Doses maiores

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12 de abril de 2017

Os golpistas que usam terno

Em 10/04, o economista grego Yanis Varoufakis publicou artigo na Carta Maior lembrando como a “breve rebelião da Grécia contra a depressão permanente foi impiedosamente sufocada”, em 2015.

Um dos episódios que ele viveu durante o breve período que foi ministro de finanças no governo do Syriza envolveu as estratosféricas remunerações da cúpula do banco central grego. Para dar exemplo, Varoufakis decidiu cortar-lhes o salário em cerca de 40%, “correspondente à média das reduções salariais por toda a Grécia desde a crise de 2010”.

Imediatamente, a União Europeia (UE), tão zelosa na hora de diminuir “salários e pensões” dos trabalhadores, protestou. Os atingidos seriam seus funcionários de confiança. E foi assim que:

Após a UE forçar nosso governo à submissão e após minha demissão, aqueles salários foram aumentados em 71% – o pagamento anual dos executivos-chefes foi elevado a 220 mil euros (R$ 732 mil). No mesmo mês, aposentados recebendo 300 euros (R$ 1.000) por mês teriam esses proventos cortados em até 100 euros.

Segundo o texto, este episódio mostra que a Grécia sofreu um “golpe moderno”: “as instituições europeias utilizaram os bancos, não tanques. E os golpistas, no lugar de fardas, usam “ternos e tomam água mineral”.

Podemos dizer que algo parecido aconteceu em muitos países, incluindo o Brasil. Muito antes do golpe de Temer, já tínhamos burocratas de confiança das finanças mundiais em postos-chave do governo local.

Agora, em meio a tantos indiciamentos de políticos por corrupção, adivinhem quem governa  impune e tranquilamente, mesmo causando enorme e criminosa miséria social? Henrique Meirelles, que, com seu terno e muita água mineral, afoga o Pais na recessão.

23 de junho de 2016

Contra a União Europeia, o internacionalismo dos explorados

Acontece hoje um importante referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia. A consulta opõe forças políticas radicalmente favoráveis e contrárias. Mas a confusão é grande.

Os trabalhistas, maior força da esquerda moderada inglesa, são favoráveis à permanência. Assim como o conservador David Cameron, atual primeiro-ministro do país.

Por outro lado, forças de extrema-direita são contrárias, utilizando argumentos racistas e reacionários.

Mas nem todos na esquerda pensam como os trabalhistas, ao mesmo tempo em que se diferenciam da direita.

É o caso dos marxistas NeilDavidson e JosephChoonara, que apresentam análises precisas sobre a questão em dois bons artigos, infelizmente, ainda sem tradução.

Basicamente, eles argumentam que a União Europeia não passa de um arranjo neoliberal governado de modo antidemocrático.

Por um lado, trata-se de uma região unificada através do poder econômico. Mais especialmente, em torno do capital alemão, cujos interesses são defendidos a ferro e fogo pela cúpula da UE sediada em Bruxelas.

Uma prova disso é a situação calamitosa da Grécia. À recusa do plebiscito grego às imposições econômicas da UE, Bruxelas respondeu que não se dobra a decisões políticas. A não ser que elas sejam tomadas em Berlim, faltou acrescentar.

Quanto ao argumento de que votar pela saída significa piorar a situação dos imigrantes, basta lembrar as dezenas de milhares de refugiados barrados nas fronteiras da UE diariamente.

Por estas e outras, apoiar o voto pela saída é a postura mais coerente em relação aos interesses dos explorados e oprimidos da região. A estes só pode interessar o internacionalismo dos trabalhadores contra a globalização do capital.

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16 de julho de 2015

A tragédia grega e a heroica resistência de seu povo

Desde o estouro da crise de 2008, a Grécia está no olho do furacão. Não apenas porque sua economia foi afetada de maneira especialmente cruel. Também porque a tradição militante e combativa da esquerda grega é grande.

Desde 2010, foram mais de 30 greves gerais, milhares de manifestações e ocupações, resistência corajosa contra a enorme violência policial.

É esta capacidade que está em jogo, agora, quando tudo indica que as armadilhas institucionais mais uma vez ameaçam domesticar a esquerda que chegou ao governo.

Mas o primeiro capítulo desta história não é a crise econômica de 2008. É a própria montagem da união europeia. Talvez, seja o único caso na história humana em que uma unificação monetária foi feita antes da unificação política.

Os resultados não poderiam ser mais trágicos. E não só para a Grécia. É o que já avaliava a pílula
A Europa corroída por sua moeda, assim como outros textos que, desde 2010, têm a crise grega como preocupação central. Abaixo, alguns deles.

