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31 de outubro de 2022

Uma vitória de Pirro? Uma vitória da porra!

Os exércitos se separaram e, diz-se, Pirro ter respondido a um indivíduo que lhe demonstrou alegria pela vitória que "uma outra vitória como esta o arruinaria completamente". Pois ele havia perdido uma parte enorme das forças que trouxera consigo, e quase todos os seus amigos íntimos e principais comandantes... 

O relato acima é do historiador grego Dioniso de Halicarnasso e refere-se a batalhas travadas contra os romanos pelo rei macedônio Pirro, no século 3 A.C.

A partir daí, “vitória de Pirro” passou a ser aquela cuja conquista tem um preço quase tão alto quanto uma derrota. Não seria difícil utilizar a expressão em relação à eleição de Lula, ontem. Para obtê-la, Lula e o PT tiveram que abrir mão não só de muitos de seus princípios como devem perder vários dos principais postos em seu próprio governo. 

E muitos de nós, das velhas tropas da esquerda, acabamos marchando ombro a ombro com antigos generais inimigos, responsáveis por tantas de nossas derrotas e muitas de nossas baixas.

Mas era imperioso impedir uma recondução do bolsonarismo ao Poder Executivo. Situação que levaria a ainda mais atrocidades contra os pobres e outros setores vulneráveis da população e à implantação definitiva do fascismo no País.

Além disso, é preciso levar em conta os inúmeros crimes eleitorais cometidos por Bolsonaro. Em especial, o orçamento secreto e a imensa derrama de recursos públicos em favor de sua candidatura, contando com a omissão e cumplicidade vergonhosas de uma institucionalidade pretensamente republicana. 

Tudo isso torna a eleição de nosso heroico Pirro de Garanhuns uma enorme conquista. Uma vitória da porra! 

Leia também: Não há cheque em branco nenhum para Lula

28 de janeiro de 2022

Tancredo, Lula e transações pelo alto

Em 26/01/2022, Elio Gaspari publicou o artigo “Lula está um passo à frente”, sobre os esforços do ex-presidente para se mostrar moderado.

Mas interessante, mesmo, foi o colunista comparar o petista a Tancredo Neves, quando este conseguiu ser eleito presidente no Colégio Eleitoral em 1985, desalojando os generais do Palácio do Planalto.

Ocorre que, naquele momento, o PT foi o único partido a boicotar a votação. Tratava-se de uma “transação” pelo alto, justificou Lula. Ele estava correto. A vitória de Tancredo inaugurou a Nova República, cujo caráter conservador garantiu, por exemplo, a impunidade aos militares que viria a parir criaturas como Bolsonaro.

Mas é exatamente uma “transação” parecida o que Lula está tentando agora. A possibilidade de fazer de Alckmin seu vice nas próximas eleições sendo um dos sinais mais claros de tal pretensão.

Uma diferença é que a oposição institucional à ditadura só conseguiu fazer valer seu projeto 20 anos após o golpe empresarial-militar. Lula está tentando negociar algo semelhante apenas seis anos depois do golpe parlamentar.

Mas a diferença fundamental é que na época do Colégio Eleitoral havia um polo de oposição popular e de esquerda se consolidando através de organização pela base e muitas lutas.

O problema é que esse polo acabou se dissolvendo na institucionalidade e nada foi construído em seu lugar. Lula chegou à Presidência, mas totalmente vulnerável, como prova sua prisão.

A tentativa de reação por dentro do golpe é o que nos restou. Vai ser difícil, mas é preciso transformar esse péssimo ponto de chegada em ponto de partida. Com Lula e contra ele.

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14 de janeiro de 2022

Lula, o cavalo do terreiro nacional

Com seu jeito conciliador e envolvente de tratar os oponentes nas discussões e negociações, a figura de Lula se destacava entre as lideranças operárias...

(...)

Convertido em habilidoso negociador, ao mesmo tempo que sustentava a greve Lula tentava negociar com os patrões sem abrir mão das exigências...

Os trechos acima são da biografia de Lula, recém-lançada por Fernando Morais. Nela se destaca um líder “maneiro no trato com adversários e patrões, apesar da aparência de mal-humorado”.

Esse traço da personalidade de Lula não é segredo para quem acompanhou de perto sua trajetória. Sempre foi um conciliador disposto a tudo para evitar o confronto.

Mas prevalece em grande parte da sociedade a imagem de Lula como um feroz líder das massas e perigosa ameaça aos interesses dos poderosos.

O fato de que Lula nunca tenha conseguido se livrar completamente dessa imagem é intrigante. Mas talvez fosse mais fácil entender esse fenômeno se considerássemos o ex-metalúrgico uma espécie de “cavalo” das contradições sociais do País. Cavalo no sentido que as religiões afro-brasileiras utilizam para designar os médiuns que são “possuídos” por entidades espirituais.

No caso de Lula, essas entidades seriam os conflitos e contradições de uma das sociedades mais injustas do planeta. Elas teriam encontrado nele o médium adequado para se manifestarem de forma barulhenta, mas pacífica.

Na verdade, as classes dominantes deveriam agradecer Lula por fazer esse papel. Não fosse por isso, talvez os fantasmas das muitas gerações massacradas por séculos de dominação criminosa já poderiam ter encarnado em outras forças sociais. Forças que estão vivas, atuantes, com muito ódio de classe e sede de justiça.

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