quinta-feira, 20 de abril de 2017

O partido de Lênin era pouco “leninista”

O historiador britânico Alexander Rabinowitch escreveu vários livros contando a história da Revolução Russa. Um deles é “The Bolsheviks Come to Power” (“Os Bolcheviques Tomam o Poder”), ainda sem tradução. Um dos trechos da obra afirma o seguinte em relação ao Partido Bolchevique:

...gostaria de enfatizar a estrutura e o método de operação internamente relativamente democráticos, tolerantes e descentralizados do partido, bem como seu caráter essencialmente aberto e de massas - em marcante contraste com o modelo leninista tradicional.

Em outro momento, diz:

... em 1917, em todos os níveis da organização bolchevique de Petrogrado, a discussão era livre e animada no debate sobre as questões teóricas e táticas mais básicas. (...) não poucas vezes Lênin foi derrotado nesses debates.

Ou seja, o historiador está dizendo que aquele que é considerado o partido leninista por excelência não era assim tão leninista. Na verdade, nem Lênin era.

O livro “O que fazer”, de Lênin, é considerado a “receita” do partido leninista. Mas a obra é de 1902, quando as condições para a militância eram as piores possíveis. Depois da Revolução de 1905, a situação melhorou e Lênin escreveu uma resolução para o 3º Congresso do Partido afirmando que "em condições políticas de liberdade, nosso partido pode e deve refazer inteiramente as regras de funcionamento...". E foi mais ou menos isso que aconteceu.

O mito do partido puramente leninista dirigindo a revolução começou, mesmo, após a chegada dos bolcheviques ao poder. Em especial, com a contrarrevolução stalinista. Mas, isso já é assunto para outro momento. E a obra de Rabinowitch certamente pode nos ajudar a entender esse processo.

Leia também: Lênin e a ira de um operário simples

quarta-feira, 19 de abril de 2017

O cerco do suicídio

Parece que o grande assunto do momento tem sido o suicídio. A série “Os 13 Porquês”, da Netflix, e um jogo macabro chamado Baleia Azul são temas obrigatórios. Ambos tratam da busca pela morte voluntária entre adolescentes.

Quase um milhão de pessoas morrem por suicídio anualmente segundo a Organização Mundial de Saúde.

No livro “Sapiens – Uma Breve História da Humanidade”, Yuval Harari constata que, em 2002, dos 57 milhões de mortos no planeta, apenas 172 mil morreram em guerras e 569 mil foram vítimas de crimes violentos. Por outro lado, 873 mil cometeram suicídio.

O Mapa da Violência 2014 trouxe dados assustadores sobre o Brasil. Mortes voluntárias tendem a aumentar em países com melhores índices sociais. Mas nosso índice é igual ao de países como Japão, França, Suécia e Noruega: 30 por 100 mil habitantes.

Como hoje é “Dia do Índio”, não custa lembrar que o suicídio é uma pandemia entre os indígenas. Eles parecem funcionar como uma espécie de antena sensível demais para as loucuras que vêm dominando a humanidade. Principalmente, suas crianças e adolescentes.

É o que mostra o relatório sobre Violência Letal contra crianças e adolescentes no Brasil, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais. Municípios da Amazônia estão no topo da lista de suicídios entre crianças e adolescente indígenas. Em São Gabriel da Cachoeira, a taxa de 2003 a 2013 foi de 33,3% na faixa etária entre 10 a 19 anos. Em Tacuru, o índice chegou a 100%.

O suicídio é o sintoma da doença social que cerca suas vítimas. Enquanto não a combatermos, seremos parte deste cerco.

Leia também: Suicídio indígena, branco e ocidental

terça-feira, 18 de abril de 2017

Lênin e a ira de um operário simples

23 de outubro de 1917. O Comitê Central do Partido Bolchevique reuniu-se para decidir se iniciaria ou não uma insurreição para transferir o poder aos sovietes. Somente Lênin e Trótski votaram a favor. A insurreição fora rechaçada. 

Levantou-se então um operário simples, com o rosto contraído de tanta ira. “Falo aqui em nome do proletariado de Petrogrado”, disse ele, rudemente. “Somos favoráveis a uma insurreição. Façam como acharem melhor, mas eu lhes digo que, se vocês permitirem que os sovietes sejam destruídos, nós acabaremos com vocês!"

Houve nova votação e a insurreição foi aprovada.

