sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

A partícula de Orfeu

A imprensa anda falando muito sobre a “partícula de Deus”. A confirmação de sua existência seria o elemento que falta a uma grande equação. Algo que explicaria de que modo nasceu e se desenvolveu o universo. Exagero.

“Partícula de Deus” é o nome de um livro de Leon Lederman, prêmio Nobel de Física. O título foi adotado pelo editor no lugar de “A Partícula maldita”, sugerido pelo autor em referência à dificuldade de encontrá-la. E uma escolha editorial ganhou um ar meio arrogante.

A necessidade de explicar e capturar a totalidade parece ser inerente ao ser humano. O fato é que nossa espécie contraria as leis da natureza e ainda tem consciência da própria finitude. É o que ganhamos por comer do fruto proibido.

Daí, o surgimento da religião, que vem do latim “religare”. Ou seja, aquilo que pode unir o que está desunido. Dar sentido ao que parece caótico. Há uns 200 anos, começaram a atribuir à ciência este papel.

Ambas são tentativas legítimas. O perigo é achar que serão totalmente bem sucedidas. Os melhores teólogos e cientistas sabem que sempre haverá mistérios.

Talvez, seja melhor adotar como modelo a arte. Em sua infância, Orfeu não conseguia suportar os barulhos do mundo. Por isso, tentou se isolar deles. Ao ver que seria impossível, resolveu organizá-los. Com ajuda das musas acabou criando a música.

O melhor fazer humano é como a música. Empresta beleza a sons confusos. Organiza e reorganiza o caos seguindo razão e sensibilidade. Não é só partícula nem apenas totalidade. É particularidade cheia de universalidade.

Feliz 2012!

Leia também: Amy e o sentimento oceânico

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Presente de Natal para os banqueiros europeus

O Banco Central Europeu (BCE) aprovou um empréstimo de quase 490 bilhões de euros a 523 bancos afetados pela crise na Zona do Euro. São praticamente todos os bancos da região. Receberam um enorme presente de Natal. Os juros cobrados serão de 1% ao ano pelo período de três anos.

A idéia é que o dinheiro seja usado para compra de títulos da dívida da Espanha e da Itália. Papéis que estão pagando juros de mais de 5%. Ou seja, um lucro enorme garantido.

Desse modo, os bancos se recuperariam ao mesmo tempo em que ajudariam a bancar as dívidas públicas da região. Mas não há garantia de que isso venha a acontecer. Até porque o valor liberado mostra que a situação é ainda mais grave do que se esperava.

As previsões eram de um rombo de, no máximo, 250 bilhões de euros. É possível que vários desses bancos usem a dinheirama apenas pra se manter longe da falência.

Mesmo que os banqueiros façam o que o BCE espera, a única coisa certa é a continuidade da terrível situação social dos povos europeus. Para estes, o Natal já está sendo dos mais amargos.

Leia também: Os riscos de um apocalipse europeu

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Os riscos de um apocalipse europeu

A crise econômica que atingiu a Europa nos anos 1930 preparou a catástrofe que viria com a 2ª Guerra. Também foi terreno fértil para o fascismo.

Algumas previsões sobre a atual crise européia não estão muito longe disso. É o que mostra reportagem de Diego Viana para o Valor, publicada em 16/12. Com o título de “O roteiro catastrófico da morte da moeda”, o texto diz:
Uma recessão severa, "talvez um cenário de depressão", nas palavras do economista Jens Nordvig, do banco Nomura, pode não ser o pior dos prospectos para a Europa nos próximos anos. Analistas de bancos como ING, UBS, Crédit Suisse e Citigroup publicaram nas últimas semanas estudos sobre o continente caso o euro seja abandonado por um país ou mesmo todos. As projeções incluem corridas bancárias, inflação explosiva, desintegração do comércio e graves retrocessos políticos. Dentre as consequências estimadas por Nordvig, figuram "o calote generalizado de dívidas soberanas e corporativos, crise bancária, fuga de capitais, inflação muito elevada. Em alguns países a política monetária ficaria impossível".
O fim do euro significaria o retorno às antigas moedas. Marcos, francos, escudos e pesetas voltariam a ser emitidos. Para a maioria dessas moedas, a desvalorização seria inevitável. A reportagem cita alguns exemplos:
... a nova moeda grega se estabeleceria em nível 57,6% abaixo da cotação atual do euro; a portuguesa, a 47,2%; e a espanhola, 35,5%. Países mais sólidos teriam desvalorizações bem menores: 6,8% na Áustria e 9,4% na França. A Alemanha é o único país com potencial de alta: 1,3%.
Ou seja, diz o texto:
... a quebra da união seria desordenada. Além de moratórias soberanas e corporativas - empresas com dívidas em euro não poderiam honrá-las -, corridas bancárias, como houve nos EUA em 1933 e na dissolução da Tchecoslováquia em 1993, têm 90% de chance de ocorrer nos países periféricos. Em caso de colapso total, os saques teriam risco de 30% nos centrais.
Um cenário que teria “probabilidade de quase 100% para Grécia, Portugal ou Irlanda”. Mas “mesmo Alemanha, França e Itália correm o risco de um desastre em suas relações comerciais, já que as linhas de financiamento dependem de bancos que correriam o risco de quebrar”, diz a reportagem.

E o texto conclui em tom quase apocalíptico:
Com o aumento do desemprego, o colapso do comércio e a explosão da inflação, a história ensina que o desfecho provavelmente descamba para a política. O colapso do euro representaria, segundo a equipe do UBS, um risco de 75% de regime autoritário, golpe militar ou guerra civil nos países periféricos. Mesmo os centrais correm esse risco (10%).
É o que dá colocar a economia acima da política. Infelizmente, algo cada vez mais constante em um sistema dominado pelo valor de troca.

Leia também: A Europa corroída por sua moeda

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Turma da Mônica: sucesso comercial e consumista

A mais famosa personagem de Maurício de Sousa chegou à edição 500. Além disso, sua versão adolescente vendeu 500 mil exemplares da história em que ela e Cebolinha trocam um beijo apaixonado.

Para ter uma ideia, a DC Comics anda comemorando a venda de 200 mil exemplares do primeiro volume do "reboot" de "Liga da Justiça". Sem dúvida, Mônica e sua turma representam uma conquista comercial e tanto.

Já seu papel ideológico merece uma análise mais fria e rigorosa. É o que um texto escrito em 2009 tenta fazer. Clique aqui e leia.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Christopher Hitchens e o fanatismo ateu

Ele foi um dos maiores expoentes do chamado neoateísmo, ao lado de autores como Richard Dawkins, Sam Harris e Daniel Dennett. Seu livro "Deus Não É Grande" (Ediouro), de 2007, é um exemplo típico deste chamado neoateísmo: Deus não só não existe como a ideia de Deus é idiota, infeliz e faz mal à saúde física e mental.
As palavras acima são de Luiz Felipe Pondé, professor de Filosofia, em artigo publicado na Folha de S. Paulo, em 17/12. Referem-se a Christopher Hitchens, morto dois dias antes. Resumem menos a idiotice da crença em Deus que a estupidez do ateísmo do próprio falecido.

Hitchens era daqueles ateus que envergonham muitos dos que não crêem. Nos faz parecer gente rancorosa e arrogante. Que considera os teístas ignorantes, supersticiosos, obscurantistas. Pensam que a ciência pode tudo explicar. Se não o fez ainda, um dia o fará.

Ciência e religião são duas formas com que o ser humano tenta explicar o universo e seu lugar nele. É natural que haja divergências entre elas, pois partem de pontos de vista diferentes. Mas trata-se de um debate legítimo e importante. Os problemas começam quando passam a ser usadas para justificar a dominação e a exploração de uma parte da sociedade pela outra.

Desde que a sociedade de classes passou a existir, as instituições sociais tendem a se aliar à classe dominante. Grande parte de seus dirigentes tem como objetivo maior fazer parte do grupo socialmente privilegiado.

As disputas envolvendo as igrejas entre si ou com outras áreas, como a academia, são reais e muito duras. Porém, têm pouco a ver com a busca pela revelação divina ou pela certeza científica absoluta. Representam muito mais uma briga para conquistar influência social e poder político e econômico.

É o caso de Hitchens. Ele apoiou a invasão do Iraque e a eleição de Bush, por exemplo. Ou seja, combatia um fanatismo em favor de outro. Que o Diabo o agüente.

Leia também:
Um pastor evangélico e republicano
Papas da elite, santos do povo

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A nova classe média é a velha classe trabalhadora

Vira e mexe, a chamada nova classe média aparece em jornais, debates ou conversas informais. É a tal classe C em expansão. Não é para menos. A Fundação Getúlio Vargas diz que ela representa 55% da população brasileira. Ou pouco mais de 100 milhões de habitantes. É muita gente. Mas um pouco de rigor teórico é importante.

Foi o que procurou fazer a filósofa Marilena Chauí em palestra para o 1º Ciclo de Debates do Fórum Direitos e Cidadania, realizado em julho passado no Palácio do Planalto. Com o tema “Classe Média: como desatar o nó?” a professora falou a um público que, talvez, faça pouco ou nenhum uso de suas conclusões.

De acordo com Marilena Chauí, “a distribuição das classes pela sociologia e pelos institutos de pesquisa de mercado se faz com base na renda, na propriedade de bens imóveis e móveis, na escolaridade e na ocupação ou profissão”. Entretanto, diz ela, “há outra maneira de analisar a divisão social das classes. Aquela que se originou com o marxismo”.

Na opinião da filósofa, é costume identificar os segmentos da classe média como sendo aqueles ligados à ciência e à técnica. “Hoje, porém” diz ela:
...com a revolução eletrônica e a informática, as ciências e as técnicas tornaram-se parte essencial das forças produtivas e por isso cientistas, técnicos e intelectuais passaram da classe média à classe trabalhadora. Dessa maneira, renda, propriedades e escolaridade não são critérios para distinguir entre os membros da classe trabalhadora e os da classe média.
Ou seja, diminuição da pobreza e aumento do consumo podem levar ao conformismo e ao individualismo. Mas também significa mais gente em contato com as contradições do capitalismo. É o que mostram, por exemplo, as mobilizações em várias partes do mundo. Com grande participação de universitários, diplomados e profissionais especializados.

“Proletários, uni-vos!” continua valendo.

Leia também: Diplomados e conectados, uni-vos!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

A falência da grande fábrica soviética

Em dezembro de 1991 a União Soviética chegava ao fim. Pouco a comemorar. Por um lado, nos livrávamos de um monstrengo que o senso comum aprendeu a identificar com socialismo e comunismo. Por outro, sua desaparição passou a simbolizar a vitória do capitalismo.

E em 1847, um documento da Liga Comunista, organização da qual participavam Marx e Engels, declarava:
Não estamos entre aqueles comunistas que pretendem destruir a liberdade pessoal, transformar o mundo em um imenso quartel ou em uma gigantesca casa de correção (...) não queremos de forma alguma trocar a liberdade pela igualdade.
A definição se adéqua bem ao que acabou se tornando a União Soviética depois que Stalin assumiu o poder. Na verdade, o imenso país passou a ser dirigido como se fosse uma grande fábrica. Sob forte disciplina, sem liberdade, com muita exploração e usando os heróicos atos da revolução de 1917 como ideologia para manter o poder. De socialismo, só o nome.

Tratava-se de um capitalismo fortemente dirigido pelo Estado e de um Estado sob controle de uma classe burocrática. Era o capitalismo burocrático de Estado. Seu fim foi uma espécie de falência da grande fábrica.

