Doses maiores

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30 de setembro de 2023

Big thecs e a Mentalidade do capitalismo extremo

Abaixo, mais trechos do livro “A sobrevivência dos mais ricos”, de Douglas Rushkoff. Neles, o autor descreve o que chamou de “A Mentalidade”, fenômeno que tomou conta do Vale do Silício no início do atual século.

Em vez de continuar apenas fornecendo resultados de pesquisa a seus usuários, a Google entrou no negócio ainda mais lucrativo de fornecer dados dos usuários a seus verdadeiros clientes: os especialistas em mercado que procuram abordar os usuários e manipular seu comportamento.

Da mesma forma, Mark Zuckerberg mudou sua atividade da veiculação de anúncios para a venda de dados. Quanto mais tempo e mais emocionalmente ficamos envolvidos com a plataforma, mais o Facebook aprende sobre nós para enriquecer seus investidores às nossas custas.

Nessa nova versão do capitalismo extremo, a tecnologia digital é valorizada pela sua capacidade de expandir os negócios sem necessidade de contratar muita gente. Fórmula quase exclusiva para proporcionar maiores lucros e vender a imagem de empresa inovadora, turbinando o preço das ações.

Como explicou Scott Galloway, professor de administração da Universidade de Nova York, “decidimos que capitalismo significa ser amoroso e empático com as corporações e darwinista e severo com os indivíduos”. O governo socorreu prontamente bancos e empresas na recessão de 2008 e a crise da Covid aumentou a riqueza dos bilionários de 8,9 para 10,2 bilhões de dólares apenas no primeiro ano.

A Mentalidade incentiva uma forma de “vitória” que eleve seus vencedores humanos e empresariais acima daqueles que serão necessariamente deixados para trás. Deixados para trás literalmente, já que a ideia deles é abandonar o planeta que vêm ajudando a destruir.

Doses suspensas até meados de outubro.

Leia também: Da contracultura psicodélica às big techs neoliberais

28 de setembro de 2023

Da contracultura psicodélica às big techs neoliberais

Em seu livro “A sobrevivência dos mais ricos”, Douglas Rushkoff relata sua experiência como parte da geração que participou da onda tecnológica surgida no Vale do Silício.

No começo da década de 1990, diz ele, os mundos da contracultura e da informática pareciam idênticos. Os membros da comunidade psicodélica da Califórnia eram particularmente adequados para imaginar ambientes virtuais e novos modos de comunicação.

Recrutando sua força de trabalho em ambientes de rebeldia cultural, a revolução cibernética seria caracterizada menos pela burocracia militar do pós-guerra, ou pelas corporações de alta tecnologia, do que pelos “novos comunalistas”.

Se a internete tinha um inimigo, diziam os filhos da geração hippie, não seriam as empresas que ofereciam brinquedos para nossa diversão e ainda pagavam pelo nosso tempo. Era o governo, que usava computadores para jogos de guerra, prendia jovens hackers sob falsas acusações e tentava censurar nossa comunicação online.

A “Declaração de Independência do Ciberespaço” publicada por John Barlow, em 1996, atacava o autoritarismo governamental sobre a internete, considerada um novo “projeto coletivo da humanidade”. Mas poucos se lembram do lugar em que o documento foi lançado: “Davos, Suíça”. Em pleno Fórum Econômico Mundial, ponto de encontro dos campeões da globalização neoliberal.

Não percebíamos, conclui o autor, que banir o governo da internete criaria uma zona livre para a colonização corporativa. Foi aí que começaram a surgir monstrengos empresariais como Google, Facebook, Uber e Airbnb.

Novamente, um movimento surgido com pretensões rebeldes foi capturado pela lógica do capital. Contra isso não há garantias, a não ser a constante vigilância e mobilização militantes.

Leia também: Bilionários sem vestígios de humanidade

7 de agosto de 2023

Allende e o embrião de uma internete socialista

Era outubro de 1972. Salvador Allende governava o Chile desde 1970, tentando implantar medidas radicais. Entre elas, reforma agrária e estatização de setores industriais. Foi o que bastou para ser alvo de ataques e sabotagens promovidos pela direita local com apoio do governo estadunidense.

