Doses maiores

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12 de setembro de 2023

Padre Júlio no meio do inferno

As polícias brasileiras mataram quase 50 mil pessoas de 2012 a 2022, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Foram 12 mortes diárias.

O site Observatório de Mortes e Violências contra LBGTI+ registrou 273 mortes violentas envolvendo essa população, em 2022. O número representa uma pessoa LGBTI+ assassinada a cada 32 horas, no Brasil.

Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2022, uma mulher foi morta a cada seis horas no país, num total de 1.437 vítimas de feminicídio.

Estudo do Unicef, divulgado em maio de 2022, identificou 35 mil mortes violentas intencionais de crianças e adolescentes no Brasil, entre 2016 e 2020.

Levantamento do Observatório Polos de Cidadania da UFMG mostra que a população de rua era de 220 mil pessoas no país, em junho passado.

Os números acima poderiam ser os de uma guerra. Não são porque apenas um dos lados está armado. O lado da violência estatal e paraestatal (milícias). Mas também o da criminalidade, que mantém embaixo a violência que deveria ser dirigida para cima.

Boa parte da esquerda não sabe como responder a essa situação, a não ser com argumentos retóricos ou defendendo uma democracia que não funciona para a grande maioria.

Ítalo Calvino disse certa vez que é preciso “reconhecer quem e o quê, no meio do inferno, não é inferno”. Já seria um primeiro passo. E um bom exemplo é o Padre Júlio Lancellotti. Sua luta tem como alvo mais os efeitos que as causas da pobreza e da violência de classe. Mas é uma clareira no meio do inferno que precisa ser defendida e ampliada.

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20 de maio de 2020

Na guerra contra o vírus, não estamos todos do mesmo lado

O neurocientista Miguel Nicolelis está à frente do projeto Monitora Covid-19, que começou a ser implantado no Nordeste do País. Em recente entrevista ao jornal Zero Hora ele usou metáforas bélicas para explicar como tudo começou:
Conseguimos ver claramente a migração dos casos: a covid-19 chegou por voos internacionais e adentrou nossas fronteiras, instalando-se nas grandes cidades, primeiro nos bairros de classe média-alta, e dali se espalhou por meio dos entroncamentos rodoviários. A imagem, no mapa do Brasil, é a de uma guerra: há invasão pela costa rumo aos centros maiores para, a partir deles, ocupar de todo o território. É como se estivéssemos sendo invadidos.

(...)

Nos mapas que temos feito, há as regiões que concentram mais casos e a partir das quais o vírus se espalhou. E há aquelas onde ainda há muito pouca incidência da doença. É nessas que as Brigadas Emergenciais têm de ir. É uma estratégia de guerra, mesmo: você domina um território, finca sua bandeira nele e dali tenta se espalhar, tomando os territórios vizinhos.

O projeto merece todo o apoio. Mas ele é iniciativa de governos. E governos costumam fracassar vergonhosamente quando se trata do bem-estar e da vida da maioria.

Sim, o coronavírus-19 entrou pelas portas de luxo do País. Mas são principalmente os mais pobres que estão morrendo. E não, não estamos todos do mesmo lado.

A esquerda e os movimentos sociais precisam entrar nessa guerra contra o covid, mas também contra seus maiores aliados. Aqueles que estão em palácios e mansões. As “brigadas emergenciais” precisam do apoio de brigadas de solidariedade de classe.

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15 de abril de 2020

A pandemia e o mecanismo de morte

São 13 milhões de pessoas morando em favelas no Brasil. Aglomeradas em pequenas unidades habitacionais, com saneamento básico precário ou inexistente.

Há mais de 812 mil encarcerados. Sobrevivem em celas superlotadas e com péssimas condições de higiene.

Cerca de 120 mil famílias vivem em situação de rua. Amontadas sob marquises, viadutos, pontes. Sem cuidados sanitários básicos, expostos a todo tipo de doença e risco.

Há um número significativo de pacientes em instituições manicomiais. Grande parte deles abandonados à própria dor.

São 78 mil idosos alojados em asilos. Em dependências que raramente permitem evitar aglomerações. Em lugares que, muitas vezes, não contam com condições ideais de limpeza.

Por volta de 18.900 crianças e adolescentes estão internados em instituições públicas, com seus dormitórios e refeitórios coletivos.

São milhares trabalhando em condições análogas à escravidão, sobre as quais não é preciso discorrer quanto a sua situação de saúde e dignidade.

São muitos milhões de trabalhadores atuando em fábricas e serviços, sem qualquer fiscalização quanto ao cumprimento das medidas exigidas para assegurar proteção a sua saúde.

São quase todos pobres e pretos.

Há um sistema econômico inteiramente voltado para os lucros apropriados por muito poucos mediante a exploração da grande maioria.

Há um sistema de dominação inteiramente voltado para manter a maioria submissa, subordinada, encarcerada, alienada.

Há um mecanismo genocida em funcionamento há muito tempo. Esperando oportunidades como a que está sendo oferecida agora.

Contra tudo isso, há cerca de 3,5 milhões de trabalhadores no SUS. Eles são nossa maior defesa contra o vírus. Mas sozinhos podem pouco contra o mecanismo de morte.

