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19 de fevereiro de 2025

Notícias do fim do mundo na periferia

A pílula de hoje é apenas uma pequena sequência de notícias que, talvez, se explique por si mesma.

Brasil é o país do mundo com maior probabilidade de calor extremo até o fim da semana, aponta instituto europeu
Desde o fim de janeiro, uma redoma se instalou no Centro-Sul do país, e vários municípios passaram a registrar temperaturas acima da média mesmo para o verão

Mudanças climáticas devem deixar alimentos ainda mais caros
Segundo pesquisadores, o aumento dos fenômenos climáticos extremos pode colocar em risco a segurança alimentar global

Em ano de temperaturas extremas e COP30, Brasil anuncia entrada na OPEP+
Sociedade civil diz que decisão de participar formalmente do grupo de grandes produtores de petróleo soterra planos nacionais de transição energética.

Governo anuncia leilão para mais 47 blocos de petróleo na Foz do Amazonas
Ao todo, são 68 blocos incluídos na oferta na Amazônia Legal. Além dos 47 na Foz do Amazonas, onde o governo defende o licenciamento do bloco 59, há outros 21 blocos em terra disponibilizados para as petroleiras, cercando terras indígenas e unidades de conservação.

Gilmar Mendes propõe liberar mineração em terras indígenas, acolhendo sugestão de advogado da Potássio do Brasil
Em decisão individual na mesa de conciliação do marco temporal, o ministro acolheu sugestão do advogado da mineradora para permitir a exploração de minerais estratégicos em terras indígenas em caso de “relevante interesse público da União”.

Conheça dez parlamentares que negam a crise climática
Na Câmara, há quem argumenta se tratar de "farsa" o aquecimento global. No Senado, um senador questiona a ação humana nas mudanças climáticas

Leia também: COP30 em plena fornalha

8 de dezembro de 2023

O lulismo e a dieta do caranguejo

O governo Lula segue envolvido com acordos no Congresso, nomeações no STF, negociações com empresários, militares, latifundiários, governadores. Em meio a todos eles, muitos golpistas. Já as negociações, incluem negociatas de todo tipo e tamanho.

Quando surgiu como grande liderança sindical, nos anos 1970, Lula havia sido eleito presidente do sindicato do ABC com a bênção de pelegos da ditadura. Eles pretendiam transformar a jovem e talentosa liderança em seu fantoche. Não deu certo. Lula acabou comandando uma greve que abalou o governo dos militares, mas também lhe valeu uma temporada na cadeia.

Diferente de vários setores de esquerda, Lula representa as forças que optaram por tensionar a ampliação dos limites da democracia brasileira sem rompê-los. Isso inclui disputar eleições pra valer e não como tática para um possível levante popular ou revolução.

À frente do PT, perdeu todas as eleições presidenciais pau-a-pau com os favoritos do grande capital até ser eleito. Mas, tal como na convivência com os pelegos, assimilou vários setores da burguesia em suas coalizões governamentais.

Lula não desistiu da traiçoeira democracia nacional nem mesmo quando ela o devolveu à prisão. Nunca o perdoaram pela insistência em tentar alargar a acanhada democracia brasileira. Hoje, defende um grande acordo nacional que inclui vários de seus carcereiros.

O projeto lulista tenta abrir caminhos por dentro dos intestinos da democracia brasileira. O perigo é acabar como aqueles caranguejos que se alimentam das entranhas de animais mortos. Pode até saciar, mas um cadáver é sempre um cadáver. E quando se trata de uma democracia tão moribunda como mortal, é grande o risco de agonizar dentro dela.

Leia também: Não há cheque em branco nenhum para Lula

28 de junho de 2023

Lula: três canoas e um iceberg

O saudoso Vito Giannotti costumava dizer, em suas aulas, que Getúlio Vargas caiu porque tinha uma pé em cada canoa. De um lado, a canoa da classe operária. Do outro, a dos patrões e latifundiários. Quando as duas tomaram rumos diferentes, “tchibum pra Getúlio”.

A política de Lula sempre sofreu de mal parecido. Mas, ultimamente, apareceu uma terceira embarcação. Além dos barcos dos trabalhadores e do grande capital, se destaca o do ambientalismo.

O problema é que essa terceira canoa também está sob comando do grande capital, o que acaba inviabilizando sua navegação. Afinal, é impossível preservar o equilíbrio ambiental sem superar a submissão total à busca de lucros que é a razão de ser do capitalismo.

A principal função do ambientalismo capitalista tem sido a de servir de pretexto para as políticas comerciais que protegem os interesses das economias centrais. Depois de impor seu modelo colonial destrutivo em todo o planeta, elas cobram responsabilidade ecológica fora de suas fronteiras. É mais ou menos disso que falava Lula em frente à torre Eiffel, dias atrás.

