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22 de dezembro de 2021

Menos teorias conspiratórias, mais Marx

No final de sua tese de doutorado, posteriormente transformada no livro “Menos Marx, mais Mises”, Camila Rocha conclui:

A intenção foi apontar para a relevância da atuação de uma militância organizada em diversos grupos políticos e entidades civis durante este processo, o qual culminou na formação de um amálgama ideológico inédito no Brasil: o ultraliberalismo-conservador. Além disso, também procurei chamar a atenção para as continuidades e descontinuidades dos esforços promovidos por tal militância tendo em vista suas conexões com redes formadas por atores que iniciaram suas atividades políticas em décadas anteriores, apoiada no modo como os próprios personagens analisados aqui foram conferindo sentido às suas ações ao longo do tempo a partir de conjunturas políticas específicas, orientando e reorientando suas atividades na sociedade civil e na esfera pública.

À parte o elogiável esforço para entender a “nova direita” brasileira, o excelente trabalho da pesquisadora também pode ajudar a esquerda a rever seus caminhos e escolhas.

O estudo ajuda a nos livrar de teorias da conspiração que atribuem à direita uma óbvia necessidade de nos combater. Que haja manobras conspiratórias, não restam dúvidas. Mas o trabalho de Camila também evidencia que tais conluios estão mergulhados e sofrem contradições resultantes da mesma luta de classes que os explorados e a esquerda travam contra os exploradores e o conjunto da classe dominante. Incluindo seus quadros teóricos, ideológicos e agitadores profissionais.

Trata-se de fazer a disputa de hegemonia na sociedade atravessada pelos dilemas da pobreza, violência, injustiça e alienação e não apenas nas campanhas eleitorais e nos gabinetes e palácios. Ou seja, precisamos de mais Marx. Muito mais.

Leia também: Estrela-do-mar ou hidra de sete cabeças

21 de dezembro de 2021

Estrela-do-mar ou hidra de sete cabeças

Os primeiros think-tanks pró-mercado brasileiros atuavam de forma centralizada, mas a maioria das organizações criadas a partir de 2006 passou a operar de modo mais horizontal e descentralizado.

Em seu livro “Menos Marx, mais Mises”, Camila Rocha explica que esse tipo de funcionamento, “não é sinônimo de falta de profissionalização”. Esses militantes passaram a atuar a partir dos contra-públicos digitais e se profissionalizaram através de cursos de formação política e treinamento oferecidos por organizações norte-americanas, como Atlas Network, Cato, entre outras.

Além disso, diz ela, também passaram a adotar formas de intervenção na esfera pública completamente diferentes das adotadas pelas gerações anteriores, como atos e protestos de rua voltados para a conquista de corações e mentes de pessoas comuns, sedimentando sua atuação para além da internete e da influência sobre formadores de opinião.

Uma das metáforas utilizadas pela direita ultraliberal para explicar esse tipo de atuação era a da estrela-do-mar. Afinal, a estrela-do-mar pode perder um de seus “braços” e não apenas reconstituir outro no lugar, como o “braço” mutilado pode gerar outra estrela-do-mar.

Mas, talvez, a hidra de sete cabeças seja uma metáfora mais adequada. A criatura mitológica tinha o poder de fazer nascer uma nova cabeça no lugar daquela que foi decepada. Mas se matar um monstro assim já é complicado quando se está armardo com uma espada, imagine para quem abriu mão de quase todas as suas armas.

E foi isso o que a esquerda acabou fazendo durante os anos em que esteve no poder. Abandonou, principalmente, o trabalho de base, a independência de classe e a mobilização popular.

Concluiremos na próxima pílula.

Leia também: A direita ultraliberal vai para as ruas

20 de dezembro de 2021

A direita ultraliberal vai para as ruas

"Vem cá, você acha legal pagar três reais no ônibus? Não! E se eu fizesse aqui uma van e cobrasse um real de vocês? Legal! Só que o Estado não deixa porque é regulado aqui no Rio, sabe o que a gente tem que fazer? Privatizar tudo e criar livre mercado no setor! Êeee!”. Assim a gente trouxe o liberalismo pro dia-a-dia do sujeito.

As palavras acima são de Bernardo Santoro, dirigente do Instituto Liberal do Rio de Janeiro. Aparecem no livro “Menos Marx, mais Mises”, de Camila Machado. Mostram como a extrema-direita neoliberal passou a ir às ruas disposta a disputar a hegemonia junto às grandes massas.

Segundo a autora, desde 2011, esses setores organizavam demonstrações públicas como o “Dia da Liberdade de Impostos”. Também foram oportunistas participando das “Marchas da Maconha” para defender o fim da presença do Estado em qualquer esfera da vida pública.

Estiveram presentes em manifestações contra a corrupção convocadas por entidades como CNBB e OAB. Sempre divulgando suas bandeiras privatizantes.

Nesse período, diz Camila, houve uma adesão quase completa da aliança lulista ao sistema político tradicional, diluindo e escondendo diferenciações ideológicas e programáticas reais no cenário político.

