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26 de setembro de 2024

Bets, tigrinho, Uber e Marçal no selvagem jogo neoliberal

"Beneficiários do Bolsa Família gastaram R$ 3 bi em bets em agosto”, segundo uma análise feita pelo Banco Central divulgado pela Agência Brasil. O valor corresponde a 20% do total mensal pago pelo programa.

Enquanto isso, um estudo da Unicef mostra que 22% dos adolescentes entrevistados afirmam ter apostado em jogos de azar pela primeira vez aos 11 anos ou menos. A maioria começou aos 12 anos ou mais (78%).

Em junho passado, o Ministério Público de São Paulo identificou perfis de influenciadores mirins, entre 6 e 17 anos, que promovem sites de apostas disponibilizando links de acesso para crianças e adolescentes. Com destaque para o malfadado jogo do Tigrinho.

Notícia estampada hoje no Globo: “Campeonatos de ‘cortes’ organizados desde dezembro pelo ex-coach Pablo Marçal (PRTB), e que seguiram em atividade na campanha à prefeitura de São Paulo, renderam a ele até 650 milhões de visualizações nas redes sociais por edição”.

Os elementos acima parecem ser sintomas de uma terrível epidemia social sem outra explicação, além da malandragem de aproveitadores da fé popular em jogos azarados. Mas o neoliberalismo é sério candidato a causa determinante da doença. Uma forte evidência é recente decisão do Tribunal Superior do Trabalho, afirmando que a Uber promove a “gamificação do trabalho”, ao premiar ou punir os prestadores de serviço como em um videogame.

Sob o império do neoliberalismo, a competição assumiu valor absoluto, desbancando definitivamente valores como solidariedade e colaboração. O jogo deixou de ser a atividade lúdica que reforça a coesão social para se tornar uma disputa selvagem buscando a eliminação sumária de adversários.

Leia também: O nome do jogo é fascismo

18 de setembro de 2023

Serviços públicos e uberização do trabalho

No início de agosto, o governo anunciou “a substituição do controle de frequência dos servidores federais por um controle de produtividade”. Segundo os autores da proposta, “bater ponto nunca foi garantia de produtividade”.

Mas a verdade é que uma das consequências das novas regras é a possibilidade de vários setores do funcionalismo passarem a cumprir suas tarefas parcial ou integralmente em casa. Parece bom, mas não é.

Em primeiro lugar, a medida transfere os custos da manutenção das condições operacionais aos servidores. Levando também à fusão muito provável do trabalho assalariado com os cuidados domésticos, que sobrecarrega principalmente as mulheres.

Em segundo lugar, reforça a fragmentação do local de trabalho, dificultando ainda mais as mobilizações coletivas em defesa de direitos, condições dignas de trabalho e atendimento de qualidade à população.

Mas essa é só mais uma etapa em um longo processo de mudanças feitas em direção a uma concepção neoliberal que vem corroendo o serviço público silenciosamente.

São as inúmeras terceirizações ao invés de contratações diretas. Empregos temporários no lugar de servidores permanentes. Concursos cada vez mais raros. E constantes ameaças à melhor defesa dos serviços públicos diante de desmandos e politicagens dos governantes de plantão: a estabilidade no emprego.

O fato é que os servidores públicos são umas das últimas categorias a contar com um mínimo de condições para se organizar coletivamente, enquanto milhões de trabalhadores viram seu poder de resistência sindical enfraquecido pela informalidade imposta nas últimas décadas.

Pode ser prematuro considerar esse processo uma espécie de uberização do trabalho no serviço público. Mas tudo indica que o destino final já está programado.

Leia também: Pandemia e oportunismo: trabalho precarizado

14 de agosto de 2023

Precarização por aplicativos: evolução e revolução

“A engenharia social que a Justiça do Trabalho tem pretendido realizar não passa de uma tentativa inócua de frustrar a evolução dos meios de produção". A frase é de Gilmar Mendes e foi citada em recente matéria da Folha sobre decisões de juízes trabalhistas que “defendem a carteira assinada, enquanto ministros do Supremo derrubam decisões contra as terceirizações, pejotizações e uberização”.

O que Gilmar chama de “evolução dos meios de produção" não passa de novas formas de precarizar as relações trabalhistas e derrubar o valor dos salários e remunerações.

