Doses maiores

Mostrando postagens com marcador antirracismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador antirracismo. Mostrar todas as postagens

2 de setembro de 2024

Malcolm e Martin calados por balas

Em 28 de agosto completaram-se os 50 anos da morte de Martin Luther King, atingido por um tiro, em Memphis. Três anos antes, Malcolm X também morrera alvejado por 21 balas, em Nova Iorque.


Essas duas figuras gigantes das luta antirracista tinham várias diferenças entre si. A começar pelos lugares onde surgiram e pelas formas de resistência que adotaram. 

King lutava pela integração dos negros à cidadania no sul dos Estados Unidos, onde o racismo era legalizado. Malcolm queria deixar evidentes as diferenças com que era tratada a população negra no leste do país, onde o racismo não era previsto em leis, mas exercido sem constrangimentos. Em especial, através da violência policial, utilizada com total cumplicidade e apoio das elites brancas.

Contra o racismo escancarado, King defendia o diálogo e a resistência pacífica, buscando nada mais do que a ampliação dos direitos dos brancos para os negros. Onde o racismo tentava camuflar sua crueldade, Malcolm queria escancará-la. Responder à violência racista do Estado com o uso do legítimo direito de defesa da população negra.

Um enfatizava o diálogo e a ação pacífica. O outro, a ação direta e a resistência “por todos os meios”. Mas ambos foram eliminados no momento em que começavam a desafiar as próprias raízes da desigualdade econômica e racial da sociedade em que viviam.

A morte deles foi uma grande vitória do aparato de dominação estadunidense. Um sistema que só permite a alguns não brancos ascenderem a posições de poder, desde que se calem sobre o racismo que o estrutura.

Leia também: O movimento negro na resistência à automação produtiva

6 de abril de 2023

Os socialistas lutam contra todo tipo de opressão

A consciência da classe trabalhadora não pode ser uma consciência política genuína, a menos que os trabalhadores sejam educados a responder a todos os casos de tirania, opressão, violência e abuso, não importa qual classe seja afetada - a menos que sejam orientados, além disso, a responder de um ponto de vista socialista.

As palavras acima são de Lênin. Foram transcritas por Ahmed Shawki em seu livro “Libertação Negra e Socialismo”. Com essa citação, o autor procura enfatizar que é obrigação de todo militante socialista dar combate a qualquer tipo de opressão.  

Ao mesmo tempo, Shawki considera equivocado priorizar a luta contra as opressões, ignorando a importância fundamental do combate à exploração.

Em primeiro lugar, afirma ele, porque não há unidade necessária ou imediata entre grupos de oprimidos. Em segundo lugar, os movimentos dos oprimidos não têm poder social real para transformar fundamentalmente o sistema, a menos que se transformem em um movimento que também inclua os explorados em geral. Isto é, a menos que sejam aliados ou se tornem parte do movimento dos trabalhadores, único que pode defender as demandas dos todos os explorados e oprimidos.

O marxismo tem dado importante contribuição no sentido de unir as lutas contra a exploração ao combate a opressões como o racismo. No caso dos Estados Unidos, Shawki acredita que as limitações da tradição socialista em relação à libertação negra são, em parte, uma expressão da escassez no país das tradições e políticas do marxismo revolucionário. São essas tradições que ele considera necessário resgatar e fortalecer.

Haverá uma pausa nas doses até maio.

Leia também: Panteras Negras, sua bravura e limitações

Panteras Negras, sua bravura e limitações

Nos Estados Unidos, nos anos 1960, a luta negra encontrou uma de suas manifestações mais radicais no Partido dos Panteras Negras, surgido em Oakland, Califórnia.

Adeptos das ideias de Marx, os Panteras foram muito influenciados pelo maoísmo. Na verdade, uma concepção que, segundo afirma Ahmed Shawki em seu livro “Libertação Negra e Socialismo”, é uma forma distorcida de marxismo.  

Exemplo dessa distorção seria o que disse Huey Newton, uma de suas principais lideranças: “As massas buscam constantemente um guia, um Messias, que as liberte das mãos do opressor”. Como lembra Shawki, Marx pensava o contrário. “Os educadores devem ser educados”, disse ele, ao contestar as formas elitistas de socialismo.

O autor lembra outras limitações políticas dos Panteras que contribuíram para seu declínio. Uma das mais importantes teria sido a aceitação de uma noção semi-militarista da política. Tal ênfase teria facilitado o trabalho de repressão violenta à organização.