Mas ainda era preciso decidir qual o melhor momento para o levante revolucionário. Em nova reunião, Lênin, referindo-se ao Congresso Pan-Russo dos Sovietes, disse:

O 6 de novembro será cedo demais. Precisamos do apoio de toda a Rússia para o levante; até o dia 6 não terão chegado todos os delegados do Congresso… Por outro lado, 8 de novembro será tarde demais. Nesse momento o Congresso estará em pleno andamento, e é difícil um grupo grande de pessoas assumir uma ação rápida e decisiva. Temos de agir no dia 7, dia de abertura do Congresso, de modo que assim poderemos dizer aos delegados: “Aqui está o poder! O que vocês farão com ele?”

E foi exatamente assim que aconteceu.

Os trechos acima são do livro “Os dez dias que abalaram o mundo”, de John Reed. Mostram um daqueles raros momentos em que o papel de um indivíduo determina os rumos da história. Mas o que seria de Lênin, e da história, sem aquele “operário simples com o rosto contraído de tanta ira”?

Leia também: O dia em que Lênin perdeu por 12 a 1

segunda-feira, 17 de abril de 2017

E eles só falam da Odebrecht...

Uma radiografia da captura corporativa em alguns dos principais setores da economia brasileira: alimentos, com destaque para o caso dos transgênicos; educação; finanças e juros; meio ambiente; mídia; saúde; segurança; e setor imobiliário.

O trecho acima resume o conteúdo de “A privatização da democracia – um catálogo da captura corporativa no Brasil”. Trata-se de uma publicação do Vigência, “grupo de ativistas cujo foco de atuação é a denúncia dos efeitos sociais do capitalismo extremo no Brasil”.

Os dados mostram que o atual escândalo é apenas uma parte do sequestro dos recursos públicos nacionais pelo grande capital. Tanto do local como do estrangeiro, se é que faz sentido separar os dois.

Mas um dos aspectos mais relevantes nessa “captura” é seu quase perfeito ocultamento. E isso acontece graças a uma área sensível, controlada estrategicamente pelo poder econômico. Estamos falando da mídia. Em especial, da Globo. O catálogo revela, por exemplo, que em 2012:

...a receita líquida da Globo é, pelo menos, três vezes maior do que a receita líquida somada dos grupos Abril, RBS, O Estado de São Paulo e SBT. Já o seu lucro líquido é mais de 11 vezes maior do que o lucro líquido dessas outras empresas reunidas.

Este poderio todo permite formar, deformar, omitir, mentir em gigantesca escala. E sempre com a cumplicidade de seus “concorrentes menores”.

É esta situação que cada vez mais faz da Lava-Jato um daqueles novelões das oito com final manjado. Ou, como disse Janio de Freitas em sua última coluna, nada mais do que o “estouro de um esgoto na mansão da classe dominante”.

Acesse o catálogo, aqui

Leia também: A educação pública sob assalto de bilionários

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Três versões da traição

Há um conto de Jorge Luis Borges em que Judas é elevado à condição de mártir. Segundo a hipótese fictícia do grande escritor argentino, o mais odiado dos personagens bíblicos sacrificou sua honra e o reino dos céus por uma causa maior. Sem seu ato vergonhoso, não teria ocorrido o terrível sacrifício que redimiu a humanidade e mudou a história do mundo.

Segundo o conto, Judas teria intuído:

...a secreta divindade e o terrível propósito de Jesus. O verbo havia se rebaixado a mortal; Judas, discípulo do Verbo, podia rebaixar-se a delator. (o pior delito que a infâmia suporta) e ser hóspede do fogo que não se apaga. A ordem inferior é um espelho da ordem superior; as formas da terra correspondem às formas do céu; as manchas da pele são um mapa das incorruptíveis constelações; Judas refletiu de algum modo a Jesus.

Claro que tudo isso não passa da genial imaginação de Borges expondo as contradições envolvendo valores humanos e divinos. Mas em tempos prenhes de delações, esse jogo espelhado parece forçar sua aparição nos jornais.

É o caso da matéria de Marina Dias publicada na Folha, em 13/04. O título diz que “Temer, Lula e FHC articulam pacto por sobrevivência política em 2018”. A aproximação dos três estaria sendo intermediada por Gilmar Mendes e Nelson Jobim. A principal motivação, diminuir os estragos causados pela avalanche de denúncias de corrupção a envolver nomes graúdos dos partidos que lideram.

Onde Borges encaixaria seu Judas nesse cenário confuso até para ele? Difícil saber. De qualquer maneira, o título do conto é “As Três Versões de Judas”.

Leia também: Sobre provas, convicções e hóspedes indesejáveis

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Os golpistas que usam terno

Em 10/04, o economista grego Yanis Varoufakis publicou artigo na Carta Maior lembrando como a “breve rebelião da Grécia contra a depressão permanente foi impiedosamente sufocada”, em 2015.

