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21 de novembro de 2024

Trump e o ancestral racismo da América

“Make America Great Again”, brada Donald Trump. A tradução seria “Faça a América Grande Novamente”.

Para que não restem dúvidas sobre qual é a grandeza “americana” a que ele se refere, que tal lembrar as palavras de alguns daqueles que são considerados os maiores homens da história estadunidense.

Em 1785, Thomas Jefferson escreveu em “Notas sobre o estado da Virgínia”:

Sugiro, portanto, apenas como conjetura, que os negros, quer constituindo originalmente uma raça distinta, quer diferenciados pelo tempo e pelas circunstâncias, são inferiores aos brancos tanto física como mentalmente.


Em 1751, Benjamin Franklin publicou “Observações sobre o aumento da humanidade”, no qual manifestava sua contrariedade em relação ao tráfico negreiro pelas seguintes razões:

Por que incrementar o número dos filhos da África transportando-os para a América, onde nos é oferecida uma oportunidade tão boa de excluir todos os negros e escuros, e de favorecer a multiplicação dos formosos brancos e vermelhos?

Por fim, em  1858, durante campanha eleitoral em que disputava uma cadeira no senado, Abraham Lincoln declarou:

Existe uma diferença física entre as raças branca e negra que, em minha opinião, sempre impedirá que as duas raças vivam juntas em condições de igualdade social e política. E, na medida em que não podem viver dessa maneira, enquanto permanecerem juntas deverá existir uma posição de superioridade e uma de inferioridade, e eu, tanto quanto qualquer outro homem, sou a favor de que essa posição de superioridade seja conferida à raça branca.

Como se vê, Trump não representa nenhuma ruptura com a tradição histórica estadunidense e prova que a “América” jamais foi grande.

Leia também: De quem seria a culpa por um retorno de Trump?

19 de outubro de 2021

Os heróis oficiais estadunidenses eram carrascos terríveis

George Washington, antes mesmo de chegar ao poder defendia que, para aplicar as políticas dos Estados Unidos, seria melhor comprar suas terras dos índios ao invés de tentar arrancá-los de seu território.

Já presidente, em uma carta sobre os indígenas, ele explicou:

Conforme comprovado por nossa experiência, é comparável a retirar feras da floresta: retornarão tão logo a perseguição termine e, talvez, ataquem os que já ficaram. Já, a ampliação gradual de nossos assentamentos, certamente fará os selvagens se retirarem à semelhança dos lobos, já que ambos são animais de caça, embora de formatos diferentes.

Quando foi eleito presidente, em 1828, Andrew Jackson já tinha comandado ataques a acampamentos indígenas pacíficos, chamando-os de “cães selvagens” e gabando-se de ter arrancado o couro cabeludo daqueles que matava.

Também tinha supervisionado a mutilação de aproximadamente 800 cadáveres de índios Creek – corpos de homens, mulheres e crianças que ele e seus soldados haviam massacrado. Seus narizes foram cortados para tê-los como um arquivo de mortos, além de mandar cortar a pele de seus corpos em longas tiras para secá-las ao sol e convertê-las em rédeas para os animais.

Mesmo após deixar a presidência, Jackson recomendava que as tropas americanas procurassem especifica e sistematicamente matar as mulheres e as crianças que ainda se ocultavam nas montanhas para completar sua extinção. Do contrário, dizia ele, seria o mesmo que perseguir lobos em seu habitat, sem ter eliminado seu covil.

São estes os grandes heróis da história oficial estadunidense revelados pelo livro "Abya Yala!: Genocídio, resistência e sobrevivência dos povos originários", de Moema Viezzer e Marcelo Grondin.

18 de outubro de 2021

Destino Manifesto: a doutrina genocida estadunidense

Para os imigrantes protestantes e de outras denominações religiosas, estava fora de questão pensar que os habitantes da região pudessem ser seres humanos como os brancos, com direito à terra, moradia, alimentação, vida social e espiritualidade próprias.

É assim que Moema Viezzer e Marcelo Grondin introduzem a história da colonização europeia do norte do continente americano em seu livro "Abya Yala!: Genocídio, resistência e sobrevivência dos povos originários do atual continente americano".

