primeiro mundo.

NÃO DESEJAREI a mulher do próximo nem a do remoto. Como sabes, jamais tive paciência de esperar na fila.

(...)

EM SUMA , Senhor, vou fazer o humanamente possível para seguir teus
mandamentos. Mas desculpa, agora e na hora de nossa morte, qualquer
eventual escorregão nas cascas que o Diabo espalhou a mancheias pelo
nosso caminho depois de ter comido todas as frutas do teu, para sempre
perdido, Paraíso.


Leia também:  Aprendendo a morrer com José Paulo Paes

16 de agosto de 2023

Bibliotecárias a cavalo pelos rincões estadunidenses

Um pequeno exército de cavalos e mulas aventurava-se todos os dias pelas encostas e desfiladeiros dos montes Apalaches, com os alforjes carregados de livros. A maioria das montarias carregavam mulheres. Eram bibliotecárias a cavalo. Amazonas das letras. Circulavam por lugares como o interior do Kentucky, com seus vales isolados, habitados por famílias pobres.

Elas participavam de um projeto federal que era parte do New Deal, programa criado pelo governo Roosevelt, em 1933. O objetivo era combater o desemprego e outras mazelas econômicas causadas pela quebra das bolsas de 1929. Mas entre as prioridades do programa estava a diminuição do analfabetismo através de amplas doses de cultura financiada pelo Estado.

Era um serviço público que buscava favorecer a leitura nas regiões mais remotas do país. Obras clássicas puseram leitores novatos em contato com um tipo de magia que sempre lhes tinha sido negado. Os estudantes liam-nos aos seus pais analfabetos. Um jovem disse a uma das bibliotecárias: “Os livros que nos trouxeste salvaram nossa vida”. O programa empregou quase mil bibliotecárias durante uma década. O financiamento terminou em 1943, quando o programa foi encerrado e a Guerra Mundial substituiu a cultura como antídoto face ao desemprego.

As informações acima são do livro “O infinito num junco”, de Irene Vallejo. Com certeza, um relato bonito. Mas que também mostra o tamanho do impacto da crise econômica dos anos 1930 nos Estados Unidos e a ameaçadora sombra da Revolução Russa, que, quase duas décadas depois de sua eclosão, ainda apavorava as burguesias no mundo todo.

Livros salvam vidas, sem dúvida. Mas, neste caso, ajudaram a salvar o capitalismo também.

Leia também: Os fios de Penélope, Ariadne, Xerazade, Irene...

10 de agosto de 2023

Aprendendo a morrer com José Paulo Paes

Paulista de Taquaritinga, José Paulo Paes foi um dos mais importantes poetas brasileiros da segunda metade do século passado. Também foi tradutor e crítico literário. Morreu aos 72 anos, em 1998.

“Socráticas” é uma obra póstuma do poeta. Foi editada por Alfredo Bosi, para quem o livro soa “como um recado joco-sério” sobre aprender a morrer com a mesma dignidade do grande filósofo grego.

Esta e outras pílulas trarão alguns dos curtos, céticos e "jocosos" poemas que estão presentes na obra:



Teologia


A minhoca cavoca que cavoca.
Ouvira falar da grande luz, o Sol.
Mas quando põe a cabeça de fora,
a Mão a segura e a enfia no anzol



Auto-epitáfio n
o 2

para quem pediu sempre tão pouco
o nada é positivamente um exagero



Fenomenologia da humildade

Se queres te sentir gigante, fica perto de um anão.
Se queres te sentir anão, fica perto de um gigante.
Se queres te sentir alguém, fica perto de ninguém.
Se queres te sentir ninguém, fica perto de ti mesmo



Dúvida

Não há nada mais triste
do que um cão em guarda
ao cadáver do seu dono.

Eu não tenho cão.
Será que ainda estou vivo?


Este último poema foi encontrado no computador de Paes com data de gravação de 08/10/98. Véspera da morte do poeta.

