quinta-feira, 30 de julho de 2015

Lévi-Strauss e os homens que vomitamos

São 10 milhões, aproximadamente, as pessoas encarceradas no mundo. Os campeões são Estados Unidos (2,2 milhões de pessoas presas), China (1,6 milhões), Rússia (731 mil) e Brasil (514 mil).

Mas 60 anos atrás, em seu livro “Tristes Trópicos”, o antropólogo Lévi-Strauss já se preocupava com os “costumes judiciários e penitenciários” de nossa civilização ponderando o seguinte:

Estudando-os do exterior, seriamos tentados a opor-lhes dois tipos de sociedades: as que praticam a antropofagia, isto é, as que veem na absorção de certos indivíduos detentores de forças temíveis, o único meio de neutralizá-las e mesmo de aproveitá-las; e as que, como a nossa, adotam o que se poderia chamar a “antropoemia” (do grego “emein”, vomitar); postas diante do mesmo problema, escolheram a solução inversa, que consiste em expulsar esses seres temíveis para fora do corpo social, mantendo-os temporária ou definitivamente isolados, sem contato com a humanidade, em estabelecimentos destinados a esse fim. À maioria das sociedades que chamamos "primitivas", esse costume inspiraria um horror profundo; ele nos marcaria aos seus olhos da mesma barbárie que seríamos levados a imputar-lhes devido aos seus costumes simétricos. Sociedades que, sob certos aspectos, nos parecem ferozes, sabem ser humanas e benevolentes quando as encaramos por outro.

No início de julho, um funcionário da Secretaria de Segurança Pública do Maranhão informou que houve, pelo menos, dois casos de canibalismo entre os internos do Complexo Penitenciário de Pedrinhas, em São Luís.

Como se vê, o país que ocupa o quarto lugar em encarceramento no mundo supera a oposição apontada por Lévi-Strauss chegando a uma síntese muito indigesta. Vomitamos homens e também os fazemos devorarem-se.

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quarta-feira, 29 de julho de 2015

O Sr. Apocalipse e a economia brasileira


Nouriel Roubini ficou famoso ao prever o estouro da bolha imobiliária estadunidense, em 2008. Desde então, ficou conhecido como Sr. Apocalipse, inclusive porque vive dizendo que a crise está longe de seu fim.

Suas últimas declarações nesse sentido foram publicadas no Diário da Liberdade, em 29/07. Segundo o economista, os mesmos papéis especulativos que derrubaram grande parte da economia mundial 7 anos atrás continuam “a todo vapor”. Hoje, diz ele:

...movimentam em torno de 15 vezes o total da economia mundial, com transações ultra parasitárias que têm convertido o mundo num verdadeiro casino financeiro.

Roubini também fala em colapso “capitalista” na Alemanha, Estados Unidos e Japão. A China, por sua vez, estaria à beira de uma bolha imobiliária.

Apesar de tudo isso, em janeiro, Roubini disse estar “cautelosamente otimista com o Brasil”.

Marcio Pochmann parece não concordar. É o que se deduz de seu recente artigo “China e Brasil evidenciam nova fase da crise global”. O economista começa o texto publicado no portal Rede Brasil Atual dizendo que a Grande Recessão:

...avança sobre as economias consideradas emergentes como Rússia, Brasil e China, que até então acreditava-se estarem imunes frente ao êxito das políticas anticíclicas adotadas desde 2008.

Resta saber o que ele vê de tão “anticíclico” ou “exitoso” na economia brasileira. Afinal, continuamos a ser tão dependentes dos humores da economia mundial como sempre fomos. Só inovamos ao nos atrelar ao parque industrial que o imperialismo ocidental instalou na China.

De qualquer maneira, o “otimismo cauteloso” do Sr. Apocalipse em relação a nossa situação não é partilhado pelo economista brasileiro, que é, aliás, petista de carteirinha.

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Sobre a China

terça-feira, 28 de julho de 2015

Tchau não, Vito. Ciao!


Vito Giannotti gostava muito da canção “Bella Ciao”.

Italiana, ela teria surgido como um canto de camponesas que trabalhavam por temporada em plantações de arroz na planície de Padana.

Tornou-se música de protesto contra a Primeira Guerra e símbolo da Resistência Italiana contra os fascistas durante a Segunda Guerra.

Como muitos dos mais corajosos e determinados antifascistas eram anarquistas, Bella Ciao tornou-se um hino muito identificado com o anarquismo.

Vito também tinha fama de ser anarquista. É que o italiano internacionalista nunca se curvou à ortodoxia stalinista ou qualquer outra. Sempre foi plural em seu marxismo revolucionário.

Desde os tempos da Oposição Metalúrgica em São Paulo, ele lia, debatia, divulgava Gramsci, Pannekoek, Rosa. Não apenas Lenin ou Trotsky.

Outra razão para ser considerado anarquista é que Vito colocava acima de tudo as decisões tomadas pelas bases, aprovadas o mais democraticamente possível. Algo que aprendeu com a história dos conselhos de trabalhadores, seja na comuna parisiense, em Turim ou na Rússia revolucionária, com seus sovietes.

Vito não se incomodava com sua fama de anarquista. Ao contrário, para ele ser revolucionário era inseparável de ser libertário. Por isso, sempre cantava a Internacional Socialista acompanhada de “Bella Ciao”, ambas a plenos pulmões.

