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25 de março de 2025

Do identitarismo judeu ao identitarismo econômico

Hannah Arendt costumava dizer que “se você é atacado como judeu, é preciso se defender como judeu. Não como alemão, ou cidadão do mundo ou pelos direitos humanos, ou algo assim...”

A frase foi citada por Naomi Klein em seu livro “Doppelgänger” para mostrar como a opressão obriga suas vítimas a reduzir a complexidade e multiplicidade de sua condição humana a algumas poucas dimensões.

Basta trocar a condição de judeu pela de mulher, negro, indígena, homossexual, para termos uma ideia de como a hegemonia dominante aprisiona, divide e amesquinha as lutas das classes subalternas.

Como diz Naomi, “qualquer divisão identitária pode ser instrumentalizada para cumprir essa função: judeus contra negros, negros contra asiáticos, muçulmanos contra cristãos, feministas contra transexuais, imigrantes contra nacionais”.

A autora também cita Rosa Luxemburgo. Judia como Hannah, Rosa dizia que os judeus perseguidos a preocupavam exatamente na mesma medida que “as vítimas das plantações colombianas ou o povo negro da África escravizado pelos europeus”. “Não tenho um lugar especial no meu coração para o gueto judeu, disse ela. Me sinto em casa, em qualquer parte do mundo, onde há nuvens, pássaros e pranto humano”.

Mas é a exploração capitalista que cria o mais universal e redutor dos identitarismos. Aquele que rebaixa bilhões de pessoas à condição de meras vendedoras de força de trabalho e compradoras de mercadorias, privando-as dos elementos culturais que as tornam humanas.

Restringir o combate anticapitalista a lutas fragmentadas ou à falsa generalidade da resistência à exploração econômica é reduzir imensamente as possibilidades da emancipação humana universal.

As pílulas vão sofrer uma pausa de algumas semanas.

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8 de março de 2025

O que deixamos de aprender com Trotsky

Trotsky dizia que aprendeu tudo o que precisava saber sobre uma organização revolucionária com cinco trabalhadores. Um deles sempre foi um militante socialista, defensor intransigente dos oprimidos, à frente de qualquer luta dos explorados. Outro deles era um reacionário nato. Havia nascido e morreria sendo um fura-greve. Mas, os outros três trabalhadores não eram nem revolucionários nem reacionários. Às vezes, eram influenciados pelo reacionário, às vezes, pelo revolucionário. Ficavam no meio dos dois, sempre em disputa.

Segundo Trotsky, o objetivo de uma organização revolucionária é empurrar os trabalhadores que ficam no meio para perto do militante revolucionário. E oferecer a este organização, consciência e conhecimento sobre as tradições de luta. Elementos que lhe permitam conquistar os trabalhadores em disputa e isolar a direita.

O fascismo, especialista em espelhar e distorcer os métodos socialistas a favor de seus objetivos, faz o mesmo trabalho de isolar a militância de esquerda e empurrar as pessoas que vacilam para perto de suas organizações. Mas com uma grande diferença. O fascismo conta com um ecossistema social e político extremamente favorável. Esse ambiente propício surgiu de décadas de domínio ideológico do neoliberalismo e de um Estado omisso ou cúmplice em relação aos crimes do fascismo. Mas também, e principalmente, das contradições internas dos setores explorados e oprimidos, que os levaram a abandonar o terreno de combate e a ser derrotados em várias frentes de luta.

O que Trotsky defendia não era mais do que a necessidade de travar uma disputa de hegemonia com as classes dominantes que vá muito além das disputas eleitorais e da ocupação de postos governamentais.  

Leia também: A luta socialista como sistema de sentido

25 de outubro de 2024

Ideologia burguesa: sucesso fácil e impossível

A pílula de ontem lembrou que a burguesia é a única classe dominante da história que fez do trabalho virtude. Mas faltou dizer que ela também é a primeira que também trabalha. Claro que trabalha explorando o esforço alheio, mas nunca entregou-se ao completo ócio como suas antecessoras.

Há, porém, outra característica que diferencia a burguesia de suas congêneres anteriores: a acirrada competição entre seus membros e setores.

Sim, os reis, imperadores e outros poderosos travaram grandes guerras entre si por territórios e riquezas no passado. Mas no caso da burguesia, a competição é intrínseca ao sistema e o reforça, levando à criação de imensos e poderosos monopólios. Com isso alimenta a ilusão de que cada pessoa pode se elevar por cima da massa para se tornar também ela toda poderosa. Seriam suficientes alguns lances espertos temperados com sorte para chegar lá.

