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14 de outubro de 2024

A esfinge dialética: decifra-me, enquanto te devoro

A última pílula citou as formulações de Marx e Gramsci para mostrar que o senso comum é um emaranhado contraditório, constantemente atravessado por valores e preconceitos da ideologia dominante.

Apesar disso, boa parte da esquerda insiste em culpar a população pela confusão ideológica que vem garantindo seguidas vitórias à extrema-direita. Uma atitude metafísica que, a rigor, equivale a culpar a própria realidade.

Diante dessa situação, perguntava a última pílula, “o que fazer?”. Claro que não há resposta pronta para essa questão. Assim como não havia nada de universal ou definitivo na famosa resposta formulada por Lênin. Afinal, ele mesmo dizia que suas propostas eram produto “da análise concreta de situações concretas”.

A compreensão sobre o funcionamento e a dominação no capitalismo contemporâneo está presente em muitos estudos e pesquisas bastante precisos, sofisticados e de grande qualidade acadêmica.

Mas se todo esse acúmulo crítico não produzir efeitos transformadores na vivência concreta dos explorados e oprimidos, torna-se inútil. Marx, Engels, Gramsci, Lênin eram grandes teóricos, mas sua prioridade era a transformação da realidade, não apenas sua apreensão.

Nossa abordagem da realidade dos explorados e oprimidos é limpa, mas superficial. A da extrema-direita chafurda, mas pavimenta com eficiência o caminho da barbárie.

Os enigmas da luta de classes só se deixam revelar nos terrenos onde assumem toda sua radicalidade. É lá que a dialética costuma se apresentar como a esfinge que nos desafia a decifrar seu mistério dizendo: "Decifra-me, enquanto te devoro".

A esquerda precisa encontrar um modo de responder a esse desafio urgentemente. Se continuarmos perdidos em nossas abstrações, acabaremos sendo tragicamente devorados pelo enigma.

leia também: Maçaroca ideológica e realidade contraditória

12 de outubro de 2024

Maçaroca ideológica e realidade contraditória

O vereador do PSOL mais votado no Rio de Janeiro foi Rick Azevedo, defendendo redução da jornada de trabalho. Ótimo. Mas ele também declarou que a CLT é um regime de escravidão.

Muitos de nós consideram esse raciocínio extremamente contraditório. Mas desde que o marxismo surgiu, uns 170 anos atrás, temos elementos suficientes para saber que, muitas vezes, a realidade que é contraditória.

E se isso não bastasse, ainda é possível contar com a ajuda da obra que Antônio Gramsci iniciou há mais de 100 anos. Segundo o revolucionário italiano, a ideologia dominante é formada por uma maçaroca de concepções de mundo, misturando religião, filosofia, valores tradicionais e modernos, crenças e preconceitos etc. Mas nem por isso, ela é imutável ou monolítica, sofrendo metamorfoses que se adaptam às necessidades da luta de classes.

Carteira assinada, empreendedorismo liberal, teologia da prosperidade, livre comércio, imprensa livre, conservadorismo de costumes, autoritarismo, fundamentalismo religioso, estado mínimo, corporativismo sindical...

Todos esses valores hegemônicos conflitantes e até opostos entre si convivem bem porque correspondem às contradições da própria realidade. E quando os choques se tornam agudos a ponto de ameaçar a ordem dominante entra em cena o elemento de coerência nesse aparente caos: a dominação burguesa e seu aparato de repressão.

Sempre que ignora esse elemento de coerência, a esquerda acaba culpando ou o povo ou a burguesia. Culpar o primeiro é abrir mão da disputa política e contra-hegemônica. Culpar a segunda, é pedir ao inimigo para pegar leve. Ambas as atitudes implicam abdicar da verdadeira transformação social.

O que fazer, então? Fica para a próxima pílula

Leia também: Nas periferias, CLT é coisa de otário

11 de março de 2022

Os beatos que lutam pelo bem comum no “agora"

Em seu livro “A terra da mãe de Deus”, Luitgarde Cavalcanti estuda o mundo beato do Juazeiro de Padre Cícero. Para abordar a forte presença da religiosidade católica na região, sua principal referência teórica é Antônio Gramsci. Por exemplo, neste trecho:

Depois de definir o folclore como "um conjunto indigesto de fragmentos de todas as concepções de mundo e da vida sucedidas na história", Gramsci distingue nele uma religião popular "muito diferente da dos intelectuais e da hierarquia eclesiástica, uma moral popular formada por um conjunto de máximas para a conduta prática e de costumes". Esse catolicismo popular, próprio das camadas subalternas, é divergente da Teologia – concepção da hierarquia religiosa dos intelectuais católicos.