Leia também: Um pouco do bom humor poético de José Paulo Paes (1926-1998)

8 de agosto de 2023

Os fios de Penélope, Ariadne, Xerazade, Irene...

Por mais de 20 anos, Penélope esperou Ulisses voltar de Troia. Nunca duvidou de que seu marido retornaria. Quando seu pai pediu que se casasse novamente, ela concordou, mas somente após acabar de tecer uma manta. Ela passava os dias trabalhando no tear e, à noite, desmanchava o que havia feito.

Segundo Irene Vallejo, em seu livro “O infinito num junco”, a artimanha de Penélope não é só uma metáfora da fidelidade amorosa. Segundo ela, “a mente é um grande tear de palavras” e “desde tempos remotos, as mulheres foram as primeiras a expressar o Universo como malha e como redes. Seguravam com nós as suas alegrias, ilusões, angústias, terrores e crenças mais íntimas. Tingiam a monotonia de cores. Entrelaçavam verbos, lã, adjetivos e seda. É por isso que os textos e os tecidos partilham tantas palavras: a trama do relato, o nó do argumento, o fio de uma história, o desenlace da narração; puxar o fio da meada, alinhavar uma história, urdir uma intriga. É por isso que os velhos mitos nos falam da mortalha de Penélope, das túnicas de Nausíca, dos bordados de Aracne, do fio de Ariadne, da linha da vida que as moiras fiavam, da tela dos destinos que as nornas cosiam, do tapete mágico de Xerazade”.

“Escrevo porque não sei coser, nem fazer malha; nunca aprendi a bordar, mas fascina-me a delicada urdidura das palavras. Conto as minhas fantasias enoveladas com sonhos e recordações. Sinto-me herdeira dessas mulheres que, desde sempre, fizeram e desfizeram histórias. Escrevo para que não se quebre o velho fio de voz”, arremata nossa talentosa tecelã.

Leia também: A escrita, os livros e outros apêndices humanos

4 de agosto de 2023

A escrita, os livros e outros apêndices humanos

Na obra “Fedro”, Platão cita Sócrates:

A palavra escrita parece falar contigo como se fosse inteligente, mas se lhe perguntas alguma coisa, porque desejas saber mais, continua a repetir-te o mesmo sem parar. Os livros não são capazes de se defender.

Para ele, já não se tratava de sabedoria própria, mas de um apêndice alheio. Um estímulo a um relaxamento da memória. A grande ironia é que Platão expôs essa aversão à escrita por escrito, conservando, assim, as críticas de seu mestre para nós, seus futuros leitores.

Os cientistas chamam de “efeito Google” à incitação à amnésia que Sócrates temia. Mas o alfabeto foi uma tecnologia ainda mais revolucionária do que a internete. Construiu pela primeira vez essa memória comum, expandida e ao alcance de toda a gente.

Tempos depois, Jorge Luis Borges diria que o livro é o mais “surpreendente dos instrumentos humanos”, uma vez que os restantes “são apenas extensões do seu corpo”. O microscópio e o telescópio, extensões da visão; o telefone, da voz; o arado e a espada, do braço. “Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação”, conclui ele.

As informações acima estão no livro “O infinito num junco” de Irene Vallejo.  A autora não abordou a inteligência artificial, mas o que diriam Sócrates e Platão sobre ela? Seria outro artefato condenado a repetir “o mesmo sem parar” e ser um “apêndice alheio”?

Difícil saber. O que podemos dizer é que se trata de mais um produto da invenção humana, cheio de contradições e potenciais. Para o bem e para mal.

Leia também: Palavras ouvidas apenas pelos anjos

28 de julho de 2023

Palavras ouvidas apenas pelos anjos

Em um dos capítulos do belo livro “O Infinito num Junco”, de Irene Vallejo, a autora cita o filme “Asas do Desejo”, de Wim Wenders, que tem como personagens principais anjos que possuem o dom de ouvir os pensamentos das pessoas. Em certo momento, eles entram em uma biblioteca e começam a ouvir as frases lidas pelos frequentadores dentro de suas cabeças.

