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6 de novembro de 2024

Um papo reto sobre coisas muito tortas

“Problema é esquerda playboy, não pobre de direita”, essa afirmação de Paulo Galo, militante do movimento dos trabalhadores em aplicativos, deu título a uma recente entrevista concedida por ele ao portal UOL.

Galo referia-se ao livro “O pobre de direita”, recém-lançado por Jessé Souza. Segundo ele:

...não existe “pobre de direita”. Existe alienação. A alienação que afeta o pobre também afeta a classe média branca de esquerda. Ela é tão presa à sua própria bolha que só consegue dialogar consigo mesma.

A esquerda, diz Galo, ignora a “materialidade” da vida das quebradas periféricas. E para superar essa limitação, precisaria:

...chegar aqui na periferia, tomar uma cerveja e trocar uma ideia normal, do dia a dia. Tem um trabalho possível de ser feito aqui. Dá para cair dentro das necessidades e se conectar. Mas quem é que está fazendo isso? O problema é que a esquerda parece não saber fazer nada que não envolva voto.

Dentre as várias afirmações polêmicas, afirmou, por exemplo, que a esquerda se tornou legalista e que seus partidos representariam uma “luta com CNPJ”.

A entrevista despertou tanto a animosidade como a simpatia de setores da militância. Mas Lênin dizia que para endireitar uma vara torta para um lado, é preciso vergá-la para o outro. Por isso, muitas vezes exagerava na defesa de certas linhas políticas que nem eram tão corretas para enfraquecer uma orientação oposta, que considerava ainda mais danosa.

Galo não é nenhum Lênin. Mas procura chamar a atenção para o atual estágio da luta de classes, cuja materialidade contraditória não comporta o simplismo de respostas retas para tantos conflitos tortos.

Leia também:
A luta de classes no oco do mundo
Um pé na luta, outro no pedal

24 de outubro de 2024

Trabalho, luta de classes e conversa fiada

A sociedade capitalista é a única sociedade dividida em classes na história em que a classe dominante fez do trabalho virtude. A burguesia nasceu da plebe trabalhadora, mas é aquela pequena parte dela que conseguiu se apropriar dos meios de produção. O restante tornou-se massa proletária a ser explorada.

Essa diferenciação foi vendida como vitória de uma parte do povo sobre a outra. Mas pobres que reunissem certas qualidades e se esforçassem poderiam vencer por mérito próprio. Era o mito da meritocracia, melhor apenas que os mitos do poder e riqueza concedidos por hereditariedade ou por vontade divina.

Ou seja, na sociedade capitalista o trabalho transformou-se em razão de ser da grande maioria das pessoas, de alto a baixo. Ter um emprego, uma ocupação, uma fonte de sustento a partir do próprio esforço tem importância fundamental na vida contemporânea.

Mas o conceito de trabalho acima só tem esse sentido no capitalismo. Marx entendia o trabalho como elemento essencial da espécie humana. É através dele que transformamos a natureza e a nós mesmos. Essa condição pode atribuir ao trabalho um caráter emancipatório, desde que deixe de intermediar a exploração de uns pelos outros e justificar a opressão dos segundos pelos primeiros.

Enquanto a humanidade não conferir esse caráter libertador ao trabalho continuaremos a sofrer com suas terríveis negatividades.

O arrazoado acima é só para lembrar que todos os problemas e contradições sociais que vivemos atualmente têm origem na esfera do trabalho. São produto da luta de classes. Inclusive, disputas eleitorais como as que enfrentamos hoje contra o fascismo. O resto é conversa fiada de coach charlatão.

Leia também: A luta de classes no oco do mundo

12 de outubro de 2024

Maçaroca ideológica e realidade contraditória

O vereador do PSOL mais votado no Rio de Janeiro foi Rick Azevedo, defendendo redução da jornada de trabalho. Ótimo. Mas ele também declarou que a CLT é um regime de escravidão.

Muitos de nós consideram esse raciocínio extremamente contraditório. Mas desde que o marxismo surgiu, uns 170 anos atrás, temos elementos suficientes para saber que, muitas vezes, a realidade que é contraditória.

E se isso não bastasse, ainda é possível contar com a ajuda da obra que Antônio Gramsci iniciou há mais de 100 anos. Segundo o revolucionário italiano, a ideologia dominante é formada por uma maçaroca de concepções de mundo, misturando religião, filosofia, valores tradicionais e modernos, crenças e preconceitos etc. Mas nem por isso, ela é imutável ou monolítica, sofrendo metamorfoses que se adaptam às necessidades da luta de classes.