Um dos episódios que ele viveu durante o breve período que foi ministro de finanças no governo do Syriza envolveu as estratosféricas remunerações da cúpula do banco central grego. Para dar exemplo, Varoufakis decidiu cortar-lhes o salário em cerca de 40%, “correspondente à média das reduções salariais por toda a Grécia desde a crise de 2010”.

Imediatamente, a União Europeia (UE), tão zelosa na hora de diminuir “salários e pensões” dos trabalhadores, protestou. Os atingidos seriam seus funcionários de confiança. E foi assim que:

Após a UE forçar nosso governo à submissão e após minha demissão, aqueles salários foram aumentados em 71% – o pagamento anual dos executivos-chefes foi elevado a 220 mil euros (R$ 732 mil). No mesmo mês, aposentados recebendo 300 euros (R$ 1.000) por mês teriam esses proventos cortados em até 100 euros.

Segundo o texto, este episódio mostra que a Grécia sofreu um “golpe moderno”: “as instituições europeias utilizaram os bancos, não tanques. E os golpistas, no lugar de fardas, usam “ternos e tomam água mineral”.

Podemos dizer que algo parecido aconteceu em muitos países, incluindo o Brasil. Muito antes do golpe de Temer, já tínhamos burocratas de confiança das finanças mundiais em postos-chave do governo local.

Agora, em meio a tantos indiciamentos de políticos por corrupção, adivinhem quem governa  impune e tranquilamente, mesmo causando enorme e criminosa miséria social? Henrique Meirelles, que, com seu terno e muita água mineral, afoga o Pais na recessão.

terça-feira, 11 de abril de 2017

O dia em que Lênin perdeu por 12 a 1

O livro “Os dez dias que abalaram o mundo”, de John Reed, é o mais famoso relato da Revolução Russa de outubro de 1917. Uma de suas edições traz uma introdução do historiador A. J. P. Taylor.

Taylor explica como, após a Revolução de Fevereiro ter derrubado a monarquia russa, foi instalado um governo provisório controlado por uma elite que continuou insensível aos interesses da maioria.

Apesar disso, os bolcheviques aceitaram o novo governo sem maiores questionamentos. Afinal, ele representaria um avanço em relação à ditadura do Czar.

Mas Lênin não concordava com isso. Saiu correndo de seu exílio na Suíça rumo a Petrogrado e ao chegar:

...não perdeu tempo. Encaminhou-se diretamente para o quartel-general dos bolcheviques e disse: “Defendo a realização de uma segunda revolução”. A proposta de Lênin foi derrotada por doze votos a um, sendo este último dele próprio.

O episódio mostra como os bolcheviques travavam enormes e incansáveis debates. E que é falsa a ideia de que o partido era controlado com mão-de-ferro por Lênin. De ferro, mesmo era sua determinação. Tanto é que derrotado na votação, ele “simplesmente riu e afirmou: ‘O povo russo é mil vezes mais revolucionário do que nós’”.

A afirmação se mostraria correta meses depois. Mas antes disso, até mesmo Lênin chegou a dizer que talvez não vivesse para ver a revolução acontecer.

Estes elementos mostram que a grande Revolução de 1917 não aconteceu graças a líderes geniais e infalíveis. Se houve alguma grande sabedoria por parte dos bolcheviques foi a de terem respeitado as pressões populares vindas de baixo. Mesmo assim, aos trancos e barrancos.

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segunda-feira, 10 de abril de 2017

Nossa ordem social injusta permanece intacta

“Brasil ganha milionários, mas perde poupadores”. Com este título, Ana Paula Ribeiro publicou reportagem no Globo, em 05/04.

O texto diz que o restrito grupo de pessoas que tem ao menos R$ 1 milhão em investimentos no Brasil ganhou dois mil membros, em 2016. Já as aplicações de 63,8 milhões de pessoas cujo principal investimento é a poupança recuaram 4% em relação a 2015.

Aquele pequeno grupo milionário é formado por apenas 112 mil pessoas que, juntas, possuem R$ 756,3 bilhões. Enquanto isso, a grande maioria que guarda economias com sacrifícios, tem R$ 854,7 bilhões. É só calcular a média de aplicações de cada grupo para descobrir a enormidade da concentração da riqueza nacional.

Em 10/04, Bruno Albernaz divulgou no portal G1: “Número de moradores de rua com curso superior cresce 75% em 1 ano no RJ". A reportagem cita recente estudo da Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos.

