terça-feira, 23 de maio de 2017

Trótski e Leminski, companheiros de exílio

Paulo Leminski escreveu uma pequena biografia de Trótski, lançada em 1986. Em 2013, a Companhia das Letras lançou “4 biografias (Cruz e Souza, Bashô, Jesus e Trótski)”, que a incluía.

Na introdução à edição, Alice Ruiz, viúva do poeta, explica porque Leminski teria escolhido o revolucionário russo para encerrar sua tetralogia de biografias:

Trótski serve de pretexto para que Paulo coloque sua visão, sua leitura pessoal sobre a Revolução Russa e sobre a própria ideia de revolução. Mas por que Trótski e não qualquer outro mais afortunado? Seria por sua fecunda habilidade com as palavras, por ser ele o mais intelectual de todos, por seu afastamento do poder, por sua participação na revolução? A soma de tudo isso e algo mais fez com que, apesar de anarquista, o eslavo Leminski escolhesse Trótski. Além da afinidade com o pensamento político e da profunda reflexão ideológica contida nesse trabalho, que Paulo considerava a chave de ouro para sua série de biografias, havia algo mais que o identificava com Trótski: o sentimento do exílio. Trótski exilado da terra pela qual lutou é Moisés impedido de entrar na terra prometida que ele ajudou a encontrar.

Paulo Leminski, a quem não interessava nada que não contivesse ideias e poesia, viveu nessa vida como um exilado. Como alguém que está fora do seu verdadeiro habitat. E precisa reinventar, através de signos, símbolos, sonhos e palavras, um simulacro mais próximo de seu conceito de vida. A poesia é como uma testemunha desse estranhamento.

Mas a biografia escrita por Leminski também é um brilhante resumo da história da Revolução Russa. Voltaremos a ela.

Leia também: Trotsky, Guevara e Leminski num bar de rodoviária

sexta-feira, 19 de maio de 2017

No meio da confusão, o jogo a ser jogado é nas ruas

Agora a bola está quicando nas ruas e quem mobilizar mais pode levar, incluindo um pacto político por Diretas Já e ano que vem com Eleições Gerais para uma Revisão Constitucional.

O trecho acima está em “Análise da crise política ao calor do momento”, artigo de Bruno Lima Rocha, professor de ciência política e de relações internacionais, publicado no IHU-Online em 18/05.

Segundo o autor, a crise atual mostra um Judiciário com um grau de autonomia que pode ameaçar muitas liberdades democráticas em nome de um moralismo conservador. Para ele, trata-se de “um aparelho de Estado que tem agenda própria e, por mais justa e legal que seja esta agenda, muitas vezes tem critérios no mínimo duvidosos”.

O sociólogo Jessé Souza, por exemplo, considera que o Judiciário tomou o lugar dos militares no papel de defensor autoritário da ordem. A hipótese é cabível, desde que descartada a ideia de que se trata somente de uma conspiração antipetista. Afinal, o golpe militar não matou e torturou apenas comunistas. Também cassou lideranças conservadoras como Carlos Lacerda. A direita sabe sacrificar alguns dos seus, quando necessário.

Por outro lado, não há nada que impeça uma “parceria” tenebrosa entre altos tribunais e gabinetes militares.

Também é recomendável não menosprezar o dispositivo econômico governamental formado por Banco Central e Fazenda, cujos titulares vêm sendo poupados pelas manchetes, apesar de estarem muito próximos da maior das corrupções, a dos grandes capitais financeiros.

É por tudo isso que, como diz Rocha, a única certeza é que a bola está “quicando” nas ruas. É pra lá que temos que ir.


terça-feira, 16 de maio de 2017

Momentos nada épicos da tomada do Palácio de Inverno

Relato baseado no livro “The Bolsheviks Come to Power” (“Os Bolcheviques Tomam o Poder”) de Alexander Rabinowitch, ainda sem tradução.

O crepúsculo se aproximava e o Palácio de Inverno ainda não estava nas mãos bolcheviques. Uma série de pequenas dificuldades causaram preocupação na época. “Hoje, parecem quase cômicas”, diz o autor.

Ficou combinado que uma lanterna vermelha seria colocada no topo do mastro da Fortaleza Pedro e Paulo para sinalizar o início da ofensiva final contra o Palácio de Inverno. Mas quando chegou o momento, ninguém conseguia encontrar uma lanterna vermelha. Quando finalmente acharam uma, não conseguiam fixá-la no mastro para que pudesse ser vista.

