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6 de maio de 2021

Entregadores na luta pela expropriação das plataformas capitalistas

Chegamos ao final das pílulas sobre o livro “Riding for Deliveroo”, de Callum Cant”. Em seu capítulo conclusivo, o autor cita reflexões de Raniero Panzieri sobre o papel da tecnologia no capitalismo.

Segundo esse teórico italiano do movimento autonomista, no capitalismo, as contradições ficam mais agudas nos ramos produtivos onde é esmagadora a preponderância do capital constante sobre o trabalho vivo. É aí que o investimento em tecnologia escraviza a força de trabalho humana de modo mais claro.

Panzieri estava se referindo à fabricação de automóveis, diz Cant, mas suas palavras se aplicam perfeitamente ao capitalismo de plataformas, como é o caso do Deliveroo e seu aplicativo de entrega de alimentos.

Em seu relato, Cant não quis mostrar apenas que mesmo os trabalhadores precários podem se auto-organizar. Mas que há três possíveis desdobramentos em sua luta.

Primeiro, novos desenvolvimentos tecnológicos nas plataformas para aumentar ainda mais a exploração e o desemprego no setor. Segundo, reformas superficiais, incapazes de atender as necessidades mínimas dos trabalhadores. Ou, terceiro, a expropriação das plataformas para colocá-las sob controle dos trabalhadores e a serviço da maioria da população.

Mas para chegarmos a esse último objetivo, o único aceitável, é fundamental que a luta dos trabalhadores do Deliveroo e de outras plataformas se tornem parte do movimento emancipatório da classe trabalhadora.

Na verdade, diz o autor, os trabalhadores estão se recompondo para formar um novo sujeito político. Mas um que continua a não ter nada a perder e um mundo a ganhar.

No Brasil, o livro de Callum Cant já está em pré-venda pela Editora Veneta. Merece que seja lido na íntegra.

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5 de maio de 2021

Algumas lições das lutas dos entregadores

Estamos quase chegando ao final dos comentários sobre o livro “Riding for Deliveroo”, de Callum Cant”. Hora de olhar para o que os entregadores aprenderam com suas lutas em Brigthon e em outras cidades britânicas.

Cant acha que é necessária uma série de modificações para adequar a organização sindical ao contexto do capitalismo de plataformas digitais. A começar pela consulta direta aos trabalhadores.

Não há muito segredo. A ideia é periodicamente reunir vários trabalhadores e perguntar: “Com o quê vocês estão realmente chateados, quais são seus problemas reais?”. Não adianta chegar dizendo: “Vocês deveriam lutar por direitos trabalhistas”, porque a resposta costuma ser: “Não estamos preocupados com isso no momento. O que realmente nos preocupa é ter que esperar muito tempo para retirar pedidos no McDonalds ou Burger King, ou ser constantemente humilhados pelos gerentes das lanchonetes”.

São as condições de trabalho do dia-a-dia que estão na vanguarda das lutas, diz o autor. É o concreto, não o abstrato. Além disso, a experiência das lutas na Deliveroo levou a uma organização em rede com três camadas.

Primeiro, a própria rede de entregadores, que se comunica por aplicativos de mensagens. Depois, vêm os entregadores militantes cuja função é agitar a força de trabalho, identificar e recrutar líderes orgânicos. Por fim, vêm os militantes ligados ao Sindicato dos Trabalhadores Autônomos, que agem como reforço sempre que necessário. Mas são voluntários, sem remuneração.

É assim que a organização de longo prazo parece estar substituindo a mobilização de curto prazo entre os entregadores no Reino Unido desde 2016, afirma Cant. Na luta, mas pela base e combatendo a burocratização.

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4 de maio de 2021

A luta contra o capitalismo de plataformas está só começando

Como mostra o livro “Riding for Deliveroo”, de Callum Cant, as greves dos entregadores de aplicativos do Deliveroo, de Brigthon, foram as primeiras desse tipo naquela cidade.