Em menos de 100 anos, dizem eles, todo o litoral atlântico já era uma região habitada por imigrantes europeus que roubavam os territórios dos nativos para colonização, sob o poder e a autoridade da Coroa britânica.

Depois que se emanciparam do domínio britânico, os estadunidenses acreditavam ser o momento de seguir seu “Destino Manifesto”. Essa doutrina representava a convicção de que a população branca dos Estados Unidos era o povo “eleito por Deus para civilizar a América... e possuir todo o continente”, conforme lhes tinha sido concedido pela “Divina Providência”. Expandir os Estados Unidos significava “realizar a vontade divina”.

Eram três as estratégias para assegurar o expansionismo e transformar o país numa grande potência:

– compra ou anexação diplomática de territórios;
– guerras contra outros países para anexar-lhes seus territórios;
– guerras contra os povos indígenas para apropriar-se de seus territórios.

Resultado, mais imigrantes europeus e menos habitantes nativos, dizimados por epidemias trazidas pelos europeus, guerras e remoções forçadas de seus territórios.

De George Washington a Joe Biden, passando pelos drones assassinos de Obama e pelo racismo escancarado de Trump, é inegável que o Destino Manifesto continua a ser a principal doutrina dos Estados Unidos.

15 de outubro de 2021

Estados Unidos, escola de genocídio

Mais informações do livro "Abya Yala!", de Moema Viezzer e Marcelo Grondin.

Antes da chegada dos europeus, o território dos Estados Unidos era habitado por aproximadamente 18 milhões de nativos. No século 21, essa população reduziu-se a aproximadamente 2,5 milhões de habitantes, ou seja, 13% do total original.

Tamanha redução foi produto de um processo violento de colonização, tal como aconteceu ao sul do continente. Mas se houve muitas semelhanças com os processos latinos, também houve algumas grandes diferenças.

Na América do Norte, os próprios imigrantes financiavam o transporte e os equipamentos para seus familiares e empregados; outros tinham o patrocínio de companhias particulares. Uma situação bem diferente da de Colombo e Cabral, que tinham embarcado rumo às colônias com o patrocínio das Coroas de Espanha e Portugal, respectivamente.

Nos atuais países da América Latina, o genocídio durou aproximadamente um século. A degradação ocasionada pelo trabalho escravizado foi notória, mas não houve uma política de limpeza étnica decretada por governos. Não se impedia a mestiçagem de brancos com indígenas, o que deu margem a uma significativa população mestiça.

Nos Estados Unidos, o genocídio durou três séculos. Começou com ações de particulares, sobretudo de protestantes, que deixavam a Grã-Bretanha por motivos religiosos e políticos. Não aceitavam a miscigenação com as populações indígenas, que consideravam decadentes. No século 18, instalou-se uma política nacional de limpeza étnica para dar lugar aos brancos.

Os Estados Unidos se tornaram, nesse assunto, uma escola para o genocídio praticado posteriormente pelos ingleses contra os bôeres na África, em 1903, e para o holocausto dos judeus, promovido por Hitler.

20 de setembro de 2013

Uma voz negra, poderosa e comunista

Imagine um negro que cantava bonito com sua poderosa voz de baixo. Um estadunidense que também foi atleta profissional de futebol americano e bom jogador de baseball e basquete.

Este mesmo personagem era ótimo ator de teatro, cinema e musicais. Foi simplesmente o primeiro ator negro a interpretar o personagem Otelo, de Shakespeare.

No cinema, provocou polêmica em “Imperador Jones”, lançado em 1933. O personagem que interpretava matava um homem branco. Algo inadmissível para o racismo estadunidense.

Não fosse o bastante, também foi o terceiro negro a ingressar numa universidade americana. Nada era o bastante para Paul Robeson, um descendente de nigerianos, camaroneses e guinéu-equatorianos, nascido em Princeton, em 1898.

Para deixar os racistas e conservadores em geral ainda mais irritados, Robeson era comunista. O que acabou por render-lhe as piores perseguições. Sua ficha no FBI era a mais extensa entre os artistas investigados.