Mas, infelizmente, ele tem razão. As tentativas são inócuas porque o fato é que a CLT foi extinta pelo governo Temer e não há sinais de que seja restaurada. Por um lado, o governo Lula não vai comprar essa briga. Por outro, entre muitos dos próprios trabalhadores não há essa expectativa.

É o que mostra, por exemplo, recente pesquisa realizada pelo Grupo de Pesquisa Mundo do Trabalho e Teoria Social, da UnB, junto aos entregadores de aplicativos, um dos setores que melhor exemplificam os novos tipos de precarização.

Segundo o levantamento, 60,3% deles preferem ser reconhecidos como “autônomos/as ou por conta-própria” ou “microempreendedor individual”, com 23,9% das escolhas.

Ao mesmo tempo, 78,14% querem o fim das corridas duplas ou triplas e 60,32% a instalação de pontos de apoio. Também aparecem como reivindicações adicional de periculosidade (57,49%), auxílio-doença e auxílio-acidente (55,06%).

Ora, assegurar tudo isso equivaleria a criar uma nova CLT. Uma que correspondesse não à “evolução dos meios de produção”, mas fosse consequência de uma grande reviravolta nas relações de produção. Também conhecida por revolução social.

Leia também: Os entregadores e a política das ruas

29 de março de 2023

A luta contra as empresas-plataforma interessa a todos

Ricardo Festi é doutor em Ciências Sociais pela Unicamp. Sua área de pesquisa são empresas-plataformas como Ifood, Uber, Rappi. Em esclarecedora entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos, ele afirma:

Justamente porque as novas tecnologias produzem relações de trabalho semelhantes aos do século XIX é que pautas antigas, como a diminuição da jornada de trabalho, seguem mais atuais que nunca.

Mas tais lutas não dizem respeito somente a seus trabalhadores. Afinal, diz o sociólogo:

...se esta nova lógica de relação de trabalho (quase servil) das empresas-plataformas se estabelecer na legislação brasileira, serão abertas as portas para a plataformização de todas as categorias profissionais. Está em jogo, portanto, o futuro do mundo do trabalho e não apenas de uma ou outra categoria profissional.

Festi também ressalta que:

A maioria das empresas-plataformas não criaram profissões. Na verdade, o que elas fizeram foi “intermediar” agentes, subordinando-os à automação algorítmica.

Em relação à força da ideologia neoliberal do empreendedorismo no setor, ele é otimista:

No início de 2020, a adesão à ideologia do empreendedorismo era muito mais forte entre os entregadores. Hoje, a maioria deles já se deu conta de que isso é uma falácia, que não existe autonomia nenhuma. E alguns também estão se dando conta de que se essas empresas forem embora do Brasil – como elas argumentam, caso sejam aprovados direitos trabalhistas para motoristas e entregadores –, a vida deles não vai mudar em nada. Pelo contrário, vai melhorar! Eles continuarão a fazer o que sempre fizeram, pois muitos eram celetistas ou freelancers antes da chegada dos aplicativos.

Tomara!

Vale e pena ler a íntegra da entrevista.

Leia também: Entregadores na luta pela expropriação das plataformas capitalistas

1 de agosto de 2022

A uberização da pornografia

Um fenômeno recente do mercado de entretenimento é a chamada “uberização” da pornografia.

Tudo começou com o surgimento de plataformas como a OnlyFans. Criada em 2016, o aplicativo destinava-se apenas a celebridades que disponibilizariam fotos e vídeos exclusivos para fãs que se dispusessem a pagar.

Rapidamente, porém, tornou-se uma fonte de material pornográfico. Inclusive, com postagens feitas por estrelas e astros do mercado pornô tradicional. Muitos alegam que o uso da ferramenta proporciona maior liberdade de criação e controle sobre os recursos arrecadados.

Pode até ser, mas tudo indica que se trata de mais uma forma de precarização do trabalho. A indústria pornográfica tradicional já é uma atividade pouco fiscalizada em relação à regulamentação trabalhista por causa do desprezo social que a cerca. Agora, com a chegada das plataformas ao setor, a situação deve ficar pior ainda.