As paralisações aconteceram em 2017, mas os pioneiros foram os entregadores de Londres. Eles cruzaram os braços, ou melhor, desativaram seus aplicativos, já em 2016. Na sequência, no mesmo ano, fizeram o mesmo trabalhadores de Turim, Marselha, Paris, Berlim, Barcelona, Valência, Madrid, Bordéus e Lyon.

Então veio a terceira onda, na mesma época da segunda greve de Brigthon. Ocorreram paralisações de entregadores de diversas plataformas em Amsterdam, Bruxelas, Bolonha, Turim e Berlim, todas em novembro de 2017.

Importante destacar a mobilização na China. Lá o equivalente do Deliveroo é a Meituan, capaz de entregar colossais 13 milhões de encomendas por dia. Seus entregadores foram responsáveis por 11% das greves no setor de serviços chinês durante o primeiro semestre de 2017.

Em 09/10/2018, foi a vez dos motoristas britânicos da Uber realizarem sua primeira greve nacional. Assembleias foram organizadas no lado de fora de três escritórios da empresa, em Londres, Birmingham e Nottingham. Pela quarta vez em um mês, escritórios da Uber eram alvo de manifestações desse tipo. Numa delas, motoristas de origem italiana começaram a cantar o famoso hino antifascista, “Bella Ciao”.

Enquanto isso, em 26/10/2018, representantes de entregadores de alimentos, organizados em 35 coletivos de 12 países, se reuniram em Bruxelas para formar a Federação Transnacional de Entregadores.

Ou seja, a luta parece estar só no começo. No Brasil, a primeira greve aconteceu apenas em julho de 2020. Mas, certamente, vem mais por aí.

Continua...

Leia também: Entregadores em greve: “Ou lutamos ou eles nos fodem”

3 de maio de 2021

Entregadores em greve: “Ou lutamos ou eles nos fodem”

Com os bons resultados organizativos da primeira greve dos entregadores do Deliveroo em Brighton, os controladores da plataforma começaram a reagir. Eles não podiam simplesmente desligar do aplicativo os principais responsáveis pelo movimento de paralisação.

Isso seria admitir uma relação de subordinação incompatível com o discurso de que os conflitos não passavam de ajustes entre parceiros. Mas logo ficou claro que os algoritmos estavam destinando mais entregas para os motociclistas que para os ciclistas.

Podia haver alguns motivos operacionais para isso. Maior rapidez nas entregas, por exemplo. Principalmente numa cidade montanhosa como Brighton. Por outro lado, o braço sindical que estava sendo construído era composto principalmente por ciclistas.

“Mas a caixa-preta dos algoritmos não nos permitia afirmar que se tratava de algo deliberado”, diz Callum Cant no livro “Riding for Deliveroo”, que descreve toda essa experiência de luta.

Muitas lideranças começaram a se desvincular do aplicativo. Os grupos de zap mais usados para a mobilização ficaram mudos. Parecia um fim triste e precoce.

Até que nova alteração no sistema de pagamento fez caírem as remunerações. E às 18h do dia 25/11/2017, começava uma segunda paralisação. O Deliveroo tentou manter o ritmo das entregas, mas o caos se instalou novamente.

Segundo Cant, essa segunda greve provou que a luta direta entre trabalhadores e patrões tem que continuar ou a situação piora. Sem a estabilidade de uma relação contratual, as condições de trabalho ficam em constante renegociação. Os patrões querem cada vez mais lucros, mas os trabalhadores precisam sobreviver.

“Temos que lutar ou eles nos fodem - não há outra opção”, conclui Cant.

Na próxima pílula, mais luta!

Leia também: Chegou a hora. Entregadores desativam seus aplicativos

1 de maio de 2021

Chegou a hora. Entregadores desativam seus aplicativos

Na última pílula sobre o livro “Riding for Deliveroo”, de Callum Cant, o boletim “Roo Rebelde” já estava circulando entre os entregadores do Deliveroo, em Brighton, Inglaterra.

A publicação ajudou a criar o clima necessário para uma paralisação. Ela aconteceu em 04/02/2017, quando mais de 100 trabalhadores se concentraram na principal praça de Brighton, com suas bicicletas e motos. Desativaram seus aplicativos e iniciaram uma assembleia. Os pedidos passaram a sofrer atrasos de até 3 horas e as vendas caíram mais de 50%.