Carteira assinada, empreendedorismo liberal, teologia da prosperidade, livre comércio, imprensa livre, conservadorismo de costumes, autoritarismo, fundamentalismo religioso, estado mínimo, corporativismo sindical...

Todos esses valores hegemônicos conflitantes e até opostos entre si convivem bem porque correspondem às contradições da própria realidade. E quando os choques se tornam agudos a ponto de ameaçar a ordem dominante entra em cena o elemento de coerência nesse aparente caos: a dominação burguesa e seu aparato de repressão.

Sempre que ignora esse elemento de coerência, a esquerda acaba culpando ou o povo ou a burguesia. Culpar o primeiro é abrir mão da disputa política e contra-hegemônica. Culpar a segunda, é pedir ao inimigo para pegar leve. Ambas as atitudes implicam abdicar da verdadeira transformação social.

O que fazer, então? Fica para a próxima pílula

Leia também: Nas periferias, CLT é coisa de otário

1 de outubro de 2024

A economia idiota dos exploradores

“É a economia, idiota”. Esta frase ficou famosa nas eleições presidenciais estadunidenses de 1992. Foi dita por James Carville, estrategista da campanha de Bill Clinton contra George Bush.

Na época, a reeleição de Bush parecia garantida graças à rápida vitória estadunidense na primeira Guerra do Golfo e ao fim da União Soviética. Mas a recessão econômica que castigava o país levou os eleitores a escolher Clinton.

Algo semelhante, mas invertido, parece estar ocorrendo nas atuais eleições municipais brasileiras. O desemprego está baixo, a renda aumentou, as projeções de crescimento do PIB subiram e a inflação quase zerou, em agosto.

Apesar disso, o PT patina nas projeções das eleições municipais. Nas capitais, por exemplo, não há nenhum favorito petista. Há várias explicações para isso, incluindo o apoio a candidaturas de terceiros devido a alianças julgadas necessárias para a “governabilidade”.

Mas, talvez, o problema seja o modo como se costuma entender a economia. Muitos a veem de forma reducionista, matemática, de curto prazo. Uma concepção que interessa aos poderosos.

Um dos criadores da economia política clássica e herói de muitos neoliberais é Adam Smith. Mesmo para ele, porém, a dimensão moral é fundamental para compreender os fenômenos econômicos. Esse tipo de reflexão aparece em sua obra “A Teoria dos Sentimentos Morais”, que os neoliberais preferem ignorar.

O problema é que a esquerda também teima em agarrar-se à macroeconomia abstrata do capital. Com isso, deixa a direita à vontade para defender seus valores conservadores e reacionários na realidade cotidiana de milhões de explorados que lutam para sobreviver.

É a economia, sim. Mas não a economia idiota dos exploradores.   

Leia também: Bets, tigrinho, Uber e Marçal no selvagem jogo neoliberal

11 de setembro de 2024

Marçal: um “downgrade” no bolsonarismo

A extrema-direita, como muitos já observaram, é um simulacro de revolução. E a revolução tem seu lado destrutivo e iconoclasta, mas também seu lado esperançoso, afirmativo, com promessa de futuro. O bolsonarismo é a encenação falsa do primeiro aspecto, o Pablo Marçal do segundo – por isso tem potencial de ser ainda mais atrativo.

As palavras acima foram postadas por Diogo Fagundes, no Facebook. As que estão logo abaixo são do colunista Juliano Spyer, na Folha:

Marçal é um candidato duro de ser combatido por representar um pacote que reúne defesa da família e combate ao comunismo, visto como doutrina que escraviza o pobre a sua condição de dependência. Ele encarna a ideia de que "aprender a pescar" é melhor do que depender do governo. E se apropriou da mensagem pentecostal antissistema, de quem é perseguido por seguir o chamado de Deus.

Isso deixa adversários de Marçal em uma posição incômoda. Ao atacá-lo, atacam também o sonho – muitas vezes desesperado – de quem se sente perseguido e busca, pelo cristianismo, um caminho para prosperar.

Por fim, uma citação da coluna de Miriam Leitão no Globo, sobre a manifestação de Bolsonaro, na Paulista, no dia 07/09/2024:

Na disputa paulista também o que se vê é que o prefeito Ricardo Nunes foi esquecido no fundo do palanque e o candidato Pablo Marçal usou a passeata para fazer seu show à parte.

Três fragmentos que indicam a formação de um todo: a extrema direita conseguindo reciclar e piorar o bolsonarismo. A palavra “upgrade” costuma ser traduzida como “atualização”, no sentido positivo. No caso, trata-se de um “downgrade” e em ritmo acelerado.