Naquele mês, uma greve apoiada pela CIA paralisou 40 mil caminhoneiros, isolando Santiago. O movimento atingiu principalmente o abastecimento de alimentos para a população. Mas o governo conseguiu enviar cerca de 200 caminhões com mantimentos para a cidade, derrotando a greve. Essa operação só foi possível graças a uma rede de comunicação formada por máquinas de telex chamada Cybersyn.

Mas o objetivo original desse sistema era outro. Tratava-se de proporcionar um planejamento econômico controlado em tempo real pelo poder público. Como havia 500 máquinas de teletipo adquiridas pelo governo anterior que estavam ociosas, cada fábrica recebeu uma delas. Os dados da produção eram enviados diariamente para um centro de controle, permitindo aos órgãos governamentais fazer previsões, recomendações e tomar decisões estratégicas. Graças à cibernética, começava a tomar forma um planejamento econômico capaz de atender as necessidades da maioria, bandeira histórica do movimento socialista.

Além disso, o projeto pretendia criar uma rede de comunicação que possibilitasse aos chilenos opinar, votar e fazer propostas a partir de seus bairros e locais de trabalho.

Para muitos, o Cybersyn mostrou a possibilidade de criar uma internete orientada por valores democráticos e socialistas. Infelizmente, este foi mais um projeto destruído pelo golpe de setembro de 1973 por Pinochet e seus carrascos, apoiados e financiados pelo imperialismo estadunidense.

De Santiago do Chile ao Vale do Silício, pioramos muito.

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4 de agosto de 2023

A escrita, os livros e outros apêndices humanos

Na obra “Fedro”, Platão cita Sócrates:

A palavra escrita parece falar contigo como se fosse inteligente, mas se lhe perguntas alguma coisa, porque desejas saber mais, continua a repetir-te o mesmo sem parar. Os livros não são capazes de se defender.

Para ele, já não se tratava de sabedoria própria, mas de um apêndice alheio. Um estímulo a um relaxamento da memória. A grande ironia é que Platão expôs essa aversão à escrita por escrito, conservando, assim, as críticas de seu mestre para nós, seus futuros leitores.

Os cientistas chamam de “efeito Google” à incitação à amnésia que Sócrates temia. Mas o alfabeto foi uma tecnologia ainda mais revolucionária do que a internete. Construiu pela primeira vez essa memória comum, expandida e ao alcance de toda a gente.

Tempos depois, Jorge Luis Borges diria que o livro é o mais “surpreendente dos instrumentos humanos”, uma vez que os restantes “são apenas extensões do seu corpo”. O microscópio e o telescópio, extensões da visão; o telefone, da voz; o arado e a espada, do braço. “Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação”, conclui ele.

As informações acima estão no livro “O infinito num junco” de Irene Vallejo.  A autora não abordou a inteligência artificial, mas o que diriam Sócrates e Platão sobre ela? Seria outro artefato condenado a repetir “o mesmo sem parar” e ser um “apêndice alheio”?

Difícil saber. O que podemos dizer é que se trata de mais um produto da invenção humana, cheio de contradições e potenciais. Para o bem e para mal.

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30 de junho de 2023

O labirinto da internete e seus minotauros

“O Infinito num Junco” é um ótimo livro de Irene Vallejo. Conta a história dos livros e os primeiros deles de que se tem registro eram feitos de papiro, um junco vegetal que nascia nas margens do Nilo, no Egito Antigo.

Em certo momento, Irene cita um conto de Jorge Luis Borges chamado “A Biblioteca de Babel”. Nele, diz a autora, existe uma biblioteca que conta com um catálogo verdadeiro, mas muitos milhares de catálogos falsos. Seus frequentadores dominam apenas um par de línguas e seu tempo de vida é breve. Portanto, as probabilidades de que alguém localize na imensidão do acervo o livro que procura, ou simplesmente um livro compreensível para si, são muito pequenas.

Desse modo, afirma ela, ninguém consegue ler realmente. Entre a esgotante abundância de páginas ao acaso, extingue-se o prazer da leitura. Todas as energias se consomem na procura e na decifração.

Aos leitores de hoje, afirma nossa autora, a biblioteca de Babel fascina como uma alegoria profética do mundo virtual, do excesso da internete. Dessa gigante rede de informações e textos, filtrada pelos algoritmos dos motores de pesquisa, onde nos perdemos como fantasmas num labirinto.