É o que defendem autores como o marxista inglês Tony Cliff, que escreveu “Capitalismo de Estado na União Soviética” em 1955. Infelizmente, ainda sem tradução para o português.

Até hoje, esta definição não é consensual na esquerda. Muitos seguidores de Trotsky, por exemplo, consideram que a União Soviética era um Estado operário degenerado. Mas já em 1951, a própria viúva de Trotsky manifestou posição diferente. Em carta à direção da IV Internacional, Natalia Sedova Trotsky afirmou:
Obcecados por fórmulas velhas e ultrapassadas, vocês continuam considerando o Estado stalinista como um Estado operário. Eu não posso e não acompanharei vocês nisto. Praticamente todos os anos depois do começo da luta contra a burocracia stalinista usurpadora, Trotsky repetia que o regime estava se movendo para a direita, sob as condições de uma revolução mundial morosa e a conquista de todas as posições políticas na Rússia pela burocracia. Repetidas vezes ele mostrou como a consolidação do stalinismo na Rússia conduzia ao agravamento das posições econômicas, políticas e sociais do proletariado, e ao triunfo de uma aristocracia tirânica e privilegiada. Se esta tendência continuar, disse, a revolução chegará a um fim e a restauração do capitalismo será alcançada.
Mas o pior mesmo são as viúvas do stalinismo. Cada vez mais numerosas e desavergonhadas. A reforçar uma visão autoritária e estatal do socialismo. É tudo o que a direita precisa.

Leia também: Soviéticos ontem, chineses hoje e a crise capitalista

Patinando à beira do abismo

Em “Tempos Modernos”, há uma cena em que Carlitos anda de patins usando uma venda nos olhos. Faz acrobacias sem notar que está à beira de um abismo. Felizmente, se dá conta antes de que o pior aconteça.

A grande mídia comemora o sucesso da Conferência do Clima da ONU. As principais vitórias seriam a renovação do Protocolo de Kyoto até 2017 e promessas de um novo acordo climático a partir de 2020.

Mas Rússia, Japão e Canadá se retiraram do Protocolo de Kyoto. Três dos maiores poluidores mundiais se juntam aos Estados Unidos, que já estava fora. Além disso, vários indicadores mostram que o desequilíbrio climático não pretende obedecer a prazos definidos em agendas políticas.

Outro motivo bobo de comemoração foi o recente anúncio do acordo na Zona do Euro, em Bruxelas. Os governantes de Alemanha e França impuseram sua receita aos 17 países integrantes da união monetária. Basicamente, mais neoliberalismo. Novas doses do veneno que já vem minando as economias da região.

O pior é que a saúde da economia alemã não anda tão bem assim. A dívida pública do país de Angela Merkel pode representar 185% de seu PIB e não os já elevados 83% admitidos. De qualquer maneira, as medidas anunciadas só começam a fazer efeito em meados de 2012. Muito provavelmente, tarde demais para evitar o pior.

Em Durban ou em Bruxelas, na economia ou na ecologia, o sistema dá sinais muito sombrios. Como o personagem de Chaplin, os líderes mundiais parecem não enxergá-los. Diferente dele, pode ser tarde demais para escaparem da queda.

Leia também: Democracia na base do "um dólar um voto"

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O leninismo de Gramsci

É costume opor Gramsci ao leninismo. O marxista italiano teria mostrado que os caminhos da revolução na Europa Ocidental seriam opostos aos que defendia Lênin. Afinal, o revolucionário russo vivia em um país sem instituições democráticas e organizações populares e operárias fortes.

Mas Lênin nunca ignorou isso. É o que mostra o marxista inglês Chris Bambery no texto “Hegemony and revolutionary strategy”. Segundo Bambery, Lênin teria dito que na:
...Europa Ocidental será muito mais difícil começar a revolução proletária do que foi na Rússia. Mas será muito mais fácil mantê-la e concluí-la.
Uma conclusão que necessariamente levaria a caminhos táticos diversos daqueles que Lênin defendeu para a Rússia. Por outro lado, tal situação não obrigou Gramsci a abandonar o leninismo. Ao contrário do que o stalinismo e a direita dizem, Lênin não era um líder inflexível.

O revolucionário russo não hesitava em abandonar seus pontos de vista caso se mostrassem equivocados. E fez isso várias vezes em sua vida política. Quando Gramsci se voltou para a tarefa de pensar a revolução na Europa usou essa flexibilidade para fazê-lo.

Mas em seus escritos políticos do período de 1921 a 1926, Gramsci reafirmou como tarefas principais do partido comunista:
a) organizar e unificar o proletariado industrial e rural; b) organizar e mobilizar em torno do proletariado as forças necessárias para a vitória da revolução e a fundação do Estado dos trabalhadores; c) colocar para os proletários e seus aliados a questão da insurreição contra o Estado burguês e a luta pela ditadura do proletariado, e guiá-los política e materialmente rumo à sua solução, através de uma série de lutas parciais.
Alguns podem dizer que tais posições são anteriores à vitória fascista que esmagou os comunistas. Situação que teria levado Gramsci a abandonar o leninismo.

A isso Bambery responde com o famoso artigo “As antinomias de Antônio Grasmsci”, de Perry Anderson, de 1976. O texto lembra que a ditadura do proletariado e a derrubada violenta do Estado burguês sempre foram centrais para o leninismo. E que tais princípios:
... nunca foram questionados por Gramsci. Pelo contrário, quando começou a sistematizar sua teoria na prisão, ele parece tê-los assumido como tão evidentes que mal se deu ao trabalho de citá-los.
Ou seja, Gramsci renovou dialeticamente Lênin, tal como este fez com Marx. Todos a serviço da luta dos trabalhadores.

O texto que traz as citações acima pode ser acessado na íntegra, em inglês, aqui.

Leia também: Gramsci leninista

domingo, 11 de dezembro de 2011

A democracia corintiana e a nobreza dos meios

O documentário “Ser campeão é detalhe - democracia corinthiana” está disponível na internete. Vale a pena assistir. Principalmente, diante da triste coincidência entre seu lançamento e a morte de Sócrates. Ao lado de Casagrande, Wladimir, Biro Biro, Zenon, o “doutor” protagonizou um dos momentos mais bonitos do futebol mundial.

Sócrates explica que não se tratava apenas de revolta contra a concentração obrigatória. Todas as decisões eram tomadas de forma coletiva e igualitária. Como diz Sócrates no filme:
Eu era o único jogador de seleção no Corinthians. Meu voto tinha o mesmo peso que o do terceiro goleiro, do cara que limpava minha chuteira e tinha o mesmo peso do que o do diretor do clube. Era um pra um.
Num ambiente autoritário como o do futebol, e ainda sob a ditadura militar, tratava-se de um posicionamento radical. Mas não só isso. Em uma das finais que disputou pelo campeonato paulista, o time entrou em campo com a seguinte faixa:
Ganhar ou perder, mas sempre com democracia.
Era um desafio à própria lógica competitiva. O sacrifício dos fins em nome da nobreza dos meios. Algo inadmissível não apenas no meio esportivo. Desafiava a própria lógica daquilo que Florestan Fernandes chamou de “ordem social competitiva”, ao se referir ao capitalismo.

Felizmente, a ousadia foi recompensada com dois títulos paulistas numa das campanhas mais bonitas do clube em sua história. Bonita também foi a participação de Sócrates e seus companheiros no movimento pelas eleições diretas para presidente, entre 83 e 84. Infelizmente, a democracia acabou derrotada em ambos os movimentos.

No documentário, Juca Kfouri lamenta a ausência de herdeiros para um movimento tão importante. Mas os elementos e contradições que permitiram seu surgimento continuam presentes no esporte e na vida. A eles devemos acrescentar a necessidade de resgatar as lições da democracia corintiana.

A se lamentar o grande desfalque de Sócrates no time dos lutadores.

Leia também: Um médico que sofria as doenças de seu povo

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O mundo nivelado por baixo

Desigualdade social extrema costumava ser uma especialidade do chamado “terceiro mundo”. Os maiores poluidores eram os países “desenvolvidos” do norte. Salários altos eram aqueles pagos na Europa e Estados Unidos. Violência contra pobres? Coisa de país atrasado do sul. De uns 20 anos pra cá, tudo isso começou a mudar. Pra pior.

Vejamos algumas notícias recentes. Manchete de O Estado de S. Paulo afirmava em 06/12: “Países ricos têm maior desigualdade em 30 anos”. A reportagem de Jamil Chade diz que no período, o fenômeno “atingiu até mesmo a Alemanha, Finlândia e Suécia, com alta de 4%”.

“Sem teto: De Marselha a Hamburgo, a caça aos pobres generaliza-se”. Este é o título de artigo de Christian Jakob publicado no site esquerda.net, em 07/11. Segundo o texto:
Várias cidades francesas adotaram medidas contra os mendigos nos últimos meses. Na Alemanha, a instalação de uma grade para impedir os sem-abrigo de pernoitarem debaixo de uma ponte de Hamburgo suscitou protestos. Por toda a parte, os sem-teto são empurrados para fora dos centros das cidades por cercas, multas ou milícias privadas.
Em 08/12, a Agência Reuters informava: “Os três maiores poluidores do mundo se opõem a acordo climático”. Entre estes, estão dois “novos ricos”: Índia e China. Ao lado dos Estados Unidos, emporcalham o planeta. E tal como os americanos, não estão nem aí para os problemas ambientais.

“Salários no Brasil estão mais altos do que em países ricos”, diz matéria do jornal Destak, de 05/12. Seria até uma boa notícia, se não dissesse respeito apenas a executivos e altos gerentes. Minoria que chega a ganhar 79% a mais do que nos Estados Unidos.

Tudo isso é produto do desenvolvimento capitalista tomando o planeta como câncer em metástase. Felizmente, tanta desgraça também leva a reações populares radicais. Anticorpos como o povo na Praça Tahrir, o Ocupe Wall Street, Indignados europeus, estudantes chilenos e a recente greve geral na Inglaterra.

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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Até quando acerta, Dilma erra

Os jornais destacam o crescimento zero do PIB no terceiro trimestre deste ano em relação aos três meses anteriores. A notícia pode fazer a alegria da oposição de direita. Mas os números confirmam que a decisão do governo de cortar os juros em setembro fazia sentido.

Na época, os neoliberais chiaram. Apesar disso, a previsão de piora da situação econômica mundial estava correta. O problema é que a taxa de juros brasileira continua a ser a maior do mundo. Pagam quase o dobro do que paga o segundo colocado.

O abandono das áreas sociais se consolida. É o caso da recusa em destinar 10% do PIB para a Educação. Ou da redução nas verbas para a Reforma Agrária.

Por outro lado, o governo acaba de conseguir aprovar na Câmara Federal a transferência de novos recursos para o FMI. Medida que obrigará a elevar ainda mais a dívida interna. Aquela que paga os tais juros campeões mundiais.

Ou seja, até quando acerta, o governo Dilma erra. Mantém a trajetória petista de rendição ao essencial do neoliberalismo. Tal como fizeram os governos “socialistas” europeus recém derrotados nas urnas.

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Crise econômica e HIV
Guarda-chuva sob céu azul?

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A crise mundial e a síndrome da China

No final dos anos 1970, o filme “Síndrome da China” denunciou os perigos da utilização da energia atômica. O título referia-se à possibilidade de ocorrer um acidente radioativo de proporções gigantescas. O material nuclear penetraria no solo de forma tão poderosa que atravessaria o planeta e chegaria à China.

