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27 de novembro de 2024

Reprodução social e expropriação capitalista

Marx chamou de expropriação ao processo que separa pessoas e comunidades dos recursos e instrumentos necessários para sua subsistência.

Um exemplo clássico de expropriação foi a expulsão dos camponeses europeus de suas terras comunais, obrigando-os a vender sua força de trabalho aos capitalistas. Outro foi a escravização de negros e indígenas, transformados em mão de obra barata e abundante, utilizada, especialmente, nas grandes plantações das colônias americanas.

Mas é um grande equívoco pensar que a principal fase da expropriação capitalista ficou para trás, uma vez que a grande maioria dos camponeses já foi expropriada e a escravidão legalizada foi extinta.

Como diz Nancy Fraser, em seu livro “Capitalismo Canibal”, a expropriação é um mecanismo contínuo de acumulação e permanece como condição importante para a viabilização da exploração capitalista. A questão é que assumiu formas não reconhecidas. Tarefas domésticas e cuidados familiares, por exemplo, não costumam ser remunerados. Ainda assim, é trabalho imprescindível para o processo de geração da mais-valia capitalista.

A divisão entre produção econômica e reprodução social surgiu com o capitalismo. Essa separação sustenta as modernas formas de subordinação das mulheres e a importância social do trabalho delas fica não apenas obscurecida, como mistificada pelo conservadorismo. Reproduzir a família é muitas vezes considerado uma obrigação religiosa. Mas o deus a que serve é o do capital.  

Algo semelhante, diz Nancy, ocorre na apropriação destrutiva da natureza e na “captura forçada e contínua da riqueza de povos subjugados”. Tais relações são igualmente tratadas como elementos externos às relações entre capital e trabalho.

Mas essas outras esferas da vida humana serão tema da próxima pílula.

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2 de outubro de 2024

O efeito estufa e o sufocamento machista

Eunice Newton Foote foi uma cientista e militante feminista estadunidense. Foi a primeira pesquisadora a concluir que certos gases aqueciam quando expostos à luz solar, e que o aumento dos níveis de dióxido de carbono mudaria a temperatura atmosférica, podendo afetar o clima. Um fenômeno conhecido atualmente como efeito estufa.

Falecida em 1888, suas contribuições caíram no esquecimento por mais de cem anos. Até o século 21, a descoberta do efeito de estufa era atribuída a John Tyndall. Mas Eunice publicou os resultados de sua pesquisa em 1856, três anos antes de Tyndall divulgar seu trabalho. Sendo que Eunice nem era uma cientista profissional, realizando seus experimentos movida pela curiosidade e guiada por seu talento.

Nascida em Connecticut, Eunice foi criada em Nova York, centro dos movimentos sociais e políticos da época, como o abolicionismo e a luta por direitos para as mulheres. Em 1848, participou da Convenção de Seneca Falls, a primeira sobre direitos das mulheres realizada nos Estados Unidos. Eunice e Elisha, seu marido, foram signatários da Declaração de Sentimentos aprovada no evento, exigindo direitos sociais e legais iguais aos dos homens, incluindo o direito ao voto.

As informações acima são da Wikipedia. Como se pode ver, não bastassem graves problemas como aquecimento global e negacionismo climático e científico, ainda há o sufocamento machista imposto às mulheres. É desse modo que se asfixia a inteligência de metade da humanidade para preservar os mitos sobre a superioridade intelectual masculina.

Como disse, certa vez, o educador Mario Sérgio Cortella: “O contrário do machismo não é o feminismo. O contrário do machismo é a inteligência”.

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19 de março de 2024

Alexandra Kollontai contra as feministas burguesas

Alexandra Kollontai foi a primeira mulher a integrar o alto escalão de um governo. Nada menos que o governo bolchevique. Sua trajetória mostra a importância do papel feminino no processo revolucionário russo.

Em “As Bases Sociais da Questão Feminina”, documento publicado em 1909, ela diferencia claramente as feministas das operárias:

O mundo das mulheres está dividido, tal como o mundo dos homens, em dois campos: os interesses e aspirações de um grupo de mulheres aproximam-no da classe burguesa, enquanto o outro grupo tem ligações estreitas com o proletariado e as suas reivindicações de libertação abrangem uma solução completa para a questão da mulher. Por mais aparentemente radical que sejam as demandas das feministas, não se deve perder de vista o fato de que elas não podem, tendo em conta a sua posição de classe, lutar pela transformação fundamental da estrutura econômica e social contemporânea da sociedade, sem a qual a libertação das mulheres não pode ser completada.

