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16 de abril de 2021

Marx contra os marxistas

Em artigo publicado no livro “Marx tardio e a via russa”, Teodor Shanin revela que Marx chegou a conviver com marxistas que julgavam saber melhor do que ele o que era ser marxista. Algo que o irritava tanto que, certa vez, negou-se a declarar-se marxista.

Quando jovem, Marx escolheu como seu lema favorito "Duvidar de tudo". E seus rascunhos e anotações tardios são uma prova clara de que jamais abriu mão desse princípio.

O que alguns consideravam ser indícios de senilidade, era fidelidade à sua inquietação criativa e coerência em relação a objetivos revolucionários nunca abandonados.

Os estudos que fez sobre os então recentes achados antropológicos da década de 1870, por exemplo, levaram Marx a descobrir nas sociedades ditas primitivas elementos para a construção do comunismo do futuro.

Olhar para trás também era permitido.

Se havia sinais de que uma transição para o comunismo seria possível na Rússia semifeudal, explorar essa possibilidade importava mais que as verdades sagradas do socialismo oficial.

Foi com a Rússia e com os populistas russos que Marx começou a perceber elementos que só se mostrariam válidos nos processos revolucionários do século seguinte na própria Rússia, mas também na China, em Cuba, no Vietnã...

Mas para a Segunda Internacional que endeusou Marx, com direito a escrituras sagradas elaboradas por sacerdotes, tudo isso não passava de heresias. Foi com esse dogmatismo que Lênin, Trotsky e outros romperam tornando vitoriosa uma improvável revolução socialista.

É verdade que Marx acabaria sendo mumificado e estatizado pelo estalinismo. Felizmente, ainda restam muitos que preferem aliar-se a Marx contra certos marxistas e pela revolução.

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15 de abril de 2021

Marx e os populistas russos contra os marxistas

Na pílula anterior falamos sobre uma possível via russa para o comunismo em pleno século 18, quando a Rússia recém havia abolido as relações de servidão.

Como mostra Teodor Shanin no livro “Marx tardio e a via russa”, esse estranho atalho foi considerado possível pelo próprio Marx. Mas quem propôs tal ousadia a ele foram os militantes do populismo russo.

Os integrantes desse importante movimento se recusavam a aceitar os "custos sociais" do capitalismo como mal menor na transição para uma etapa histórica “superior”.

Contra as forças da ordem, opressão e exploração, eles colocaram toda sua confiança na mobilização da classe trabalhadora, que seria formada por camponeses, operários e trabalhadores intelectuais.

Por trás dessas concepções estava um conceito muito marxista: o desenvolvimento desigual e combinado, pelo qual o atraso relativo podia se transformar em vantagem revolucionária, tornando possível uma ruptura socialista imediata na Rússia.

Os populistas russos ficaram famosos em toda a Europa. A imagem de "revolucionários profissionais" e "quadros do partido" que os bolcheviques encarnaram posteriormente tem sua principal origem neles.

A militância abnegada, a disciplina férrea e as ações heroicas dos populistas deram considerável contribuição para os processos que desembocariam nas revoluções de 1905 e 1917.

Entre seus militantes estava Alexandre Ulianov, executado em 1887, acusado de tentar assassinar o czar. Uma influência, certamente, importante na vida de seu irmão mais novo, Vladimir Lênin.

O dogmatismo que viria a dominar o marxismo oficial acusou os populistas de serem atrasados e fanáticos. Na verdade, Marx preferia corresponder-se com eles, imersos na luta do povo russo, do que com seus pretensos seguidores, frequentadores de salões luxuosos.

Leia também: Marx e um possível atalho russo para o comunismo

14 de abril de 2021

Marx e um possível atalho russo para o comunismo

Em um dos artigos do livro “Marx tardio e a via russa”, Teodor Shanin afirma que no final da vida, Marx ficava revoltado com leituras que atribuíam a sua obra uma visão evolucionista da história.

Segundo essas concepções, os modos de produção se sucederiam um após o outro: feudalismo, capitalismo, comunismo. Nesta ordem, sem variações.

Foi, principalmente, em seus escritos relacionados à Rússia que Marx procurou repudiar essa visão equivocada. É o caso da carta em resposta à Vera Zasulich, militante socialista russa. Ela perguntara se seria possível instaurar o comunismo na Rússia, sem que o país passasse por uma fase plenamente capitalista.

O parágrafo abaixo pode resumir a resposta de Marx:

A análise presente em O Capital (...) não fornece razões a favor ou contra a vitalidade da comuna russa. Mas o estudo específico que fiz a respeito (...) me convenceu de que a comuna pode ser o fulcro da regeneração social na Rússia.

As comuna russas, citada por Marx, eram organizações sociais locais muito comuns nas áreas rurais da Rússia. Nelas, os serviços essenciais eram administrados coletivamente.

Depois, no prefácio à segunda edição russa do Manifesto, ele e Engels afirmam que "se a revolução russa tornar-se o sinal para a revolução proletária no Ocidente, de modo que uma complemente a outra", então "a atual propriedade em comum da terra na Rússia poderá servir de ponto de partida para um desenvolvimento comunista".

Nada de história engessada em esquemas teóricos abstratos. Tudo depende da luta de classes. É isso que a ortodoxia marxista posterior desprezou até que, justamente na Rússia, os heterodoxos bolcheviques aprontaram uma revolução.

Leia também: Um Marx velho, cheio de novas ideias

13 de abril de 2021

Um Marx velho, cheio de novas ideias

“Marx tardio e a via russa - Marx e as periferias do capitalismo” é um livro organizado pelo economista britânico Teodor Shanin, professor das universidades de Moscou e de Manchester. A obra foi lançada pela editora Expressão Popular.

O “tardio” do título refere-se aos últimos anos da vida de Marx. Período que, segundo alguns biógrafos, teria sido marcado por ideais confusas, muito comuns entre idosos.

Mas como escreve Shanin, essa suposta senilidade nada mais era que a recusa do velho revolucionário alemão em se acomodar às próprias certezas. E entre estas, estava o desprezo que, na juventude, ele e Engels nutriam pela Rússia czarista. Ao contrário disso, no começo da década de 1870, diz Shanin:

...Marx tornou-se cada vez mais consciente de que ao lado da Rússia oficial retrógrada, que ele tantas vezes atacara como foco e guardiã da reação europeia, havia crescido uma Rússia diferente, de aliados revolucionários e acadêmicos radicais, cada vez mais envolvidos com seu trabalho teórico. Foi para o idioma russo que a primeira tradução de O Capital foi feita, uma década antes de ser lançada na Inglaterra. Foi da Rússia que vieram as notícias de ações revolucionárias, destacando-se ainda mais diante do declínio das esperanças revolucionárias na Europa Ocidental após a Comuna de Paris. Em 1870-1, Marx aprendeu russo sozinho com o propósito de abordar diretamente as evidências e os debates publicados nessa língua.

Ou seja, o veterano militante radical começava a farejar algo de incendiário nos ventos vindos das estepes eurasianas. Por isso, o livro dá ênfase à chamada “via russa”. Caminho pelo qual seguiremos nas próximas pílulas.

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