Na letra, uma camponesa diz que depois de morta, seu corpo enterrado semeará rosas da liberdade. E é exatamente isso que acontece a combatentes 
como Vito Giannotti. 

Mas é preciso lembrar um detalhe muito especial: “ciao” em italiano não é como o nosso “tchau” adaptado. Quer dizer tanto “até logo” como “olá”.

Então, até logo, Vitão. Continuaremos a te encontrar nas muitas lutas que virão.

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Vito Giannotti (1943...)

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Glossário de uma polícia que extermina

Bilões: são os policiais mais violentos de cada batalhão da PM paulista.

Caixas-dois: nome dado aos grupos integrados por três bilões, sendo um deles responsável por orientar ou executar o “trabalho”. Costuma ser escoltado pelos outros dois e não usa farda. Geralmente, a equipe atua em sua área de atuação.

Trabalho: extermínio de criminosos ou apenas suspeitos.

Kit-vela ou kit-flagrante: entorpecente e arma fria colocadas nas mãos do cadáver para justificar o homicídio. Eventualmente, um celular também é deixado junto à vítima.

Firma: modalidade de caixa-dois diretamente relacionada a corrupção.

Fritar na resistência: inventar evidências para que a morte pareça ter resultado de um confronto com a PM. Em sua impossibilidade, utiliza-se o “caixa-dois”.

Pelotão de Apoio Operacional (PAO): punição dada pelo comando de alguns batalhões da PM paulista a policiais que se negam a participar de ilegalidades e abusos, como torturas, matanças e grupos de extermínio. O castigo consiste em fazer ronda do lado de fora do batalhão, permanenceno 12 horas em pé, incomunicável, sem poder comer, urinar ou evacuar.

A combinação dos verbetes desse macabro vocabulário resultou, por exemplo, no assassinato de 152 pessoas pela PM paulista, entre 2003 e 2010. Destas vítimas, 48% não tinham antecedentes criminais. Entre as que sobreviveram, 82% não têm passagem pela polícia.

Todas essas práticas criminosas estão detalhadas no artigo “Em cada batalhão da PM tem um grupo de extermínio”, de Tatiana Merlino. O texto faz parte do livro
“Desmilitarizaçãoda polícia e da política: uma resposta que virá das ruas”.

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Fragmentos de uma história militarizada

domingo, 26 de julho de 2015

Vito Giannotti (1943...)


É foda! Vito se foi.
Nos deixou um monte de ensinamentos.
Um dos mais importantes: continuar aprendendo sempre.
Tudo isso em meio a muitos palavrões carinhosos.
Mas ele tá muito vivo, porra!

Agora, um pouco de luto.
Só o bastante pra continuar na luta que ele jamais abandonou.

Bem unido façamos,
Nesta luta final,
Uma terra sem amos
A Internacional...


Valeu, Vitão!

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Fragmentos de uma história militarizada

Uma característica importante do militarismo é a prontidão para atacar o inimigo. Em princípio, um inimigo externo. Em casos como o brasileiro, porém, a militarização do Estado prioriza o ataque a um inimigo interno. Mais precisamente, aos pobres.

Uma das raízes deste processo foi a escravidão. Foi o medo da reação de uma grande parte da população submetida ao mais vergonhoso e cruel cativeiro. Por isso, um jornal carioca na virada do século 18 para o 19 dizia: “Precisamos de uma polícia que a nós (referindo-se aos senhores) inspire confiança e aos escravos infunda terror”.

Mas finda a escravidão, a extrema desigualdade social persiste e se aprofunda. A polícia do estado de São Paulo, por exemplo, passa a se inspirar na doutrina adotada pelo Exército Francês, em 1906.

Esta mesma polícia tem em seu brasão 18 estrelas. Cada uma representando uma vitória militar. Delas, apenas uma lembra o combate a um governo. O de Getúlio Vargas, em 1932. Todas as outras referem-se à repressão contra revoltas populares, como a Rebelião de Canudos, Revolta da Chibata e a Greve Geral de 1917, em São Paulo.

O conhecido instrumento de tortura chamado “pau-de-arara” não surgiu durante a ditadura militar. Seu nome faz referência aos trabalhadores rurais que chegavam do Nordeste nos anos 1950. Qualquer conduta considerada indevida pela polícia era tratada como crime, punido com suplícios no “pau-de-arara”.

Estes exemplos mostram que a militarização da polícia não surgiu com a ditadura empresarial-militar de 64. Esta apenas a aperfeiçoou, generalizou e a deixou como herança intocada, que ainda despedaça almas e corpos de pobres e rebeldes.

Essas informações estão no livro “Desmilitarização da polícia e da política: uma resposta que virá das ruas”.

Leia também:
A criminalização da pobreza e sua “policização”


quarta-feira, 22 de julho de 2015

Quando a inocência não compensa

Começaram a sair as primeiras sentenças de condenados envolvidos na Operação Lava-Jato. Paulo Roberto Costa, alto funcionário da Petrobras, fica em prisão domiciliar até outubro. Depois disso, só aos fins de semana.

Dalton Avancini, ex-presidente da empreiteira Camargo Corrêa, cumpre prisão domiciliar. Mas a partir de março de 2018, pode progredir para o regime aberto.

Por enquanto, o único empresário que vai “puxar cadeia”, mesmo, é João Auler, ex-presidente do conselho de administração da Camargo Corrêa. Isso porque ele rejeitou assinar delação premiada como fizeram os outros dois.