Claro que muita coisa mudou nesse debate, desde então. Mas a revolução que Alexandra ajudou a construir trouxe medidas radicais e inéditas de emancipação feminina. Aboliu, por exemplo, a inferioridade legal das mulheres e extinguiu a obrigatoriedade do casamento religioso. Simplificou o divórcio e ampliou a garantia do pagamento de pensões alimentícias. Remuneração igual para trabalho igual entre mulheres e homens também ganhou força de lei.

Mais tarde a reação conservadora stalinista viria a enterrar muitas dessas conquistas. Mas elas nunca deixaram de servir como referência fundamental para a luta das mulheres em todo o mundo. Alexandra é mais uma personagem do livro “Parteiras da Revolução”, de Jane McDermid.

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13 de março de 2024

Parteiras muito radicais da revolução

Em seu livro “Parteiras da Revolução”, Jane McDermid dedica um capítulo a mulheres militantes radicais que atuaram durante o processo revolucionário russo do começo do século 20. Entre elas, estava Vera Zasulich.

Na juventude, Vera abraçara o terrorismo dos populistas russos. Em 1878, atentou contra a vida do governador de São Petersburgo. Inesperadamente absolvida, ela fugiu para Genebra para escapar a novas prisões. Na capital suíça, aderiu ao marxismo, abandonando as ações violentas.

Vera considerava o feminismo divisionista e as concepções partidárias de Lenin elitistas. Para ela, a tomada do poder pelos sovietes em outubro de 1917 foi prematura. Apesar disso, sempre foi muito respeitada pelos bolcheviques.

Outra figura feminina radical era Ekaterina Breshko-Breshkovskaia. Integrante dos Socialistas Revolucionários (SRs), organização de esquerda adversária dos bolcheviques, era contrária às orientações da direção de seu partido, que condenava ações violentas. Defendia a necessidade de pegar em armas contra o Estado.

Maria Spiridonova também foi uma militante dos SRs que contrariava seus dirigentes, defendendo o assassinato de autoridades do regime czarista. Em 1907, ao tentar matar um guarda carcerário enquanto estava presa, foi condenada à morte. Aceitou sua execução como forma de dar novo impulso à luta. Mas a sentença foi anulada e ela passou dez anos na Sibéria.

Em 1917, presidiu o Primeiro Congresso dos Sovietes Camponeses. Apesar de rejeitar o marxismo, aliou-se aos bolcheviques na Revolução de Outubro. Acabou voltando ao terrorismo, ao tentar matar o embaixador alemão na Rússia, em julho de 1918.

Mas o stalinismo não poupou sua rebeldia. Maria desapareceu por volta de 1937, provavelmente executada por ordem de um tribunal militar soviético.

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7 de março de 2024

As parteiras da revolução

O livro é “Midwives of the Revolution: Female Bolsheviks and Women Workers in 1917”. Ainda sem edição em português, seu título pode ser traduzido como “Parteiras da Revolução: Mulheres Bolcheviques e Mulheres Trabalhadoras em 1917”.

A autora, Jane McDermid, decidiu chamar as revolucionárias russas de parteiras porque elas “estiveram presentes no nascimento da nova ordem, mas não se limitaram a entregá-la aos revolucionários profissionais, tendo sido fundamentais nas fases finais do parto. O modo como a nova ordem se desenvolveu posteriormente e o desempenho das parteiras não deve obscurecer o papel crucial que desempenharam tanto na gestação como no nascimento”.

A autora cita como exemplo um artigo das irmãs de Lênin, Ana e Maria, publicado no Pravda em 5 de Março de 1917. Segundo o relato delas:

No Dia da Mulher, 23 de Fevereiro, foi declarada greve na maioria das fábricas. As mulheres estavam animadas de um espírito muito militante. E não apenas as trabalhadoras, mas também as que estavam nas filas do pão. Elas realizaram reuniões políticas. Eram a maioria nas ruas. Deslocavam-se pela cidade exigindo pão dos governantes. Paravam os bondes e gritavam aos passageiros: “Camaradas, saiam!”. Foram de fábrica em fábrica, convocando os trabalhadores a cruzarem os braços. Em suma, o Dia da Mulher foi um tremendo sucesso e deu origem ao espírito revolucionário.

23 de fevereiro correspondia a 8 de março no calendário ocidental. E o que as irmãs Ulianov relataram foram as manifestações do Dia Internacional da Mulher se transformando nas primeiras dores do parto da revolução que ocorreria meses depois, em outubro. As parteiras eram imprescindíveis e estavam na vanguarda.

