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6 de março de 2025

Combate às drogas espalha criminalidade e violência social

Em editorial publicado em 24/02/2025, o Globo afirma ser “alarmante a diversificação das atividades do crime organizado, constatada em relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Embora o tráfico de armas e drogas continue sendo um negócio central para os criminosos, continua o texto, a receita obtida com a venda ilegal de diversos outros produtos é muito superior”.

Em seguida, afirma que:

A atuação nos mercados ilegais de ouro, combustível, bebidas, tabaco e cigarros - à margem do Fisco e sem qualquer controle de qualidade rendeu R$ 147 bilhões às organizações criminosas em 2022, ante R$ 15 bilhões faturados no tráfico de cocaína. Entre julho de 2023 e julho de 2024, (...) elas ganharam ainda mais dinheiro com outra atividade que anda em alta: faturaram R$ 186 bilhões em golpes digitais, furtos e roubos de celulares crimes que se complementam.

Agora, que a venda ilegal de drogas já os alavancou financeiramente, traficantes e milicianos podem se dedicar a muitas outras atividades. O combate à legalização das drogas não só não as eliminou, como ampliou a presença da criminalidade em diversas atividades legalizadas.

Parabéns a todos os envolvidos, incluindo o jornalão carioca. Ironias à parte, o objetivo das políticas de combate às drogas nunca foi diminuir seu comércio, mas reforçar a repressão policial-militar contra pobres e não brancos e encher os cárceres com pessoas dessa parcela da população.

Os conservadores gostam de dizer que os entorpecentes leves são a porta de entrada para os mais pesados. Mas é a brutalidade do combate às drogas que escancarou o caminho para a brutalização da vida social.

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15 de dezembro de 2022

Muitas tréguas pra comemorar o Natal

Soldados combatendo em lados opostos, em plena guerra, resolvem fazer uma trégua para comemorar o Natal juntos. A situação aparece no filme “Feliz Natal”, de 2006, dirigido por Christian Carion. Em seu livro “Labirintos do Fascismo”, João Bernardo confirma esse e outros relatos parecidos.

No Natal de 1914, apenas cinco meses após o início da Primeira Guerra, tropas britânicas e alemãs estabeleceram uma trégua por conta própria para celebrar a data. Trocaram presentes, cantaram, jogaram futebol e caçaram “lebres onde antes se haviam caçado uns aos outros”.

Em 1915, o alto comando britânico estava decidido a não permitir a repetição do que se passara no ano anterior. Deu ordem para que na data natalina houvesse tiros de artilharia incessantes contra as trincheiras alemãs. Apesar disso, não conseguiu impedir as confraternizações.

No mesmo ano, na região de Reims, soldados franceses e alemães abandonaram em massa as trincheiras para festejar o Natal. Para obrigar as tropas a voltar para seus postos, os comandantes de ambos os lados ameaçaram mandar a artilharia disparar sobre os soldados misturados.

No início do inverno de 1916, perto do período natalino, ocorreram numerosos casos isolados de congraçamento, em setores da frente de batalha na Europa Ocidental. Mas situações semelhantes não eram desconhecidas no lado oriental da Europa. Em abril do mesmo ano, por exemplo, soldados de quatro regimentos russos estabeleceram uma trégua com tropas do Império Austro-Húngaro para festejar a Páscoa juntos.

Portanto, inimigos demonstrarem amor fraterno em plena guerra é até possível. Difícil é o mesmo acontecer em um país sob ataque dos fascistas como o Brasil.  

De qualquer maneira, boas festas!

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24 de novembro de 2022

O negacionismo e a guerra civil não declarada

É costume definir guerra civil como um confronto entre cidadãos de uma mesma sociedade. Mas o que ocorre se as vítimas do conflito não são consideradas cidadãs?

Por exemplo, na antiguidade grega, quando cidadãos atenienses trocavam espadadas tratava-se de uma guerra civil. Mas essa classificação já não servia se a agressão partia dos cidadãos contra escravos ou estrangeiros.

Muitos séculos depois, essa regra continua valendo. Quando as vítimas são indígenas, negros, homossexuais, mulheres, pobres ninguém chama de guerra civil.

Mas e se universitários, profissionais liberais, pacatos frequentadores de restaurantes, enfim “cidadãos”, são agredidos apenas por usar roupas vermelhas? Aí, sim, é guerra civil.