Basta uma grande ideia para um negócio, um serviço diferenciado, uma startup inovadora e até jogos de azar. Antes eram as casas lotéricas e os caça-níqueis nos bares. Agora, a fortuna também está ao alcance dos dedos nas “bets” eletrônicas.

Alguém disse que tem sido mais fácil imaginar o fim do mundo que o fim do capitalismo. Até porque o segundo está providenciando o primeiro. Mas o mesmo poderia valer para a contagiante ilusão do trabalho com resultados individuais fantásticos imposta pela ideologia dominante.

A vitória da ideologia burguesa é evidente quando é mais fácil um explorado se imaginar milionário dependendo do próprio esforço e da sorte do que juntando-se a milhões de seus iguais para buscar a emancipação e a dignidade coletivamente.

Leia também: Trabalho, luta de classes e conversa fiada

16 de outubro de 2024

A luta de classes no oco do mundo

Rosana Pinheiro-Machado é uma antropóloga que vem realizando estudos de campo com moradores da periferia das grandes cidades há mais de uma década. Em entrevista à revista eletrônica CTXT, ela afirma que suas pesquisas indicam “fortes evidências de que os setores que escaparam à pobreza apoiam políticos autoritários. A insuficiência do setor público e a precariedade do mercado de trabalho, diz ela, proporcionam o cenário perfeito para que figuras conservadoras do marketing digital se tornem novos líderes políticos”. Segundo Rosana, muitas pessoas entram nessa lógica porque querem melhorar de vida, mas acabam caindo em redes de extrema-direita.

Citando Pablo Marçal, a antropóloga lembra que ele “conhece todas as técnicas populistas. Domina redes, algoritmos, invade o cérebro das pessoas, estuda neurolinguística”. E exemplifica destacando uma frase em que Marçal se referia a Guilherme Boulos: "O outro lá invade terrenos. Eu invado cérebros. Entro no cérebro da pessoa, faço ela ficar com raiva e depois pulo para o outro lado".

Marçal utiliza técnicas capazes de atrair pobres e remediados. Transforma milhões de frustrados pelas falsas promessas de prosperidade em pessoas socialmente egoístas e selvagens. Ocupa a vida oca dos ressentidos, os enfurece e pula “para o outro lado”.

E deste lado, ficamos nós, entregando pacotes vazios, etiquetados com palavras abstratas como “austeridade”, “responsabilidade fiscal” e “união nacional”. Não à toa, a raiva sentida pela maioria pobre da população se transforma em votos conservadores e em mobilização fascista.

Marçal, Bolsonaro e outras lideranças canalhas só fazem o que boa parte da esquerda deixou de fazer: travar a luta de classes bem no meio do oco do mundo.

Leia também:  A esfinge dialética: decifra-me, enquanto te devoro

14 de outubro de 2024

A esfinge dialética: decifra-me, enquanto te devoro

A última pílula citou as formulações de Marx e Gramsci para mostrar que o senso comum é um emaranhado contraditório, constantemente atravessado por valores e preconceitos da ideologia dominante.

Apesar disso, boa parte da esquerda insiste em culpar a população pela confusão ideológica que vem garantindo seguidas vitórias à extrema-direita. Uma atitude metafísica que, a rigor, equivale a culpar a própria realidade.

Diante dessa situação, perguntava a última pílula, “o que fazer?”. Claro que não há resposta pronta para essa questão. Assim como não havia nada de universal ou definitivo na famosa resposta formulada por Lênin. Afinal, ele mesmo dizia que suas propostas eram produto “da análise concreta de situações concretas”.

A compreensão sobre o funcionamento e a dominação no capitalismo contemporâneo está presente em muitos estudos e pesquisas bastante precisos, sofisticados e de grande qualidade acadêmica.

Mas se todo esse acúmulo crítico não produzir efeitos transformadores na vivência concreta dos explorados e oprimidos, torna-se inútil. Marx, Engels, Gramsci, Lênin eram grandes teóricos, mas sua prioridade era a transformação da realidade, não apenas sua apreensão.

Nossa abordagem da realidade dos explorados e oprimidos é limpa, mas superficial. A da extrema-direita chafurda, mas pavimenta com eficiência o caminho da barbárie.

Os enigmas da luta de classes só se deixam revelar nos terrenos onde assumem toda sua radicalidade. É lá que a dialética costuma se apresentar como a esfinge que nos desafia a decifrar seu mistério dizendo: "Decifra-me, enquanto te devoro".

A esquerda precisa encontrar um modo de responder a esse desafio urgentemente. Se continuarmos perdidos em nossas abstrações, acabaremos sendo tragicamente devorados pelo enigma.

leia também: Maçaroca ideológica e realidade contraditória

12 de outubro de 2024

Maçaroca ideológica e realidade contraditória

O vereador do PSOL mais votado no Rio de Janeiro foi Rick Azevedo, defendendo redução da jornada de trabalho. Ótimo. Mas ele também declarou que a CLT é um regime de escravidão.