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8 de agosto de 2023

Os fios de Penélope, Ariadne, Xerazade, Irene...

Por mais de 20 anos, Penélope esperou Ulisses voltar de Troia. Nunca duvidou de que seu marido retornaria. Quando seu pai pediu que se casasse novamente, ela concordou, mas somente após acabar de tecer uma manta. Ela passava os dias trabalhando no tear e, à noite, desmanchava o que havia feito.

Segundo Irene Vallejo, em seu livro “O infinito num junco”, a artimanha de Penélope não é só uma metáfora da fidelidade amorosa. Segundo ela, “a mente é um grande tear de palavras” e “desde tempos remotos, as mulheres foram as primeiras a expressar o Universo como malha e como redes. Seguravam com nós as suas alegrias, ilusões, angústias, terrores e crenças mais íntimas. Tingiam a monotonia de cores. Entrelaçavam verbos, lã, adjetivos e seda. É por isso que os textos e os tecidos partilham tantas palavras: a trama do relato, o nó do argumento, o fio de uma história, o desenlace da narração; puxar o fio da meada, alinhavar uma história, urdir uma intriga. É por isso que os velhos mitos nos falam da mortalha de Penélope, das túnicas de Nausíca, dos bordados de Aracne, do fio de Ariadne, da linha da vida que as moiras fiavam, da tela dos destinos que as nornas cosiam, do tapete mágico de Xerazade”.

“Escrevo porque não sei coser, nem fazer malha; nunca aprendi a bordar, mas fascina-me a delicada urdidura das palavras. Conto as minhas fantasias enoveladas com sonhos e recordações. Sinto-me herdeira dessas mulheres que, desde sempre, fizeram e desfizeram histórias. Escrevo para que não se quebre o velho fio de voz”, arremata nossa talentosa tecelã.

Leia também: A escrita, os livros e outros apêndices humanos

18 de julho de 2022

Sobre abortos clandestinos e estupros diplomados

No artigo “Hipocrisia”, publicado no portal “A Terra é Redonda”, a psicanalista e escritora Maria Rita Kehl aborda a questão do direito ao aborto.

Ela argumenta, por exemplo, que considerar o feto uma vida humana não faz sentido. Afinal, afirma, a sociedade não dispensa ao embrião que sofreu aborto espontâneo “os rituais religiosos, orações e sepultamento digno”, que seriam devidos “à forma de vida incipiente que, acidentalmente, se perdeu”.

Ainda segundo Maria Rita, não se trata de defender sacramentos religiosos “para os embriões perdidos por abortos espontâneos”. Mas de “argumentar contra a carolice hipócrita de quem condena o aborto incondicionalmente”.

“Sou obrigada a ser rude, continua ela, por falta de um bom jeito de nomear o que se faz, nas choupanas mais pobres e nos mais caros hospitais, com o embrião de poucas semanas expulso do corpo da mãe por um aborto espontâneo: ele é jogado no lixo.”

O texto foi escrito antes do escândalo envolvendo os terríveis crimes do anestesista estuprador no Rio de Janeiro. Mas serve para colocar em evidência as condições em que ocorrem anualmente os milhares de abortos clandestinos.

Afinal, se nem mesmo intervenções médicas legalizadas estão livres das piores violências contra as mulheres, o que esperar de clínicas que realizam interrupções de gravidez à margem da lei?

A articulista encerra afirmando que o “machão carola que condena o aborto com frequência é o mesmo que abandonou mulher e filhos e desaparece para não ter que conceder a pensão prevista em lei”.

Mas também podem ser aqueles que se sentem autorizados a cometer os crimes mais hediondos porque são diplomados.

Leia também: A Bíblia, o aborto, a homossexualidade

25 de janeiro de 2021

Engels: de mulherengo a feminista

O bicentenário de nascimento de Engels ficou para trás. Mas a estatura do grande parceiro de Marx continua a merecer celebração.

Voltamos ao livro “Comunista de Casaca”, de Tristram Hunt, para mostrar a contribuição do biografado para a luta feminista. Nas palavras do autor, de “maneira um tanto inesperada, o mulherengo Engels acabou sendo o responsável pelo texto de fundação do feminismo socialista”.

Trata-se do livro “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, publicado em 1884. Nele, Engels afirma, por exemplo que:

De acordo com a concepção materialista, o fator determinante na história é, em última instância, a produção e reprodução da vida imediata.