Ao mesmo tempo, os revolucionários que cercavam o Palácio faziam tudo para “evitar uma sangrenta batalha”. “Nos esforçamos para assegurar que eles se rendessem diante de nosso poderio revolucionário. Por isso, nos recusamos a abrir fogo, dando a nossa arma mais forte, a luta de classes, uma oportunidade de fazer efeito dentro do palácio", relatou um participante.

Nesse clima, houve duas tentativas de convencer os ocupantes do palácio a sair pacificamente. Em vão. Às 18h30, um ultimato: “Devem capitular em vinte minutos”. Nada.

Outro ultimato: “Saiam todos às 19:10h ou abriremos fogo”. Simplesmente ignorado. A resposta dos revolucionários? “Mais dez minutos, nem um minuto a mais”. Nada, novamente.

Enquanto isso, em uma pequena sala no quartel-general dos revolucionários, Lênin andava em círculos “como um leão em sua jaula”. “Precisamos tomar o Palácio de Inverno a qualquer custo", gritava, furioso.

O final da história, todos sabem. Mas, certamente, Lênin só não perdeu mais cabelos naquela noite porque já não os tinha sobrando.

Leia também: A informalidade do Partido Bolchevique

segunda-feira, 15 de maio de 2017

O racismo amassado entre os dentes

“Eu sei quando maio começa, porque todo mundo quer saber do povo negro”, diz Flávia Oliveira, em sua coluna no Globo de 11/05. “É o mês da abolição e todo mundo quer debater o racismo”, afirma a jornalista antes de enfileirar mais estatísticas demonstrando o cruel racismo brasileiro que grande parte do País teima em não reconhecer.

E estatísticas também são parte importante de um dos espetáculos de Marcelino Freire em cartaz no Sesc Copacabana. Trata-se de “Contos Negreiros do Brasil”, que junto com “Um Sol de Muito Tempo” e “Balé Ralé” formam a ocupação “Palavra Amassada Entre Os Dentes”, que homenageia o escritor pernambucano.

A exposição dos números fica por conta do sociólogo e filósofo Rodrigo França, acompanhada das ótimas interpretações de Li Borges e Milton Filho. A direção é de Fernando Philbert.

“Contos Negreiros do Brasil” é o nome de um livro de Freire. Na introdução da obra, o jornalista Xico Sá afirma que o autor:

...escreve como quem pisa no massapê, chão de barro negro, como a fala preta amassada entre os dentes, no terreiro da sintaxe, dos diminutivos dobrados nas voltas da língua...

As estatísticas pela milésima vez confirmam a violência de todos os tipos que desaba sobre a população preta e não branca há séculos. São dados que muito raramente apresentam alguma melhora. Mesmo assim, não despertam mais que algumas palavras de lamento passageiro, murmuradas por grande mídia e governantes. Exceções como Flávia Oliveira só confirmam a regra.

Por enquanto, toda essa injustiça continua a ser remoída apenas entre os dentes. Até quando, não se sabe.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Como é ser um morcego?

Em meio ao crescente debate sobre inteligência artificial, alguns trechos do livro “Homo Deus”, de Yuval Harari:  

Um dos mais importantes artigos sobre a filosofia da mente intitula-se “Como é ser um morcego?”. Nesse artigo de 1974, o filósofo Thomas Nagel assinala que a mente de um Sapiens não é capaz de conceber o mundo subjetivo de um morcego. Podemos escrever todos os algoritmos que quisermos sobre o corpo do morcego, seus sistemas de ecolocalização e seus neurônios, mas isso não vai nos explicar como é sentir-se um morcego. Como ele se sente ao localizar por intermédio do eco uma mariposa que bate suas asas?

(...)

Um morcego poderia estabelecer a diferença entre uma espécie saborosa de mariposa e uma espécie de mariposa venenosa a partir dos diferentes ecos que retornam de suas asas esguias.

(...)

Assim como o Sapiens não é capaz de compreender como é ser um morcego, temos dificuldade semelhante em compreender o que é se sentir uma baleia, um tigre ou um pelicano.

(...)

Baleias também podem ter experiências musicais espantosas que nem mesmo Bach e Mozart poderiam conceber (...). Mas será que qualquer humano seria capaz de compreender essas experiências musicais e perceber a diferença entre uma baleia Beethoven e uma baleia Justin Bieber?

Nada disso deveria nos surpreender. Sapiens não governam o mundo por terem emoções mais profundas ou experiências musicais mais complexas do que as de outros animais. Podemos ser inferiores a baleias, morcegos, tigres e pelicanos, ao menos em alguns domínios emocionais e empíricos.

Ou seja, não há artifício inteligente que dê conta de nossa vasta ignorância.

