sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Bolcheviques enfrentam soldados cossacos na cara e na coragem

Uma das forças mais importantes no cenário da Revolução de Outubro eram os cossacos. Este povo originário das estepes da Ucrânia e sul da Rússia eram famosos por sua coragem e bravura, mas também por sua independência. Seus chefes eram os “atamãs”

Durante o processo revolucionário, muitos cossacos ameaçavam se alinhar aos contrarrevolucionários, desconfiados da rebeldia bolchevique.

Sendo quase impossível vencê-los, era fundamental neutralizá-los. É o que mostra o episódio abaixo, retirado do livro “História da Guerra Civil Russa 1917 – 1922”, de Jean-Jacques Marie:

O bolchevique Dybenko, responsável pelo Soviete da Marinha do Báltico, acompanhado por um único marinheiro, desembarca na noite de 31 de outubro, às três da madrugada, no quartel dos cossacos do atamã Krasnov em Gatchina, a 30 quilômetros de Petrogrado. Convida os que estão acordados a ouvi-lo, apesar da grande hostilidade dos oficiais. Numa sala em que o contorno dos rostos é pouco a pouco apagado pela fumaça dos cigarros, ele resgata a história da revolução de fevereiro até outubro e denuncia a política do governo provisório. Alguns oficiais o interrompem várias vezes, gritando “Cossacos, não acreditem neles!”, “São traidores da Rússia!”, “Expulsem esses espiões alemães”, “Batam neles!”, mas ninguém ousa pegar as armas e abater os dois bolcheviques. À medida que Dybenko fala, outros cossacos acordam e vão encher a sala, pequena demais para todos. Eles ouvem atentamente, indiferentes às vociferações dos oficiais, e fazem perguntas. Dybenko responde durante cinco horas, até às 8 da manhã; os cossacos decidem permanecer neutros entre os bolcheviques e Kerensky. É uma vitória da palavra, ou seja, da política.

Ou uma vitória da coragem política.

Leia também: Revolução bolchevique: gradual e pela base

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Revolução bolchevique: gradual e pela base

No início de seu livro “Os bolcheviques no poder”, Alexander Rabinowitch, lembra que suas obras anteriores, “Prelúdio da revolução” e “Os bolcheviques chegam ao poder”:

...desafiaram as noções ocidentais predominantes sobre a Revolução de Outubro como um golpe militar cometido por um pequeno grupo de fanáticos revolucionários liderado brilhantemente por Lênin. Descobriram que, em 1917, o partido bolchevique em Petrogrado transformou-se em um partido político de massa e que, ao invés de ser um movimento monolítico marchando firme atrás de Lênin, tinha uma liderança dividida em alas de direita, esquerda, centro e moderada, cada uma das quais ajudando a moldar estratégias e táticas revolucionárias. Também revelaram que o sucesso do partido na luta pelo poder após a derrubada do tzar em fevereiro de 1917 devia-se, de forma muito importante, a sua flexibilidade organizacional, abertura e capacidade de resposta às aspirações populares, bem como a sua extensa rede de conexões junto a operários, soldados da guarnição de Petrogrado e marinheiros da Frota do Báltico. A Revolução de Outubro em Petrogrado foi menos uma operação militar do que um processo gradual enraizado na cultura política popular, baseado no desencanto generalizado com os resultados da Revolução de Fevereiro e, nesse contexto, na atração magnética exercida pelas promessas dos bolcheviques de paz, pão e terra para o campesinato e democracia de base exercida através de sovietes multipartidários.

Mas se é assim, pergunta Rabinowitch, como explicar a rápida transformação de todos estes elementos em seu contrário, em tão poucos anos? 

É esta questão que “Os bolcheviques no poder” pretende ajudar a responder. Voltaremos a ele.

Leia também: Mais momentos pouco épicos da Revolução de 17

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Os marxistas bem depois da época de Lênin

Últimos trechos do artigo de John Riddell sobre a Internacional Comunista dos tempos de Lênin.

Referindo-se aos atuais agrupamentos marxistas, ele afirma:

Normalmente, cada grupo é limitado a uma única vertente da tradição marxista. Eles tendem a se fragmentar ao longo do tempo. Aumentam em número, enquanto se envolvem em uma guerra de cada um contra todos. As ligações com a classe trabalhadora não são fortes. As divisões geralmente decorrem da sua dinâmica interna e não dos desafios da luta de classe. A democracia interna é muitas vezes menos desenvolvida do que no início do Internacional Comunista.

