Doses maiores

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18 de setembro de 2023

Serviços públicos e uberização do trabalho

No início de agosto, o governo anunciou “a substituição do controle de frequência dos servidores federais por um controle de produtividade”. Segundo os autores da proposta, “bater ponto nunca foi garantia de produtividade”.

Mas a verdade é que uma das consequências das novas regras é a possibilidade de vários setores do funcionalismo passarem a cumprir suas tarefas parcial ou integralmente em casa. Parece bom, mas não é.

Em primeiro lugar, a medida transfere os custos da manutenção das condições operacionais aos servidores. Levando também à fusão muito provável do trabalho assalariado com os cuidados domésticos, que sobrecarrega principalmente as mulheres.

Em segundo lugar, reforça a fragmentação do local de trabalho, dificultando ainda mais as mobilizações coletivas em defesa de direitos, condições dignas de trabalho e atendimento de qualidade à população.

Mas essa é só mais uma etapa em um longo processo de mudanças feitas em direção a uma concepção neoliberal que vem corroendo o serviço público silenciosamente.

São as inúmeras terceirizações ao invés de contratações diretas. Empregos temporários no lugar de servidores permanentes. Concursos cada vez mais raros. E constantes ameaças à melhor defesa dos serviços públicos diante de desmandos e politicagens dos governantes de plantão: a estabilidade no emprego.

O fato é que os servidores públicos são umas das últimas categorias a contar com um mínimo de condições para se organizar coletivamente, enquanto milhões de trabalhadores viram seu poder de resistência sindical enfraquecido pela informalidade imposta nas últimas décadas.

Pode ser prematuro considerar esse processo uma espécie de uberização do trabalho no serviço público. Mas tudo indica que o destino final já está programado.

Leia também: Pandemia e oportunismo: trabalho precarizado

18 de abril de 2018

Mais ataques ao SUS

Em 13/04, o portal EPSJV/Fiocruz publicou entrevista com José Sestelo, vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), sobre a criação do Sistema Nacional de Saúde. Uma proposta dos tubarões do mercado para minar o SUS.

Sestelo diz que não há novidade na proposta:

Essa pauta empresarial vem sendo veiculada publicamente há vários anos. Acho que um dos principais instrumentos de divulgação disso foi o chamado “Livro Branco da Saúde”, que foi publicado na época das eleições majoritárias, em 2014.

Ainda, segundo ele:

Existe uma estratégia retórica de se utilizar esse termo - Sistema Nacional de Saúde - não diria que em oposição ao SUS, mas quase como uma ressignificação para o que a gente chama de SUS. Porque os empresários não querem a extinção do SUS, eles querem o SUS que seja conveniente aos seus interesses, como de fato tem sido. Mas eles querem ainda mais.

O entrevistador André Antunes pede um exemplo:

Essencialmente é tornar o SUS um grande resseguro, ou seja, tudo aquilo que não for comercialmente interessante para os empresários teria algum tipo de cobertura financiada pelo orçamento público. Os casos típicos são as condições crônicas, terapia renal substitutiva, transtornos de comportamento, enfim, condições em que o usuário recorre ao sistema de maneira frequente, em que ele não vai se curar, vai viver com aquilo. Essa é a visão...

Mas não se trata de coisa só de golpistas. Para citar apenas um exemplo, em fevereiro de 2015, Dilma sancionou a Medida Provisória 656, sobre renegociação das dívidas dos clubes de futebol. Escondida nela, a abertura do setor de saúde ao capital estrangeiro.

Leia também:

15 de março de 2017

O Caixa 2 de olho no Caixa 1 da Previdência

A grande imprensa grita contra os parlamentares que tentam escapar a possíveis punições pela utilização do “Caixa 2”. Mas confia nesse mesmo bando de pilantras para aprovar a Reforma da Previdência, que considera medida de “salvação nacional”.