A assembleia aprovou por unanimidade a criação de um braço sindical da categoria e três exigências: aumento de £5 por entrega; estabilidade nas contratações; e nenhuma perseguição aos organizadores da greve. O Deliveroo tinha duas semanas para responder. Depois da votação, os grevistas atravessaram Brighton em um comboio gigante.

Manifestações semelhantes voltaram a acontecer nos dias seguintes tanto lá, como em outras cidades. Trabalhadores e simpatizantes percorriam os restaurantes mais populares. A cada parada, um discurso do lado de fora, bloqueio temporário das ruas e uma delegação tentava conseguir apoio dos estabelecimentos para as exigências do movimento.

Solidariedade, mesmo, só a dos funcionários, raramente de gerentes e proprietários. De qualquer forma, foi o suficiente para exercer pressão sobre toda a cadeia de suprimentos e também sobre o Deliveroo. A plataforma passou a ter que responder as denúncias feitas pelos entregadores junto aos clientes.

No final, não houve ganhos econômicos, mas a vitória foi organizativa. O Sindicato dos Trabalhadores Autônomos reconheceu o movimento como um braço sindical em construção. Um ótimo começo.

Mas os patrões logo dariam o troco.

Veremos na próxima pílula.

Leia também: Entregadores preparam-se para a hora da treta

30 de abril de 2021

Entregadores preparam-se para a hora da treta

Continuamos a comentar o livro “Riding for Deliveroo”, de Callum Cant. Agora, para falar do boletim que os entregadores do Deliveroo criaram em defesa de seus interesses.

Chamava-se “Roo rebelde”. Roo é o nome que o Deliveroo dava aos entregadores em seus comunicados. A prioridade era fazê-lo no formato impresso para incentivar sua entrega e circulação de mão em mão. A distribuição on-line acabou sendo iniciativa dos próprios trabalhadores.

Outra prioridade era publicar relatos de trabalhadores de todo o país. As principais contribuições vieram de seis cidades inglesas e de Glasgow, na Escócia. Mas também surgiram correspondentes na França, Alemanha e Itália.

Além do inglês, havia textos introdutórios nos idiomas mais falados na categoria, como bengali, português, francês, polonês e árabe.

Em janeiro de 2017, a circulação combinada, online e impressa, atingia cerca de 1.500 trabalhadores. Isso significava uns 10% da força de trabalho do Deliveroo britânico. O Rebel Roo estava em toda parte, preparando a rebelião.

O Deliveroo não tinha nenhuma obrigação de reconhecer os entregadores como categoria sindical. Mas, ao mesmo tempo, não havia restrições legais a ações grevistas.

Os trabalhadores não tinham auxílio-doença, férias e outros direitos. Mas também não eram obrigados a avisar aos empregadores sobre paralisações ou respeitar quóruns burocráticos para tomar decisões.

A democracia acontecia no local de trabalho e de forma direta. A inexperiência era compensada pela ausência dos problemas típicos dos movimentos burocratizados.

“De repente, diz Can, começamos a entender como as condições precárias podem ser uma fonte de força. Seria uma luta direta: patrões x trabalhadores”.

Enfim, tinha chegado a hora da treta!

Leia também: Os entregadores e a pesada retaguarda das lutas econômicas

29 de abril de 2021

Os entregadores e a pesada retaguarda das lutas econômicas

É perfeitamente possível trabalhar para o Deliveroo e não falar inglês. O aplicativo funciona em vários idiomas e a atividade não exige comunicação verbal extensa.

Quem tem dificuldades em conseguir outras ocupações devido ao pouco domínio da língua pode se tornar entregador facilmente. É o que revela Callum Cant, em seu livro “Riding for Deliveroo”. Foi assim que ele conheceu trabalhadores de várias partes do mundo.

Os imigrantes formam um setor grande, bem organizado e militante nas empresas de plataformas. Não à toa, a primeira ação coletiva dos entregadores da Deliveroo foi um boicote à rede Byron Burgers, após seus gerentes delatarem imigrantes ilegais para as autoridades britânicas.