Europa, porcos e sereias
Sexta-Feira 13 na Grécia
As cascatas da mídia sobre a crise
As mentiras sobre vida boa dos gregos
Presente de grego para os gregos
Grécia: quando cachaça é eutanásia
Porque os gregos estão tão putos
Grécia: os riscos da consulta ao povo
Os gregos, cada vez mais putos
Eleições gregas atrapalham, diz ministro alemão
De olho nos ovos dourados da galinha grega
A cigarra grega nas garras das formigas capitalistas
A Grécia como laboratório da extrema-direita
As serpentes no berço do Syriza
Grécia e Alemanha. Quem deve a quem?

15 de julho de 2015

A crise grega e o guarda-livros de Auschwitz

O ex-ministro grego, Yanis Varoufakis, ficou famoso por enfrentar os negociadores do chamado Eurogrupo, que reúne ministros da área econômica da União Europeia.

Segundo o representante grego, os membros desse grupo se recusavam completamente a discutir seus argumentos econômicos, limitando-se a receber suas propostas com “olhares vazios”.

O verdadeiro chefe deste colegiado implacável é o representante da Alemanha, Wolfgang Schäuble. Foi ele que disse, por exemplo, que não mudaria suas posições “por causa de uma eleição”, referindo-se ao plebiscito grego que disse “não” às propostas que ele representava.

Durante as negociações, Varoufakis disse ao Eurogrupo que a derrota do governo grego “beneficiaria a extrema direita”. Uma próxima rodada de negociações poderia ser feita com um governo liderado pelo “Aurora Dourada”, partido fascista da Grécia.

Ninguém deu a mínima, Varoufakis demitiu-se, saiu das negociações, e o governo grego acabou aceitando uma proposta ainda pior do que a que seu povo recusou nas urnas.

Curiosamente, dois dias depois, um tribunal alemão condenou um antigo oficial nazista a quatro anos de cadeia. Oskar Groening era uma espécie de guarda-livros de Auschwitz. Sua função era contar o dinheiro tirado dos prisioneiros e enviá-lo para seus chefes nazistas, em Berlim.

Em sua defesa, Groening declarou apenas cumprir ordens. Talvez, Schäuble não seja nazista, mas tal como fazia o guarda-livros de Auschwitz, apenas obedece a ordens que jogam milhões na miséria e garantem o fluxo de moedas exigido por seus chefes, em Berlim.

O trágico nesta comparação é que sobrou para o primeiro-ministro grego, Alex Tsipras, o papel de “kapo”, nome dado aos guardas judeus dos campos de concentração.

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A crise grega é política

3 de julho de 2015

A crise grega é política

A terrível crise por que passa a Grécia é tratada pelos poderosos financistas da Europa como um problema técnico. Bastaria ao país adotar as medidas recomendadas por eles para sair do atoleiro. Qualquer coisa diferente é ideologia e politicagem, ainda que parta de um governo legitimamente eleito.

Este discurso é repetido pela grande imprensa e especialistas neoliberais. Entre estes últimos está Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getúlio Vargas. Na edição do Globo de 02/07, ele deu uma entrevista sobre a crise grega.

Referindo-se ao plebiscito sobre a aceitação das medidas profundamente injustas e penosas que os credores querem impor ao país, Langoni diz que “se o Syriza perder o plebiscito, as condições de um governo mais conservador vão viabilizar a mesma proposta de agora”.

Ou seja, as medidas apresentadas pelos atuais dirigentes gregos seriam aceitas se não viessem de um governo de esquerda cuja eleição se apoiou em enorme mobilização popular. Como se vê, são os neoliberais que se apoiam em politicagem e ideologia barata.

A atitude lembra o posicionamento Henry Kissinger quando era Secretário de Estado do governo Nixon. Ao justificar a derrubada de Allende no Chile, ele afirmou: “Não vejo por que temos de ficar parados enquanto um país se torna comunista pela irresponsabilidade de seu povo”.

Agora, como antes, a democracia é apenas um detalhe.

Qualquer que seja o resultado do plebiscito grego, o cenário ficará ainda mais politizado e ideologizado. Diante de um novo governo conservador ou do atual, reforçado, caberá aos movimentos e partidos de esquerda defender nas ruas a democracia que nelas construíram.

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1 de julho de 2015

Calamidades: as gregas e as nossas

Segundo Massimo Amato, no capitalismo, “as dívidas não existem para serem pagas, mas para serem compradas e vendidas". A afirmação do pesquisador em História Econômica da Università Bocconi, de Milão, foi feita ao IHU-Online, em 29/06.