Segundo o levantamento, de 2015 a 2016, o número de moradores de rua com ensino superior completo aumentou de 40 para 70. Um crescimento de 75%. No Centro, “muitos deles dormem por ali para ficar perto do trabalho, sem gastar passagem ou aluguel”, relata Albernaz.

A matéria também afirma que a população sem-teto no município carioca saltou de 5.580, em 2013, para quase 15 mil em 2016. Praticamente triplicou em três anos.

O governo golpista é grande responsável por este cenário desastroso. Mas também é fato que as políticas públicas da era petista levaram a um ilusório e frágil alívio para os mais pobres. Deixaram intacta uma das mais injustas ordens sociais do planeta.

sábado, 8 de abril de 2017

Uma espécie de morte a ser superada

Publicado em 1981, o livro “Não Verás País Nenhum”, de Ignácio de Loyola Brandão, antecipa fenômenos com os quais só convivemos mais recentemente. Por exemplo:

Como poderíamos chamar a essa nova fórmula? Sistemas dissimuladores? Assemelham-se, porém não são. São, mas não se assemelham. Um jogo de esconde. Como se entrássemos num labirinto de espelhos e perdêssemos a imagem verdadeira. Ou todas as imagens à nossa volta dadas como verdadeiras.

Como chamar? Que tal “redes sociais”?

Na passagem abaixo, difícil não lembrar dos neoliberais instalados nos governos:

...os tecnocratas adquiriram a supremacia. Suas falanges ocuparam os postos sem dar tempo a ninguém de adaptação. Romperam violentamente com os esquemas, se instalaram. Certos de que o futuro era deles.

O cenário do começo do século 21 descrito pela obra é desolador: “Acredita, nunca vi uma árvore de verdade na minha vida? Sempre morei em São Paulo, nunca deu para viajar”.

Mas o livro também tem alguns momentos de esperança. Como na passagem em que o personagem principal vê surgindo do solo ressecado pelo aquecimento global uma “pequena e alegre planta”. Poderia ser “uma nova espécie vegetal”, imagina ele. “A natureza alarmada desenvolvendo dentro dela um processo de reconstituição. O poder de se recriar. Por que não?”

E conclui:

Me ocorreu que isso é a liberdade. A capacidade de ressurgir continuamente, sob novas formas, revigorado. O processo de se recompor, tombar e erguer nada mais é que tática, dissimulação. Um jeito de enganar a morte, derrotá-la. Que a morte é simples estágio superável.

Realmente, vida sem liberdade é uma espécie de morte. Mas é morte que pode ser revertida.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Contra o racismo, corajosas professoras brancas

Abolida a escravidão no Estados Unidos, os negros logo descobriram que a promessa de que receberiam "quarenta acres e uma mula" não passava de um boato maldoso. Entenderam rapidamente que teriam que lutar pelo que queriam.

E eles sabiam exatamente o que queriam. Além de terras e direito ao voto, eram “consumidos pela vontade de frequentar as escolas”. Depois de séculos, exigiam o direito de satisfazer seu profundo desejo de aprender.

Foi esse anseio que a jovem professora branca, Prudence Crandall, tentou heroicamente atender. Inicialmente, ela desafiou os habitantes brancos de Canterbury, Connecticut, aceitando uma garota negra em sua escola.

Diante dos protestos, Prudence foi além e decidiu aceitar mais meninas negras e, se necessário, administrar uma escola só para elas.

Lojistas se recusaram a vender suprimentos a “Miss Crandall”. O médico não atendia suas alunas. O farmacêutico não fornecia remédios. Criminosos quebraram as janelas da escola, jogaram esterco no poço e iniciaram vários incêndios no prédio.

Além de Prudence, Margaret Douglass e Myrtilla Miner literalmente arriscaram suas vidas enquanto tentavam transmitir conhecimentos a jovens negros.

A história da luta das mulheres pela educação nos Estados Unidos atingiu um verdadeiro pico quando educadoras negras e brancas lideraram juntas a batalha do período pós-Guerra Civil contra o analfabetismo no Sul. Sua unidade e solidariedade são um dos episódios mais bonitos da história do povo estadunidense.

As informações acima estão no livro "Mulheres, raça e classe", de Angela Davis. Mostram que só há liberdade possível se sua busca estiver orientada pela luz de um conhecimento que entenda a humanidade como produto da unidade na diferença.

Leia também: O estupro como arma racista

quarta-feira, 5 de abril de 2017

A volta do conservadorismo que nunca se foi

Um recente estudo da Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, está ganhando razoável atenção de veículos da grande imprensa, como Estadão e Globo.