Irene utiliza a cena para lembrar que, desde os primeiros séculos da escrita até a Idade Média, a norma sempre foi ler em voz alta, para nós mesmos ou para outros.

Um texto escrito era como uma partitura muito básica. Por isso, as palavras apareciam, uma atrás de outra, numa cadeia contínua sem separações nem sinais de pontuação, diz a autora. Era preciso pronunciá-las para entendê-las. Eram frequentes as leituras em público e os relatos que agradavam andavam de boca em boca. Desse modo, diz Irene:

...os leitores antigos não tinham a liberdade da qual você desfruta para ler à sua vontade as ideias ou as fantasias escritas nos textos, para parar, para pensar ou para sonhar acordado quando lhe apetece, para escolher e ocultar o que escolhe, para interromper ou abandonar, para criar os seus próprios universos. Esta liberdade individual, a sua, é uma conquista do pensamento independente face ao pensamento tutelado, e foi conseguida passo a passo ao longo do tempo.

Você é um tipo de leitor muito especial e descende de uma genealogia de inovadores, afirma a autora. Este diálogo silencioso, livre e secreto, é uma invenção surpreendente, conclui ela, em grande estilo.

Leia também: Quando escrita e memória resgatam-se uma à outra

4 de julho de 2023

Quando escrita e memória resgatam-se uma à outra

“Fahrenheit 451” é um famoso livro de Ray Bradbury sobre um mundo distópico, em que todos os livros são queimados. Para salvá-los, heroicos voluntários passam a decorar o conteúdo integral de exemplares que escaparam da fogueira.

Em seu livro “O Infinito num Junco”, Irene Vallejo afirma que algo parecido aconteceu na China. Foi no século 3, quando o imperador Qin Shi Huang ordenou que fossem queimados todos os livros. Ele queria que a história começasse com seu reinado e pretendia abolir tudo o que veio antes dele.

Felizmente, décadas depois, já sob uma nova dinastia, foi possível reescrever muitos daquelas obras perdidas. Correndo riscos inacreditáveis, escribas tinham conservado na memória livros inteiros, em segredo, ao abrigo da guerra, das perseguições e das fogueiras.

No século 20, durante o período stalinista, afirma nossa autora, amigos de Anna Akhmátova memorizaram poemas do seu livro “Réquiem”, à medida que era escrito, para preservá-lo caso algo acontecesse a sua autora.

A escrita e a memória não são adversárias, diz Irene. Na verdade, ao longo da história, salvaram-se uma à outra: as letras resguardam o passado; a memória, os livros perseguidos.

Por outro lado, explica ela, a escrita permitiu criar uma linguagem complexa que os leitores podem assimilar e sobre a qual meditam com mais tranquilidade. Além disso, desenvolver um espírito crítico é mais simples para quem tem um livro na mão, podendo interromper a leitura, reler e parar para pensar.

Com essas belas reflexões de Irene Vallejo, as pílulas entram em breves férias, esperando que continuemos na resistência contra a amnésia e as fogueiras.

Lei também: O labirinto da internete e seus minotauros

30 de junho de 2023

O labirinto da internete e seus minotauros

“O Infinito num Junco” é um ótimo livro de Irene Vallejo. Conta a história dos livros e os primeiros deles de que se tem registro eram feitos de papiro, um junco vegetal que nascia nas margens do Nilo, no Egito Antigo.

Em certo momento, Irene cita um conto de Jorge Luis Borges chamado “A Biblioteca de Babel”. Nele, diz a autora, existe uma biblioteca que conta com um catálogo verdadeiro, mas muitos milhares de catálogos falsos. Seus frequentadores dominam apenas um par de línguas e seu tempo de vida é breve. Portanto, as probabilidades de que alguém localize na imensidão do acervo o livro que procura, ou simplesmente um livro compreensível para si, são muito pequenas.