De fato, os donos desses débitos tornados mercadoria escravizam muitos de seus devedores. Especialmente, os povos dos países cujos dirigentes se deixaram capturar por uma financeirização de dívidas que as torna impagáveis.

É o caso da Grécia, que acaba de se recusar a pagar os 1,6 bilhão de euros supostamente devidos ao Fundo Monetário Internacional. Segundo a imprensa, seria o primeiro “país desenvolvido a dar um calote no fundo”. Mas, na verdade, trata-se do mínimo de soberania que resta a um povo castigado há 5 anos. É a tentativa de sair da armadilha montada pelo FMI.

Quem conta essa história é Paulo Nogueira Batista, que era diretor executivo do FMI no momento do empréstimo, em 2010. Há vários meses, o brasileiro vem afirmando para a imprensa que o acordo firmado naquele ano foi apresentado “como um programa de resgate para a Grécia, quando, na verdade, foi mais um resgate dos credores privados do país”.

Ou seja, a fatura cobrada é dos bancos franceses e alemães. Não tem nada a ver com a “reestruturação da economia grega”, como dizem os representantes do Fundo. Claro que a grande mídia, aqui e lá fora, esconde esta situação.      

O peso dessa e outras dívidas ilegítimas no orçamento público grego é de 50%. No Brasil, esta proporção está em 45%. A calamidade grega não chegou aqui. Ela já está instalada há muitas décadas.

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9 de fevereiro de 2015

Grécia e Alemanha. Quem deve a quem?

Manifestação em Atenas
Os problemas econômicos do novo governo da Grécia giram em torno, principalmente, de um grande buraco negro. É a dívida pública do país, que representa o dobro de seu PIB.

Mas dívidas representam um problema para praticamente todos os países. Os Estados Unidos, por exemplo, são os maiores devedores do mundo. Só que ninguém é louco de cobrar.

Já a potência alemã, é uma grande credora. Principalmente, dos europeus e, em especial, dos gregos, a quem apertam como nunca. Mas a Alemanha também teve seus problemas graves com dívidas.

Para começar, no início dos anos 1950, o país dirigido por Angela Merkel devia quase 30 bilhões de marcos. Um acordo com seus credores reduziu o valor para menos da metade.

Por trás das negociações, a pressão americana, que temia a influência soviética sobre os derrotados da Segunda Guerra. De qualquer maneira, foi através da renegociação de sua dívida que a Alemanha arrancou para tornar-se a atual potência mundial. Entre os países que perdoaram os débitos alemães, estava a Grécia.

Mas a história começou antes disso. Nos anos 1940, ocupada pelos nazistas, a Grécia teve que emitir milhões em sua moeda nacional para que os invasores alemães financiassem seus esforços de guerra. Em troca, os alemães deixaram um documento em que se comprometiam devolver o montante. Compromisso jamais honrado.

Os alemães podem alegar que se trata de uma dívida ilegítima, contraída para arrasar a economia de países inteiros e eliminar milhões de vidas. Os gregos poderiam responder que o atual governo alemão já vem tentando fazer algo parecido, só que por outros meios.

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Aprendendo a aprender com o Syriza
Capitalismo é dívida, paga pelos pobres

29 de janeiro de 2015

Aprendendo a aprender com o Syriza

Suspensão de privatizações, aumento do salário mínimo, eletricidade gratuita para 300 mil famílias pobres. Estas são algumas das primeiras medidas do governo do Syriza que estão sendo comemoradas pela esquerda em geral.

Ao mesmo tempo foi anunciada uma aliança com o partido de direita, Gregos Independentes, para obter maioria no parlamento. Também são preocupantes as declarações de Alexis Tsipras sobre a renegociação da enorme dívida pública do país sem citar a realização de uma auditoria.

Um artigo importante para entender o que está em jogo é “Syriza enfrenta decisões difíceis”, publicado no portal “Rebellion” pouco antes da vitória. Escrito por Dimitris Belladis, membro do partido, o texto cita algumas das medidas já adotadas.

Mas Belladis também considera prioritário restabelecer o “direito de manifestação” e retirar dos espaços públicos as “forças especiais da polícia”. Algo vital para um governo eleito graças a uma onda radical de lutas. Sem isso, as negociações tendem a ficar nos parlamentos corrompidos e as decisões do governo podem perder o necessário caráter anticapitalista da saída grega para a crise.