Muitos de nós consideram esse raciocínio extremamente contraditório. Mas desde que o marxismo surgiu, uns 170 anos atrás, temos elementos suficientes para saber que, muitas vezes, a realidade que é contraditória.

E se isso não bastasse, ainda é possível contar com a ajuda da obra que Antônio Gramsci iniciou há mais de 100 anos. Segundo o revolucionário italiano, a ideologia dominante é formada por uma maçaroca de concepções de mundo, misturando religião, filosofia, valores tradicionais e modernos, crenças e preconceitos etc. Mas nem por isso, ela é imutável ou monolítica, sofrendo metamorfoses que se adaptam às necessidades da luta de classes.

Carteira assinada, empreendedorismo liberal, teologia da prosperidade, livre comércio, imprensa livre, conservadorismo de costumes, autoritarismo, fundamentalismo religioso, estado mínimo, corporativismo sindical...

Todos esses valores hegemônicos conflitantes e até opostos entre si convivem bem porque correspondem às contradições da própria realidade. E quando os choques se tornam agudos a ponto de ameaçar a ordem dominante entra em cena o elemento de coerência nesse aparente caos: a dominação burguesa e seu aparato de repressão.

Sempre que ignora esse elemento de coerência, a esquerda acaba culpando ou o povo ou a burguesia. Culpar o primeiro é abrir mão da disputa política e contra-hegemônica. Culpar a segunda, é pedir ao inimigo para pegar leve. Ambas as atitudes implicam abdicar da verdadeira transformação social.

O que fazer, então? Fica para a próxima pílula

Leia também: Nas periferias, CLT é coisa de otário

1 de outubro de 2024

A economia idiota dos exploradores

“É a economia, idiota”. Esta frase ficou famosa nas eleições presidenciais estadunidenses de 1992. Foi dita por James Carville, estrategista da campanha de Bill Clinton contra George Bush.

Na época, a reeleição de Bush parecia garantida graças à rápida vitória estadunidense na primeira Guerra do Golfo e ao fim da União Soviética. Mas a recessão econômica que castigava o país levou os eleitores a escolher Clinton.

Algo semelhante, mas invertido, parece estar ocorrendo nas atuais eleições municipais brasileiras. O desemprego está baixo, a renda aumentou, as projeções de crescimento do PIB subiram e a inflação quase zerou, em agosto.

Apesar disso, o PT patina nas projeções das eleições municipais. Nas capitais, por exemplo, não há nenhum favorito petista. Há várias explicações para isso, incluindo o apoio a candidaturas de terceiros devido a alianças julgadas necessárias para a “governabilidade”.

Mas, talvez, o problema seja o modo como se costuma entender a economia. Muitos a veem de forma reducionista, matemática, de curto prazo. Uma concepção que interessa aos poderosos.

Um dos criadores da economia política clássica e herói de muitos neoliberais é Adam Smith. Mesmo para ele, porém, a dimensão moral é fundamental para compreender os fenômenos econômicos. Esse tipo de reflexão aparece em sua obra “A Teoria dos Sentimentos Morais”, que os neoliberais preferem ignorar.

O problema é que a esquerda também teima em agarrar-se à macroeconomia abstrata do capital. Com isso, deixa a direita à vontade para defender seus valores conservadores e reacionários na realidade cotidiana de milhões de explorados que lutam para sobreviver.

É a economia, sim. Mas não a economia idiota dos exploradores.   

Leia também: Bets, tigrinho, Uber e Marçal no selvagem jogo neoliberal

20 de junho de 2024

Os jornais falados dos bolcheviques

As informações que seguem abaixo são de uma matéria publicada no blog Rússia Beyond. O texto fala sobre um fenômeno muito interessante ocorrido na Rússia soviética das décadas de 1920 e 1930.

Após a Revolução de 1917, apenas 20% da população russa era alfabetizada. Uma das principais tarefas dos bolcheviques foi a eliminação do analfabetismo. Mas ensinar as pessoas a ler não é uma tarefa rápida, e a propaganda soviética não podia esperar. Afinal, o público-alvo era justamente a população analfabeta: trabalhadores, camponeses e soldados. Além disso, os bolcheviques não tinham recursos suficientes para a impressão de jornais. Para resolver esse problema, o governo revolucionário criou os “jornais falados”.