As penas estão sendo consideradas leves pela grande imprensa. Levaram o jornalista Janio de Freitas a comentar em sua coluna de 22/07: “Nenhum dos premiados poderá dizer, jamais, uma frase: ‘O crime não compensa’”.

Mas até onde se sabe as sentenças foram definidas respeitando-se vários dispositivos legais. O problema maior não é este. A questão é a desigualdade do acesso aos mecanismos que podem fazer funcionar aqueles dispositivos legais.

É o que mostra, por exemplo, o “Mapa do Encarceramento: os jovens do Brasil”, publicado em junho de 2015. O levantamento indica que em 2012 havia 515.482 presos no Brasil. Deste total, 38% estão detidos sem julgamento. A grande maioria, pobre, jovem e preta.

Os empresários devidamente sentenciados, deixaram de ser cidadãos plenos para serem pessoas que cometeram crimes. Não é o caso daqueles 40% que foram jogados no sistema prisional sem qualquer formalidade jurídica.

Estes últimos mal chegam a ser pessoas. Ninguém nota ou liga quando perdem uma cidadania que jamais tiveram. Por que não haveriam de concluir que, afinal, é a inocência que não compensa?

Leia também:
Prisões e escolas públicas. Aparências que mal escondem a essência


terça-feira, 21 de julho de 2015

A criminalização da pobreza e sua “policização”

Acaba de ser lançada “Desmilitarização da polícia e da política: uma resposta que virá das ruas”, coletânea organizada por Givanildo Manoel da Silva, o “Giva”. São contribuições teóricas fundamentais, mas também particularmente importantes para armar a militância social na indispensável resistência à brutalização da vida pelos aparatos estatais de repressão.

Um dos artigos é “Desmilitarização da polícia, das prisões e da política: uma pauta necessária a luta pelo fim do capital”. Nele, Camila Gibin traz o interessante conceito de “policização” dos pobres, intimamente relacionada ao fenômeno da criminalização da pobreza. Ela cita Eugenio Raul Zaffaroni, criador do conceito:

O pessoal policizado, além de ser selecionado na mesma faixa etária masculina dos criminalizados, de acordo também com um estereótipo, é introduzido em uma prática corrupta, em razão do poder incontrolado da agência da qual faz parte.

O policial de baixa patente, capturado por esta estrutura se vê qualificado pela “moralidade burguesa” como “corrupto”. Ao mesmo tempo, lhe é exigido desempenhar funções que desumanizam a si mesmo e àqueles com quem se relaciona em sua profissão.

Assim, o policizado seria, “para a classe baixa, o ‘cão de guarda’ da burguesia que a criminaliza; e para a classe média e alta, o pobre ‘cão de guarda’ que deve responder a seus comandos”. Muitos dos que exigem do policial uma ação rápida e letal também o desprezam por cometê-la.

De um lado e do outro, pretos e pobres matam e morrem em situações que pouco têm a ver com o combate à criminalidade. Tudo a ver com a manutenção de uma ordem social extremamente violenta e injusta.

Conheça o livro aqui.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Prisões e quartéis como escolas do crime

Os especialistas em segurança costumam dizer que os presídios do País são escolas do crime. Muitos do que são contra a redução da maioridade penal apontam essa realidade para dizer que crianças e adolescentes vão ser expostos facilmente a estes cursos intensivos de brutalidade.

Mas há um outro tipo importante de escola do crime, tão brutalizadora como aquelas, mas menos lembrada. São as polícias militares. Pelo menos é o que se deduz do livro "Como nascem os monstros", escrito por Rodrigo Nogueira.

Ex-soldado da PM, Nogueira está preso na penitenciária Bangu 6, Rio de Janeiro, desde 2009. A sentença que o condenou diz que ele manteve “uma vendedora em cárcere privado por quatro horas, onde ela foi agredida e constrangida a praticar atos libidinosos antes de ser atingida por um tiro de fuzil no rosto”.

Em entrevista à Agência Pública, publicada em 20/07, ele deixou bastante claro que aprendeu a cometer tais barbaridades dentro dos quartéis:
 
Posso garantir que, ao ingressar na corporação, ninguém acredita que um dia vai sequestrar alguém, roubar seu dinheiro, matar essa pessoa e atear fogo ao corpo.

Expostos a treinamento de guerra, estes soldados passam por treinamentos violentos para aprenderem a ser violentos. Principalmente, com pobres. Como diz o entrevistado, “preto e pobre correndo na favela é bala. Depois a gente vê o que é.”

É assim que as prisões, transformadas em unidades de especialização criminal, encontram nas casernas policiais seu espelho quase perfeito. Ambas vivem do crime e o realimentam. Dos dois lados, uma maioria formada por pobre e pretos. Uns fardados, outros não. Todos fodidos.

Leia a íntegra da entrevista,
aqui.

Leia também:
PM: disposição para o motim e desmilitarização

domingo, 19 de julho de 2015

Parlamentares trabalham muito, sim. Para nosso azar

Um dos maiores favores que a grande mídia faz aos piores políticos profissionais é tratá-los como gente que não quer saber de trabalho e só cuida de seus próprios interesses.

O repelente Eduardo Cunha, por exemplo, foi à TV na sexta-feira e desfiou uma lista de tarefas cumpridas. E ele tem razão. Sob sua presidência, a Câmara Federal trabalhou muito.