Ou seja, diz o biógrafo, Engels colocou a produção feminina da vida humana no mesmo plano teórico que o da produção dos meios de existência. Seu próximo movimento foi “historicizar a forma familiar, mostrando sua natureza fluida ao longo das épocas anteriores e apontar para sua futura encarnação sob o governo comunista”. Assim como o proletariado precisava entender que o capitalismo era um estado transitório, afirma Hunt, as mulheres podiam alimentar a esperança de que as atuais desigualdades de gênero seriam um interlúdio passageiro.

“O primeiro antagonismo de classes que apareceu na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre homem e mulher na monogamia; e a primeira opressão de classes, com a opressão do sexo feminino pelo masculino", declarou Engels.

Os escritos de Engels sobre a família, conclui Hunt, foram uma contribuição significativa para toda uma geração de feministas marxistas, com sua influência adentrando o século vinte.

Parece que, aos 64 anos, Engels, o mulherengo, tomou algum juízo.

Leia também: Engels, um grande festeiro

23 de junho de 2020

Fantifas: as feministas antifascistas

Em seu livro “Antifa - O Manual Antifascista”, Mark Bray alerta para o que diz Dag, um militante antifascista norueguês: “Sempre que a violência faz parte da luta política, você terá problemas com machismo”.

Dag exemplifica citando problemas ocorridos nas cidades de Oslo e Trondheim, onde alguns grupos antifascistas se aliaram a torcedores violentos e apolíticos de futebol para combater os nazistas. Um tipo de aliança que, segundo ele, frequentemente descambava para a violência machista.

Daí a importância de destacar o papel das mulheres antifascistas, diz Bray. Dolores C., de Estocolmo, é uma delas. Ela lembra que sempre que as mulheres batiam nos nazistas suecos, eles não só mentiam, dizendo que foram homens, como começaram a se esconder para não passar por nova humilhação.

Já a militante Maya, da região central do Texas, diz que ela e suas companheiras costumavam se aproveitar de uma regra não escrita entre os texanos, segundo a qual se um homem põe uma mão em uma mulher, ela “fica livre para partir pra porrada sem ser punida por isso”.

Desse modo, as antifascistas texanas começaram a “explorar a misoginia dentro de uma cultura mais ampla”. Elas levavam homens fascistas a empurrá-las, dando-lhes oportunidade para liberar sua fúria antes que a polícia levasse os homens embora.

De acordo com Maya, nenhuma de suas companheiras antifas foi presa no Texas, exceto uma, que passou uma noite na cadeia depois de arrancar a mordidas um pedaço da orelha de um nazista.

A partir desse tipo de atuação, surgiram coletivos feministas conhecidos como “fantifas”. Um viva pra elas! E um “morram” vocês sabem pra quem...

Leia também: Fascista bom é fascista amordaçado

21 de novembro de 2019

Mulheres negras da família Liberdade

A historiografia costuma encontrar sérios problemas quando se trata de coletar dados biográficos sobre mulheres consideradas importantes. A adoção dos sobrenomes de seus maridos muitas vezes torna muito difícil o levantamento de sua história pessoal. Mesmo as mais destacadas, acabam tendo sua individualidade soterrada pela dos homens com quem conviviam.

Se isso é verdade para mulheres de origem europeia, imagine para as não brancas. Pior ainda, se elas foram personagens extraordinárias na luta e resistência de povos escravizados, como os negros e indígenas. Grandes exemplos dessa situação são Aqualtune, Dandara e Luiza Mahin.

Aqualtune frequentemente é descrita como mãe de Ganga Zumba e avó de Zumbi dos Palmares. Mas há razões para acreditar que, muito além disso, ela foi a principal figura na fundação e organização do mais famoso quilombo. Inclusive, do ponto de vista militar.

Dandara também é apontada como esposa de Zumbi. Dificilmente, ela deve ter desempenhado somente esse papel menor. Certamente, mais que mulher de um líder, ela exerceu papel fundamental à frente de uma grande comunidade sob forte cerco dos escravocratas.

Por fim, Luiza Mahin costuma ser identificada como a mãe do grande escritor abolicionista Luiz Gama. No entanto, ela participou ativamente da Revolta dos Malês, na Bahia, em 1835. E pela perseguição que sofreu, muito provavelmente, exerceu funções de direção do movimento.

Há quem diga que a exatidão científica sobre a vida dessas mulheres jamais poderá ser estabelecida. É provável que não. Afinal, é isso que interessa à ciência dos dominadores. Mas a verdade que elas representam está consolidada pelas lutas de que participaram. O sobrenome delas é Liberdade.

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15 de outubro de 2019

Amor ou trabalho não pago?