Mas retórica bonita nada pode contra uma poderosa broca perfurando todas as embarcações ao mesmo tempo. No comando da furadeira o grande capital nacional e transnacional. Sua ala agro-destruidora odeia Lula. Apesar dos enormes lucros obtidos nos mandatos petistas, causa-lhe pânico a possibilidade de perder uma pequena lasca de seus latifúndios para trabalhadores rurais, indígenas e quilombolas. Já as alas industrial-financeiras-parasitárias, observam satisfeitas o governo aceitar a carta de navegação imposto pelo Banco Central.

Lula segue em seu exercício de equilibrista. Mas há um iceberg de tragédias sociais no horizonte.

Leia também: As “massas” não são ingratas, ignorantes ou traidoras

19 de junho de 2023

Junho de 2013: serpentes e possibilidades

Junho de 2013 foi um acontecimento objetivo da luta de classes. Iniciado por movimentos como o da luta pelo Passe Livre, a dimensão gigantesca que suas manifestações assumiram não foi resultado da ação de nenhum ator político.

As forças que participavam dos acontecimentos não conseguiram ou não pretendiam imprimir-lhes uma direção centralizada ou pauta unificada. Mas seu perfil de esquerda era inegável.

Se a situação econômica era relativamente estável, não se podia dizer o mesmo das lutas sociais. Em 2013, o número de greves no país atingiu o maior índice em décadas. Mas nem a esquerda governista nem a oposicionista conseguiram transformar essa elevada temperatura sindical em apoio a seus respectivos projetos.

Elemento fundamental era uma sociedade com uma enorme demanda represada por justiça social frente a uma estrutura de dominação totalmente avessa a tal pretensão. Mesmo a chamada “inclusão pelo consumo” promovida pelo projeto petista mostrou-se tão inaceitável pelos de cima como insuficiente diante dos anseios vindos de baixo.

Outro elemento objetivo era um partido de esquerda ocupando a presidência da república há uma década. Refém e cúmplice do pacto pela “governabilidade”, a reação do petismo oficial foi truculenta e intolerante.

Junho surpreendeu a esquerda moderada e a radical; a direita tradicional e sua ala selvagem. Mas somente esta última saberia explorar, nos anos seguintes, as contradições expostas pelos acontecimentos de 2013.

Tudo isso mostra que menos que ovos de serpente, havia muitas possibilidades promissoras que foram pisoteadas. Ignorar toda essa complexidade nos levará a cometer erros ainda mais graves na eventualidade nada desprezível de outro Junho acontecer.

Leia também: Junho de 2013: o ovo de quatro estrelas

9 de janeiro de 2023

O Lula empossado e o Lula possuído

Lula subiu a rampa acompanhado de uma mulher negra, liderança dos catadores de materiais recicláveis; do cacique Raoni; de um menino negro; um metalúrgico; um professor; uma cozinheira e um militante em defesa de pessoas com deficiências.

Todos encarnados em representatividade. Mas quem viu a cena do ponto de vista da sagrada tradição das lutas populares, enxergou muito mais gente subindo aquela rampa.  

Estavam presentes os espíritos de Palmares, Canudos, Contestado, Conjuração Baiana, Revolta Malê, Cabanagem, Sete Povos das Missões. Também compareceram Sepé Tiaraju, Zumbi, Marighella, Chico Mendes, Dorothy Stang, Marielle, Bruno, Dom e muitos outros que adotaram o ex-metalúrgico e eterno sertanejo como seu cavalo de santo. Aquele que recepciona a energia de resistência popular. Aquela que nunca se acaba, apenas se transforma.

É certo que também havia os espectros de capitães-do-mato, bandeirantes, cangaceiros, jagunços, carrascos, torturadores e fascistas. Pois a mediunidade de Lula encarna as contradições da luta de classes da história nacional. Atrai não apenas os bons espíritos, mas também arrasta consigo os piores.

Lula tomou posse ao mesmo tempo em que era possuído. Governo de frente ampla pode até ser de salvação nacional, mas tanto invoca como é presa de coisas ruins.

É verdade que, durante a posse, o ar estava leve e limpo como nas matas guardadas pelos orixás e encantados. Mas criaturas malignas continuam circulando pelo terreiro nacional. Foi o que se viu ontem, na Praça dos Três Poderes. Por algumas horas, imperou o poder trevoso do fascismo bolsonarista, enquanto as forças da ordem conjuravam a desordem.

É resistência, povo lutador! Mbaraeté! Empunhemos com firmeza o machado de Xangô!