Em 1956, foi obrigado a depor diante do Comitê de Atividades Antiamericanas. Ele foi firme:

Não estou sendo julgado por ser comunista. Estou sendo julgado por lutar pelos direitos do meu povo, por aqueles que ainda são considerados cidadãos de segunda classe nos Estados Unidos da América.

Recusou-se a assinar uma declaração renegando suas ideias. Ficou no ostracismo, claro. Mas em 1958 voltou coberto de glórias em um grande concerto no Carnegie Hall. Continuou com sua carreira musical até 1965, quando se aposentou.

Robeson morreu em 1976, muito longe de ver a justiça social triunfar em seu país. Um negro governa os Estados Unidos, hoje. Mas sua voz é a de um boneco sentado no colo do imperialismo.

Ouça Robeson aqui.


Leia também: Harriet Tubman, a libertadora negra

15 de agosto de 2013

Harriet Tubman, a libertadora negra

“Há duas coisas a que eu tenho direito. A liberdade e a morte. Se eu não conquistar uma, ficarei com a outra, pois nenhum homem me pegará com vida”. Estas palavras são de Harriet Tubman, também conhecida como o “Moisés Negro”. Uma referência ao papel de libertadora que cumpriu, tal como o patriarca bíblico.

Harriet nasceu escrava, em 1820, em Maryland, Estados Unidos. Mas se revoltou, fugiu e passou a ajudar muitos outros a escapar de sua condição de cativos. Organizava expedições de fuga para outros estados, onde os libertos podiam viver fora do alcance de seus proprietários. Sua coragem e determinação libertaram mais de 300 homens e mulheres da crueldade escravagista.

Na Guerra Civil, lutou contra os escravistas do Sul e liderou uma expedição armada, no rio Combahee, libertando mais de 700 escravos. Depois da guerra e do fim da escravidão, participou das lutas pelo direito de voto para as mulheres.

A corajosa Harriet morreu aos 93 anos e tornou-se símbolo do que é capaz a resistência e a luta pela liberdade, mesmo sob uma ditadura perfeita como a estadunidense.

Outra frase famosa da grande lutadora é: “Libertei muitos escravos. E teria libertado muitos mais se pelo menos eles soubessem que eram escravos.” Diz muito sobre os mecanismos de dominação humana.

O capitalismo surgiu graças à exploração do trabalho de milhões de pessoas presas a pesados grilhões. Mesmo assim, muitas delas não percebiam que tinham direito à liberdade. Que fazer com bilhões de pessoas que atualmente têm apenas suas mentes acorrentadas?

Imitar Harriet e organizar muitas expedições rumo à liberdade.

28 de janeiro de 2013

O fim da escravidão nunca foi prioridade para Lincoln

O “Lincoln” de Spielberg concentra-se nos gabinetes do poder. A brutalidade da Guerra Civil fica em segundo plano. A resistência dos negros nem aparece. Lincoln é mostrado como um herói da luta por igualdade. Mas o combate à escravidão nunca foi sua prioridade.


É o que mostra Howard Zinn, em seu livro “Uma história do povo dos Estados Unidos”. Ele cita uma carta de Lincoln a Horace Greeley, editor do New York Tribune, escrita em agosto de 1862:

Meu maior objetivo nesta luta é salvar a União, não é salvar ou destruir a escravidão. Se eu pudesse salvar a União sem libertar nenhum escravo, eu o faria. Se eu pudesse salvá-la libertando todos os escravos, eu o faria. E se eu pudesse fazê-lo libertando apenas alguns, também faria isso. O que faço em relação à escravidão e às pessoas de cor, faço porque ajuda a salvar a União. E quando me calo, me calo porque acredito que assim ajudo a salvar a União... Manifesto meus propósitos de acordo com minhas obrigações oficiais, e não pretendo ceder a meus desejos pessoais, já bem conhecidos, no sentido de que todos os homens, em todos os lugares, sejam livres.