O raciocínio acima serve para introduzir o que diz o professor de filosofia Pedro Rocha de Oliveira no interessante artigo “As razões do negacionismo: guerra civil e imaginário político moderno”.

Segundo Oliveira, o negacionismo não é uma recusa irracional de verdades estabelecidas. É uma postura ideológica compatível com as enormes contradições da sociedade contemporânea. Ele surge de um sistema social que se pretende justo, mas garante alguns direitos para uma minoria cidadã, enquanto castiga uma grande maioria marginalizada.

Diante de tanta disparidade, recusar fatos jornalísticos, evidências científicas, consensos historiográficos não é tão absurdo. Há muitos anos, Bolsonaro nega os crimes da ditadura. E suas promessas de matar “uns 30 mil” só escandalizavam quem estava distante das mortes violentas presentes no cotidiano da população pobre.

Quando o bolsonarismo toma como alvo aqueles tidos como esclarecidos e progressistas, fica oficializada a guerra civil. O problema é que dificilmente contaremos com grande apoio daqueles que já vinham sendo vítimas de uma guerra civil jamais declarada.

Leia também: A polícia bolsonarista é anterior ao bolsonarismo

19 de setembro de 2022

A polícia bolsonarista é anterior ao bolsonarismo

“PRF se tornou modelo de polícia do bolsonarismo” diz o editorial do Globo de hoje. O texto começa citando uma reportagem da revista “piauí", segundo a qual a PRF passou “de uma polícia dedicada ao patrulhamento de rodovias federais” para uma corporação responsável por operações policiais e chacinas elogiadas pelo clã Bolsonaro.

O editorial lembra a ação da PRF no massacre de Varginha, Minas Gerais, ocorrido em outubro de 2021. Nele morreram 26 homens, que estariam se preparando para assaltar uma agência do Banco do Brasil. Meses depois, 41 policiais rodoviários mataram 23 supostos traficantes no Complexo do Alemão, no Rio. Foi a segunda ação mais letal na história do estado.

Em 2019, prossegue o texto, a PRF matou quatro pessoas. Em 2020, 16. Em 2021, 35. Em 2022, até junho, foram 38, incluindo um motociclista sufocado com gás lacrimogêneo no porta-malas de uma viatura em Sergipe.

O editorial termina dizendo que, com “maior letalidade, a PRF vem se tornando aos poucos o modelo de polícia do bolsonarismo”.

Muita hipocrisia do jornalão carioca. Afinal, as ações da “PRF bolsonarista” não configuram um rompimento em relação ao modo que vêm ser comportando as forças de repressão do Estado brasileiro, em todos os seus níveis. Essa é a prática corrente das polícias há muitas décadas no Brasil. Talvez, séculos. E, provavelmente, trata-se de um dos fatores responsáveis pela eleição de Bolsonaro. Uma relação de mútuo reforço entre o que o bolsonarismo criou e o que criou o bolsonarismo.

Afastado Bolsonaro da presidência, muito provavelmente seguirá forte a política genocida que tentam atribuir apenas a ele.

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A esquerda em quarentena
As tropas do fascismo estão prontas

10 de junho de 2020

A esquerda em quarentena

Há um certo consenso de que, uma vez superada a pandemia, a vida jamais voltará ao normal. Também deveria ser consensual que, mesmo que Bolsonaro seja derrotado, não voltaremos à normalidade anterior.

O normal de antes da pandemia era o desmatamento que a provocou. Era o caos urbano que espalhou o vírus. Era a enorme desigualdade econômica e sanitária que tornou o covid muito mais mortal entre os pobres e não brancos.

E o normal antes de Bolsonaro, era o quê? A democracia? Qual democracia e para quem?

Lá onde a pandemia faz mais vítimas ficam os mesmos lugares onde a democracia sempre foi um conceito tão conhecido quanto abstrato. Em nenhum momento, por exemplo, essa ideia impediu que a polícia continuasse matando indiscriminadamente.

Nesses locais, do mesmo modo que a democracia não estava presente quando Bolsonaro chegou, não havia um mínimo de dignidade humana quando o coronavírus atacou.

Recentemente, foi divulgado o estudo “Bolsonarismo em crise?”, coordenado pelas pesquisadoras Camila Rocha e Esther Solano. Feito com eleitores de Bolsonaro das classes C e D, o levantamento apontou um certo arrependimento entre seus entrevistados.