Além disso, os Panteras atribuíam aos despossuídos e marginalizados o papel de principal força revolucionária no lugar da classe trabalhadora. Tal concepção tornou a organização instável, diz o autor. A precariedade social de grande parte da militância tornava difícil estabelecer rotinas consistentes. Além disso, afastou o partido do operariado, força social fundamental para combater o capitalismo racista estadunidense.

Apesar dessas limitações, os Panteras exerceram grande influência junto à militância negra. Sua bravura e compromisso com o combate antirracista atraiu a ira dos supremacistas estadunidenses. Por isso, o FBI criou um poderoso programa de contra inteligência e sabotagem para destruir a organização. A repressão foi brutal porque era necessário enviar uma mensagem assustadora a todos os militantes da luta negra.

Leia também:
Malcolm e King, lutadores da libertação negra
O partido das Panteras Negras

4 de abril de 2023

Malcolm e Martin, lutadores da libertação negra

Malcolm X e Martin Luther King Jr. partiram de posições políticas muito diferentes, diz Ahmed Shawki em seu livro “Libertação Negra e Socialismo”. Mas nos meses anteriores ao assassinato de cada um, afirma ele, tiraram conclusões muito semelhantes sobre o caráter do sistema e as limitações das reformas sob o capitalismo estadunidense.

Fundamentalmente, eles entenderam que os Estados Unidos precisavam de uma profunda transformação estrutural para que a opressão racista fosse superada.

King passou a questionar a tática da não-violência diante da enorme truculência racista, tanto estatal como paraestatal. Tanto em seu país como no mundo. No discurso “Por que me oponho à guerra no Vietnã”, proferido em abril de 1967, ele afirmou:

A imprensa nos aplaudiu quando decidimos nos sentar em lanchonetes sem violência. Nos aplaudiu quando aceitávamos a repressão policial sem reagir nas passeatas. (...) Mas nos condenou quando dissemos aos soldados estadunidenses: “Não usem violência contra as crianças vietnamitas”.

Após o massacre de Selma e as mudanças na legislação eleitoral que restringiam o voto da população negra, King afirmou: “Entramos em uma era de revolução. Toda a estrutura da vida americana deve ser mudada”. Também disse que o maior provedor de violência no mundo hoje era “meu próprio governo”.

Em 1968, Martin Luther King Jr. foi assassinado em Memphis, Tennessee, três anos depois do mesmo ter acontecido com Malcolm X. Ambos foram eliminados no momento em que começavam a desafiar as próprias raízes da desigualdade econômica e racial construída na sociedade americana.

Por isso, conclui Shawki, quaisquer que fossem suas diferenças, ambos, de maneiras distintas, se destacam como grandes lutadores pela libertação negra.

Leia também: Malcolm X contra o capitalismo abutre e racista

31 de março de 2023

A luta antirracista nos EUA: da não violência à autodefesa

Vamos a mais relatos sobre a história da luta antirracista nos Estados Unidos, retirada do livro “Libertação Negra e Socialismo”, de Ahmed Shawki.

Em fevereiro de 1960, quatro estudantes negros da Escola Técnica Agrícola da Carolina do Norte sentaram-se na seção reservada “somente para brancos” de uma lanchonete e pediram um pouco de café. Eles não foram atendidos, mas se recusaram a sair até que a loja fechasse.

Em abril do mesmo ano, essa tática havia se espalhado para 78 comunidades sulistas, com cerca de 2 mil estudantes presos. Em agosto de 1961, mais de 70 mil negros e brancos participaram de protestos desse tipo. Três mil foram presos.

No mesmo mês, foi fundado o Comitê Coordenador Estudantil Não Violento (SNCC, na sigla em inglês). A organização rapidamente tornou-se a ala esquerda do movimento dos direitos civis e daria origem ao movimento Black Power.

Em junho de 1964, três defensores dos direitos civis foram assassinados pela Ku Klux Klan, no Mississipi. Dois deles eram brancos. Tornou-se evidente para o SNCC que a não violência precisava dar lugar à autodefesa.

Em 1965, a organização passou a denunciar a Guerra do Vietnã, argumentando que os negros não deveriam lutar em outro país até que eles mesmos fossem livres em sua terra natal.

