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20 de maio de 2021

A Comuna de Paris como dobra espacial

A Comuna abriu uma espécie de fenda no tempo histórico, diz Kristin Ross, em seu livro “Luxo Comunal: o imaginário político da Comuna de Paris”. Marx estava atento a isso, mas também a importantes implicações espaciais.

Para ele, o efeito mais importante e imediato dos diferentes modos de organização da vida social e econômica propostos pela Comuna foi dar maior visibilidade à existência de sociedades não capitalistas fora da Europa.

Na comuna camponesa russa, ele vê traços do "comunismo primitivo" que observara na Comuna de Paris: “indivíduos que se comportam não como trabalhadores, mas como membros de uma comunidade. Comunidade que também trabalha”.

Mas tanto num caso como no outro, Marx considerou sua primeira fraqueza o isolamento.

As comunas podem se constituir como núcleos autônomos, mas, afirma a autora, sua sobrevivência depende de mediações relacionais. Aqui, bem antes de Gramsci e Mariátegui, e numa perspectiva bastante semelhante à que cada um deles desenvolveria 40 anos depois, Marx coloca a necessidade de uma aliança entre camponeses e operários, mas em escala mundial.

Para Marx, diz Kristin, a Comuna de Paris deu origem a um aprendizado prático no desenvolvimento de relações entre a cidade e o campo francês, depois entre o campo e o mundo além da Europa.

A realidade vivida no campo russo poderia doravante ser percebida em sua especificidade. Não como um território atrasado, segundo um modelo evolucionário, mas em meio à estreita interdependência global das transformações sociais: a cidade e o campo na escala do mundo.

Segundo Marx, a Comuna foi um assalto ao céu. Com direito a saltos temporais e dobras espaciais.

PS: As pílulas vão sofrer um lapso temporal de algumas semanas.

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19 de maio de 2021

A Comuna de Paris como cápsula do tempo

Em 1871, ano da Comuna, Pyotr Kropotkin já havia abandonado sua origem aristocrática para militar pelo anarquismo. Mas como secretário da Sociedade Geográfica Imperial de São Petersburgo, estava em missão de reconhecimento na Finlândia. Na mesma época, o marxista William Morris viajava pelo interior da Islândia.

O que a Finlândia ensinou a Kropotkin foi muito semelhante ao que a Islândia mostrou a Morris: apesar da grande pobreza, finlandeses e islandeses levavam uma vida simples, baseada na ausência de hábitos fúteis. Praticavam uma forma de luxo comunitário, arrisca-se a dizer Kristin Ross, em seu livro “Luxo Comunal: o imaginário político da Comuna de Paris”.

Os anos passados em meio às extensões geladas da Sibéria podem ter permitido a Kropotkin ver na Comuna de Paris o que se tornaria, para ele, um exemplo do esforço cooperativo sob condições extremamente duras.

Para Morris, a Islândia foi uma espécie de cápsula do tempo, em que os vestígios de um antigo modo de vida comunitário e democrático ainda podiam ser detectados na autogestão e no ritmo diário de suas relações sociais.

Tais povos estavam ligados, como em outras sociedades pré-capitalistas, por afinidades, proximidades ou mesmo ódio e hostilidade, mas de forma alguma por dinheiro.

Para ambos os viajantes, essas experiências, diz a autora, sublinhavam ou coroavam, de alguma forma, os efeitos da extraordinária notícia do que acabara de acontecer em Paris.

A Comuna abriu uma espécie de fenda no tempo, que permitia enxergar um passado comunitário acontecendo no presente de uma grande cidade europeia. Comunistas do mundo todo deram uma espiada e viram o futuro. Incluindo, claro, Marx e Engels.

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18 de maio de 2021

A Comuna de Paris e Joãosinho Trinta

Continuamos a falar do “luxo comunal”, expressão destacada por Kristin Ross em seu livro sobre a Comuna de Paris. O conceito surgiu no manifesto da Federação dos Artistas de Paris, de abril de 1871.

A ideia era que a beleza desabrochasse nos espaços públicos e não apenas em lugares privados e vigiados. Que a arte se integrasse plenamente à vida cotidiana, ao invés de permanecer escondida em palacetes.

A arte precisava ser vivida - não supérflua ou fútil, mas vital e indispensável para a comunidade. Criada ao nível dos municípios autônomos, contra a organização centralizadora do espaço monumental. Mas jamais restrita aos limites locais. O manifesto falava em partir do luxo municipal rumo à República Universal.