Desse modo, afirma ela, ninguém consegue ler realmente. Entre a esgotante abundância de páginas ao acaso, extingue-se o prazer da leitura. Todas as energias se consomem na procura e na decifração.

Aos leitores de hoje, afirma nossa autora, a biblioteca de Babel fascina como uma alegoria profética do mundo virtual, do excesso da internete. Dessa gigante rede de informações e textos, filtrada pelos algoritmos dos motores de pesquisa, onde nos perdemos como fantasmas num labirinto.

Timothy John Berners-Lee, cientista que idealizou a Web, inspirou-se no espaço ordenado e ágil das bibliotecas públicas, lembra Irene. Cada documento virtual tem um endereço único que pode ser alcançado de outro computador. A internete é uma emanação das bibliotecas, diz ela.

Berners-Lee viria a lamentar que sua inovação tivesse se transformado nesse emaranhado de caminhos sem saída. Mas é pior que isso. Tais labirintos passaram a abrigar criaturas mais terríveis que o mitológico Minotauro.

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Das próteses mentais às viseiras cerebrais
O risco de nos tornarmos peixes vermelhos

27 de junho de 2020

Modernos métodos gerenciais têm raízes nazistas

“Livres para obedecer” é o mais recente livro do historiador francês Johann Chapoutot. Ainda sem tradução para o português, a obra mostra como o moderno gerencialismo empresarial foi fortemente influenciado por alguns teóricos leais a Hitler.

Segundo Chapoutot, o nazismo parece ter sido o mais opressivo regime que já existiu. E realmente o foi para as centenas de milhares de pessoas que foram suas vítimas por razões "políticas" ou "raciais". Mas esse mesmo sistema de dominação encorajou e financiou a criação de um novo modo de organização administrativa não autoritária.

Nesse modelo, a autonomia do trabalhador era prioridade: ele devia ser livre para escolher os meios, ainda que jamais para definir os objetivos. Entre estes estava, claro, a eliminação eficiente e rápida dos que eram considerados inimigos do regime, como judeus, comunistas, homossexuais, etc.

Reinhard Höhn foi um jurista respeitado e general da SS. Mas seu passado nazista foi ignorado quando ele fundou a escola Bad Harzburg, em 1956, na Alemanha Ocidental. Nela, ele continuou a utilizar o mesmo modelo administrativo que criou para o 3º Reich. Só que, agora, voltado para as empresas privadas.

Mais de 700 mil gerentes foram treinados por Höhn e sua equipe entre a criação da escola e o ano de sua morte, em 2000. Seu método de gestão era hierárquico sem ser autoritário. Oferecia aos "colaboradores" a possibilidade de gozar de plena liberdade para ser bem sucedido. Mas somente para realizar o que foi decidido de cima para baixo.

É por isso que muita gente afirma que o nazismo perdeu a guerra apenas militarmente, não ideologicamente. Voltaremos a esse livro.

Leia também: Na sala de estar, cadáveres dos campos de concentração

28 de abril de 2020

Eleições em Qualityland: resultado previsível

Qualityland, o país inventado pelo escritor alemão Marc-Uwe Kling e que também dá título a seu livro, está em campanha eleitoral presidencial.

O candidato da situação é John da Gente. Uma peça publicitária mostra um empresário dizendo: “Não vou votar em John da Gente, apesar de ele ser um androide, mas exatamente porque ele é um androide! Máquinas não cometem erros”.

Em outro anúncio, uma professora pergunta a um garoto: "2 × 3 =?" "Quatro", responde ele. A professora balança a cabeça, dizendo: "Bem, isso não teria acontecido com John da Gente". E voltando-se para a câmera: “A economia mundial é complexa demais para que nós, humanos, possamos entendê-la. Precisamos de João da Gente! Afinal, máquinas não cometem erros!”