Mas, mesmo entre esses “arrependidos”, a maioria repetiria o voto por “falta de alternativa” e graças a um persistente antipetismo.

Comentando os resultados de seu trabalho, Esther adverte que tal como acontece com a democracia, o significado de fascismo também permanece vago. E vai ser assim enquanto continuarmos a simplesmente definir fascismo como o oposto de democracia.

Bolsonaro ainda está lá, junto com o vírus. E nós? Nós já estávamos em quarentena muito antes dos dois chegarem.

Leia também: As ruas podem tornar o impossível inevitável

1 de abril de 2020

Pandemia e oportunismo: militarização e exploração

"O mundo nunca mais vai ser o mesmo após a pandemia”, dizem todos diante da crise causada pelo coronavírus-19. É verdade. Mas se depender da vontade de quem manda nele, será ainda pior.

Mais desemprego, mais empregos informais, mais ocupações precarizadas, mais uberização das relações trabalhistas.

Mas não só.

“Estamos enfrentando uma guerra”, dizem governantes e grande mídia. Sob esse pretexto, estão militarizando ainda mais a vida social.

O modelo é a China, com seu sistema de detecção de febre por meio de câmeras. Com sua certificação de saúde física por aplicativos. Com seu sistema de crédito social, que, agora, não mede apenas o bom comportamento dos cidadãos, mas sua limpeza.

O toque de recolher já existia nas favelas e periferias pobres daqui e de outros lugares do mundo. Imposto pelo crime, seja ele organizado pela polícia ou não, agora, pode fingir ser legítimo como uma inocente campanha de vacinação.

“Vivemos uma exceção”, reafirmam grande mídia e governantes. Mas esse estado de crescentes restrições democráticas já vinha se impondo desde as jornadas de Junho de 2013, aqui, e desde outras revoltas em muitos outros lugares do mundo.

Contra a democracia racionada e a frustração das promessas de prosperidade para todos, largos setores da população responderam com revoltas em muitos países. Como resposta, receberam a criminalização de sua rebeldia.

Antes, era possível ocupar as ruas, ainda que fosse desaconselhável. Agora, será proibido.

O coronavírus gerou a oportunidade perfeita para o avanço rumo a um estágio mais extremado de repressão e abuso econômico. O capitalismo não estava preparado para essa pandemia. Seu sistema de dominação e exploração, sim.

Leia também: Pandemia e oportunismo: trabalho precarizado

24 de março de 2020

Uma doença oportunista a espera do coronavírus

As recentes medidas de isolamento social devido ao coronavírus-19 não foram acompanhadas por nenhuma rede de assistência capaz de garantir a milhões de pessoas o mínimo necessário para sua sobrevivência.

Elas moram nos bairros pobres das grandes cidades e dependem da venda diária de seu trabalho ou mercadorias para comer. Não têm nada de seu a não ser seus filhos e contas para pagar. Suas condições sanitárias são péssimas.

Elas vão começar a passar fome. Vão adoecer ainda mais. Muitas vão se organizar para se defender. Para buscar atendimento prioritário para suas necessidades e atenção especial do sistema de saúde. Mas outras vão cair no desespero e deixar se levar pelo ódio cego. Devem ocorrer saques, arrastões, violência indiscriminada.

Para os assalariados com algum vínculo trabalhista, será menos pior, mas não muito. Os empresários e a grande mídia falam em “Plano Marshall” para a economia. O governo já sinalizou que entendeu a senha. Preparou um pacote para salvar lucros, não empregos. Haverá mais gente pronta a responder com ódio cego.

A resistência dos movimentos sociais estava paralisada. Agora, está completamente fragmentada. Há iniciativas importantes como as propostas de greves sanitárias dos petroleiros e metalúrgicos de São José dos Campos. Mas por enquanto são exceção.

Já os anticorpos da estrutura de repressão há muito vêm sendo fortalecidos. O combate ao coronavírus-19 não é só mais um episódio de militarização da vida. Sua dimensão totalizante é inédita e esmagadora.

Doenças oportunistas são aquelas que se aproveitam do estado de debilidade das defesas do organismo para causar dano. Há uma terrível doença oportunista no ar: é o capitalismo.

Leia também: A Doença X e seu maior hospedeiro

11 de fevereiro de 2020

As tropas do fascismo estão prontas

Em seu início, na Itália e na Alemanha, o fascismo recrutou muitos veteranos da Primeira Guerra. Ex-soldados, jogados de volta a suas cidades, sem emprego e perspectivas.