Silvia Federici é uma feminista marxista que tem coisas duras a dizer sobre a dominação masculina. Mas não tão duras como a vida da grande maioria das mulheres sob o capitalismo.

Italiana naturalizada estadunidense, uma de suas preocupações principais é o trabalho doméstico. Na verdade, trabalho gratuito, cujo principal produto é força de trabalho destinada à exploração pelos capitalistas. Na visão destes, as mulheres não passam de “fábricas de crianças”.

Para manter essa “produção”, elas trabalham fora de casa, mas não param de fazer o trabalho doméstico. Em entrevista à Folha publicada em 14/10/2019, afirma que as mulheres trabalham:

...à noite, de manhã cedo, aos domingos. (...). Trabalham cuidando de todo mundo, da casa, ajudando as pessoas a viver e ajudando as pessoas a morrer.

Por isso, diz ela, as “mulheres nunca se aposentam”. E quem se beneficia disso são “todos os empregadores”.

Para Silvia, até o sexo é parte do trabalho doméstico:

Não importa o quão cansada esteja, se é casada e seu marido quer fazer sexo, muitas de nós faremos sexo. Se dissermos não, muitas vezes eles nos obrigam. O que eles chamam de amor, nós chamamos de trabalho não pago.

Quanto aos que são contra o direito ao aborto:

Essas pessoas só se importam com a vida do feto, porque elas não têm de pagar por ele, porque está na barriga da mãe, mas quando nasce, e precisa de cuidados, aí elas não se importam.

É assim que sexo e maternidade tornam-se funções brutalizadas de uma sociedade que reserva apenas fábricas e prisões como destinos para a maioria explorada e oprimida.

Leia também: Luta feminista e reprodução social

26 de setembro de 2019

Luta feminista e reprodução social

A luta das mulheres pelos direitos reprodutivos não deveria ser somente sobre não ter filhos, mas também sobre dar-lhes a luz e criá-los com dignidade.

Este é um dos aspectos abordados em um texto de Tithi Bhattacharya sobre reprodução social. Feminista marxista, ela também assina o manifesto “Feminismo para os 99%”, junto com Cinzia Arruza e Nancy Fraser.

Mais trechos:

As principais funções que reproduzem a classe trabalhadora ocorrem fora do local de trabalho.

Quem entende melhor este processo? O capitalismo. Este é a razão pela qual o capitalismo ataca brutalmente a reprodução social para ganhar a batalha na produção. É por isso que ataca os serviços públicos, empurra a carga de cuidados para as famílias individuais, reduz o cuidado social para fazer com que toda a classe trabalhadora seja vulnerável e menos capaz de resistir aos seus ataques no local de trabalho.

Quem mais entende este processo? Os marxistas revolucionários. É por isso que podemos ser o vínculo entre a esfera da reprodução, a comunidade onde a escola está sendo fechada, o lar onde a mulher é submetida à violência; e a esfera da produção, onde lutamos por benefícios e por salários mais altos.

(...)

...a opção reprodutiva não pode ser só sobre o controle dos nossos ovários. Trata-se de controlar nossas vidas: se queremos ter filhos, quando tê-los, quantos ter, o tempo para cuidar deles, que existam escolas públicas para recebê-los, que nem eles nem seus pais estejam atrás das grades e o mais importante, receber um salário decente para poder tomar decisões sobre todas essas coisas.

Aqui, a íntegra do texto. Leitura obrigatória.

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7 de maio de 2019

Clara Zetkin e a luta antifascista

Clara Ketkin foi uma das lideranças mais importantes da luta revolucionária do século passado.

Junto com Rosa Luxemburgo e Eleanor Marx, foi uma das pioneiras do feminismo socialista radical.

Também apoiou Lênin e a Revolução Russa contra seus próprios companheiros de partido, na Alemanha.

Mas sua luta mais importante foi contra o fascismo. Em 1932, os nazistas alemães estavam em plena ascensão. Nas eleições daquele ano, chegaram a 37,4% dos votos contra 2,6%, em 1928.

Em julho de 1932, aconteceria a abertura dos trabalhos do parlamento. Clara, sendo a mais antiga parlamentar, tinha o direito de fazer o discurso da primeira sessão.

A imprensa nazista disparou terríveis insultos contra ela e a ameaçou de agressão durante seu pronunciamento. Mas, aos 74 anos, muito fraca, sujeita a desmaios e quase cega, Clara subiu à tribuna ajudada por seus camaradas de partido.

