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20 de dezembro de 2023

Botando pra quebrar no trabalho!

O ludismo, como resistência dos trabalhadores nos locais de produção, caracteriza-se pela autonomia, capacidade de escolher seus próprios métodos e melhoria das condições de trabalho. Não enxerga a tecnologia como neutra, mas como um espaço de luta.

Não se trata de uma postura moral individual, mas de uma série de práticas que podem proliferar e crescer através da ação coletiva. O ludismo opõe-se às relações sociais capitalistas, que só podem ser eliminadas através da luta, e não por fatores como reformas do Estado, abundância de bens supérfluos ou uma economia melhor planejada.

Atualmente a população é praticamente unânime: quer desacelerar. Vivemos em tempos pessimistas quanto aos avanços tecnológicos. Há uma espécie de sensibilidade difusa que é antagônica à forma como o capitalismo funciona. Por isso, o ludismo pode se manifestar de formas diferentes, de acordo com o contexto.  

Como disse Marx em uma carta ao socialista holandês Ferdinand Domela Nieuwenhuis: “As antecipações doutrinárias e necessariamente fantasiosas sobre o programa de ação para uma futura revolução só conseguem nos desviar das lutas do presente”.  Em vez disso, o primeiro passo para organizar o descontentamento generalizado em uma política coletiva requer reconhecer e recuperar nossa autoatividade radical. Inclusive, e talvez especialmente, quando se trata de quebrar coisas no trabalho.

Os trechos acima são do livro “Breaking Things at Work”, de Gavin Mueler. Servem como encerramento da série de pílulas sobre esse interessante estudo que tem por objetivo mostrar o potencial revolucionário do ludismo. Em uma futura e necessária tradução para português, fica a sugestão de que seu título seja “Botar pra quebrar no trabalho!”

Leia também: Inteligência artificial e trabalho mal pago

19 de dezembro de 2023

Inteligência artificial e trabalho mal pago

Em seu livro “Breaking Things at Work”, Gavin Mueler cita o crítico de tecnologia Jathan Sadowski para falar sobre inteligência artificial (IA). Segundo ele, muito do que é alardeado como um sistema de máquinas autônomas é na verdade “IA Potemkin”, referindo-se às brutais condições de trabalho dos marinheiros do famoso encouraçado russo.

Afinal, diz Mueller, “serviços que pretendem ser alimentados por software sofisticado, na verdade dependem de pessoas agindo como robôs”. Desde programas de transcrição de áudio que disfarçam os trabalhadores humanos como “software de reconhecimento de fala” até carros “autônomos” controlados remotamente, as façanhas da “inteligência artificial avançada” não apenas mascaram relações trabalhistas como reforçam a percepção de que um dia não seremos mais necessários.

A Samasource, especializada em treinamento de IA, utiliza o trabalho de moradores de favelas do mundo todo como solução barata para as tarefas chatas, repetitivas e intermináveis de alimentar sistemas de aprendizado de máquina. O trabalho mal pago, costuma ser justificado pelo humanitarismo típico do Vale do Silício. Remunerações maiores poderiam inflacionar os custos de habitação e alimentação nas comunidades envolvidas.

Embora a inteligência artificial seja frequentemente comparada à magia, falha regularmente em tarefas simples para pessoas, como reconhecer sinais de trânsito, fundamental para automóveis autônomos. Mas mesmo casos bem-sucedidos de IA exigem enormes quantidades de trabalho humano. Incluindo o dos usuários.

Sempre que você resolve um daqueles quebra-cabeças de identificação por imagem para provar que não é um robô, está ajudando a treinar IA. Seus idealizadores dizem que apenas aproveitam nossos momentos improdutivos. Improdutivos para quem?

Eles acham que somos burros. Temos que parar de dar-lhes razão.

Leia também: A economia política da internete

18 de dezembro de 2023

A economia política da internete

Na década de 1990, a web era um território de amadores e diletantes. As empresas geravam receitas através do fornecimento de acesso à internete. Mas, uma vez nela, o comportamento dos usuários corria livremente em espaços que eram, na sua maioria, não comerciais.

Segundo a terminologia de Marx, este seria um período de subsunção formal das atividades desempenhadas nos ambientes em rede. Nele, reinavam os imperativos capitalistas gerais da troca de mercadorias, mas o comportamento individual dos usuários não estava sob controle. Seria o equivalente dos galpões, do início do capitalismo, em que um patrão reunia os trabalhadores, mas estes utilizavam as ferramentas e máquinas seguindo seu próprio ritmo.