Uma pesquisa qualitativa entrevistou 63 eleitores de bairros pobres de São Paulo que votaram no partido entre 2000 e 2012, mas que não fizeram o mesmo em relação a Dilma Rousseff e Fernando Haddad nas eleições posteriores.

Segundo o Globo, a pesquisa mostraria “um vácuo entre discursos clássicos de partidos de esquerda e a realidade dos grupos pesquisados”. Para estes, não haveria “cisão entre ‘classe trabalhadora’ e ‘burguesia’”. Trabalhador e patrão são diferentes, mas “todos estão no mesmo barco”, afirmaram os entrevistados.

Também não existiriam polarizações como “coxinhas x petralhas” ou “conservadores x progressistas”. O principal confronto da sociedade não seria entre ricos e pobres, mas “entre Estado e cidadãos”, relata o jornal.

Lula é admirado menos pelas políticas de seus governos e mais por ser um caso típico de ascensão social. Assim como Sílvio Santos e João Doria, igualmente citados como vencedores que vieram de baixo.

Não deveria haver grande surpresa nessas conclusões. Afinal, Sílvio Santos já vem sendo exaltado como campeão do esforço individual há mais de meio século.

Surpreendente, mesmo, seria concluir que sob os governos petistas essas concepções tenham se enfraquecido para retomar a força repentinamente nos últimos três ou quatro anos.

Na verdade, a predominância dos valores conservadores não mudou muito nesse tempo todo. A não ser pelo fato de ter conquistado adeptos aos montes em quase toda a esquerda institucional.

A conclusão mais importante do estudo é indireta. Não foi o povo que se tornou mais conservador.

Leia também: Gramsci, conservadorismo e progressismo em São Paulo

terça-feira, 4 de abril de 2017

Não verás futuro algum

“Não Verás País Nenhum” foi publicado por Ignácio de Loyola Brandão em 1981. O livro imagina um cenário de destruição ambiental no Brasil no começo do século 21. A seguinte citação abre o romance:

Conde de Oeyras. Alvará com força de Ley, por que Voffa Mageftade be fervido probibier, que nas Capitanías do Rio de Janeiro, Pernambuco, Santos, Paraíba, Rio Grande, e Seará, fe naõ cortem as Arvores de Mangues, que naõ eftiverem já defcafcadas, debaixo das penas nelle conteúdas: Tudo na forma que affima fe declara.

Trata-se de um documento publicado em 1755. Escrito em português antigo, sua tradução seria a seguinte:

Conde de Oeiras. Alvará com força de lei, por que Vossa Majestade é servido proibir, que nas Capitanias do Rio de Janeiro, Pernambuco, Santos, Paraíba, Rio Grande, e Ceará, se não cortem as Árvores de Mangues, que naõ estiverem já descascadas, debaixo das penas nele contidas: Tudo na forma que acima se declara.

Como se vê, já naquela época, normas jurídicas procuravam proteger os manguezais.

Em 2012, foi aprovada a Lei Federal 12.651, que alterou o “Código Florestal”. Segundo esta nova legislação, os apicuns ou “salgados” já não são mais considerados Áreas de Preservação Permanente. Trata-se de extensões alagadas, típicas dos mangues e ricas em nutrientes para várias espécies de fauna e flora.

A alteração foi feita para possibilitar que esses ecossistemas sejam ocupados por grandes empresas de criação de camarão e de extração de sal.

Se o tal conde pudesse surgir do passado, ficaria assustado. Certamente, seria mais um a temer por um país que vai ficando sem futuro nenhum.

Leia também: Bem-vindos aos Campos de Descarregamento

quarta-feira, 29 de março de 2017

Eleanor Marx contra o bicho-papão da humanidade

Em 1886, Eleanor Marx viajou aos Estados Unidos a convite dos socialistas locais. Suas palestras costumavam se concentrar na defesa do feminismo socialista.

Mas em New Haven, falando para estudantes e professores da Universidade de Yale, Eleanor resolveu enfrentar o que sua biógrafa, Rachel Holmes, chamou de “bicho-papão da burguesia”: o fim da propriedade privada. Veja alguns trechos:

As pessoas temem que a abolição da propriedade privada signifique que ninguém mais possa dizer "meu casaco" ou "meu relógio", por exemplo. Mas é o oposto disso. Sob o socialismo, muita gente vai poder dizer "meu casaco" e "meu relógio" pela primeira vez. Ao mesmo tempo, mais ninguém vai dizer "minha fábrica" ou "minha terra". Acima de tudo, nenhuma pessoa poderá dizer, em relação ao outro, "minha mão de obra".