A liderança moderada de Luther King passou a ser desafiada pela militância radicalizada dos defensores do “Black Power”. O clima mudou definitivamente da política da reforma para a da militância revolucionária. As ideias de Malcolm X começaram a exercer considerável influência dentro do movimento.

É o que veremos em uma próxima pílula.

Leia também: O castigo de Hitler e a morte de Emmett Till

28 de março de 2023

O castigo de Hitler e a morte de Emmett Till

Durante a Segunda Guerra, nos Estados Unidos, uma escola pública propôs o seguinte tema para um concurso de redação: “Como você puniria Hitler por seus crimes?”. Uma garotinha negra respondeu assim: “Eu o colocaria em uma pele negra e o forçaria a passar o resto de sua vida nos Estados Unidos”.

O relato acima está no livro “Libertação Negra e Socialismo”, de Ahmed Shawki. Em novembro de 1955, o jornal “O Socialista Americano” lembrou essa história logo após a morte Emmett Till, um garoto negro de 14 anos, brutalmente assassinado por dois homens brancos, no Mississipi. Segundo a publicação:

O fato de que, na América, homens adultos e fortes raptem uma criança do ensino fundamental, espanquem-na, arranquem todos os seus dentes, afundem seu rosto, coloquem uma bala em sua cabeça e joguem seu corpo em um rio deveria revoltar até a mais insensível das pessoas.

Mas os responsáveis por esse massacre covarde foram absolvidos por um júri totalmente branco e masculino em 67 minutos.

Cinquenta mil pessoas compareceram ao funeral de Till, em Chicago, onde ele nascera. Era um prenúncio da força que o movimento dos direitos civis teria na década seguinte. Mas muitos de seus primeiros líderes acreditavam que sua luta era contra uma praga moral. Um deles era o jovem Martin Luther King. Na época, ele chegou a declarar que a luta por mais direitos para os negros era fundamental para “nossa nação na luta contra o comunismo".

No futuro, a fúria genocida dos supremacistas brancos faria King abandonar essa postura completamente equivocada quanto ao racismo estadunidense. É o que veremos em breve.

Leia também: Os negros estadunidenses contra o racismo e a exploração

27 de março de 2023

Os negros estadunidenses contra o racismo e a exploração

Nos anos 1960, a urbanização da população negra nos Estados Unidos teve importantes desdobramentos. Trabalhadores negros aderiram aos sindicatos às dezenas de milhares. Milhares deles também haviam combatido na Segunda Guerra. Tendo lutado pela “democracia” no exterior, eles voltavam acreditando que deveriam ter mais direitos em seu próprio país.

Tudo isso aumentou sua confiança no combate ao racismo. Mas também era época da caça às bruxas promovida pelo Senador McCarthy contra qualquer pessoa suspeita de ser comunista.

Asa Philip Randolph, o mais proeminente líder negro e sindicalista do período, apoiou totalmente o expurgo anticomunista dos sindicatos. A Associação Nacional pelo Progresso das Pessoas de Cor (NAACP, em inglês) e outras organizações negras também se juntaram à caça aos comunistas, ansiosas para provar seu patriotismo.

A base social desse conservadorismo era uma classe média negra formada por homens de negócios e profissionais de sucesso. Tinham belas casas, carros luxuosos e casacos de pele. Odiavam o “comunismo” e o “socialismo” tanto quanto qualquer americano branco.

No entanto, os negros haviam se tornado um segmento permanente e crescente da força de trabalho estadunidense. E às lutas contra a exploração econômica juntava-se a resistência à brutalidade racista. Um forte movimento por direitos civis para a população negra começava a surgir gradualmente.

Até que, em 1955, no Mississippi, Emmett Till, um garoto negro de 14 anos foi brutalmente assassinado por dois homens brancos. Os responsáveis foram julgados em menos de um mês, absolvidos em cerca de uma hora. Mas este caso será tema de uma próxima pílula desta série sobre o livro “Libertação Negra e Socialismo”, de Ahmed Shawki.

Leia também: Ascensão e declínio do PC estadunidense

23 de março de 2023

Ascensão e declínio do PC estadunidense

Seguem, abaixo, mais relatos do livro “Libertação Negra e Socialismo”, de Ahmed Shawki.

Como resultado de seu forte trabalho no movimento sindical e firme combate às injustiças do aparato jurídico-policial contra a população negra, o número de membros negros do Partido Comunista estadunidense cresceu de 200, em 1930, para 7 mil, em 1938.