Leia também: Possíveis intimidades entre o sexo e a morte

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Possíveis intimidades entre o sexo e a morte

Sexo sai caro. Requer laboriosas programações genéticas para a ligação de cantares e danças, para produzir feromonas sexuais, para desenvolver armações heroicas utilizadas apenas para derrotar rivais, para estabelecer peças de engrenagem, movimentos ritmados e um entusiasmo mútuo pelo sexo.

O trecho acima é do livro “Sombras de antepassados esquecidos”, de Carl Sagan e Ann Druyan. Os autores, no entanto, defendem o sexo como um investimento que vale a pena. Não fosse pela reprodução sexuada, seríamos como as paramécias. Este microrganismo unicelular e assexuado tem milhões de anos, mas seus últimos exemplares são idênticos aos primeiros.

“Uma única bactéria reproduzindo-se duas vezes por hora deixará um milhão de gerações sucessivas durante o nosso tempo de vida”. Todas iguais. Portanto, estaríamos falando de espécies que desfrutam de uma certa imortalidade, afirmam os autores.

É verdade que a reprodução sexuada dá trabalho, mas ela “rejuvenesce o DNA, revigora a geração seguinte”. Permite a diversidade e as mutações que dão origem a espécies mais complexas. Além disso, deu origem ao indivíduo, resultado singular da união de outros indivíduos.

Por outro lado:

Há bilhões de anos foi estabelecido um acordo: os prazeres do sexo em troca da perda da imortalidade pessoal. Sexo e morte: não é possível ter o primeiro sem ter a última.

Pois é, se para o poeta o amor é infinito enquanto dure, a ciência, de seu modo nada romântico, também pode chegar a conclusões semelhantes em relação ao sexo. Mas, talvez, seja apenas uma forma bem diferente de abordar o conflito freudiano entre Eros e Thanatos.

Leia também: Sobre generosidade e egoísmo

terça-feira, 9 de maio de 2017

A informalidade do Partido Bolchevique

Mais uma contribuição mostra como é falsa a imagem do partido que liderou a Revolução Russa como uma máquina inflexível e militarizada. São trechos da biografia de Lênin escrita por Tony Cliff, ainda sem tradução do inglês.

Segundo o autor, em 10 de outubro de 1917, o Comitê Central bolchevique criou um Comitê Político para liderar a luta nos dias que viriam composto por sete membros. Entre eles, Lenin, Trotsky e Stalin.

No entanto, o órgão cuja tarefa era guiar a insurreição não se encontrou uma única vez. Aparentemente, esqueceram a resolução.

Em 16 de outubro, foi criado um Centro Militar Revolucionário, que jamais se reuniu e nunca mais apareceu nos registros partidários.

Na realidade, essa falta de formalismo era absolutamente vital para o funcionamento efetivo do partido como um corpo revolucionário, afirma Cliff.

Uma estrutura de partido super-formal, diz o texto, se chocaria inevitavelmente com duas características básicas do movimento revolucionário: a desigualdade nos níveis de consciência, militância e dedicação das diferentes partes de sua organização; E o fato de que os membros que desempenham um importante papel de vanguarda em determinada fase da luta podem ficar para trás em outra.

A verdade, diz Cliff, é que um partido revolucionário não nasce pronto para a revolução. Ele é moldado, transformado no processo da luta revolucionária e, sobretudo, na própria revolução.

Ao mesmo tempo, o partido não era uma entidade “desencarnada”, conclui o autor. As ideias do bolchevismo estavam representadas em milhares de militantes proletários forjados durante anos de luta. Só assim foi possível aos bolcheviques traduzir suas palavras em ações e conduzir uma revolução bem-sucedida.

Leia também: Alexandra Kollontai e o amor que algema

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Sobre generosidade e egoísmo

No livro “Sombras de antepassados esquecidos”, Carl Sagan e Ann Druyan especulam sobre uma possível predisposição genética ao altruísmo. Segundo alguns teóricos, quem ajuda ou salva seu semelhante estaria apenas protegendo os genes de sua espécie.

Mas como explicar que cães arrisquem a vida para salvar pessoas? Golfinhos já foram vistos ajudando banhistas “prestes a se afogar empurrando-os em direção à praia”. Será o golfinho incapaz de distinguir uma pessoa em perigo de um filhote de sua espécie? Altamente improvável.

Bebês humanos abandonados ou perdidos são criados por lobos. Motoristas desviam para não atropelar um cão, mesmo que isso ponha em risco a vida dos filhos que vão no banco traseiro.

“Tais exemplos de coragem e dedicação para com outra espécie podem advir de uma seleção de parentesco mal direcionada, mas acontecem mesmo e salvam vidas”, dizem os autores.