Diante de um plenário apinhado de deputados nazistas vestindo uniformes da SA e da SS, ela iniciou seu discurso centrado na necessidade de esmagar o fascismo:

Todas as diferenças que nos dividem e nos bloqueiam - sejam políticas, sindicais, religiosas ou ideológicas - devem ceder diante dessa imperiosa necessidade histórica.

Mas as alianças não incluíam qualquer setor não alinhado ao fascismo. Segundo Clara, a precondição urgente e indispensável para participar dessa frente unida era “o combate ao modo de produção capitalista”.

Tratava-se de uma posição oposta à linha estalinista ditada em Moscou, que considerava socialdemocratas e nazistas farinha do mesmo saco. Um erro que facilitaria muito a ascensão de Hitler ao poder.

Continuaremos a destacar a luta antifascista de Clara Zetkin nas próximas pílulas.

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8 de março de 2019

Dominação masculina sempre houve. Mas pode acabar

Há uma crença generalizada na esquerda de que dominação masculina, machismo, sexismo, nasceram com a sociedade de classes. Antes dela, haveria razoável equilíbrio entre os sexos. Alcançado o fim da sociedade sem classes, portanto, a opressão sobre as mulheres também acabaria.

Esta ideia deve a sua força a alguns escritos de Marx e Engels. Este último, principalmente, já que em “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, ele chega a afirmar que o conflito entre os sexos seria desconhecido “durante toda a pré-história”.

Novos estudos mostram que não é bem assim. Eles estão resumidos num recente livreto de Christophe Darmangeat. O antropólogo marxista francês basicamente conclui que a dominação masculina sempre foi a regra. Na melhor das hipóteses, em algumas sociedades e épocas o desequilíbrio entre os sexos mostrou-se apenas menor.

Ao mesmo tempo, afirma, a ideia de que deve haver uma igualdade entre mulheres e homens somente surgiu sob o capitalismo. Este seria o primeiro sistema econômico em que as características concretas dos produtores de mercadorias, como sua identidade sexual, se fundem e dissolvem, subsistindo apenas a quantidade de trabalho humano que elas encarnam. No capitalismo, dinheiro é dinheiro. Não tem sexo.

“Salário igual para trabalho igual!”. Para Darmangeat, esta reivindicação fundamental das mulheres trabalhadoras exprime essa necessidade histórica da maneira mais clara possível.

Tais desdobramentos, por si mesmos, diz ele, não eliminam a divisão sexual do trabalho. Mas criam as condições para a sua desaparição.

Fazer acontecer é a tarefa que nos cabe. A todas e todos.

A publicação é sintética e muito didática. Pode ser baixada aqui.

Leia também:
O proletariado nasceu mulher

7 de dezembro de 2018

As feministas que leem Marx não estão contentes

Um belo texto de Laura Fernández Cordero sobre a obra de Marx e o feminismo está disponível no portal da Unisinos. Doutora em Ciência Sociais pela Universidade de Buenos Aires, ela afirma ser um “veredicto muito infeliz” dizer que Marx era "cego ao gênero".

Laura começa por descrever Marx como:

...o marido da abnegada Jenny, companheira no caminho do exílio e da miséria. O obstinado por um empreendimento revolucionário, que estava sempre acima de sua família. Aquele que, apesar do anacronismo, mereceria a acusação homofóbica. Aquele que fez teoria sobre a situação das mulheres em termos antropológicos, históricos e políticos. E também aquele Marx que acompanhou o crescimento de três filhas e escritoras políticas e, quando isso não era comum, levou a sério o questionamento de uma mulher (sabe-se que foram necessários muitos rascunhos para responder Vera Zasúlich sobre a viabilidade de uma revolução na atrasada Rússia czarista).

Exatamente por isso, diz ela, havia mulheres que prestavam atenção ao que ele fazia. Foram elas que “tiraram-lhe as barbas junto com outros feminismos não marxistas”. “Traduziram a dominação patriarcal em teorias, em conceitos, em revoluções pessoais, em práticas políticas”. Seriam:

Laboriosas mineiras dessa mina falaciosa que é a "natureza humana". Escavadoras que perfuraram o solo tranquilo do Ocidente viril, assim como aquela velha escavação da revolução que Marx esperançava.

Estariam ajudando a promover “uma revolução da subjetividade que, longe do novo homem, continua a pôr em xeque a tão mencionada universalidade do humano”.

Afinal, conclui Laura, Marx “não era um conciliador, nem um cara gentil. Ele não estava contente. Nós feministas que lemos Marx também não estamos”.