Originários principalmente da África, Índia, Paquistão, Leste Europeu e América Latina, muitos deles tinham pouca experiência de resistência sindical em seus países. Já outros, como os brasileiros, se destacavam por estar sempre na linha de frente das lutas.

Mas Cant teria uma decepção com alguns de nossos conterrâneos. Segundo ele:

Durante as eleições presidenciais brasileiras de 2018, entregadores brasileiros de Londres, que haviam feito greve algumas semanas antes, começaram a compartilhar vídeos de apoio ao candidato de extrema direita, Jair Bolsanaro, no WhatsApp.

Pareciam não entender a profunda contradição entre a situação deles no Reino Unido e o candidato que apoiavam no Brasil, diz Cant.

Nesse caso, vale o que Trotsky costumava afirmar: todo movimento de caráter estritamente econômico, mesmo quando radicalizado, tende a carregar uma pesada retaguarda conservadora.

Para dar resposta a esse tipo de situação, só a disputa ideológica. É por isso que Cant e outros companheiros criaram o “Rebel Roo”. Um boletim impresso em papel!

Leia também: Uma breve história de militantes precários

28 de abril de 2021

Uma breve história de militantes precários

O título acima pertence a um dos capítulos do livro de “Riding for Deliveroo”, de Callum Cant. Nele, ficamos sabendo que o conceito de "emprego precário" já era usado na Inglaterra do século 19.

Na época, o grande exemplo de trabalhadores precarizados eram os estivadores ingleses. Trabalhando nas docas, eles disputavam diariamente uma vaga nas operações de carga e descarga de navios.

Mas a atividade exigia uma cooperação que logo se transformou em solidariedade. Formaram-se grupos que só aceitavam tarefas em que permaneciam juntos.

Não demorou e eles passaram a negociar remunerações e condições de trabalho coletivamente. A organização cresceu e a categoria passou a ter grande liberdade de ação.

Uma greve nas docas de Londres realizada em 1889, por exemplo, paralisou 100 mil estivadores e conseguiu arrancar uma remuneração fixa para todos.

Fenômenos parecidos se repetiram em vários portos do mundo. E como tratava-se de uma categoria fundamental para o comércio mundial, seus integrantes ganharam muito poder de barganha.

Na Inglaterra, os estivadores conquistaram a regulamentação profissional em 1967. Mas ela veio com uma cláusula de produtividade que passou a dificultar o controle que eles sempre tiveram sobre seu trabalho.

Logo em seguida, os patrões começaram a implantar o sistema de contêineres. Uma inovação que diminuiu muito o número de estivadores e seu poder de mobilização.

Os entregadores de aplicativos estão em situação parecida à dos estivadores do passado. São precarizados, mas seu caráter estratégico pode alavancar lutas importantes.

Agora, como antes, a treta é direta, a união fundamental, mas também é imprescindível aprender com as conquistas e derrotas das lutas do passado.

Leia também: Com entregadores de aplicativos, a treta é direta

27 de abril de 2021

Com entregadores de aplicativos, a treta é direta

Ao contrário das iluminadas e transparentes vitrines do mercado capitalista, os locais de produção são o que Marx chamou de “lugares ocultos”, onde se esconde o lado feio do sistema: a exploração.

Mas os trabalhadores também têm seus segredos. São suas técnicas, saberes, habilidades. Elementos que lhes permitem tanto controlar o ritmo do trabalho em seu favor, como paralisar a produção.

Por isso, é tão importante para o capital apropriar-se desse conhecimento laboral através de processos como automatização, informatização, inovações nos métodos de produção.

Mas no caso de algumas recentes formas de trabalho, nem essa preocupação os patrões têm. É o que mostra Callum Cant no livro “Riding for Deliveroo”, sobre sua experiência como entregador para o aplicativo Deliveroo.  

Claro que os entregadores desenvolvem certos tipos de conhecimento e habilidades, mas jamais chegam perto de controlar um processo de trabalho no qual são legalmente considerados como “colaboradores”.