Num momento em que, legalmente ou não, a segregação racial era uma realidade em todo o país, o PC surgia como a única organização nacional que reunia brancos e negros.

Daí, o medo da classe dominante branca dos efeitos da propaganda comunista entre os negros. Mas com o início da Segunda Guerra, a política de Frente Popular imposta por Moscou moderou a linha do partido.

O PC tornou-se o mais ardoroso defensor da intervenção aliada na guerra e subordinou tudo a esse objetivo, incluindo o direito de greve dos trabalhadores e a luta pelos direitos dos negros.

Os comunistas acomodaram-se aos liberais do Partido Democrata, que se recusavam a desafiar a segregação racial para não descontentar sua ala sulista. Enquanto isso, o presidente Roosevelt negava-se a apoiar uma legislação contra linchamentos em uma época em que dezenas deles massacravam negros todos os anos.

Em 1939, como resultado do pacto Hitler-Stalin, o partido recuou da política de frente única e passou a fazer oposição a Roosevelt. Com a invasão da Rússia por Hitler, voltou a apoiar Roosevelt. Chegou, inclusive, a apoiar vergonhosamente a internação de descendentes de japoneses estadunidenses em campos de concentração.

Por essas e outras, o PC foi perdendo força até tornar-se um satélite na disputa política entre democratas e republicanos.

Leia também: O PC estadunidense e a libertação negra

21 de março de 2023

O PC estadunidense e a libertação negra

Em agosto de 1919, o Partido Socialista da América se dividiu em dois, dando origem ao Partido Comunista Trabalhista (PCT) e ao Partido Comunista (PC).

Segundo Ahmed Shawki, em seu livro “Libertação Negra e Socialismo”, a principal razão do racha era a postura frente à Revolução Russa de 1917. O PCT condenando o levante liderado por Lênin e o PC apoiando.

Essa divisão refletia o que acontecia na 2ª Internacional. Eram os revolucionários contra os reformistas. Uma divergência que ocorria também na questão racial estadunidense.

O PCT abrigava racistas. Mas segundo James P. Cannon, um dos fundadores do PC, seus correligionários também erravam ao ver na opressão dos negros apenas um problema econômico, parte da luta contra os capitalistas.

Para Cannon, esta concepção levava à inação frente à luta negra, servindo como um “escudo conveniente” para os preconceitos raciais presentes entre os próprios socialistas brancos.

Em 1922, o 4º Congresso da Internacional Comunista aprovou as chamadas Teses Negras. Inspirado nelas, Cannon conseguiu que fosse aprovada uma resolução, segundo a qual o PC:

...buscará acabar com a política de discriminação seguida pelos sindicatos. Fará todos os esforços para destruir completamente as barreiras do preconceito racial que têm sido usadas para manter separados os trabalhadores negros e brancos e uni-los em uma massa sólida para a luta contra os capitalistas que os exploram.

Em 1928, sob influência stalinista, a Internacional Comunista orientou o PC a lutar pela criação de uma nação negra independente no sul estadunidense. O grande risco, advertiu Trotsky na época, era que essa linha política reforçasse a segregação racial.

Continua em breve.

Leia também: O Partido Socialista da América e a questão racial

20 de março de 2023

O Partido Socialista da América e a questão racial

Fundado em 1901, o Partido Socialista da América reunia várias tendências do movimento operário. Rapidamente, se tornou a maior e mais importante organização socialista estadunidense.

Mas, como diz Ahmed Shawki, em seu livro “Libertação Negra e Socialismo”, sua ala direita era abertamente racista. Em 1902, Victor Berger, primeiro socialista eleito para o congresso americano, declarou que “os negros e mestiços constituem uma raça inferior”.

Na verdade, uma visão compatível com a ala direita da Segunda Internacional, que favorecia a colonização e acreditava na missão “civilizatória” das Grandes Potências.

Já na ala esquerda do partido, havia dirigentes como Eugene Debs, que se opunha à discriminação racial e convocava os negros a rejeitar doutrinas que tentavam mantê-los em posições submissas.

Por outro lado, Debs entendia que os negros não mereciam atenção especial. “O Partido Socialista é o partido de toda a classe trabalhadora, independentemente da cor”, dizia ele.