Em 16/11, Cláudia Trevisan publicou em O Estado de S. Paulo a matéria “FMI alerta sobre fragilidade de bancos chineses”. Segundo o texto, em relatório feito em parceria com o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional avalia que:
A atual configuração das políticas financeiras estimula alta taxa de poupança, elevados níveis de liquidez e um grande risco de má alocação de capital e formação de bolhas, especialmente no setor imobiliário.
Entre as medidas que o FMI recomenda está a redução da “influência governamental nas decisões sobre empréstimos”.

Os neoliberais costumam condenar a excessiva presença estatal na economia chinesa. Mas essa presença tem garantido os enormes lucros das empresas ocidentais instaladas no país. E índices de crescimento que vêm salvando a economia mundial do desastre completo.

Por outro lado, a matéria diz que:
...analistas manifestam preocupação com a provável elevação no volume de créditos podres nos balanços dos bancos chineses, em consequência da explosão de financiamentos registrada desde 2009.
Ou seja, de um lado, o modelo chinês, com seu capitalismo fortemente controlado. De outro, o neoliberalismo, que vem desregulamentando a economia ocidental há décadas. Mesmo assim, ambos apresentam os mesmos sintomas. Coisas como créditos podres e bolhas imobiliárias.

O que explica essa contradição? Muito provavelmente, o fato de que as leis capitalistas que vigoram em terras chinesas são as mesmas que andam fazendo estragos no resto do mundo. Os dois modelos divergem no varejo para se completar de um modo muito perigoso no atacado.

Em plena crise recessiva, a economia capitalista pode se revelar tão arriscada quanto a energia nuclear.

Leia também: Soviéticos ontem, chineses hoje e a crise capitalista

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Gramsci leninista

Muitos setores da esquerda marxista, e até de fora dela, consideram Lênin e Gramsci completamente opostos. Um seria o defensor da tomada do poder rápida e violentamente. O outro, partidário de sua conquista gradual e suave. O primeiro fazia política com um martelo. O segundo, com um bisturi. O russo seria revolucionário. O italiano, reformista.

Um texto do marxista inglês Chris Bambery mostra que não é bem assim. “Hegemony and revolutionary strategy” foi publicado em abril de 2007 na revista “International Socialism journal”. Trata-se de publicação editada por Alex Callinicos para a tendência Socialismo Internacional.

Bambery cita alguns trechos de Gramsci para mostrar que o italiano era não só revolucionário, como leninista. Seu leninismo estava exatamente na preocupação de adaptar criativamente o marxismo revolucionário às condições da Europa Ocidental.

O artigo traz citações de Gramsci bastante demonstrativas de sua concordância com a concepção de partido que os bolcheviques defendiam. Eis uma delas:
O princípio de que o partido lidera a classe trabalhadora não pode ser interpretado de maneira mecânica. (...) A capacidade de liderar a classe relaciona-se, não ao fato de que o partido se auto-proclame órgão revolucionário, mas ao fato de que realmente consiga, sendo parte da classe trabalhadora, ligar-se com todos os seus setores e impulsioná-la na direção desejada e favorecida pelas condições objetivas. Somente como um resultado de sua atividade em meio ao povo, ele virá a ser reconhecido como o seu verdadeiro partido (conquistando uma maioria). Somente quando esta condição for conquistada, o partido colocará a classe trabalhadora sob seu comando.
Em uma carta a seu companheiro de partido Amadeo Bordiga, Gramsci dizia que o reformismo da Segunda Internacional transformava as organizações socialistas européias em testemunhas passivas dos acontecimentos. Para ele, a organização partidária deve ser resultado “de um processo dialético, no qual o movimento espontâneo dos trabalhadores e o papel organizador e dirigente de seu centro político convergem”.

São elementos bastante característicos da concepção organizativa que Lênin defendia. Em breve, podemos voltar a esse texto para reforçar esta hipótese.

O texto na íntegra, em inglês, pode ser acessado aqui.

Leia também: Revolução é fúria e consciência

domingo, 4 de dezembro de 2011

Sócrates brasileiro

"Ao tocar de calcanhar o nosso fraco, a nossa dor / Viu um lance no vazio, herói civilizador". É assim que um samba de José Miguel Wisnik, professor talentoso, compositor refinado e santista convicto, homenageia o “doutor”.

Mas nada melhor que lembrar algumas frases ditas pelo próprio Sócrates:
Perguntaram a Fidel se as universitárias cubanas estavam se prostituindo. Ele respondeu: “Não sei. Mas com certeza todas as prostitutas cubanas têm nível superior”. Não estou nem querendo isso. Só peço segundo grau completo.
Em entrevista, defendendo a obrigatoriedade de escolaridade de segundo grau para os jogadores de futebol - CartaCapital nº 152

A manipulação dos resultados de alguns jogos do Campeonato Brasileiro tirou dos manos não só a calma como também a única riqueza que podiam ter em mãos. Tirou o sonho e roubou a alegria simples e corriqueira de quem pouco pode sorrir. Desencadeou uma corrente de agonia que explode nas ruas e nos campos de futebol como uma forma de demonstrar que esse povo está vivo. Pouco articulado, mas vivo. E que um dia, não tenham dúvidas, há de lutar por alicerces mais resistentes para a sua existência. É, os manos estão se matando, mas, no fundo, estão mesmo é buscando uma brecha de cidadania em que possam se apoiar. Na verdade, eles estão sangrando. E muito.
Sobre brigas de torcidas após as denúncias envolvendo fraudes no futebol – CartaCapital - 02 de Novembro de 2005

Se temos de aplaudir alguém, são os nossos abnegados atletas. Muitos vivem, treinam, vestem-se e alimentam-se com pouco mais de um salário mínimo por mês.
Sobre os jogos panamericanos do Brasil – CartaCapital – 26/07/2007

Uma coisa é Copa do Mundo, outra coisa é o futebol. Futebol é essência. É o exercício dessa prática. Outra coisa é a Copa, que é um negócio, onde tem um monte de ladrão roubando dinheiro.
Brasil de Fato – novembro de 2007

É que neste país nada mobiliza e agrega mais que o futebol e poderá ser por meio dele que teremos os exemplos que determinarão os caminhos que devemos seguir para transformar nossa sociedade em algo mais humano e da qual possamos nos orgulhar.
CartaCapital – 13/03/2009

Leia também: Um médico que sofria as doenças de seu povo

Um médico que sofria as doenças de seu povo

Dos torcedores mais convictos costuma-se dizer que são “doentes”. Corintiano doente, por exemplo. Algumas torcidas fazem questão de reivindicar a condição de sofredoras. Talvez, a do Corinthians seja a que tenha mais direito a esse estranho orgulho. De 1954 a 1977, o time amargou um penoso jejum absoluto de títulos.

Depois, com a chegada do “doutor”, começou a fartar-se com banquete de títulos e conquistas. Entre estas, a inesquecível e valiosa “democracia corintiana”. Em pleno declínio da ditadura militar, o médico recém formado liderava seus companheiros na luta por liberdade dentro e fora do esporte.

Sócrates era doutor, mas parecia esquecer-se dessa condição tão valorizada numa sociedade elitista e conservadora. Médico, preferia misturar-se à maioria formada por doentes e sofredores. Um povo magro como ele, dado hábitos pouco saudáveis e, principalmente, cagando para uma carreira de sucesso.

Ambições? Só as coletivas e as plebéias. Era nacionalista também. Desde que a nação fosse alvinegra ou aquela que torce pela camisa canarinho sem esperar recompensas financeiras. Em nome dessa coerência jamais abandonou seu olhar crítico. Jamais “pipocou”, como dizem. Longe dos campos, continuou a mostrar elegância, precisão e talento em favor dos indefesos.

Seus companheiros e companheiras de doença e sofrimento agradecem, doutor!

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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Ao século 21: comunismo é jogo

Amigos do século 21, não sei como nem porque, estou vivendo século e meio à frente daquele em que nasci. Ainda estou sob forte impacto do que testemunho. Mas posso dar muito boas notícias. Parece que finalmente a humanidade livrou-se de seus apertos materiais.

O trabalho duro, cansativo e aborrecido já não existe. Problemas sociais como pobreza, exploração, opressão e criminalidade também são raros. Aos poucos, a civilização parece ter encontrado um ponto de equilíbrio ecológico. Não se trata de harmonia perfeita, mas nossa relação com fauna e flora já não é marcada pela destruição. Acho que finalmente chegamos ao tal do comunismo.

No entanto, ainda há muita coisa que não consigo entender. Entre elas, a vida social. Quando sonhávamos com uma sociedade livre, era costume pensarmos em menos regras e leis. Mas não é isso o que vejo por aqui. São inúmeros os regulamentos e normas. Eles existem para quase tudo o que se faz. E há uma enorme variedade deles para cada coisa.

Mas o mais incrível é que nada disso significa menos liberdade. Ao contrário, as pessoas são livres para escolher as regras que bem entenderem desde que combinem com as outras. E tais combinações podem envolver tanto a forma como calçar os sapatos, como de que modo se deve tocar certa canção.

Pelo que entendi, a vida social é um grande jogo que se joga aos pares, em trios, quartetos, e envolvem até assembléias inteiras. E tudo isso sem a obsessão competitiva que marcou tanto os séculos passados. Ainda não aprendi direito a viver desse jeito. Mas é muito divertido.

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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Democracia na base do "um dólar, um voto"

O governo Zapatero, na Espanha, é a mais recente vítima européia da crise capitalista. Já são oito, desde novembro de 2008. Antes dele caíram os governos da Islândia, Grã-Bretanha, Irlanda, Portugal, Eslováquia, Grécia e Itália.

Eram todos neoliberais declarados? Não. Alguns governos até se diziam socialistas, como o espanhol e o grego. Várias medidas políticas e sociais pontuais também os diferenciavam. Quanto ao comportamento ético, parece que os piores roubavam e os menos piores só deixavam roubar.

Quanto às tragédias provocadas pelo neoliberalismo, variavam entre a tolerância frouxa e a cumplicidade entusiasmada. Por outro lado, foram sucedidos por governos que prometem fazer mais do mesmo. Tudo isso mostra o beco sem saída a que chegou a democracia que se limita a eleições institucionais. Um sistema em que as leis do mercado vão engessando a política oficial.

O resultado é o aprofundamento da crise. Algo que, pelo menos, serve para escancarar a formalidade vazia da democracia burguesa. Tome-se como exemplo a entrevista concedida pelo ministro finlandês Alex Stubb ao Financial Times, em 26/11. Segundo ele, os países da zona do euro melhor classificadas pelas agências de crédito deveriam ter maior influência nos assuntos econômicos da Europa que os outros membros da região.

A este respeito, o colunista americano Harold Meyerso fez o seguinte comentário em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo de 27/11:
O que Stubb está propondo, e os mercados estão fazendo, é, em essência, estender ao reino de países antes igualmente soberanos o princípio de "um dólar, um voto" que nossa Suprema Corte inscreveu em sua decisão Citizens United no passado. O requisito de que se deve possuir propriedade para votar - abolido neste país no início do século XIX pelos democratas jacksonianos - foi ressuscitado por poderosas instituições financeiras e seus aliados políticos. Para os países da união monetária europeia, a "propriedade" de que precisam para garantir seu direito de voto é uma classificação de crédito apropriada.
É o retorno do voto censitário. Pelo menos, tem a vantagem de deixar as coisas mais claras.