Isso mudaria com o parcelamento do trabalho em várias pequenas fases, transferindo o controle do ritmo de trabalho ao empregador. A esse processo Marx chamou de subsunção real do trabalho ao capital. Fenômeno que se aprofundaria com a introdução da linha de montagem.

Essa mudança também corresponde à transição da extração da mais-valia absoluta, baseada na extensão das horas de trabalho, para a extração da mais-valia relativa, em que a intensidade do trabalho aumenta mais que sua duração.

No mundo cibernético, isso se traduziu na transição do tempo gasto na utilização dos dados para o tempo despendido na produção deles. Já não se trata apenas de trocas velozes de informações e publicidade, mas de produção intensiva de likes e compartilhamentos. Estes, por sua vez, geram informações estratégicas valiosas a serem negociadas com gigantescos atacadistas de mercadorias e serviços.

Essas interessantes pistas sobre a economia política da internete estão no livro “Breaking Things at Work”, de Gavin Mueler.

Leia também: Os latifúndios digitais e a dark web

14 de dezembro de 2023

Os latifúndios digitais e a dark web

Internete e web não são a mesma coisa. A internete nasceu descentralizada e livre. A web a centralizou e submeteu aos interesses das grandes empresas de comunicações, publicidade e entretenimento.

Em seu livro “Breaking Things at Work”, Gavin Mueler cita o ativista Tim O’Reilly. Ele foi um dos defensores da criação de programas de código aberto para lutar contra o controle monopolista da internete. Mas o capital inverteu o jogo. Criou o que o próprio O’Reilly chamou de Web 2.0.

Um exemplo claro dessa inovação é a Google. Em vez de oferecer software para os usuários instalarem em seus computadores, a Google fornece serviços remotos utilizando softwares que rodam em seus próprios servidores. São sistemas operacionais de código aberto, mas sob estrito controle da empresa, isolados naquilo que ficou conhecido como “nuvem”.

Desta forma, diz Mueller, a Google pode atuar como intermediário entre nós e nossa experiência online, ao mesmo tempo que coleta nossos dados.

O que aconteceu na prática é que Google, Facebook e similares tornaram-se verdadeiros latifúndios digitais que dizimaram milhões de pequenos serviços da rede mundial e dividiram entre si quase a totalidade do mercado.

Uma resposta a essa situação, afirma o autor, seria a criação da chamada dark web. Um ambiente que foge ao rastreio e à captura de dados da rede dominada pelos monopólios. O problema é que esse espaço clandestino também serve a práticas criminosas e ilícitas. E mesmo quando se trata de atividades legais, prevalece a lógica da troca capitalista de mercadorias.

Criar uma verdadeira resposta ludita anticapitalista a essa situação continua a ser um desafio.

Leia também: O ludismo do software livre

13 de dezembro de 2023

O ludismo do software livre

Gavin Mueller afirma que em vez de destruir máquinas, os hackers as adotaram. Portanto, diz ele em seu livro “Breaking Things at Work”, deveriam ser um dos movimentos menos ludistas do planeta.

Mas, em 1976, sob pressão da indústria de software, a suprema corte estadunidense decidiu que os códigos-fonte de programação estavam sujeitos aos direitos autorais. Em inglês, “copyright”. De repente, copiar era crime.

Compartilhar e copiar códigos tornou-se uma prática essencial na nascente cultura hacker e promoveu uma pedagogia da autonomia e da criatividade. Um dos primeiros e mais influentes exemplos desse tipo de organização foi o movimento do software livre, liderado pelo programador independente Richard Stallman.

Em 1988, Stallman formulou um conjunto de licenças alternativas de software projetado para proteger o compartilhamento aberto do código-fonte. Fazendo um trocadilho, chamou essas licenças de “copyleft”, cuja tradução pode ser tanto “permitida a cópia”, como “cópia de esquerda”.

O software livre é um exemplo de tecnologia ludita, diz Mueller. Uma inovação que procura preservar a autonomia dos trabalhadores contra a imposição de controle sobre o processo de trabalho pelos capitalistas.

No entanto, ressalva o autor, a cultura hacker é frequentemente impregnada de elitismo, efeito colateral infeliz, frequentemente encontrado em culturas artesanais que acabam se tornando meritocráticas. Poucos usuários têm conhecimento técnico para usar suas ferramentas complexas. Menos ainda têm os meios materiais para resistir às reviravoltas cibernéticas promovidas pela indústria da informática.