Muitos deles sentiam que tinham arriscado suas vidas por nada. Nos acordos de paz celebrados após o conflito, os vencedores impuseram condições degradantes à Alemanha.

No caso da Itália, havia um agravante. O país pertencia ao lado vitorioso, mas teve suas principais reivindicações territoriais desprezadas pelos aliados.

A culpa era dos governos e das elites, diziam muitos desses veteranos. Consideravam-se os únicos defensores da pátria contra a arrogância imperialista, de um lado, e a ameaça soviética, do outro.

Mussolini e Hitler, também ex-combatentes, souberam capitalizar toda essa revolta. Organizaram os veteranos em tropas extremamente violentas a serviço de seus fins. Direcionaram a brutalidade que os soldados aprenderam nas trincheiras contra seus alvos preferenciais: comunistas, socialistas, sindicalistas, judeus, ciganos, homossexuais.

No Brasil, não temos ex-combatentes à disposição da extrema-direita. As agressões a nossa soberania independem da ocorrência de guerras e costumam ser ignoradas por nossos “patriotas”. Além disso, muitos dos atos violentos que ocorrem nas ruas são cometidos não por militares desmobilizados, mas pelos da ativa. Tanto no exercício de suas funções como fora delas, na condição de milicianos.

Apesar dessas diferenças todas, o fascismo local já conta com tropas a sua disposição. Sem respeito por nada ou ninguém que lhes seja estranho. Para comprová-lo, basta lembrar mais uma das muitas evidências de como elas operam.

Trata-se da imagem que mostra um PM com o joelho apoiado na barriga de uma mulher grávida, após tê-la jogado ao chão.

22 de novembro de 2019

A chibata continua a castigar

São quase 110 anos desde a Revolta da Chibata. Mas como diz um texto aí abaixo, ela continua a castigar. Por isso, seguem algumas pílulas antigas com temas que, infelizmente, continuam muito atuais.

1 de outubro de 2019

Violência na história: a parteira e o carrasco

Para Walter Scheidel, a violência seria a grande responsável pelos raros períodos de diminuição da desigualdade social na história humana. Esta é a tese central de seu livro “A Grande Niveladora: Violência e a história da desigualdade da Idade da Pedra ao século 21”, sem edição no Brasil.

Marx dizia que a violência é “a parteira da história”. A afirmação faz todo sentido desde que feitas algumas considerações.

Nascimentos podem ocorrer sem parteiras, mas são impossíveis sem a mãe. E nesse caso o papel cabe à espécie humana, destinada a parir sua própria história. Além disso, fazer história para Marx é deixar para trás a pré-história da exploração e opressão das grandes maiorias pelas minorias. É fazer a espécie se reconhecer como digna de si mesma.

A igualdade social a que Sheidel se refere manifestou-se, geralmente, como colapsos sociais que resultaram de acontecimentos que fugiram ao controle humano: guerras, doenças, barbárie política.

Somente na modernidade, a busca pela igualdade social ganhou caráter consciente e foi entendido como direito a ser estendido ao conjunto da espécie. E apenas no século 20, essa busca foi assumida pelos únicos setores capazes de cumprir essa tarefa: os explorados, responsáveis pela subsistência do conjunto da humanidade, e suas revoluções transformadoras.

A maioria das revoluções comunistas foram iniciadas quase sem violência. Foi a reação conservadora a elas que provocou banhos de sangue e pariu ditaduras políticas. Foram tentativas de elevar a existência humana acima do rio bárbaro da história das sociedades de classes, logo afogadas.

Infelizmente, a parteira da história continua sendo importante porque à beira do leito materno há um carrasco.

Leia também: O quinto cavaleiro do apocalipse nivelador

20 de setembro de 2019

As revoluções transformadoras e o achatamento social

A violência envolvida nas revoluções transformadoras é outro fenômeno histórico capaz de diminuir radicalmente as desigualdades sociais, afirma Walter Scheidel, em seu livro “A Grande Niveladora”.

Mas essas rupturas radicais estariam restritas à modernidade. Mais especificamente, ao século 20 e às revoluções Russa e Chinesa. Segundo o historiador, ambas levaram a uma redução das desigualdades mais parecida com um “achatamento social”.