Conrad Cook é o candidato da oposição. Acusado de ser racista, ele nega veementemente: “Não há ninguém no mundo menos racista que eu. Ninguém. Mas não podemos negar que esses tipos latinos são todos preguiçosos, negros são todos criminosos e árabes são todos terroristas. Trata-se de fatos simples e evidentes. E, no entanto, devo enfatizar novamente: nunca na história da humanidade houve um homem menos racista do que eu!”

Num grande debate televisivo os dois candidatos se confrontam. Em determinado momento Cook diz a John: “Você pode ter os melhores argumentos, mas são apenas argumentos!  Posso ter argumentos piores, mas eu estou certo!”

John não sabe o que responder. Seus sensores eletrônicos não conseguem entender o que está acontecendo. A plateia explode em risos e aplausos.

Desde então, as intenções de voto de Cook não param de subir. Aqui, distante de Qualityland, sabemos quem seria eleito presidente.

Leia também:  Qualityland, a distopia aqui e agora

27 de abril de 2020

Qualityland, a distopia aqui e agora

De volta a Qualityland, país ficcional criado pelo escritor alemão Marc-Uwe Kling, descrito no livro homônimo.

Na terra da qualidade, tudo é superlativo. Lá nada é apenas maravilhoso. É mais maravilhoso!

E nesse lugar hiper-extraordinário, as teias virtuais e seus aplicativos dominam tudo. A maior rede social do mundo está lá, claro. É a Everybody.

Todos estão nela. Literalmente. Afinal, a Everybody se encarrega de criar automaticamente perfis para aqueles que ainda não conseguiram criar um para si. Ele também se encarrega de manter os status dos usuários atualizados automaticamente.

Por exemplo, sempre que você tomar aquele costumeiro café, o sistema publicará instantânea e autonomamente a atualização apropriada em seu perfil: “Nesse momento, estou tomando um café na Starbucks. Totalmente delicioso!”

Existem até robôs de bate-papo que se encarregam de iniciar e manter diálogos com os seus contatos na rede. De modo que a pessoa recentemente registrada já chega com suas conversas em adiantado estágio de andamento.

É como diz a propaganda do Everybody: “Você economiza o esforço de ter que conversar com seus amigos. E a situação ideal surge quando os robôs assumem as duas pontas da conversa, proporcionando mais tempo livre para os respectivos usuários.”

Calcula-se que esse recurso libera cerca de 10,24 horas por semana por membro da rede. Não é fantástico? Fantástico, não. Extremamente fantástico!

Lógico que numa sociedade como essa não existem segundos lugares. Todo e qualquer serviço, empresa, corporação são, ao mesmo tempo, gigantes, únicos e os melhores. Assim, não há espaço para coisas bobas como a livre concorrência.

Não lembra um lugar nem tão ficcional? Tipo, aqui e agora?

Leia também: Qualityland: uma distopia com cara de realidade

24 de abril de 2020

Qualityland: uma distopia com cara de realidade

O escritor alemão Marc-Uwe Kling acaba de lançar a edição brasileira de “Qualityland”. O livro faz uma sátira inteligente e divertida, ao imaginar uma sociedade em que seríamos dominados pelas máquinas e seus algoritmos.

Qualityland é um país surgido após “uma crise econômica tão severa que ficou conhecida como a crise do século”. Entre suas muitas esquisitices está o aplicativo “MeAvalie”, que estabelece um sistema de qualificação social que vai de 1 a 100. Mas...

...segundo rumores, o nível mais baixo é o Nível 2. Parece que ninguém é classificado no Nível 1, para que as pessoas do Nível 2 achem que ainda há alguém abaixo delas. O medo da queda é considerado útil porque as pessoas que pensam que não têm nada a perder são perigosas. O nível mais alto é 100. Embora, presumivelmente, também não haja pessoas nesse nível, para que as pessoas do Nível 99 acreditem que ainda há espaço para melhorias, já que ainda têm alguém acima delas
Com base nesse “ranking”, os bancos concedem crédito ou não. Os empregadores contratam o candidato ao emprego ou não.