Na verdade, é a “classe capitalista” que fica com quase toda a propriedade privada. E é exatamente porque “acreditamos no ‘direito sagrado’ à propriedade que queremos que vocês possuam o que hoje lhes é tirado”.

Somos pelo fim da propriedade de todos os meios de produção. Mas isso não é abolir a propriedade privada. Isso significa dar propriedades aos milhões que hoje não têm nenhuma.

Um século e meio e muitas lutas depois, os bens pessoais já não são tão limitados. Mas a propriedade e o controle dos meios de produção nunca estiveram tão concentrados.

Trata-se de uma das previsões feitas pelo pai de Eleanor mais difíceis de contestar. E está entre aquelas que tornam tão justificável uma obsessão de Marx herdada por sua filha: jamais deixar de lutar pelo fim do capitalismo, este bicho-papão da humanidade.

terça-feira, 28 de março de 2017

Carne fraca e Reforma da Previdência, tudo a ver

Dizem que a Operação Carne Fraca está servindo de cortina de fumaça para aprovar a Reforma da Previdência. Pode ser. Mas não é só isso.

Todo mundo sabe que a JBS é uma das maiores envolvidas nas denúncias dessa operação da Polícia Federal. E que as marcas Swift, Friboi e Seara, ligadas à empresa, estão sob suspeita.

O que quase ninguém lembra é que a mesma JBS também aparece na Operação Greenfield, anunciada em setembro de ano passado.

E sobre o que era essa outra operação? Sobre carne? Não. Previdência. Mais especificamente, previdência privada.

A Operação Greenfield investiga fraudes bilionárias contra os maiores fundos de pensão de funcionários de estatais: Funcef (Caixa), Petros (Petrobras) e Previ (Banco do Brasil) e Postalis (Correio).

Na época, a grande imprensa fez questão de denunciar os gestores desses fundos, já que muitos deles tinham fortes ligações com os governos petistas. Mas, depois, as notícias sumiram.

Em 8 de março, a Operação Greenfield entrou em sua segunda fase. Ninguém deu muita atenção. E quando estourou o escândalo da carne adulterada, aí é que a coisa sumiu, mesmo.

Mas o fato é que os tais fundos fraudados são privados. Exatamente o tipo de negócio a que o governo Temer está tentando entregar a aposentadoria dos trabalhadores com sua “reforma”.

Além disso, a JBS, da Friboi, deve R$ 1,8 bilhão à Previdência. É a segunda maior devedora, atrás da Varig, que faliu em 2006 e deve R$ 3,713 bilhões.

Ou seja, o agronegócio ataca de todos os lados. Ataca nossas mesas, nossa saúde, nossos bolsos e está louco para roubar nosso futuro, também.

Leia também:
O Caixa 2 de olho no Caixa 1 da Previdência

segunda-feira, 27 de março de 2017

Na era Trump, um pesadelo utópico feminino

Em 20/03, manifestantes ocuparam o Senado estadual do Texas para protestar contra tentativas de restringir o direito ao aborto no Estado.

Algumas mulheres que participaram da atividade vestiam hábitos vermelhos. Era uma referência às roupas da personagem principal do livro “O conto da aia”, de Margaret Atwood.

Publicado em 1985, a obra mostra um futuro em que as mulheres vivem um pesadelo opressivo. Neste pesadelo utópico, elas não passam de serviçais condenadas à procriação. A palavra “estéril”, por exemplo, não existe mais. Afinal, homens jamais seriam estéreis e mulheres estéreis nunca seriam consideradas mulheres.

Abaixo, alguns trechos:

...quando mataram a tiros o presidente e metralharam o Congresso, e o exército declarou um estado de emergência. Na época, atribuíram a culpa aos fanáticos islâmicos.

Foi então que suspenderam a Constituição. Disseram que seria temporário. Não houve sequer nenhum tumulto nas ruas. As pessoas ficavam em casa à noite, assistindo à televisão, em busca de alguma direção.

Excitação sexual e orgasmo não são mais considerados necessários; seriam meramente um sintoma de frivolidade, como ligas rendadas ou pintas falsas: distrações supérfluas para os volúveis. Fora de moda.

Ó Deus, Rei do Universo, obrigada por não ter-me criado homem. Ó Deus, oblitera-me. Torna-me fecunda. Mortifica a minha carne; para que eu possa ser multiplicada. Permite-me ser preenchida.

Renuncio a meu corpo voluntariamente, para submetê-lo ao uso de outros. Eles podem fazer o que quiserem comigo. Sou abjeta. Sinto, pela primeira vez, o verdadeiro poder deles.

