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22 de agosto de 2023

Livros: todo respeito é pouco

Chegou a hora de encerrar os comentários sobre o belo livro “O infinito num junco”, de Irene Vallejo. Nas linhas abaixo a autora revela um otimismo meio raro nos dias atuais, em que a tecnologia atropela quase tudo impiedosamente.

Quando comparamos algo velho e algo novo – como um livro e um tablet, ou uma freira sentada ao pé de uma adolescente que está a falar num chat no metrô –, acreditamos que o novo tem mais futuro. Na verdade, acontece o contrário. Quantos mais anos leva um objeto ou um hábito entre nós, mais futuro tem. O mais novo, em média, perece antes. É mais provável que no século 22 existam freiras e livros do que WhatsApp e tablets. No futuro haverá cadeiras e mesas, mas telas de plasma ou celulares talvez não. Continuaremos a celebrar com festas o solstício de inverno quando já tivermos deixado de torrar com os raios ultravioletas. (...) Muitas tendências que nos parecem inquestionáveis – desde o consumismo desenfreado até às redes sociais – abrandarão. E velhas tradições que nos acompanham há muitos anos – desde a música até à procura da espiritualidade
– nunca partirão


(...)

Não subsistem tantos artefatos milenares entre nós. São sobreviventes difíceis de desalojar (a roda, a cadeira, a colher, a tesoura, o copo, o martelo, o livro…). Há algo no seu design básico e na sua depurada simplicidade que já não admite melhorias radicais.

(...)

Por isso, perante a catarata de previsões apocalípticas sobre o futuro do livro, eu digo: um pouco de respeito.

Só uma observação. Um pouco, não. Muito. Porque respeito aos livros nunca é demais.

Leia também: Bibliotecárias a cavalo nos rincões estadunidenses

16 de agosto de 2023

Bibliotecárias a cavalo pelos rincões estadunidenses

Um pequeno exército de cavalos e mulas aventurava-se todos os dias pelas encostas e desfiladeiros dos montes Apalaches, com os alforjes carregados de livros. A maioria das montarias carregavam mulheres. Eram bibliotecárias a cavalo. Amazonas das letras. Circulavam por lugares como o interior do Kentucky, com seus vales isolados, habitados por famílias pobres.

Elas participavam de um projeto federal que era parte do New Deal, programa criado pelo governo Roosevelt, em 1933. O objetivo era combater o desemprego e outras mazelas econômicas causadas pela quebra das bolsas de 1929. Mas entre as prioridades do programa estava a diminuição do analfabetismo através de amplas doses de cultura financiada pelo Estado.

Era um serviço público que buscava favorecer a leitura nas regiões mais remotas do país. Obras clássicas puseram leitores novatos em contato com um tipo de magia que sempre lhes tinha sido negado. Os estudantes liam-nos aos seus pais analfabetos. Um jovem disse a uma das bibliotecárias: “Os livros que nos trouxeste salvaram nossa vida”. O programa empregou quase mil bibliotecárias durante uma década. O financiamento terminou em 1943, quando o programa foi encerrado e a Guerra Mundial substituiu a cultura como antídoto face ao desemprego.

As informações acima são do livro “O infinito num junco”, de Irene Vallejo. Com certeza, um relato bonito. Mas que também mostra o tamanho do impacto da crise econômica dos anos 1930 nos Estados Unidos e a ameaçadora sombra da Revolução Russa, que, quase duas décadas depois de sua eclosão, ainda apavorava as burguesias no mundo todo.

Livros salvam vidas, sem dúvida. Mas, neste caso, ajudaram a salvar o capitalismo também.

Leia também: Os fios de Penélope, Ariadne, Xerazade, Irene...

8 de agosto de 2023

Os fios de Penélope, Ariadne, Xerazade, Irene...

Por mais de 20 anos, Penélope esperou Ulisses voltar de Troia. Nunca duvidou de que seu marido retornaria. Quando seu pai pediu que se casasse novamente, ela concordou, mas somente após acabar de tecer uma manta. Ela passava os dias trabalhando no tear e, à noite, desmanchava o que havia feito.