E concluem:

O egoísmo e o altruísmo inabaláveis são, parece-nos, as extremidades mal ajustadas de um continuum; a posição intermédia ótima varia segundo as circunstâncias e a seleção inibe os extremos. E, já que os genes têm tanta dificuldade em descobrir por si mesmos qual o meio-termo ótimo para cada circunstância nova que surge, não seria vantajoso para eles se delegassem a autoridade? Para isso, uma vez mais, são necessários cérebros.

Ou seja, quando a atividade cerebral alcança certa complexidade, seus portadores não precisam ser escravos de seus genes, seja em favor da solidariedade ou do egoísmo. Trata-se de escolhas. No caso da humanidade, construídas social e historicamente. A responsabilidade é nossa. Não dos cromossomos.

Aqueles que ainda apresentam alguma atividade cerebral significativa, entenderão.

Leia também: Na pré-história, faça amor, não faça guerra

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Muito mais que cem anos de solidão

O lendário livro “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, está completando meio século. Para muitos, a obra inaugurou o realismo mágico. Um estilo artístico que apresenta elementos fantasiosos como parte do cotidiano.

Apesar disso, uma das passagens menos imaginárias e marcantes do romance refere-se a um massacre ocorrido em Aracataca, cidade colombiana onde nasceu o autor.

Era dezembro de 1928 e os trabalhadores da United Fruit haviam entrado em greve. A poderosa multinacional americana não podia admitir tamanha ousadia. Muitos dos grevistas foram fuzilados pelo exército. O total de mortos nunca foi esclarecido, mas há quem diga que pode ter chegado a cinco mil.

O livro descreve a cena deste modo:

Estavam encurralados, girando num torvelinho gigantesco que pouco a pouco se reduzia ao seu epicentro, porque os seus bordos iam sendo sistematicamente recortados em círculo, como descascando uma cebola, pela tesoura insaciável e metódica da metralha.

O único sobrevivente é o personagem José Arcadio Segundo, que, na confusão, conseguiu fugir. Ao voltar mais tarde, fica surpreso quando descobre que ninguém sabia do massacre. Tudo o que lhe dizem é: “Em Macondo não aconteceu nada, nem está acontecendo nem acontecerá nunca. É um povoado feliz.”

No livro, Macondo representa Aracataca. Mas na vida real, o pequeno povoado simboliza muitos outros lugares pelo mundo. Um mundo onde o poder é exercido de modo cada vez mais solitário pelo grande capital, enquanto vai multiplicando muitas vezes o número de suas vítimas. 

Não à toa, Garcia Márquez costumava dizer: “Não há uma linha nos meus livros que não seja realidade”.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Populus, o cão de Belchior

Era 1977. Belchior lançava o LP “Coração Selvagem”. A ditadura já havia matado o jornalista Vladimir Herzog e ainda mataria o operário Santo Dias. Entre as músicas do álbum, uma que falava de um cão. O cantor cearense chamava o bicho de “Populus”.  

Populus, meu cão...
O escravo, indiferente, que trabalha

Naquela época, se dizia que era preciso fazer crescer o bolo econômico primeiro, para só depois reparti-lo. Mas de certo mesmo, Populus:

...por presente, tem migalhas sobre o chão.

E não apenas ele:

Primeiro, foi seu pai,
segundo, seu irmão;
terceiro, agora, é ele... agora é ele,
de geração, em geração, em geração.

“No congresso do medo internacional”, diz a canção, referindo-se a um poema de Carlos Drummond, ouve-se “o segredo do enredo final sobre Populus, meu cão”. Em “documento oficial” e em “testamento especial”, “a morte, sem razão”. De Populus, o cão.

Um desfecho que, em meio a “delírios sanguíneos” e “espumas nos teus lábios”, parece mesmo muito “em vão”.

Populus, está “roto no esgoto do porão”. Lá onde governo e capital jogavam os que ousavam desafiá-los. E destes restavam apenas “seu olhar de quase gente” e “as fileiras dos seus dentes”.

A música agoniza em direção a um pedido de ajuda final, em sílabas alongadas: “SOS é só, SOS é só”.

Populus quer dizer “povo” em latim. O que torna tudo ainda mais compreensível. E atual.

Mas como diz aquele poema de Drummond citado por Belchior: “Provisoriamente não cantaremos o amor”. Ele está refugiado “mais abaixo dos subterrâneos”.