Leia também: O PT virou unidade de política pacificadora

22 de novembro de 2023

A eleição de Milei e o efeito Orloff

Em um comercial dos anos 80, um homem se assusta ao se deparar com sua própria imagem num bar. “Eu sou você amanhã”, diz a réplica. “Para evitar ressaca amanhã. Exija vodca Orloff, hoje”, recomenda.

Foi assim que surgiu a expressão “efeito Orloff”, sinônimo de coisas ruins que poderiam acontecer em breve. Muita gente, por exemplo, achava que a crise econômica argentina se repetiria aqui e nossos vizinhos diriam: “Eu sou você amanhã”.

A eleição de Javier Milei poderia servir de pretexto para usarmos aquela expressão de modo inverso: “Nós somos vocês, ontem”.

Mas os argentinos também têm um slogan que lembra um ontem que os levou à ressaca de hoje. Trata-se de “Que se vayan todos!”, palavra-de-ordem surgida nas grandes manifestações ocorridas no começo do século em grandes cidades argentinas. Era o grito de guerra do movimento piqueteiro, que, naquele momento, se insurgia contra uma grave situação de desemprego, recessão, pobreza, salários baixos, causada pelo governo neoliberal de Carlos Menem.

O lema pode ser traduzido como “Fora todos!”, referindo-se aos políticos em geral, incluindo, os peronistas. Afinal, Menem era um deles.

O movimento colocou para fora dois presidentes antes de os governos Krischner se estabilizarem no poder. Vinte anos depois, porém, a extrema-direita se apropriou do sentimento de revolta contra o sistema para eleger um inimigo das causas populares.

É o sistema de dominação utilizando válvulas de escape para se manter funcionando. Quando governos moderados de esquerda frustram, o fascismo e assemelhados são acionados.

Lá em cima, eles continuam bebendo do bom e do melhor. Cá embaixo, ficamos com a pior das ressacas, sem beber.

Leia também: Fake news e a doença terminal do capitalismo

24 de março de 2023

2016, ano referência para a burguesia

Obviamente, o país que Lula voltou a governar tem pouco a ver com aquele que encontrou em 2003. Mas segundo Eduardo Costa Pinto e Ronaldo Bicalho, o ano de referência é 2015.

Os dois são pesquisadores do Instituto de Economia da UFRJ e na edição 135 de seu programa “Diário da Crise”, destacaram dados sobre a taxa de lucro das 500 maiores empresas não financeiras nacionais entre 2000 e 2021.

Em 2004, um ano após a posse de Lula, a taxa de lucro daquelas empresas era 17,9, mantendo-se nesse patamar até 2007. Começou a cair a partir de 2008, despencando para -5,1 em 2015. No ano seguinte, a lucratividade voltou a se recuperar, chegando a 11,5 em 2018. Em 2021, alcançou 22,9, maior taxa em 50 anos.

No mesmo período, a lucratividade dos bancos manteve-se confortavelmente elevada.

O ano-chave, portanto, é 2015, quando os lucros desabaram. O que aconteceu nesse ano? Vários fatores. Entre eles, diz Costa Pinto, a política econômica neoliberal de Joaquim Levy no Ministério da Economia de Dilma. No ano seguinte, não à toa, veio o golpe do impeachment.

Quanto à disparada dos lucros em 2021, certamente foi resultado das políticas que cortaram direitos, achataram salários e eliminaram empregos promovidas pela dupla Temer/Bolsonaro.

Nada disso autoriza teorias da conspiração envolvendo maquinações eleitorais e golpistas do grande capital. Fosse assim, Bolsonaro teria sido reeleito facilmente. Mas mostra uma forte correlação entre os interesses do empresariado graúdo e o cenário político.

Apesar da derrota de Bolsonaro, a burguesia pretende manter a lucratividade recorde de 2021 a todo custo. Para ela, o marco referencial é 2016.

Leia também: O grande capital não tem o que reclamar de Bolsonaro

31 de outubro de 2022

Uma vitória de Pirro? Uma vitória da porra!

Os exércitos se separaram e, diz-se, Pirro ter respondido a um indivíduo que lhe demonstrou alegria pela vitória que "uma outra vitória como esta o arruinaria completamente". Pois ele havia perdido uma parte enorme das forças que trouxera consigo, e quase todos os seus amigos íntimos e principais comandantes... 

O relato acima é do historiador grego Dioniso de Halicarnasso e refere-se a batalhas travadas contra os romanos pelo rei macedônio Pirro, no século 3 A.C.