No início, esses jornais eram lidos em voz alta para grandes grupos de pessoas. No entanto, mesmo a leitura oral exigia muita criatividade dos oradores para o público não cair no tédio ou na desatenção. O aperfeiçoamento das técnicas de apresentação acabou se transformando em atuação teatral.

Mesmo após a eliminação do analfabetismo, os jornais falados continuaram a se apresentar em parques e casas de cultura por toda a União Soviética. O sucesso foi tão grande que “jornais ao vivo” existiram até a década de 1930, dando origem a um grande número de grupos de teatro amador para sua divulgação. Com o passar do tempo, as apresentações se tornaram mais complexas, tanto em conteúdo quanto na qualidade de sua produção.

É verdade que tudo isso ocorreu somente após a vitória da revolução, mas serve como inspiração para a construção de uma comunicação voltada aos explorados e oprimidos em sua luta contra o capitalismo.

Leia também: O Pravda enganando a perseguição czarista

22 de março de 2024

No peito dos cristãos, pode bater um coração revolucionário

Christina Vital da Cunha, professora da UFF e autora do livro “Oração de traficante: uma etnografia” publicou um artigo no portal da Unisinos sobre a teologia do domínio, essa perigosa ameaça da extrema direita teocrática contra a democracia. Mas no final do texto, ela faz uma ressalva:

...vem crescendo no Brasil aqueles evangélicos críticos desta extrema direita, da politização das igrejas. Esses evangélicos críticos não defendem todas as bandeiras progressistas, mas são mais afinados com a defesa da justiça social, missão deixada por Jesus Cristo, do que com os interesses dos chamados “coronéis da fé”. Há ainda uma esquerda evangélica diversificada internamente e que se reúne em algumas denominações e comunidades, afastados da vida eclesiástica, mas com vigor na fé. Dado o crescimento evangélico na sociedade como um todo, em especial em suas bases, observaremos cada vez mais essa face evangélica na esquerda popular, engajada ou não em partidos, mas sempre em defesa da democracia e diversidade. As forças democráticas liberais ou de esquerda, acadêmicos em suas pesquisas, partidos em suas convenções, vão precisar considerar cada vez mais esses atores sociais em suas investigações e/ou ações políticas.

Lênin assinaria embaixo, uma vez que ele não cansava de alertar para a necessidade de prestar atenção às contradições presentes nos meios populares. Na época dele, o setor social mais conservador era o camponês. Mas isso não impediu que a Revolução de 1917 ocorresse graças à unidade operário-camponesa.

Lênin costumava dizer que no peito de um rude camponês pode bater um coração revolucionário. No íntimo de muitos cristãos também.

As doses diárias das pílulas ficarão suspensas até maio.

Leia também:
Fé e fuzil: espiritualidade, religião e emancipação humana
Aprendendo com Lênin a aprender com os camponeses

1 de março de 2024

O jornal revolucionário é como um andaime, dizia Lênin

“O jornal não é apenas um propagandista coletivo e um agitador coletivo; é também um organizador coletivo. A esse respeito, pode-se compará-lo aos andaimes que se levantam ao redor de um edifício em construção”.

O trecho acima está no livro “O que fazer”, de Lênin. Essa metáfora diz muito sobre as concepções organizativas defendidas por Lênin. O “andaime” de uma organização revolucionária não eram cargos em parlamentos, governos e direções sindicais, nem doações eleitorais ou contribuições dos filiados. É verdade que alguns desses recursos nem estavam ao alcance da esquerda socialista que atuava na Rússia czarista, dominada por um regime extremamente autoritário e com uma vida parlamentar e sindical muito frágil. Mas a questão central não era esta.

O fato é que a única força material com que podem contar os socialistas revolucionários é a capacidade organizativa dos explorados construída a partir das muitas formas de sua luta contra o capital. Depender de estruturas do Estado, aparatos burocráticos ou do mercado é caminho certo para a cooptação, destruição ou ambas.

Um jornal ou um instrumento equivalente de comunicação é fundamental para disputar a hegemonia com as classes dominantes, ao mesmo tempo em que organiza as forças dos explorados e oprimidos.

Mas nada disso deve ser encarado como uma receita. O próprio Lênin considerava datadas várias propostas apresentadas em “O que fazer”. Para ele, elemento fundamental e permanente era é o que já afirmava Marx: “A emancipação dos trabalhadores só pode ser obra dos próprios trabalhadores”. Por isso, o mais importante, dizia Lênin, é que o jornal revolucionário precisa ser feito para e pelos trabalhadores.