Muitas lojas, restaurantes e clubes só abrem suas portas automáticas para pessoas acima de um determinado nível. A polícia está autorizada a parar, revistar e deter qualquer pessoa abaixo de certa classificação.

Pessoas com nível de apenas um dígito são chamados, extraoficialmente, de “Inúteis".

Outra curiosidade: os sobrenomes sempre fazem referência à profissão da pessoa. Por exemplo, Daniel Dentista, Vanessa Balconista ou Margareth Oftalmo. Mas a família mais numerosa é a dos Sem Trabalho.

O livro pretende ser uma distopia. Talvez não seja.

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19 de julho de 2019

Inflação, deflação, ficção científica e marxismo

O título acima parece uma mistura meio delirante? Vejamos.

Em 2009, Mark Bould e China Miéville publicaram a interessante coletânea “Planetas Vermelhos: Marxismo e Ficção Científica”, ainda sem tradução do inglês.

No artigo “A singularidade está aqui”, Steven Shaviro compara “os dois lados do marxismo” com os gêneros literários ficção científica e romance policial.

Segundo Shaviro:

A oposição entre a perspectiva deflacionária do romance policial e a perspectiva inflacionária da ficção científica evoca uma tensão dialética no coração do marxismo, que é tanto inflacionária como deflacionária. A dimensão deflacionária é representada pela tentativa de destruir todas as ilusões necessárias ou úteis à preservação da sociedade de classes em geral e do capitalismo em particular.

Mas, diz Shaviro, o “marxismo também é inflacionário, insistindo que, apesar de admitir que a opressão de classe seja essencialmente coincidente com a história da raça humana, nem sempre precisa ser assim”.

Esse caráter expansivo do marxismo, afirma, decorreria de sua “recusa radical” em aceitar como inevitável a sociedade capitalista ou as sociedades de classes em geral.

Para ele, “se o lado deflacionário do marxismo é necessariamente moral e político, o lado inflacionário é necessariamente científico”. Ou seja, busca descobrir as leis históricas que permitiriam levar à emancipação humana.

Assim, poderíamos dizer que seria inflacionário tudo o que expande os horizontes da humanidade para o conjunto de seus membros, de forma igualitária e respeitada toda a sua diversidade.

Deflacionário, então, seria tudo o que encolhe nossas potencialidades. Por exemplo, aceitar que as sociedades humanas estão condenadas a se dividir entre explorados e exploradores.

E agora, será que o delírio faz algum sentido?

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17 de dezembro de 2018

O que fazer com as conjunções adversativas em 2019

Para o escritor paulistano Ricardo Lísias, os tempos não estão para contemporizações. Por isso, ele eliminou todas as conjunções adversativas — mas, no entanto, todavia, entretanto, contudo, não obstante — de seu novo projeto literário, “Diário da catástrofe brasileira”.

É assim que Ruan de Sousa Gabriel introduz a entrevista que fez com Lísias, publicada na revista Época em 15/12/2018. “Eu não quero contemporizar. De todas as funções gramaticais, a adversativa é que não podemos usar agora. Já fizemos isso demais. Eu já fiz isso demais”, afirma.

Segundo o repórter, Lísias “não engoliu nenhuma das formulações da intelectualidade de esquerda que, primeiro, assegurava que Jair Bolsonaro jamais seria presidente e, agora, esforça-se para explicar o sucesso eleitoral da direita”.

Seu alvo principal é o que chama de “safatlismo”, referindo-se ao filósofo Vladimir Safatle. Segundo ele:

...trata-se da mania de explicar tudo, sempre analisando os outros e jamais colocando em questão os próprios equívocos. Quando ocorrem, por mais evidentes e patéticos que sejam, a pessoa simplesmente continua o hábito da explicação, sem jamais anunciar — e muito menos discutir — o erro que cometeu.

É justa a revolta do escritor com alguns de nossos intelectuais. Mas (opa!) o fenômeno poderia ser chamado de “haddadismo”, também. Ou “lulismo”.