É por isso que, durante a guerra, uma lei libertou escravos apenas nas áreas que lutavam contra a União. Sobre isso, o jornal inglês "The Spectator" escreveu: "O princípio não é o de que um ser humano não possa possuir escravos. Ele pode possui-los, desde que seja leal aos Estados Unidos".

Depois que a Guerra Civil terminou, os negros continuaram a lutar por igualdade legal por 100 anos. Sozinhos.

Leia também: “Então, não sou uma mulher?”

4 de março de 2011

“Então, não sou uma mulher?”

Em seu livro “Uma história do povo dos Estados Unidos”, Howard Zinn diz que a primeira convenção sobre direitos da mulher aconteceu em 1848, em Seneca Falls, New York.

Depois dela, muitas outras foram organizadas em várias partes dos Estados Unidos. Em uma delas, em 1851, havia uma mulher idosa negra, nascida escrava em Nova York. Seu nome era Sojourner Truth. Alta, magra, trajando um vestido cinza e um turbante branco, ouvia alguns representantes do sexo masculino que estavam dominando a discussão. Ela levantou-se e juntou a indignação de sua raça à indignação de seu sexo:
Aquele homem ali diz que as mulheres precisam de ajuda para subir em carruagens e passar por valetas. Ninguém nunca me ajudou em carruagens, nem me carregou sobre poças de lama, nem me cedeu o melhor lugar. Então, não sou uma mulher?

Olhem os meus braços! Eu arei e plantei, e enchi celeiros inteiros, e nenhum homem fez isso melhor que eu! Então, não sou uma mulher?

Trabalhei tanto quanto os homens, e comi tanto quanto eles, quando pude, e do mesmo jeito agüentei chicotadas. Então, não sou uma mulher?

Pari treze filhos e vi a maioria deles ser vendida como escravos, e quando eu chorei minha dor de mãe, ninguém a não ser Jesus me ouviu! Então, não sou uma mulher?
Assim eram as mulheres que lutavam nas décadas de 1830 e 1840 e 1850. Negavam-se a se manter em seu "lugar de mulher." Participavam de todos os tipos de movimentos. Dos presos, dos loucos, dos escravos, e também da luta de todas as mulheres.

Leia também: O falso feminismo de silicone

10 de dezembro de 2010

Os Estados Unidos e suas mentiras de guerra

Circula pela internete uma mensagem do editor-chefe do WikiLeaks. Entre outras coisas, Julian Assange, diz:
“Há quem diga que sou anti-guerra: para que conste, não sou. Por vezes os países precisam ir à guerra e há guerras justas. Mas não há nada mais errado do que um governo mentir ao seu povo (...). Se uma guerra é justificada, então digam a verdade e o povo decidirá se a apóia”.
Assange refere-se às mentiras criadas pelos americanos para justificar as invasões de Iraque e Afeganistão. Mas a história estadunidense tem muitos outros relatos sobre falsas justificativas para provocar guerras. É o que nos diz o livro “Uma história do povo dos Estados Unidos”, de Howard Zinn:
“Não foram os ataques de Hitler aos judeus que levaram os Estados Unidos a entrar na Segunda Guerra Mundial. (...). O ataque da Itália à Etiópia, a invasão da Áustria e a anexação da Tchecoslováquia por Hitler, assim como seu ataque à Polônia. Nenhum desses eventos levou os Estados Unidos a entrar na guerra (...). O que colocou os Estados Unidos na guerra efetivamente foi o ataque japonês a Pearl Harbor, no Havaí, em dezembro de 1941”.
Mas o ataque à base americana não foi uma surpresa total. Segundo Zinn:
“Pearl Harbor foi apresentado ao público americano como uma ação surpreendente, chocante, imoral. Imoral foi mesmo, como qualquer outro bombardeio. Mas não foi surpreendente ou chocante para o governo americano”.
Zinn cita, então, uma série de atos de agressão mútua entre os dois países, cujo início foi marcado por sanções econômicas americanas contra o Japão. Na verdade, os Estados Unidos vinham perdendo o controle de áreas importantes do Oceano Pacífico para os japoneses. Daí, tomar iniciativas para preparar um conflito militar.