Não teria a menor lógica não fosse o fato de que a proposta de Temer é mais um golpe contra os cofres públicos. E muito mais grave que qualquer caixa 1, 2 ou 3.

O que realmente está em jogo é o controle de uma grande parte do que se costuma chamar de fundo público. Segundo definição de Evilasio Salvador:

O fundo público envolve toda a capacidade de mobilização de recursos que o Estado tem para intervir na economia, além do próprio orçamento, as empresas estatais, a política monetária comandada pelo Banco Central para socorrer as instituições financeiras.

No caso da Previdência, sua receita bruta em 2014 foi de R$ 686 bilhões. É o controle desta dinheirama toda que está em jogo. E o mercado financeiro é o maior candidato a se apropriar dela, graças aos votos das bancadas cuja eleição financiou, destinando recursos perfeitamente legalizados no caixa 1 de suas campanhas eleitorais.

O mesmo pode acontecer em relação ao FGTS, cujos recursos podem deixar de ser controlados pela Caixa Econômica Federal. São cerca de 470 bilhões cobiçados por bancos e especuladores em geral. Os mesmos que, aliás, são grandes anunciantes dos jornais.

Para saber mais sobre essa importante disputa em torno dos fundos públicos, leia a revista do Departamento Intersindical de Estudos e Pesquisas de Saúde e dos Ambientes de Trabalho,  clicando aqui. E ajude a divulgar, também.

24 de agosto de 2016

A Reforma da Previdência e a ressaca garantida

Esta semana, um milhão de chilenos foram às ruas contra seu sistema privatizado de previdência. Nele, os trabalhadores contribuem com 10% de seus salários, mas em vez do retorno de 70% prometido só recebem cerca de 35%. Além disso, 90% das aposentadorias pagam apenas metade do salário mínimo.

No entanto, dinheiro não falta. São seis fundos de pensão controlando juntos 143,5 bilhões de euros.

Nos anos 80, um comercial de bebida mostrava um personagem se deparando com uma imagem de si mesmo, avisando: “Eu sou você amanhã”. Para escapar da ressaca do dia seguinte, o segredo era beber a vodca Orloff, dizia a propaganda. O slogan transformou-se no “efeito Orloff”, sinônimo de coisas ruins que poderiam acontecer num futuro próximo.

Por exemplo, diante da crise econômica na Argentina, muitos analistas e jornalistas avaliavam que o mesmo aconteceria no Brasil em breve. “Eu sou você amanhã”, nos diriam os habitantes do país vizinho.

Pois bem, o sistema de pensões chileno foi criado em 1981 pela ditadura Pinochet. Incluía todos menos Forças Armadas, polícia e outros órgãos de segurança, que ficaram com normas menos prejudiciais. Não demorou para que a maioria dos chilenos passasse a amargar uma terrível ressaca.

No Brasil, várias reformas da previdência foram adotadas tendo como modelo o sistema de Pinochet. De Collor a Fernando Henrique, dos governos petistas aos atuais golpistas. Todos colaborando para que os trabalhadores brasileiros sofram amanhã os males que atacam os chilenos hoje.

Diante disso tudo, nós é que deveríamos dizer aos lutadores chilenos: “Queremos ser vocês hoje”. Uma ressaca brava como essa só dá pra curar nas ruas.

Leia também: Aposentadoria, só depois da morte

26 de julho de 2016

Aposentadoria, só depois da morte

Voltamos à reportagem “Sobra dinheiro na previdência”, publicada no portal EPSJV/Fiocruz por Cátia Guimarães, em 18/07. Agora, abordando a proposta de aumento da idade mínima para a aposentadoria.

A maior justificativa para adotar essa medida seriam problemas para custear a aposentadoria por tempo de contribuição. Ocorre que dos 32 milhões de benefícios do INSS, apenas 16% estão nessa modalidade, diz a matéria. É o resultado do alto índice de informalidade do mercado de trabalho.