Desde fevereiro, foram aprovadas mais de 60 leis, alterações na Constituição e medidas provisórias. A grande maioria delas retirando ou restringindo direitos trabalhistas e so
ciais. É o caso da liberação das terceirizações e do corte de direitos previdenciários.

Quando anunciaram, recentemente, uma semana de recesso devido aos festejos juninos, os locutores de plantão bradaram: “Vê se algum trabalhador tem uma semana de folga remunerada! Eles dizem que vão visitar suas bases eleitorais. Mentira!”

Esse tipo de afirmação só causa mais despolitização. É claro que deputados e senadores vão visitar suas bases. O problema é que a base da grande maioria deles é formada por mega-empresários. Os mesmos que pagaram suas campanhas milionárias.

Além disso, a atividade parlamentar não deveria ser tratada como um trabalho qualquer. É uma função pública, que, inclusive, deveria ser impedida de se transformar em carreira através de reeleições sucessivas.

Ao invés de cuidar da frequência dos parlamentares, deveríamos verificar a que interesses eles servem quando estão no plenário. Mas isso a grande mídia não quer discutir. E não é à toa. Os que financiam os mandatos dos parlamentares também são anunciantes graúdos dos jornalões.

Então, da próxima vez que você ouvir alguém chamando parlamentares de vagabundos, responda assim: “Quem dera eles fossem”.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

A tragédia grega e a heroica resistência de seu povo

Desde o estouro da crise de 2008, a Grécia está no olho do furacão. Não apenas porque sua economia foi afetada de maneira especialmente cruel. Também porque a tradição militante e combativa da esquerda grega é grande.

Desde 2010, foram mais de 30 greves gerais, milhares de manifestações e ocupações, resistência corajosa contra a enorme violência policial.

É esta capacidade que está em jogo, agora, quando tudo indica que as armadilhas institucionais mais uma vez ameaçam domesticar a esquerda que chegou ao governo.

Mas o primeiro capítulo desta história não é a crise econômica de 2008. É a própria montagem da união europeia. Talvez, seja o único caso na história humana em que uma unificação monetária foi feita antes da unificação política.

Os resultados não poderiam ser mais trágicos. E não só para a Grécia. É o que já avaliava a pílula
A Europa corroída por sua moeda, assim como outros textos que, desde 2010, têm a crise grega como preocupação central. Abaixo, alguns deles.

Europa, porcos e sereias
Sexta-Feira 13 na Grécia
As cascatas da mídia sobre a crise
As mentiras sobre vida boa dos gregos
Presente de grego para os gregos
Grécia: quando cachaça é eutanásia
Porque os gregos estão tão putos
Grécia: os riscos da consulta ao povo
Os gregos, cada vez mais putos
Eleições gregas atrapalham, diz ministro alemão
De olho nos ovos dourados da galinha grega
A cigarra grega nas garras das formigas capitalistas
A Grécia como laboratório da extrema-direita
As serpentes no berço do Syriza
Grécia e Alemanha. Quem deve a quem?

quarta-feira, 15 de julho de 2015

A crise grega e o guarda-livros de Auschwitz

O ex-ministro grego, Yanis Varoufakis, ficou famoso por enfrentar os negociadores do chamado Eurogrupo, que reúne ministros da área econômica da União Europeia.

Segundo o representante grego, os membros desse grupo se recusavam completamente a discutir seus argumentos econômicos, limitando-se a receber suas propostas com “olhares vazios”.

O verdadeiro chefe deste colegiado implacável é o representante da Alemanha, Wolfgang Schäuble. Foi ele que disse, por exemplo, que não mudaria suas posições “por causa de uma eleição”, referindo-se ao plebiscito grego que disse “não” às propostas que ele representava.

Durante as negociações, Varoufakis disse ao Eurogrupo que a derrota do governo grego “beneficiaria a extrema direita”. Uma próxima rodada de negociações poderia ser feita com um governo liderado pelo “Aurora Dourada”, partido fascista da Grécia.

Ninguém deu a mínima, Varoufakis demitiu-se, saiu das negociações, e o governo grego acabou aceitando uma proposta ainda pior do que a que seu povo recusou nas urnas.

Curiosamente, dois dias depois, um tribunal alemão condenou um antigo oficial nazista a quatro anos de cadeia. Oskar Groening era uma espécie de guarda-livros de Auschwitz. Sua função era contar o dinheiro tirado dos prisioneiros e enviá-lo para seus chefes nazistas, em Berlim.

Em sua defesa, Groening declarou apenas cumprir ordens. Talvez, Schäuble não seja nazista, mas tal como fazia o guarda-livros de Auschwitz, apenas obedece a ordens que jogam milhões na miséria e garantem o fluxo de moedas exigido por seus chefes, em Berlim.

O trágico nesta comparação é que sobrou para o primeiro-ministro grego, Alex Tsipras, o papel de “kapo”, nome dado aos guardas judeus dos campos de concentração.

Leia também:
A crise grega é política

terça-feira, 14 de julho de 2015

O Bolivarianismo e suas dependências

A vitória de Hugo Chávez nas eleições da Venezuela em dezembro de 1998, iniciou um período de governos progressistas na América do Sul.

Por suas políticas populares, Chávez foi deposto, mas voltou à presidência graças à mobilização popular. Além dele, Rafael Correa, no Equador e Evo Morales, na Bolívia, também adotaram políticas que se chocaram com os interesses imperialistas na região.