Começava a se desenhar a possibilidade de a direita ultraliberal aparecer como elemento antissistema, mesmo estando a serviço do grande capital.

Durante os protestos de 2013, surgiu o Movimento Brasil Livre. Mas ainda não era o momento para a direita capitalizar os protestos. Tanto é que no final daquele ano, a página do movimento no Facebook foi abandonada por falta de seguidores.

O momento oportuno só aconteceria em 2014.

Continua na próxima pílula.

Leia também: Ultraliberalismo: sem vergonha de aderir ao fascismo

18 de dezembro de 2021

Ultraliberalismo: sem vergonha de aderir ao fascismo

“A partir da redemocratização se dizer de direita passou a ser algo desconfortável”, afirma Camila Machado em seu livro “Menos Marx, mais Mises”.

A vergonha em se afirmar de direita, porém, diz Camila:

...não dizia respeito apenas aos políticos, mas também se estendeu a seus ideólogos, simpatizantes e eleitores. Foi apenas em meio auge do lulismo, entre 2006 e 2010, a partir da atuação de membros de contra-públicos digitais, formados especialmente a partir da rede social Orkut, que aos poucos tal vergonha começou a se dissipar.

Segundo a autora, dois fatores contribuíram para que isso ocorresse. Primeiro, o impacto do escândalo que ficou conhecido como “mensalão”. O segundo, a existência de comunidades digitais nas quais era possível discutir questões polêmicas sob anonimato e se manifestar de modo agressivo contra o governo mais popular do país até então.

Os ultraliberais, assim como os frequentadores das comunidades virtuais de Olavo de Carvalho, não encontravam representatividade em públicos dominantes, uma vez que nestes públicos a defesa do livre-mercado era realizada em grande medida por neoliberais alinhados em maior ou menor grau ao PSDB. E os tucanos eram considerados pelos frequentadores das comunidades ultraliberais do Orkut como sendo de esquerda.

Muitos desses ultraliberais defendiam as propostas do economista austríaco Ludwig Von Mises, adepto da privatização generalizada da vida social, incluindo Banco Central, monopólio da moeda, agências reguladoras e, claro, todos os serviços públicos. Em relação a questões como o direito ao aborto e à união homoafetiva eram favoráveis. Mas em nome do combate ao PT, deixaram de lado essas bandeiras e se juntaram aos fascistas. Sem vergonha nenhuma.

Continua.

Leia também: A direita que considera Geisel socialista

17 de dezembro de 2021

A direita que considera Geisel socialista

“Nós tivemos no governo militar uma orientação muito boa do Castelo Branco, mas o Geisel era socialista”. Esta pérola foi dita por Adolpho Lindenberg, um dos fundadores do movimento Tradição, Família e Propriedade. Está no livro “Menos Marx, mais Mises”, de Camila Rocha.

A frase deixa bem clara a disposição de alguns setores da direita brasileira de ir fundo em seu liberalismo selvagem. Só não haviam encontrado a oportunidade certa durante a ditadura, nem no período imediato posterior a ela.

A fundação do Instituto Liberal de São Paulo foi um marco. Mas, em 1992, o economista Paulo Rabello de Castro e o empresário Thomaz Magalhães fundaram no Rio de Janeiro o Instituto Atlântico. Um de seus principais focos, diz a autora:

...era atingir as classes populares. Para tanto, passaram a ser divulgadas pela organização as ideias de capitalismo popular e privatização popular, ou seja, como os trabalhadores comuns poderiam se beneficiar materialmente do estabelecimento de uma ordem política e econômica orientada para o desenvolvimento do livre-mercado. Desse modo, poucos anos após a fundação da organização, foi estabelecido um convênio estável com a Força Sindical, uma das maiores centrais sindicais do país, por meio do qual foram distribuídas aos trabalhadores, ao longo da década de 1990, mais de um milhão de cartilhas ilustradas pelo cartunista Ziraldo, as quais versavam sobre temas diversos dentro do enfoque do capitalismo popular. Um dos temas principais veiculados pelas cartilhas era a privatização da previdência.

A disputa de hegemonia chegava a um nível mais inteligente e perigoso. O descuido da esquerda nesse campo trouxe as trágicas consequências que estamos vivendo hoje.

Continua.

Leia também: O Komitern neoliberal

16 de dezembro de 2021

O Komitern neoliberal

A expressão “think-tank” teve origem nas salas secretas nas quais eram discutidas estratégias bélicas durante a Segunda Guerra. Por volta da década de 1960, nos Estados Unidos, passou a denominar organizações civis privadas mantidas com doações de pessoas físicas ou jurídicas, que reuniam especialistas e técnicos, normalmente recrutados junto à academia.

Nas últimas décadas, os think-tanks voltados para a defesa do neoliberalismo ganharam grande poder. Principalmente, graças ao patrocínio do grande capital. Os mais importantes dentre eles são o Institute for Humane Studies (IHS) e a Atlas Network, cujo nome inspirou-se no romance de Ayn Rand, “A revolta de Atlas”, que defendia o ideário neoliberal.