O livro está entre os mais vendidos desde que Donald Trump foi eleito. Provavelmente, porque passou a ser considerado profético. Exagero? Tomara que sim.

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sexta-feira, 24 de março de 2017

Sobre bodes na sala e outros bichos

Imagine uma casa cheia de gente que não se entende. De repente, um dos ocupantes coloca um bode no meio da sala. Diante do fedor e da falta de espaço causados pelo bicho, todos esquecem suas diferenças.

Esta é a “teoria do bode na sala”, muito utilizada para explicar algumas situações políticas ou sociais. Por exemplo, a reforma da previdência teria feito o papel do bode na sala para que a liberação da terceirização fosse aprovada.

E, quem sabe, os novos bodes venham a ser os problemas causados com a terceirização generalizada, enquanto é aprovado o fim das aposentadorias para quase todos. Logo depois, viria o bode da quebra da estabilidade dos servidores públicos.

Desse modo, bodes e mais bodes continuam a atravancar os cômodos da casa. E sua bosta a se acumular em quartos, sala, cozinha, banheiro...

Mas, talvez, tudo tenha começado com a presença de um outro animal, que chegou antes desses bodes todos. Teria sido trazido pelos membros mais humildes da família. No início, muitos dos moradores mais finos não queriam aceitá-lo. Mas logo viram que, apesar de sua total falta de pedigree, o bicho teria muita utilidade.

O animal saltitava alegremente pela casa, recebendo o cafuné sincero de muitos e o carinho falso de poucos. Enquanto isso, medidas prejudiciais aos interesses da maioria pobre da casa puderam ser preparadas sem chamar a atenção. Quando, finalmente, estava tudo pronto para implementá-las, o simpático animal foi expulso a pontapés.

Foi, então, que chegaram os bodes fedidos. Do lado de fora, ficou o pobre bicho recém escorraçado.

É um sapo. E parece que tem barba.

Leia também: O Caixa 2 de olho no Caixa 1 da Previdência

quinta-feira, 23 de março de 2017

O estupro como arma racista

Tom Feelings
No livro "Mulheres, raça e classe", Angela Davis afirma que, nos Estados Unidos, durante a escravidão mulheres e homens negros sofriam igualmente. Mas elas eram vítimas de abuso sexual e outros maus-tratos bárbaros que só poderiam ser infligidos a mulheres.

Entre os maiores sofrimentos, estavam aqueles relacionados à maternidade. Como eram consideradas "parideiras" e não "mães", seus filhos podiam ser vendidos como bezerros.

Muitas delas foram obrigadas a largar seus bebês no chão enquanto trabalhavam nas plantações. Algumas tentavam trabalhar com seus bebês amarrados às costas. Tudo isso sob sol e chuva.

Escravas grávidas não estavam livres do açoite, caso não cumprissem sua carga diária de tarefas ou apenas se queixassem. Há registros de gestantes obrigadas a se deitar sobre um buraco feito para acomodar suas barrigas, enquanto eram chicoteadas.

Tanto homens como mulheres sofriam flagelações e mutilações, mas elas também eram estupradas.

As constantes violações das mulheres escravizadas muitas vezes levava ao nascimento de crianças, cujo pai era o estuprador branco. No entanto, esses nascimentos eram covardemente atribuídos a uma pretensa tendência à “promiscuidade sexual” das mulheres negras.

O estupro também servia para punir os homens negros, inclusive após o fim da escravidão. Neste caso, ao caracterizá-los como animais viciados em cometer violências sexuais contra mulheres brancas.

Embora estupradores raramente fossem julgados, homens negros eram constantemente condenados por estupro, fossem culpados ou não. Assim, dos 455 homens executados entre 1930 e 1967 por estupro, 405 eram negros.

Esses mitos forjados durante a escravidão continuam a servir de justificativa para perseguir milhões de mulheres e homens negros nos Estados Unidos, aqui e em muitos outros lugares.

Leia também: Mulheres comunistas na história dos Estados Unidos

quarta-feira, 22 de março de 2017

Eleanor Marx no trabalho de base

Os Irmãos Grimm, Shakespeare, Aristóteles, Balzac, Dickens, Goethe, Shelley, Blake, Hegel, Rousseau, Fourier e Darwin. O Talmud em hebraico e holandês, versões da Bíblia em alemão e em inglês. Estes são apenas alguns mestres e obras com que Marx e Engels educaram Eleanor. Sempre em casa, pois as escolas para meninas da época só ensinavam os deveres básicos para futuras “donas do lar”.