Se nos livrássemos dos enormes custos do desperdício que financia o sistema de classes atual, argumentavam os comunardos, acabaríamos com a superprodução de pobreza e também com todas as dicotomias entre o prático e o belo, o utilitário e o poético, entre o que descartar e o que conservar. O luxo insano da sociedade atual não pode existir sem alguma forma de escravidão. Por isso, deve ser substituído pela igualdade em abundância.

Encontrar critérios de riqueza diferentes dos que impulsionam a corrida quantitativa por crescimento e superprodução era uma forma de imaginar e realizar a transformação social. Uma concepção que desmentia as imagens de pobreza da vida parisiense sob a Comuna, propagadas por seus inimigos.

O "luxo comunitário" negava a ideia da pobreza compartilhada. Oferecia um mundo absolutamente diferente: um mundo onde todos tivessem sua parte do melhor.

Ou como diria um famoso carnavalesco, “quem gosta de miséria é intelectual”.

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17 de maio de 2021

Paris nunca foi tão luxuosa como durante a Comuna

“Embora eu faça sapatos, tenho direito a tanto respeito quanto aqueles que acreditam trabalhar segurando uma pena”. Essas palavras são de Napoleão Gaillard e estão no livro “Luxo Comunal: o imaginário político da Comuna de Paris”, de Kristin Ross. Elas servem para mostrar uma das mais radicais inovações trazidas pela Comuna de Paris.

Segundo Kristin:

Ser reconhecido como artista ou como alguém que efetivamente "assina" sua criação é o que o sapateiro Napoleão Gaillard, que dirigia a construção das barricadas sob a Comuna, parecia ter em mente quando teve sua fotografia tirada à frente da barricada que desenhou na Place de la Concorde, apropriando-se do estatuto de autor ou artista.

 Antes da Comuna, diz ela:

O mundo estava dividido entre aqueles que podiam e aqueles que não podiam se dar ao luxo de brincar com palavras ou imagens. Superada esta divisão, como demonstra a expressão “luxo comunal”, o que conta mais do que todas as imagens expressas, as leis promulgadas ou as instituições estabelecidas, são as capacidades postas em prática, em movimento.

Era essa concepção que estava por trás da criação da Federação de Artistas de Paris. Sua proposta era subverter a relação hierárquica entre arte e indústria. Seu programa, a arte livre de toda tutela governamental e de privilégios ligados ao status social.

A Federação defendia uma união onde a dignidade de cada artista é protegida pela dignidade de todos os outros. Artistas "proletarizados" ao lado de artesãos orgulhosos de suas técnicas centenárias. Todos se tornando os novos trabalhadores das ocupações envolvendo o fazer artístico.

Se isso não é um luxo, nada mais é!

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15 de maio de 2021

Aprendendo com as escolas da Comuna

“Luxo comunal”. Essa expressão utilizada no título do livro de Kristin Ross sobre a Comuna de Paris foi inspirada no Manifesto da Federação dos Artistas, publicado em abril de 1871. Este documento defendia a implementação de uma série de medidas revolucionárias em educação, artes e ciência.

Para começar, defendia uma educação “politécnica” ou “integral”, na qual é superada a divisão entre mãos e cabeça. Uma concepção pedagógica que buscava a criação de escolas onde meninas e meninos aprendem a ganhar a vida com seu trabalho, mas também se formam intelectualmente.

Durante o curto período de existência da Comuna, a educação tornou-se pública, gratuita, obrigatória e secular para todas as crianças, independente do sexo. Foram fechadas todas as escolas confessionais. Removidos crucifixos e imagens religiosas das instituições de ensino.

Também foi criada uma escola profissional de arte industrial para meninas. Nela, se ensinava desenho, escultura em madeira, argila e marfim, assim como cursos de aplicação do desenho e da arte à indústria.

As bibliotecas públicas foram reorganizadas para permitir amplo acesso à “plebe”. Professores do sexo masculino e feminino passaram a receber igual remuneração. O trabalho prático e a educação física alternavam-se com o estudo de teorias científicas e artes industriais.

Ou seja, diz Kristin, para os comunardos, aquele que maneja uma ferramenta também deve ser capaz de escrever um livro. O artesão deve relaxar de seu trabalho diário cultivando as artes, letras ou ciências, sem deixar de ser um produtor. Produzir não só pelos braços, mas também pela inteligência.

Na próxima pílula, o sapateiro que construía barricadas como se fossem obras de arte.

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13 de maio de 2021

Elisabeth Demetrioff nas barricadas da Comuna

Continuamos acompanhando a trajetória de Elisabeth Demetrioff, seguindo os relatos do livro “Luxo Comunal: o imaginário político da Comuna de Paris”, de Kristin Ross.