Leia também: Lula, o cavalo do terreiro nacional

17 de novembro de 2022

Lula e STF facilitando para o bolsonarismo

“Discurso de Lula na COP27 resgata papel do Brasil”, diz o título do editorial do Globo de hoje sobre o pronunciamento do presidente eleito na conferência do clima das Nações Unidas.

Mas, segundo o jornalão, Lula “errou feio” ao aceitar carona no avião de José Seripieri Junior, dono da Qualicorp, um dos maiores grupos de saúde privada do País.

Depois de saudar o pronunciamento de Lula, o editorial termina, esperando que “doravante” ele saiba “separar o espaço público de interesses privados”.

Por falar em mistura de interesses públicos e privados o jurista Conrado Hübner Mendes, tratou do tema em sua coluna publicada também hoje, na Folha. Mendes destacou a presença de seis ministros do STF na "Lide Brazil Conference", em Nova York.

O evento foi organizado pela "Lide - Grupo de Líderes Empresariais", empresa de João Doria, que segundo o articulista, dedica-se a "fazer pontes" entre o mundo corporativo e o mundo público. “Não precisa chamar de lobby se tiver apego ao eufemismo”, adverte ele.

Realmente, não há o que justifique seis dos togados mais poderosos do país juntos e misturados com quem manda em grande parte da economia nacional. Apesar disso, não houve editoriais condenatórios nem toda a comoção que se verificou no caso de Lula.

Além disso, comparando os dois casos, note-se que, diferente de magistrados pretensamente neutros, Lula nunca escondeu suas amizades com empresários desde que era metalúrgico.

Mas, de um jeito ou outro, é preciso levar a sério a advertência do colunista da Folha: “há várias formas de Bolsonaro sair vitorioso após a derrota eleitoral”. Toda essa promiscuidade é uma delas.

Leia também: Lula sob ameaça de prisão

3 de novembro de 2022

Fazendo o L de Lênin

Não. Não se trata de defender a revolução socialista após a vitória de Lula sobre a extrema-direita. Nem de criar um partido revolucionário, fortemente centralizado e hierarquizado, guia absoluto das massas proletárias. 

Em geral, muito do que se costuma chamar de leninismo despreza grande parte da obra teórica e prática do grande revolucionário russo. 

Lênin sempre procurou ser um seguidor fiel de Marx. Assim, em junho de 1920, por exemplo, ainda em plena guerra em defesa da Revolução Russa, Lênin escreveu num artigo: “aquilo que constitui a própria essência, a alma viva, do marxismo é a análise concreta da situação concreta”.

Somente a análise concreta da realidade pode fornecer pistas sobre o que fazer para alcançar objetivos revolucionários. Ou seja, aquilo que muitos identificam como sendo a fórmula leninista para todas as revoluções resume-se à escolha de determinados caminhos feita por ele e seus camaradas nas condições da Rússia do início do século passado.

Lênin aprendeu com Marx que a realidade é o resultado de múltiplas determinações. Portanto, nossa análise da realidade deve levar em consideração o máximo de determinações que a constitui para nos aproximarmos de sua concretude. 

São, certamente, muitas as determinações que levaram à terrível situação que estamos vivendo. A herança escravocrata, um aparato de dominação extremamente brutal, enorme injustiça social, forte conservadorismo social, superexploração econômica, uma institucionalidade totalmente corrompida. Estas são apenas algumas delas.

Dialeticamente, porém, esses anos de terrível sofrimento com a extrema-direita no poder revelaram muitas dessas determinações da forma mais crua. É preciso agarrar essa dialética pelos cabelos. Fazer o L de Lula, de Lênin, mas principalmente da luta.

Leia também: Uma vitória de Pirro? Uma vitória da porra!

28 de setembro de 2022

Não há cheque em branco nenhum para Lula

Em sua coluna de hoje, no Globo, Vera Magalhães alertou que tantos e tão diferentes apoios declarados a Lula não podem “ser um cheque em branco para o petista gastar como bem entender”.

Na mesma edição, Alvaro Gribel descreveu o encontro de Lula com “pesos-pesados” do empresariado nacional, ocorrido, ontem, em São Paulo. O texto destaca os elogios de Aloizio Mercadante ao governo FHC, assim como a necessidade de combater a inflação a qualquer custo. Não à toa, Abílio Diniz brincou, chamando-o de “economista liberal”.

Em sua vez de falar, Lula preferiu passar a palavra para os empresários, para “saber deles o que seu governo precisava fazer para resolver os problemas do Brasil”.