Atualmente, é possível dizer que praticamente todos os think-tanks pró-mercado mais importantes ao redor do globo fazem parte da rede constituída pela Atlas. São mais de 400 afiliados distribuídos em mais de 80 países e regiões, incluindo Canadá, Estados Unidos, Europa, Ásia Central, Oriente Médio, África, sul da Ásia, Extremo Oriente, Austrália, Nova Zelândia e América Latina.

As informações acima estão no livro “Menos Marx, mais Mises”, de Camila Rocha. Nele, a autora observa que seria “tentador pensar a rede de organizações articuladas pela Atlas e pelo IHS como uma espécie de Komintern neoliberal, exceto pelo fato de que estas afirmam enfaticamente não receberem qualquer tipo de financiamento estatal”.

Em 1987, surgiu o primeiro integrante com algum peso desse “Komintern” (Internacional Comunista) no Brasil. Era o Instituto Liberal de São Paulo. Mas somente no início do século 21, essa rede começaria a mostrar suas garras por aqui.

Mais na próxima pílula.

Leia também: Ideólogos de segunda classe na defesa do neoliberalismo

15 de dezembro de 2021

Ideólogos de segunda classe na defesa do neoliberalismo

Em seu excelente livro “Menos Marx, mais Mises”, Camila Rocha busca identificar a “gênese” da nova direita brasileira. Para tanto, destaca o papel dos chamados contra-públicos formados pela direita, em favor do neoliberalismo.

Um dos primeiros a defender esse tipo de atuação foi o economista austríaco Friedrich Hayek. No final dos anos 1940, as ideias desse guru do neoliberalismo eram desprezadas ou hostilizadas pelo consenso em torno das políticas keynesianas. Em resposta, ele recomendava que a divulgação de suas propostas fosse feita através de estruturas não partidárias, como forma de preservar sua “pureza”. Além disso, ele entendia que era preciso:

...influenciar indivíduos que denominava como “ideólogos de segunda -classe”: jornalistas, acadêmicos, escritores e professores. Dessa forma, seria possível difundir o ideário neoliberal junto à opinião pública e criar, com o tempo, um consenso “neoliberal” no seio da sociedade, de forma análoga com o que, em sua percepção, teria ocorrido com ideias de matriz socialista ou socialdemocrata.

A tática preconizada por Hayek começou a dar frutos em 1955, com a criação do Institute of Economic Affairs (IEA), na Inglaterra. Uma das primeiras organizações que viriam a ser chamadas de “think-tanks”.

O IEA, diz Camila, acabou por desempenhar um papel fundamental na política britânica, não apenas no plano das ideias, mas também no da política profissional. Nos anos posteriores, forneceria quadros e assessores técnicos para o governo de Margareth Thatcher.

Em 1973, surgia o Heritage Foundation nos Estados Unidos. E até 2000, o número de think-tanks estadunidenses mais do que quadruplicou, crescendo de menos de 70 para mais de 300.

Era o neoliberalismo partindo para a ofensiva.

Continua.

Leia também: O nascimento da nova direita brasileira

14 de dezembro de 2021

O nascimento da nova direita brasileira

“‘Menos Marx, mais Mises’: uma gênese da nova direita brasileira” é o título da tese de doutorado de Camila Rocha, defendida em 2018 na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

Lançado recentemente em formato de livro, o estudo tem como argumento central a ideia de que a:

...formação de uma nova direita no Brasil se originou a partir da organização na internet de grupos de discussão e militância durante o auge do lulismo, entre 2006 e 2010.

Um dos principais conceitos utilizado pela autora é o de contra-público, originalmente pensado para denominar grupos que partilham um status subordinado na estrutura social, criando e fazendo circular discursos de oposição à ordem dominante. Por exemplo, os coletivos que integram o movimento feminista.

Ocorre que também existem contra-públicos conservadores, como o dos fundamentalistas-cristãos nos Estados Unidos. Assim, os membros dos contra-públicos:

...a despeito de serem subalternos ou não, partilhariam identidades, interesses e discursos tão conflitivos com o horizonte cultural dominante que correriam o risco de enfrentarem reações hostis caso fossem expressos sem reservas em públicos dominantes, cujos discursos e modos de vida seriam tidos irrefletidamente como corretos, normais e universais.

O que o estudo de Camila constatou foi o surgimento e crescimento de contra-públicos não-subalternos graças, principalmente, à popularização da internete dos últimos anos. Ou seja, trata-se do aumento da influência de grupos de direita e extrema-direita potencializado pela ampliação do acesso às redes virtuais.

Mas, muito antes disso,
nos anos 1940, um dos primeiros a defender o surgimento desse tipo de iniciativa foi o guru do neoliberalismo, o economista austríaco Friedrich Von Hayek.

Continua.

Leia também: Uma etnografia dos delírios do fascismo nacional