Timothy John Berners-Lee, cientista que idealizou a Web, inspirou-se no espaço ordenado e ágil das bibliotecas públicas, lembra Irene. Cada documento virtual tem um endereço único que pode ser alcançado de outro computador. A internete é uma emanação das bibliotecas, diz ela.

Berners-Lee viria a lamentar que sua inovação tivesse se transformado nesse emaranhado de caminhos sem saída. Mas é pior que isso. Tais labirintos passaram a abrigar criaturas mais terríveis que o mitológico Minotauro.

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Das próteses mentais às viseiras cerebrais
O risco de nos tornarmos peixes vermelhos

8 de dezembro de 2022

 Tiktokização e ultraconservadorismo

“A dinâmica criada pelo Facebook é percebida como pré-histórica e nem mesmo 20 anos se passaram desde sua invenção”. Estas palavras são de Juan Gustavo Corvalán, diretor do Laboratório de Inovação e Inteligência Artificial da Universidade de Buenos Aires. Estão na reportagem “A ‘tiktokização’ dos negócios: como os algoritmos preditivos estão ganhando a batalha”.

A expressão “tiktokização” é obviamente inspirada no aplicativo TikTok, cujos algoritmos são considerados revolucionários “porque se ajustam aos detalhes de interesses e gostos além de qualquer outro algoritmo de conteúdo já criado”, explica um dos entrevistados pela reportagem.

Outro aplicativo semelhante é o Shein, utilizado para compras de vestuário. Considerada "irmã do TikTok", a empresa analisa os sites dos concorrentes para descobrir o que está em alta. Em seguida, cria designs rapidamente, prevê a demanda e ajusta o estoque em tempo real. “Assim como o Tiktok antecipa o conteúdo que você vai querer assistir, a Shein antecipa as roupas que você vai querer comprar”, diz a matéria.

Mas o conceito de “tiktokização” também pode caracterizar outro processo, decorrente do primeiro. Tal como já ocorre com o veterano Facebook, a principal função dessas tecnologias é puramente comercial, mas seus efeitos sociais deletérios continuam indo muito além.

Essa dinâmica voltada para o consumismo e diversão alienada contamina a chamada “esfera pública”. Ideias, propostas, convicções, passam a valer por sua capacidade de circulação, não por sua legitimidade social. No vazio de debates, a ausência de sentido se impõe. Surgem ressentimentos, preconceitos, intolerância. As aparências passam a ser o valor supremo. São ingredientes fundamentais para o surgimento de alternativas ultraconservadoras. É o algoritmo a serviço do pior.

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24 de setembro de 2020

Na campanha eleitoral, esqueça os marqueteiros. Chame os físicos

Mais um interessante relato do livro "Os Engenheiros do Caos", de Giuliano Da Empoli.

Em 2016, os britânicos foram às urnas para votar em um plebiscito sobre a saída ou não do Reino Unido da União Europeia. O famoso “Brexit”.

O principal estrategista da campanha em favor do Brexit era Dominic Cummings. Certa vez, ele escreveu em seu blog: “Se você quer fazer progresso em política, meu conselho é contratar físicos, e não especialistas ou comunicadores.”

Cummings organizou sua campanha com a ajuda de uma equipe de cientistas originários das melhores universidades da Califórnia e de uma empresa canadense de Big Data ligada à Cambridge Analytica. A eles pediu apenas o seguinte: digam para onde devo enviar meus voluntários, em que portas devo bater, a quem devo mandar e-mails e mensagens nas redes sociais e com quais conteúdos.

Muitos cientistas sonham reduzir o governo da sociedade a equações matemáticas que suprimissem as margens de irracionalidade e de incerteza inerentes ao comportamento humano.

Nos últimos anos, essa aspiração tem se tornado muito próxima de se concretizar. É o que mostrou o referendo sobre o Brexit. Ainda que por pequena margem, o resultado foi favorável à saída dos britânicos da União Europeia.

As redes virtuais se generalizaram e os comportamentos humanos começaram a produzir um fluxo de dados que podem ser mensuráveis. “Cada um de nós se desloca voluntariamente com sua própria ‘gaiola de bolso’, um instrumento que nos torna rastreáveis e mobilizáveis a todo momento”, diz Da Empoli.