Por outro lado, restrições antidemocráticas semelhantes foram adotadas em várias partes do mundo. No Brasil, desde as manifestações de junho de 2013. A prisão ilegal e ilegítima de 23 manifestantes no Rio de Janeiro é só uma evidência disso.

O grave é que, aqui, os levantes populares surgiram antes da adoção da “austeridade neoliberal” por Dilma Roussef. Como reagirão os trabalhadores quando surgirem as consequências dessa opção desastrosa? Se vierem novas revoltas, a responsabilidade pela repressão será do governo petista. A nossa é aprender com o Syriza como se aprende com quem luta.

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Na Grécia, nem Lula nem Chávez

28 de janeiro de 2015

Na Grécia, nem Lula nem Chávez

O “Financial Times” pergunta: o novo líder grego seria um Lula ou um Chávez? O jornal britânico refere-se a Alexis Tsipras, principal nome do Syriza, partido que venceu as recentes eleições gregas.

Segundo a publicação, o líder venezuelano representaria o radicalismo e o brasileiro, a moderação. A comparação não tem sentido. Por mais influentes e brilhantes que sejam alguns indivíduos, suas ações são resultado de complexos processos sociais e históricos. Do movimento de forças contraditórias e coletivas.

Eleito em 1999, Chávez era, realmente, muito mal visto pela elite venezuelana e pelo imperialismo estadunidense. Mas sua guinada à esquerda foi causada principalmente pela tentativa de derrubá-lo, em 2002. O jogo sujo da direita, de um lado, e a reação popular que derrotou o golpe, de outro, empurraram o líder venezuelano à confrontação aberta com o imperialismo.

A vitória de Lula, em 2002, não inaugurou uma nova era de avanços das lutas dos trabalhadores. Ao contrário, marcou o esgotamento do neoliberalismo combinado a uma década de derrotas políticas e organizativas dos explorados e oprimidos. Representou uma adaptação rebaixada a este processo.

Diferente de tudo isso, a ascensão de Tsipras é produto de anos de heroica resistência dos trabalhadores gregos. Dezenas de greves gerais e centenas de manifestações. Muitas batalhas violentas travadas nas ruas contra a polícia. Ou seja, os processos sociais por trás da vitória do Syriza têm um caráter extremamente radicalizado.

Nada disso garante que o governo do Syriza atenderá as expectativas dos milhões de lutadores que o elegeram. Significa apenas que ainda estão por vir muitos
conflitos cujos desfechos, sejam vitórias ou frustrações, serão igualmente radicais.

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27 de janeiro de 2015

As serpentes no berço do Syriza

A Grécia é considerada o berço da civilização ocidental. Também teve seu momento de glórias militares. Sob o reinado de Alexandre, conquistou um império que ia dos Balcãs à Índia, incluindo o Egito e o atual Afeganistão.

Veio a decadência e os gregos chegaram a ser dominados pelos turcos por 350 anos. Um pouco depois de livrar-se do domínio estrangeiro, porém, o país caiu nas garras do fascismo, derrotado em uma dura guerra civil.

Mas as agruras gregas estavam longe de terminar. De 1967 a 1974, o país sofreu sob a ditadura dos coronéis. Nem mesmo aqueles que são considerados os inventores da “democracia” foram poupados da onda de ditaduras impostas pela Guerra Fria.

A volta da democracia não impediu que outra tragédia caísse sobre o povo grego. O país deixou-se levar pela mitologia neoliberal de uma Europa unida pela força do dinheiro. Em 2008, caiu vítima da mais terrível onda recessiva de sua história.

Desde então, os trabalhadores gregos resistem bravamente, realizando greves gerais e manifestações. Sob forte repressão, recusam-se a aceitar que a maioria explorada pague pela crise. No último dia 25/01, deram um passo a mais nesta luta. Elegeram um governo que promete se livrar da política de austeridade neoliberal que castiga o povo há seis anos.

O maior herói helênico é Hércules. Ainda bebê, estrangulou duas serpentes colocadas em seu berço. A vitória do Syriza é a mais nova esperança grega. Não nasceu filho de Zeus, mas da plebe, fortalecida pelas lutas das ruas. Também está cercada por serpentes venenosas. Entre elas, as ilusões em mudanças profundas pela via institucional.

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Os três cavaleiros do apocalipse europeu

14 de agosto de 2013

Os três cavaleiros do apocalipse europeu

A Grécia acaba de encerrar o vigésimo trimestre consecutivo de recessão econômica. O desemprego chegou ao recorde de 26,7%, quatro pontos acima do mesmo período de 2012. Enquanto isso, a dívida pública grega saiu dos 112% do PIB, em 2008, para previstos 176%, em 2013.