A partir daí, “vitória de Pirro” passou a ser aquela cuja conquista tem um preço quase tão alto quanto uma derrota. Não seria difícil utilizar a expressão em relação à eleição de Lula, ontem. Para obtê-la, Lula e o PT tiveram que abrir mão não só de muitos de seus princípios como devem perder vários dos principais postos em seu próprio governo. 

E muitos de nós, das velhas tropas da esquerda, acabamos marchando ombro a ombro com antigos generais inimigos, responsáveis por tantas de nossas derrotas e muitas de nossas baixas.

Mas era imperioso impedir uma recondução do bolsonarismo ao Poder Executivo. Situação que levaria a ainda mais atrocidades contra os pobres e outros setores vulneráveis da população e à implantação definitiva do fascismo no País.

Além disso, é preciso levar em conta os inúmeros crimes eleitorais cometidos por Bolsonaro. Em especial, o orçamento secreto e a imensa derrama de recursos públicos em favor de sua candidatura, contando com a omissão e cumplicidade vergonhosas de uma institucionalidade pretensamente republicana. 

Tudo isso torna a eleição de nosso heroico Pirro de Garanhuns uma enorme conquista. Uma vitória da porra! 

Leia também: Não há cheque em branco nenhum para Lula

3 de outubro de 2022

Matéria escura e ondas eleitorais

Metáforas podem ser muito úteis para explicar coisas difíceis de entender. E também para mostrar o tamanho de nossa ignorância em relação a certos fenômenos.

Há quase um século, a astrofísica detectou a existência da matéria escura no universo. Trata-se de uma substância invisível que não interage com a luz e só pode ser detectada por seus efeitos gravitacionais. 

Os mais recentes resultados eleitorais poderiam ser comparados a efeitos indiretos provenientes de uma matéria que permanece escura para um tipo específico de observador: a militância das forças de esquerda.

Escura porque fica longe de determinados holofotes, essa substância parece ser composta de todo o tipo de resíduos e detritos históricos, reciclados e recombinados permanentemente. Nela estão tanto o senhor de escravos e seus feitores, como generais saudosos da ditadura, torturadores, jagunços, milicianos com mandatos, empresários escravocratas, sacerdotes mercenários e padres pistoleiros. É uma maçaroca de racismo, homofobia, misoginia, fanatismo, truculência e superexploração capitalista. Composição potencializada pela persistência secular da desigualdade e injustiças sociais.

Há momentos, porém, em que as metáforas atingem seus limites. A matéria escura cosmológica está fora do alcance de nossas ações. Mas não podemos nos permitir fazer o mesmo em relação ao equivalente dela no cenário político nacional. Diferente de seu análogo metafórico, deixada a si mesma, essa matéria não permanece inerte. A direita a manipula com muita competência.

Não podemos continuar a nos lembrar da existência desses pontos cegos somente quando somos sacudidos por ondas eleitorais. Por trás delas estão as forças gravitacionais do sistema de dominação que são capazes de nos esmagar.

Leia também: Não há cheque em branco nenhum para Lula

28 de setembro de 2022

Não há cheque em branco nenhum para Lula

Em sua coluna de hoje, no Globo, Vera Magalhães alertou que tantos e tão diferentes apoios declarados a Lula não podem “ser um cheque em branco para o petista gastar como bem entender”.

Na mesma edição, Alvaro Gribel descreveu o encontro de Lula com “pesos-pesados” do empresariado nacional, ocorrido, ontem, em São Paulo. O texto destaca os elogios de Aloizio Mercadante ao governo FHC, assim como a necessidade de combater a inflação a qualquer custo. Não à toa, Abílio Diniz brincou, chamando-o de “economista liberal”.

Em sua vez de falar, Lula preferiu passar a palavra para os empresários, para “saber deles o que seu governo precisava fazer para resolver os problemas do Brasil”.

Falaram Abílio Diniz, ex-Pão de Açúcar, André Esteves, do BTG, Fábio Ermínio de Moraes, da Votorantim, e Luis Henrique Guimaraes, do grupo Cosan. “Em comum, os quatro executivos trataram Lula como próximo presidente eleito”, relata o colunista. Ainda segundo ele:

Lula falou abertamente que é contra o teto de gastos, mas prometeu voltar a ter superávits primários. Deu a entender que essa será a sua política fiscal, a mesma que vigorou em seu governo. Prometeu recuperar a credibilidade internacional do país, e que a sociedade brasileira entrou em pânico, a ponto de apoiar e eleger um político como Bolsonaro.

Tá certo. Pra que teto de gastos se já existe o superávit primário, também conhecido como bolsa-família do grande capital?

Cheque em branco nada, Vera Magalhães. Já está preenchido e será descontado dos miseráveis saldos da maioria pobre e explorada do País. Derrotar Bolsonaro é prioridade absoluta. Mas vai nos sair muito caro.