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terça-feira, 29 de novembro de 2011

O touro de Wall Street não tem apenas chifres

O movimento 99% nos Estados Unidos surgiu para denunciar a enorme desigualdade econômica do país. Afinal, apenas 1% da população estadunidense fica com a maior parte da riqueza produzida pelos trabalhadores americanos.

Há quem diga que a situação é ainda pior. Um deles é Paul Krugman. Em 05/11, em artigo na Folha de S. Paulo, o economista afirma que pesquisa de 2005:
...constatou que quase dois terços dos avanços de renda entre o 1% mais rico beneficiavam o 0,1% mais rico - o milésimo mais rico dos norte-americanos, cuja renda real subiu mais de 400% entre 1979 e 2005.
O dado pode levar a conclusões indevidas. Uma delas é a de que mesmo os que fazem parte da centésima parte bilionária americana são vítimas da milésima fração ainda mais rica. Ao primeiro grupo pertenceriam empresários produtivos. No segundo estariam banqueiros gananciosos. Daí, a necessidade de se juntar aos segundos contra os primeiros.

Não é nada disso. Desde que Lênin escreveu seu livro sobre o imperialismo, sabe-se que o capital financeiro é a junção de capital bancário com capital industrial. Ambos se uniram no controle das maiores e mais poderosas empresas do mundo.

No momento em que as ruas são tomadas por multidões enfurecidas isso pode não fazer muita diferença. O importante seria combater o inimigo maior. Pode ser. Mas a luta anticapitalista tem que mirar no sistema como um todo. Não apenas em sua feia cara especulativa. É preciso cuidado para não se concentrar apenas nos chifres do touro e acabar pisoteado por suas patas.

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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Soviéticos ontem, chineses hoje e a crise capitalista

O documentário “Notícias de Antiguidades Ideológicas”, de Alexander Kluge, traz 9 horas de entrevistas e ensaios cinematográficos sobre um projeto muito ambicioso. A intenção de Sergei Eisenstein de filmar “O Capital” de Karl Marx.

É cansativo, mas tem momentos interessantes. Em um deles ficamos sabendo que em plena crise de 1929 a União Soviética decidiu “comprar ativos” do mundo capitalista. A idéia, meio bizarra, era usar os tesouros do czar deposto para tornar os capitalistas falidos devedores do poder soviético. Não teria dado certo porque faltavam especialistas em negócios entre os soviéticos.

Difícil não lembrar da China dos dias atuais. Em plena crise mundial, muitos esperam que o gigante asiático salve, ou compre, o capitalismo com sua enorme produção industrial. Mas há muitas diferenças.

A crise de 1929 não atingiu a economia soviética porque restava muito pouco de capitalismo nela. A indústria e a classe operária russas foram destruídas pelo cerco de 14 potências estrangeiras a sua revolução.

Já a China do século 21 é o maior parque industrial do mundo. Por isso mesmo, também se encontra ameaçada pela crise que vai tomando a economia mundial. Vejam o que diz reportagem de Cláudia Trevisan para O Estado de S. Paulo de 23/10:
A orgia de crédito fácil que sustentou o crescimento chinês nos últimos três anos começa a provocar uma ressaca de dimensões ainda desconhecidas. Os primeiros sinais dessa ressaca se manifestam na paralisação de obras, falência de empresas privadas, queda na venda de imóveis e previsão de aumento dos créditos podres nos balanços dos grandes bancos estatais.
E em 26/11, Marcelo Justo apresentou mais dados sobre a economia chinesa no jornal argentino Página/12. Título da matéria: “A economia chinesa está dando sinais de esfriamento”. Alguns detalhes:
A crise mundial está chegando à China. As exportações caíram pelo quarto mês consecutivo, a produção industrial está em seu pior momento em 34 meses e uma onda de conflitos trabalhistas está sacudindo um país que não tem o direito de greve contemplado na Constituição. Nos últimos 10 dias mais de 10 mil trabalhadores na província de Cantão, sul do país, coração das zonas francas do “milagre chinês”, pararam suas atividades.
Como a União Soviética, a China acabou se tornando um capitalismo de Estado. Mas está mais vulnerável aos efeitos da crise do capitalismo de mercado.

Leia também: Se a bóia chinesa furar, glub, glub...

O parasitismo alemão está matando seus hospedeiros

Um leilão de títulos de dívida da Alemanha na semana passada teve o pior resultado desde a introdução do euro. Trata-se de dos papéis mais confiáveis do mundo. Mesmo assim, quase 35% deles não conseguiram ser vendidos.

Os especialistas dizem que está acontecendo o seguinte: a maior parte da Europa está falida. Se a zona européia continuar, a Alemanha é que vai ter que pagar a conta. E seus papéis vão se tornar investimento arriscado. Se a Alemanha largar o euro, seus papéis também já não vão valer grande coisa.

Os neoliberais não sabem bem como explicar. Não é tão difícil. A economia alemã é a mais saudável da região, dizem eles. Sem dívidas e desequilíbrios. Mas isso só foi possível porque ela vem parasitando as outras economias desde que a zona do Euro foi criada.

O problema é que ao mesmo tempo em que suga seus hospedeiros, ela os mata. Não é só a Grécia e Portugal, mas Itália, Espanha e até França. Na verdade, é a lógica capitalista em pleno funcionamento.

Enquanto isso, dados fracos vindos dos Estados Unidos e da China alimentam temores sobre a possibilidade de uma recessão global. É o metabolismo catastrófico do capitalismo.

Leia também: O euro criou um terceiro mundo na Europa

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A podre lei da Anistia

Em 18/11, a presidenta Dilma aprovou a lei que cria a Comissão da Verdade para apurar violações dos direitos humanos ocorridas no Brasil entre 1946 a 1988. A Organização das Nações Unidas (ONU) elogiou a medida. Mas pediu a revogação da Lei da Anistia de 1979.

No comunicado da ONU, a alta comissária de Direitos Humanos, a indiana Navi Pillay, defendeu “a aprovação de uma nova legislação para revogar a Lei da Anistia ou declará-la inaplicável, pois impede a investigação e o fim da impunidade de graves violações dos direitos humanos".

Mas é algo que está longe dos planos da limitada comissão montada pelo governo. A confirmar mais uma vez a covardia política do petismo governista.

Para fazer coro à bronca contra a Anistia que os militares concederam a si mesmos, lembremos a música dos Garotos Podres, lançada em 1988.
Anistia

Não queremos anistia
Aos torturadores
Não queremos que os assassinos
Fiquem impunes

Amordaçaram e torturaram
Toda uma nação
Nos deixaram órfãos
De uma mãe pátria

Como poderíamos
Perdoá-los
Se os cadáveres
Ainda estão fedendo
E as suas mãos
Ainda estão sujas de sangue
Sangue de uma geração
Sangue de toda uma nação
Para ouvir a música, clique aqui

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domingo, 20 de novembro de 2011

Preconceito racial e consumo

A Lei Afonso Arinos foi a primeira a considerar crime o preconceito racial no Brasil. Foi aprovada após um hotel de luxo paulista recusar hospedagem à bailarina norte-americana Katherine Dunhan.

Não deixava de ser um avanço num país que ainda acusa de serem preconceituosos os que denunciam o racismo. Mas a lei preocupava-se mais com o direito dos negros como consumidores do que como cidadãos.

Tanto é que seu primeiro artigo proíbe a "recusa, por parte de estabelecimento comercial ou de ensino de qualquer natureza, de hospedar, servir, atender ou receber cliente, comprador ou aluno, por preconceito de raça ou de cor".

A lei é de 1951. Em 1963, Edmar Morel e João Cândido lançavam a segunda edição de “A Revolta da Chibata”, no centro do Rio de Janeiro. A publicação retratava um dos mais importantes episódios da luta contra o racismo e por dignidade humana de nossa história.

Como a noite de autógrafos terminou tarde da noite, João Cândido resolveu se hospedar perto do local do evento. Mas teve que passar por dez hotéis antes de conseguir uma vaga. Testemunhas da época garantiram que as recusas tinham motivação racista.

Muitas décadas e algumas leis depois, pouca coisa mudou. No começo de novembro deste ano, reportagem do jornal Brasil de Fato ganhou o Prêmio Nacional Jornalista Abdias Nascimento. Trata-se de “Supermercado ou Pelourinho?” de Eduardo Sales de Lima e Jorge Américo. Relata casos de racismo e tortura ocorridos nas três maiores redes de supermercado do Brasil: Carrefour, Walmart e Extra.

E ainda há quem ache que o racismo brasileiro tem origem econômica apenas.

Leia também:
PM na USP e Palmares
A chibata continua a castigar

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

PM na USP e Palmares

Os recentes acontecimentos na USP ganharam um feio aspecto conservador. Muita gente boa andou elogiando as ações da PM. Parecem ter esquecido a atuação da militar força policial. Quase sempre marcada pela repressão, violência e intolerância. Daí, ser a que mais mata no mundo.

Entre os que denunciaram este caráter da PM está Gilberto Maringoni. Em seu texto ele descreve o brasão da PM paulista, que inclui a figura de um bandeirante. Talvez, fosse bom lembrar que os bandeirantes não passaram de mercenários da pior espécie. Bandidos que viviam do aprisionamento de índios e cometiam barbaridades por onde passavam.

Foram responsáveis, por exemplo, pelo massacre de milhares de indígenas nas missões jesuíticas no sul do Brasil e no Paraguai. Chegaram em pequenas expedições que matavam ou levavam presos muitos índios. A partir de 1628, começaram a formar verdadeiros exércitos para destruir as aldeias, matando velhos e crianças e aprisionando centenas de homens e mulheres guaranis.

Tamanha crueldade e violência chamou a atenção dos donos de engenho pernambucanos, que chamaram Domingos Jorge Velho para acabar com o Quilombo dos Palmares. Mas sua fama era péssima até entre os portugueses. Um deles foi o governador de Pernambuco, Caetano de Melo e Castro. Ele escreveu ao rei dizendo que os paulistas eram:
...gente bárbara, indômita e que vive do que rouba (...). Não julgo útil ao Real serviço de Vossa Majestade que aquela gente fique fazendo sua morada nos Palmares, porque experimentarão as capitanias vizinhas maiores danos em seus gados e fazendas que aquele que lhes faziam os mesmos negros levantados.
Outro a fazer comentários nada simpáticos sobre os bandeirantes foi o bispo de Pernambuco na época. Em 1697, ele falou o seguinte sobre Domingos Jorge Velho:
Este homem é um dos maiores selvagens com que tenho topado. . . nem se diferencia do mais bárbaro tapuia mais que em dizer que é cristão.
Defender as ações da PM contra os estudantes da USP equivale a cuspir na memória dos guerreiros e guerreiras de Palmares.

Leia o texto de Maringoni clicando aqui

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Conjuração Baiana: agulhas e sangue
A música negra olha para a luz
Abolição: sob controle do monstro

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

EUA: menos pobreza, desigualdade enorme

Em 11/11, o jornal Valor publicou bom artigo de Alex Ribeiro. “Outras contas, outra ideia de pobreza” traz dados surpreendentes sobre o que significaria ser pobre nos Estados Unidos. Vejamos alguns:
- 96% dos chefes de famílias pobres afirmaram que suas crianças não passaram fome em nenhum momento de 2009.
- os 20% da população que estão na base da pirâmide de renda nos Estados Unidos vivem em casas com, em média, 5,7 cômodos e 155 metros quadrados.
- entre os 20% mais pobres, 76% têm pelo menos um carro.
- uma família na linha oficial de pobreza ganha o equivalente a mais de R$ 3 mil mensais.
Então, pobre americano chora de barriga cheia? Alan Berube, professor do Brookings Institution, não concorda: “no país mais rico do mundo não é demais esperar que as famílias não estejam preocupadas em conseguir sua próxima refeição." Correto. Os Estados Unidos têm um PIB sete vezes maior que o brasileiro, por exemplo. Seus males sociais não podem ser iguais aos nossos.