Um nivelamento por baixo, em que as necessidades mais básicas foram atendidas, mas ficaram muito distante da elevação generalizada do bem-estar imaginada pelos líderes dessas revoluções e dos socialistas em geral.

Tanto num caso como no outro, medidas adotadas de cima para baixo, forçaram uma coletivização da economia nacional que custou milhões de vidas e inviabilizaram a democratização da produção e da política.

Mas essas medidas somente foram adotadas em resposta aos ataques e pressões imperialistas, que sufocaram as duas tentativas até matar sua origem revolucionária.

O capitalismo jamais deixou de imperar nas duas sociedades. Nem a União Soviética nem a República Popular da China conseguiram superar o principal instrumento de exploração capitalista, o trabalho assalariado.

Para que o nivelamento social se transformasse em verdadeira justiça social seria preciso que revoluções socialistas ocorressem também nas economias mais industrializadas.

Seria a revolução permanente defendida por Trotsky, cujo caráter violento diminuiria conforme as burguesias nacionais fossem derrubadas.

A violência que acabou imperando nas duas experiências foi produto de uma regressão capitalista imposta por fora e assumida por dentro, não da implantação do socialismo.

Trata-se de novas vitórias da barbárie capitalista a nos obrigar, cada vez mais, e de novo, a escolher entre ela e o socialismo.

Continua...

19 de setembro de 2019

O nivelamento social precedido pela barbárie

O Estado de Bem-Estar Social na Europa do Pós-Guerra seria um exemplo claro dos efeitos de nivelação social provocados pela guerra. Pelo menos, segundo o historiador Walter Scheidel, em seu livro “A Grande Niveladora”.

A Segunda Guerra exigiu imensos sacrifícios humanos e radicalizou as contradições sociais em cada país em que ocorreu. Também fez surgir a ameaça soviética ao domínio imperialista ocidental. Diante disso, prevaleceu o princípio da entrega de alguns anéis para salvar os dedos.

Mas o caso do Japão é outro exemplo importante. Terminada a guerra, o país foi ocupado por forças estadunidenses. Entre as medidas impostas pelos invasores, reforma agrária, liberdade de organização sindical, direito de greve, desconcentração do capital em poder da burguesia tradicional japonesa e impostos sobre os mais ricos.

Em mensagem pelo Ano Novo de 1948, o chefe das tropas invasoras, general MacArthur, declarou que sua missão no Japão era desmontar um sistema controlado “por uma minoria de famílias feudais e explorado em seu benefício exclusivo”.

Por trás das belas palavras e das medidas aparentemente louváveis da ocupação estadunidense, um grande objetivo: quebrar o sistema econômico que permitiu ao Japão montar sua máquina de guerra e impedir que o país voltasse a ameaçar os interesses ianques.

O autor parece acertar ao apontar a guerra como um importante fator de diminuição das injustiças sociais no Japão. Mas a um custo em vidas extremamente elevado, incluindo um covarde bombardeio nuclear.

Scheidel não chega a afirmar isso, mas o caso japonês é mais uma demonstração de que qualquer diminuição da desigualdade social sob o capitalismo costuma ser precedida pela mais terrível barbárie.

Leia também: A guerra como fator de igualdade social

18 de setembro de 2019

A guerra como fator de igualdade social

Em seu livro “A Grande Niveladora”, Walter Scheidel afirma que a violência seria a maior responsável pelos episódios de diminuição da desigualdade social na história humana.

Ela se manifestaria na forma de guerras, epidemias, colapso estatal e revoluções transformadoras. Seriam os quatro cavaleiros do apocalipse da nivelação social.

Segundo o autor, o papel da guerra é mais decisivo nas sociedades modernas devido ao recrutamento em massa, fenômeno histórico novo.

O alistamento generalizado leva grande parte da população a sacrificar suas vidas. Diante disso, os setores dominantes são obrigados a pagar mais impostos e aceitar políticas governamentais mais distributivas.

Mas outra das consequências das guerras modernas é a democratização. Parece estranho, mas Sheidel cita Max Weber:

A disciplina militar significou o triunfo da democracia, porque a comunidade desejava e foi compelida a garantir a cooperação das massas não-aristocráticas e, portanto, colocar em suas mãos armas e, juntamente com o poder das armas, é preciso estender direitos políticos. (História Geral da Economia - 1923)

De fato, a maioria das guerras modernas ocorre devido a choques surgidos entre setores da própria classe dominante, seja em nível nacional ou mundial. Para resolver o conflito, as facções ou governos envolvidos utilizam a população como bucha de canhão. Mas ao fazer isso, são obrigados a armá-la.