Referindo-se às promessas de redenção eterna, Luit mostra como as classes dominadas, diante das injustiças que sofrem, tentam “realizar no ‘agora’ as promessas do bem comum”. Enquanto esperam o "fim do mundo":

...não se quedam num imobilismo transcendental, mas, muito pelo contrário, partem para uma ação de "plantar" o novo mundo, de "construir" a utopia do mundo do espírito santo. Como se tivessem consciência teórica do papel histórico do homem na construção material e espiritual de seu próprio mundo, não esperam a chegada de Deus construtor dessa "existência inefável", mas fazem eles mesmos as suas "cidades santas", as cidades longe do pecado. Nesse movimento de precipitação dos fatos prometidos, o encurtamento do tempo, com a ameaça do julgamento final, obriga os homens a superar a contradição máxima entre dominadores e dominados.

Foi o que fizeram em Canudos, Caldeirão, Contestado e vão continuar a fazer até que já não haja dominadores ou dominados.

10 de março de 2022

A religião como ação transformadora sobre o mundo

Entre 1926 e 1937, surgiu a comunidade Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, no Crato, Ceará. Organizada por sertanejos em bases socialmente igualitárias e liderada pelo Beato José Lourenço, a iniciativa foi considerada um desafio à alta hierarquia católica e aos poderes políticos locais.   

Em seu livro “A terra da mãe de Deus”, Luitgarde Cavalcanti entende a religião como uma ideologia de classe. Mas quando “as baixas camadas, submetendo essa ideologia a sua práxis, constatam sua inadequação, vão-se afastando progressivamente do polo hegemônico”, diz nossa autora. Desse modo, continua ela, lideranças como José Lourenço e Antônio Conselheiro:

...enquanto produtores de ideologia, reeducam o povo para abandonar a ideologia do enriquecimento pessoal em troca do enriquecimento coletivo, o que eles vão conseguir através da colocação da mensagem cristã como mobilizadora e norteadora das formas de relação dos homens entre si e com a natureza. As relações religiosas passam a constituir relações de autoridade no grupo, ficando hierarquicamente privilegiados quanto ao poder de mando aqueles que reproduzem com maior fidelidade a doutrina igualitária cristã na vida prática. É assim que se dá uma ordenação da vida social capaz de promover o processo de produção e distribuição, o controle enfim da própria sociedade. A religião deixa de ser nessas condições específicas apenas uma forma de representação, transformando-se também numa "ação sobre o mundo", agindo eficazmente sobre uma realidade.

Os beatos, conclui Luit, assumem papel de produtores de ideologia, exercendo efetiva hegemonia em toda a comunidade. Não por acaso, tiveram o mesmo destino de Canudos, sofrendo um massacre em que morreram, pelo menos, 400 deles.

Concluiremos na próxima pílula.

Leia também: O povo beato e seus intelectuais orgânicos

9 de março de 2022

O povo beato e seus intelectuais orgânicos

Entendendo a religião como uma ideologia de classe, consideramos necessário, para estudá-la, conhecer a "repartição dos diferentes intelectuais, suas ligações mais ou menos orgânicas com as classes sociais, etc. É necessário também estudar os canais pelos quais se efetuam a produção e a difusão da ideologia". Nessa perspectiva resolvemos estudar o movimento social religioso de Juazeiro, a partir não apenas dos trabalhos existentes sobre o tema, isto é, da forma como ele é visto por aqueles que não integram o "mundo do Padre Cicero", mas também considerando os discursos de integrantes desse universo.


As palavras acima são de Luitgarde Cavalcanti, no livro “A terra da mãe de Deus”, sobre o mundo beato do Juazeiro de Padre Cícero. Nela estão implícitos os conceitos gramscianos de intelectuais orgânicos e intelectuais tradicionais. Estes últimos, trabalhando pela conservação da ordem dominante, enquanto os primeiros se formariam na luta contra ela.