Outro dado muito utilizado é a idade em que se dão as aposentadorias. Segundo governo e mídia, a média seria de 55 anos. Parece cedo, mas a grande maioria não se aposenta para descansar em seus aposentos. Quase todos continuam a trabalhar e as aposentadorias servem apenas como um reforço na renda familiar.

Além disso, como afirma Sara Granemann, professora da Escola de Serviço Social da UFRJ:

O aumento da expectativa de vida é um feito da humanidade no século 20. Se elevar para todo mundo a aposentadoria para 65 anos, por exemplo, você terá pessoas se aposentando a menos de dez anos da morte.

Já Vilson Romero, presidente da Associação Nacional dos Fiscais da Previdência, lembra que não há como estabelecer uma idade mínima para aposentadoria num país “onde se morre aos 55 anos no campo e há quem viva até os 85, 90 anos no Rio Grande do Sul”.

Em 1995, entidades sindicais lançaram uma mobilização contra a Reforma da Previdência de FHC. Criado por Vito Giannotti, o jornal da campanha dizia: “Você só vai se aposentar depois de morto!”. Infelizmente, muitos anos e governos depois, a publicação continua atual. 

21 de julho de 2016

A cara-de-pau do governo na Reforma da Previdência

“Sobra dinheiro na previdência”, diz o título da excelente reportagem de Cátia Guimarães, publicada no portal EPSJV/Fiocruz, em 18/07.

A afirmação é da economista Denise Gentil, professora da UFRJ. A receita bruta da previdência em 2014 foi de R$ 349 bilhões para pagar R$ 394 bilhões em benefícios, diz ela. Mas quando se incluem os mais de R$ 310 bilhões arrecadados da CSLL, Cofins e PIS-Pasep, o orçamento chega a R$ 686 bilhões. O déficit vira superávit com folga.

Mesmo quando entram nessa conta os gastos com saúde e assistência, sobram R$ 54 bilhões. O problema é que 20% do total geral são desviados pela Desvinculação de Receitas da União, criada pelos tucanos e mantida pelos petistas para garantir o criminoso pagamento da dívida pública.

Sem falar nos R$ 69 bilhões de renúncia fiscal dos recursos previdenciários previsto pelo Orçamento de 2016.

Em relação às previsões sobre quebra do sistema em 2040, Sara Granemann, professora da Escola de Serviço Social da UFRJ, pergunta: “Os governos não conseguem prever a próxima crise e querem nos convencer do que vai acontecer em 2040?”.

Na realidade, por trás disso tudo está o mercado de seguros. Em 1997, o Brasil tinha 255 fundos de pensão que movimentavam R$ 72 bilhões. Em 2015, eram 308 fundos e R$ 685 bilhões. Uma expansão feita às custas do desmonte da previdência pública.

Ou seja, tudo indica que a reforma da previdência só pretende turbinar ainda mais esse mercado bilionário. Neste caso, os trabalhadores não pagam a conta apenas com seus bolsos, mas com suas vidas.

Na previdência, sobra dinheiro. No governo, sobra cara-de-pau.

3 de julho de 2016

O mito do inchaço da máquina pública

O excesso de servidores públicos é tema favorito de 11 entre 10 jornalistas, comentaristas, especialistas e outros vigaristas.

Mas, pelo menos em relação ao Poder Executivo federal, este “inchaço” não passa de um mito. É o que mostra um recente estudo de Antonio Lassance, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.

Alguns dados:

Nos últimos dez anos, houve um expressivo aumento nas contratações de servidores. Mas seu atual número é similar ao de 1992.

Durante a década de 1990 até 2002, Collor e FHC substituíram servidores concursados por terceirizados e precarizados. Nesse caso, faça-se pelo menos esta justiça aos governos petistas. Sob sua gestão, foram realizados quase 25 mil concursos. Principalmente, para os ministérios da Educação, Meio-Ambiente e Saúde.