O livro relata ainda uma conferência realizada na Casa Branca duas semanas antes de Pearl Harbor. Os registros do evento mostram que a guerra era considerada iminente e necessária. O debate central era como deveria ser justificada. O bombardeio chegou na hora certa. O resto foi feito pela grande imprensa, exagerando, distorcendo informações e escondendo o longo jogo de provocações que antecedeu o ataque japonês.

Leia o texto de Assange aqui

Leia também EUA: a sangrenta alternativa civilizada

19 de outubro de 2010

EUA: a sangrenta alternativa civilizada

Mais um trecho do livro “Uma história do povo dos Estados Unidos”, de Howard Zinn.

Os primeiros colonizadores brancos da América do Norte não conseguiram forçar os índios a trabalhar para eles. Os nativos estavam em maior número e conheciam bem aquela terra desconhecida dos europeus. Mesmo com armas superiores, os invasores não se arriscavam a iniciar um massacre.

A situação causava irritação. Edmund Morgan descreve esse estado de ânimo em seu livro “Escravidão Americana, Liberdade Americana”:

Se você fosse um colono, consideraria sua tecnologia superior à dos índios. Teria a certeza de que você é o civilizado e eles, os selvagens ... Ainda assim, sua tecnologia superior se revelou incapaz de obter grande coisa. Já os índios, mantinham-se bem, rindo de seus métodos superiores, vivendo da terra com abundância e trabalhando menos que você... E quando o seu próprio povo começou a desertar para viver com eles, aí foi demais ... Você resolveu matar os índios, torturá-los, queimou suas aldeias, queimou suas plantações. Isto provou sua superioridade, apesar de tudo. E você fez o mesmo com qualquer um de seu próprio povo que se rendesse ao modo de vida dos selvagens. Mesmo assim, você continuou sem conseguir cultivar alimento suficiente...

A escravidão negra foi a resposta para este dilema dos invasores europeus. Esta era a alternativa civilizada diante da superioridade selvagem no trato com a natureza. Afinal, 50 anos antes de Colombo chegar por aqui, os portugueses já haviam levado dez escravos africanos para Lisboa. Era o começo de um negócio muito lucrativo. O início do capitalismo. Sua certidão de nascimento suja do sangue indígena e negro. Mancha que nunca cessou de aumentar.

Leia também: Helen Keller: surda, muda, cega, socialista

5 de outubro de 2010

Helen Keller: surda, muda, cega, socialista

Helen Keller nasceu em 1880, no Alabama, Estados Unidos. Ficou cega, surda e muda aos dois anos de idade. Mesmo assim, aprendeu a se comunicar, freqüentou a escola e formou-se em filosofia. Escreveu vários livros, recebeu prêmios e medalhas. Costuma ser citada como exemplo bem sucedido da luta contra limitações físicas. O que pouca gente sabe é que ela era socialista.

Em 1913 publicou “Out of the Dark” (Saindo da Escuridão). Era uma série de textos em defesa do socialismo. Foi o bastante para passar a ser alvo de ataques dos conservadores. Um jornal chamado “A Águia do Brooklyn”, de Nova Iorque, costumava tratá-la como heroína. Depois da publicação do livro, passou a dizer que Keller cometia "erros causados pelas limitações em seu desenvolvimento físico." A resposta dela:
Oh, como é ridícula a "Águia do Brooklyn"! Que pássaro deselegante! Socialmente cego e surdo, defende um sistema intolerável. Um sistema que é a causa de grande parte da cegueira e surdez que estamos tentando evitar. (...) Odeio o sistema que ela representa (...). Não é justo usar o argumento de que eu não posso ver nem ouvir. Sou capaz de ler livros socialistas em inglês, alemão e francês. Se o editor do Águia pudesse ler alguns deles, talvez fosse mais sábio. Seu jornal poderia ser melhor. Se eu puder contribuir com o movimento socialista com o livro que sonho escrever, vou dar-lhe o título “A cegueira e a surdez sociais em escala industrial".
Helen Keller morreu em 1968, aos 87 anos. Mais uma combatente a aparecer no livro “Uma história do povo dos Estados Unidos”, de Howard Zinn.