Leia também: Os professores Nádia e Lênin

28 de fevereiro de 2024

Os professores Nádia e Lênin

Quando Nádia Krupskaya conheceu Lênin, seu futuro companheiro, não gostou muito do comportamento implacável que ele adotava nas polêmicas partidárias. Por outro lado, a capacidade pedagógica de Lênin a impressionou muito positivamente. Nos grupos de estudos com trabalhadores, por exemplo, a primeira metade da aula era dedicada a uma apresentação de algum aspecto do “Capital”, de Marx. Na outra metade, Lênin estimulava os alunos a falarem sobre detalhes de suas vidas profissionais, relacionando os relatos ao que já haviam discutido.

Lênin também esteve na vanguarda daqueles que defendiam um método de agitação centrado nas necessidades cotidianas dos trabalhadores, apoiando ativamente suas lutas por melhorias no local de trabalho e combinando as lutas econômicas e políticas. Em suma, escreveria Nádia sobre Lênin mais tarde, ele fornecia “um exemplo brilhante de como abordar o trabalhador médio da época”.

Mas a própria Nádia era uma professora popular e respeitada entre os trabalhadores. Também era considerada uma organizadora extraordinariamente esforçada e eficaz, seja na sala de aula ou na clandestinidade. Por toda a sua vida, continuaria demonstrando talento em atrair mulheres trabalhadoras e jovens para a luta. Profundamente consciente das injustiças que permeavam a sociedade, ela comentava várias vezes, quase compulsivamente: “o trabalhador russo vive mal”, “nossos camponeses não têm direitos” e “a autocracia é inimiga do povo”, sempre procurando fazer avançar a si mesma e aos outros na luta por uma vida mais justa.

As informações acima estão no livro “Lenin: Responding to Catastrophe, Forging Revolution“, do marxista estadunidense Paul Le Blanc. Voltaremos a comentar essa obra durante este ano, que marca o centenário da morte do líder bolchevique.

Leia também: O Pravda enganando a perseguição czarista

8 de fevereiro de 2024

Fé e Fuzil: lições sobre hegemonia pentecostal

O movimento social está dizendo que o mundo está acabando, que o fascismo está tomando conta, uma série de desgraças. Mas o pessoal da favela já é doutor em desgraça, ele não precisa ouvir mais essas. Já os pastores estão lá, dizendo para o desgraçado que ele é tudo pra Jesus. Se eu estou numa situação de abandono, eu me agarro.

As palavras acima são do dirigente da Central Única das Favelas (Cufa), Preto Zezé. Estão no livro de Bruno Paes Manso “A fé e o fuzil”. Organizações como a Cufa, lembra ele, são moldadas pelos valores da era pentecostal, ligados ao empreendedorismo.

Os evangélicos pentecostais ofereciam algo que outras estruturas de poder seculares, criadas para produzir controle e ordem, não conseguiam, afirma o autor. Isso ocorria, em primeiro lugar, pela força de suas mensagens. As pessoas as obedeciam porque acreditavam nas explicações, seguiam suas regras e mudavam de comportamento porque queriam ser recompensadas por isso.

Como a competição com os mais ricos era inglória, o crime surgia como opção para os revoltados e cínicos. Já a crença em um poder divino podia favorecer o amor-próprio e trazer satisfação pessoal. Os pentecostais também conseguiram criar uma poderosa estrutura de comunicação, diz o autor.

Quanto maior o alcance da mensagem, menos exótica ela se tornava, e conforme deixava de ser estranha ao senso comum, mais normalizada e mais adeptos conquistava. Templos surgiam com a mesma agilidade que botecos e biroscas, tornando-se presença inseparável do ambiente das favelas, conclui Manso.

Nesses poucos parágrafos, muitas lições sobre disputa de hegemonia, ainda que orientada por valores conservadores e neoliberais.

Leia também: Fé e fuzil: o sagrado e a luta de classes

24 de janeiro de 2024

Fé e fuzil: a Cristolândia tocando “pragod” na Cracolândia

Sérgio é um personagem do livro “Fé e Fuzil”, de Bruno Paes Manso. Membro da instituição evangélica Cristolândia, ele e outros “missionários” percorriam a Cracolândia paulistana tentando convencer os usuários de drogas a mudar de vida. Chegavam tocando samba (que chamavam de “pragod”), oravam para expulsar demônios e distribuíam sopas e cobertores.

Ainda menino, Sérgio foi abusado por um homem de sua família. Adulto, tornou-se travesti e foi para a Europa, onde caiu vítima de uma gangue de tráfico humano. De volta ao Brasil, acabou na Cracolândia, mas foi “resgatado” pelos religiosos da Cristolândia.