Outro procedimento escolhido como vilão é a nomeação dos cargos de direção (DAS), que podem ser ocupados por pessoas externas ao serviço público. O estudo mostra que mesmo nos níveis mais altos, onde não há cotas mínimas de servidores, a proporção de concursados fica, em média, acima dos 50%.

Quanto ao aparelhamento do Estado por “quadrilhas partidárias”, melhor procurar em outro lugar. Servidores com DAS filiados a partidos são apenas 13,1% do total. E mesmo nos altos escalões, só 66% possuem filiação.

A estes números, podemos juntar a informação de que 82% do déficit público atual representam despesa com juros, 13% são queda de arrecadação e apenas 5%, aumento da despesa pública.

Portanto, o tal “inchaço” é um mito alimentado por quem se aproveita da inegável ineficiência dos serviços públicos para defender um Estado cuja única eficiência continue sendo a que está a serviço do capital.

Leia também: Um governo que ninguém derruba

12 de abril de 2016

O golpe contra os serviços públicos

O funcionalismo público do País está em luta contra o Projeto de Lei 257/16. A medida foi proposta pelo governo Dilma e tem por objetivo a renegociação das dívidas dos estados e municípios. As exigências para rolar os débitos são um verdadeiro ataque aos serviços públicos.

Dentre as condições para a renegociação estão arrocho e congelamento dos salários do funcionalismo, privatizações, suspensão da política de valorização do salário mínimo, mais terceirizações, fim dos concursos, demissão de servidores concursados e aumento da contribuição previdenciária de servidores.

A grande imprensa atribui a enorme dívida de muitos dos estados e municípios a “gastanças”. Mas isso é apenas uma pequena parte da verdade. Uma CPI foi realizada em fevereiro de 2010, sobre a renegociação das dívidas entre Estados e União feita por meio da Lei 9.496, de 1997.

O relatório final da investigação mostra que as dívidas estaduais totalizavam R$ 105 bilhões, em 1998. Dez anos depois, por conta do acordo, o total das dívidas havia aumentado para R$ 320 bilhões.

Na verdade, a renegociação de 1997 não passou de um ajuste fiscal privatista, que piorou ainda mais a situação dos serviços públicos, em especial na saúde e educação públicas. Enquanto isso, o sistema financeiro lucrou bilhões, especulando com os juros de uma dívida que só faz crescer.

A atual proposta de renegociação dos débitos é uma continuação dessa política. O que foi iniciado pelo governo neoliberal dos tucanos, os governos petistas pretendem continuar com seu neoliberalismo discreto, mas tão eficiente quanto.

E tudo isso porque não vai ter golpe.

Leia também: Ajuste neoliberal às custas da Seguridade Social

29 de fevereiro de 2016

Ajuste neoliberal às custas da Seguridade Social

Em 19/02, Gabriel Brito e Valéria Nader publicaram uma ótima e esclarecedora entrevista com Denise Gentil no Correio da Cidadania. A economista e pesquisadora acabou de concluir sua tese de doutorado sobre o que considera “o falso déficit da Previdência”.

O depoimento reforça a necessidade de lutar contra mais um ataque à Previdência Social. Um exemplo, a pesquisadora afirma que, computadas todas as suas receitas, “a Seguridade Social teve superávit de R$68 bilhões em 2013, R$ 36 bilhões em 2014 e R$16 bilhões em 2015”.

Mas poderiam ser números ainda maiores não fosse uma nociva política adotada pelo governo Dilma. Trata-se das “desonerações tributárias” destinadas à “recuperação da indústria” e do emprego. Por este instrumento, o governo abriu mão de R$ 253 bilhões em impostos, em 2014, dos quais R$ 136 bilhões pertenciam à Seguridade Social.

Mas 2015 foi pior:

...a desoneração total chegou a R$282 bilhões e representou um valor maior do que a soma de tudo o que foi gasto, em 2014, em Saúde (R$93 bilhões), Educação (R$93,9 bilhões), Assistência Social (R$71 bilhões), Transporte (R$13,8 bilhões) e Ciência e Tecnologia (R$6,1 bilhões) pelo governo federal.