Leia também: Os preconceitos raciais de Marx

3 de outubro de 2018

O proletariado nasceu mulher

Sobre a presença feminina entre os setores explorados merece destaque um trecho do livro “Marx estava certo”, de Terry Eagleton:

...o proletariado original não era a classe operária, mas as mulheres de classe baixa na sociedade antiga. O termo “proletariado” vem da palavra latina “prole”, referindo-se àquelas que eram pobres demais para servir ao Estado com algo além de que seus úteros. Desprovidas para contribuir para a vida econômica de qualquer outra forma, essas mulheres produziam mão de obra na forma de filhos. Nada tinham para entregar, salvo o fruto de seus corpos. O que a sociedade demandava delas não era produção, mas reprodução. O proletariado começou a vida entre os alijados do processo de trabalho, não entre os que faziam parte dele (...). Hoje, na era das “sweatshops” do Terceiro Mundo e do trabalho agrícola, a proletária típica continua a ser a mulher. O trabalho colarinho-branco, que na época vitoriana era desempenhado, em sua maioria, por homens da classe média baixa, hoje se encontra, basicamente, confinado a mulheres, que, em geral, recebem menos do que operários braçais sem qualificação. Foram elas, também, que em grande parte preencheram as vagas decorrentes da enorme expansão das atividades em lojas e escritórios, surgidas com o declínio da indústria pesada após a Primeira Guerra Mundial. Na própria época de Marx, o maior grupo de trabalhadores assalariados não era a classe operária industrial, mas a dos empregados domésticos, dos quais a maioria era formada por mulheres.

Essa enorme importância jamais se viu representada na mesma proporção em nossas “vanguardas”. Ajuda a explicar porque tanta coisa vem dando tão errado.

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3 de agosto de 2018

7.500 compositoras brasileiras e seus parasitas

Dificilmente uma pessoa que não seja muito especializada seria capaz de utilizar todos os dedos das mãos para enumerar quantas compositoras brasileiras conhece. Por isso, o número exposto no título acima parece tão surpreendente.

Ele é produto da pesquisa de pós-doutorado "Cartografias da Canção Feminina – Compositoras Brasileiras no século 20 [e um passeio pelos séculos XIX e XXI]”. Sua autora é Carô Murgel, doutora em História Cultural pela Unicamp.

Em entrevista a Arrigo Barnabé, no programa Supertônica, Carô lembra, por exemplo, que o famoso samba “Chiclete com Banana” não é de Jackson do Pandeiro, mas de sua mulher, Almira Castilho.

Não fosse pela desconhecida Dora Vasconcelos, obras-primas de Villa Lobos continuariam restritas às salas de concertos. Suas inspiradas letras permitiram a intérpretes como Olivia Byington e Monica Salmaso gravarem maravilhas como “Canção sentimental” ou “Cair da tarde”.

Helena dos Santos deveria ser famosa, mas não é. Negra e de origem pobre, ela é responsável por várias composições de sucesso gravadas por Roberto Carlos.

Alice Ruiz fez a letra de “Socorro”, musicada e interpretada por Arnaldo Antunes. Também compôs “Quase nada”, em parceria com Zeca Baleiro. Além disso, tem cerca de 50 músicas gravadas por artistas como Adriana Calcanhoto, Cássia Eller, Gal Costa e Ney Matogrosso. Mas é mais conhecida por ser viúva de Paulo Leminski.

Voltando ao século 19, Carô descobriu que muitas criações musicais femininas eram atribuídas a figuras tão genéricas e anônimas como “uma niteroiense talentosa”. E que até algumas décadas atrás, os direitos autorais de compositoras eram arrecadados em nome de seus maridos, pais, irmãos e outros parasitas masculinos do talento feminino.

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25 de junho de 2018

Muitas vezes, o marxismo foi melhor que Marx

“Todos os movimentos radicais mais interessantes das últimas quatro décadas brotaram fora do marxismo”. Esta é mais uma afirmação cuja falsidade Terry Eagleton demonstra em “Marx estava certo”.

Ele começa pelas palavras do teórico anticolonialista Robert J.C. Young:

No início do século XX, o movimento comunista era a única esfera em que a questão de gênero, ao lado das questões de nacionalismo e colonialismo, surgia e era debatida de forma sistemática. O comunismo foi o primeiro, e único, programa político a admitir a inter-relação dessas formas distintas de dominação e exploração [classe, gênero e colonialismo] e a necessidade de abolir todas elas como base fundamental para a consecução da libertação de cada uma”.

Cita também a feminista Michèle Barrett, para quem “afora o pensamento feminista não existe tradição de análise crítica da opressão à mulher que se compare à atenção incisiva dada à questão por sucessivos pensadores marxistas”.