Sérgio não condenava moralmente os transexuais ou travestis. Sua missão na Cracolândia era trabalhar com elas, não para que mudassem suas identidades ou orientações, mas para que deixassem as drogas e as ruas. Quando os transexuais e travestis aceitavam dormir no abrigo da instituição, recebiam calcinhas e roupas femininas, não cuecas, camisetas e bermudas. Sérgio defendia que o trabalho de doutrinação religiosa só seria efetivo se essas pessoas fossem respeitadas e aceitas como tais.

Depois de se converter ao cristianismo, Sérgio fez várias cirurgias para retirada de silicone e frequentou um curso de teatro para “recuperar o que entendia como comportamento masculino”. Na época que Manso o conheceu, estava prestes a se casar com uma missionária de Curitiba.

Se Sérgio livrou-se do inferno das drogas e das ruas, sua conversão pode representar o ingresso em nova etapa de sofrimento, ao ceder à repressão religiosa e violentar sua sexualidade. Mas, mesmo equivocada em seus fins, a abordagem emocional e afetiva que adotou em seu trabalho deveria servir de exemplo à militância de esquerda.

Leia também: Fé e Fuzil: a Bíblia como manual de instrução

1 de julho de 2023

As falácias do machismo-alfa e do etarismo

Na edição de 25/03/2023 da revista New Yorker a jornalista Rivka Galchen publicou um artigo divulgando dados que refutam a teoria da importância dos machos-alfa na natureza e questionam a discriminação contra pessoas com base em sua idade, conhecida como etarismo. Um exemplo de etarismo ocorre quando jovens têm suas opiniões desprezadas porque seriam imaturos. Mais comum, porém, é o desrespeito a idosos, cujas capacidades são consideradas obsoletas.

O artigo de Rivka aborda as descobertas de Kira Cassidy, pesquisadora do Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos. Observando lobos, ela descobriu que o fator decisivo nas brigas entre matilhas não é o tamanho do grupo ou um macho-alfa em sua liderança. É a presença de indivíduos idosos, machos ou fêmeas, que torna mais provável a vitória do grupo em uma batalha.

Depois disso, ela pesquisou estudos sobre outros animais e encontrou achados semelhantes. Em tempos de seca, as manadas de elefantes com uma matriarca veterana se saem melhor. Quando há escassez de peixe, as orcas seguem a avó do grupo. “Nas lutas entre bandos, vemos que os anciãos não entram em pânico”, diz Kira. “Costumam acalmar os companheiros e mantê-los unidos. Ou talvez ajudem o bando a evitar brigas que eles sabem que não podem vencer, o que aumenta sua taxa de vitórias”, conclui ela.

Essas conclusões não seriam nada surpreendentes em muitas sociedades antigas ou alternativas, nas quais a experiência dos mais velhos sempre foi muito importante. Mas em nosso meio, a obsolescência programada da produção capitalista contamina as relações pessoais. Enquanto isso, velhas falsidades, como o “machismo-alfa” e a estupidez senil, são revalidadas.

Leia também: A ordem é sacrificar primeiro idosos e vulneráveis

21 de junho de 2023

O espelho escuro do capitalismo

A sexta temporada de “Black Mirror” chegou à Netflix com elevada audiência. O primeiro episódio faz uma ácida e bem humorada crítica ao poder das grandes corporações tecnológicas. Principalmente em relação a ameaças aos direitos do consumidor, violação de privacidade e uso ilegal de dados.  

O próprio serviço de streaming tornou-se alvo da trama. A vinheta da Netflix aparece claramente, ainda que o nome exibido seja outro. Ao mesmo tempo, fica demonstrado mais uma vez que até a crítica aos males do capitalismo contemporâneo foi capturada pelos aparelhos de hegemonia da classe dominante.

Segundo a definição de Gramsci, aparelhos privados de hegemonia são aqueles que são acessados pela sociedade voluntariamente. Ou seja, não se trata de órgãos públicos ou entidades estatais, aos quais a população recorre para buscar serviços ou cumprir obrigações legais. Sua função primordial é atrair a atenção popular para fazer a disputa da hegemonia em favor da ideologia dominante. Os monopólios de mídia são importantes e poderosos aparelhos desse tipo. Constroem um consenso de aceitação da vida tal como ela é, com todas as suas contradições, injustiças, sofrimentos, opressões e exploração.

O problema é que desde o final da União Soviética, o cenário ficou sem um vilão assustador o suficiente para ser responsabilizado pelas mazelas causadas pelo capitalismo. Na ausência de um malvado favorito, uma boa válvula de escape é fabricar um anticapitalismo alienado, tentando manter as massas apáticas e distantes de ações verdadeiramente contestatórias.

Precisamos parar de nos deixar hipnotizar por esses espelhos escuros e apavorantes. Do contrário, não conseguiremos nem evitar um fim com terror nem impedir um terror sem fim.