Falaram Abílio Diniz, ex-Pão de Açúcar, André Esteves, do BTG, Fábio Ermínio de Moraes, da Votorantim, e Luis Henrique Guimaraes, do grupo Cosan. “Em comum, os quatro executivos trataram Lula como próximo presidente eleito”, relata o colunista. Ainda segundo ele:

Lula falou abertamente que é contra o teto de gastos, mas prometeu voltar a ter superávits primários. Deu a entender que essa será a sua política fiscal, a mesma que vigorou em seu governo. Prometeu recuperar a credibilidade internacional do país, e que a sociedade brasileira entrou em pânico, a ponto de apoiar e eleger um político como Bolsonaro.

Tá certo. Pra que teto de gastos se já existe o superávit primário, também conhecido como bolsa-família do grande capital?

Cheque em branco nada, Vera Magalhães. Já está preenchido e será descontado dos miseráveis saldos da maioria pobre e explorada do País. Derrotar Bolsonaro é prioridade absoluta. Mas vai nos sair muito caro.

Leia também:
O grande capital não tem o que reclamar de Bolsonaro
Era Lula: pobre é baratinho

No avesso das eleições, algum caminho

Em agosto de 2022, o Coletivo Desmedida do Possível lançou um manifesto muito lúcido e necessário sobre as eleições que se aproximam e seus desdobramentos. Abaixo, alguns trechos:

Somos pela derrota de Bolsonaro. Logo, somos pela eleição de Lula. (...)  Uma vitória de Bolsonaro pode abrir as portas para o golpismo, mas uma derrota também. Nada é garantido. No entanto, sua derrota eleitoral assegura que o golpismo continuará ilegítimo e ilegal.

(...)

O retorno da contenção lulista pode ser um passo para trás, de uma classe dominante em busca de uma saída da Nova República. No fundo, seria uma antessala de novas batalhas. O novo consenso parece ser uma trégua, para retomar uma guerra inevitável.

(...)

A dinâmica da guerra emana das formas de reprodução da vida brasileira. Há uma guerra dos de cima, contra os de baixo. Há uma guerra do Estado, contra a população preta e pobre. Mas, acima de tudo, a guerra é cotidiana, porque a forma de vida é concorrencial: o desempregado concorre com o desempregado, mas também com quem está empregado. Que, por sua vez, concorre com seus colegas de emprego.

(...)

Vivemos um mundo que produz em abundância, mas essa abundância é vivida como escassez. Esse feitiço tem um nome: mercadoria.

(...)

Não está claro se a paz tem futuro. Mas está claro que só teremos um futuro emancipado, à altura da nossa imaginação, se escaparmos da política da mercadoria. As eleições, no estágio atual, servem globalmente para encobri-la. No avesso das eleições, talvez possamos descobrir algum caminho.

Vale a pena ler a íntegra, disponível aqui.

Leia também: À burguesia interessa decisão no segundo turno

8 de setembro de 2022

À burguesia interessa decisão no segundo turno

Em junho de 2021, Marcos Nobre afirmou que Bolsonaro era candidato “fortíssimo” à reeleição. Passado mais de um ano, não é possível dizer que o respeitado cientista social estivesse erradíssimo. Talvez, apenas errado.

A candidatura Bolsonaro parece não sair do lugar. E segundo a maioria dos analistas, o mais recente Sete de Setembro só serviu para manter sua base aguerrida, porém minoritária. 

Mesmo assim, continua difícil que a eleição se resolva no primeiro turno. E não apenas pela aparente dificuldade da candidatura petista em ganhar os votos necessários. 

Em poucos momentos históricos, as divisões no interior da burguesia ficaram tão nítidas. E a capacidade de superar essas divisões, também. Bolsonaro ainda não foi completamente descartado pelos setores mais importantes do grande capital.

É o caso dos grandes varejistas. Personagens desprezíveis como Luciano Hang e seus cúmplices golpistas devem muito a Bolsonaro, cujas políticas fizeram despencar o valor da força de trabalho, explorada em larga escala por eles.

Já o agronegócio ama a política bolsonarista de destruição ambiental e tem como maior cliente a China, cujo pragmatismo impede qualquer retaliação comercial devido a derrubada de florestas, ataques a direitos ou violência contra populações locais.

Claro que a potências da mídia empresarial, como a Globo e parte da grande imprensa, interessa derrotar Bolsonaro, uma vez que este lhes declarou guerra já durante a campanha eleitoral passada.

Mas uma definição em segundo turno seria o ideal para todos. Não só para arrancar mais concessões de Lula, como para tentar domesticar Bolsonaro. Esta última alternativa, muito improvável, felizmente.

Por enquanto, não há nada erradíssimo ou certíssimo. Só tensíssimo!