Leia também: Em Mariana, poesia que dói

terça-feira, 2 de maio de 2017

Alexandra Kollontai e o amor que algema

Ela foi a primeira mulher a integrar o primeiro escalão de um governo. O governo bolchevique nos anos de 1917-1918. Também foi a primeira mulher a ser nomeada embaixadora. Estamos falando de Alexandra Kollontai.

Mas muito anos antes de se tornar uma grande liderança da Revolução Russa, ela já era incansável militante da luta pelos direitos e pela liberdade das mulheres no movimento socialista. Sempre enfrentando resistências no interior do Partido Bolchevique e da esquerda em geral.

Mas em sua autobiografia chama a atenção um outro tipo de dificuldade:

...é preciso dizer que eu ainda estou muito longe de ser o tipo de mulher positivamente nova. (...) ainda pertenço à geração de mulheres que cresceu num momento crítico da História. O amor e suas muitas decepções, com suas tragédias e eternas reclamações pela perfeita felicidade, ainda cumpriram um papel muito importante em minha vida. Um papel demasiado importante!

Alexandra refere-se às inúmeras vezes em que “o amor transformava-se em algema”. Esses momentos surgiam quando seu companheiro passava a ver nela:

...somente o elemento feminino, o qual tentava transformar em uma conveniente caixa de ressonância do seu próprio ego. E dessa forma, repetidas vezes chegou o inevitável momento em que tive que me desembaraçar das correntes da comunidade com um coração dolorido, mas com uma vontade soberana e não influenciada.

Exatamente por isso, Alexandra nunca deixou de lutar por “uma nova moral sexual”, como “alvo mais elevado” de sua atividade e de sua vida. Uma luta que mostra que até as maiores revoluções representam apenas os primeiros passos em qualquer processo de verdadeira libertação humana.

Leia também: Em outubro de 1917, Petrogrado é uma festa

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Em outubro de 1917, Petrogrado é uma festa

Era 8 de novembro de 1917 no calendário russo, 26 de outubro na contagem ocidental. No dia seguinte à tomada do poder pelos sovietes, eis o que diz o livro “Os dez dias que abalaram o mundo” sobre Petrogrado:

...os bondes circulavam, as lojas e os restaurantes estavam abertos, os teatros funcionavam, um cartaz chamava para uma exposição de pinturas… Toda a complexa rotina da vida comum — monótona mesmo em tempos de guerra — prosseguia normalmente.

Ou seja, enquanto acontecia um dos maiores eventos da história moderna, havia gente se divertindo na noite de Petrogrado.

Seria isso um sinal de que a Revolução de Outubro foi apenas um golpe de estado? De uma obra de minoria ressentida? De forma alguma.

O fato é que há momentos em que a injustiça social é tão grande que cega os de cima, mesmo sendo escandalosamente evidente para os de baixo. E o volume alto da música, o ruído dos pratos e copos, abafam o som da revolta que se aproxima perigosamente das folias das elites.

Não demorou muito para que o povo russo iniciasse sua própria festa.

Em 2013, um baile de debutantes marcou a volta das diversões típicas da época do tzar. Foi em Londres e reuniu sessenta adolescentes de Rússia, Estados Unidos, Malta e Grã-Bretanha. Estavam presentes descendentes da família Romanoff, expulsa do poder pelas revoluções de 1917.

Há quem enxergue no atual período paralelos com o início do século passado. Revoluções não parecem estar no horizonte. Mas as classes dominantes continuam a se deixar cegar e ensurdecer por farras monumentais feitas às custas de muita injustiça social.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Numa certa encruzilhada, Marx, Gramsci, Trotsky e Lênin

Este ano completam-se 150 anos da publicação do primeiro volume de “O Capital”, 100 anos da Revolução Russa e 80 anos da morte de Gramsci.

Esses três eventos fazem lembrar uma espécie de encruzilhada teórica onde se encontraram Gramsci, a obra de Marx e os personagens principais da revolução bolchevique, Lênin e Trotsky.

Ao saber dos acontecimentos de outubro de 1917 na Rússia, Gramsci escreveu um artigo intitulado “A revolução contra O Capital”.  O revolucionário italiano considerava a façanha bolchevique uma negação das conclusões simplistas deduzidas das leituras oficiais da obra-prima de Marx.

Segundo essa “receita”, revoluções socialistas somente seriam possíveis em nações altamente industrializadas, como Inglaterra, França, Alemanha. Países “atrasados”, como a Rússia, teriam que superar algumas etapas. Primeiro, industrialização e democracia, a cargo da burguesia. Depois, socialismo e liberdade, conquistados pelos trabalhadores.