Tudo isso é obra das intervenções da “Troika”, que reúne Banco Central Europeu, FMI e Comissão Europeia. Desde que elas começaram, em 2010, o desemprego aumentou mais de 129%. E os jovens amargam uma taxa de desocupação de 65%, a mais alta da União Europeia.

Mas já em 2012, havia quem antecipasse este cenário quase apocalíptico. Trata-se do documento de um coletivo político grego chamado “Committee of the Free State Movement”, algo como “Comitê do Movimento pelo Fim do Estado”.

O texto começa dizendo que as medidas impostas pela Troika jamais pretenderam melhorar a situação econômica grega. Ao contrário, o objetivo seria escravizar seu povo e destruir a nação. Seria produto de um novo “totalitarismo” que, talvez, se mostre “tão mortal e ainda mais perigoso do que a violência militar usada pelo nazismo de Adolph Hitler”. Segundo o documento:

...enquanto Hitler tentou subjugar os povos com violência crua, o totalitarismo atual usa meios de enganação e manipulação, que tiram proveito das realizações mais extraordinárias da ciência e da tecnologia do século 20. Esconde sua verdadeira agenda: um programa de destruição e uma ideologia da morte, embutidos na complexidade de mecanismos econômicos e financeiros modernos.

A mesma lógica valeria para Portugal, Itália, Espanha e Irlanda. Os três membros da Troika neoliberal espalham mais terror na Europa que os quatro cavaleiros do Apocalipse.

21 de outubro de 2012

A Grécia como laboratório da extrema-direita

A Grécia continua sendo um país a ser olhado com atenção na atual crise econômica mundial. Principalmente, pela capacidade de resistência de seu povo.

Nos últimos dois anos, já foram 20 greves gerais. Não apenas contra a miséria e o desemprego. Também é uma forma de impedir as saídas conservadoras. Infelizmente, a maior parte da esquerda grega continua priorizando a saída institucional.

O atual governo é socialista e tenta manter o país na zona do Euro, mesmo que isso signifique ainda mais sacrifícios para os trabalhadores. O pior é que os socialistas vêm cedendo ao discurso conservador de forma nojenta.

É o caso do ministro Michalis Chrisochoidis, que defende a construção de um muro na fronteira com a Turquia para impedir a entrada ilegal de imigrantes. Enquanto isso, o partido neonazista “Amanhecer Dourado” joga na ofensiva. Sua deputada Elena Zaroulia, por exemplo, vem chamando os imigrantes de “sub-humanos” e “portadores de doenças”.

O próprio aparato estatal faz o jogo do inimigo. É o que declarou o historiador Tassos Kostopoulos, na reportagem “Grupo de extrema direita ganha espaço com problemas da Grécia”, publicada pelo New York Times, em 24/04. Segundo ele, “historicamente, o Amanhecer Dourado tem relações com o Estado grego, em especial com a polícia”.

É por isso que Nicos Demertzis, cientista político da Universidade de Atenas, declarou na mesma reportagem: "Neste momento, a sociedade grega é um laboratório da evolução da extrema-direita".

Uma vitória do fascismo na Grécia seria um péssimo sinal. Consequência trágica de um erro já cometido antes na história: a confiança cega na democracia dos gabinetes e palácios.

25 de maio de 2012

A cigarra grega nas garras das formigas capitalistas

A grande mídia gosta de culpar o povo grego por sua atual situação de crise. Há até quem use a fábula da formiga e da cigarra. A Grécia seria a cigarra, que só quer saber de diversão e não pensa no futuro. Representaria o oposto da formiga alemã, trabalhadora e previdente.

Para que fizesse sentido seria preciso mudar a fábula. Na vida real, a formiga fez suas provisões à custa da exploração da situação vulnerável da cigarra. Mas mesmo admitindo a irresponsabilidade da cigarra, foi a formiga que lhe emprestou a guitarra e incentivou suas farras.É o que podemos deduzir de um texto do Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Globalização Transnacional e da Cultura do Capitalismo.

O artigo, cujo título é “França, Grécia e a ‘grande armadilha’”, lembra que para fazer parte da Zona do Euro, a Grécia precisou comprovar certas condições econômicas. Para isso, seus governantes contrataram a consultoria do Goldman Sachs. O banco maquiou números e viabilizou a adoção do euro pelo país, em 2002.