Do total do valor das renúncias de receitas tributárias, 55% pertenciam à Seguridade Social, diz a entrevistada.

Apesar de toda essa farra fiscal, os resultados em relação ao crescimento do emprego foram tímidos e tiveram fôlego curto. As filas de desempregados crescem enquanto as verbas de proteção social encurtam graças à transferência indireta de verbas públicas dos setores sociais para o grande empresariado.

Mais uma evidência de que o ajuste neoliberal está em plena execução.


Leia também: Parlamentares e governo trabalhando!

22 de fevereiro de 2016

Previdência Social e luta de classes

A Previdência Social volta a ser alvo de privatizadores e mercenários do mercado. O velho pretexto é um déficit em seu orçamento que não existe.

É o que afirma, por exemplo, Eduardo Fagnani, em artigo publicado na Plataforma Política Social - Caminhos para o Desenvolvimento, em 21/02. Professor do Instituto de Economia da Unicamp, ele cita números de 2012 que exibem saldo positivo de R$ 78,1 bilhões na Previdência.

A questão é que o governo coloca na conta da Previdência despesas que não são dela, como a seguridade dos servidores públicos, que deveria ser custeada pelo Tesouro Nacional.

Mas há outras distorções graves. É o caso do pornográfico gasto público com juros.

Segundo o economista Amir Khair, em entrevista à Carta Capital em 22/02, entre 2014 e 2015 as despesas com os benefícios previdenciários tiveram um aumento de R$ 6 bilhões. Enquanto isso, o gasto com juros cresceu R$ 130 bilhões. Sendo que as primeiras beneficiam trabalhadores e o segundo, especuladores.

O que realmente está em jogo é o controle de uma montanha de dinheiro e do maior programa social do País. O mais recente Boletim Estatístico da Previdência Social indica quase 33 milhões de pessoas sob cobertura previdenciária. Já o Bolsa Família, atende a 13 milhões de inscritos, equivalente a 40% do total do INSS.

Como disse André Singer em sua coluna na Folha, em 20/02, “a seguridade social está no centro da luta de classes contemporânea”. Não à toa, propostas de privatizá-la e de restringir seus direitos partem sempre dos exploradores. Vergonhosamente, muitas vezes, conseguem o apoio de quem se diz representantes dos explorados.

Leia também: As sujeiras da luta de classes

23 de janeiro de 2013

Troque sua saúde por uma geladeira nova

Em 2008, o Congresso Nacional acabou com o CPMF. O governo Lula fez o maior escândalo. Alegou que se tratava de uma vitória neoliberal. A Saúde perderia arrecadação. Os cofres públicos ficariam sem R$ 40 bilhões anuais.

Desde então, os governos petistas vêm se especializando em "desonerar a folha de pagamento". São várias isenções de tributos para os empresários. Eles prometem manter a produção e o nível de emprego. Garantidos, mesmo, só os milhões que deixam de pagar em contribuições sociais.

Em 22/01, o jornal Valor divulgou levantamento feito pela Receita Federal feito a seu pedido. O estudo revelou que esse tipo de isenção tributária deve somar R$ 53,2 bilhões neste ano e R$ 62 bilhões, em 2014.

Em 17/01, Viviane Tavares publicou artigo no site da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio /Fiocruz. O texto chamado “Quem vai pagar a conta?” esclarece que, ao abrir mão de impostos como IPI, PIS e Cofins, o governo tem ”optado pelo incentivo ao mercado em detrimento das políticas sociais”.

O artigo cita dados da Associação Nacional dos Fiscais de Contribuições Previdenciárias. As renúncias das receitas da Cofins, por exemplo, chegaram a R$ 34,6 bilhões, em 2011. Isso equivale à metade de toda a despesa em Saúde.

Façam as contas. Tudo isso representa bem mais que os tais R$ 40 bilhões perdidos pelo fim da CPMF.