Leia também: EUA: uma idosa que fazia os poderosos tremerem

15 de setembro de 2010

EUA: uma idosa que fazia os poderosos tremerem

Plínio de Arruda Sampaio se destaca na atual campanha eleitoral por defender idéias e propostas radicais. E também por sua idade avançada, enfrentando os preconceitos contra idosos.

Lembra a história de Mother Mary Jones. Mais uma personagem do livro “Uma história do povo dos Estados Unidos”, de Howard Zinn.

Nascida na Irlanda, em 1837, Mary mudou-se para os Estados Unidos, onde perdeu seus quatro filhos numa epidemia de febre amarela. Em Chicago, trabalhou como costureira até que um incêndio destruiu sua oficina e tudo o que tinha.

Começou a participar do movimento sindical aos 50 anos. Principalmente junto aos mineiros. Atuava com as mulheres no apoio às manifestações e greves de seus maridos.

Sua imagem maternal e idosa escondia um vulcão de agitação. Certa vez, em uma assembléia, foi apresentada como uma humanista. Ela corrigiu: “Não sou humanista. Sou uma agitadora infernal.”

Ao ser interrogada por autoridades, perguntaram-lhe onde vivia. Ela respondeu: "Vivo nos Estados Unidos, mas não sei exatamente em que lugar, porque estou sempre onde uma luta contra a opressão precisar de mim."

Em 1903, Mother Jones liderou uma marcha de crianças da Pensilvânia até Nova York para protestar contra o trabalho infantil, diante do Presidente Roosevelt.

Em 1905, estava entre os que fundaram a central sindical Industrial Workers of the World (IWW). A organização foi criada para romper com a atuação pelega da American Federation of Labor (AFL).

Morreu em 1930, aos 93 anos, apesar de alegar ter chegado aos 100. Tinha orgulho de sua velhice ativa e de ser considerada a mulher mais perigosa dos Estados Unidos. Perigosa para os poderosos.

Leia também: EUA: nasce um monstro imperialista

17 de agosto de 2010

EUA: os sapateiros de Lynn

Outro relato de Howard Zinn sobre a luta dos trabalhadores americanos. Foi na cidade de Lynn, em Massachusetts. Local em que teve início a maior greve feita nos Estados Unidos antes da Guerra Civil. Lynn era grande produtora de calçados. Seus empresários foram pioneiros na utilização de máquinas para substituir o trabalho manual dos sapateiros.

A grande luta aconteceu em abril de 1859. A partir de Lynn, 20 mil sapateiros de 25 cidades entraram em greve. A paralisação durou quase dois meses, sob violenta repressão patronal.

Tamanho radicalismo pode ser explicado pela consciência de classe dos sapateiros de Lynn. Quase 30 anos antes do grande movimento, os trabalhadores já tinham seu jornal, era o “Coruja”. E, em 1844, quatro anos antes de Marx e Engels lançarem seu Manifesto Comunista, um editorial do “Coruja” dizia:
A divisão da sociedade entre produtores e não-produtores, e a distribuição desigual de riqueza entre ambos, nos leva imediatamente a outra distinção. Aquela entre capital e trabalho ( . . .) o trabalho agora se tornou uma mercadoria (. . .). O antagonismo de interesses se introduz na comunidade. O capital e o trabalho se colocam em lados opostos.
Um episódio que também mostra que a elaboração teórica de Marx e Engels não surgiu apenas de suas cabeças. Eles e outros pensadores e agitadores do comunismo estavam mergulhados em ambientes cheios de luta. Aprendendo com peões que tinham seus corpos escravizados pelas máquinas. Mas, suas cabeças nunca desistiram de procurar saídas para a situação de exploração e humilhação em que viviam.

Leia também: Zinn: um historiador do povo

3 de agosto de 2010

Nos EUA, empresas têm direitos humanos

A Constituição estadunidense recebeu uma série de emendas desde que foi aprovada, em 1787. Vinte e sete delas teriam sido adotadas para aperfeiçoar a “grande democracia americana”. Não é bem assim. É o que mostra Howard Zinn em seu livro “Uma história do povo dos Estados Unidos”.