Uma delas foi a estrutura web. Criada para facilitar o acesso à rede mundial, logo tornou-se instrumento de criação de latifúndios digitais como Microsoft, Facebook, Google etc. Este será o tema da próxima pílula.

Leia também: Na era cibernética, quebrar máquinas “faz muuuito bem!”

12 de dezembro de 2023

Na era cibernética, quebrar máquinas “faz muuuito bem!”

Em seu livro “Breaking Things at Work”, Gavin Mueller afirma que a informatização, mais que uma ferramenta de gestão, transformou os escritórios em um ambiente de vigilância total, levando os trabalhadores “de colarinho branco” a internalizar os ditames do poder.

No entanto, diz ele, nada disso impediu que a resistência dos trabalhadores administrativos assumisse um caráter subversivo centrado, principalmente, na sabotagem às ferramentas eletrônicas.

Com esse espírito surgiu uma revista alternativa chamada “Processed World”, publicada nos Estados Unidos em 1981. Seu foco eram os absurdos dos trabalhos gerenciais que começavam a ser automatizados.

Ficou famoso um artigo publicado na revista intitulado “Sabotagem: o videogame definitivo”. Assinado por uma funcionária cujo pseudônimo era “Gidget Digit”, o texto exaltava as virtudes da quebra das máquinas.

“O desejo de sabotar o ambiente de trabalho”, afirma ela, “é provavelmente tão antigo quanto o próprio trabalho assalariado. Talvez mais antigo”. Digit liga este desejo antigo ao novo aparato tecnológico dos escritórios e seus dispositivos, como terminais de computador e máquinas de fax: “Projetados para controle e vigilância, eles muitas vezes aparecem como a fonte imediata de nossa frustração. Danificá-los é uma forma rápida de desabafar a raiva ou de ganhar alguns minutos extras de valioso descanso”.

Um leitor concordou, escrevendo o seguinte comentário para a revista: “Deixarei para os teóricos discutirem sobre as nuances dialéticas da sabotagem. Basicamente, há uma razão esmagadora para fazer isso: faz você se sentir muuuito bem!”.

Esse “prazer” muito específico, nascido da disciplina sorrateira imposta pela cibernética aos escritórios, pode ter levado muitos trabalhadores administrativos a se tornarem hackers. São os ludistas da era digital.

Leia também: As primeiras formas de ludismo digital

6 de dezembro de 2023

As primeiras formas de ludismo digital

Em outubro de 1969, reunido com representantes da indústria armamentista, o General William Westmoreland revelou a existência de um projeto secreto do Pentágono: no campo de batalha do futuro, as forças inimigas seriam localizadas, rastreadas e alvejadas quase instantaneamente através da utilização de links de dados, avaliação de inteligência assistida por computador e controle automatizado de tiros.

Foi mais um elemento a contribuir para acirrar os ânimos na mobilização contra a Guerra do Vietnã nos Estados Unidos. Um movimento presente no próprio exército estadunidense, com os soldados organizando protestos, recusando-se a lutar e sabotando equipamentos, claro.

Outro estopim foi a repressão da Guarda Nacional contra manifestantes pacifistas no estado de Kent, em 4 de maio de 1970. Quatro mortes e dezenas de feridos geraram grandes revoltas em várias universidades estadunidenses. E os computadores tornaram-se um alvo frequente.

Em 7 de maio daquele ano, estudantes ocuparam por algumas horas o centro de informática da Universidade de Syracuse. Logo depois, após uma semana de protestos, ativistas tomaram conta de um laboratório de informática na Universidade de Wisconsin, destruindo o computador central.

Na Universidade de Nova Iorque, cerca de 150 manifestantes invadiram e ocuparam o laboratório de informática. Eles abandonaram a ocupação dois dias depois, deixando napalm no computador central conectado a um fusível de queima lenta. Dois professores conseguiram desativar o fusível antes que os explosivos detonassem. Mas na Universidade de Stanford, o centro de computação foi incendiado.

Os relatos acima estão no livro “Breaking Things at Work”, de Gavin Mueller. Mostram as formas iniciais do ludismo digital como resistência à exploração e dominação capitalista.

Leia também: Automação e superexploração do trabalho feminino

5 de dezembro de 2023

Automação e superexploração do trabalho feminino

Um dos temas do livro “Breaking Things at Work”, de Gavin Mueller, é a automação do trabalho, que mostra de modo inegável como a tecnologia é utilizada pelo capital para aumentar a exploração dos trabalhadores.