Por outro lado, Berube alerta:
...a pobreza afeta 15% da população, mas a desigualdade significa que dois terços da sociedade estão vendo sua fatia no bolo diminuir, seu padrão de vida diminuir, enquanto os que estão no topo só melhoram.
É o que confirmam dados de declarações de imposto de renda dos 1% mais ricos em 95 anos:
O resultado é uma enorme curva em formato de "U". Até a recessão de 1929, 1% da população ficava com cerca de 18% da renda gerada nos Estados Unidos. A fatia dos super-ricos na renda nacional caiu para 8% no pós-Guerra e por aí ficou até fins da década de 1970. A partir de então, entrou em trajetória de alta, até chegar ao pico de 18% pouco antes do início da Grande Recessão.
Não à toa, a concentração de renda disparou em momentos que antecederam duas das piores crises do capitalismo. A de 1929 e a atual. Ambas, depois de períodos de grande liberdade para os mercados. Mais capitalismo, mais desgraça.

Marx achava que a construção do socialismo teria maiores chances se começasse em sociedades capitalistas mais desenvolvidas. Talvez, porque nelas fossem maiores as frustrações com as promessas burguesas de sucesso pessoal. O artigo do Valor indica algo nesse sentido. E também vale para a Europa rica.

O movimento 99%, que ocupou Wall Street, ensaia uma primeira resposta popular. Os indignados europeus também. A direita não vai ficar quieta. Tempos sombrios à vista. Mas as contradições nos centros do capitalismo mundial nos permitem tentar arrancar muita luz disso tudo.

Leia também:
A ditadura eleitoral estadunidense
Lênin na ocupação de Wall-Street

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Neoliberais dão golpes de estado na Europa

A democracia está desaparecendo dia após dia na Europa. Por exemplo, quando no dia 5 de junho passado se organizaram as eleições em Portugal, a Troika (Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu, União Europeia) pediu aos dois partidos políticos portugueses que tinham chances de ganhar as eleições que assinassem um acordo diante do qual se comprometiam em implementar as condições impostas pela Troika. Agora isso aconteceu com a Grécia e é a vez da Itália. Por conseguinte, pode-se dizer que os portugueses não tiveram eleições verdadeiramente livres. Foi usada uma arma contra eles. Na realidade, com essa política europeia, a Alemanha está defendendo com unhas e dentes os interesses financeiros, os interesses do mercado.
As palavras acima são de Michael Schlecht, membro do partido alemão “Die Linke” (A Esquerda). Faz parte de entrevista concedida ao jornal Página/12, em 13/11.

Mas até a Folha de S. Paulo teve que admitir. Em editorial de 11/11, o jornal cita Lucas Papademos, novo premiê grego, e Mario Monti, que substituiu Berlusconi:
Conhecidos "eurocratas", ambos são profissional e intelectualmente muito respeitados, assim como estranhos à atividade político-partidária de seus países. Parecem, na realidade, interventores temporários, encarregados de implementar medidas amargas, antes que venham novas eleições gerais.
O fato é que desde os anos 1980, governantes europeus são eleitos para dar a maior liberdade possível para o capital. Tudo às custas de direitos sociais e serviços públicos. A democracia já era um jogo de cartas marcadas. Tornou-se prisioneira do mercado. E não foram poucos os governos “socialistas” a colaborar com isso.

Agora, até o direitista Silvio Berlusconi foi descartado. Resistiu a 17 anos de escândalos e condenações criminais. Caiu quando se tornou inútil para os mercados. O fato é que a crise chegou a um ponto em que é preciso se livrar até das aparências democráticas.

É contra isso que os indignados ocupam ruas e praças. Contra os golpes de estado neoliberais, é preciso responder com a política a partir de baixo. Construir organizações populares de poder. Se isso não for feito, a classe dominante destruirá de vez qualquer resto de democracia.

Leia também: O mundo de quimono

O euro criou um terceiro mundo na Europa

“Aos poucos, crise do euro contagia a economia global” diz editorial do jornal Valor de 11/11. Na Folha de 12/11, o título de uma matéria dizia “Espanha não cresce e recessão se aproxima”. No mesmo texto o ex-primeiro-ministro inglês Gordon Brown avisava: a França poderá ser uma das próximas vítimas do mercado na crise da dívida soberana.

Um novo surto da crise de 2008 se aproxima perigosamente. Os comentaristas neoliberais culpam governos gastadores e povos cheios de privilégios. Já os governantes alemães e franceses, seriam responsáveis por economias sólidas e produtivas. Mas em artigo de 12/11, Paul Krugman explica melhor:
Na prática, ao adotar o euro, Espanha e Itália se reduziram à situação de países do Terceiro Mundo que precisam tomar empréstimos na moeda alheia, com toda a perda de flexibilidade que isso implica (Folha de São Paulo).
Ou seja, a pretensa saúde das economias alemã e francesa deve-se à exploração de seu quintal. Um terceiro mundo particular, que não se resume a Grécia e Portugal. Envolve outras economias dependentes, mas grandes o suficiente para que sua quebra abale a economia mundial.

O pior virá quando o quintal já não tiver mais nada para ser saqueado. A crise pode igualar “primeiro” e “terceiro” mundos numa só catástrofe econômica. Atingir, inclusive, os que já se sentem parte da elite mundial.

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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

No Paraguai, neoliberalismo de verdade

Em 10/11, a CBN fez uma entrevista com Wagner Weber, presidente do Centro Empresarial Brasil-Paraguai. Em depoimento a Carlos Sardenberg, ele descreveu o Paraguai como um paraíso para os neoliberais, ainda que não tenha dito isso.

Segundo Weber, investir no Paraguai é um grande negócio. Nem tanto pelo baixo custo da mão de obra. Afinal, o salário mínimo local é de 740 reais. É que os trabalhadores do país produzem cerca de dois meses a mais por ano que seus companheiros do Brasil.

Isso aconteceria porque são cinco feriados a menos por ano e apenas 12 dias de férias para quem trabalha há menos de cinco anos. Férias com 30 dias somente após 10 anos de trabalho na mesma empresa. A jornada semanal é de 48 horas.

A carga tributária em relação ao PIB é de apenas 8%. Não há imposto de renda para pessoa física ou jurídica. Tudo isso explicaria um crescimento econômico espantoso. Os setores de pecuária e manufatureiro vêm crescendo 7% ao ano nos últimos 20 anos.

Weber também diz que a esquerda quase não existe no país. É verdade que o atual governo foi eleito com apoio dela. Mas 98% dos membros do Congresso Nacional são de centro-direita e a instituição manda mais que o presidente da república.

Só não se falou sobre as conseqüências disso tudo para a maioria da população paraguaia. O país ocupa a posição 107 no Índice de Desenvolvimento Humano. Bem abaixo da grande maioria dos países latino-americanos.

É ou não é um paraíso do neoliberalismo? Talvez por isso o capital brasileiro esteja tão bem por lá.

Leia também: O imperialismo jr. entre sonhos e pesadelos

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Poesia para Dilma, Aldo e o agronegócio

Roberto Antonio Liebgott é membro do Conselho Indigenista Missionário (CIMI). Em artigo publicado em setembro de 2011 no jornal Porantim, ele diz:
...a política da presidente se assemelha também a um trator sem freio, que segue em frente, a qualquer custo, revolvendo a terra, removendo empecilhos, aniquilando o meio ambiente. Não por acaso o termo “tratorar” se aplica a quem costuma seguir arrastando o que encontra pela frente, sem tempo ou disposição para a escuta, a discussão e o profícuo debate democrático.
A avaliação cabe perfeitamente em relação ao novo Código Florestal vem sendo construído no Congresso Nacional. Proposta de Aldo Rebelo, bem ao gosto do agronegócio. Um projeto que vem sofrendo resistência tímida por parte do governo petista.

Diante disso, Dilma, Aldo e Kátia Abreu até merecem que se lhes dedique trecho de um poema de Antonio Francisco da Costa e Silva. Trata-se de “A derrubada”, obra simbolista do poeta piauiense que viveu entre 1896 e 1950.
Reboa o machado,
No seio umbroso da floresta,
Num assíduo fragor monótono, vibrado
Pela força brutal do homem rústico e bronco;
E, pancada a pancada, a lâmina funesta
Golpeia o rijo tronco
De uma árvore copada.
É a derrubada

(...)

Abandonam-lhe os ramos seculares,
Festonados de frutos e de flores,
− Verde arcádia dos pássaros cantores, −
As aves e os insetos
Que, assustados e inquietos,
Em debandada, fogem pelos ares.
A diferença é que o machado já foi trocado por motosserras, correntes e tratores.

Leia também: A corrupção que nasce das leis

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A corrupção que nasce das leis

Outro escândalo no governo Dilma. Agora, é no Ministério do Trabalho. Nada que já não venha se repetindo desde a instalação da política institucional no País. Que atravessou monarquia e república, com eleições ou sem elas.

Enquanto isso, o parlamento desmente aqueles que dizem que seus membros não trabalham. Em 08/11, as votações entraram pela madrugada. Os deputados aprovaram a Desvinculação das Receitas da União (DRU), em primeiro turno. Trata-se de mecanismo inventado pelos tucanos, que permite ao governo usar livremente 20% da arrecadação.

E adivinhem em que são usados estes recursos? No pagamento da dívida pública, principalmente. Ao mesmo tempo, a DRU representa desfalque no orçamento da seguridade social. Ou seja, nos gastos em saúde, previdência e assistência social.

Interessante que para votar medidas como aumento do salário mínimo ou fim do fator previdenciário são meses de debates infindáveis. Sempre com resultados ruins para a maioria da população. Já a renovação da DRU, vem sendo feita sem maiores problemas há uns 15 anos.

E não se diga que o Senado fica atrás em seus deveres legislativos. Também no dia 08/11, os senadores aprovaram relatório de Luiz Henrique (PMDB-SC) nas Comissões de Ciência e Tecnologia e de Agricultura e Reforma Agrária. Trata-se das alterações do Código Florestal. Por 27 votos a 1, foi disparado novo golpe contra o meio ambiente. Pelo placar de votação, nota-se que o governo não mexeu palha alguma para impedir.

Tudo isso está sendo feito dentro da normalidade institucional. O problema é que esta normalidade foi instituída para atender aos interesses dos poderosos. É corrupção dentro da lei.

Leia também: Vexames da esquerda estatal

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O capital não foge do aluguel

Possuir casa própria costuma ser um objetivo sagrado para os trabalhadores. Por isso, a atual crise vem sendo cruel com milhões deles, despejados de suas casas na Europa e nos Estados Unidos.

No Brasil, a maioria sonha fugir do aluguel. Anseio explorado pelos governos para alojar populações inteiras a vários quilômetros dos centros urbanos. São centenas de milhares de trabalhadores viajando horas entre casa e trabalho todos os dias. Verdadeiros movimentos migratórios diários dentro das cidades.

O interessante é que o grande capital não tem o menor problema em pagar aluguéis. Há no mercado imobiliário uma operação chamada “built to suit” (“construído sob medida”). Trata-se de contratos de locação para imóveis voltados para o atendimento de locatários específicos.