O que exatamente os físicos têm a ver com tudo isso, é o que abordaremos na próxima pílula.

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Um pioneiro do caos político

7 de maio de 2020

O coronavírus e o fetichismo do aplicativo

Há alguns anos, vários cientistas passaram a entender que vivemos uma nova era geológica: o Antropoceno. Esse período se caracterizaria pelo forte aumento da influência de nossa espécie sobre o planeta.

Uma vez aceita essa caracterização, começam as polêmicas. Em seu livro “Homo Deus”, Yuval Harari considera que o Antropoceno corresponde aos últimos 70 mil anos, quando o Homo sapiens começou a extinguir inúmeras outras espécies animais.

Já outros autores consideram que esse período começou 12 mil anos atrás e corresponderia ao surgimento da agricultura, que teria possibilitado domesticar a natureza para melhor destruí-la.

Mas há ainda aqueles que consideram que o Antropoceno começou mesmo com a Revolução Industrial. Teria sido nesse momento que a humanidade iniciou um processo de destruição em escala semelhante à dos terremotos e erupções vulcânicas.

Por Revolução Industrial entenda-se nascimento do capitalismo. Um sistema que para produzir lucros destrói o que vê pela frente, incluindo vidas consideradas descartáveis e que são contadas cada vez mais aos bilhões.

Ora, no capitalismo, impera o fetichismo da mercadoria. Essa metáfora criada por Marx descreve uma sociedade onde são as coisas, transformadas em mercadoria, que estabelecem relações sociais, não as pessoas.

Pois bem, cá estamos em plena crise causada por um vírus surgido da selvageria capitalista em seu processo de destruição ambiental. Produto acabado do Antropoceno.

Foi assim que atingimos um estágio da humanidade em que nos isolarmos fisicamente uns dos outros tornou-se medida obrigatória para tentar garantir nossa sobrevivência biológica.

E é assim que chegamos a um momento em que literalmente passamos a nos relacionar quase exclusivamente por meio de coisas. Coisas digitais, mas coisas.

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25 de setembro de 2019

Internete das vacas. Ou a agricultura sem agricultores

Empresas como IBM, Cisco e Huawei oferecem pacotes de tecnologia para a Internet das vacas. São dispositivos digitais (coleiras e/ou chips) colocados em cada vaca para medir seu pulso, temperatura, pico de fertilidade e outras condições de saúde relacionadas ao sistema digestivo. Os dados são transmitidos pela Internet a uma nuvem das próprias empresas, que os armazena em grandes sistemas de dados (big data), analisa-os com inteligência artificial e envia os avisos que o programa considera pertinentes a um computador ou telefone da empresa agrícola ou fazenda.

O trecho acima é de um recente artigo de Silvia Ribeiro, pesquisadora do Grupo Erosão Tecnologia e Concentração. Mas há mais coisas assustadoras no texto.

Chips podem direcionar o gado para a ordenha no momento certo. Cada dispositivo, associado a uma vaca em particular. Silvia cita ainda a internete dos porcos e ovelhas com bases semelhantes.

No México, está em implantação um pacote da Microsoft que oferece monitoramento permanente das condições do solo, umidade, estado das plantações, dados climáticos. Tudo isso dá à empresa condições de avisar quando e onde semear, irrigar, aplicar fertilizantes ou agrotóxicos, quando colher...

Para aumentar a “conectividade rural”, a Microsoft usará frequências de televisão fora de uso. Com isso, haverá internete em cada propriedade, todas enviando informações para uma nuvem de dados que permitirá à empresa montar um enorme mapa de recursos, solos, água, florestas, minerais, biodiversidade...

E, adivinhem, trata-se de um projeto de agricultura com alto uso de agrotóxicos e sementes patenteados, visando a expansão das empresas do setor.

É a internete das coisas. E, adivinhem novamente, é a agricultura sem agricultores.

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5G: mais vigilância e controle social

13 de setembro de 2019

5G: mais vigilância e controle social

A tecnologia 5G foi criada principalmente para servir ao capital. Nesse sentido, acentua a subordinação da sociabilidade humana à circulação de mercadorias. Para que esta seja harmoniosa, aquela tem que ser cada vez mais conflituosa e alienada.