Agora, esse ciclo parece em perigo. Os três governos enfrentam manifestações, boicotes da mídia, sabotagens empresariais, apoiados e financiados principalmente pelos Estados Unidos. O apoio à resistência popular contra esse cerco é fundamental.

Mas o maior inimigo não está na política. Equatorianos e venezuelanos são extremamente dependentes do petróleo e gás. Chávez e Correa aproveitaram os 100 dólares por barril para implementar suas políticas populares. Com o preço caindo para 60 dólares, ambas as economias começam a fraquejar gravemente.

Maduro dirige uma economia que importa 80% dos produtos que consome. Correa aceita dinheiro de Pequim em troca da entrega de reservas indígenas à exploração destruidora do capitalismo chinês.

Enquanto isso, Morales autorizou, recentemente, a exploração de gás e petróleo em parques nacionais do país. Por trás disso, a enorme dependência do gás e alguns outros minerais, responsáveis por mais de 65% das exportações bolivianas.

O fato é que a lógica capitalista mina as bases do chamado “socialismo do século 21”. Confirma-se a máxima de que não há socialização sem alterar radicalmente a estrutura econômica, incluindo a democratização do controle dos meios de produção.

O “bem viver” das comunidades indígenas que inspira as repúblicas “bolivarianas” sufoca, vítima do veneno mineral em que suas economias são viciadas.

Leia também:
O chavismo e suas dependências

segunda-feira, 13 de julho de 2015

O Vaticano, entre a cruz e o Kremlin

Em 08/07, Evo Morales deu ao Papa Francisco um crucifixo formado com a foice e o martelo, causando enorme polêmica.

A cruz foi idealizada pelo padre Espinal, mártir da luta dos trabalhadores bolivianos, torturado e morto por paramilitares em 1980.

Mas o padre Xavier Albó, que o conhecia bem, afirma que Espinal nunca foi comunista. A cruz simbolizava a necessidade de diálogo entre a igreja engajada socialmente e o movimento operário.

Nesse sentido, Morales foi coerente. Francisco tampouco é comunista. Talvez, não seja nem de esquerda. Pelo menos é o que afirma o historiador Massimo Faggioli, professor de história do cristianismo da University of St. Thomas, em Minnesota, Estados Unidos.

Em artigo publicado pela IHU-Online, em 10/07, ele diz que Francisco é um “centrista” que inovou pouco em relação aos princípios da doutrina social da Igreja, estabelecidos pela encíclica “Rerum novarum”, de Leão XIII, editada em 1891.

Faggioli também cita o caso da bula “Populorum progressio”, de Paulo VI (1967), que teria um “tom mais ‘marxista’ do que a recente ‘Laudato si”’. Nela, aparece, por exemplo, o papel histórico dos pobres.

Ainda segundo o autor, “não foi a Igreja que se radicalizou, mas foi o mundo que se alinhou com um neoliberalismo que é o antagonista por excelência da moral social católica...”

Ao mesmo tempo, Faggioli considera catolicismo e comunismo duas das “formas mais duradouras de universalismo”.

De fato, “katolikos”, em grego, significa "universal". Comunismo remete à necessidade de construir a grande comunidade humana, sem exploração e opressão.

Mas aceita a comparação, o Vaticano seria, no máximo, uma ditadura stalinista, jamais uma Comuna de Paris.

Leia também:
Francisco e a teologia ecossocial neoliberal

domingo, 12 de julho de 2015

A rotina dos linchamentos diários

Mais dois casos de linchamento aparecem nos jornais. Um no Maranhão, outro no Rio de Janeiro. O sociólogo José de Souza Martins é considerado autoridade na questão. Entrevistado pelo portal do El País, em 08/07, ele fez afirmações assustadoras.

Em primeiro lugar, o estudioso disse que acontece
um linchamento por dia em média, no Brasil. A atenção despertada pelos dois casos recentes seria “mais pelas imagens, que pelo fato de ter virado rotina.”

Em segundo lugar, há as particularidades racistas envolvidas nesse tipo de fenômeno. Segundo Martins:

Nos primeiros dez minutos, o padrão se repete e não há nenhuma diferença. Independentemente de a vítima ser branca ou negra, você vê pedradas, pauladas, pontapés. A diferença se manifesta no decorrer do ato, de forma muito mais sutil do modo como o racismo é concebido no Brasil. Ele se torna mais violento. Se o linchado for negro, a probabilidade de aparecerem outros componentes mais violentos como mutilação, furar olhos ou queimar viva a vítima, aumenta.

A afirmação é terrível. O racismo tal como “concebido no Brasil” consegue apresentar suas gradações até em casos extremos como o dessas ações cruéis e covardes.

Por fim, Martins também afirma que em 90% dos casos de linchamento, é a polícia que salva a vítima. Provavelmente, a polícia mais violenta do mundo enxerga nessas ações um desrespeito ao monopólio que exerce no julgamento e execução sumários.

Há quem veja nessas ações o povo fazendo “justiça com as próprias mãos”. Mas não há qualquer justiça envolvida nessas iniciativas. É apenas a sociedade castigando a si mesma, diária e rotineiramente avançando para a barbárie social.

Leia também:
Linchamentos são as manchas de nossa gangrena social

sábado, 11 de julho de 2015

Sobre a China

A recente queda das bolsas chinesas vem sendo vista como o possível estouro de uma bolha especulativa.