Citemos o caso da 14ª Emenda, que foi aprovada para impedir a discriminação contra os negros. Um trecho dela diz:
Todas as pessoas nascidas ou naturalizadas nos Estados Unidos, e sujeitas à sua jurisdição, são seus cidadãos e do estado onde residem. Nenhum estado poderá fazer ou impor qualquer lei que restrinja os privilégios ou imunidades dos cidadãos dos Estados Unidos, nem deve qualquer estado privar qualquer pessoa da vida, liberdade ou propriedade, sem o devido processo legal, nem negar a qualquer pessoa em sua jurisdição a proteção das leis”.
Como se vê, trata-se de uma conquista da luta dos negros americanos contra o racismo. Mas a bem azeitada máquina de poder ianque não poderia deixar de funcionar em favor dos poderosos.

Em 1886, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu que empresas seriam consideradas como pessoas para efeitos da 14ª Emenda. Assim, os capitalistas passaram a utilizá-la para proteger seu direito de fazer e acontecer em terras ianques e fora delas. Diante de questionamentos quanto a seus métodos nada éticos e pouco legais, alegavam restrição a seus “privilégios ou imunidades”.

Não à toa, dos casos apresentados à Suprema Corte americana, entre 1890 e 1910, dezenove envolviam proteção aos direitos de negros, contra 288 relacionados à defesa dos interesses de empresas. A grande maioria julgada procedente em favor dos capitalistas.

Leia também: Zinn: um historiador do povo

16 de julho de 2010

EUA: as bruxas atacam Wall Street

“Conspiração Terrorista Internacional das Mulheres do Inferno”. Este é o nome de uma organização feminista surgida nos Estados Unidos, em 1968. Em inglês, “Women's International Terrorist Conspiracy from Hell”. O nome formava a sigla W.I.T.C.H., que, em inglês, quer dizer bruxa.

O W.I.T.C.H. surgiu do grupo “Mulheres Radicais”, que havia organizado um protesto durante um concurso de Miss América. Elas colocaram uma coroa de miss em uma ovelha para simbolizar a opressão sobre as mulheres que eventos como aquele significavam.

O livro “Uma história do povo dos Estados Unidos”, de Howard Zinn, cita brevemente algumas atividades desse coletivo feminista. Segundo o historiador, uma de suas ações mais famosas aconteceu na Bolsa de Valores de Nova Iorque, em 1968.

Elas apareceram vestidas de bruxas para denunciar as ações da United Fruit, empresa que representava o que há de pior no capital imperialista estadunidense. Principalmente nos países do “terceiro mundo”, onde a empresa comprava governos corruptos e financiava organizações contra-revolucionárias.

Desde então, a figura das bruxas foi adotada pelo movimento feminista. É uma referência à caça às bruxas, da Idade Média. Aquelas que ousavam desafiar a autoridade masculina eram acusadas de estarem possuídas pelo demônio. Foram mais de quatro séculos de perseguições a mulheres, principalmente na Europa.

Eram torturadas com crueldade, estupradas, mutiladas e queimadas vivas lentamente. Atualmente, a violência contra as mulheres já não é tão terrível. Mas as estatísticas mostram que ela continua. Em especial, contra aquelas que desafiam o machismo e lutam nas trincheiras da classe trabalhadora.

Leia mais em: A “caça às bruxas”: uma interpretação feminista

29 de junho de 2010

EUA: a Copa e banqueiros pilantras

No início da Copa, analistas do JP Morgan fizeram previsões sobre o resultado da competição. O banco americano dizia que o Brasil perde nos pênaltis para a Holanda. O campeão seria a já desclassificada Inglaterra. Bobagem de quem não conseguiu prever a crise que começou em 2008 e pegou o sistema bancário em cheio.