Em muitos casos, diz Mueller, a automação eliminou e precarizou empregos tradicionalmente ocupados por mulheres. É o caso das telefonistas. Integrantes de um setor quase inteiramente feminino, elas lutaram durante décadas contra condições de trabalho cada vez mais mecanizadas, que concentravam cada vez mais o trabalho nas mesas telefônicas para cada vez menos operadoras, ao mesmo tempo em que eliminavam o tempo de inatividade.

Mas esse tipo de inovação, diz o autor, também teve impacto no trabalho não remunerado das donas de casa. As promessas eram de que a tecnologia aliviaria as tarefas delas e aumentaria seu tempo de lazer. Mas a racionalização do trabalho rapidamente se transformou na racionalização da esfera doméstica.

Uma vez que o trabalho doméstico é uma relação de poder patriarcal, a tecnologia capitalista jamais libertou as mulheres de seus pesados, cansativos e repetitivos afazeres. Ao contrário, seu tempo acabou por ser preenchido com mais trabalho doméstico.

Inovações como o fogão a gás e o moedor de farinha libertaram os homens do corte de lenha e da moagem de grãos, permitindo-lhes mais tempo para trabalhar fora de casa. Mas deixaram para trás mulheres mais sobrecarregadas pelo trabalho doméstico.

A introdução da máquina de lavar substituiu a dependência de lavadeiras profissionais. Ocupações remuneradas trocadas pelo trabalho gratuito das donas de casa.

Em todos esses casos, a tecnologia capitalista intensificou ainda mais a exploração do já super-explorado trabalho feminino.

Leia também: A autossabotagem soviética

1 de dezembro de 2023

A autossabotagem soviética

Na Rússia do início do século passado, a equivocada fé nos poderes da ciência e da tecnologia era compartilhada inclusive pelos bolcheviques, diz Gavin Mueller, em seu livro “Breaking Things at Work”.

Importante integrante da vanguarda revolucionária e marxista respeitado, Nikolai Bukharin escreveu que o “modo histórico de produção (...) é determinado pelo desenvolvimento das forças produtivas, ou seja, pelo desenvolvimento da tecnologia”. O problema é que Marx jamais reduziu o conceito de forças produtivas à tecnologia.

Já Lênin, ansioso por aumentar a produtividade na nascente União Soviética, defendia combinar o poder soviético com conquistas do capitalismo como o taylorismo. Em oposição a ele, Alexandre Bogdanov, outra grande liderança bolchevique, acreditava que o taylorismo minaria os objetivos da revolução, forçando os trabalhadores a tarefas repetitivas que causariam a atrofia de suas capacidades críticas e criativas.

Para Stalin, desenvolvimento industrial era sinônimo de socialismo. Outra simplificação grosseira do marxismo, mas que acabou se tornando política de estado, gerando desdobramentos desastrosos como a ideologia stakhanovista, de produção a qualquer custo. Não faltaram protestos, resistência e sabotagens dos trabalhadores alegando que os ideais da Revolução Bolchevique, como a limitação da jornada de trabalho e condições dignas de produção, seriam minados pela devoção fanática ao trabalho.

A adoção de técnicas, métodos e tecnologias capitalistas beneficiaram a economia soviética por algum tempo. Mas foi incapaz de enfrentar a concorrência imposta pela exploração desenfreada promovida pelo capitalismo de mercado.

O regime stalinista chamava a resistência dos trabalhadores nas fábricas de sabotagem contrarrevolucionária. Mas, ao mimetizar a produção capitalista,  o modelo produtivo soviético foi o maior responsável por seu próprio fracasso.

Leia também: A sabotagem como economia política dos trabalhadores

29 de novembro de 2023

A sabotagem como economia política dos trabalhadores

A guerra de guerrilhas desperta a coragem dos indivíduos, desenvolve sua iniciativa, ousadia, determinação e audácia. A sabotagem é para as lutas sociais aquilo que as guerrilhas são para as guerras nacionais. Se conseguir apenas despertar uma parte dos trabalhadores de sua letargia, já se justifica como tática. Mas pode fazer mais. Pode manter os trabalhadores conscientes e os levar a lutar contra os patrões. Isso trará mais ânimo àquela minoria militante que carrega a maior parte do peso das lutas.

As palavras acima são de Walker C. Smith, dirigente da organização sindical estadunidense Trabalhadores Industriais do Mundo (IWW, na sigla em inglês). Ele as escreveu em 1913, no livro “Sabotagem: sua história, filosofia e função”, sem tradução para o português.