As diferenças programáticas entre tais agrupamentos não são claras. Cada corrente é definida principalmente por sua cultura e tradições políticas. Essa fidelidade dá a eles um perfil rígido, dificultando que aprendam com as mudanças nas lutas, corrijam seus rumos e unam-se a outras correntes.

Mostram pouca capacidade de resolver as diferenças através da experiência. As lideranças muitas vezes ficam distantes do controle das bases e tendem a ser perpetuar (...). A disciplina visa menos à unidade contra o inimigo da classe e mais a manutenção dos membros alinhados ao que deve ser dito e feito. O sucesso é definido não tanto pelas vitórias da classe como pela capacidade de crescimento do grupo, acúmulo de recursos e recrutamento dos melhores entre seus concorrentes marxistas.

Para superar esses problemas, diz Riddell, não adianta tratar a experiência da Internacional Comunista de Lênin “como uma cartilha”. Mas sua história “deveria servir para estimular nossa imaginação”.

Realmente, imaginação é importante. Mas é só uma das coisas que anda nos faltando, há muitos anos.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

O que fazer com “O que fazer?” de Lênin?

No final de “Outubro: história da Revolução Russa”, China Miéville refere-se ao romance “O que fazer?”, do escritor russo Nikolai Tchernyshevsky. “Este livro estranho, diz ele, “lança uma longa sombra”.

Foi do livro de Tchernyshevsky que Lênin emprestou o título para sua obra mais famosa sobre concepção de partido. Mas quando a Revolução de 1917 foi vitoriosa, “O que fazer?” já tinha 15 anos. E até seu autor o considerava ultrapassado.

É o que se nota, por exemplo, na coletânea "Doze Anos", publicada por Lênin em 1906. Num dos textos, ele procura responder aos críticos de seu famoso livro, afirmando: 

O erro principal dos que hoje polemizam com o “Que Fazer?” consiste em desligar por completo esta obra de uma situação histórica determinada, de um período histórico concreto do desenvolvimento de nosso partido que passou há muito tempo.

De fato, é difícil reconhecer no partido que liderou a tomada do poder pelos sovietes a concepção organizacional defendida por Lênin em “O que fazer”.

Um ótimo artigo escrito pelo marxista estadunidense Hal Draper procura explicar esse processo. Transformar o livro de Lênin em fórmula sagrada sobre organização partidária interessava tanto à contrarrevolução stalinista como a forças de direita.

Publicado por Draper em 1990, “O mito da ‘Concepção Leninista de Partido’ ou ‘O que fizeram com ‘O que fazer?’”, ainda não tem tradução para o português. Mas um resumo dele pode ser acessado aqui.

A argumentação de Draper pode ajudar a entender porque a “longa sombra” a que se referiu Miéville vem, na verdade, assombrando muitas gerações de socialistas.  

Leia também: O partido de Lênin era pouco “leninista”

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

O capitalismo tem que morrer de “morte matada”

Da coluna de Pablo Ortellado, na Folha, em 10/10:

Num instigante estudo comparativo sobre o surgimento e o desenvolvimento dos impostos progressivos, Kenneth Scheve e David Stasavage (Taxing the rich: a history of fiscal fairness in the United States and Europe. Princeton: Princeton University Press, 2016) demonstraram, apoiados na história de vinte países, que a introdução de impostos progressivos e a consequente diminuição da desigualdade na Europa e nos Estados Unidos não se deveu ao chamado "efeito democrático" (pelo qual maiorias pobres com direito a voto imporiam um sacrifício aos mais ricos), nem a uma reação política à desigualdade crescente, mas a circunstâncias muito específicas do esforço de guerra, sobretudo durante as duas guerras mundiais.

Num contexto que era de turbulência e ameaças, as esquerdas conseguiram fazer prevalecer o argumento de que assim como os trabalhadores estavam se sacrificando, colocando a vida em risco nos campos de batalha, os empresários também deveriam se sacrificar, contribuindo para o esforço de guerra com impostos muito mais elevados sobre a sua renda e o seu patrimônio.

Ou seja, diminuição da desigualdade no capitalismo, só com muita matança de trabalhadores.

É mais ou menos o que afirmou Pedro Herculano de Souza em entrevista comentada na pílula Distribuição de riqueza, só com catástrofe.

Certa vez, o marxista estadunidense Fredric Jameson disse que “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”.