O artigo de Viviane coloca as coisas nos seguintes termos: entre geladeiras novas e saúde pública de qualidade, a escolha parece óbvia. Mas o governo federal prefere a primeira opção e vai colocando a maioria da população na maior fria.

Leia também: A saúde pública atropelada

4 de janeiro de 2013

Pouco dinheiro no bolso, saúde só pra vender

Recentemente, a revista médica "Lancet" publicou vários estudos sobre a expectativa de vida da humanidade. Os principais resultados estão na reportagem “Anos a mais de vida têm menos qualidade”, de Débora Mismetti, publicada na Folha em 14/12. Eles mostraram que as pessoas estão vivendo mais e pior.

Um artigo de Joshua Salomon, da Escola de Saúde Pública de Harvard, por exemplo, comparou as condições de saúde entre 1990 e 2010 em 187 países. “Os resultados mostram que um ano a mais de vida corresponde, na verdade, a 0,8 ano vivido com saúde”, diz a matéria.

A culpa é de doenças crônicas, causadas por hábitos ruins e péssimas condições de vida. A reportagem cita Jarbas Barbosa, secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde: "Se não atacarmos as doenças crônicas, as pessoas vão viver mais, mas com sequelas de AVC (acidente vascular cebral), amputação por causa de diabetes, diálise."

Do ponto de vista da dignidade das pessoas, é muito ruim. Ser idoso já é uma condição sujeita a discriminações sociais e apertos econômicos. Doenças e limitações físicas só pioram a situação. E ainda há a pressão sobre o sistema público de saúde.

Mas nem todo mundo tem razão para se queixar. É o caso da poderosa e bilionária indústria farmacêutica. Acabamos dedicando nossas vidas mais longas a consumir seus produtos caros e de eficiência muito questionável.

“Muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender”, é o que se costuma desejar. Mas as indústrias de medicamentos têm ficado com o dinheiro e nos vendido caro uma saúde precária. Apesar disso, Feliz Ano Novo “pra geral”!

27 de agosto de 2012

A saúde pública atropelada

“Saúde não é linha de montagem de automóveis” diz o título de artigo de Paulo Romano, membro do Conselho Nacional de Saúde, publicado no Valor em 23/08. O título se refere a uma propaganda que compara a eficiência de uma grande rede hospitalar privada à produção automobilística.

O texto traz vários números impressionantes. Por exemplo, as famílias brasileiras gastam metade de seu orçamento com saúde. Algo que só ocorre em outras 30 nações, a maioria pobre. A média mundial de gastos públicos no setor é de 14,3%, mas no Brasil, só 5,9%. Inferior, diz o texto, à “média do continente africano, de 9,6%”.

Romano diz ainda que existem no País “26 leitos para cada grupo de 10 mil pessoas”. A média mundial é de 30 por 10 mil. Na Europa e Estados Unidos, esse número é três vezes maior. E é aí que poderia entrar uma comparação que o autor do artigo não fez, mas também envolve automóveis.

Edição do Estadão de abril de 2012 diz que o País tem um automóvel para cada cinco brasileiros. Mas São Paulo, por exemplo, tem um veículo para cada 1,8 habitante. Ao mesmo tempo, a redução de IPI para carros deve ser mantida por mais dois meses, afirmam os jornais.

Mais automóveis nas ruas significam mais acidentes e níveis de poluição que causam doenças graves. Portanto, mais pressão sobre o sistema público de saúde. E o que fazem os governantes? Investem pouco no setor e cortam impostos para aumentar a venda de veículos.

É assim o desenvolvimento econômico: atropela a saúde pública, com omissão de socorro.

Leia também: “Revolução permanente” contra o SUS

3 de maio de 2012

Quando seguridade e solidariedade não rimam

Dilma acaba de sancionar a lei que cria o fundo de previdência complementar do funcionalismo federal. Servidor que ingressar agora não terá direito a aposentadoria integral acima de R$ 3.900. Acima disso, só através de contribuição para um fundo próprio.