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14 de abril de 2020

Para que trincheiras não se tornem sepulturas

Quando generais nos mandam abrir trincheiras para que lutemos contra um inimigo comum, melhor nos certificarmos de que não estamos cavando nossa própria sepultura.

A “guerra” contra a pandemia, como todas as guerras, pode não passar de outra oportunidade para causar mais baixas entre explorados e oprimidos. Ainda que presidente e governadores troquem provocações palacianas, certamente estão do mesmo lado quando se trata de fazer os ferrados de sempre pagarem a conta.

Leis e decretos pelo isolamento social são baixados. Mas não há qualquer iniciativa concreta para dar condições para que a população fique em casa sem passar necessidade. Onde estão toda a energia e eficiência demonstradas em “tempos de paz”, quando ocupações são despejadas e operações policiais deixam corpos pobres estendidos no chão?

Governantes e patrões dizem estar em guerra contra o coronavírus, mas até agora os únicos soldados no front são os médicos e, principalmente, as enfermeiras e outros técnicos de saúde. São lutadores que, em tempos normais, já são abandonados na luta que travam cotidianamente em defesa da saúde da população. Por que seria diferente agora?

E se, hoje, esse exército foi mobilizado para encarar um vírus como seu maior inimigo, muito piores são aqueles que dizem ser sua retaguarda, enquanto mais uma vez os desertam, deixando faltar equipamentos, medicamentos, recursos, estrutura e verbas.

Precisamos impedir que as trincheiras ocupadas por essas heroínas e heróis verdadeiros se tornem sua sepultura. Pela formação imediata de comitês e brigadas de solidariedade e apoio aos trabalhadores da saúde e à população. Esta deveria ser a missão prioritária das organizações populares hoje.

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13 de abril de 2020

Pandemia: hora de criar trincheiras de solidariedade

“É uma guerra”, dizem Trump, Merkel, Macron. A utilização dessa metáfora para se referir à pandemia do coronavírus-19 vem sendo criticada com razão por muitas vozes sensatas.

A guerra contra as drogas veio para abater pobres e pretos. Na mira da guerra contra a AIDS estão os homossexuais. A guerra contra o terrorismo volta-se contra os muçulmanos.

Mas, na realidade, qualquer guerra raramente é justa. Por isso fomos contra a guerra do Iraque e do Vietnã. E muito antes disso, organizações de trabalhadores no mundo todo se opuseram à Primeira Guerra: “Paz entre nós, guerra aos patrões”.

Portanto, não há problema em aceitar a metáfora bélica, desde que saibamos que guerras, em geral, colocam lado a lado tanto combatentes sinceros como traidores. O objetivo pode até ser aniquilar o inimigo, mas os generais dos dois lados sempre utilizam os de baixo como bucha-de-canhão.

Na Primeira Guerra, os bolcheviques se opuseram firmemente ao conflito. Mas iniciada a participação russa e obrigados a pegar em armas, eles conquistaram muitos soldados para a revolução enquanto lutavam nas trincheiras.

A verdade é que já estamos em guerra. E já estão usando a maioria de nós como bucha-de-canhão. Diante disso, é preciso fazer como os bolcheviques. Nos juntarmos aos que já estão na luta.

As entidades populares e de esquerda precisam construir uma rede independente de solidariedade e apoio à população. Precisamos formar comitês coordenados e sob orientação dos trabalhadores da saúde pública.

Estas serão as únicas trincheiras possíveis, a partir das quais poderemos combater tanto as loucuras do capitão sociopata como a perversidade de comandantes como Witzel, Doria e Zema.

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21 de fevereiro de 2014

Os alarmes da humanidade

Em 20/02/2014, Luis Fernando Veríssimo publicou a crônica “O alarme” em O Globo. Ele cita o filme de Stanley Kubrick “2001 — Uma odisseia no espaço”. Lembra que a produção baseia-se no conto de Arthur C. Clarke “O sentinela".

Na obra de Clarke, o monólito negro que é descoberto enterrado na Lua é uma espécie de alarme. Uma vez localizado, dispara um sinal para seus criadores extraterrestres. Esse sinal indicaria que a raça humana finalmente havia alcançado o desenvolvimento tecnológico necessário para alcançar as estrelas.

Veríssimo utiliza essa ideia para especular sobre os destinos da humanidade. Os eventos cada vez mais violentos, as crises crescentemente agudas, as catástrofes aparentemente mais numerosas. Antes disso, o fascismo, o nazismo, as bombas atômicas. 

Tudo isso não indicaria que já passamos do momento em que um alarme já deveria ter soado, pergunta o cronista. “Quando chegará o momento, diz ele, que nos convencerá que isto aqui não tem jeito mesmo, e a procurar uma saída? Será que o momento já veio e já foi, e nós não notamos?”.

Difícil saber. Mas uma ou outra notícia pode aliviar o peso dessa dúvida. Uma delas apareceu nos jornais em 21/02: “Bebê inconsciente é salvo durante engarrafamento nos EUA". Trata-se de uma mulher que deixou o filho de três anos em seu automóvel para fazer respiração boca a boca em um bebê de cinco meses que parara de respirar.

É uma notícia simples e delicada demais para fazer frente às outras inúmeras, brutais e complicadas. Mas nos dá a esperança de que existam outros tipos de alarme. Precisamos ficar atentos a eles também.