Leia também: A moda anticapitalista não é anticapitalista

22 de maio de 2023

As “massas” não são ingratas, ignorantes ou traidoras

“Políticas sociais mudam a cabeça do povo?”, pergunta o título do artigo que Frei Betto publicou, recentemente, no “Le Monde Diplomatique”.

Logo no início, o autor diz que a resposta à questão é não. Lembra, por exemplo, os vários direitos sociais conquistados “em setenta anos de União Soviética”. Mesmo assim, o povo russo deu boas-vindas ao capitalismo.

Depois, recorda os 13 anos de governos do PT, que asseguraram à população de baixa renda benefícios como Bolsa Família, salário mínimo acima da inflação, cotas nas universidades e redução da miséria, da pobreza e do desemprego. No entanto, Dilma Rousseff foi derrubada e Bolsonaro foi eleito. Lula voltou, mas venceu por apenas 2 milhões de votos.

Betto usa esses e outros argumentos para afirmar, com razão, que “é real o risco de a direita voltar à presidência da República em 2026”. Mas discorda de quem considera “as massas” ingratas. Por isso, propõe duas medidas: um intenso trabalho de educação popular pelo método Paulo Freire. Para isso, defende a utilização da Empresa Brasileira de Comunicação, “poderoso sistema de comunicação em mãos do governo federal”.

São propostas corretas, mas insuficientes. Por outro lado, a constatação do articulista sobre o comportamento das massas está correta. Elas não são ingratas, ignorantes, traidoras. Não precisam de boas intenções ou lições de moral. Querem respostas concretas para os terríveis problemas causados por uma sociedade profundamente injusta e violenta.

O fascismo já apresentou suas respostas. Elas aprofundam e radicalizam os males sociais. Já nós, se insistirmos em consertar um sistema irrecuperável, estaremos fadados ao fracasso e a nos tornar alvo preferencial da ira popular.

Leia também: A besta do fascismo continua fora da jaula

22 de março de 2023

Grande Mídia: cercados por inimigos de um lado e do outro

“As plataformas digitais são coniventes com a campanha contra a imprensa orquestrada por grupos de extrema direita nas redes sociais e deveriam ser responsabilizadas por isso”, diz editorial do Globo, de 19/03/2023.

O texto utiliza dados da pesquisa “Ataques à imprensa”, do laboratório NetLab, da UFRJ. Apresenta números sobre o poder de fogo das plataformas YouTube, Facebook, WhatsApp, Telegram e Tik Tok. Por fim, revela quais seriam as narrativas de ataque à imprensa identificadas pelo levantamento:

1) a “mídia” representa o “establishment” e manipula o “povo”; 2) os grupos de extrema direita defendem a “liberdade de expressão” e revelam a “verdade”; 3) a imprensa profissional é “autoritária” e quer calar a extrema direita; 4) ela defende imoralidades contra a família; 5) ela conspira com os institutos de pesquisa; 6) ela dá muito espaço às mulheres.

Com alguns ajustes, nós, da esquerda, poderíamos até assinar embaixo dos pontos 1 e 5 desse diagnóstico. Os outros são coisa de lunáticos.

Mas o que o texto mostra, mesmo, é como perdemos espaço nessa arena tão fundamental para a disputa de hegemonia com as classes dominantes. Estamos reduzidos a assistir a uma guerra entre antigos e novíssimos monopólios midiáticos. Conflito que pode ter como
provável resultado a derrota das forças populares. Principalmente, se resolvermos apoiar um dos lados.

E é assim que parecem estar se comportando o governo Lula, o PT e a esquerda em geral. Continuamos menosprezando a necessidade de uma rede própria de comunicação popular. Um erro histórico, renovado periódica e frequentemente. Nossos inimigos, de um lado e do outro, agradecem.

Leia também: A disputa nas redes não deve ser menosprezada

11 de outubro de 2022

A luta socialista como sistema de sentido

“Por que Bolsonaro surpreendeu no primeiro turno” é o título de artigo recentemente publicado por Frei Betto. Em meio a tantas análises sobre as eleições, o texto mostra um pouco mais da floresta e menos das árvores ao utilizar o conceito de “sistema de sentido”.

Um exemplo de sistema de sentido é a religião. “Ela ‘explica’ desde a origem do Universo até o que ocorre a cada pessoa após a morte. Como ironizam os cientistas, os físicos têm perguntas; os teólogos, respostas”, diz Betto.

O problema é que desde o enfraquecimento da Teologia da Libertação e de outras iniciativas religiosas progressistas, o campo da espiritualidade foi dominado por uma combinação reacionária de empreendedorismo individual e fanatismo. 