Além disso, tal como aconteceu com motoristas, entregadores e outros profissionais vinculados a aplicativos, os prestadores do serviço da indústria sexual caem vítimas da superexploração imposta pelas plataformas que monopolizam os segmentos em que atuam.

Por fim, não são raros os casos de “influencers” com graves moléstias físicas e mentais decorrentes dos esforços para manterem seus seguidores, enquanto geram cada vez mais lucros para Youtube, Instagram e outras plataformas virtuais. Os mesmos problemas começam a se manifestar na pornografia “uberizada”.

É antiga a polêmica sobre as diferenças entre pornografia e erotismo. Há quem defenda que a primeira seria uma versão grosseira do último. Mas pornográfico mesmo é o crescente assédio do capitalismo sobre todas as esferas sociais, tornando a vida humana uma versão grosseira de si mesma.

Leia também: Doença e morte nas minas do trabalho uberizado

1 de abril de 2020

Pandemia e oportunismo: militarização e exploração

"O mundo nunca mais vai ser o mesmo após a pandemia”, dizem todos diante da crise causada pelo coronavírus-19. É verdade. Mas se depender da vontade de quem manda nele, será ainda pior.

Mais desemprego, mais empregos informais, mais ocupações precarizadas, mais uberização das relações trabalhistas.

Mas não só.

“Estamos enfrentando uma guerra”, dizem governantes e grande mídia. Sob esse pretexto, estão militarizando ainda mais a vida social.

O modelo é a China, com seu sistema de detecção de febre por meio de câmeras. Com sua certificação de saúde física por aplicativos. Com seu sistema de crédito social, que, agora, não mede apenas o bom comportamento dos cidadãos, mas sua limpeza.

O toque de recolher já existia nas favelas e periferias pobres daqui e de outros lugares do mundo. Imposto pelo crime, seja ele organizado pela polícia ou não, agora, pode fingir ser legítimo como uma inocente campanha de vacinação.

“Vivemos uma exceção”, reafirmam grande mídia e governantes. Mas esse estado de crescentes restrições democráticas já vinha se impondo desde as jornadas de Junho de 2013, aqui, e desde outras revoltas em muitos outros lugares do mundo.

Contra a democracia racionada e a frustração das promessas de prosperidade para todos, largos setores da população responderam com revoltas em muitos países. Como resposta, receberam a criminalização de sua rebeldia.

Antes, era possível ocupar as ruas, ainda que fosse desaconselhável. Agora, será proibido.

O coronavírus gerou a oportunidade perfeita para o avanço rumo a um estágio mais extremado de repressão e abuso econômico. O capitalismo não estava preparado para essa pandemia. Seu sistema de dominação e exploração, sim.

Leia também: Pandemia e oportunismo: trabalho precarizado

10 de setembro de 2019

Inteligência artificial e trabalho fantasma

A Inteligência Artificial criou uma nova categoria de explorados. São os trabalhadores fantasmas. É disso que trata recente artigo de Alfredo Moreno, professor da Universidad Nacional de Moreno, na Argentina.

São chamados assim porque quase ninguém sabe que são eles que realizam certas tarefas atribuídas à inteligência artificial.

Sua atividade é a “computação humana”, técnica que atribui a grupos de pessoas a realização de certos passos do processo computacional que as máquinas não fazem bem.

Um exemplo é a Netflix, cujo imenso catálogo necessita da intervenção humana para classificar milhares de séries, filmes, programas de TV. Outro exemplo são os tradutores automáticos, que empregam pessoas com formação em linguística e idiomas.

Outra modalidade de “computação humana” consiste “em propor atividades, desafios e problemas a quantidades massivas de colaboradores externos para que os solucionem em troca de algum benefício”.

Esses “voluntários” participam dos processos sem se dar conta de que a verdadeira intenção é baratear mão de obra.

Como diz Moreno, são “microtarefas” desempenhadas “em troca de micropagamento”. Obviamente, proporcionando megalucros do outro lado.

Tudo isso até que as pessoas sejam descartadas graças a avanços da inteligência artificial que elas mesmas estão ajudando a desenvolver.

O fator comum a esses trabalhos, diz o artigo, é que eles:

...estão à sombra, sem definição e oculta aos consumidores (cidadãos) que se beneficiam dela, propiciando as condições para um trabalho sem direitos praticamente pré-capitalista.