É o caso de agências bancárias. Há projetos feitos só para atender às necessidades desse tipo de instalação. Desse modo, evita-se a imobilização do capital da empresa em propriedades. E há também vantagens tributárias para empresas que pagam aluguel.

Uma das maiores clientes desse tipo de negócio nos Estados Unidos é a Wal-Mart. Seu fundador é Sam Walton. Dizem que ele afirmou certa vez: “Estou no negócio de vendas a varejo, não no negócio de imóveis. Se tiver que construir uma loja, tudo bem. Mas, em seguida, coloco a venda”.

Para o capital o que importa é o controle dos mecanismos que geram os lucros. Não necessariamente sua posse. Nesse caso, nem a propriedade é sagrada. Diferente do que acontece com muitos trabalhadores, que vêm suas casas tomadas pelos bancos, por exemplo.

Leia também: Monopólios no varejo e no atacado

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Conjuração Baiana: agulhas e sangue

Em 8 de novembro de 1799, foram enforcados os líderes da Conjuração Baiana. Também conhecida como Revolta dos Alfaiates, o movimento queria a liberdade do Brasil e de seus negros. Ocorreu no final do século 18, na então Capitania da Bahia. Segundo Clóvis Moura:
Tiradentes foi transformado em algo que ele não foi. E com isso nós desviamos a atenção da Inconfidência Baiana, que ocorreu dez anos depois, na qual quatro foram enforcados, e deles ninguém fala. E tiveram uma posição heróica diante dos algozes. Tiradentes se mijou todo, beijou os pés do carrasco. E fora outras coisas. Tiradentes tinha escravos. E os outros — da Inconfidência Baiana — eram escravos ou forros. (Revista Princípios n°37 – 1995)
Diferente do movimento mineiro, a revolta baiana lutava por uma república abolicionista. Seus principais líderes eram os alfaiates João de Deus do Nascimento e Manoel Faustino dos Santos Lira, e os soldados Lucas Dantas e Luiz Gonzaga das Virgens, todos afro-descendentes. Não à toa, tornou-se um episódio meio esquecido pela história oficial.

O escritor e poeta Domício Proença escreveu “As teias da bordadura”, poema inspirado pelo movimento. Faz parte do livro “Dionísio esfacelado”, que conta a história do Quilombo dos Palmares. Leia um trecho do poema:
As agulhas
percorriam
abomináveis espaços:
e as linhas
cruzadas
e recruzadas
do longo mar-oceano
deixavam rubras
no pano
tênue da História
marcas de vôos
ousados.
Restou no chão da Bahia
à sombra de muitas forcas
retalhos, fios partidos
e uma flor viva
de sangue:
adubo.
Leia também:
No mês da Consciência Negra, poesia
A Caixa Econômica Federal e o capitalismo racista

domingo, 6 de novembro de 2011

O câncer do SUS

Houve alguma polêmica envolvendo a doença de Lula e o SUS, semana passada. Artigo publicado no Valor de 28/10 sobre o sistema público de saúde ajuda a esclarecer algumas coisas. O texto é de Alexandre Marinho e Carlos Octávio Ocké-Reis, pesquisadores do Ipea. Para começar, eles constatam que:
O Sistema Único de Saúde (SUS) é um modelo público universal, mas o perfil do nosso gasto público em saúde é parecido com o dos Estados Unidos, que é baseado em seguros de saúde privados. Por isso, o gasto público brasileiro em saúde é, em termos percentuais, menor do que o canadense e o australiano, que se destacam pela intervenção ativa do Estado.
O baixo gasto público no setor em saúde no Brasil explica a falta atendimento de qualidade para todos. Por isso não surpreende que as famílias brasileiras gastem tanto com planos de saúde. O artigo diz que as despesas com serviços médicos e medicamentos chegam a 29,2%. Mais que o dobro do verificado nos Estados Unidos: 12,1%.

Não é só isso. Os autores citam a Terapia Renal Substitutiva (TRS) e os transplantes de rim. Dois dos procedimentos mais procurados. Segundo eles:
As TRS custaram ao SUS, no ano de 2010, R$ 1,6 bilhão. A hemodiálise é a TRS mais frequente e cobre 70 mil brasileiros. Assim, a TRS possui o maior orçamento dentre os procedimentos ambulatoriais de média e alta complexidade, crescendo sua quantidade ao longo dos anos. Porém, apenas 10,3% dos 18.780 equipamentos de hemodiálise pertencem ao Estado Brasileiro, cabendo ao setor privado, contratado pelo SUS, 83,3% desses equipamentos. Consequentemente, o SUS paga 95% do custo total.
Só para ter uma idéia em 2010 os planos de saúde faturaram R$ 72,7 bilhões. Mas desembolsaram apenas 5% das despesas com pacientes renais.

Por descaso dos governos, o SUS atende mal dezenas milhões de pacientes pobres. Pessoas que já pagaram a conta de seu atendimento através de impostos. Mas o maior problema é a indústria da saúde. Um tumor que parasita os recursos já tão limitados do sistema público de saúde.

Leia também: O voto e a risada enlatada

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A rede mundial dos tempos de Marx

Há quem diga que Marx era autoritário e defendia soluções violentas para as contradições sociais. Não é o que parece quando se lê uma entrevista concedida por ele a Raymond Landor. Ela foi publicada no jornal “The World”, em 18 de julho de 1871. Na época, ainda existia a Associação Internacional dos Trabalhadores, da qual o revolucionário alemão era o principal líder. Perguntado sobre os objetivos da organização, Marx diz que são:

A emancipação econômica da classe trabalhadora pela conquista do poder político. O uso desse poder político para fins sociais. Assim, é necessário que nossas metas sejam abrangentes para que incluam todas as formas de atividades exercidas pela classe trabalhadora. Restringi-las seria adaptá-las às necessidades de apenas um grupo - apenas uma nação de trabalhadores. Mas como pedir que todos os homens se unam para atingir os objetivos de uns poucos? Se assim o fizesse, a Associação perderia seu título de Internacional. A Associação não determina a forma dos movimentos políticos; só exige uma garantia no que diz respeito aos objetivos desses movimentos. Ela é uma rede de sociedades afiliadas, espalhadas por todo o mundo trabalhista. Em cada parte do mundo, surge um aspecto particular do problema, e os trabalhadores locais tratam desse aspecto à maneira deles. As associações de trabalhadores não podem ser idênticas em Newcastle e em Barcelona, em Londres e em Berlim.
Na Inglaterra, por exemplo, a maneira de demonstrar poder político é óbvia para a classe trabalhadora. A rebelião seria uma loucura enquanto a agitação pacífica seria uma solução rápida e certa para o problema. Na França, uma centena de leis de repressão e um antagonismo moral entre as classes parecem precisar de uma solução violenta para a luta social. A escolha dessa solução é um assunto das classes trabalhadoras daquele país. A Internacional não pretende aconselhar ou tomar decisões a respeito do assunto. Mas, para cada movimento, ela concede auxílio e solidariedade dentro dos limites designados por suas próprias leis.
Esta era a Internacional de Marx. Horizontal, democrática, internacionalista, nem pacifista nem violenta. E contemporânea, também. Ele fala até em funcionamento em rede!

Vale a pena ler a íntegra da entrevista

Leia também: A Revolução Russa foi feita por indignados

Grécia: os riscos da consulta ao povo

A crise se agrava na Europa. Os líderes do continente não aceitam a mais recente proposta do primeiro-ministro grego, George Papandreou. Ele quer um plebiscito sobre as medidas defendidas por Alemanha e França para o país: demissões em massa, redução salarial, cortes de gastos sociais e privatizações, entre outras.

O fato é que Papandreou não tem moral para impor essa porcaria toda ao povo grego. Por isso, tenta comprometer a “opinião pública”. O “mercado” não quer saber. Precisa garantir seus lucros e teme que a zona do euro afunde de vez. Levaria com ela seus enormes investimentos especulativos.

Consultas populares são instrumentos democráticos importantes. Mas podem ter resultados indesejados. Elas não acontecem num terreno neutro. Nem sempre são favoráveis às lutas populares. Hitler, por exemplo, convocou cinco plebiscitos entre 1933 e 1938. E o que esperar de uma consulta popular sobre pena de morte no Brasil?

A democracia da Grécia Antiga não incluía a todos. Mas tinha como um dos princípios a “isegoria”: direito que todos os cidadãos tinham de manifestar sua opinião nas assembléias da cidade. Isso desapareceu de vez nos tempos atuais.

Há o poder econômico, os monopólios da mídia, poderosas instituições tradicionais, ausência de mecanismos permanentes de participação. Apenas uma minoria consegue divulgar sua opinião. É grande o risco de que plebiscitos tornem-se jogos de cartas marcadas.

No caso da Grécia, como vão se posicionar as forças populares? A favor do plebiscito para derrotar os neoliberais? Ou contra ele porque uma vitória do governo pode legitimar as medidas propostas? Decisão difícil. Seja qual for, que a rebeldia grega continue nas ruas.

Leia também: Porque os gregos estão tão putos

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Morte com passagem de ida e volta

A Folha de S. Paulo de hoje, 02/11, traz reportagem com as últimas novidades do mercado de velórios e sepultamentos:
VELÓRIO ON-LINE
Câmeras filmam o velório e o transmitem por meio do site da empresa ou via Skype para os familiares distantes

JOIA
Por meio de uma técnica suíça, as cinzas são transformadas em diamantes

URNA ECOLÓGICA
As cinzas são armazenadas em uma urna com sementes de árvore, que pode ser "plantada" pela família

QUADROS
Criadora de um método especial, a artista plástica Cláudia Eleutério pinta quadros de tinta a óleo com as cinzas mortuárias

ESPAÇO SIDERAL
A urna com cinzas é enviada para uma funerária nos EUA, que, em parceria com a Nasa, as envia para o espaço

LIMUSINE
Uma limusine adaptada com luz azul e televisão de plasma transporta o caixão com os parentes

MÚSICOS E BUFÊ
Violinistas se apresentam enquanto copeiras servem os convidados no funeral

"BEM-VELADO"
Doces semelhantes ao "bem-casado" são servidos em embalagens negras

CEMITÉRIO-CLUBE
Sem lápides chamativas, com pracinhas infantis, lagos e trilhas ecológicas, cemitérios investem no visual para ganhar um jeito de clube
Só falta um plano de milhagem como os das companhias aéreas. O consumidor poderia acumular pontos ao utilizar seu cartão de crédito. Quanto mais pontos, mais tempo longe da cova.

Afinal, a medicina anda avançando muito. E como a maioria desses avanços só fica ao alcance dos mais ricos, isso é bem capaz de se tornar viável. E não duvidemos da possibilidade de chegarmos ao luxo de se venderem passagens de ida e volta para o além. Só para quem já tem onde cair morto, claro.

Leia também:
Tira os tubos!
Mortes desejáveis

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Até Machado achava escola um saco

Para cúmulo do desespero, vi através das vidraças da escola, no claro azul do céu, por cima do Morro do Livramento, um papagaio de papel, alto e largo, preso de uma corda imensa, que boiava no ar, uma coisa soberba. E eu na escola, sentado, com o livro de leitura e o livro de gramática nos joelhos.
O trecho acima pertence ao “Conto de escola”, de Machado de Assis. Logo ele, cuja leitura obrigatória torna as aulas ainda menos atraentes para crianças e adolescentes.

O conto representaria o que realmente pensava o grande escritor sobre a vida escolar. Pelo menos é o que diz Arnaldo Niskier, em reportagem de Sérgio Pugliese na coluna “A pelada como ela é”, publicada em 29/10 no “O Globo”.