Leia também: Das muitas conspirações, a menos pior

6 de setembro de 2022

Das muitas conspirações, a menos pior

A situação que vivemos atualmente é resultado de várias conspirações. Começou com o golpe do impeachment tramado pelos tucanos, inconformados com sua derrota eleitoral. Seu braço operacional, a Lava-Jato. 

Um tanto tardia, mas fundamental, foi a entrada em cena da cabala do Centrão, integrando o próprio governo a ser derrubado. 

O objetivo era enterrar qualquer ambição eleitoral do PT nas eleições seguintes. Mas a mancomunação militar atropelou geral, obrigando todas as outras a confluir para a eleição de Bolsonaro.

Empossado, o novo presidente dificultou bastante as coisas. Mas o entrelaçamento de interesses estabelecidos para viabilizar a deposição de Dilma manteve harmonia suficiente para sustentar o possuído.

Incluída aí a omissão igualmente conspirativa das “instituições democráticas” diante dos muitos crimes cometidos por Bolsonaro antes e durante a pandemia. 

Mas quase 700 mil mortes pela Covid, economia rastejando, desemprego voando e fome se espalhando, além das inúmeras ilegalidades cometidas pela conluio lavajatista, acabaram permitindo o retorno de Lula ao cenário eleitoral. 

Nesse momento, sob o temor de uma derrota acachapante do capacho das casernas, alguns conjurados abandonaram suas cabalas de origem. Iniciaram uma via conspiratória alternativa, com espaço para conchavos com forças institucionais à esquerda. 

Mesmo assim, a grande conspiração, composta por outras de variados tamanhos e formas de atuação, permanece em pleno funcionamento, sem qualquer prejuízo para os inúmeros retrocessos sociais que promoveu. Por ora, relativamente ameaçada, somente a matilha feroz que ocupa o Alvorada. 

Verdadeiramente prejudicados, os de sempre. Vítimas da grande conjuração que une as classes dominantes há séculos. Milhões de explorados, oprimidos e massacrados, novamente condenados a escolher a conspiração menos pior.

Leia também: A esquerda aqui jaz. Mas nunca em paz

10 de agosto de 2022

A encrenca que nos aguarda, se der tudo certo

Vamos falar sobre golpe de estado. Não daquele que Bolsonaro ameaça protagonizar, mas daquele que permitiu que ele chegasse à Presidência.

Há quem duvide do caráter golpista da deposição de Dilma Rousseff devido a seu trâmite parlamentar. Como se existissem apenas golpes com tanques nas ruas e fechamento de parlamentos.

O golpe foi institucional. Produto da ação conjunta do parlamento com a cúpula judiciária, sob pressão das Forças Armadas e cumplicidade de aliados do próprio governo deposto.

Óbvio que o alvo imediato era o mandato petista. Mas seu objetivo maior, a destruição das conquistas sociais que ainda restavam na legislação e o aumento da repressão sobre os movimentos sociais e forças progressistas em geral.

O caráter institucional do golpe, porém, acabou permitindo ao PT uma sobrevida política que tornou seu retorno ao governo central uma possibilidade muito concreta. Por outro lado, dobrou a aposta petista nas vias institucionais e na política de conciliação de classes.

Enquanto isso, expandiu-se ainda mais a presença de representantes fiéis ao ideário ultraconservador na máquina estatal. Principalmente, a dos fardados.

Uma vitória eleitoral de Lula não representará uma derrota do golpe, mas somente de sua força principal. Um novo governo petista será ainda mais refém de uma “governabilidade” conservadora. Já não se tratará apenas de arbitrar os interesses das várias frações do capital, enquanto tenta aliviar o sofrimento da grande maioria pobre. Será cobrado do PT na Presidência um papel mais firme no combate às conquistas sociais e, principalmente, às lutas populares.

Tudo isso enfrentando uma oposição abertamente fascista. Tudo isso naquele que somos obrigados a considerar o cenário mais otimista.

Leia também: Lula: nosso homem infiltrado na direita

8 de agosto de 2022

Lula: nosso homem infiltrado na direita

Durante os governos petistas, seus defensores no interior da esquerda justificavam suas inúmeras rendições aos interesses da burguesia afirmando que se tratava de governos em disputa.

Verdade, eram governos em disputa. Mas nessa disputa só entravam pra valer as várias alas do capital. Aos trabalhadores cabia apoiar, desde que assistissem tudo passivamente.

Bem, o resultado já sabemos. Veio a crise econômica e as tais alas do capital resolveram descartar o “governo dos trabalhadores” dando um golpe institucional, coroado com a eleição de um fascista. A resistência foi tão fraca que não logrou nem mesmo impedir a prisão vergonhosa de Lula.