Mas isso só é verdade se o capitalismo morrer de “morte morrida”. Nossa única chance de salvação é que ele morra de “morte matada”.

Ou como disse Rosa Luxemburgo, ou é socialismo ou é barbárie!

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

A Internacional Comunista na época de Lênin (2)

Voltando a John Riddell, historiador canadense socialista e editor de uma série de livros sobre a Internacional Comunista na época de Lênin. Mais um trecho do interessante artigo “Party democracy in Lenin’s Comintern – and now” (“Democracia partidária na Internacional Comunista de Lênin - e agora”), ainda sem tradução:

A Internacional Comunista e seus partidos procuraram funcionar de acordo com as normas do “centralismo democrático”. Este conceito foi entendido como democracia proletária na tomada de decisões e na escolha dos líderes, combinada com a unidade na realização de um curso de ação aprovado pela maioria. Os marxistas usam o mesmo conceito hoje. Mas no início da Internacional Comunista, o foco era diferente: sua principal preocupação era lidar com o burocratismo e o eleitoralismo.

As principais unidades integrantes dos partidos da Internacional Comunista fora da Rússia vieram do antigo movimento social-democrata. Esses partidos se livraram de suas alas reformistas, mas ainda preservaram muitas de suas estruturas e hábitos. Os partidos de onde vieram dedicaram sua energia principalmente às campanhas eleitorais e ao trabalho educacional associativo. Eram liderados por uma camada burocrática de funcionários enraizados acima de tudo na fração parlamentar, nos órgãos jornalísticos e nas lideranças sindicais. O centralismo democrático da Internacional Comunista procurou superar o burocratismo. Pretendia manter o trabalho parlamentar, jornalístico e sindical sob controle partidário; unificar liderança e base em um movimento homogêneo; e equipar o partido para intervir nas lutas de massa. 

Como se vê, as dificuldades relacionadas ao institucionalismo, inclusive sindical, e à burocratização de nossas organizações, vêm de longe. Só não podemos dizer o mesmo quanto a nossos jornais. Eles praticamente inexistem.

Leia também: A Internacional Comunista na época de Lênin

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Vamos (começar a) discutir “big data”?

Caio Almendra publicou no Facebook um ótimo texto sobre o “big data”, termo que se refere a um imenso conjunto de dados, cuja estruturação feita de forma adequada pode revelar informações detalhadas e valiosas sobre praticamente qualquer tema. Por exemplo, desde hábitos de consumo a preferências politicas de determinadas parcelas da população.

Aí vai um trecho:

O controle empresarial do big data, a commoditização, opera como o controle empresarial e commoditização operam em qualquer área: escolhem determinadas perguntas a serem feitas e ocultam outras. Como fazer o consumidor comprar como queremos é uma pergunta comum; como saber onde o consumo gera mais dano ambiental e como evitar esse dano, é a típica pergunta esquecida. Posso dar outro exemplo simples: o que o controle empresarial sobre a produção de medicamentos fez ao longo do século passado? Focou em doenças difíceis e caras de serem tratadas, abandonou as doenças que estatisticamente mais matam. Zilhares de remédios para um tipo específico de câncer, nenhum para a malária, doença que mais mata (e mata majoritariamente pobres de países periféricos e etnias oprimidas) no mundo. Agora que descobrimos o uso na medicina social do big data, o que o controle empresarial promete para nós? Uso do big data para salvar milhões de pessoas da malária, ou uso do big data para convencer as pessoas a comprarem mais e mais remédios inúteis ou questionáveis?

A resposta parece óbvia, mas recomenda-se a leitura da íntegra do texto, não só para conferir, como para aprender. Porque neste campo, como se já não bastasse tantos outros, a esquerda nem chega a engatinhar.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

A Internacional Comunista na época de Lênin

John Riddell é um historiador canadense socialista e editor de uma série de livros sobre a Internacional Comunista na época de Lênin.

É dele o interessante artigo “Party democracy in Lenin’s Comintern – and now” (“Democracia partidária na Internacional Comunista de Lênin - e agora”), ainda sem tradução.

O texto descreve “como os partidos comunistas lidavam com questões de disciplina interna e democracia no tempo de Lênin”. A título de introdução ao tema, um trecho:

Os partidos nos países imperialistas tinham dezenas ou centenas de milhares de membros. Eles também tinham uma ampla periferia de simpatizantes, muitos dos quais trabalharam com membros do partido em questões específicas, como ajuda à Rússia soviética, emancipação das mulheres ou oposição ao colonialismo. O partido funcionou em estreito contato com uma ampla camada de trabalhadores revolucionários. O partido e sua periferia exerceram influência em toda a classe trabalhadora.