Segundo Irene Vallejo, em seu livro “O infinito num junco”, a artimanha de Penélope não é só uma metáfora da fidelidade amorosa. Segundo ela, “a mente é um grande tear de palavras” e “desde tempos remotos, as mulheres foram as primeiras a expressar o Universo como malha e como redes. Seguravam com nós as suas alegrias, ilusões, angústias, terrores e crenças mais íntimas. Tingiam a monotonia de cores. Entrelaçavam verbos, lã, adjetivos e seda. É por isso que os textos e os tecidos partilham tantas palavras: a trama do relato, o nó do argumento, o fio de uma história, o desenlace da narração; puxar o fio da meada, alinhavar uma história, urdir uma intriga. É por isso que os velhos mitos nos falam da mortalha de Penélope, das túnicas de Nausíca, dos bordados de Aracne, do fio de Ariadne, da linha da vida que as moiras fiavam, da tela dos destinos que as nornas cosiam, do tapete mágico de Xerazade”.

“Escrevo porque não sei coser, nem fazer malha; nunca aprendi a bordar, mas fascina-me a delicada urdidura das palavras. Conto as minhas fantasias enoveladas com sonhos e recordações. Sinto-me herdeira dessas mulheres que, desde sempre, fizeram e desfizeram histórias. Escrevo para que não se quebre o velho fio de voz”, arremata nossa talentosa tecelã.

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4 de julho de 2023

Quando escrita e memória resgatam-se uma à outra

“Fahrenheit 451” é um famoso livro de Ray Bradbury sobre um mundo distópico, em que todos os livros são queimados. Para salvá-los, heroicos voluntários passam a decorar o conteúdo integral de exemplares que escaparam da fogueira.

Em seu livro “O Infinito num Junco”, Irene Vallejo afirma que algo parecido aconteceu na China. Foi no século 3, quando o imperador Qin Shi Huang ordenou que fossem queimados todos os livros. Ele queria que a história começasse com seu reinado e pretendia abolir tudo o que veio antes dele.

Felizmente, décadas depois, já sob uma nova dinastia, foi possível reescrever muitos daquelas obras perdidas. Correndo riscos inacreditáveis, escribas tinham conservado na memória livros inteiros, em segredo, ao abrigo da guerra, das perseguições e das fogueiras.

No século 20, durante o período stalinista, afirma nossa autora, amigos de Anna Akhmátova memorizaram poemas do seu livro “Réquiem”, à medida que era escrito, para preservá-lo caso algo acontecesse a sua autora.

A escrita e a memória não são adversárias, diz Irene. Na verdade, ao longo da história, salvaram-se uma à outra: as letras resguardam o passado; a memória, os livros perseguidos.

Por outro lado, explica ela, a escrita permitiu criar uma linguagem complexa que os leitores podem assimilar e sobre a qual meditam com mais tranquilidade. Além disso, desenvolver um espírito crítico é mais simples para quem tem um livro na mão, podendo interromper a leitura, reler e parar para pensar.

Com essas belas reflexões de Irene Vallejo, as pílulas entram em breves férias, esperando que continuemos na resistência contra a amnésia e as fogueiras.

Lei também: O labirinto da internete e seus minotauros

30 de junho de 2023

O labirinto da internete e seus minotauros

“O Infinito num Junco” é um ótimo livro de Irene Vallejo. Conta a história dos livros e os primeiros deles de que se tem registro eram feitos de papiro, um junco vegetal que nascia nas margens do Nilo, no Egito Antigo.

Em certo momento, Irene cita um conto de Jorge Luis Borges chamado “A Biblioteca de Babel”. Nele, diz a autora, existe uma biblioteca que conta com um catálogo verdadeiro, mas muitos milhares de catálogos falsos. Seus frequentadores dominam apenas um par de línguas e seu tempo de vida é breve. Portanto, as probabilidades de que alguém localize na imensidão do acervo o livro que procura, ou simplesmente um livro compreensível para si, são muito pequenas.

Desse modo, afirma ela, ninguém consegue ler realmente. Entre a esgotante abundância de páginas ao acaso, extingue-se o prazer da leitura. Todas as energias se consomem na procura e na decifração.

Aos leitores de hoje, afirma nossa autora, a biblioteca de Babel fascina como uma alegoria profética do mundo virtual, do excesso da internete. Dessa gigante rede de informações e textos, filtrada pelos algoritmos dos motores de pesquisa, onde nos perdemos como fantasmas num labirinto.

Timothy John Berners-Lee, cientista que idealizou a Web, inspirou-se no espaço ordenado e ágil das bibliotecas públicas, lembra Irene. Cada documento virtual tem um endereço único que pode ser alcançado de outro computador. A internete é uma emanação das bibliotecas, diz ela.

Berners-Lee viria a lamentar que sua inovação tivesse se transformado nesse emaranhado de caminhos sem saída. Mas é pior que isso. Tais labirintos passaram a abrigar criaturas mais terríveis que o mitológico Minotauro.

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