Tudo é monitorado pelo aplicativo, que coleta dados em grandes quantidades, enquanto os entregadores ficam no mais completo escuro.

Além disso, essas plataformas se isentam da maior parte do “capital fixo”. Despesas com bicicletas, celulares, seguros e até a mochila térmica ficam por conta dos trabalhadores.

Desse modo, muitos mal conseguem cobrir os custos de reprodução de sua própria força de trabalho. E esta é uma das principais questões do capitalismo de plataforma: o trabalho autônomo.

Desprotegidos legalmente, os entregadores sofrem com a precarização. Por outro lado, não dependem de lei alguma para, por exemplo, organizar uma greve. A treta é direta, entre eles e os patrões.

E treta é o que não vai faltar nas próximas pílulas.

Leia também: O lugar oculto dos aplicativos de entrega

23 de abril de 2021

O lugar oculto dos aplicativos de entrega

Segundo Marx, na sociedade capitalista, o mercado é uma esfera pública regida pelos ideais de Liberdade, Igualdade e Propriedade. Mas o local de trabalho, onde o valor é realmente produzido, é um "lugar oculto".

Callum Cant descobriu isso quando começou a trabalhar em sua tese de doutorado sobre aplicativos de entrega. Havia muita literatura sobre eles, mas a realidade de sua produção era um mistério.

Diante disso, ele resolveu trabalhar para o aplicativo Deliveroo, de entrega de alimentos, em Brighton, Inglaterra. Sua experiência está no livro “Riding for Deliveroo”.

Depois de alguns meses, Cant começou a entender que os entregadores já tinham canais bem estabelecidos de comunicação e organização, abaixo da superfície.

Eles conversavam por Whatsapp, diariamente, sobre as condições de trabalho, ajudando uns aos outros, controlando as datas de pagamento, organizando jogos de futebol etc. Essas redes estavam completamente ocultas para todos, exceto para os trabalhadores.

O sistema de controle da Deliveroo foi construído com uma falha fundamental: ele automatizou o gerenciamento, mas o algoritmo criado para isso só foi capaz de fazer parte do trabalho.

Seu nome era “Frank”. Ele podia coordenar o processo de trabalho com incrível precisão e habilidade. Mas não podia disciplinar os trabalhadores como fazem os supervisores humanos. E a pessoa que o gerenciava ficava em um escritório central, sem ter controle das informações em tempo real, além da localização dos entregadores.

Consequentemente, era fácil adotar estratégias individuais de resistência. Frank não era um supervisor muito rígido. E isso era um problema para os patrões.

Mas, calma, os trabalhadores da Deliveroo também tinham problemas. E muitos.

Veremos na próxima pílula.

Leia também: O lugar estratégico dos entregadores na luta anticapitalista

22 de abril de 2021

O lugar estratégico dos entregadores na luta anticapitalista

Callum Cant descreve no livro “Riding for Deliveroo” sua experiência militante como entregador de um aplicativo de entrega de refeições, em Brighton, Inglaterra.

O Deliveroo faz parte do que ele chama de “capitalismo de plataforma”, que explora trabalho humano, mas tem na extração de dados sua mina de ouro.

Por outro lado, plataformas como o Deliveroo ainda não são empresas economicamente viáveis, diz Cant. São investidores externos que mantêm as contas da empresa no azul, de olho em lucros futuros.

Mas a verdade é que importa menos o desempenho financeiro desses aplicativos ou o tamanho de sua força de trabalho do que a maneira como eles mudam o cenário da economia em geral.

A linha de montagem foi criada nas tecelagens de Boston, sem muito sucesso. Só se tornou uma poderosa ferramenta de exploração quando Ford a adotou em suas fábricas.

A fabricação de computadores não é o maior setor da economia. No entanto, esses equipamentos foram estratégicos para o desenvolvimento capitalista porque permitiram reorganizar radicalmente o mundo do trabalho.

O que a exploração do trabalho por aplicativo está fazendo é criar algo semelhante. Oferecendo uma janela de oportunidades para uma nova fase do capitalismo, com mais exploração, menos empregos e ainda mais precariedade trabalhista.