Quem quer que não acompanhe ou atrapalhe a valorização do capital está sob ameaça. Podem ser pequenos empresários, incapazes de concorrer com monopólios. Mas, certamente, o maior alvo são militantes políticos e sociais.

Afinal, em uma sociedade que assegura total liberdade às mercadorias, a liberdade das pessoas é que precisa ser controlada, vigiada, tolhida.

Para essa função a internete já se mostra bastante adequada. Mas com sua versão 5G, não será preciso aguardar que sejamos nós a acessar seus dispositivos.

A internete das coisas é a rede onipresente. Cada pessoa transforma-se em um ponto circulando por ela. E os nós dessa rede já não são apenas computadores e celulares. São automóveis, mobiliário urbano, a casa, o trabalho, o lazer.

Tudo e todos rastreados o tempo inteiro.

Não à toa, a rede 5G está no centro da disputa entre as duas maiores potências capitalistas da atualidade. Estados Unidos e China emparelhados na mais recente corrida tecnológica.

Os Estados Unidos com um liberalismo que assegura plena liberdade apenas para que suas grandes corporações privadas satisfaçam seus interesses. A China com seu capitalismo superplanejado a serviço de monopólios estatais e não estatais, incluindo alguns estadunidenses e europeus.

A 5G só é estratégica para os negócios e para o controle social porque obedece a uma lógica sistêmica. É esta lógica que devemos combater. Quem sabe, utilizando as próprias contradições da 5G para isso.

Leia também: 5G: a internete das coisas e de seu fetichismo

12 de setembro de 2019

5G: a internete das coisas e de seu fetichismo

Baixar filmes em um segundo. Cirurgias realizadas em pacientes localizados em outro continente. Veículos deslocando-se de maneira perfeitamente sincronizada, dispensando condutores, semáforos, radares.

No lugar de smartphones, lentes de contato conectadas. Óculos que borrarão os limites entre o virtual e o real. Tecnologias que poderemos vestir, implantar ou tatuar.

Tudo isso e muito mais deve ser possível com a chegada da 5G, a quinta geração da telefonia digital. Talvez, a última que utilizará celulares. A partir dela, quase tudo se comportará como um deles.

O acesso à internete deixará de se limitar apenas a alguns tipos de terminal. Poderemos interagir até com postes, hidrantes e lixeiras.

E, aí, surgem os problemas. Surgem, não. Se agravam.

O objetivo até poderia ser nobre. Salvar muitas vidas, diminuir o infernal deslocamento urbano, permitir lindas viagens culturais e históricas virtuais.

Quem sabe, possibilitar a realização de grandes assembleias e congressos com todas as vantagens da participação presencial sem necessidade de deslocamentos caros ou inconvenientes.

Mas a 5G exige muito mais antenas. Mais infraestrutura. Mais dinheiro. E estará realmente disponível para quem controla o dinheiro ou esteja perto dele.

É por isso que ela é chamada de internete das coisas. A 5G poderia colocar as coisas a serviço das pessoas. Mas, muito provavelmente, serão as pessoas que servirão às coisas.

É mais uma volta no velho parafuso do fetichismo da mercadoria, metáfora que Marx criou para uma sociedade onde são as coisas, transformadas em mercadoria, que têm vida social, não as pessoas.

Afinal, é de obter mais lucros que se trata.

A 5G é só a enésima geração dessa feitiçaria opressora.

Leia também:
Fragmentos do real sob o capital
O fetichismo da mercadoria sobre rodas

22 de julho de 2019

Reactions: como o Facebook comercializa nossas emoções

Reportagem publicada recentemente pela Agência Pública revela o que está por trás daquelas “reactions” do Facebook que permitem ao usuário clicar em opções como “amei”, “hahaha” ou “triste”, além da tradicional ”curtir”.

A matéria cita um estudo sobre esses “recursos” feito pela pesquisadora Débora Machado, da Universidade Federal do ABC. A pesquisa analisou 39 patentes de ferramentas do Facebook voltadas para esse tipo de resposta.

A definição de uma dessas patentes, por exemplo, afirma que as características de personalidade deduzidas a partir das reações “são armazenadas junto aos perfis do usuário e podem ser usadas para mirar, ranquear e selecionar versões de produtos” a serem oferecidas a ele.