Em 11/04/1871, a jovem militante russa ajudava a fundar a União das Mulheres em Defesa de Paris e Socorro aos Feridos. A maior e mais eficaz das organizações da Comuna, criou comitês que se reuniam diariamente em quase todos os distritos parisienses. Participavam dela uma grande variedade de trabalhadoras, mas a maioria vinha das tecelagens.

O objetivo da União era uma reorganização completa do trabalho feminino, pondo fim à desigualdade econômica com base no gênero. Como o próprio nome indica, suas integrantes respondiam tanto pela assistência aos caídos em combate, como pela construção de barricadas, onde também empunhavam armas.

A União não estava interessada em demandas parlamentares. Para elas, a participação na vida pública nada tinha a ver com o direito ao voto. Preocupava-as muito mais encontrar trabalho remunerado para as mulheres. Criar cooperativas destinadas a se desenvolver para além das muralhas da cidade. Entrar em contato com associações semelhantes na França e no exterior, para facilitar a troca de produtos.

Era a comuna russa que Elisabeth conhecia tão bem sendo criada em uma grande capital europeia. Seus princípios coletivos e solidários vieram do passado nacional eslavo. Mas na urbanizada Paris, poderiam tornar-se internacionalistas, cultivados no laboratório comunitário da Comuna, ao mesmo tempo em que serviam para dissolver a burocracia estatal.

À frente disso tudo, Elisabeth Demetrioff e suas companheiras. Transformando algumas belas ideias em atos libertadores para as grandes maiorias exploradas e oprimidas.

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12 de maio de 2021

Elisabeth Demetrioff desafia as certezas de Marx

Na última pílula, falávamos sobre o romance “O que fazer?”, escrito pelo socialista russo Nikolaï Tchernyshevski.

Segundo Kristin Ross, em seu livro “Luxo Comunal: o imaginário político da Comuna de Paris”, o romance relata como a jovem Vera Pavlovna busca transformar a sociedade por meio do trabalho cooperativo. Por exemplo, ao ajudar costureiras a fundar uma cooperativa não só de produção, mas também de consumo, demonstrando que a ação solidária entre trabalhadores pode englobar todos os aspectos do cotidiano.

“O que fazer?” espalhou-se pela Rússia como um rastilho de pólvora. Sua mensagem, diz Kristin, afirmava que são as ações que dão origem aos sonhos, e não o contrário. E foi a leitura desse livro que levou a jovem Elisabeth Demetrioff a participar do movimento populista russo, do qual Tchernyshevski era um dos líderes.

Simpáticos às ideias marxistas, os populistas russos acreditavam que a teoria de Marx não era incompatível com a gestão coletiva das comunas camponesas russas. Com isso em mente, em 1869, Elisabeth foi a Genebra para conversar com Marx e entregar-lhe alguns escritos de Tchernyshevski.

Para Marx, o encontro com Elisabeth teve efeitos consideráveis, pois o levou a começar a pensar na possibilidade de uma pluralidade de caminhos para o socialismo. Uma inflexão teórica que se completará alguns anos depois, em sua correspondência com outra jovem militante russa, Vera Zasulich.

Mas Elisabeth não tinha preocupações apenas teóricas. Durante a Comuna, criou a União das Mulheres em Defesa de Paris e Socorro aos Feridos. Uma iniciativa que tentava colocar em prática a convergência teórica entre Marx e Tchernyshevski.

Falaremos dessa rica experiência na próxima pílula.

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11 de maio de 2021

Elisabeth Demetrioff, guerreira da Comuna

Na última pílula, ficamos sabendo que a Comuna de Paris representou uma ruptura com aspectos conservadores da Revolução Francesa de 1789. Pelo menos, é assim que relata Kristin Ross em seu livro “Luxo Comunal: o imaginário político da Comuna de Paris”. E para ilustrar isso, ela cita três atos importantes:

...a queima da guilhotina na praça Voltaire, em 10 de abril; a destruição, em 16 de maio, da coluna Vendôme, construída para glória das conquistas imperiais napoleônicas; e a criação, em 11 de abril, da Associação das Mulheres.

Quando um grupo formado em sua maioria por mulheres arrastou uma guilhotina para baixo da estátua de Voltaire e a incendiou, foi, muito provavelmente, uma forma de mostrar que não podia haver qualquer identidade entre revolução e cadafalso. A destruição da coluna Vendôme representou (...) um ato de protesto contra as guerras entre os povos e em defesa da fraternidade internacional.