Passados quatro anos dessa imensa derrota histórica, estamos entrando em um novo momento crucial para luta de classes no País. A possibilidade de uma vitória do PT nas eleições presidenciais é grande e significaria um revés para as forças golpistas.

O problema é que um novo governo Lula será ainda mais dominado por alianças tão amplas que arrisca acolher até setores bolsonaristas. É a reedição piorada daquele governo cujos rumos estavam em disputa apenas por frações da classe dominante.

Para entender melhor todo esse processo vale a pena assistir à entrevista que o canal Tutaméia fez com o professor de Ciência Política da Unicamp, Armando Boito.

Segundo o entrevistado, há principalmente duas frações burguesas disputando a hegemonia no bloco do poder. Uma da burguesia “interna”, que não é anticapitalista ou anti-imperialista. A outra, abertamente entreguista. E Lula procura organizar uma ampla frente em defesa do primeiro setor.

Ou seja, na melhor das hipóteses, Lula é nosso homem infiltrado na direita. Sozinho e muito mal acompanhado.

29 de setembro de 2021

O que está em disputa são os rumos do golpe de 2016

Não deveria ser necessário dizer isso, mas o que está em andamento no cenário político nacional é a disputa sobre os rumos do golpe de 2016.

Deposta Dilma Roussef, o objetivo dos golpistas era abrir caminho para a vitória tucana em 2018, enquanto Temer aprovava mais medidas neoliberais e novas revogações de conquistas e direitos sociais.

Derrotado o PT, o desmonte da Constituição ganharia novo impulso e os movimentos sociais, depois de anos sendo apaziguados pelos governos petistas, seriam desmantelados definitivamente.

Mas surgiram dois elementos imponderáveis. Primeiro, nem o impeachment nem a prisão de Lula foram suficientes para matar o PT eleitoralmente. E uma nova vitória petista seria desmoralizante para a burguesia.

O jeito foi agarrar-se a Bolsonaro. Mas este revelou ser outro elemento imponderável. Seu comportamento errático e limitações políticas tornaram-se um obstáculo à entrega das reformas ultraliberais que a burguesia esperava dele. Sem falar nas ligações com o banditismo mais exacerbado, que acabou destruindo o já esfarrapado disfarce anticorrupção dos golpistas.

A pandemia agravou o estado de incerteza no andar de cima. Não exatamente pela montanha de mortos, mas pelo cinismo escancarado do responsável pelo genocídio. Além disso, o retorno triunfante de Lula acabou de confundir ainda mais o meio de campo.

Mas os golpistas não precisam se desesperar. Por enquanto, nada muito sério ameaça seus objetivos. Uma vitória apenas eleitoral da esquerda pode muito pouco em relação às enormes conquistas que o período Temer/Bolsonaro lhes proporcionaram.

Sem forte mobilização popular, um governo Lula somente significará um revés temporário na disputa dos rumos do golpe, jamais sua derrota.

Leia também: A derrota de Bolsonaro, só as ruas garantem

29 de novembro de 2019

Hora de mostrar quem são os comunistas

Se Bolsonaro considera comunistas todos os que se opõem a ele, passou a hora de riscarmos uma linha demarcatória do lado de cá.

Só pra começar, comunistas são os que pretendem impor pesada taxação sobre o grande capital e patrimônios milionários. São os que exigem representação dos trabalhadores na direção de todas as empresas. Defendem a aprovação da totalidade dos orçamentos públicos em conselhos populares. Prometem um grande programa de reestatização. Querem passe livre para tudo e todos nas cidades. Auditoria da dívida pública imediatamente. Defendem o esquecido salário mínimo de R$ 4.500,00, do Dieese. Retomam a bandeira da reforma agrária radical. Querem a imediata revogação das reformas previdenciária e trabalhista.

Somente essa plataforma realmente polariza com o extremismo fanático de Bolsonaro. Não referências a liberdades e direitos abstratos para a grande maioria da população.

Ao mesmo tempo, essas propostas inviabilizam a aproximação com os conservadores tradicionais, que assistem, satisfeitos, a obra de destruição de Bolsonaro contra os movimentos populares e o conjunto da esquerda.

O objetivo é exatamente o oposto do que vêm fazendo os candidatos a adversário eleitoral de Bolsonaro. Aqueles que buscam se credenciar para governar uma sociedade que a vitória fascista provou ser ingovernável a não ser para o grande capital.

É óbvio que um programa desses não venceria as atuais eleições. Por isso mesmo, jamais seria assumido por um oposicionismo que aguarda audiência nas antessalas de instituições há muito tempo apodrecidas.