E olha que na época de Machado não havia TV, rádio, internete, mp3, shopping, videogame, etc. Mesmo sem todas essas tentações, a escola já conseguia ser chata. Segundo Michel Foucault, a escola é produto da mesma lógica que criou prisões, hospitais, manicômios e fábricas. Instituições pertencentes ao que o filósofo francês chamou de “sociedade disciplinar”, a partir do século 18.

Para Foucault, esse poder disciplinar nasceu da transferência do poder dos monarcas para burocratas que se espalham pelas várias instituições sociais. Desse modo, o poder teria se transformado em micropoderes. O perigo dessa visão é perder de vista estruturas que não têm nada de micros, como as pertencentes ao Estado. Mas tanto Foucault, como Machado valem várias leituras.

Para ler o conto de Machado de Assis, clique aqui.

Leia também: Queremos a preguiça de Deus

domingo, 30 de outubro de 2011

A fantástica fábrica de novelas

O jornal Valor de 28/10 lembrou os 60 anos de telenovela no Brasil. A primeira foi ao ar em dezembro de 1951, pela TV Tupi. Mas o destaque da reportagem foi a Globo, atual potência em termos de teledramaturgia no País. A matéria traz dados e informações impressionantes. Por exemplo:
...as roupas usadas nas tramas das telenovelas da Rede Globo nunca têm a aparência de que acabaram de sair da loja (...). [Elas] são lavadas com uma substância que tem tonalidade cinza, secadas e passadas para convencer o telespectador de que o figurino faz parte de um mundo real, palpável e próximo.
A produção cenográfica também é espantosa. A reportagem cita a Galeria do Rock, que fica na capital paulista e é cenário da novela "Tempos Modernos":
Muita gente queria saber em que horário eram feitas as gravações - nas madrugadas ou aos domingos? Nada disso. A cenografia construiu uma réplica do centro comercial alternativo paulistano. Absolutamente todas as fachadas das lojas foram reproduzidas, com seus acervos de discos, camisetas, sapatos etc.
Alguns números:
- O principal estúdio da emissora é o Projac, que ocupa uma área de 1,65 milhão de metros quadrados.

- 6,5 mil pessoas circulam diariamente pelo Projac. Destas, cerca 6 mil são funcionários, prestadores de serviço, atores e figurantes.

- Todas as etapas de produção são integradas - pré-produção, gravação, pós-produção e atividades de infraestrutura - e resultam todo ano em 2,5 mil horas de programação - equivalentes a cerca de 1,2 mil filmes em longa-metragem.

- Cada novela conta com 160 cenários de estúdio, refeitos três vezes, o que dá um total de 480 unidades.

- Só em 2009, foram produzidas 60 mil peças cenográficas, entre elas 17 cidades. O acervo de figurinos soma 280 mil peças.

- Cada capítulo custa cerca de R$ 450 mil. Ao multiplicar por 180, chega-se a um custo de de R$ 81 milhões.

- Estima-se que o faturamento no horário das 21 horas chegue a R$ 300 milhões, sem contar a venda de novelas para outros países, como Portugal.
Como se vê, tanto investimento dá lucro. Ao mesmo tempo, a emissora funciona como um poderoso aparelho privado de hegemonia a favor da ordem. Fazendo cabeças com muita competência.

Por outro lado, trata-se de uma verdadeira fábrica, com um exército de trabalhadores. Já pensou uma greve? Ia ser um drama e tanto!

Leia texto de 2005 sobre o tema: Aos 40 anos, a Globo quer ser a senhora do destino

Leia também: Trabalhe de graça pra Globo

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O problema do PCdoB é a extrema direita

O ministro dos Esportes, Orlando Silva, finalmente caiu. Apesar disso, as denúncias que o atingiram não foram provadas até agora. Seu partido diz que o caso todo não passa de sabotagem da direita. Na verdade, a grande responsável é a extrema direita.

O novo titular da pasta é Aldo Rebelo. E uma das primeiras personalidades a parabenizá-lo foi a senadora Kátia Abreu. Trata-se da presidenta da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, entidade que representa o agronegócio nacional. Ou seja, o setor mais truculento da conservadora classe dominante brasileira.

A senadora usou seu twitter para declarar o seguinte sobre o novo ministro: “Aldo Rebelo faz parte de um time do bem! Parabéns ao governo pela escolha”. Não deixa de ser um reconhecimento merecido. Afinal, Rebelo se uniu à bancada ruralista para alterar o Código Florestal. Uma proposta que pretende acabar de vez com leis que mal conseguem proteger o meio ambiente.

Rebelo também merece ser lembrado por sua atuação na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara Federal. Em 18 de outubro, ele se uniu ao fascista Jair Bolsonaro em votação contra um projeto pela revisão da Lei da Anistia. A proposta pretendia permitir o julgamento de torturadores da ditadura militar. Rebelo colaborou para manter impunes carrascos que executaram dezenas de corajosos membros de seu próprio partido.

Tudo indica que a extrema direita realmente vem sabotando o PCdoB. Mas de dentro para fora.

Leia também: A salsicha de Aldo Rebelo

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Karaokê no século 17

Prezados amigos do século 19, sabeis como admiro a vida dos habitantes do século 21. Mas, por vezes, sinto que eles mesmos parecem se deslumbrar demasiadamente com sua própria época.

É o caso do entusiasmo com que alguns falam sobre as possibilidades criativas de seus avançados meios de comunicação. Uma delas é o “hipertexto”. Trata-se de textos que podem ser lidos, e modificados por várias pessoas através de ágeis redes de comunicação. Algo que eles chamam de “meio interativo”. É um assombro, sem dúvida alguma.

No entanto, fez me lembrar da utilização da escrita manual antes da popularização da imprensa no século 16. Diferente do texto impresso, o manuscrito acabava por passar por vários copistas. Nesse percurso ia sendo modificado. Digam-me se isso também não pode ser chamado de “meio interativo”? E com a vantagem de não haver tantas preocupações com direitos autorais.

Outra invenção que encanta os viventes destes tempos é o que eles chamam de karaokê. Uma forma de diversão em que os participantes cantam acompanhando música e letra transmitidas por um aparelho. Tal prática não é tão nova assim. Na Inglaterra do início do século 17 era costume homens e mulheres se reunirem para cantar em tabernas. E nestes lugares, as letras das canções eram pintadas nas paredes para que todos pudessem cantar juntos.

Não contesto as evidentes diferenças tecnológicas. Mas, quem sabe, falte um pouco de informação histórica a muitos daqueles que pensam e teorizam sobre seu próprio tempo. Seria prudente que se deixassem encantar menos por experiências que, talvez, não sejam tão recentes assim. Falta-lhes mais informação e humildade.
(Com base no livro “Uma história social da mídia: de Gutenberg à Internet”, de Asa Briggs e Peter Burke).

Leia também Ao século 15: fossos e jacarés

Morre o editor dos quadrinhos inteligentes

Em 26 de setembro passado, morreu Sergio Bonelli. Infelizmente, ele era conhecido por poucos no Brasil. Principalmente, por quem gosta de quadrinhos que combinam inteligência com diversão.

Afinal não é sempre que se vê num gibi personagens que citam Durkheim. Ou aventuras do velho oeste que mostram como os "heróis" americanos massacraram os indígenas. São assim os quadrinhos italianos que Bonelli publicava.

Seu mais famoso personagem é o caubói Tex Willer. Mas foram outros títulos que se tornaram modelos da combinação entre ótimos roteiros, personagens marcantes e belos desenhos. Estamos falando de Ken Parker, Mágico Vento, Dylan Dog, Júlia Kendall, Martin Mystère e muitos outros. Alguns desses títulos, encontrados facilmente nas bancas.

Tudo isso sem falar na colaboração de Bonelli na divulgação de artistas como Hugo Pratt, Giancarlo Berardi, Ivo Milazzo, Milo Manara, Guido Crepax, Gianfranco Manfredi e Tiziano Sclavi.

Para conhecer um pouco sobre essa arte que é conhecida como “fumetti” em italiano, leia o texto abaixo:

Os inteligentes quadrinhos italianos

terça-feira, 25 de outubro de 2011

A Revolução Russa foi feita por indignados

Hoje, completam-se 94 anos desde a Revolução Russa. Quase um século depois, a rebelião está nas ruas em vários países do mundo: Tunísia, Egito, Grécia, Israel, Espanha, Estados Unidos. São os indignados na luta contra o capitalismo em uma de suas mais graves crises.

Muitos observadores dizem que os atuais rebeldes rompem com a velha esquerda. Depende do que se entende por velha esquerda. Se se trata de burocracias mofando em aparatos partidários, sindicais e governamentais, eles têm toda razão. Se diz respeito ao maior acontecimento revolucionário do século passado, nem tanto.

É verdade que os indignados não estão organizados verticalmente em grandes partidos disciplinados nem dão vivas ao socialismo. Também parecem não ter grandes lideranças e um programa bem definido. Mas é cedo para dizer até onde tudo isso se manterá desse modo.

Os bolcheviques só se tornaram líderes da revolução meses antes de ela acontecer. Antes disso, foram anos de trabalho de base junto aos trabalhadores e camponeses russos. Sua eficiente disciplina partidária formou-se nas lutas contra a exploração. Não foi produto da cabeça de meia dúzia de dirigentes. E a principal palavra de ordem era “Pão, terra e paz”, não a luta pelo socialismo.

Claro que são muitas as diferenças entre as duas situações históricas. Mas há algumas coincidências importantes também. Entre elas, a contestação ao capitalismo e o organização a partir de baixo.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Um cadáver que fede a imperialismo

O tratamento dispensado a Kadafi foi cruel. Não necessariamente desumano. Afinal, tanto ele como seus carrascos cometeram barbaridades bem típicas de nossa espécie. Por outro lado, entre as mais belas conquistas humanas está o respeito à dignidade dos que parecem não possuí-la.

Mais justo seria prender Kadafi com vida. Justo e pouco conveniente. Em um julgamento, ele poderia apontar seus cúmplices. Entre eles, o serviço de inteligência estadunidense. Pouco antes do início das revoltas populares, a CIA vinha ajudando Kadafi na perseguição a seus opositores.

Por enquanto, o imperialismo saiu ganhando. Alertado pelos acontecimentos na Tunísia e Egito, apressou-se a intervir na Líbia. Traiu seu mais recente aliado na região. Mas se isso não tira o sono de Obama, que dirá de seus generais. Ao mesmo tempo, a execução covarde de Kadafi certamente gelou a espinha de outros ditadores da região.

De qualquer maneira, nada está definido. É possível que a onda de revoltas continue a se espalhar para muito além de África e Oriente Médio. Ela inspirou a indignação que tomou conta de cidades européias e americanas. Os alvos políticos são bem diferentes. Mas começam a enxergar no capitalismo o inimigo maior.

A “Primavera Árabe” chegou perfumada pelas promessas de liberdade. Agora, o imperialismo tenta nos sufocar com seu fedor. Só a rebeldia popular pode trazer ar puro.

Leia também: Por um internacionalismo socialista

O que cheira mal nas imagens de Kadafi

Os carrascos de Kadafi igualaram-se a sua vítima em crueldade. Mas também chamou a atenção a ampla divulgação da violência. Quase toda a grande imprensa mundial exibiu as terríveis imagens.