Veio a crise de 2008. O inverno chegou e pegou a cigarra desabrigada. A Grécia pediu ajuda ao Banco Central Europeu. A instituição é presidida atualmente por Mário Draghi. Por estranha coincidência, Draghi era vice-presidente do Goldman Sachs em 2002. Moral da história:

...o mesmo Banco Central Europeu que na semana passada deixou de oferecer liquidez financeira a alguns bancos gregos, em meio a uma grande quantidade de saques da população, é presidido por alguém que já teve alto cargo de direção no mesmo banco responsável pelos problemas atuais da Grécia.

24 de maio de 2012

Fim da crise? Em um ou dois séculos...

A crise não voltou porque nunca foi embora. É o que diz o economista James K. Galbraith, professor de Economia na Universidade de Austin, no Texas. Em entrevista à Agência Estado publicada em 23/05, ele explica:

O risco é o mesmo de 2008, de que haja corrida, de que haja pânico. Nem chegamos a sair da crise anterior. Ainda estamos nela.

Os últimos acontecimentos confirmam. A saída da Grécia da Zona do Euro torna-se cada vez mais provável. Ontem, houve uma “reunião extraordinária dos dirigentes europeus”. O impasse continua.

Alguns dos governantes defendem menos dureza em relação aos gregos. Entre eles, o recém-eleito presidente francês, Francois Hollande. Mas a chanceler alemã Angela Merkel discorda. De concreto, apenas um aviso para que os países da região se preparem para uma eventual saída da Grécia do Euro.

Além disso, há temor em relação à situação dos bancos espanhóis. A origem do problema é a desvalorização dos imóveis. Algo muito parecido com o que ocorreu nos Estados Unidos, em 2008. Um deles, o Bankia, está precisando de ajuda urgente. O governo espanhol promete socorrer. Só que isso incharia ainda mais a enorme dívida pública espanhola.

Foi o bastante para que as bolsas do mundo todo desabassem. Mas isso foi ontem. Hoje, O Globo traz matéria cujo título é “EUA recebem alerta de recessão para o primeiro semestre de 2013”. O encolhimento econômico viria devido ao fim do socorro financeiro oficial.  

Voltando à entrevista com Galbraith, à pergunta sobre quanto tempo o mundo levaria para sair da crise, ele respondeu:

Acho que um século ou dois. Acho que meus bisnetos talvez vejam isso.

22 de maio de 2012

De olho nos ovos dourados da galinha grega

Há algumas semanas, a economia grega era o patinho feio da Zona do Euro. Recusava-se a adotar as medidas neoliberais. Pior, seu povo não saía das ruas e praças, exigindo respeito a seus direitos. Agora, a coisa mudou. É o que vem dizendo a grande imprensa:

O Estado ouviu analistas, representantes de governos, bancos e acadêmicos. Todos, de forma unânime, têm a mesma opinião: uma saída da Grécia terá um impacto global pelo menos equivalente à quebra do banco americano Lehman Brothers, em 2008, e o euro, ainda que sobreviva, não será o mesmo (O Estado de S. Paulo, 20/05).

Reportagem de Assis Moreira para o Valor, publicada em 21/05, traz aviso semelhante. Compara a saída grega do Euro às crises russa, de 98, e argentina, de 2002. É por isso que a recente reunião da cúpula do G-8 decidiu fazer tudo para impedir que isso aconteça.

Mas não se trata apenas de contágio. Artigo de Luiz Carlos Mendonça de Barros, publicado no Valor de 21/02, ajuda a entender. Segundo ele, quando o euro foi criado, seu valor representava 1,96 marcos alemães. No caso da Grécia, cada euro valia 340 dracmas.

Trocando em miúdos, a economia alemã era muito mais graúda que maior parte das economias do continente. A adoção do euro significou a transformação delas em mercados cativos do capitalismo germânico.

Por outro lado, se a melhor decisão é sair do Euro, o preço a ser pago será alto. A catástrofe econômica para os gregos é quase certa. E já sabemos quem sofreria mais.

É por isso que há setores do empresariado grego que já admitem abandonar a união monetária. Eles sabem que podem transferir a conta dos prejuízos para a classe trabalhadora.

Se for necessário matar a galinha para chegar a seus ovos de ouro, não hesitarão. Por isso, o desfecho dessa situação não se dará no campo econômico. Será decidido pela luta de classes.
 

11 de maio de 2012

Extremista é o mercado

A grande mídia alerta. O extremismo político avança na Europa.

Na França, apesar da vitória do moderado François Hollande, a direita fascista obteve 18% dos votos. A Frente de Esquerda, de Mélenchon, conquistou 11%.