É preciso aproveitar as eleições para apresentar as verdadeiras forças comunistas. Transformar suas propostas em luta permanente para reorganizar a resistência popular e impedir sua destruição.

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18 de novembro de 2019

Corrida eleitoral rumo ao desespero social

Janio de Freitas, em sua coluna publicada na Folha em 17/11/2019, destaca o “0,1% de crescimento econômico da América Latina neste ano”. A estimativa, diz ele, foi divulgada recentemente pela Cepal, instituição mantida pela ONU para estudos da economia da região.

Segundo o colunista, entre os governantes que mais contribuem para a confirmação dessa previsão estão Jair Bolsonaro e Paulo Guedes:

Da campanha até à posse, os dois falavam em crescimento de 3%, e mesmo de 3,5% neste ano. O previsto está em 0,8%. A caminho da adesão às 17 economias, entre as 20 da região, já comprometidas com o ano de desaceleração. Mas as nossas classes altas não emitiram, até agora, nem a mais sussurrante insatisfação com algo do governo Bolsonaro. Bem ao contrário.

Ratificando o que diz Freitas, há uma recente entrevista com Dan Ioschpe, presidente do Instituto para Estudos do Desenvolvimento Industrial, entidade privada mantida pelo empresariado, que reúne 50 representantes de grandes corporações nacionais.

Para ele, provavelmente “nós nunca estivemos em uma situação em que as condições macroeconômicas se aproximavam de uma favorabilidade como a atual".“Favorabilidade”. As condições são certamente muito favoráveis para o aumento vertiginoso da exploração econômica e desigualdade social.

Chile e Bolívia estão em pé de guerra. Mas o crescimento anual da economia dos dois países ficou bem acima do nosso no último período: 2% no primeiro, 5% na segunda. Mantidas as “condições macroeconômicas” elogiadas pelo representante patronal, dificilmente o Brasil escapará de uma situação social tão ou mais desesperadora que a de seus vizinhos.

Mas há quem prefira manter-se na corrida eleitoral jamais abandonada por Bolsonaro.

Leia também: A cor da instabilidade

16 de setembro de 2019

A oposição de que Bolsonaro precisa

A extrema-direita está no poder. Os ataques não cessam. Direitos sociais vêm sendo varridos da Constituição e da legislação.

A repressão vai desde a censura e perseguição a movimentos sociais e culturais à intensificação das mortes de pretos e pobres, indígenas e homossexuais, lideranças populares e sindicais.

Diante disso, é indispensável buscar a mais ampla unidade em defesa de direitos e democracia, certo? Sim, mas qual unidade e para quê?

Em 02/09/2019, na capital paulistana, foi lançado o movimento "Direitos Já!". Entre os presentes famosos, Noam Chomsky, Ciro Gomes (PDT), e o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB).

Logo depois, em 04/09/2019, aconteceu o lançamento de outra frente. Desta vez, em Brasília, com a presença do PT, grande ausente no evento anterior.

Era a Frente pela Soberania Nacional. Entre os presentes famosos, Fernando Haddad (PT), Carlos Lupi (PDT), Wellington Dias (PT), governador do Piauí, e Guilherme Boulos (PSOL).

Não faltaram entidades de luta como CUT, FUP, MST, MTST, Cimi, Apib, Fenaj, MAB e MAM.

As duas frentes surgem separadas e o calendário eleitoral, muito provavelmente, vai distanciá-las ainda mais.

De qualquer maneira, há elementos em comum às duas iniciativas. Na primeira, entre aqueles presentes famosos, Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, partido que é um dos protagonistas na aprovação da Reforma da Previdência de Bolsonaro.

Já no segundo evento, o presente mais célebre era, certamente, o senador Renan Calheiros, do MDB, outra agremiação cuja atuação em favor da aprovação das medidas de Bolsonaro é incontestável.

Direitos Já ou Direita Já? Frente pela Soberania Nacional ou pela capitulação eleitoral?

Vêm aí, as eleições municipais. Bolsonaro agradece.

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21 de agosto de 2019

Esperando, e preparando, as próximas traições

Traições pertencem ao campo da moral. A não ser quando acabam em violência. Mas, aí, tornam-se detalhes de algo muito mais grave.

Traições na política são banais. A não ser que envolvam a luta de classes. Nesse caso, podem ter consequências maiores e generalizadas. Ainda assim, continuam a ser só um pouco mais que detalhes.

Quando Lula assumiu o primeiro governo, anunciou como sua primeira grande medida uma reforma da previdência. “Traição”, gritaram vários setores da esquerda.