Ou seja, é mais uma modalidade de exploração que remete aos traços neofeudais que muitos enxergam na atual onda de precarização generalizada do trabalho humano.

É a uberização em versão fantasmagórica. Assustador.

28 de agosto de 2019

O ônibus 693 e o Uber aéreo

Em junho passado, o The Intercept-Brasil trouxe uma matéria inusitada sobre grupos de WhatsApp. Trata-se de uma reportagem de Felipe Fagundes.

Em tom bem-humorado, o repórter descreve como foi apresentado ao “conceito de grupo do WhatsApp do ônibus”:

Isso mesmo que você acabou de ler. Acho que todo mundo faz parte de um grupo da família, dos amigos e do trabalho, mas fiquei bastante intrigado com esse novo tipo. Sim, era exatamente isso: um grupo com todas as pessoas que pegam o 693, em todos os horários, incluindo alguns motoristas e cobradores.

Acontece que o tal ônibus circula com intervalos enormes e incertos por seu itinerário carioca. Para enfrentar essa situação, o grupo funciona do seguinte modo:

1) os usuários perguntam onde o ônibus está e quem está nele responde – mandam localização e dá até para se programar antes de sair de casa, 2) os passageiros informam se o ônibus está cheio, se tem lugar pra sentar, quem é o motorista, 3) pessoas atrasadas podem implorar para o motorista ir mais devagar para dar tempo dela embarcar...

A reportagem acaba sendo um oásis no árido terreno das trocas de mensagens virtuais. Principalmente, em tempos de Vaza-Jato e circulação generalizada de insultos pela rede.

Por outro lado, deveríamos perguntar que porcaria de transporte público é esse, que obriga a população a fazer essa ginástica toda para ser utilizado?

Bom, são os tempos neoliberais, que impõem a adoção de soluções paroquiais para problemas metropolitanos. Cada um por si, ou, no máximo, por seu pequeno grupo de zap.

Enquanto isso, alguns pouco bacanas já contam com o “ubercóptero”.

16 de julho de 2019

A bomba-relógio da frustração social

Waldir José de Quadros é professor do Instituto de Economia da Unicamp. Estudioso da estrutura social do País, ele concedeu entrevista para a IHU-Online, publicada em 14/06/2019.

Utilizando dados da última pesquisa nacional domiciliar do IBGE, o professor concluiu que em 2016 encerrou-se o que ele chamou de período “de mobilidade ascendente e de progresso social” no Brasil.

Devido a isso, Quadros deixou de trabalhar com a categoria ‘“baixa classe média’. Estou chamando essa categoria de ‘camada superior dos pobres’, porque a crise está provocando um empobrecimento das estruturas sociais”.

Nessa nova classificação, a camada “superior dos pobres” equivaleria a 40% das pessoas ocupadas, 27% seriam “pobres” e 13%, “miseráveis”. No total, corresponderiam a 80% daqueles que trabalham.

Mas o mais “assustador”, diz Quadros, é que, segundo o nível de escolaridade, há 12,9 milhões de trabalhadores pobres com nível superior completo ou incompleto. Para ele:

Isso significa confusão. Esse pessoal não vai aceitar essa condição tranquilamente, porque eles foram fazer faculdade, boa parte pagando a mensalidade com o Fies, esperando uma melhora de vida, e agora não tem melhora.

Esta situação levaria à criação do que o pesquisador chamou de “bomba-relógio” social.

Aceitas essas conclusões, seria possível dizer que dois momentos marcaram a armação dessa bomba no Brasil: Junho de 2013 e as eleições de 2018.

Mas o próprio artefato explosivo é produto não apenas de uma das sociedades mais injustas do planeta, mas de um sistema mundial em franca decadência.

É o capitalismo cada vez mais parecido com formas históricas que o antecederam, como as sociedades de casta e o feudalismo. Voltaremos a isso.

Leia também: Uber: de volta ao século 19

5 de junho de 2019

Doença e morte nas minas do trabalho uberizado

No último dia 8 de maio, motoristas “parceiros e parceiras” que trabalham nas principais empresas de transporte de passageiros por aplicativo como Uber, Cabify, 99 e Lyft realizaram uma grande manifestação global por melhores condições de trabalho.