Na Grécia, as urnas rejeitaram os dois partidos que dominavam as eleições no país há décadas. O maior vencedor foi o Syriza, considerado de extrema esquerda, com quase 17% dos votos.

Foi o bastante para deixar as bolsas em estado de profunda depressão. Os investidores temem pela nova situação política. Mas não deveriam se preocupar tanto.

Hollande não disse que é contra a austeridade imposta pelos banqueiros. Só afirmou que não será necessariamente do jeito que eles querem. O líder do Syriza, Alexis Tsipras, já andou declarando que a saída da zona do euro prejudicaria o país.

Além disso, acaba de desistir da formação de um governo de esquerda: “Vou devolver o mandato confiado pelo presidente da República e vamos continuar a participar dos procedimentos previstos na Constituição” (Valor, 08/05).

O problema é que as forças de esquerda têm se limitado a ocupar as pontas de uma democracia dominada pelo mercado. Ao invés do extremismo de gabinetes, é preciso priorizar o radicalismo das lutas populares.

Enquanto isso não acontecer, o vencedor continuará a ser o extremismo do mercado. Aquele que não teme a direita fascista, como prova a tranquila convivência entre Hitler e empresas como Ford, IBM e Coca-Cola.

24 de fevereiro de 2012

Eleições gregas atrapalham, diz ministro alemão

Enquanto a crise social aumenta na Grécia, crescem as pressões da União Europeia pelo cancelamento das eleições de abril próximo. É o que relata reportagem de Andrei Netto, publicada em O Estado de S. Paulo, em 17/02. Segundo a matéria:
... o ministro de Finanças alemão, Wolfgang Schaueble, insinuou que as eleições gregas caem na hora errada, quando o país deveria estar concentrado na renegociação da dívida e na implementação dos planos de austeridade. "Devemos nos perguntar: quem vai garantir que após as eleições a Grécia respeitará o que nós decidimos atualmente com o governo grego?", questionou.
Nem passa pela cabeça do governante alemão que acordo nenhum deveria ignorar a vontade popular. Além disso, Schaueble não precisa se preocupar tanto. Nunca ficaram tão claras as limitações da democracia comandada pelo mercado. E não apenas na Grécia.

“Mais de 400 mil espanhóis vão às ruas contra reforma trabalhista”, diz matéria de O Estado de S. Paulo, de 20/02. Os protestos são contra reformas que atacam diretamente os empregos e direitos dos trabalhadores. Acontecem dois meses após a posse de Mariano Rajoy. O novo primeiro-ministro conservador derrotou nas urnas os socialistas, desgastados pela crise econômica que castiga o país.

Na Espanha, como na Grécia, os socialistas governaram sem romper com o essencial do neoliberalismo. Por isso mesmo, seus países estão em crise. Para substituí-los, foram eleitos governos ainda mais submissos aos interesses do mercado. Ou seja, a democracia vem funcionando somente para os ricos e poderosos.

A única alternativa é a radicalização do processo democrático pela ação popular. Eleições nunca são demais. Mas é preciso arrancar a política das garras dos políticos oficiais. Tirá-la dos palácios e gabinetes e trazê-la para as ruas, bairros, escolas e locais de trabalho.

Leia também: Os gregos, cada vez mais putos

12 de fevereiro de 2012

Os gregos, cada vez mais putos

O parlamento grego aprovou o pacote imposto por FMI e União Europeia neste domingo. Do lado de fora, nas ruas, pelo menos 100 mil pessoas protestaram contra as medidas.

A revolta pode ser facilmente entendida. “Dois anos de austeridade não reduzem dívida grega” , diz reportagem de Jamil Chade, publicada em O Estado de S. Paulo, em 11/02. O texto diz que a dívida grega subiu de 138%, em 2010, para 159% do PIB no terceiro trimestre de 2011.

Por outro lado, a grande maioria dos gregos estão amargando:
...20% de desemprego, um terço da população já abaixo do nível da pobreza, uma contração da economia que chegará ao fim deste ano a 16% e, ao contrário do que se esperava, uma elevação da proporção da dívida em relação ao Produto Interno Bruto (PIB).
O pacote aprovado só deve agravar essa situação. É por isso que, por algumas horas, houve violento confronto entre manifestantes e a polícia em Atenas. Mas a situação está tão grave que até os policiais andam enfurecidos.

O sindicato dos policiais da Grécia está defendendo a prisão dos auditores da União Europeia, FMI e Banco Central Europeu. Acusam as entidades de “terem destruído a coesão social da Grécia por meio das duras medidas de austeridade fiscal exigidas em troca do socorro financeiro ao país”, segundo notícia de O Estado de S. Paulo, de 11/02.