Leia também:
O grande capital não tem o que reclamar de Bolsonaro
Era Lula: pobre é baratinho

No avesso das eleições, algum caminho

Em agosto de 2022, o Coletivo Desmedida do Possível lançou um manifesto muito lúcido e necessário sobre as eleições que se aproximam e seus desdobramentos. Abaixo, alguns trechos:

Somos pela derrota de Bolsonaro. Logo, somos pela eleição de Lula. (...)  Uma vitória de Bolsonaro pode abrir as portas para o golpismo, mas uma derrota também. Nada é garantido. No entanto, sua derrota eleitoral assegura que o golpismo continuará ilegítimo e ilegal.

(...)

O retorno da contenção lulista pode ser um passo para trás, de uma classe dominante em busca de uma saída da Nova República. No fundo, seria uma antessala de novas batalhas. O novo consenso parece ser uma trégua, para retomar uma guerra inevitável.

(...)

A dinâmica da guerra emana das formas de reprodução da vida brasileira. Há uma guerra dos de cima, contra os de baixo. Há uma guerra do Estado, contra a população preta e pobre. Mas, acima de tudo, a guerra é cotidiana, porque a forma de vida é concorrencial: o desempregado concorre com o desempregado, mas também com quem está empregado. Que, por sua vez, concorre com seus colegas de emprego.

(...)

Vivemos um mundo que produz em abundância, mas essa abundância é vivida como escassez. Esse feitiço tem um nome: mercadoria.

(...)

Não está claro se a paz tem futuro. Mas está claro que só teremos um futuro emancipado, à altura da nossa imaginação, se escaparmos da política da mercadoria. As eleições, no estágio atual, servem globalmente para encobri-la. No avesso das eleições, talvez possamos descobrir algum caminho.

Vale a pena ler a íntegra, disponível aqui.

Leia também: À burguesia interessa decisão no segundo turno

26 de setembro de 2022

Quando e porque Marx disse que não era marxista

Em maio de 1880, Marx e o líder operário francês Jules Guesde redigiram um programa para disputar as eleições francesas. Segundo Marx, o documento trazia “demandas que surgiram espontaneamente do próprio movimento operário”. 

Apesar de apresentar uma introdução onde o objetivo comunista era definido em poucas linhas, as medidas propostas eram muito concretas. Por exemplo: 

- Abolição das leis que estabelecem a inferioridade do trabalhador em relação ao patrão, e da mulher em relação ao homem;

- Fim da dívida pública;

- Um dia de descanso por semana ou proibição de trabalho por mais de seis dias em sete. Redução da jornada de trabalho para oito horas para adultos. Proibição de trabalho para menores de 14 anos e, entre 14 e 16 anos, redução de oito para seis horas diárias.

- Salário mínimo legal, reajustado anualmente de acordo com preços definidos por uma comissão estatística dos trabalhadores;

- Salário igual para trabalho igual, para trabalhadores de ambos os sexos.

Há outras medidas interessantes e que poderiam estar em qualquer lista de reivindicações atual. 

Depois que o programa foi acordado, no entanto, surgiu uma polêmica sobre seus objetivos imediatos. Enquanto Marx os entendia como um meio de agitação em torno de demandas alcançáveis no âmbito do capitalismo, Guesde considerava essas reformas como “uma isca para atrair os trabalhadores mais radicais”. 

Acusando Guesde e seus companheiros franceses de serem meros criadores de “frases revolucionárias” e de negar o valor das lutas reformistas, Marx fez sua famosa observação de que, se essas políticas representavam o marxismo, “eu mesmo não sou marxista”.

A íntegra pode ser acessada aqui, em inglês.

23 de setembro de 2022

O grande capital não tem o que reclamar de Bolsonaro

É costume atribuir o golpe de 2016 e a eleição de Bolsonaro ao desconforto das elites com a melhoria da situação dos mais pobres. Ressentimento resumido na frase “esses aeroportos estão parecendo rodoviárias”. Mas quem realmente manda na economia do País jamais pisou em uma rodoviária.

Precisamos de mais economia política e menos anedotas. É o que procura fazer, por exemplo, Eduardo Costa Pinto em seu programa “Diário da Crise”, disponível na internete. Em episódio recente, ele analisa “os lucros da mega burguesia brasileira nos últimos anos”.

Professor do Instituto de Economia da UFRJ, Costa Pinto apresenta as taxas de lucro das 230 maiores empresas privadas registradas na Bolsa. Em números que incluem os bancos, a taxa de lucro dessas empresas caiu de 17% em 2010 para 4% em 2015.