(...)

As manifestações aconteceram em cidades dos Estados Unidos, Reino Unido, França, Austrália, Nigéria, Quênia, Chile, Brasil, Panamá, Costa Rica e Uruguai.


Os trechos acima são da matéria “Uber: assim começam as greves do futuro”, de Felipe Moda e Marco Antonio G. de Oliveira, publicado no Portal Outras Palavras, em 23/05/2019.

Já no blog Avenidas, Rafael Balago fala sobre “a montanha de dados” que a Uber possui sobre as cidades. Segundo o texto, a plataforma Movement, criada pela empresa, coleta e organiza dados sobre o trânsito em algumas cidades onde opera.

“Essa avalanche de dados”, diz Balago, ajuda as empresas “a ganhar mais dinheiro, pois facilitam a rotina de planejar a distribuição dos carros ao longo do dia, traçar rotas mais rápidas e desviar do trânsito antes de ele se formar”.

Mas seriam apenas “uma ponta do iceberg” do total de informações que as empresas estão levantando sobre o deslocamento de pessoas pelas cidades.

De um lado, a velha e teimosa luta de classes. De outro, evidências de que a empresas como a Uber só interessa escavar dados, utilizando seus motoristas como mineiros.

E como aqueles que formavam enormes contingentes no início da Revolução Industrial, os atuais mineradores escravizados por aplicativos também têm suas energias sugadas por jornadas estafantes.

Nas antigas minas escuras e perigosas ou nas atuais ruas e avenidas, doença, morte e mutilação ameaçam milhões de trabalhadores.

Leia também: Uber: de volta ao século 19

14 de maio de 2019

Uber: de volta ao século 19

“O Trabalho na Uber é neofeudal”, diz o título de entrevista publicada no portal Sul21, em 13/05/2019. As palavras são do procurador Rodrigo de Lacerda Carelli, que integra o Grupo de Estudos “GE Uber”, do Ministério Público do Trabalho.

O grupo realizou um estudo sobre “as novas formas de organização do trabalho relacionadas à atuação por meio de aplicativos”. Para Carelli:

A estrutura da relação entre as empresas que se utilizam de aplicativos para a realização de sua atividade econômica e os motoristas se dá na forma de aliança neofeudal, na qual chama os trabalhadores de “parceiros”. Por ela, concede-se certa liberdade aos trabalhadores, como “você decide a hora e quanto vai trabalhar”, que é imediatamente negada pelo dever de aliança e de cumprimento dos objetivos traçados na programação, que é realizada de forma unilateral pelas empresas.

Ainda segundo o procurador:

...as ordens do empregador não são mais dadas diretamente por ele mesmo ou por um preposto qualquer. O preposto passa a ser o aplicativo.

(...)

Antigamente você xingava seu empregador porque ele não estava pagando um salário decente. Hoje em dia, os trabalhadores reclamam do aplicativo, do sistema. Ergueram uma parede entre o empregador e o trabalhador. O aplicativo consegue invisibilizar o empregador.

A comparação do entrevistado com o feudalismo faz algum sentido. Mas nas relações feudais, não havia nada de tão invisível. O servo sabia perfeitamente que reis e outros poderes o exploravam.

Tornar a exploração invisível é uma especialidade capitalista. Bem antiga, inclusive. O pagamento de salários por peças era uma espécie de “uber” do século 19. É a isso que estamos voltando.

Leia também: Teria Marx previsto o Uber?

3 de maio de 2019

O 1º de Maio e as multidões

Em 1º de Maio, um ato unificado de centrais sindicais e movimentos populares reuniu 200 mil no Vale do Anhangabaú, São Paulo. Meses antes, no mesmo local, outra multidão reuniu cerca de 15 mil pessoas na fila do Mutirão do Emprego, promovido por órgãos públicos.

Mais grave que o número de desempregados é a distância entre as duas multidões. E ainda pior que isso, é o divórcio entre os que estão empregados e suas entidades. Os sindicatos sempre tiveram muita dificuldade em organizar os desempregados. Há muito tempo, também sofrem para organizar suas próprias bases.

Não se trata apenas do fim da CLT ou do corte das contribuições sindicais recentemente aprovados.