Contra essa formulação, Trotsky dizia que se a burguesia não fosse capaz de cumprir as tarefas que lhe cabiam, o proletariado deveria assumi-las. Era a Revolução Permanente. Demorou, mas Lênin acabou concordando com Trotsky. Daí surgiu o vitorioso lema “todo poder aos operários, soldados e camponeses”.

Muito provavelmente, Marx concordaria. Em 1881, uma revolucionária russa escreveu a ele para saber se era possível passar da comuna rural russa ao socialismo, sem passar pelo capitalismo. Marx e Engels responderam o seguinte:

Se a revolução russa tornar-se o sinal para a revolução proletária no Ocidente, de modo que uma complemente a outra, a atual propriedade em comum da terra na Rússia poderá servir de ponto de partida para um desenvolvimento comunista.

É de saídas criativas para encruzilhadas como essas que costumam surgir as revoluções.

Leia também: O partido de Lênin era pouco “leninista”

quarta-feira, 26 de abril de 2017

A solidariedade de classe na origem da previdência social

Quando a industrialização começou, os trabalhadores não contavam com um mínimo de proteção legal. A jornada de trabalho era determinada pelo patrão. Salário-mínimo, indenização por demissão, aposentadoria, seguro acidente-de-trabalho, nem pensar. 

Se alguém fosse demitido e não arranjasse logo outra ocupação, sarjeta. Se um acidente impedisse o trabalho por semanas, mendicância. A morte de um dos que sustentavam a família podia encurtar a vida dos sobreviventes. Pobre, a partir dos 7 ou 8 anos de idade, ia pra fábrica. Não tem dinheiro para fazer o enterro? Vem daí a expressão “não tem onde cair morto”.

Resumindo, era uma “terra sem lei”. Ou melhor, valia a lei do patrão. Mas pode chamar de “Lei do Cão”.

Diante disso, os trabalhadores começaram a organizar caixas de auxílio-mútuo. Cada um contribuía com um pouco, de tempos em tempos. Quando alguém precisasse em momentos de desemprego, acidente, invalidez, viuvez, orfandade, podia contar com aquela economia surgida da solidariedade dos trabalhadores. Era pouco e por pouco tempo, mas muitas vezes evitava o pior.

A Previdência Social foi surgindo da junção dessas caixas de auxílio. Não eram mais apenas caixas de ferroviários, portuários, tecelões, metalúrgicos, bancários. Foram unificadas para que o máximo de trabalhadores pudesse contar com algum auxílio.

Mas o grande volume de dinheiro reunido por esse sistema despertou a cobiça dos poderosos. A história da Previdência Social é também disputa pelo controle de seus recursos. De um lado, a rapina de governos e patrões. De outro, a solidariedade dos explorados.

É isso que estamos vendo acontecer novamente. Defender a solidariedade de classe sempre exigiu e vai continuar exigindo muita luta!

terça-feira, 25 de abril de 2017

Reforma da Previdência e Revolta da Vacina, tudo a ver

O governo lançou nova campanha em defesa da Reforma da Previdência. Com o mote "tudo que é novo assusta", as peças publicitárias atribuem a antipatia e desconfiança com que é recebida a proposta pela maioria da população a sua suposta novidade.

Os vídeos citam alguns exemplos de novidades que “assustaram” ao surgir, mas que se revelaram positivas. O Plano Real é citado como um deles, ainda que se esconda o fato de que ele serviu como Cavalo-de-Tróia para a destruição neoliberal posterior. Foi através dele que uma terrível inflação deu lugar ao pesadelo do desemprego e à enorme dívida pública que, até hoje, suga os recursos públicos das áreas sociais, incluindo a própria previdência.

Outro exemplo que chama a atenção é o da vacinação obrigatória: “...quando surgiu a vacinação teve até revolta, hoje não dá pra viver sem”. O vídeo se refere à Revolta da Vacina, que aconteceu em 1904, quando moradores pobres do Rio se insurgiram contra a vacinação forçada, com direito a batalhas travadas em ruas tomadas por barricadas.

A história oficial considera esse episódio fruto da ignorância popular. Na verdade, foi uma reação legítima ao autoritarismo e violência com que a vacinação era feita. Verdadeiras invasões militares invadiam os bairros pobres, sem qualquer respeito por seus moradores.

Foi a primeira das muitas operações de “higienização social” que atingem o Rio e muitas outras cidades brasileiras, desde então. Seus alvos sempre foram os mais pobres, não doenças e outros males.