No ano seguinte, vieram o golpe do impeachment, a reforma trabalhista e outras medidas dos governos Temer e Bolsonaro que fizeram despencar a renda dos trabalhadores. Resultado, os lucros subiram de 9% para 24% entre 2016 e 2021.

Mas se forem retirados os bancos da conta, a lucratividade das empresas despencou ainda mais. Caiu de 18%, em 2010, para -2%, em 2015. Depois do golpe, voltaram a disparar, indo de 7% para 27%, de 2016 a 2021.

Portanto, se valesse a vontade desses setores, Bolsonaro já estaria com a reeleição garantida. Mas como somos um dos países mais injustos do mundo, infelizmente para eles, os grandes capitalistas são uma pequena minoria.

Dito isso, que fique claro. O grande capital não quer abrir mão das grandes taxas de lucro que conquistou. Nós que lutemos. Literalmente.

Leia também: À burguesia interessa decisão no segundo turno

8 de setembro de 2022

À burguesia interessa decisão no segundo turno

Em junho de 2021, Marcos Nobre afirmou que Bolsonaro era candidato “fortíssimo” à reeleição. Passado mais de um ano, não é possível dizer que o respeitado cientista social estivesse erradíssimo. Talvez, apenas errado.

A candidatura Bolsonaro parece não sair do lugar. E segundo a maioria dos analistas, o mais recente Sete de Setembro só serviu para manter sua base aguerrida, porém minoritária. 

Mesmo assim, continua difícil que a eleição se resolva no primeiro turno. E não apenas pela aparente dificuldade da candidatura petista em ganhar os votos necessários. 

Em poucos momentos históricos, as divisões no interior da burguesia ficaram tão nítidas. E a capacidade de superar essas divisões, também. Bolsonaro ainda não foi completamente descartado pelos setores mais importantes do grande capital.

É o caso dos grandes varejistas. Personagens desprezíveis como Luciano Hang e seus cúmplices golpistas devem muito a Bolsonaro, cujas políticas fizeram despencar o valor da força de trabalho, explorada em larga escala por eles.

Já o agronegócio ama a política bolsonarista de destruição ambiental e tem como maior cliente a China, cujo pragmatismo impede qualquer retaliação comercial devido a derrubada de florestas, ataques a direitos ou violência contra populações locais.

Claro que a potências da mídia empresarial, como a Globo e parte da grande imprensa, interessa derrotar Bolsonaro, uma vez que este lhes declarou guerra já durante a campanha eleitoral passada.

Mas uma definição em segundo turno seria o ideal para todos. Não só para arrancar mais concessões de Lula, como para tentar domesticar Bolsonaro. Esta última alternativa, muito improvável, felizmente.

Por enquanto, não há nada erradíssimo ou certíssimo. Só tensíssimo!

Leia também: Das muitas conspirações, a menos pior

6 de setembro de 2022

Das muitas conspirações, a menos pior

A situação que vivemos atualmente é resultado de várias conspirações. Começou com o golpe do impeachment tramado pelos tucanos, inconformados com sua derrota eleitoral. Seu braço operacional, a Lava-Jato. 

Um tanto tardia, mas fundamental, foi a entrada em cena da cabala do Centrão, integrando o próprio governo a ser derrubado. 

O objetivo era enterrar qualquer ambição eleitoral do PT nas eleições seguintes. Mas a mancomunação militar atropelou geral, obrigando todas as outras a confluir para a eleição de Bolsonaro.

Empossado, o novo presidente dificultou bastante as coisas. Mas o entrelaçamento de interesses estabelecidos para viabilizar a deposição de Dilma manteve harmonia suficiente para sustentar o possuído.

Incluída aí a omissão igualmente conspirativa das “instituições democráticas” diante dos muitos crimes cometidos por Bolsonaro antes e durante a pandemia. 

Mas quase 700 mil mortes pela Covid, economia rastejando, desemprego voando e fome se espalhando, além das inúmeras ilegalidades cometidas pela conluio lavajatista, acabaram permitindo o retorno de Lula ao cenário eleitoral. 

Nesse momento, sob o temor de uma derrota acachapante do capacho das casernas, alguns conjurados abandonaram suas cabalas de origem. Iniciaram uma via conspiratória alternativa, com espaço para conchavos com forças institucionais à esquerda. 

Mesmo assim, a grande conspiração, composta por outras de variados tamanhos e formas de atuação, permanece em pleno funcionamento, sem qualquer prejuízo para os inúmeros retrocessos sociais que promoveu. Por ora, relativamente ameaçada, somente a matilha feroz que ocupa o Alvorada. 