Outro exemplo é a patente que filtra postagens associadas a reações “desejadas”, como aniversários de postagens e de amizades. A partir disso, explica Débora, o Facebook pode privilegiar uma amizade em detrimento de outra ou dar preferência a certos tipos de publicações relacionados a determinados sentimentos. “E isso não necessariamente corresponde aos interesses do usuário”, afirma.

Claro que não. O objetivo, aqui, é apenas um: vender. Afinal, diz a reportagem:

Saber quais são as emoções dos usuários é útil para anunciantes. Os anúncios são a principal fonte de renda do Facebook, representando US$ 14,91 bilhões no primeiro semestre de 2019 – 98,8% da receita. Das 130 patentes com a palavra “emoção” registradas pela plataforma, 109 (84%) contêm também a palavra “propaganda” em suas descrições.

A pesquisa confirma o alto grau de manipulação implícita a que monopólios digitais como Facebook e Google sujeitam seus usuários.

E vai continuar sendo assim enquanto nos limitarmos a reagir, clicando a opção “Grrr”.

Leia também: Facebook, um psicopata de 15 anos

18 de julho de 2019

Capitalismo de vigilância e neofeudalismo

Shoshana Zuboff é professora da Harvard Business School e autora de “The Age of Surveillance Capitalism” (A era do capitalismo de vigilância), ainda sem tradução.

A obra denuncia o enorme poder dos novíssimos monopólios digitais. Em especial, a Google. Mas também alerta para os traços neofeudais da atual fase do capitalismo.

Comecemos pelo que a autora chama de “primeira modernidade”. Trata-se do advento do capitalismo, que tornou a vida “uma realidade em aberto a ser descoberta e não uma certeza a ser encenada”. Assim, com o devido esforço, você poderia ter casa própria, automóvel e muitos eletrodomésticos.

Por volta da segunda metade do século 20, a "segunda modernidade" permite a centenas de milhões de pessoas acesso a experiências antes restritas a poucos: educação universitária, viagens, maior expectativa de vida, aumento do padrão de vida, amplo acesso a bens de consumo etc.

Já no final do século passado, surge o culto neoliberal ao esforço individual acima de tudo e todos. Mas com ele também veio uma enorme concentração de renda e patrimônio. Tornou-se flagrante o predomínio da riqueza herdada sobre a conquista meritocrática, tal como acontecia no feudalismo.

Mas como contradições nunca deixam de surgir, no início deste século, a internete se espalha pelo mundo. Traz consigo um enorme potencial de produção colaborativa e sociabilidade compartilhada. Expectativa rapidamente frustrada pelo surgimento de monstros digitais como Google e Facebook.

A esperança da autora é a fundação de uma “terceira modernidade” baseada em “um novo capitalismo digital racional”, apoiado “por instituições democráticas”.

Mas é mais fácil voltarmos ao feudalismo que combinar capitalismo com racionalidade e democracia.

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O risco de nos tornarmos peixes vermelhos

20 de maio de 2019

Contra as tecnologias de adaptação, tecnologias rebeldes

Pawel Kaczynsku
Aplicativo GPS que alerta sobre trajetos perigosos nas grandes cidades.

Programa de mensagens virtuais utilizado por seus membros para criar uma rede de vigilância sobre atividades suspeitas em sua vizinhança.

Software de transporte urbano que barateia a força de trabalho de dezenas de milhares de motoristas no caótico trânsito das grandes cidades.

Esses são apenas alguns exemplos de ajustamentos cotidianos à grave situação de violência urbana, concentração de renda, destruição de empregos e desigualdade social presentes na vida contemporânea.

São “Tecnologias de Adaptação”, segundo a definição de Evgeny Morozov, em artigo publicado recentemente no portal Outras Palavras. Para esse pesquisador bielorrusso que estuda os impactos das novas tecnologias na sociedade:

“Tecnologia de Adaptação”, contudo, é marca muito ruim para intitular conferências ou manifestos laudatórios. Ao invés disso, fala-se da “economia do compartilhamento” (com startups que ajudam os pobres a sobreviver, aceitando empregos precários ou alugando suas posses), da “cidade inteligente” (com os municípios entregando sua soberania tecnológica – em troca de serviços temporariamente gratuitos – às gigantes digitais), da “fintechs” (com bancos que emprestam para os mais jovens capturando e vendendo seus dados, apresentados como uma revolução de “inclusão financeira”).