A prisão até faria sentido. Mas deveria incluir os governantes de plantão. Já são quatro anos de recessão. Mesmo assim, o pacote aprovado inclui redução de salários e aposentadorias, dispensa de 15 mil funcionários públicos e regras mais flexíveis para demissões.

É ou não é pra ficar ainda mais puto!

Leia também: Porque os gregos estão tão putos

3 de novembro de 2011

Grécia: os riscos da consulta ao povo

A crise se agrava na Europa. Os líderes do continente não aceitam a mais recente proposta do primeiro-ministro grego, George Papandreou. Ele quer um plebiscito sobre as medidas defendidas por Alemanha e França para o país: demissões em massa, redução salarial, cortes de gastos sociais e privatizações, entre outras.

O fato é que Papandreou não tem moral para impor essa porcaria toda ao povo grego. Por isso, tenta comprometer a “opinião pública”. O “mercado” não quer saber. Precisa garantir seus lucros e teme que a zona do euro afunde de vez. Levaria com ela seus enormes investimentos especulativos.

Consultas populares são instrumentos democráticos importantes. Mas podem ter resultados indesejados. Elas não acontecem num terreno neutro. Nem sempre são favoráveis às lutas populares. Hitler, por exemplo, convocou cinco plebiscitos entre 1933 e 1938. E o que esperar de uma consulta popular sobre pena de morte no Brasil?

A democracia da Grécia Antiga não incluía a todos. Mas tinha como um dos princípios a “isegoria”: direito que todos os cidadãos tinham de manifestar sua opinião nas assembléias da cidade. Isso desapareceu de vez nos tempos atuais.

Há o poder econômico, os monopólios da mídia, poderosas instituições tradicionais, ausência de mecanismos permanentes de participação. Apenas uma minoria consegue divulgar sua opinião. É grande o risco de que plebiscitos tornem-se jogos de cartas marcadas.

No caso da Grécia, como vão se posicionar as forças populares? A favor do plebiscito para derrotar os neoliberais? Ou contra ele porque uma vitória do governo pode legitimar as medidas propostas? Decisão difícil. Seja qual for, que a rebeldia grega continue nas ruas.

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22 de outubro de 2011

Porque os gregos estão tão putos

Duas manchetes. A primeira diz: “Parlamento da Grécia aprova arrocho; salário mínimo pode cair 25%”. Trata-se de matéria publicada em 20/10 pelo enviado da Carta Maior a Atenas, Kostis Damianakis.

Segundo o texto, o parlamento grego aprovou pacote de medidas de arrocho proposto pelo governo do país. Por exigência de UE, FMI e BCE, anulam-se todos os acordos coletivos que garantem salários mínimos no setor privado. Está previsto ainda um corte de 100 mil postos de trabalho no funcionalismo público, entre outras medidas.

A outra manchete foi reproduzida pelo site esquerda.net, em 19/10. Ela diz “Gregos ricos tiraram 200 bilhões de euros do país”. É o que afirmou Markus Kroll, do instituto financeiro alemão Roland Berger, ao jornal Bild.

É por isso que uma greve geral reuniu 150 mil pessoas nas ruas de Atenas no dia 20/10. Entre os manifestantes estava Leonidas Papadopoulos, médico que faz especialização em oftalmologia e é membro do movimento “Não Pagamos”. Ele explicou ao repórter da Carta Maior:
Nosso movimento defende o que vários comentaristas mal-intencionados na TV dizem: ou tudo ou nada, ou nós ou eles. É por isso que o sistema está com medo do nosso movimento. Começamos na luta contra o pagamento de pedágios onerosos e injustos e isso se espalhou em outros setores. Já há hoje um senso comum de que o cidadão não deveria pagar por serviços e bens públicos, como o uso das estradas, hospitais, a água, eletricidade etc. Tudo isso deveria ser livre e gratuito, pois é o povo que produz ou sustenta com seus impostos esses bens e serviços, e ele deveria desfrutar deles livremente. No entanto, tudo isso é uma mercadoria para alguns apoiadores do sistema, que querem acumular mais-valia.
É, dr. Papadoulos não tem papas na língua. E deve ter deixado os neoliberais de cabelo em pé. Serviços públicos totalmente gratuitos? Um absurdo, diriam eles. Molezas desse tipo só para banqueiros e outros patrões, sabemos nós. Os peões que fiquem duros e jogados na rua.

É ou não é pra ficar muito puto!

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