Verdadeiramente prejudicados, os de sempre. Vítimas da grande conjuração que une as classes dominantes há séculos. Milhões de explorados, oprimidos e massacrados, novamente condenados a escolher a conspiração menos pior.

Leia também: A esquerda aqui jaz. Mas nunca em paz

5 de setembro de 2022

A esquerda aqui jaz. Mas nunca em paz

Trecho do artigo “A esquerda vai ao Parlamento”, de Maurício Abdalla, publicado em Outras Palavras:

Muitos optaram por lutar apenas no contexto de batalha político-eleitoral e do exercício do poder institucional, e isso levou, muitas vezes, em nome da sustentação dessa opção, a alianças com inimigos, aceitação de recursos impróprios e permissões exageradas para que as regras viciadas do jogo político, que conduzem à corrupção, fossem usadas sob o pretexto da justificação dos meios pelos fins. Além disso, alguns mandatos de esquerda se tornaram “autopoiéticos”. A autopoiese é um conceito criado pelos biólogos chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela para se referir ao funcionamento da célula, que eles definem como uma máquina autopoiética. Enquanto todas as máquinas produzem algo diferente de si mesmas, a célula tem todo o seu funcionamento voltado exclusivamente à produção de si mesma (autopoiese é, etimologicamente, “fazer a si mesmo”). Quando um mandato procura apenas se perpetuar nas próximas eleições, ser um campo de fortalecimento de tendências internas do partido e retribuir apoios com distribuição de cargos e assessorias para manter-se no poder, eles se tornam autopoiéticos. Tudo que fazem visa a sua própria manutenção, e não há mais projeto estratégico no qual se referenciar. Por mais pontos positivos que possam acumular para colocar naquele jornal de prestação de contas distribuído na pré-campanha de reeleição, é pouco para mandatos que tenham a emancipação como projeto de transformação radical da sociedade. Para a célula, a autopoiese é o que garante a vida. Para um partido de esquerda, é o que produz a morte.

E, assim, aqui jazemos. Mas jamais na paz dos rendidos.

Leia também: Nossas contribuições para o emburrecimento geral

31 de agosto de 2022

Por uma ecologia da organização política

Rodrigo Nunes encerra seu livro “Do transe à vertigem” preocupado com a questão ecológica. Segundo ele, daqui para frente:

...só pode haver combate à pobreza que seja também parte da construção de outro sistema global, só pode haver luta contra a fome que dê passos na transição para outro regime energético, econômico e social.

Mas a ecologia também serve como metáfora para outra grande preocupação do autor. São as questões organizativas da esquerda. Mais especificamente, aquele que ele considera ser “um trauma que atravessa a história da esquerda desde o século 20”. Qual seja, “o medo de que a organização de que se necessita para mudar o mundo seja também aquilo que pode nos impedir de fazê-lo”.

Obviamente, ele está se referindo às contradições causadas pelo modelo de partido rígido e hierarquizado adotado por grande parte do movimento socialista no último século e meio. Contradições que se tornaram mais agudas onde a esquerda tornou-se governo.

Mas, para Nunes, é possível explorar essas contradições de modo que a esquerda deixe de “conceber sua unidade em termos de homogeneidade e centralização de comando” e passe a compreendê-la “em termos ecológicos, como uma forma de cooperação que não exclui a diferença, o dissenso e a competição”.

Nas preocupações acima, o autor antecipa brevemente a proposta principal de seu livro seguinte. Uma teoria ecológica da organização política dos de baixo como resposta à ameaça de um apocalipse ambiental provocado pelo capitalismo. Estes são os temas centrais de "Nem vertical nem horizontal", obra mais recente de Nunes, que, em breve, também comentaremos aqui.

Leia também: Respostas moderadas para tempos extremados

23 de agosto de 2022

Respostas moderadas para tempos extremados

Assim como o chavão “dialogar com o centro”, “radicalizar” em abstrato tampouco quer dizer grande coisa. O mais provável é que acabe significando apenas a radicalização da própria identidade.

Ser politicamente radical é ser radical em relação a uma situação concreta. Não é demarcar uma posição independentemente de qualquer contexto, mas descobrir aqui e agora qual é a posição mais transformadora capaz de conquistar um máximo de adesão e produzir os maiores efeitos. De maneira que, num momento futuro, objetivos maiores e melhores sejam possíveis.

Por outro lado, se uma quantidade crescente de pessoas vem assumindo posições que antes seriam tidas como “extremas”, sejam à direita ou à esquerda, é em primeiro lugar porque o “centro” não consegue mais convencê-las de que tem condições de manter suas promessas. É por isso que o meio-termo entre neoliberalismo conservador e neoliberalismo progressista perdeu sua aura de ponto de equilíbrio.