Apesar de todos esses problemas, a esquerda do partido foi firme na luta contra o racismo. Especialmente, em seus esforços para organizar os trabalhadores negros e brancos em uma organização única: o IWW (Trabalhadores Industriais do Mundo).

Em sua fundação, em 1905, o IWW adotou o slogan: “Atacar um de nós é atacar a todos nós. Nenhum trabalhador ou trabalhadora deve ser excluído por causa de credo ou cor”. E em 1910, a organização lançou uma campanha impressionante para recrutar trabalhadores negros.

Em 1919, o partido se dividiu na avaliação sobre a vitoriosa Revolução Russa de 1917. Dois partidos comunistas saíram desse racha: o Partido Comunista e o Partido Comunista Trabalhista. É o que veremos na próxima pílula.

Leia também: Os primeiros socialistas estadunidenses e a libertação negra

16 de março de 2023

Os primeiros socialistas estadunidenses e a libertação negra

No livro “Libertação Negra e Socialismo”, Ahmed Shawki faz um histórico da luta socialista nos Estados Unidos e sua relação com o combate antirracista.

Um dos socialistas pioneiros naquele país foi o industrial Robert Owen, defensor do que Engels chamou de socialismo utópico. Uma corrente política que propunha uma organização social igualitária, construída de cima para baixo pela elite empresarial.

Owen se opunha à escravidão, mas excluiu os negros da colônia igualitária que criou em Indiana, em 1825. Em contraste, o Clube Comunista de Nova York, criado em 1857, convocava os negros a serem seus membros.

Proprietários de escravos podiam se tornar membros das comunidades criadas por Owen. Os comunistas de Nova York proibiam a adesão deles. Os utopistas eram contra a abolição imediata da escravidão. Argumentavam que a servidão assalariada no Norte era pior do que a escravidão no Sul. Os comunistas eram abolicionistas radicais.

Mas os primeiros grupos marxistas estadunidenses eram pequenos demais para causar impacto no movimento operário da época. Entre 1877 e 1900, a principal força de esquerda estadunidense foi Partido Socialista Trabalhista (PSL). A plataforma aprovada pelo partido defendia "direitos universais e de sufrágio sem consideração de cor, credo ou sexo". 

Mas, no geral, o PSL subordinava o combate ao racismo às questões econômicas. Considerava que a agitação em torno de questões como segregação, linchamento ou distúrbios raciais acabariam desviando a atenção da luta real: a abolição do sistema salarial.

Em 1901, surgiria o Partido Socialista dos Estados Unidos, a maior organização socialista americana. Sua relação com a luta antirracista também foi muita contraditória. Mas isso fica para uma próxima pílula.

Leia também: Marcus Garvey: da resistência negra ao conservadorismo

14 de março de 2023

Marcus Garvey: da resistência negra ao conservadorismo

Entre 1910 e 1920, o número de trabalhadores industriais negros cresceu de 550 mil para 900 mil nos Estados Unidos. Mas a central sindical AFL relutava em organizar esse setor e os patrões puderam usar o racismo para dividir ainda mais os trabalhadores.

Foi nessas condições que Marcus Garvey fundou a Associação Universal para Melhoria dos Negros (UNIA, em inglês) e a transformou na maior organização nacionalista negra até então. Seu maior objetivo, “unir todos os povos negros do mundo em um grande corpo para estabelecer um país e um governo absolutamente próprios”.

Garvey trouxe contribuições positivas para a resistência e a luta dos negros nos anos 1920. Mas logo surgiram elementos reacionários. Em seu entusiasmo nacionalista, ele chegou a elogiar as grandes potências imperialistas por terem ajudado a "civilizar" os negros.

Em seguida, passou a considerar os supremacistas brancos os únicos verdadeiros amigos dos negros. Afinal, eles entendiam a necessidade de pureza racial. Não eram hipócritas como os outros brancos, dizia ele.

Em 1937, Garvey chegou ao fundo do poço. Deu uma entrevista em Londres na qual afirmou: “Fomos os primeiros fascistas. Quando tínhamos 100 mil homens disciplinados e treinávamos crianças, Mussolini ainda era um desconhecido. Ele copiou nosso fascismo”.

Quando o governo estadunidense o deportou, em 1927, a UNIA entrou em colapso. Apesar disso, Garvey deixou para trás milhares de ativistas em lutas comunitárias, sindicais e políticas. Muitos deles ou seus filhos emergiriam como líderes-chave nas lutas das décadas posteriores.