Neste aspecto, até faz sentido comparar a Reforma da Previdência à Revolta da Vacina. Seria muito bom que a reação popular fosse semelhante.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

O partido de Lênin era pouco “leninista”

O historiador britânico Alexander Rabinowitch escreveu vários livros contando a história da Revolução Russa. Um deles é “The Bolsheviks Come to Power” (“Os Bolcheviques Tomam o Poder”), ainda sem tradução. Um dos trechos da obra afirma o seguinte em relação ao Partido Bolchevique:

...gostaria de enfatizar a estrutura e o método de operação internamente relativamente democráticos, tolerantes e descentralizados do partido, bem como seu caráter essencialmente aberto e de massas - em marcante contraste com o modelo leninista tradicional.

Em outro momento, diz:

... em 1917, em todos os níveis da organização bolchevique de Petrogrado, a discussão era livre e animada no debate sobre as questões teóricas e táticas mais básicas. (...) não poucas vezes Lênin foi derrotado nesses debates.

Ou seja, o historiador está dizendo que aquele que é considerado o partido leninista por excelência não era assim tão leninista. Na verdade, nem Lênin era.

O livro “O que fazer”, de Lênin, é considerado a “receita” do partido leninista. Mas a obra é de 1902, quando as condições para a militância eram as piores possíveis. Depois da Revolução de 1905, a situação melhorou e Lênin escreveu uma resolução para o 3º Congresso do Partido afirmando que "em condições políticas de liberdade, nosso partido pode e deve refazer inteiramente as regras de funcionamento...". E foi mais ou menos isso que aconteceu.

O mito do partido puramente leninista dirigindo a revolução começou, mesmo, após a chegada dos bolcheviques ao poder. Em especial, com a contrarrevolução stalinista. Mas, isso já é assunto para outro momento. E a obra de Rabinowitch certamente pode nos ajudar a entender esse processo.

Leia também: Lênin e a ira de um operário simples

quarta-feira, 19 de abril de 2017

O cerco do suicídio

Parece que o grande assunto do momento tem sido o suicídio. A série “Os 13 Porquês”, da Netflix, e um jogo macabro chamado Baleia Azul são temas obrigatórios. Ambos tratam da busca pela morte voluntária entre adolescentes.

Quase um milhão de pessoas morrem por suicídio anualmente segundo a Organização Mundial de Saúde.

No livro “Sapiens – Uma Breve História da Humanidade”, Yuval Harari constata que, em 2002, dos 57 milhões de mortos no planeta, apenas 172 mil morreram em guerras e 569 mil foram vítimas de crimes violentos. Por outro lado, 873 mil cometeram suicídio.

O Mapa da Violência 2014 trouxe dados assustadores sobre o Brasil. Mortes voluntárias tendem a aumentar em países com melhores índices sociais. Mas nosso índice é igual ao de países como Japão, França, Suécia e Noruega: 30 por 100 mil habitantes.

Como hoje é “Dia do Índio”, não custa lembrar que o suicídio é uma pandemia entre os indígenas. Eles parecem funcionar como uma espécie de antena sensível demais para as loucuras que vêm dominando a humanidade. Principalmente, suas crianças e adolescentes.

É o que mostra o relatório sobre Violência Letal contra crianças e adolescentes no Brasil, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais. Municípios da Amazônia estão no topo da lista de suicídios entre crianças e adolescente indígenas. Em São Gabriel da Cachoeira, a taxa de 2003 a 2013 foi de 33,3% na faixa etária entre 10 a 19 anos. Em Tacuru, o índice chegou a 100%.

O suicídio é o sintoma da doença social que cerca suas vítimas. Enquanto não a combatermos, seremos parte deste cerco.

Errata: está incorreto o dado sobre o índice de suicídios no Brasil. O número real médio é algo em torno de 5 por 100 mil habitantes, não 30 por 100 mil. Esta proporção é real apenas para os crianças e jovens indígenas. Ainda assim, continua sendo um número assustador. 

Leia também: Suicídio indígena, branco e ocidental

terça-feira, 18 de abril de 2017

Lênin e a ira de um operário simples

23 de outubro de 1917. O Comitê Central do Partido Bolchevique reuniu-se para decidir se iniciaria ou não uma insurreição para transferir o poder aos sovietes. Somente Lênin e Trótski votaram a favor. A insurreição fora rechaçada. 

Levantou-se então um operário simples, com o rosto contraído de tanta ira. “Falo aqui em nome do proletariado de Petrogrado”, disse ele, rudemente. “Somos favoráveis a uma insurreição. Façam como acharem melhor, mas eu lhes digo que, se vocês permitirem que os sovietes sejam destruídos, nós acabaremos com vocês!"

Houve nova votação e a insurreição foi aprovada.