As pílulas sempre falaram muito da China. Em agosto, a questão era a dependência econômica brasileira em
Consumo chinês ameaça economia brasileira. Em outubro de 2011, por exemplo, um dos textos avisava “Se a bóia chinesa furar, glub, glub... Em novembro do mesmo ano, Soviéticos ontem, chineses hoje e a crise capitalista caracterizava a economia do país como um capitalismo de Estado extremamente vulnerável aos efeitos da crise do mercado.

Em dezembro,
A crise mundial e a síndrome da China referia-se à falácia de que o gigante oriental seria imune à crise iniciada em 2008. Questão já abordada em julho daquele ano, com Estados Unidos e China: abraço de náufragos, que discutia a arriscada complementaridade das duas poderosas economias.

A bolha imobiliária chinesa apareceu na pílula de março de 2012, intitulada
No país mais populoso, cidades desertas. Em agosto, A China pode tornar-se um buraco negro falava sobre o tamanho insustentável da produção chinesa. Tema retomado em abril de 2013 no texto China: potência ou bomba-relógio?.

Finalmente, em junho de 2013,
A sombra dos créditos podres chineses destacava os perigos do sistema financeiro paralelo, em que bancos sem supervisão das autoridades emprestavam a quem não conseguia recursos nos bancos oficiais.  

O fato é que os efeitos da crise de 2008 vêm cercando o gigante asiático, começando pelo mercado imobiliário, passando para o sistema bancário paralelo e chegando, agora, às bolsas.

O mundo observa assustado. O que acontecer lá afetará a todos. Na economia, mas principalmente, na luta de classes.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Domesticados por coisas mortas


O marciano chega à Terra. Nos observa, tentando identificar nossos líderes. Chega à conclusão de que são os cachorros. Afinal, nós os seguimos pelas ruas, muitas vezes arrastados por eles, e ainda limpamos seu cocô.

Essa anedota tem um fundo de verdade. É o que se conclui, por exemplo,
da leitura do livro “Sapiens – Uma Breve História da Humanidade”, de Yuval Harari. Nele, o autor observa que há dez mil anos, o trigo era uma planta insignificante. Mas, hoje, diz ele, essa gramínea cobre uma área equivalente a “dez vezes o tamanho da Grã-Bretanha”.

Como isso aconteceu, pergunta o autor. Simples. Foi graças aos incansáveis cuidados dos seres humanos:

O trigo era atacado por coelhos e nuvens de gafanhotos, então os agricultores construíram cercas e passaram a vigiar os campos. O trigo tinha sede, então os humanos cavaram canais de irrigação ou passaram a carregar baldes pesados de poços para regá-lo. Os sapiens até mesmo passaram a coletar fezes de animais para nutrir o solo em que ele crescia.

O fato é que a agricultura acabou com o nomadismo de nossa espécie e nos deu residência fixa. No entanto, diz Harari, foi o trigo que nos domesticou, não o contrário. “Domesticar” vem do latim “domus”, que significa “casa”. E quem é que está vivendo em casas?

Mas, milhares de anos depois, as coisas parecem ter piorado muito. Até uns dois séculos atrás, eram coisas vivas, como plantas e animais, que nos domesticavam. Agora, são cada vez mais as mercadorias que nos dominam. São coisas mortas que passaram a nos governar, portanto.

Com exceção dos cachorros, claro.

Leia também:
O Deus Branco e a subjetividade dos animais

quarta-feira, 8 de julho de 2015

As coerências da redução salarial

Luigi Nesse é membro do Codefat, órgão responsável pela gestão do Fundo de Amparo ao Trabalhador, formado por contribuições dos trabalhadores. É deste fundo que vai sair o dinheiro para o Plano de Proteção ao Emprego, criado pelo governo Dilma.

O plano compensará parte do salário que os trabalhadores deixarão de receber caso seus patrões aceitem reduzir sua jornada para evitar demiti-los.

Nesse não gostou da proposta, diz matéria do Estadão de 08/07. Afirma que ela foi feita sob encomenda para o setor automotivo, velho queridinho da cúpula petista no governo.

Nesse é empresário e representa o ramo de serviços. Pode estar interessado em verbas para seu setor. Mas argumenta com propriedade quando lembra que o conselho acaba de aprovar o adiamento da metade do pagamento do abono salarial devido a trabalhadores para o ano que vem.

Com a decisão, cerca de 4 milhões de trabalhadores receberão o benefício deste ano só em 2016. “Se não tinha condição para pagar o abono, também não tem condições para pagar esse benefício. Não tem coerência”, afirma o empresário.

Mas há outras incoerências não citadas por Nesse. Por que dinheiro público retirado dos trabalhadores irá para o bolso de empresários quando a parte mais poderosa deles ficou devendo R$ 500 bilhões em impostos só em 2014, sem falar nos outros R$ 500 bilhões investigados pela Operação Zelotes?

Não tem muito sentido falar em incoerência, porém. Os governos petistas são tão submissos quanto seus antecessores quando se trata dos interesses dos mega-patrões. E, coerentemente, sindicalistas pelegos, antigos e recentes, apoiam a medida. Incoerência, mesmo, só a do empresário indignado.