Além disso:

Nas décadas de 1920 e 1930, praticamente os únicos homens e as únicas mulheres que pregavam a igualdade racial eram comunistas. A maior parte do nacionalismo africano após a Segunda Guerra Mundial, de Nkrumah e Fanon em diante, se apoiava em alguma versão do marxismo ou do socialismo.

Portanto, diz Eagleton, os marxistas “foram vanguardistas quanto às três maiores lutas políticas da Idade Moderna: a resistência ao colonialismo, a emancipação das mulheres e a luta contra o fascismo”.

Nada disso desculpa o eurocentrismo e as muitas atitudes preconceituosas manifestados por Marx em sua vida pessoal. Apenas mostra que o envolvimento do marxismo na luta de classes pode torná-lo melhor que seus melhores formuladores. Incluindo seu criador.

Obs.: Pílula número 1.800.

18 de maio de 2018

O combate a Bolsonaro e outros “esquisitões”

“Western, educated, industrialized, rich, and democratic societies”. Em português, “Sociedades ocidentais, escolarizadas, industrializadas, ricas e democráticas”. Em inglês, as palavras formam o acrônimo “Weird”, cuja tradução é “esquisito”, “estranho”.

Esse conceito costuma ser utilizado por estudiosos de vários ramos científicos devido a distorções que causa em muitas amostragens e levantamentos científicos. Brancos, escolarizados, ricos e “cidadãos” representam quanto da população mundial? Certamente uma minoria bem pequena.

No entanto, é este público que muitos experimentos científicos tratam como representantes da humanidade. E não só nas ciências humanas. Já houve casos de medicamentos testados e aprovados para esse perfil populacional apresentarem graves efeitos colaterais em pessoas latinas, negras, asiáticas etc.

Mas na política e na luta de classes, muitos de nós, e por muito tempo, também adotamos essa partícula da raça humana como universal. Tratamos largos extratos demográficos como “minorias”. Políticas que consideramos universais, na verdade, desprezam dimensões fundamentais da vida e, principalmente, do sofrimento humanos.

Exemplo óbvio é o desprezo pelas questões femininas, raciais, homoafetivas em nome de um combate que considera “soldados preparados para a luta” apenas os operários, homens, heterossexuais e que permanecem alheios à discriminação racial que sofrem.

É verdade que o problema oposto também ocorre. Lutas setoriais abandonam completamente o combate ao caráter totalizante do domínio de classe. Mas nunca foi fácil lidar de forma dialética com as relações entre o particular e o geral. E, no entanto, é fundamental partir dessa compreensão para atuar na luta de classes.

Do contrário, continuaremos sendo derrotados por esquisitos e esquisitões da direita. E não apenas por aquele que, hoje, é o maior deles entre nós.

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25 de janeiro de 2018

A Virgem e os estupradores

Em 18/01/2018, Contardo Calligaris publicou “Estupros, assédios, investidas e paqueras” na Folha. O artigo procura intervir na recente polêmica envolvendo feministas estadunidenses e francesas.

Mas o que interessa aqui é o que diz sobre os estupradores:

...o verdadeiro estuprador não age por excesso de desejo ou por frustração (“a quero tanto que não me aguento”).

Estuprador propriamente é quem não está atrás de sexo ou atrás daquela mulher que deseja. O estuprador gosta da própria violência que ele exerce sobre sua vítima.

Apesar disso:

...poucos homens são estupradores no sentido que gozam de sua própria violência. Mas muitos podem estuprar por idiotice –porque acham que a mulher vai gostar.  

E arremata:

...se você acha que essa história toda é picuinha, reconsidere. O patriarcado, a falta de paridade, a idiotice das investidas e a brutalidade dos estupros são apenas sintomas: a doença é que nossa cultura, há 3.000 anos (desde as histórias de Eva e de Pandora), é fundada no ódio à mulher, como encarnação do mal e voz tentadora do demônio.

Faltou dizer que uma das mais influentes tradições religiosas do mundo nasceu de uma gravidez não consentida. Que se tenha consumado pelo sussurro de um anjo na orelha de uma mulher não altera seu caráter impositivo. E tudo isso para parir um filho a ser sacrificado por vontade do pai, causando os piores sofrimentos que pode suportar o coração de uma mãe.

A figura comovente da Virgem tenta redimir os "pecados" de mulheres como Eva, Raquel, Betsabá, Dalila. Mas a simbologia em torno dela pode preparar um caminho que vai da veneração à violação.

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