O texto é muito preciso na análise dos erros da esquerda nessa esfera fundamental da disputa hegemônica. Mas também pode servir de provocação para a luta da esquerda em geral. Há muito tempo, as concepções socialistas perderam sua condição de sistema de sentido. Mas não se trata de retomar a dogmática stalinista, cujo caráter conservador nada tinha de socialista.

Uma tarefa crucial é romper nossa dependência em relação à farsa da institucionalidade burguesa. Outra ruptura importante é com a influência do relativismo paralisante do pensamento pós-moderno sobre grande parte da produção teórica da esquerda. Esses, porém, são só alguns dos fenômenos que desarmaram a luta socialista.

Para vencer a disputa de hegemonia com a burguesia é fundamental construir uma concepção socialista que atribua sentido à vida das pessoas. Mas isso só será possível se for feito a partir das lutas concretas travadas no cotidiano delas.

Leia também: O que, afinal, vem se desmanchando no ar?

30 de agosto de 2022

Nossas contribuições para o emburrecimento geral

É costume dizer que um dos principais efeitos do fascismo é o emburrecimento das sociedades nos quais ele se fortalece. Conspirações absurdas, dúvidas sobre fatos científicos e históricos comprovados, polêmicas intermináveis que envolvem somente preconceitos e crendices. Essas coisas tornam o debate público tóxico e inútil.  

Mas este fenômeno somente ganha força quando a esquerda abandona a disputa da hegemonia em um terreno fundamental, o do senso comum. Esta é uma preocupação presente, por exemplo, no trabalho da socióloga Esther Solano.

Professora da Unifesp, Ester vem pesquisando há anos o universo do “bolsonarismo popular moderado”. Ou seja, das pessoas de menor renda que votaram em Bolsonaro sem se identificar com suas posições mais extremas. Em recente entrevista concedida ao podcast  “Ilustríssima Conversa”, ela fez a seguinte afirmação:

A esquerda faz bem em lutar, por exemplo, pelas famílias LGBT e monoparentais. Elas [eleitoras moderadas de Bolsonaro] entendem e reconhecem a importância disso, mas dizem: "Parece que a esquerda só luta por esse tipo de família. A gente também queria a esquerda lutando e visibilizando a nossa família tradicional. No final das contas, nós também temos direito a ter uma dignidade familiar.

Aí, já não se trata mais de lidar com fanáticos proferindo absurdos, mas da necessidade de unir as lutas por dignidade para todos os setores explorados e oprimidos. Assumir que alguns desses setores já deixaram tais lutas para trás ou que são conservadores irrecuperáveis acaba deixando lacunas no senso comum que são aproveitadas pelos fascistas e reacionários em geral.

Em casos como esses, nós também estamos contribuindo para o emburrecimento geral.

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6 de junho de 2022

Bolhas ideológicas e disputa de hegemonia

Em julho de 2020, Caio Almendra publicou o texto “Desdemonizando Bolhas”, sobre os desafios para uma comunicação de esquerda diante das vitórias da extrema-direita. Um ponto importante do texto é a tão comentada necessidade de a esquerda “furar as bolhas” alheias.

Segundo o texto, a influência entre as “bolhas” se dá por um processo viral. Tais processos se estruturam a partir de ideias fortes que surgem em determinadas bolhas e conseguem “contaminar” outras, ampliando seu contágio paulatinamente. Em certos momentos esses elementos virais se adaptam à bolha hospedeira, em outros, são eles que adaptam o hospedeiro a suas necessidades. Mas tal como um vírus, eles se metamorfoseiam e se reproduzem sem deixar de ser o que são.

O potencial de viralização de um novo fenômeno social, portanto, afirma Almendra, não está na capacidade de seus adeptos de buscar furar as bolhas a partir da busca de pessoas e espaços distantes de si, mas da capacidade de engajar prioritariamente a própria bolha a ponto de estourá-la, contaminar bolhas próximas e, enfim, contaminar bolhas cada vez mais distantes.

Foi assim que a extrema-direita agiu. Como ele diz: “A extrema-direita foi mais radical/extremista, enquanto todos discursavam para a esquerda buscar uma mediação com o centro. A extrema-direita buscou crescer dentro das próprias bolhas. Ela não negociou seu discurso. Ela não buscou diferentes e indiferentes. Ela radicalizou os iguais. E, ainda assim, ela foi vitoriosa.”

Ou seja, trata-se da velha e necessária disputa de hegemonia, para a qual nunca existiram atalhos. Ainda mais, se consideramos que o ambiente em que o vírus fascista surgiu e se reproduziu continua intacto.

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