A medida entrega ao mercado financeiro a fatia melhor remunerada do funcionalismo federal. São poucos, mas representam um montante de dinheiro nada desprezível. Na verdade, esta é a lógica de todas as reformas da previdência feitas desde o governo Collor. Quebrar o potencial de solidariedade da seguridade social.

A ideia de seguridade social começou a surgir no século 19. À miséria criada pelo capitalismo, liberais e socialistas davam respostas diferentes. Grande parte dos primeiros queria um programa de renda mínima voltado para os miseráveis. A maioria dos segundos defendia a seguridade: sistema universal que deveria socorrer todos os assalariados.

Para os liberais, seguridade e socialismo formam perigosa rima oculta. Ela sugere que os trabalhadores são capazes de se organizar de forma solidária. Ao contribuírem para um fundo só, os que ganham mais financiam aposentadorias e pensões para os que ganham menos. Lógica oposta à selvagem competição do mercado capitalista.

Ao invés de criar um fundo somente para os servidores melhor remunerados, o certo seria caminhar rumo à criação de um único fundo público. Cobertura previdenciária igual para trabalhadores públicos e privados. Salários maiores financiando os menores com pesados impostos sobre os lucros empresariais.

Não chegaria a ser socialismo. Só as possibilidades do que pode ser. Mas a medida recém publicada mostra o que o governo Dilma realmente é. É o lulismo, e não rima com socialismo.

Leia também: Falácias tucanas, bravataspetistas, déficits morais

6 de novembro de 2011

O câncer do SUS

Houve alguma polêmica envolvendo a doença de Lula e o SUS, semana passada. Artigo publicado no Valor de 28/10 sobre o sistema público de saúde ajuda a esclarecer algumas coisas. O texto é de Alexandre Marinho e Carlos Octávio Ocké-Reis, pesquisadores do Ipea. Para começar, eles constatam que:
O Sistema Único de Saúde (SUS) é um modelo público universal, mas o perfil do nosso gasto público em saúde é parecido com o dos Estados Unidos, que é baseado em seguros de saúde privados. Por isso, o gasto público brasileiro em saúde é, em termos percentuais, menor do que o canadense e o australiano, que se destacam pela intervenção ativa do Estado.
O baixo gasto público no setor em saúde no Brasil explica a falta atendimento de qualidade para todos. Por isso não surpreende que as famílias brasileiras gastem tanto com planos de saúde. O artigo diz que as despesas com serviços médicos e medicamentos chegam a 29,2%. Mais que o dobro do verificado nos Estados Unidos: 12,1%.

Não é só isso. Os autores citam a Terapia Renal Substitutiva (TRS) e os transplantes de rim. Dois dos procedimentos mais procurados. Segundo eles:
As TRS custaram ao SUS, no ano de 2010, R$ 1,6 bilhão. A hemodiálise é a TRS mais frequente e cobre 70 mil brasileiros. Assim, a TRS possui o maior orçamento dentre os procedimentos ambulatoriais de média e alta complexidade, crescendo sua quantidade ao longo dos anos. Porém, apenas 10,3% dos 18.780 equipamentos de hemodiálise pertencem ao Estado Brasileiro, cabendo ao setor privado, contratado pelo SUS, 83,3% desses equipamentos. Consequentemente, o SUS paga 95% do custo total.
Só para ter uma idéia em 2010 os planos de saúde faturaram R$ 72,7 bilhões. Mas desembolsaram apenas 5% das despesas com pacientes renais.

Por descaso dos governos, o SUS atende mal dezenas milhões de pacientes pobres. Pessoas que já pagaram a conta de seu atendimento através de impostos. Mas o maior problema é a indústria da saúde. Um tumor que parasita os recursos já tão limitados do sistema público de saúde.

Leia também: O voto e a risada enlatada