Uma das fundadoras da Associação das Mulheres era Elisabeth Demetrioff, militante russa de 20 anos de idade.

Mas antes de chegar a Paris, Elisabeth esteve em Genebra, onde se encontrou com Marx. Sua missão era tentar criar uma convergência teórica entre as concepções marxistas e a crença de Nikolaï Tchernyshevski no potencial emancipatório da comuna camponesa tradicional.

Foi um romance escrito por Tchernyshevski que despertou Elisabeth, ainda adolescente, para a militância revolucionária. Trata-se de “O que fazer?”, cujo título Lênin pegaria emprestado para batizar seu famoso livro teórico, décadas depois.

Na próxima pílula, mais sobre essa jovem cuja atuação militante equivale a um fio vermelho a ligar os principais acontecimentos e nomes da esquerda revolucionária da época.

Leia também: O internacionalismo revolucionário da Comuna de Paris

10 de maio de 2021

O internacionalismo revolucionário da Comuna de Paris

Kristin Ross inicia seu livro “Luxo Comunal: o imaginário político da Comuna de Paris” destacando o caráter fortemente internacionalista do mais importante evento da história do proletariado até a Revolução Russa. Segundo ela:

Sob a Comuna, Paris não queria ser a capital da França, mas uma coletividade autônoma dentro de uma federação universal de povos. Não queria ser um estado, mas um dos elementos, uma das entidades, de uma federação de municípios que deveria se desenvolver à escala internacional.

É por isso que no dia seguinte a sua proclamação, todos os estrangeiros se tornaram cidadãos da Comuna. Um de seus principais líderes foi Elisée Reclus. Segundo ele:

Não basta emancipar cada nação em particular da tutela dos reis, é preciso também libertar-se da supremacia das outras nações, é necessário abolir os limites, as fronteiras que transformam em inimigos homens semelhantes (...). Nosso grito de guerra não é mais: Viva a República! (...) Nosso grito é: Viva a República Universal!

República Universal. Era assim que as dezenas de comitês, clubes e associações populares responsáveis pelo levante plebeu que tomou Paris concebiam o poder que estavam instaurando.

Com isso, os “comunardos” marcavam sua ruptura com a Revolução Francesa de 1789, cujo legado foi distorcido de forma oportunista pela burguesia para assumir um caráter predominantemente nacional e patriótico.

E coerente com essa vocação internacionalista e operária, afirma Kristin, a Comuna também combatia a dominação colonial. A ponto de um orador despertar ampla aprovação em uma plenária, ao afirmar: “A África jamais florescerá se não quando governar a si mesma”.

A Comuna começou em Paris, mas queria emancipar o mundo.

Leia também: Os 72 dias que abalaram o mundo

7 de maio de 2021

Os 72 dias que abalaram o mundo

Dizem que Lênin teria dançado na neve, em frente ao Palácio de Inverno, quando a Revolução Russa completou 73 dias. Ele estaria comemorando o fato de que o poder dos sovietes resistira mais tempo que os 72 dias da Comuna de Paris.

Verdadeiro ou não, o relato mostra como até aquele momento, o maior acontecimento para os comunistas do mundo todo foi a façanha realizada pelo povo parisiense entre 18 de março e 28 de maio de 1871.

Foram poucos mais de dois meses em um espaço geográfico relativamente pequeno. Mas além de ocorrer em uma das cidades mais importantes do mundo, a Comuna foi atravessada por processos radicais: participação popular, desafio a preconceitos e hierarquias, combate ao clero obscurantista, à xenofobia e ao machismo, tendo sido palco, inclusive, de experimentos estéticos arrojados e ousadias no campo do imaginário.  

As cabeças brilhantes e veteranas de Karl Marx, Pyotr Kropotkin, William Morris, Elisée Reclus, Nikolaï Tchernychevski voltaram-se para o que ocorria em Paris como adolescentes maravilhados diante de novos e espantosos acontecimentos.

A começar por um internacionalismo radical, que afirmava que aquilo que se estava instaurando em Paris era uma República Universal, na qual não cabia o culto a bandeiras e heróis nacionais. Ali estavam no controle de suas vidas, cidadãos e cidadãs, camaradas solidários em busca da “regeneração da humanidade”, não de pátrias ou impérios.

Tudo isso e muito mais estão no belo livro “Luxo comunal: o imaginário político da Comuna de Paris”, de Kristin Ross, professora da Universidade de Nova York. A obra foi lançada recentemente no Brasil e será tema das próximas pílulas.

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