Os partidos comunistas do tempo de Lênin incluíam um amplo espectro de tradições socialistas revolucionárias. Os membros do partido tinham diversas origens, provenientes de organizações socialdemocratas, sindicalistas ou revolucionárias-nacionalistas.

Os debates internos da Internacional se concentraram em questões de tática e estratégia e seu significado político para a ampla massa de trabalhadores, sobre as quais suas ações tinham um grande impacto. Os debates em seus partidos, em geral, refletiam a diferenciação social e opiniões contrastantes dentro da classe trabalhadora como um todo.

Ao contrário do que grande parte da esquerda pensa, ainda há muito o que aprender com as experiências partidárias dos tempos de Lênin. Desde que, é claro, não se tente simplesmente imitá-las ou reproduzi-las.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O Capital pode sofrer de apendicite?

Em um famoso capítulo de “O Capital”, Marx fala sobre a transição entre antigos processos produtivos e aqueles sob a lógica do capital:

Na manufatura e no artesanato, o trabalhador se serve da ferramenta; na fábrica, ele serve à máquina. Lá, o movimento do meio de trabalho parte dele; aqui, ao contrário, é ele quem tem de acompanhar o movimento. Na manufatura, os trabalhadores constituem membros de um mecanismo vivo. Na fábrica, tem-se um mecanismo morto, independente deles e ao qual são incorporados como apêndices vivos. 

Na mesma obra, Marx apresentou o conceito de fetichismo da mercadoria para explicar o caráter mistificador da economia capitalista. Vivemos sob uma forma de produção em que as relações humanas são cada vez mais intermediadas pelas mercadorias.


Enquanto elas circulam livremente pelo planeta, a enorme maioria de seus produtores vive isolada em suas fronteiras. Enquanto as mercadorias têm uma vida social, nós somos meros portadores de suas marcas, especificações, cores, modelos.

Esse fetichismo se revelava mais claramente no consumo. Agora, talvez, ele fique mais evidente, assustador e perigoso no nível da produção. Os locais de trabalho seriam dominados quase inteiramente por coisas robotizadas.

A Quarta Revolução Industrial pode ser a radicalização da redução dos trabalhadores aos “apêndices” a que Marx se referiu 100 anos atrás. Só que, agora, o Capital pretende extirpá-los.

Na verdade o que os capitalistas tomam por apêndices são órgãos vitais. Sem eles, sua exploração simplesmente não funciona ou funciona muito mal. O capitalismo é usuário dependente da exploração do trabalho humano.

Para tentar entender melhor essa questão, leia Robôs não ficam desempregados.

Leia também: Nós e os robôs, os robôs e nós. Os robôs e os robôs

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Nós e os robôs, os robôs e nós. Os robôs e os robôs


Em 1942, o escritor de ficção científica Isaac Asimov criou três leis da para proteger os seres humanos dos robôs:

1 - Um robô não pode ferir um ser humano.


2 - Deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto se entrarem em choque com a primeira lei.


3 - Deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a primeira ou segunda lei.


Em 1950, um dos idealizadores do computador, Alan Turing, criou um teste para verificar a capacidade de uma máquina exibir comportamento inteligente o suficiente para se passar por uma pessoa.


Em 2011, o cientista da computação, Hector Levesque, criou o desafio Winograd, que pede aos computadores para explicar o sentido de frases ambíguas, que, geralmente, são interpretadas pelos seres humanos sem equívocos.


Como se vê, as preocupações sobre a presença robótica na vida humana são muito anteriores à chamada Quarta Revolução Industrial.


O problema é que a Revolução 4.0 não é apenas sobre robôs. É sobre robôs que sabem, por exemplo, que vão apresentar defeito em breve e solicitam reparos a outros robôs.


Ou seja, está colocada a possibilidade de um mundo em que as três leis de Asimov e os testes de Turing e Levesque fiquem obsoletos pela ausência da convivência que eles pressupõem.


Ou melhor, não é difícil imaginar robôs aplicando versões invertidas dos testes de Turing e Winograd para desmascarar e segregar quem tentasse disfarçar sua condição de ser humano.