A militância de esquerda costuma usar a expressão “conjuntura adversa” para situações desfavoráveis. Jamais foi tão adequada. E numa situação dessas, fica difícil não utilizarmos as tais conjunções adversativas. Elas nos ajudam a questionar raciocínios fechados como os que andaram nos colocando em muitos becos sem saída, ultimamente.

De qualquer maneira, e sem mais “poréns”, que saibamos enfrentar as adversidades de 2019 com muita luta!

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11 de setembro de 2018

O capitalismo devora o coração do mundo íntimo

“O capitalismo corrói a saúde mental” é o título de reportagem de Manuel Yepe, publicada por America Latina en Movimiento em 20/08/2018.

A matéria refere-se ao livro “The Inner Level” (O Nível Íntimo), dos professores de epidemiologia Kate Pickett e Richard Wilkinson, lançado nos Estados Unidos.

Entre os dados da publicação, um levantamento indica que em 28 países europeus a desigualdade aumenta a ansiedade por manter ou elevar o status social em todas as faixas de rendas.

As formas mais frequentes de enfrentar essas ansiedades, dizem os autores, são:

...as drogas, o álcool e o jogo, mediante a alimentação como reconfortante, ou por meio do consumo de status e o consumismo conspícuo. Aqueles que vivem em lugares mais desiguais são mais propensos a gastar dinheiro em automóveis caros e a comprar bens de status; e são mais propensos a ter altos níveis de dívida pessoal porque buscam demonstrar que não são “gente de segunda classe” ao possuir “coisas de primeira classe”.

Ou seja, o “remédio” a que se recorre é o mesmo que alimenta a epidemia que faz adoecer.

O estudo, diz Yepe, demonstra que “a desigualdade devora o coração do mundo íntimo e aprofunda as ansiedades sociais da grande maioria da população”.

Mas nada disso é natural. Segundo Kate e Wilkinson, “nosso passado como caçadores-coletores igualitários, cooperativos e solidários na comunidade primitiva” prova isso. Desmente a falsa ideia de que somos, por natureza, competitivos, agressivos e individualistas. Temos todas as aptidões psicológicas e sociais para viver de maneira diferente. “A desigualdade não é inevitável”, concluem eles.

Inevitável, só a resistência, diríamos nós.

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17 de agosto de 2018

Os subterrâneos do abolicionismo estadunidense

“The Underground Railroad: Os caminhos para a Liberdade” é um belo livro de Colson Whitehead. Ganhador do Pulitzer 2017, descreve em linguagem metafórica a rede de apoio à fuga de negros da escravidão do sul estadunidense no século 19.

Seguem abaixo algumas das muitas passagens bonitas e doloridas da obra:

Terra e pretos para cuidar dela eram uma caução melhor do que qualquer banco poderia oferecer. Terrance era mais ativo, sempre bolando planos para aumentar os carregamentos que eram mandados a Nova Orleans. Ele extraía cada dólar possível. Quando o sangue dos pretos era dinheiro, o homem de negócios experiente sabia perfurar a veia.

Preciosos momentos minúsculos:

Às vezes um escravo se perde num breve redemoinho de libertação. No movimento de um suave devaneio entre os sulcos da lavoura ou desenredando os mistérios de um sonho ocorrido de manhãzinha. No meio de uma música numa noite cálida de domingo. E então vinha, sempre: o grito do feitor, o chamado para trabalhar, a sombra do senhor, o lembrete de que ela é um ser humano apenas por um minúsculo momento numa eternidade de servidão.

Sobre o desejo de fugir:

...todo escravo pensa nisso. De manhã e de tarde e de noite. Sonha com isso. Todo sonho é um sonho de fuga, mesmo se não parece. Mesmo quando era um sonho de sapatos novos.

A música em meio à servidão:

Bata palmas, dobre os cotovelos, balance os quadris. Há instrumentos e músicos, mas às vezes um violino ou um tambor fazem aqueles que os tocam de instrumentos, e todos são escravizados pela música.

E viva Aretha Franklin!