O trecho foi citado por Gavin Mueller, em seu livro “Breaking Things at Work”, sobre as práticas de resistência dos trabalhadores à tecnologia capitalista ao longo da história.

Outra militante da IWW citada por Mueller é Elizabeth Gurley Flynn, que no livro “Sabotage”, de 1916, define
esse tipo de resistência como qualquer esforço dos trabalhadores “para limitar sua produção proporcionalmente a sua remuneração”.

A análise de Elizabeth sobre 
a sabotagem foi eminentemente marxista, afirma Mueller. Em vez de ditar a estratégia de cima para baixo, ela defende que é preciso observar o que os trabalhadores estão fazendo, tentando compreender porque é que o fazem. “Não diga a eles se está certo ou errado, mas analise as condições que os levaram a agir como agiram”, disse ela.

Ou seja, sabotagem é a economia política como ferramenta forjada pelos próprios trabalhadores na luta contra sua exploração.

Leia também: O ludismo quebrando as armas do inimigo

28 de novembro de 2023

O ludismo quebrando as armas do inimigo

Em seu livro “Breaking Things at Work”, Gavin Mueller afirma que o próprio Marx chegou a ressaltar a hostilidade dos trabalhadores em relação aos moinhos de água e de vento, desde pelo menos a década de 1630.

Mas Mueller diz que foi o historiador marxista Edward Thompson que melhor abordou as ações de destruição de máquinas promovidas pelos trabalhadores na Inglaterra do século 19. Ele soube compreender aquele que ficou conhecido como movimento ludita a partir de sua situação específica, e não como um mero obstáculo no caminho do progresso.

Quebrar máquinas foi apenas uma das táticas que os luditas utilizaram na estratégia mais ampla que buscava aumentar o poder dos trabalhadores e forjar uma luta comunitária e compartilhada.

A revolta dos luditas não era contra as máquinas em si, mas contra a sociedade industrial que fez da tecnologia uma arma para destruir os tradicionais modos de vida e a resistência dos trabalhadores.

“Dizer que eles se equivocavam ao lutar contra as máquinas é como dizer que um boxeador pode enfrentar seu adversário sem levar em conta seus punhos”, diz o autor.

Os luditas souberam ver que a toda tecnologia é política devendo, em muitos casos, ser combatida. Uma percepção que permeou todos os tipos de movimentos militantes, inclusive, os fora da Europa.

Afinal, nas rebeliões de povos indígenas e escravizados do Novo Mundo os ataques à tecnologia produtiva também podem ser entendidos como parte da história do ludismo, porque o ludismo é essencialmente anticapitalista.

Condenar ou desprezar esse tipo de resistência é como querer se defender de tiros, ignorando as armas que os disparam.

Leia também: Quebrando as coisas no trabalho

27 de novembro de 2023

Quebrando as coisas no trabalho

Lançado em 2021, e ainda sem tradução do inglês, o livro “Breaking Things at Work” pode ter seu título traduzido como “Quebrando as coisas no trabalho”. Nele seu autor, Gavin Mueller, faz um exaustivo estudo sobre a resistência dos trabalhadores às inovações tecnológicas que lhes são prejudiciais, no espírito do que ficou conhecido como ludismo.

Trata-se de um movimento de resistência operária surgido na Inglaterra do século 19, promovendo a destruição de máquinas fabris. Mas segundo Mueller, o livro não é apenas sobre os luditas. Mais do que isso, ele afirma estar "interessado na política por trás do movimento. Política que assumiu uma postura militante em relação à reorganização tecnológica do trabalho empreendida pelos primeiros capitalistas”.

O objetivo do autor é “escavar” uma linha de pensamento dentro da teoria marxista, "voltando ao próprio Marx, para demonstrar que o ludismo é intelectualmente compatível com o marxismo”.

Para Mueller, "ser um bom marxista é também ser um ludita. Embora eu queira transformar os marxistas em luditas, também tenho outro objetivo: quero transformar as pessoas que criticam a tecnologia em marxistas”. Ainda segundo ele, o maior problema da tecnologia é “seu papel na reprodução de hierarquias e injustiças impostas à maioria de nós por proprietários de empresas, chefes e governos”.

A luta anticapitalista, conclui o autor, terá necessariamente as atuais máquinas como alvo, e sua obra pretende documentar os momentos em que isso já aconteceu. Dos primeiros teares mecanizados à automação dos processos de produção. Das sabotagens em linhas de montagem às ações de hackers contra as big techs.

Continuaremos a comentar esse interessante livro nas próximas pílulas.

Leia também: O movimento negro na resistência à automação produtiva