E aquelas entre as pessoas que infligissem alguma das leis de Asimov adaptadas para proteger os robôs seriam “desativadas” imediatamente.


Leia também: Inteligência Artificial e estupidez capitalista

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

A Comuna e os sovietes como surpresas revolucionárias

Um tema importante de “Sobre a Dualidade de Poderes”, de Lênin, são os sovietes. Ou seja, os conselhos de operários, camponeses e soldados.

Surgidos na Revolução de 1905, eles renascem com força total em 1917 para desafiar o governo provisório, controlado pela burguesia.

Segundo Lênin, os sovietes tinham como modelo a Comuna de Paris de 1871, cujos traços fundamentais eram os seguintes:

    1 - fonte do poder não está numa lei previamente discutida e aprovada pelo parlamento mas na iniciativa direta das massas populares partindo de baixo e em nível local (...);

    2 - substituição da polícia e do exército, como instituições separadas do povo e opostas ao povo, pelo armamento direto de todo o povo; com este poder a ordem pública é mantida pelos próprios operários e camponeses armados (...);

    3 - funcionalismo, a burocracia, ou é substituído pelo poder imediato do próprio povo ou, pelo menos, colocado sob um controle especial; seus membros tornam-se não só elegíveis mas exoneráveis à primeira exigência do povo, reduzem-se a simples representantes; transformam-se de camada privilegiada, com «lugarzinhos» de remuneração elevada, burguesa, em operários com uma “função especial”, cuja remuneração não exceda o salário normal de um bom operário.

Infelizmente, vários fatores inviabilizaram este caminho. Entre os principais, o feroz cerco do imperialismo capitalista e a resposta contrarrevolucionária do stalinismo a ele.

Mas há sempre o que aprender com processos revolucionários. Principalmente, quando derrotados.

Além disso, não foram as vanguardas que inventaram a Comuna ou os sovietes. Marx foi tão surpreendido pela primeira, quanto Lênin pelos segundos.

É preciso respeitar as surpresas revolucionárias. Elas sempre acontecem.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Inteligência Artificial e estupidez capitalista

“Se está na cozinha, é uma mulher: como os algoritmos reforçam preconceitos” é o título de artigo de Javier Salas publicado no El País, em 23/09. Refere-se ao modo como um algoritmo descreve um homem calvo e usando calças enquanto cozinha.

A reportagem traz outras informações. Por exemplo:

...o caso de Tay, o robô inteligente projetado pela Microsoft para se integrar nas conversas do Twitter aprendendo com os demais usuários: a empresa precisou retirá-lo em menos de 24 horas porque começou a fazer apologia do nazismo, assediar outros tuiteiros e defender o muro de Trump.

Ou, ainda, quando o Google rotula pessoas negras como gorilas. E fotos de usuários negros do Flickr são classificadas como “chimpanzés”. Ou o software da Nikon adverte o fotógrafo de que alguém piscou quando o retratado tem traços asiáticos. O primeiro concurso de beleza julgado por computador classificou apenas uma pessoa de pele escura entre os 44 vencedores.

É assim que a Inteligência Artificial comprova que funciona à imagem e semelhança da sociedade que a vem criando.

O mesmo artigo cita Cathy O'Neil, matemática e autora do livro “Armas de Destruição Matemática”, ainda sem edição brasileira. “O software está fazendo seu trabalho. O problema é que os lucros acabam servindo como um substituto da verdade”, diz ela.

Como conclui o texto:

O Facebook deixa que seu algoritmo selecione e venda anúncios a “pessoas que odeiam os judeus” e “adolescentes vulneráveis” porque se enriquece desse jeito; se as pessoas lhes pagam por isso, não podem estar erradas.

Ou seja, não é qualquer estupidez. É aquela especificamente capitalista.

Leia também:

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Dois poderes e muita confusão na Rússia de 1917

“Tome o poder, seu filho da puta, quando ele é oferecido a você!". Esta frase foi dita por um marinheiro russo a um dirigente do soviete de Petrogrado, em julho de 1917.

No mesmo período, dirigentes do soviete de Petrogrado foram cercados por uma multidão raivosa. Tropas leais ao governo provisório apareceram para salvá-los. Salvá-los de quê? De que fossem obrigados a tomar o poder!

Essas situações mostram toda a confusão daquele momento do processo revolucionário. Dizem respeito a um fenômeno político que Lênin explicou em um artigo publicado alguns meses antes: “Uma particularidade extremamente notável da nossa revolução consiste em que ela gerou uma dualidade de poderes”.