Terminada a guerra, é preciso desarmar os dominados antes que acabem se voltando contra aqueles que os enviaram para a morte. A solução passa por um afrouxamento da dominação política e melhores condições de vida.

Resumindo grosseiramente, justiça social sob o capitalismo dificilmente acontece sem o sacrifício de muitas vidas e o dedo popular no gatilho.

17 de setembro de 2019

A violência como fator de nivelamento social

A violência seria a grande responsável pelos raros períodos de diminuição da desigualdade social na história humana.

Esta é a hipótese que o historiador austríaco Walter Scheidel defende em seu livro “A Grande Niveladora: Violência e a história da desigualdade da Idade da Pedra ao século 21”, sem edição no Brasil.

Como se vê pelo título, trata-se de um levantamento histórico tão extenso quanto ousado. Mas muitas observações e conclusões convidam a refletir sobre certos fenômenos sociais e históricos.

É o caso do desenvolvimento das armas como importante fator na diminuição da truculência social entre os mais antigos agrupamentos humanos.

O historiador admite que alterações fisiológicas e mentais sofridas por nossa espécie teriam diminuído o peso da agressividade egoísta frente à colaboração solidária. Mas considera mais importante o papel de inovações na aplicação da violência.

É o caso das armas, cujo surgimento teria permitido aos membros mais fracos das primeiras comunidades humanas imporem-se aos mais fortes.

No lugar da luta corpo a corpo, em que o tamanho físico é decisivo, o combate à distância por meio de armas como as atiradeiras. Não há melhor exemplo que o de Davi abatendo Golias.

Outro elemento importante foi a elaboração de estratégias bélicas pensadas e executadas coletivamente pelos membros de menor envergadura para derrotar indivíduos grandes, mas isolados.

Eram os inícios da política como ciência. Antes como agora, muito relacionada à violência.

O historiador cita muitas evidências em favor de sua tese. Voltaremos a elas nas próximas pílulas.

Mas antes uma advertência: maior nivelamento social nem sempre é sinônimo de bem-estar para todos. Também pode significar colapso civilizacional generalizado.

Leia também:
A sangrenta não-violência de Gandhi

30 de agosto de 2019

Anistia: outro aniversário de uma lei muito podre

“Deveríamos ter forçado um pedido de desculpas dos militares”, diz José Genoino em matéria da Folha, publicada em 28/08/2019. Esta data marcava os 40 anos de aprovação da Lei da Anistia.

Porém, complementa o ex-dirigente petista, “foi melhor para o país não ter revisado a Lei da Anistia”. Palavras saídas da boca de alguém que foi preso e torturado pelos carrascos da ditadura.

Muito provavelmente, seja por estes e outros equívocos que o país esteja sob um governo dominado, não por aqueles que nunca pediram desculpas, mas por quem exige parabéns e aplausos pelos crimes que cometeram.

Não só admitem como se orgulham da tortura, assassinato e “desaparecimentos” de centenas de pessoas.

Mas pra encurtar a conversa, que tal lembrar a pílula A podre lei da Anistia, de novembro de 2011? Ela trazia o rock “Anistia”, dos Garotos Podres. A música lançada em 1988, denunciava o perdão que os militares concederam a si mesmos. Eis a letra:

Anistia?

Não queremos anistia
Aos torturadores
Não queremos que os assassinos
Fiquem impunes

Amordaçaram e torturaram
Toda uma nação
Nos deixaram órfãos
De uma mãe pátria

Como poderíamos
Perdoá-los
Se os cadáveres
Ainda estão fedendo

E as suas mãos
Ainda estão sujas de sangue
Sangue de uma geração
Sangue de toda uma nação

Para ouvir, clique aqui.

A pílula que trazia esta letra remetia a outra, de abril de 2011. Seu título era Bolsonaro, muito atual.

13 de agosto de 2019

A coalizão PSDB/PCC

Recentemente, foi divulgado o vazamento de uma troca de mensagens eletrônicas em que supostos integrantes do PCC manifestam sua preferência por governos do PT.

É mais um capítulo da tenebrosa guerra de desinformação que tomou conta do país.