Leia também:
Sobre traições amorosas e projetos políticos

terça-feira, 7 de julho de 2015

O PT nos tribunais

Em 03/07, na Folha, Monica Bergamo publicou um balanço sobre a situação de Dilma no Tribunal Superior Eleitoral, caso sejam julgadas as contas de sua campanha devido a denúncias da Lava-Jato.

“Na conta do PT, diz Monica, dos sete ministros do tribunal, três tendem a votar contra o governo”. Entre eles, Dias Toffoli, ex-advogado do partido. Outros três votariam a favor. O desempate ficaria com Luiz Fux, também indicado pelos petistas. O problema é que Fux votou pela condenação dos réus do “mensalão”.

Falando em “mensalão”, seria importante lembrar que oito dos onze juízes do Supremo que condenaram os réus foram indicados pelos governos petistas.

Aos que consideram tudo isso uma prova da “independência das instituições” convém recordar o arquivamento do “mensalão” tucano ou a Operação Zelotes, cada vez mais esquecida.

Já aos petistas que esperam que os movimentos sociais saiam em defesa de seu governo, estão reservadas outras lembranças. A começar pelo Decreto Presidencial publicado por Lula em 2004, que criou a Força Nacional de Segurança Pública (FNSP).

Foram essas tropas que, em junho de 2007, auxiliaram a polícia do Rio de Janeiro no chamado “Massacre da favela do Alemão”, que deixou, pelo menos, 19 mortos. Desde então, a FNSP só vem confirmando seu papel de braço armado do Executivo Federal na repressão às manifestações e aos movimentos sociais.

O PT enganou-se pensando que a indicação de juízes o autorizava a imitar os crimes da classe dominante. Acertou ao apostar que pelos crimes que cometeu contra as lutas populares não será julgado pela justiça burguesa. Mas não escapará da condenação dos tribunais da História.

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segunda-feira, 6 de julho de 2015

Francisco e a teologia ecossocial neoliberal

Segue o debate sobre a “bula ecológica” papal, a louvada “Laudato si”. Desta vez, com um artigo extremamente crítico de José Francisco Puello-Socarrás, professor de Ciência Política da Universidade Nacional da Colômbia, publicado no portal “Rebelión”, em 27/06.

O autor considera que o decreto de Francisco se inspira em uma versão alemã do neoliberalismo, contrária à ideia de que “a sociedade funcionaria harmônica e perfeitamente graças aos automatismos do mercado”. Rejeição que o Vaticano teria endossado há décadas.

Desse modo, o tom crítico da bula seria apenas produto de uma visão que considera necessária alguma regulação sobre a economia, mas jamais abrindo mão da primazia do mercado. Não à toa, nota Puello-Socarrás, “na análise ecossocial de Francisco, a palavra ‘capitalismo’ brilha por sua ausência”.

O texto apresenta vários elementos polêmicos para justificar suas afirmações. Mas, concorde-se ou não com eles, um aspecto levantado pelo autor faz muito sentido. Por que Francisco resolveu visitar Equador, Bolívia e Paraguai, ignorando Argentina e Brasil? Em especial, este último, considerado referência na questão ambiental?

Segundo o autor, aqueles três países:

... figuram hoje como fontes paradigmáticas de complexos processos populares onde o Suma Qamaña (aimara), o Sumak Kawsay (quéchua) e o Ñandareco (guarani) –, ou seja, horizontes para o Bem Viver/Viver Bem dos povos – emergiram como matrizes civilizatórias, alternas e nativas: alternativas! Não somente contra o neoliberalismo em qualquer uma das suas versões, mas, para além, como propostas potencialmente anticapitalistas. 

Aparentemente, o Papa Pop sabe onde é preciso disputar a hegemonia religiosa. Lá onde há influência de cosmologias muito menos amigáveis ao capitalismo, sistema que a doutrina vaticana sempre abençoou.

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domingo, 5 de julho de 2015

A maioridade penal e o código de Hamurabi

Antonio Prata deixou de lado seu tom bem-humorado ao escrever sobre a redução da maioridade penal em sua última coluna na Folha. Incomodado, disse que os autores e defensores da proposta querem apenas vingança, sangue, “cabeças rolando”.

Por isso, apelida a medida de “emenda de Hamurabi”, em referência à famosa Lei de Talião,
bem resumida no dito popular “olho por olho, dente por dente”.

No entanto, a justa indignação do colunista comete injustiça contra a legislação criada pelo rei da Babilônia, 1.700 anos antes de Cristo. O código inovava ao
determinar que uma ofensa fosse retribuída de forma proporcional. Um tapa na cara, por exemplo, deveria ser retribuído com outro tapa na cara e não com uma paulada na cabeça.

Além disso, a regra procurava impedir que ricos e poderosos impusessem castigos desproporcionais à ofensa sofrida. Um plebeu que, digamos, desse uma bofetada em um nobre jamais deveria receber como penalidade a mutilação ou a morte.

Cerca de 1/3 de nossos presidiários nem mesmo foram condenados pela Justiça. Quase todos pretos e pobres. E dentre os condenados, a maioria cometeu crimes como roubos e fraudes. Mas uns e outros recebem como punição penas hediondas como tortura, estupro e até decapitações dentro dos cárceres.  

A redução da maioridade penal tem pouco a ver com fazer justiça. Seu objetivo maior é punir desproporcionalmente os mais indefesos. Implica internar mais pessoas em um sistema prisional que obedece a uma lógica anterior ao ancestral código babilônico. Nele, o tapa na cara que o suspeito pobre recebeu do policial na rua se transforma na vingança mais estúpida.