Segundo o texto, essa dualidade opunha de um lado o Governo Provisório, “da burguesia” e, de outro, um “governo, ainda fraco, embrionário, mas indubitavelmente existente de fato e em desenvolvimento: os sovietes de deputados operários e soldados”.

O que Lênin e os bolcheviques defendiam era basicamente a transferência do poder do primeiro para o segundo governo.

O problema é que a esquerda moderada era maioria dentro dos sovietes. E insistia em respeitar o governo provisório, apesar de seus membros se recusarem a cumprir as tarefas exigidas pela Revolução de Fevereiro. Especialmente, a saída da Rússia da Primeira Guerra e a reforma agrária.

Nessa confusão toda, era preciso defender o lema “Todo o poder aos sovietes”, mas também obter uma maioria revolucionária no interior deles. Manter o fogo revolucionário aceso nas cidades, mas garantir o apoio do campo no imenso império russo.

E ainda há quem diga que a Revolução de Outubro não passou de um golpe palaciano.

Leia também: O “Trem das Onze” de Lênin

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Sobre as ameaças de intervenção militar

Mais que justa toda a indignação manifestada em relação ao pronunciamento do general Mourão no sentido de que as Forças Armadas teriam um golpe militar preparado. Assim como são necessárias a denúncia e a resistência a qualquer coisa desse tipo.

Mas é importante atentar para o papel de outras instituições e setores do Estado na defesa dos interesses das classes dominantes. E neste aspecto, tudo indica que as Forças Armadas estão longe de desempenhar a mesma função que cumpriu nos períodos anterior e posterior ao golpe de 1964.

É mais ou menos sobre esse tema que falam algumas pílulas antigas.

É o caso da perigosa convergência de interesses entre militares, judiciário e os economistas do governo golpista, tema de No meio da confusão, o jogo a ser jogado é nas ruas, de maio de 2017.

Em relação aos apelos para que haja uma intervenção militar “constitucional”, Artigo 142: intervenção militar garantida, de dezembro de 2016, e Precisamos falar da República de Weimar, de outubro de 2016. Por fim, a mais antiga. Uma pílula de setembro de 2013: O poderoso partido dos quartéis.

As pílulas acima procuram demonstrar que as expectativas do general Mourão já vêm sendo atendidas há muito tempo. Aliás, a recente ocupação militar da Rocinha foi só mais uma das muitas ocorridas nas últimas décadas a demonstrar isso. 

Por outro lado, sabemos que quando se trata da defesa dos interesses das nossas classes dominantes, nada pode estar tão ruim que não possa piorar.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Uma nota de rodapé de “O Capital”


“O Capital”, talvez, seja a primeira obra teórica a utilizar notas de rodapé exaustivamente. Imaginando que seu estudo seria recebido com grande hostilidade e ceticismo, Marx apoiou suas muitas afirmações polêmicas em inúmeras fontes bibliográficas, factuais e estatísticas.

Apesar de tornarem a leitura ainda mais difícil, algumas delas servem como pausas divertidas em meio às acrobacias dialéticas do autor. É o caso de uma nota do capítulo III.

A nota refere-se a um trecho que ironiza a crença burguesa de que o valor das mercadorias é definido pelas etiquetas de preço que seus vendedores colam nelas. Cita o relato de um tal Capitão Parry sobre os estranhos hábitos comerciais de nativos da costa ocidental da baía de Baffin:

“Nesse caso”, (ao intercambiar produtos) “(...) eles o lambiam” (o que lhes foi oferecido) “duas vezes com a língua, com o que pareciam considerar o negócio concluído satisfatoriamente”. Se a língua no norte, portanto, serve de órgão de apropriação, não é de admirar que no sul a barriga funcione como órgão de propriedade acumulada e que o cafre calcule a riqueza de um homem segundo a sua pança. Os cafres são tipos muito espertos, pois enquanto o relatório oficial inglês sobre a saúde, de 1864, deplora a falta de substâncias formadoras de gorduras em grande parte da classe trabalhadora, um certo dr. Harvey (...) no mesmo ano fez a sua fortuna por meio de receitas que prometiam livrar a burguesia e a aristocracia de seu excesso de gordura (1).

(1) Marx, Karl. “O Capital” (1867), “Capítulo III - O Dinheiro ou a Circulação das Mercadorias”.

Leia também: Para o capital, o pecado. Para nós, o castigo