Os parágrafos acima foram retirados do livro “Do transe à vertigem”, de Rodrigo Nunes. Nele, o autor procura discutir um momento da história humana que pode deixar no chinelo a famosa “Era dos Extremos”, de Eric Hobsbawm.

Afinal, o que dizer de um período em que as figuras de maior destaque e poder são gente como Bolsonaro, Trump, Putin, Johnson e Orban, entre outros?

Tal situação, diz Nunes, mostra que a maioria das vozes que, hoje, se dizem “realistas” repetem dogmas de uma realidade que sequer existe mais.

Nesse cenário extremado, a moderação de Lula pode ser tão decisiva para sua vitória quanto um fator fortemente limitante para seu governo. Já uma derrota seria igualmente decisiva, mas completamente desastrosa.

Leia também: Junho de 2013: oportunidade pedagógica desperdiçada

22 de agosto de 2022

As eleições como lava-jato de criminosos fascistas

Divulgado no dia 20/08/2022, levantamento do Datafolha mostrou que 75% dos brasileiros acreditam que a democracia é melhor que outros regimes políticos. Os que apoiam a ditadura em certas circunstâncias são 7%. Para 12%, tanto faz a forma de regime.

Os números devem ter desagradado os adeptos de Bolsonaro. Mas também podem revelar as fortes contradições do chamado “jogo democrático”. O próprio capitão fascista luta desesperadamente pela reeleição pelo voto. E muitos dos seus seguidores também. Nos quartéis, nas milícias, em igrejas que demonizam religiões afro, nas quadrilhas presentes em parlamentos e governos, toda essa ralé criminosa está de olho em outro mandato ou na renovação do atual.

É a lógica eleitoral imperando mesmo entre os fascistas. Até porque o fascismo nunca foi contra eleições, só contra a democracia. E eleições, por si só, têm pouco a ver com democracia.

Para comprovar isso, é interessante ler recente entrevista concedida pelo sociólogo José Cláudio Alves, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

O título do depoimento já diz muita coisa: “A estrutura miliciana é uma malha que recobre o país como um todo”. Ele está falando da vida cotidiana, mas também da institucionalidade política.

Mais especificamente, do que chamou de “lavagem de cidadania”. Como é isso? Alves explica que se trata de:

...pessoas que tiveram suas trajetórias marcadas por assassinatos, homicídios, lógicas absolutamente terroristas de controle do território, da imposição da força pela morte e o terror, lavam tudo isso nas urnas em pleitos democráticos.

Se as urnas funcionam cada vez mais como um lava-jato de trogloditas criminosos pra quê ditadura?

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19 de agosto de 2022

Eleições: engajamento virtual x militância presencial

O TikTok caminha rapidamente para ter o maior número de usuários do mundo, ultrapassando Facebook, Instagram, Youtube, etc.

É por isso que as redes virtuais concorrentes estão tentando imitar o aplicativo chinês. Vêm priorizando cada vez mais vídeos curtos no lugar de fotos e textos.

O problema é que isso torna as redes ainda menos interativas. As informações ficam mais soltas e sem contextualização. Além disso, vídeos são mais difíceis de fiscalizar quanto a conteúdos falsos e caluniosos. Uma beleza para a extrema-direita, com seu apego à difusão de fake news.

Um exemplo é a hashtag #StopTheSteal, compartilhada no TikTok por trumpistas, alegando que a eleição de Biden foi fraudada. Bloqueada pelos moderadores ela voltou com a grafia modificado para #StopTheSteallll e já tinha quase um milhão de visualizações até ser novamente desativada.

Semana passada, houve eleição presidencial no Quênia. Um dos candidatos apareceu num vídeo falso do TikTok segurando uma faca e vestindo uma camisa ensanguentada. A legenda o descrevia como um assassino. O vídeo recebeu mais de 500 mil visualizações antes de ser removido.

Enquanto isso, em terras brasileiras, a presença de Bolsonaro nas redes continua muitas vezes maior que a de Lula, líder nas pesquisas eleitorais. A participação de Anitta e Janones na campanha petista melhorou a situação, mas a reação veio com atraso.

A situação não seria tão preocupante se o engajamento virtual superior do bolsonarismo estivesse sendo compensado pela presença militante nas ruas, bairros e locais de trabalho em favor da candidatura petista. Por enquanto, isso não vem acontecendo. Os comícios são fundamentais, mas insuficientes. É urgente enfrentar esse desafio.

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