Mas ainda era preciso decidir qual o melhor momento para o levante revolucionário. Em nova reunião, Lênin, referindo-se ao Congresso Pan-Russo dos Sovietes, disse:

O 6 de novembro será cedo demais. Precisamos do apoio de toda a Rússia para o levante; até o dia 6 não terão chegado todos os delegados do Congresso… Por outro lado, 8 de novembro será tarde demais. Nesse momento o Congresso estará em pleno andamento, e é difícil um grupo grande de pessoas assumir uma ação rápida e decisiva. Temos de agir no dia 7, dia de abertura do Congresso, de modo que assim poderemos dizer aos delegados: “Aqui está o poder! O que vocês farão com ele?”

E foi exatamente assim que aconteceu.

Os trechos acima são do livro “Os dez dias que abalaram o mundo”, de John Reed. Mostram um daqueles raros momentos em que o papel de um indivíduo determina os rumos da história. Mas o que seria de Lênin, e da história, sem aquele “operário simples com o rosto contraído de tanta ira”?

Leia também: O dia em que Lênin perdeu por 12 a 1

segunda-feira, 17 de abril de 2017

E eles só falam da Odebrecht...

Uma radiografia da captura corporativa em alguns dos principais setores da economia brasileira: alimentos, com destaque para o caso dos transgênicos; educação; finanças e juros; meio ambiente; mídia; saúde; segurança; e setor imobiliário.

O trecho acima resume o conteúdo de “A privatização da democracia – um catálogo da captura corporativa no Brasil”. Trata-se de uma publicação do Vigência, “grupo de ativistas cujo foco de atuação é a denúncia dos efeitos sociais do capitalismo extremo no Brasil”.

Os dados mostram que o atual escândalo é apenas uma parte do sequestro dos recursos públicos nacionais pelo grande capital. Tanto do local como do estrangeiro, se é que faz sentido separar os dois.

Mas um dos aspectos mais relevantes nessa “captura” é seu quase perfeito ocultamento. E isso acontece graças a uma área sensível, controlada estrategicamente pelo poder econômico. Estamos falando da mídia. Em especial, da Globo. O catálogo revela, por exemplo, que em 2012:

...a receita líquida da Globo é, pelo menos, três vezes maior do que a receita líquida somada dos grupos Abril, RBS, O Estado de São Paulo e SBT. Já o seu lucro líquido é mais de 11 vezes maior do que o lucro líquido dessas outras empresas reunidas.

Este poderio todo permite formar, deformar, omitir, mentir em gigantesca escala. E sempre com a cumplicidade de seus “concorrentes menores”.

É esta situação que cada vez mais faz da Lava-Jato um daqueles novelões das oito com final manjado. Ou, como disse Janio de Freitas em sua última coluna, nada mais do que o “estouro de um esgoto na mansão da classe dominante”.

Acesse o catálogo, aqui

Leia também: A educação pública sob assalto de bilionários

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Três versões da traição

Há um conto de Jorge Luis Borges em que Judas é elevado à condição de mártir. Segundo a hipótese fictícia do grande escritor argentino, o mais odiado dos personagens bíblicos sacrificou sua honra e o reino dos céus por uma causa maior. Sem seu ato vergonhoso, não teria ocorrido o terrível sacrifício que redimiu a humanidade e mudou a história do mundo.

Segundo o conto, Judas teria intuído:

...a secreta divindade e o terrível propósito de Jesus. O verbo havia se rebaixado a mortal; Judas, discípulo do Verbo, podia rebaixar-se a delator. (o pior delito que a infâmia suporta) e ser hóspede do fogo que não se apaga. A ordem inferior é um espelho da ordem superior; as formas da terra correspondem às formas do céu; as manchas da pele são um mapa das incorruptíveis constelações; Judas refletiu de algum modo a Jesus.

Claro que tudo isso não passa da genial imaginação de Borges expondo as contradições envolvendo valores humanos e divinos. Mas em tempos prenhes de delações, esse jogo espelhado parece forçar sua aparição nos jornais.

É o caso da matéria de Marina Dias publicada na Folha, em 13/04. O título diz que “Temer, Lula e FHC articulam pacto por sobrevivência política em 2018”. A aproximação dos três estaria sendo intermediada por Gilmar Mendes e Nelson Jobim. A principal motivação, diminuir os estragos causados pela avalanche de denúncias de corrupção a envolver nomes graúdos dos partidos que lideram.

Onde Borges encaixaria seu Judas nesse cenário confuso até para ele? Difícil saber. De qualquer maneira, o título do conto é “As Três Versões de Judas”.

Leia também: Sobre provas, convicções e hóspedes indesejáveis