Afinal, o PCC cresceu e se fortaleceu em São Paulo, sob governos tucanos. Dizem até que o baixo índice de homicídios nas ruas paulistas ocorre graças às lideranças presidiárias e não à ação da Secretaria de Segurança. Portanto, as duas siglas que parecem formar uma coalizão bastante sólida e antiga são PCC e PSDB.

Em 09/08/2019, o Portal Ponte publicou entrevista com Camila Nunes Dias. Socióloga, ela é uma das principais pesquisadoras sobre PCC no Brasil.

Em um trecho, Camila explica porque a facção paulista continua forte, apesar das muitas e espetaculosas operações para desestruturá-la:

Nessas décadas, a cada operação ouvimos “agora desestruturou, quebrou as pernas do PCC”. Vemos que desestrutura parcialmente algumas delas, mas os grupos vêm demonstrando uma capacidade muito grande de se recompor. Infelizmente, como só se investe na repressão, tudo aquilo que fortalece o recrutamento continua funcionando muito bem. É mais uma questão de reorganização do crime. Pessoas para ocuparem o lugar não faltam, não faltam motivações para isso. Não temos uma política que dê a jovens, especialmente em situação de vulnerabilidade, outras oportunidades e possibilidades na vida, como inserção no mercado de trabalho, por exemplo. A cada vez que se faz uma operação, é só mais um gelo sendo enxugado.

Não faltam motivações para a vida criminosa, diz a entrevistada. Muitas delas, provocadas por políticas governamentais tão ou mais violentas e delinquentes.

Leia também:

1 de agosto de 2019

Altamira: a transição entre a ditadura e seus porões

No final de julho, pelo menos 58 detentos foram mortos em Altamira. O maior massacre desde o episódio trágico do Carandiru.

Não foi um raio em céu azul.

O município localizado no centro-sul do Pará apareceu como o mais violento do Brasil na edição do Atlas da Violência, de junho de 2017.

O levantamento feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontava uma taxa de homicídios e mortes violentas de 107 por 100 mil altamirenses.

A média nacional era de 30 mortes.

Em 2000, a realidade de Altamira era muito diferente. Aquela taxa era seis vezes menor: 11 por 100 mil moradores.

E o que aconteceu nesse intervalo de tempo para que se chegasse a esse estado de barbárie?

A resposta é tão precisa quanto triste e revoltante: a Usina de Belo Monte, cuja construção foi lançada pela ditadura militar e perdeu impulso até que sua conclusão virou questão de honra para os governos petistas.

Não adiantaram os inúmeros protestos e denúncias de ambientalistas, entidades populares e, principalmente, lideranças indígenas contra a construção. Foram ignorados e desprezados.

Quando questionado sobre a morte dos presidiários, Bolsonaro respondeu: "Pergunta para as vítimas dos que morreram lá o que eles acham". Frio e estúpido, como sempre. Mas, neste caso específico, a diferença entre ele e seus antecessores não é tão grande.

Os governos petistas retomaram um projeto dos governos militares, imitando, inclusive, seus métodos autoritários. Bolsonaro representa a mentalidade dos carrascos a serviço daqueles governos.

A esquerda que ajudou a promover esse reencontro entre a ditadura e seu porão também deve explicações.

31 de julho de 2019

Povos indígenas: da autodemarcação à autodefesa

Abaixo, trechos de um recente comunicado dos Munduruku:

Nós o povo Munduruku do Médio e Alto Tapajós continuamos a autodemarcação do nosso território Daje Kapap Eipi, conhecido como Terra Indígena Sawre Muybu.

Eles relatam ter andado mais de 100 km para defender seu “território sagrado”. Como nossos antepassados, afirmam, “continuamos limpando os nossos picos, fiscalizando, formando grupos de vigilância e abrindo novas aldeais”.

Durante a missão, os indígenas expulsaram dois grupos de madeireiros, ao descobrirem “nossas árvores derrubadas e as nossas castanheiras como torra de madeira em cima de um caminhão”.

Eles deram três dias para os invasores retirarem todo o seu equipamento. As armas que utilizaram, dizem, foram “nossos cânticos, nossa pintura, nossas flechas e a sabedoria dos nossos antepassados”.