Morozov cita o Brasil como um laboratório de inovação nesse tipo de tecnologia. Mas também no resto do mundo, elas “permitem que cidadãos sobrevivam em meio ao caos, sem demandar nenhuma transformação social”.

E qualquer transformação social, diz ele, passa pela quebra das gigantes tecnológicas, mas também pelo abandono das tecnologias de adaptação em favor de tecnologias rebeldes.

Afinal, se tecnologia é técnica mais ideologia, nós também temos a nossa. Precisamos acioná-la contra a deles.

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6 de maio de 2019

O risco de nos tornarmos peixes vermelhos

Nos tornamos peixes vermelhos trancados no aquário das nossas telas, sujeitos ao cuidado de nossos alertas e de nossas mensagens instantâneas.

Estas palavras são de Bruno Patino, autor do livro “A Civilização do Peixe Vermelho”. Ainda sem tradução do francês, a obra denuncia a ilusão da utopia digital promovida pelos grandes monopólios das redes virtuais.

À reportagem de Fabienne Schmitt, publicada por “Les Echos”, em 18/04/2019, Patino cita as palavras de um dos fundadores da Web, Tim Berners-Lee:

Ninguém roubou nada, mas houve captura e acumulação. O Facebook, Google, Amazon, com algumas agências, são capazes de controlar, manipular e espionar como nenhum outro antes.

O autor concorda e acrescenta:

Os novos impérios construíram um modelo de servidão voluntária, sem ter consciência disso, sem tê-lo previsto, mas com uma determinação implacável. No coração do reator não há um determinismo tecnológico, mas um projeto econômico que reflete a mutação de um novo capitalismo. No coração do reator está a economia da atenção.

Patino até acha possível encontrar um caminho para sair dessa situação:

Esse caminho possível é a vida em sociedade. Mas não podemos abandonar a essas plataformas o cuidado de se organizarem sozinhas, se quisermos que ela não seja povoada de humanos com um olhar hipnótico que, acorrentados às suas telas, não conseguem mais olhar para cima.

Para encerrar, a reportagem explica a metáfora utilizada pelo escritor:

De acordo com a Associação Francesa do Peixe Vermelho, “ele é feito para viver em bando, entre vinte e trinta anos, e pode chegar a 20 centímetros. O aquário atrofiou a espécie, acelerou a mortalidade e destruiu a sociabilidade...”

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29 de abril de 2019

Facão, pistola, carabina e redes virtuais

O conto “O Cobrador”, de Rubem Fonseca faz parte de um livro de mesmo nome lançado em 1979. O personagem principal explica qual é a dívida da qual se considera credor:

...está todo mundo me devendo! Estão me devendo comida, buceta, cobertor, sapato, casa, automóvel, relógio, dentes, estão me devendo.

A lista inclui também:

...colégio, namorada, aparelho de som, respeito, sanduíche de mortadela no botequim da rua Vieira Fazenda, sorvete, bola de futebol.

Ele descreve alguns de seus instrumentos de cobrança:

...tenho a Magnum com silenciador, um Colt Cobra 38, duas navalhas, uma carabina 12, um Taurus 38 capenga, um punhal e um facão. Com o facão vou cortar a cabeça de alguém num golpe só.

E dá um exemplo de como costuma executar suas dívidas:

...o facão fazia seu curto percurso mutilante zunindo fendendo o ar, eu sabia que ia conseguir o que queria. Brock! a cabeça saiu rolando pela areia. Ergui alto o alfange e recitei: Salve o Cobrador! Dei um grito alto que não era nenhuma palavra, era um uivo comprido e forte, para que todos os bichos tremessem e saíssem da frente. Onde eu passo o asfalto derrete.

Quando sua “cólera” está diminuindo, diz ele, “e eu perco a vontade de cobrar o que me devem eu sento na frente da televisão e em pouco tempo meu ódio volta.”

E conclui, “sei que se todo fodido fizesse como eu o mundo seria melhor e mais justo”.

Após 40 anos, o livro está mais atual do que nunca. Só falta incluir no arsenal do Cobrador um celular e uma conexão nas redes virtuais.

Leia também: A máquina Enigma de nossos tempos