Depois da primeira reestruturação produtiva nos anos 1990, veio, já neste século, a uberização da força de trabalho. Não apenas pelo uso do famoso aplicativo, mas pela precarização dos vínculos trabalhistas.

Agora, são todos colaboradores, prestadores, autônomos, cooperativados, empreendedores. Na verdade, todos vítimas da velha exploração capitalista.

No mutirão de emprego, aqueles poucos milhares na fila realmente representavam os 13 milhões sem emprego no País. No 1º de Maio, aquelas centenas de milhares mal conseguiam representar as dezenas de milhões de assalariados e explorados do País.

Talvez, porque no 1º de Maio, a maioria presente ainda era muito branca e suas direções quase todas masculinas. Ou porque, há décadas, muitos dirigentes sindicais tenham se tornado empregados estáveis de suas próprias entidades.

Infelizmente, tudo indica que a política de terra arrasada contra os trabalhadores promovida por governo e patrões será vitoriosa. Tragicamente, parece que, somente assim, podemos deixar de ser multidão para nos comportarmos como classe.

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11 de abril de 2019

Fragmentos do real sob o capital

Primeiro fragmento:

Em 1997, o computador Deep Blue, da IBM, venceu o campeão do mundo de xadrez, Garry Kasparov. No fim de 2017, foram dois algoritmos que se enfrentaram no tabuleiro: Stockfish 8, campeão do mundo, contra AlphaZero, criado pelo Google. A novidade é que AlphaZero ensinou a si mesmo a jogar xadrez, sem auxílio humano. Após nove horas de jogo, AlphaZero derrotou Stockfish 8, com 28 vitórias, 72 empates, nenhuma derrota.

Segundo fragmento:
Mohammed diz trabalhar para os passageiros. Só não escolhe quem são, não elege o melhor trajeto, a forma de pagamento, não tem direito de negar uma corrida e nem define as áreas de atuação na cidade, etc. Ele não é patrão, não é funcionário e não é prestador de serviço. Dirige por mais de 40 horas semanais o carro do amigo para proporcionar uma vida melhor para sua família a partir das ordens que recebe dos algoritmos. Sempre que tem uma dúvida sobre seu trabalho, envia um e-mail para uma plataforma e recebe uma resposta padrão como resposta. Na maior parte das vezes, não tem seu problema resolvido....
O trecho acima é de um texto do blog de Michel Alcoforado, de 10/04/2019. Obviamente, refere-se a um motorista da Uber.

Os dois fragmentos mostram que somos cada vez mais espectadores do que fazem as máquinas. Mais que isso, somos seus serviçais.

Máquinas são coisas. A maioria das coisas torna-se mercadoria sob o domínio do capital. E o conceito marxista de “fetichismo da mercadoria” afirma que no capitalismo as relações entre as mercadorias tendem a ocupar o lugar das relações entre as pessoas. Xeque-mate!

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10 de dezembro de 2018

Um habeas corpus para nossos cérebros

Bilhões são gastos por governos, corporações e investidores no treino de algoritmos de computadores (...) na atual e insana corrida para criar as chamadas inteligências “artificiais”, largamente anunciadas como “AI”. Enquanto isso, o treinamento de nossas crianças e seus cérebros (já superiores aos algoritmos de computador) é subfinanciado. As escolas estão dilapidadas, instaladas em condições precárias, frequentemente em áreas poluídas enquanto os professores são mal pagos e precisam de maior respeito. Como nossas prioridades tornaram-se tão enviesadas?

Na realidade, não há nada de artificial nos algoritmos ou sua inteligência: o termo AI é uma mistificação! O termo que descreve a realidade é “Aprendizado de máquina treinadas por humanos”, na atual e insana luta para treinar estes algoritmos a mimetizar inteligência humana e funcionamento cerebral.

O trecho acima é de Hazel Henderson, fundadora da empresa Ethical Markets Media, em artigo publicado no portal Outras Palavras.

Segundo ela, é urgente “enfrentar o uso desumano de seres humanos, que emprega nossas habilidades, adquiridas com esforço, para treinar algoritmos que depois nos substituem”. São técnicas, afirma, que forçam desempregados e sobreviver na “economia de bicos”. Ou seja, no trabalho precarizado, largamente disseminado por empresas como a Uber.