Apesar da singeleza dessas “armas”, os madeireiros foram expulsos. Algo que “nem o ICMBIO, IBAMA e FUNAI conseguiram”, relatam. E concluem:

Somos capazes de cuidar e proteger o nosso território para nossos filhos e as futuras gerações. Ninguém vai fazer medo e ninguém vai impedir porque nós mandamos na nossa casa que é nosso território. Estamos aqui defendendo o que é nosso e não dos pariwat. Por isso sempre vamos continuar lutando pelas demarcações dos nossos territórios. Nunca vão nos derrubar. Nunca vamos negociar o que é sagrado.

Será́ que vai precisar morrer outros parentes, como aconteceu com a liderança Wajãpi, para que os órgãos competentes atuem?

Mas se depender da “competência” oficial, os povos indígenas terão que passar da autodemarcação à autodefesa utilizando armas que não se limitem a cânticos, pintura e sabedoria. Infelizmente, prevalecerá a lógica da barbárie branca e capitalista.


7 de junho de 2019

Há séculos, um açougueiro no poder

Acaba de ser lançado o Atlas da Violência 2019, do Ipea. Novamente, os dados provam que o Brasil é um dos países mais violentos do mundo.

Entre as muitas conclusões que apresenta, a publicação revela que o número de homicídios cometidos com armas de fogo, crescia 5,44% anuais nos 14 anos anteriores ao Estatuto do Desarmamento. Já nos 14 anos posteriores, esse índice caiu para 0,85%.

Mesmo assim, o presidente do próprio Ipea, Carlos Von Doellinger, afirmou que “por uma questão de princípio, me incomoda a impossibilidade de o cidadão ter uma arma para a defesa da sua integridade física, de sua família e do seu patrimônio”.

É esta a lógica dos integrantes do governo Bolsonaro. Há mortes demais nas estradas? Flexibilizem-se as leis, punições e fiscalização de trânsito. O agronegócio abusa dos venenos agrícolas? Liberem-se ainda mais agrotóxicos. Mulheres são agredidas? Ofereça-se a elas uma arma para se defenderem.

Mas nada disso é um raio no céu azul. A alcateia louca que está no poder se vale de fake news, mentiras, calúnias e difamações. Mas seu modo de administrar o País é perfeitamente coerente com nossa realidade social e histórica.

Bolsonaro na presidência é a classe dominante sem filtros. Sem sociólogos, metalúrgicos ou guerrilheiras a tentar dourar a pílula venenosa da dominação extremamente truculenta dos poderosos locais.

A eleição de Bolsonaro é a mais pura demonstração da debilidade de uma Constituição cujas belas vestes da democracia moderna já não escondem o emporcalhado avental de um velho açougueiro sanguinolento.

Chegamos à pílula no 2.000. Doses suspensas por algumas semanas.

Leia também: As milícias no comando

29 de maio de 2019

As milícias no comando

“No Rio de Janeiro a milícia não é um poder paralelo. É o Estado”, diz José Cláudio Souza Alves, em entrevista a Mariana Simões para a Agência Pública, publicada em 31/01/2019.

Autor do livro “Dos Barões ao extermínio: a história da violência na Baixada Fluminense”, o sociólogo estuda as milícias há 26 anos. Segundo Alves, elas:

São formadas pelos próprios agentes do Estado. É um matador, é um miliciano que é deputado, que é vereador. É um miliciano que é Secretário de Meio Ambiente. Sem essa conexão direta com a estrutura do Estado não haveria milícia na atuação que ela tem hoje.

Alves identifica suas origens na criação da Polícia Militar, em 1967. A partir daí, vieram os esquadrões da morte, que teriam inspirado os atuais grupos de extermínio.

A certeza da impunidade que as ligações com o Estado permitem é tamanha, afirma o entrevistado, que seus membros já chegam dizendo: “Eu sou o cara, eu sou o matador, eu tenho vínculos com fulano, beltrano e sicrano. Eu ocupo este cargo”.

E os três mandatos do PT no governo federal nem arranharam essa estrutura, lamenta Alves. Ao contrário, é triste lembrar que o partido chegou a ter um deputado miliciano na Alerj.

O resultado está aí. Hoje, a milícia é o Estado não somente no Rio de Janeiro.

Entre as principais características dessas organizações, afirma o sociólogo, estão a estrutura familiar e a vinculação a igrejas. Duas instituições cuja credibilidade é explorada com sucesso pelos grupos de extermínio.

Mas não tem Brasil acima de tudo ou Deus acima de todos. Só a milícia no comando.

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