Felizmente, essa janela também pode servir aos explorados. Para que essas tecnologias beneficiem a maioria em vez de garantir lucros para poucos, os trabalhadores precisam estar no controle.

Mas para isso é fundamental aprender, desde já, com lutas como a dos entregadores de aplicativos, permitindo que toda a classe trabalhadora possa ganhar uma vantagem estratégica sobre os patrões.

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Um pé na luta, outro no pedal
Sobre tecnologia, desemprego e capitalismo. Sobre barbárie, enfim

20 de abril de 2021

Um pé na luta, outro no pedal

Em recente debate, Paulo Galo, liderança da luta dos entregadores de aplicativos, disse o seguinte sobre as fake news: nossa resposta às mentiras da direita não podem ser mentiras de esquerda nem a verdade, mas a realidade dos trabalhadores.

Na Inglaterra, uma outra liderança dos entregadores parece pensar o mesmo. Trata-se de Callum Cant, que escreveu o livro “Riding for Deliveroo” sobre as lutas de que participou contra a exploração imposta pelos aplicativos a ciclistas e motociclistas de Brighton.

Logo no início, ele avisa:

Este livro é inspirado em Marx. Ou seja, foi escrito na perspectiva da classe trabalhadora: a classe que nada tem a perder a não ser suas correntes. Para tanto, baseia-se em pesquisas realizadas por meio de um método denominado “questionário com trabalhadores”.

Essa metodologia foi criada por Marx em 1880, quando ele enviou um questionário com 101 perguntas para trabalhadores de toda a França. O objetivo dele, diz o autor, era aprender com a classe a quem pertence o futuro para apoiá-la na luta contra toda exploração.

Conduzindo sua bicicleta, Cant entregava comida, mas também formulários para os companheiros da cidade onde trabalhava. Enquanto fazia isso, participou de greves e manifestações e ajudou a formar um braço sindical da categoria.

Também entrevistou trabalhadores de todo o Reino Unido e colaborou na montagem de um banco de dados produzido por uma rede europeia de entregadores. Sempre buscando fortalecer as lutas desse setor cada vez mais importante nas grandes cidades do mundo.

Nem mentiras, nem verdades abstratas, mas intervenção concreta na situação concreta. Nesse caso específico, um pé no pedal, outro na luta.

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19 de abril de 2021

A luta dos entregadores contra os patrões sem rosto

Entregadores de aplicativos como Rappi, Uber Eats e iFood organizaram uma grande manifestação no dia 16/04/2021, em São Paulo. Mais de 500 motociclistas saíram do estádio do Pacaembu e seguiram pela Marginal Tietê. Protestavam contra as baixas taxas praticadas pelas empresas e exigiam vacinação imediata.

Se enormes contradições já vinham empurrando a categoria para a luta nos últimos quatro ou cinco anos, a pandemia radicalizou a situação. A demanda por seus serviços aumentou e se tornou essencial, mas isso não refletiu em melhores condições de trabalho.

Ao contrário, recente estudo feito pelo Ministério Público do Trabalho, junto com universidades federais, mostra que 59% dos entregadores passaram a receber menos com as plataformas durante a pandemia.

Diante disso, ganha ainda mais relevo o lançamento do livro "Delivery Fight! - A luta contra os patrões sem rosto", do militante britânico Callum Cant. A publicação está em pré-venda pela Editora Veneta, com previsão de lançamento para 31/05/2021.

Cant participou de várias campanhas e greves entre 2013 e 2017, trabalhando como entregador, enquanto fazia doutorado em Sociologia. Rapidamente, ele e seus companheiros descobriram que estavam submetidos a um regime de trabalho que desmentia completamente o discurso em defesa dos aplicativos. O que os criadores dessas plataformas chamam de parceria não passa de exploração.

É o caso do Deliveroo, equivalente do Ifood na Inglaterra. Foi com esse aplicativo que Cant trabalhou por mais tempo. Daí, o nome de seu livro em inglês: “Riding for Deliveroo”. Será esta edição que iremos comentar nas próximas pílulas.

Mais que esclarecedores, os relatos de Cant mostram que sempre há esperança onde há resistência e luta.

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