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quinta-feira, 2 de julho de 2015

A crise grega é política

A terrível crise por que passa a Grécia é tratada pelos poderosos financistas da Europa como um problema técnico. Bastaria ao país adotar as medidas recomendadas por eles para sair do atoleiro. Qualquer coisa diferente é ideologia e politicagem, ainda que parta de um governo legitimamente eleito.

Este discurso é repetido pela grande imprensa e especialistas neoliberais. Entre estes últimos está Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getúlio Vargas. Na edição do Globo de 02/07, ele deu uma entrevista sobre a crise grega.

Referindo-se ao plebiscito sobre a aceitação das medidas profundamente injustas e penosas que os credores querem impor ao país, Langoni diz que “se o Syriza perder o plebiscito, as condições de um governo mais conservador vão viabilizar a mesma proposta de agora”.

Ou seja, as medidas apresentadas pelos atuais dirigentes gregos seriam aceitas se não viessem de um governo de esquerda cuja eleição se apoiou em enorme mobilização popular. Como se vê, são os neoliberais que se apoiam em politicagem e ideologia barata.

A atitude lembra o posicionamento Henry Kissinger quando era Secretário de Estado do governo Nixon. Ao justificar a derrubada de Allende no Chile, ele afirmou: “Não vejo por que temos de ficar parados enquanto um país se torna comunista pela irresponsabilidade de seu povo”.

Agora, como antes, a democracia é apenas um detalhe.

Qualquer que seja o resultado do plebiscito grego, o cenário ficará ainda mais politizado e ideologizado. Diante de um novo governo conservador ou do atual, reforçado, caberá aos movimentos e partidos de esquerda defender nas ruas a democracia que nelas construíram.

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quarta-feira, 1 de julho de 2015

Não é corrupção

 Eakins
Muito informativa a matéria “Outras faces da corrupção” que Maíra Mathias publicou na última edição da revista Polis, da Fiocruz. Destaque para algumas informações capazes de nos fazer entender melhor o que é a corrupção.

Em 12 de abril, em manifestação contrária ao governo, um cartaz dizia: “Sonegação não é corrupção”.

A legenda referia-se às denúncias da Operação Zelotes, que estima em cerca de R$ 515 bilhões a quantia envolvida em fraudes fiscais por grandes empresas. Mas também poderia servir aos quase R$ 500 bilhões sonegados aberta e impunemente por tubarões do mercado em 2014.

Esta dinheirama sangra os já anêmicos recursos públicos de Saúde, Educação, Habitação. Mas não é corrupção, dizia o cartaz.

Em 2002, foram gastos nas campanhas eleitorais R$ 800 milhões. Em 2010, o valor saltou para R$ 4,9 bilhões. Na França, estes custos ficaram em R$ 90 milhões, em 2013. Detalhe: lá a doação empresarial é proibida.

De volta ao caso brasileiro, a eleição de um governador custa, em média, R$ 23 milhões e um senador, R$ 4 milhões. Deputado federal? R$ 1 milhão. Observação: fora o que entra pelo caixa dois.

Recente estudo do Instituto Kellogg Brasil mostra que a cada real investido na eleição de um político, a empresa obtém R$ 8,50 em contratos públicos. São contratos certamente prejudiciais ao orçamento público e distantes das prioridades sociais. Mas não, isso não é corrupção.

O que é corrupção, então? A definição coerente com a raiz latina da palavra é: deterioração, decomposição física ou orgânica de algo. Putrefação. Como no cadáver, cuja morte já tenha ocorrido há dias. No nosso caso, séculos.

Leia também: Causas econômicas da corrupção política

Calamidades: as gregas e as nossas

Segundo Massimo Amato, no capitalismo, “as dívidas não existem para serem pagas, mas para serem compradas e vendidas". A afirmação do pesquisador em História Econômica da Università Bocconi, de Milão, foi feita ao IHU-Online, em 29/06.

De fato, os donos desses débitos tornados mercadoria escravizam muitos de seus devedores. Especialmente, os povos dos países cujos dirigentes se deixaram capturar por uma financeirização de dívidas que as torna impagáveis.

É o caso da Grécia, que acaba de se recusar a pagar os 1,6 bilhão de euros supostamente devidos ao Fundo Monetário Internacional. Segundo a imprensa, seria o primeiro “país desenvolvido a dar um calote no fundo”. Mas, na verdade, trata-se do mínimo de soberania que resta a um povo castigado há 5 anos. É a tentativa de sair da armadilha montada pelo FMI.

Quem conta essa história é Paulo Nogueira Batista, que era diretor executivo do FMI no momento do empréstimo, em 2010. Há vários meses, o brasileiro vem afirmando para a imprensa que o acordo firmado naquele ano foi apresentado “como um programa de resgate para a Grécia, quando, na verdade, foi mais um resgate dos credores privados do país”.

Ou seja, a fatura cobrada é dos bancos franceses e alemães. Não tem nada a ver com a “reestruturação da economia grega”, como dizem os representantes do Fundo. Claro que a grande mídia, aqui e lá fora, esconde esta situação.      

O peso dessa e outras dívidas ilegítimas no orçamento público grego é de 50%. No Brasil, esta proporção está em 45%. A calamidade grega não chegou aqui. Ela já está instalada há muitas décadas.

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