O negócio do JP Morgan não é fazer previsões. É pilantragem, mesmo. Na crise de 2008, o governo americano fez um enorme empréstimo ao banco Bear Stearns, que estava ameaçado de quebrar. Salvo da falência, o Bear foi vendido para o JP Morgan ao preço de 2 dólares por ação. Antes da crise, as ações valiam 160 dólares. O enorme lucro do JP Morgan nessa transação foi financiado pelo povo estadunidense.

Mas, esta não é a primeira trapaça do JP Morgan. Quem conta é mais uma vez Howard Zinn, em seu livro “Uma história do povo dos Estados Unidos”. John Pierpont Morgan começou a fazer fortuna no final da Guerra Civil americana. Havia falta de rifles no mercado. Morgan comprou armas velhas e recauchutou. Vendeu como novos ao exército. Resultado, de um lado, muito lucro para Morgan fundar seu banco. De outro, soldados mortos e mutilados ao usar os rifles defeituosos.

Para completar, ao ser convocado para lutar na guerra, Morgan pagou 300 dólares para que outro se apresentasse em seu lugar. São casos como estes que revelam os Estados Unidos como o paraíso da pilantragem capitalista. Campeão absoluto nessa competição cheia de fortes concorrentes.

Leia também:
Zinn: um historiador do povo

EUA: nasce um monstro imperialista


24 de junho de 2010

EUA: nasce um monstro imperialista

Em seu livro “Uma história do povo dos Estados Unidos”, o historiador Howard Zinn conta a história do nascimento da “nação ianque”. Na verdade, um monstro imperialista. A começar por sua declaração de independência. Segundo Zinn, o famoso documento não incluía os interesses de indígenas, negros e mulheres.

Não é para menos. Quase 70% dos que assinaram a declaração haviam sido funcionários da administração colonial. Colaboraram na obra de matança, exploração e dominação. Não teriam porque não continuar a fazer o mesmo depois de se livrarem dos ingleses.

Entre os principais idealizadores da declaração estavam George Washington, Benjamin Franklin e Thomas Jefferson. Os primeiros eram dois dos homens mais ricos da colônia. Jefferson foi um grande proprietário de escravos.

A declaração costuma ser elogiada por defender princípios de justiça, liberdade e igualdade. Mas, quase ninguém comenta um trecho do documento que faz referência aos indígenas como seres “selvagens e impiedosos, que adotavam como regra de guerra a destruição sem distinção de idade, sexo e condições”.

Com uma certidão de nascimento dessas, não é difícil entender como foi parido o monstro estadunidense. Segundo Zinn, o mais engenhoso sistema de dominação da história.

Leia também: Zinn: um historiador do povo

11 de junho de 2010

Zinn: um historiador do povo

O historiador estadunidense Howard Zinn morreu em janeiro de 2010. “A people’s history of the United States” é seu livro mais importante. Em português, o título poderia ser “Uma história do povo dos Estados Unidos”.

Neste livro, Zinn diz que a história que pretende narrar é a da “descoberta da América do ponto de vista dos índios Arawaks; da Constituição a partir da situação dos escravos; (...) da Guerra Civil, vista pelos irlandeses pobres de Nova Iorque; da Primeira Guerra, vista pelos socialistas; da Segunda Guerra, vista pelos pacifistas...”.

A obra desmascara a imagem dos Estados Unidos como uma grande democracia. Mostra como republicanos e democratas são apenas duas alas de um só grande partido. O partido do grande capital dominando uma ditadura perfeita.

De um lado, a lavagem cerebral ideológica de jornais, TV, rádio e cinema. De outro, censura e repressão, menos visíveis porque dificilmente partem do governo central. A maior parte do trabalho sujo é feito por governos estaduais, municipais, juízes, xerifes, organizações da “sociedade civil”, milícias.

O livro denuncia inúmeros episódios de perseguições, prisões, torturas, assassinatos, massacres. Suas vítimas: indígenas, negros, sindicalistas, migrantes, mulheres, homossexuais. Sem falar nos povos espalhados pelo planeta.

É uma vergonha que a esquerda brasileira ainda não tenha traduzido pelo menos esta obra do grande historiador libertário. Enquanto isso não acontece, as pílulas trarão alguns dos episódios que o livro narra.