O relato acima está no livro “Libertação Negra e Socialismo”, de Ahmed Shawki. A seguir, a presença dos comunistas nas lutas dos negros estadunidenses.

Leia também: O populismo insurrecional do sul estadunidense

13 de março de 2023

O populismo insurrecional do sul estadunidense

Wall Street é dona do país. Não é mais um governo do povo, pelo povo e para o povo, mas um governo de Wall Street, por Wall Street e para Wall Street. As pessoas comuns deste país são escravos e o monopólio é o mestre. O oeste e o sul estão presos e prostrados diante do leste industrial. O dinheiro manda, e nosso vice-presidente é um banqueiro londrino. Nossas leis são o resultado de um sistema que veste os patifes em mantos e a honestidade em trapos...

As palavras cima são de Mary Lease, líder de um movimento populista surgido em 1890 no sul dos Estados Unidos. Estão no livro “Libertação Negra e Socialismo”, de Ahmed Shawki. O movimento unia lavradores e meeiros negros e brancos em vários estados americanos. Era uma rebelião de classe que ameaçava transformar as relações raciais no sul estadunidense.

A ala sul do movimento chegou a reunir três milhões de membros, além de outros 1,25 milhão de integrantes negros. Milhares participavam de suas reuniões. Seu caráter de massas ameaçou a estabilidade dos regimes do sul. Enquanto os populistas do restante do país defendiam reformas, os sulistas falavam em revolução.

As eleições de 1896, porém, levaram o movimento ao colapso. Muitos populistas apoiaram o candidato democrata, William Jennings Bryan, contra William McKinley, republicano e considerado muito pior. McKinley venceu a eleição e a aliança populista se dividiu em várias facções brigando entre si. Logo depois, foram aprovadas as leis de segregação racial nos estados do sul.

Já naquela época, o capital financeiro se tornara avassalador e as disputas eleitorais uma força desagregadora.

Leia também: Os racistas treinando seus próprios carrascos

9 de março de 2023

Os racistas treinando seus próprios carrascos

É significativo que a constituição americana, a primeira a reconhecer os direitos do homem, ao mesmo tempo confirmou a escravidão das raças de cor existentes na América: privilégios de classe foram condenados, privilégios de raça santificados.

A citação acima é de Engels e foi publicada no livro “Libertação Negra e Socialismo”, de Ahmed Shawki. Outra citação presente na obra é do líder abolicionista Frederick Douglass:

O que é o 4 de julho para o escravo americano se não um dia que lhe revela, mais do que todos os outros dias do ano, a grosseira injustiça e crueldade de que é vítima constante. Para ele, sua celebração é uma farsa; sua liberdade vangloriada, uma licença profana; sua grandeza nacional, vaidade crescente; seus sons de alegria são vazios e sem coração; suas denúncias de tiranos, atrevimento de fachada; seus gritos de liberdade e igualdade, zombaria oca; suas orações e hinos, seus sermões e ações de graças, com todo o seu desfile religioso e solenidade, são, para ele, mera pompa, fraude, engano, impiedade e hipocrisia - um fino véu para encobrir crimes que desgraçariam uma nação de selvagens. Não há, neste momento, uma nação na terra culpada de práticas mais chocantes e sangrentas do que os Estados Unidos.

Segundo Shawki, Douglass defendia a necessidade tanto da autoatividade negra quanto da união com os brancos no combate à escravidão. E estava convencido de que era preciso passar da persuasão moral para a resistência armada. “O senhor de escravos foi julgado e condenado”, declarou ele em 1857. “Ele está treinando seus próprios carrascos.” 

Que o mesmo aconteça aos racistas atuais.

Leia também: A luta pela libertação negra só pode ser anticapitalista

7 de março de 2023

A luta pela libertação negra só pode ser anticapitalista

O militante e jornalista Ahmed Shawki morreu em janeiro passado. Importante liderança trotskista estadunidense, é dele o livro “Libertação Negra e Socialismo”, publicado em 2005 e lançado no Brasil em 2017.

A obra procura dar uma visão geral de algumas das principais correntes ideológicas e políticas na luta pela libertação negra nos Estados Unidos, argumentando que as ideias e organizações socialistas são parte integrante dessa luta.