Diante disso tudo, Hazel propõe ampliar o “habeas corpus”, instrumento jurídico criado em 1215 na Inglaterra. Mais do que dispor de nossos próprios corpos, precisaríamos garantir também a posse de nossos cérebros e de toda a informação que geramos. Seria um “habeas corpus de informação”.

A proposta faz todo o sentido. Mas o que dizer dos muitos lugares no mundo em que nem mesmo o habeas corpus criado no século 13 é respeitado?

22 de agosto de 2018

Capitalismo sem monopólio da propriedade ainda é capitalismo

Edmar Bacha é um economista neoliberal, famoso por ter ajudado a criar o Plano Real. Recentemente, anda entusiasmado com um livro lançado nos Estados Unidos. Trata-se de “Mercados Radicais: Desenraizando o capitalismo e democracia para uma sociedade justa”, de Yale Glen Weyl e Eric Posner.

Em artigo para “O Globo”, Bacha resumiu a proposta do livro.

Os donos de bens de capital teriam que declarar em registro público os preços desses bens. Sobre esses valores, eles pagariam um imposto cuja arrecadação garantiria uma renda básica para todos os cidadãos. Por outro lado, os proprietários seriam obrigados a vender os bens para qualquer pessoa pelo valor declarado.

Assim, enquanto o imposto faria com que o proprietário tendesse a subestimar o preço do bem, a obrigação de vendê-lo, e ao preço declarado, faz com que ele tenda a declarar um preço honesto.

Desse modo, diz ele, “todo capitalista passa a ser uma espécie de posseiro. Eles retêm o direito ao uso do bem, mas têm que vendê-lo caso alguém ofereça um preço maior do que o seu por ele”.

Mas fundamental para o capitalismo não é necessariamente o monopólio da propriedade dos meios de produção. É o monopólio de seu controle. Prova disso são alguns dos mais recentes sucessos do mercado mundial.

A Uber é a maior empresa de transporte urbano e a AirBnb, de hospedagem. Nenhuma delas possui automóveis ou hotéis. Ambas monopolizam enormes fatias do mercado. É a “mão invisível do mercado” em sua forma mais acabada.

O que Bacha considera “uma bela utopia” é só mais uma tentativa de repaginar a velha e feia exploração.

Leia também:
Tudo o que é sólido termina em exploração

18 de dezembro de 2017

Uberização do desespero, luta de classes, disputa hegemônica

Henry Ford ficou conhecido por introduzir a produção em série. Mas poucos sabem que para trabalhar na Ford era preciso comprovar adesão a certos valores como fidelidade conjugal, estabilidade familiar e emocional, repulsa ao álcool e à vida boêmia, apego à religião e patriotismo.

Mais sutil, o toyotismo se apropriou da capacidade flexível da produção artesanal. Passou a exigir de seus “colaboradores” capacidade de cooperação, consenso, participação, valorização dos grupos informais etc.

Já na era do Uber, as empresas inovam a partir da chamada economia compartilhada ou “economia do bico”. Nela, borram-se as fronteiras “entre consumo e trabalho, entre o que é trabalho e o que não é, entre trabalhador e consumidor, entre o trabalho e o bico, entre trabalhador-empreendedor”.

A análise acima é um resumo grosseiro de um artigo que vale a leitura. Trata-se de “Luta de classes na era do Uber”, de Marco Antonio Gonsales de Oliveira, Rodrigo Bombonati de Souza Moraes e Rogério de Souza. É dele também a seguinte passagem:

As empresas da economia do compartilhamento navegam nas oportunidades que a sociedade do trabalho, em crise, oferece: consumidores em busca de baixo preço e trabalhadores em situação de desespero.

Sendo que “consumidores em busca de baixo preço” e “trabalhadores em situação de desespero” muitas vezes são as mesmas pessoas.

Mas tudo isso fica escondido sob a aparência de “eficiência”, “versatilidade”, e até “sustentabilidade ecológica”.

Ou seja, desde a triagem moralista de Ford, passando pela apropriação do artesanato pelo toyotismo até a uberização do desespero, é de luta de classes que se trata. Mas também de luta ideológica. Disputa de hegemonia.

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