Os editores alegam que em tempos de internete elas viriam a público de qualquer forma. Um fenômeno que acontece porque as pessoas comuns teriam se tornado repórteres. Milhares delas no mundo todo registram imagens que vão parar na rede mundial. Mas divulgar fotos e filmes desse modo é jornalismo?

Se olharmos para a atual comunicação de massa, a resposta é sim. E isso é muito perigoso. Basta lembrar um artigo que Roland Barthes escreveu em 1962. Em “A mensagem fotográfica”, ele diz que a imprensa:
...utiliza a credibilidade particular da fotografia (...) para fazer passar como simplesmente denotada uma mensagem que na verdade é fortemente conotada; em nenhum outro tratamento a conotação toma tão completamente a máscara "objetiva" da denotação”.
Conotação é o sentido figurado de um texto. Denotação é seu sentido literal. O que Barthes diz é que a fotografia dá a impressão de objetividade. É uma imagem. É o fato. É denotativa. Mas os vários modos de tratar e manipular a imagem dão a ela sentidos conotativos. Resta muito pouco de neutro nela. Principalmente, da forma como a grande mídia a utiliza.

As imagens de Kadafi servem a quê? Guerra por audiência? Afirmação da vitória imperialista? Recado a outros ditadores? Tudo isso é possível. Mas, com certeza, elas denunciam uma imprensa cada vez mais rasa e sensacionalista. Perfeitamente adequada à alienação geral que aumenta a tolerância social tanto em relação aos ditadores quanto a seus carrascos.

Leia também A mídia merece uns molotovs

sábado, 22 de outubro de 2011

Porque os gregos estão tão putos

Duas manchetes. A primeira diz: “Parlamento da Grécia aprova arrocho; salário mínimo pode cair 25%”. Trata-se de matéria publicada em 20/10 pelo enviado da Carta Maior a Atenas, Kostis Damianakis.

Segundo o texto, o parlamento grego aprovou pacote de medidas de arrocho proposto pelo governo do país. Por exigência de UE, FMI e BCE, anulam-se todos os acordos coletivos que garantem salários mínimos no setor privado. Está previsto ainda um corte de 100 mil postos de trabalho no funcionalismo público, entre outras medidas.

A outra manchete foi reproduzida pelo site esquerda.net, em 19/10. Ela diz “Gregos ricos tiraram 200 bilhões de euros do país”. É o que afirmou Markus Kroll, do instituto financeiro alemão Roland Berger, ao jornal Bild.

É por isso que uma greve geral reuniu 150 mil pessoas nas ruas de Atenas no dia 20/10. Entre os manifestantes estava Leonidas Papadopoulos, médico que faz especialização em oftalmologia e é membro do movimento “Não Pagamos”. Ele explicou ao repórter da Carta Maior:
Nosso movimento defende o que vários comentaristas mal-intencionados na TV dizem: ou tudo ou nada, ou nós ou eles. É por isso que o sistema está com medo do nosso movimento. Começamos na luta contra o pagamento de pedágios onerosos e injustos e isso se espalhou em outros setores. Já há hoje um senso comum de que o cidadão não deveria pagar por serviços e bens públicos, como o uso das estradas, hospitais, a água, eletricidade etc. Tudo isso deveria ser livre e gratuito, pois é o povo que produz ou sustenta com seus impostos esses bens e serviços, e ele deveria desfrutar deles livremente. No entanto, tudo isso é uma mercadoria para alguns apoiadores do sistema, que querem acumular mais-valia.
É, dr. Papadoulos não tem papas na língua. E deve ter deixado os neoliberais de cabelo em pé. Serviços públicos totalmente gratuitos? Um absurdo, diriam eles. Molezas desse tipo só para banqueiros e outros patrões, sabemos nós. Os peões que fiquem duros e jogados na rua.

É ou não é pra ficar muito puto!

Leia também: A luta anticapitalista e a violência inevitável

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A luta anticapitalista e a violência inevitável

Em 08/10, Naomi Klein esteve em Nova Iorque para declarar seu apoio ao movimento “Ocupar Wall Street”. A respeitada intelectual anticapitalista também publicou artigo na revista “The Nation”. Entre outras coisas, ela abordou a questão da resistência pacífica:
Vocês se recusaram a entregar à mídia as imagens de vitrines quebradas e brigas de rua que ela, mídia, tão desesperadamente deseja. E essa tremenda disciplina significou, uma e outra vez, que a história foi a brutalidade desgraçada e gratuita da polícia, da qual vimos mais exemplos na noite passada. Enquanto isso, o apoio a este movimento só cresce.
Ela tem toda razão. Mas parece sugerir que manifestações populares tornam-se violentas por escolha de seus participantes. E isso não é verdade para a grande maioria delas, nem para muitas revoluções sociais.

Os setores que defendem a violência como forma de luta costumam ser minoritários. Principalmente, porque é um caminho fadado ao fracasso. Não há como derrotar a repressão estatal só pela força bruta. As forças populares já enfrentam grandes dificuldades para se organizar. É ainda mais difícil enfrentar um inimigo que conta com um exército de homens armados, treinados e disciplinados.

No entanto, isso não quer dizer que a violência não estará presente na luta anticapitalista que se espalha pelo planeta. Já são muitos os enfrentamentos nas ruas e praças de Londres, Washington, Atenas, Santiago do Chile... E deverão aumentar. Não se trata apenas da presença de provocadores de direita ou de infiltrados das forças de repressão. Nem somente de ações de criminosos que a própria situação de crise facilita.

O Estado é o principal responsável pela violência. A intolerância vem de suas forças militares. Prontas para esmagar qualquer questionamento a uma ordem social injusta. Guardiães de instituições políticas surdas aos interesses da maioria da população. É um grande aparato que defende os interesses mesquinhos de 1% da população contra os restantes 99%.

Os rebeldes são empurrados para a violência revolucionária de cima para baixo.

Leia também: Os jovens como exército rebelde de reserva

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Tá na hora da onça beber cerveja?

Dados da “Global Footprint Network” (Rede da Pegada Ecológica Global) e da organização inglesa “Fundação para uma Nova Economia” dizem que a Terra já entrou em déficit ecológico. Ou seja, a diferença entre os recursos naturais disponíveis anualmente e aqueles destruídos pela humanidade tornou-se negativa.

Segundo reportagem de Walter Oppenheimer para jornal espanhol El País de 26/09, isso aconteceu em 27 de setembro. Assim:
...tudo o que consumirmos até o final do ano passa a contar como recursos que o planeta não pode produzir e contaminações que a terra não é capaz de absorver.
Seria o resultado da lógica produtiva que impera há alguns séculos. Pode ser exagero, mas certamente em uns 300 anos já fizemos mais estragos que em todos os séculos anteriores. Bem diferente dessa lógica é a de vários povos ameríndios.

O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro concedeu entrevista à revista Cult em 13/12/2010. Em certo momento, ele descreve a relação muito especial que alguns povos indígenas estabeleceram com as outras espécies vivas. Citando um exemplo, ele diz que:
...o sangue dos animais que matam é visto pelas onças como cerveja de mandioca, o barreiro em que se espojam as antas é visto como uma grande casa cerimonial, os grilos que os espectros dos mortos comem são vistos por estes como peixes assados etc. Em contrapartida, os animais não veem os humanos como humanos. As onças, assim, nos veem como animais de caça: porcos selvagens, por exemplo. É por isso que as onças nos atacam e devoram, pois todo ser humano que se preza aprecia a carne de porco selvagem.
Trata-se de uma inversão simbólica que implica humildade e respeito em relação ao restante da natureza. É o exato oposto da arrogância produtivista com que tratamos o meio ambiente sob as leis de mercado. Uma relação que começa a nos custar caro.

Como bicho, a onça é nossa caça. Como símbolo da natureza agredida pode tornar-se nossa predadora. Vir em busca dos porcos selvagens em que nos transformamos. Estaria chegando sua hora de beber a cerveja. Ou melhor, nosso sangue.

Leia também: Sejamos egoístas, salvemos a natureza

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Vexames da esquerda estatal

Entre 8 e 9 de setembro aconteceu um encontro em Buenos Aires promovido por “Capital Intelectual” e “Le Monde Diplomatique”. Sami Nair, professor da Universidade Pablo de Olavide de Sevilha, participou do evento. Em artigo publicado no jornal El País de 13/10, ele comentou:
Quanto às revoluções na Tunísia e no Egito, nos inteiramos pela boca de intelectuais vindos da Venezuela, do Brasil e inclusive da Argentina, de que estas não eram mais do que “movimentos sociais violentos” e de maneira nenhuma revoluções.
Diz Nair que tais setores acusaram os defensores das “revoluções árabes” de “complacência com o imperialismo ocidental”. E que:
...tudo parecia transcorrer como se, ao defender essas revoluções, nos dispuséssemos, sem sabê-lo, a aceitar possíveis intervenções imperialistas contra certos regimes atuais da América Latina.
Referindo-se à Líbia, Nair chama de “piada de mau gosto” a defesa que tais representantes da esquerda latino-americana fizeram de Kadafi como “amigo das revoluções”. E concluiu:
Esses “revolucionários” estão na realidade mais próximos da razão de Estados dos regimes que defendem do que da solidariedade com os oprimidos.
Ou seja, é muito provável que se trate de apoiadores de Dilma, Chávez e Cristina Kirchner. Antigos militantes e atuais ocupantes de postos num Estado que pensam controlar. Sempre dispostos a defender seus “governos de esquerda” acima de tudo. Inclusive, de levantes populares contra ditaduras sangrentas.

Claro que o imperialismo está intervindo nos acontecimentos do norte da África e Oriente Médio. Mas daí a defender ditaduras como a da Líbia há uma enorme distância. Consequência da crença estúpida de que socialismo do século 21 será produto de ações de cima para baixo. Vergonhoso!

Leia também: As duas posses de Evo Morales

Neuróticos, deprimidos, mutilados: explorados

Dizem que o profissional atual é aquele que se adapta rapidamente a um mercado em constante transformação. Não tem lugar e funções fixas. Troca de empresas rapidamente. Aprende novas habilidades, enfrenta novos desafios. Muitas vezes, ele mesmo torna-se uma empresa. Pessoa jurídica contratada por grandes corporações. Sua remuneração pode ser alta, mas insegura.

A doença mais comum desse profissional é a depressão. Segundo especialistas, ela é resultado desta constante mutação na vida laboral, que tira o chão sob os pés do trabalhador. Seria o oposto da neurose. Esta ataca o trabalhador de velho tipo. Aquele disciplinado pela rotina das tarefas repetitivas, do ambiente asfixiante das tarefas coletivas e tediosas.

Mas não se trata da substituição de uma doença pela outra. Rotinas massacrantes em grandes linhas de produção continuam a existir. Um exemplo delas são os trabalhadores em telemarketing. Mal pagos e sujeitos a condições extenuantes de trabalho mental.

Outro exemplo são os operários de grandes frigoríficos. São cerca de 800 mil trabalhadores no Brasil. Com 30 anos de idade e 5 ou 6 anos de atividade, seus operários já apresentam lesões irreversíveis. O risco de um desossador de frango desenvolver uma tendinite, por exemplo, é 743% superior ao de outros trabalhadores.

Ou seja, nem a classe operária nem seus sofrimentos acabaram. Só a China criou 80 milhões de operários de 1990 a 2002. Centenas de milhares deles, vítimas das mais variadas moléstias. De deformações físicas a suicídios.

O trabalho sob o capital continua mutilando física e mentalmente. Resultado de um sistema que é, ele mesmo, um aleijão histórico.

Leia também: Os patrões como operários do apocalipse