No final dos anos 1960, lideranças e organizações da luta pela liberdade negra se identificaram com alguma forma de política socialista ou marxista, diz ele. O Partido dos Panteras Negras, por exemplo, defendia a revolução e se declarava “marxista-leninista”, lembra Shawki.

O declínio e a desorientação dos movimentos de esquerda da década de 1960 começaram no final dos anos 1970 e afetaram não apenas os negros, afirma o autor, mas também o movimento sindical e os movimentos pelos direitos das mulheres e dos homossexuais, entre outros.

Segundo ele, essa situação é resultado do abandono da luta socialista revolucionária. Não há como combater o racismo sem lutar pelo fim do sistema que o mantém: o capitalismo, conclui.

Shawki endossa as palavras do líder abolicionista Frederick Douglass, ditas em 1857:

Aqueles que professam ser a favor da liberdade, mas desprezam a ação revolucionária, querem colher sem arar a terra, querem a chuva sem os trovões e raios. Querem o oceano sem o rugido terrível de suas águas. Essa luta pode ser moral ou física, pode ser moral e física, mas jamais pode deixar de ser uma luta.

Continuaremos a comentar trechos dessa importante obra nas próximas pílulas.

Leia também: O partido das Panteras Negras

16 de novembro de 2022

O partido das Panteras Negras

Uma busca na internete por imagens com as palavras “Partido Pantera Negra” mostrará homens pretos, usando jaquetas de couro e boina, em posição militar e portando armas. Mas essas imagens estão longe de mostrar toda a verdade. 

Acaba de ser lançado nos Estados Unidos o livro “Comrade Sisters - Women of the Black Panther Party”, que pode ser traduzido como “Camaradas Irmãs - Mulheres do Partido Panteras Negras”. A edição conta com um prefácio da grande ativista e teórica antirracista e anticapitalista Ângela Davis. Melhor apresentação, impossível.

A obra mostra como seis em cada dez integrantes daquela importante organização política eram mulheres. Muitas delas eram responsáveis pela elaboração dos jornais e boletins do partido. Também estavam nas manifestações e lutas contra o racismo e o capitalismo. Mas sua presença era ainda mais majoritária na luta por melhores condições de saúde, educação, alimentação e, principalmente, justiça social para o povo preto e pobre. Apesar da enorme importância simbólica e política das armas em punho, era essa atividade comunitária que garantia ao partido o indispensável apoio social diante de um aparelho repressivo disposto a tudo para esmagá-lo.

O livro traz fotos de Stephen Shames, feitas quando ele tinha 20 anos de idade e estudava em Berkeley, nos anos 1970. A parte escrita é de Ericka Huggins, uma das primeiras integrantes do Partido, ao lado de Bobby Seale e Huey Newton. Encarcerada por 15 anos, Ericka jamais abandonou a luta e ainda tornou-se mestra em Sociologia pela Universidade do Estado da Califórnia.

A luta antirracista, ou melhor, a luta antifascista deve muito a essas mulheres. 

Leia também: Panteras Negras: armados contra o racismo policial

27 de setembro de 2022

A abolição da escravidão foi obra dos escravizados

Em 1884, havia uma associação secreta, em Pernambuco, chamada Clube do Cupim. Seu objetivo era ajudar escravizados a fugir para o Ceará e outras regiões do Nordeste onde ficavam a salvo da perseguição dos capitães do mato. 

“Caifases” era o nome de uma célula revolucionária que funcionava em São Paulo nos anos que antecederam a Lei Áurea de 1888. Seus membros penetravam nas propriedades rurais disfarçados de mascates e vendedores ambulantes. Promoviam reuniões clandestinas com grupos de escravos, incentivando-os a se rebelarem. Perseguiam capitães-do-mato e denunciavam fazendeiros acusados de maltratar seus cativos. Organizavam e patrocinavam fugas em massa de escravos, que eram levados para abrigos situados em Cubatão, no litoral paulista. Ali obtinham dos abolicionistas certificados falsos de liberdade, que lhes possibilitava trabalhar como estivadores no porto ou em fazendas. Um desses refúgios, o Quilombo do Jabaquara, no caminho de Santos, chegou a reunir 20 mil pessoas.

Os exemplos acima estão relatados no terceiro volume da trilogia “Escravidão”, de Laurentino Gomes. São apenas dois casos, mas mostram que a Abolição nunca foi iniciativa de uma princesa branca condoída dos escravizados. Ao contrário, foi produto das muitas lutas protagonizadas, principalmente, por negros, indígenas e brancos pobres.