Mesmo assim, Eleanor e sua família jamais olharam com arrogância os que não tinham acesso a essa “alta cultura”. Ao contrário. Segundo conta Rachel Holmes em sua biografia sobre Eleanor, quando a Internacional foi fundada, Marx e Engels escreveram:

...formulamos muito claramente a palavra de ordem: a emancipação dos trabalhadores deve ser conquistada pelos próprios trabalhadores. Portanto, não podemos nos associar a pessoas que declaram abertamente que os trabalhadores não são instruídos para se emanciparem e devem ser libertados a partir do alto por grandes e pequenos burgueses filantropos (...), e que devem se colocar sob a liderança dos proprietários “educados", que saberiam o que é bom para eles.

A militância de Eleanor sempre foi coerente com estes princípios. Ela participou da formação do braço sindical das mulheres do setor de gás na Inglaterra. Também ajudou a organizar a luta dos estivadores.

Apesar disso, ela só conseguia participar dos encontros sindicais na condição de intérprete e jornalista. Para o machismo dos sindicalistas da época, falar e escrever em três línguas não a qualificava como trabalhadora.

Mas essas dificuldades jamais a fizeram duvidar de que o socialismo só poderia ser construído por iniciativa da maioria explorada e com a presença decisiva das mulheres.

terça-feira, 21 de março de 2017

A carne que o diabo temperou

Em 20/03, Gustavo Henrique Freire Barbosa publicou o artigo “Friboi, BRF e a ‘ética’ do livre-mercado” no portal “Outras Palavras”. Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Barbosa lembrou um trecho de “O Capital”, de Marx, que merece destaque.

Segundo ele, no capítulo sobre a jornada de trabalho, Marx cita um relatório da Câmara dos Comuns britânica abordando irregularidades na produção de pães, segundo o qual “o livre-comércio abrangeria também o direito de comercializar produtos falsificados”.

Diante disso, o revolucionário alemão escreveu:

...o inglês, tão apegado à Bíblia, sabia que o homem, quando não se torna capitalista, proprietário rural ou sinecurista pela Graça Divina, é vocacionado a comer seu pão com o suor de seu rosto, mas ele não sabia que esse homem, em seu pão diário, tinha de comer certa quantidade de suor humano, misturada com supurações de abscessos, teias de aranha, baratas mortas e fermento podre alemão, além de alune, arenito e outros agradáveis ingredientes minerais.

Alimento com tal qualidade bem poderia ser comparado ao popular “pão que o diabo amassou”. Expressão que, aliás, teria origens bíblicas. Como se sabe, foi o Diabo que levou Adão e Eva a experimentar o fruto proibido. Condenado a trabalhar duro para garantir seu sustento, o primeiro casal passou a ingerir um pão que lhes chegava à mesa com tanto esforço que era como se tivesse sido preparado pelo próprio Capeta.

Século e meio depois da publicação de “O Capital” e muito mais tempo desde Adão e Eva, já não temos problemas apenas com pães e o Maligno não tem culpa alguma. Ou será que tem?

segunda-feira, 20 de março de 2017

Nat King Cole e o racismo no país de Trump

Nat King Cole teria completado 98 anos em 17/03, se estivesse vivo. A data foi lembrada por um artigo de João Máximo, no Globo.

Entre outras coisas, Máximo afirma que ele foi “o primeiro negro a estrelar um programa de TV nos Estados Unidos e o maior vendedor de discos da gravadora Capitol, numa época em que Frank Sinatra vivia nela sua melhor fase”.

Em 1948, ele estourou nas paradas com “Nature boy”. Foi o bastante para que o mundo caísse sobre ele. Os moradores brancos de Hancock Park, onde Cole comprara um casarão de três andares, “fizeram pressão para que ele se mudasse”, conta Máximo.

Seu programa de TV foi transferido do horário nobre para a manhã e, um ano depois, suspenso. Os patrocinadores começaram a sumir, pois telespectadores brancos se recusavam a aceitar “um negro cantando coisas de amor para suas mulheres”.

Mas o pior viria em Birmingham, Alabama, em 1956. Ele e sua banda aceitaram se apresentar em sessões separadas. Uma só para negros, outra, para brancos. Nesta última, “cinco membros do Conselho dos Cidadãos Brancos do Alabama subiram ao palco e o espancaram à vista de todos”, diz o artigo.

Um dos maiores sucessos de Cole era “Unforgettable” (Inesquecível). As canções e o talento de Cole realmente jamais devem ser esquecidos. Mas, infelizmente, histórias como a perseguição racista que ele sofreu também não podem sair de nossas memórias. Elas ajudam a entender porque há um Donald Trump governando os Estados Unidos.

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É racismo, puta que o pariu!