Afinal, desde o governo Collor, sabíamos que esse tipo de proposta sempre envolveu a eliminação de direitos para a maioria pobre e trabalhadora.

Mas a campanha eleitoral petista não permitia maiores ilusões. A promessa de “respeitar os contratos” ou de não arriscar um “cavalo-de-pau econômico” sinalizavam perfeitamente o que pretendia o futuro governo.

Portanto, na esquerda, só se sentiram atraiçoados os mais desavisados. Menos que traição, tratava-se de expectativas frustradas para além do esperado.

Mas o mesmo pode-se dizer dos dirigentes petistas quando, anos depois, viriam a se queixar da deslealdade de seus aliados ao sofrerem um golpe articulado pelo próprio vice-presidente.

O que representam Dilma deposta, Lula trancafiado e Bolsonaro eleito? Traição? Somente para os mais desavisados. É luta de classes, mesmo.

Mas parece que boa parte dos petistas não aprendeu lição alguma. Seu horizonte continua sendo a volta ao poder pelas vias conciliatórias de sempre. E buscando o apoio de muitos dos que os apunhalaram pelas costas.

Quanto a estes, só lhes restará repetir os famosos versos de Chico Buarque. Olhos nos olhos, dirão mansamente a quem já se cansaram de chifrar: “Te perdoo por te trair”.

1 de agosto de 2019

Altamira: a transição entre a ditadura e seus porões

No final de julho, pelo menos 58 detentos foram mortos em Altamira. O maior massacre desde o episódio trágico do Carandiru.

Não foi um raio em céu azul.

O município localizado no centro-sul do Pará apareceu como o mais violento do Brasil na edição do Atlas da Violência, de junho de 2017.

O levantamento feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontava uma taxa de homicídios e mortes violentas de 107 por 100 mil altamirenses.

A média nacional era de 30 mortes.

Em 2000, a realidade de Altamira era muito diferente. Aquela taxa era seis vezes menor: 11 por 100 mil moradores.

E o que aconteceu nesse intervalo de tempo para que se chegasse a esse estado de barbárie?

A resposta é tão precisa quanto triste e revoltante: a Usina de Belo Monte, cuja construção foi lançada pela ditadura militar e perdeu impulso até que sua conclusão virou questão de honra para os governos petistas.

Não adiantaram os inúmeros protestos e denúncias de ambientalistas, entidades populares e, principalmente, lideranças indígenas contra a construção. Foram ignorados e desprezados.

Quando questionado sobre a morte dos presidiários, Bolsonaro respondeu: "Pergunta para as vítimas dos que morreram lá o que eles acham". Frio e estúpido, como sempre. Mas, neste caso específico, a diferença entre ele e seus antecessores não é tão grande.

Os governos petistas retomaram um projeto dos governos militares, imitando, inclusive, seus métodos autoritários. Bolsonaro representa a mentalidade dos carrascos a serviço daqueles governos.

A esquerda que ajudou a promover esse reencontro entre a ditadura e seu porão também deve explicações.

10 de julho de 2019

Pequena divagação florestal

“É preciso enxergar a floresta e não apenas suas árvores”, dizem.

Sem dúvida. Mas, que floresta cerca, por exemplo, a árvore representada pela eleição de Bolsonaro em 2018? Ela compreende somente as fake news, o apoio das igrejas neopentecostais, o papel da grande mídia, a famigerada “facada”, a Operação Lava-Jato?

Certamente. Mas essa cartografia florestal pode deixar de fora as Jornadas de 2013? Momento que sinalizou o fracasso de um projeto político que equivocadamente contava com a concordância das classes dominantes para promover alguma justiça social no País?

Por outro lado, seria o malogro da aposta petista suficiente para definir os limites florestais que nos interessam? Ou grande parte de suas raízes não estariam na crise de 2008, quando começou a grande depressão em que caiu a economia mundial desde então?

Além disso, por toda a extensão dessa paisagem arbórea ouve-se um persistente ruído ao fundo. Ele é causado pela permanente demolição neoliberal do direito ao trabalho digno, desde os anos 1980, pelo mundo todo.

O fato é que floresta e árvores formam um todo contraditório que só pode ser compreendido de forma coerente em sua unidade dialética. Olhar apenas a floresta sem atentar para os elementos que a compõem também pode ser muito limitador.

Aparentemente, foi isso o que aconteceu no último período. O que julgávamos ser a floresta era apenas um de seus bosques. E o que pensávamos serem pequenas clareiras, já eram terra arrasada. Além disso, não percebemos que uma floresta é formada por muito mais que apenas suas árvores.

De qualquer maneira, precisamos reagir logo. As motosserras se aproximam rapidamente.

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