Todo esse processo de resistência passou por momentos importantes como Palmares, Conjuraçao Baiana e Revolta dos Malês, mas continuou após o fim da escravidão. Canudos, Contestado e Revolta da Chibata, por exemplo, são lutas que fazem parte dessa grande tradição de insurgência popular. E elas continuam necessárias porque os escravocratas e racistas em geral permanecem firmes e precisam ser combatidos sem trégua. Sempre a partir de baixo e avante!

Leia também: Trabalhadores ingleses contra a escravidão

29 de agosto de 2022

1822: independência às custas da escravidão

A Revolução Pernambucana de 1817 foi o último movimento separatista do período colonial. Defendia as liberdades republicanas, mas seus líderes fizeram questão de divulgar um documento no qual garantiam aos grandes proprietários rurais: “Patriotas! Vossas propriedades serão sagradas”, referindo-se aos escravos.

No terceiro volume da trilogia “Escravidão”, Laurentino Gomes cita um trecho do documento conhecido como “Rascunho de dom Pedro sobre a escravidão, 1823”, escrito pelo responsável pela libertação do país do domínio português.

“Ninguém ignora que o cancro que rói o Brasil é a escravatura, é mister extingui-la”, dizia Pedro I. Segundo ele, a escravidão distorcia o caráter brasileiro porque tornou nossos “corações cruéis e inconstitucionais e amigos do despotismo”. Observava também que “todo senhor de escravo desde pequeno começa a olhar ao seu semelhante com desprezo”

Mas, afirma o autor:

...o Brasil estava de tal forma viciado e dependente da mão de obra escrava que, na prática, sua abolição na Independência revelou-se impraticável. Defendida em 1823 por José Bonifácio e pelo próprio dom Pedro, ela só viria 65 anos mais tarde, já no finalzinho do século.

O fato é que os lucros do negócio escravista eram astronômicos. Em 1810, diz Gomes, um escravo comprado em Luanda por 70 mil réis, era revendido em Minas Gerais, por até 240 mil réis, ou três vezes e meia o preço pago por ele na África. Em 1812, metade dos trinta maiores comerciantes do Rio de Janeiro eram traficantes de escravos.

É assim que a emancipação em relação ao jugo português só valeu para uma pequena minoria branca, às custas, principalmente, da manutenção do trabalho escravo.

Leia também: Escravocratas de alto a baixo

7 de junho de 2022

Palmares durou mais que a União Soviética

O bolsonarismo não criou qualquer tipo de violência nova – a novidade agora é que um importante setor das classes dominantes já não se importa mais em maquiar sua aparência, ou iludir a opinião pública com urbanidades típicas da hipocrisia dos neoliberais. O que chamamos de “Brasil” sempre foi um genocídio racista estruturado no escravismo.

Com estas palavras, Erahsto Felício e Joelson Ferreira começam seu artigo “Paz entre nós, guerra aos senhores – uma tradição rebelde de alianças”.

Em seguida, afirmam: “A esquerda institucional brasileira já tentou seu caminho – com o máximo respeito que temos aos companheiros, é chegada a hora de tentar outro. É aí onde a longa história de rebeliões dos povos no território brasileiro ainda tem muito a nos ensinar”.

Eles se referem a Cabanagem, Balaiada, Praieira, Canudos, como “ações rebeldes construídas por meio da unidade dos povos”. Lembram que a Cabanagem, por exemplo, foi um movimento protagonizado pelos Sataré-Mawé, Mura, Mundurukus e outros povos indígenas. Aliados a pretos, cafuzos e brancos pobres lutaram contra o poder do latifúndio no norte do País.

Afinal, dizem, Palmares sobreviveu por 130 anos. “Uma experiência de resistência ao capitalismo mais longeva do que a União Soviética ou a China Popular”. A ciência por trás desta longevidade, e de sua capacidade rebelde, afirmam, está na aliança dos povos. A federação de quilombos, que impôs por tantos anos derrotas às potências imperiais da época, era formada por pretos e indígenas, assim como por brancos pobres e marginalizados.

Mas não se trata de qualquer aliança, advertem, por fim. É a unidade dos povos para vencer o capitalismo e o racismo.

Leia também: A resistência indígena desafia também a velha esquerda