No caso em questão, Padre Cícero desempenharia o papel de intelectual tradicional da Igreja Católica, ainda que a forma se sua atuação fosse repudiada pela alta hierarquia católica, colocando-o em uma situação ambígua. Enquanto isso, diz a autora, os beatos seriam os “intelectuais orgânicos, produtores de ideologia das baixas camadas”. Sua atuação manifestando-se sob a “forma limite da consciência historicamente possível da ideologia dominada, na formação social do Nordeste sertanejo”.

É fundamental notar, porém, que essa “forma limite” afeta os dominados em geral. Pelo menos, até que superem sua condição subalterna. Ou seja, ainda que pouco letrados, ainda que brutalizados pela ordem dominante, os beatos sempre foram perfeitamente capazes de assumir o papel de intelectuais responsáveis por sua própria emancipação.

Leia também: Os beatos do Juazeiro e o comunismo dos apóstolos

8 de março de 2022

Os beatos do Juazeiro e o comunismo dos apóstolos

Em seu livro “A terra da mãe de Deus”, Luitgarde Cavalcanti analisa o mundo beato ligado ao Juazeiro do Padre Cícero. Em sua vivência sob condições sociais e naturais hostis, os beatos se guiavam pelos valores originais do comunitarismo cristão.

A autora cita uma homilia do século V de São João Crisóstomo, segundo Rosa Luxemburgo, "aquele que pregou mais ardentemente aos cristãos para regressarem ao primeiro comunismo dos Apóstolos":

E havia uma grande caridade entre eles, ninguém era pobre entre eles, ninguém considerava como seu o que lhe pertencia, todas as suas riquezas estavam em comum... uma caridade existia entre eles. Esta caridade consistia em que não havia pobres entre eles, de tal modo que os que tinham bens apressavam-se a desprender-se deles. Não dividiam as suas fortunas em duas partes, dando uma e guardando a outra; davam o que tinham. Assim não havia desigualdade entre eles. Todos viviam em grande abundância. Tudo se fazia com o maior respeito. O que davam não passava da mão do doador para a mão do que recebia; as suas dádivas eram sem ostentação; traziam os bens aos pés dos apóstolos que se tornavam os controladores e donos deles que os usavam, daí para o futuro, como bens da comunidade e já não como propriedade de indivíduos.

“A ideologia dominada só existe pela oposição à ideologia dominante da qual se origina, e pela qual estará contaminada”, escreve Luit. É a “descontaminação” das concepções de mundo dos dominados em relação aos valores dominantes que os torna perigosos para os de cima. No caso, para a cúpula católica.

Mais na próxima pílula.

Leia também: Os marxistas práticos do mundo beato no sertão nordestino

7 de março de 2022

Os marxistas práticos do mundo beato no sertão nordestino

“Marxistas práticos”. Foi assim que José Góes de Campos Barros chamou os beatos do povoado de Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, que existiu no Crato, Ceará, entre 1926 e 1937. Para Campos Barros, “o beato, sem o saber, era marxista - marxista prático”.

O autor dessas palavras não tinha a menor simpatia pela comunidade que descrevia. Ao contrário, como oficial do Exército, integrou o comando da operação que promoveu o massacre dos moradores de Caldeirão. O crime de que eram acusados? Comunismo.

Sob liderança do Beato José Lourenço, afirma Campos Barros, aqueles “homens rudes, de rostos severos e mãos calosas como carapaças de tartarugas” faziam uma terra “estéril” produzir. “Para os seus celeiros convergiam todos os produtos da comuna”. Ainda segundo o relato do militar, seus moradores declaravam orgulhosos: “aqui nada me pertence, é patrimônio de todos os que vivem nesta irmandade e recorrem à nossa proteção”.

O relato aparece em “A terra da mãe de Deus”, importante livro de Luitgarde Cavalcanti, publicado em 1988. Nascida em Santana de Ipanema, no sertão de Alagoas, a autora é antropóloga, com quase 60 anos de trabalho acadêmico envolvendo a cultura e o modo de vida sertanejos. Entre seus muitos livros, estão obras fundamentais sobre Padre Cícero e Lampião.

Nas próximas pílulas, mais comentários sobre “A terra da mãe de Deus”, estudo no qual Luitgarde utiliza a elaboração de Antonio Gramsci para abordar a religiosidade popular como foco de resistência às injustiças sociais. Fenômeno importante para entender rebeliões como a do próprio Caldeirão, do arraial de Canudos e dos povoados do Contestado.

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