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13 de dezembro de 2024

A esquerda espectral e os espíritos malignos

Lula já foi descrito como uma espécie de “cavalo de terreiro” das contradições sociais do País. Cavalo no sentido de médium que é “possuído” por entidades espirituais.

No caso em questão, essas entidades seriam os conflitos e contradições de uma das sociedades mais injustas do planeta. E Lula seria alguém que as manifesta de forma barulhenta, porém conciliadora.

O mesmo tipo de conciliação tentado pelo varguismo para modernizar o capitalismo brasileiro, procurando incluir as massas. Lula quer algo parecido, mas usando sua origem e ligação com os movimentos sociais como fiadoras em acordos arrancados junto à classe dominante.

O problema é que seu vocabulário sindical e sotaque sertanejo formam uma combinação indigesta demais para uma burguesia elitista e colonizada. Vargas bateu contra a parede imposta por sua própria classe e se suicidou. Lula recebeu o castigo reservado a muitos de sua origem social: a cadeia.

Uma vez fora da prisão, a nova tarefa assumida por Lula foi a de organizar a direita tradicional contra a extrema-direita. Ocorre que a primeira mal consegue se distinguir da segunda. E a governabilidade petista depende mais do que nunca do Centrão, o que inclui a presença de bolsonaristas na base parlamentar e até em ministérios.

Some-se a tudo isso um congresso que controla quase todo o orçamento federal e uma subordinação suicida à austeridade fiscal que castiga a grande maioria da população.

Tudo isso parece indicar que o terreiro petista vem sendo rapidamente dominado pelos espíritos diabólicos da direita. Enquanto isso, o conjunto da esquerda mal consegue abandonar o plano espectral para se encarnar como força concreta no mundo real.

Leia também: O Lula empossado e o Lula possuído

26 de novembro de 2024

A amenidade assassina dos golpistas nacionais

No artigo “Golpe sangrento fugiria à nossa tradição”, publicado hoje no Globo, Pedro Doria relaciona sete golpes militares bem-sucedidos na história brasileira. “Em cada um desses momentos, diz ele, ao menos um general decidiu rasgar a Constituição”. Mas em nenhum deles foi derramado o sangue dos governantes depostos, ressalva Doria. E isso indicaria que “nossas ditaduras estavam num degrau mais ameno da barbárie vizinha”.

Por isso, argumenta o colunista, “dar golpes militares é coisa brasileira, sim”. Mas, referindo-se ao que foi planejado pelos bolsonaristas, prevendo uma série de assassinatos, não seria “um golpe brasileiro”.

Doria até admite que “a violência dos porões não foi pouca”, mas posicionar as barbáries das ditaduras de nossa história num nível “mais ameno” é um absurdo. Um desrespeito às milhares de vítimas torturadas, executadas e desaparecidas que não contavam com a integridade física garantida somente aos setores dirigentes.

Um golpe de estado sempre opõe parcelas da classe dominante a outras. Nesse caso, podem ocorrer prisões, exílio, processos jurídicos viciados, arbitrariedades. Mas são os de baixo que sofrem a mais extrema violência física. No regime militar, por exemplo, morreram mais de 8 mil, somente entre os indígenas.

Que as elites nacionais nunca tenham se confrontado até o derramamento de sangue não é um traço pitoresco de sua dominação. É uma evidência dos bons modos com que se relacionam, reservando a selvageria mais cruel aos de baixo.

A truculência bolsonarista não é uma excrescência irracional. É uma atitude correspondente ao ódio e repulsa das classes dominantes a qualquer possibilidade de que os explorados e oprimidos passem a confiar em suas próprias forças.

Leia também: O fascismo e a violência corriqueira do capital

13 de novembro de 2024

O fascismo e a violência corriqueira do capital

Rui Tavares, historiador português, político e colunista da Folha, lançou recentemente no Brasil o livro "Agora, Agora e Mais Agora". Reinaldo José Lopes, jornalista do mesmo jornal, o entrevistou em 09/11/2024. Abaixo, alguns trechos:

Se a democracia foi desenhada e pensada como um jogo no qual podemos nos opor uns aos outros, mas no qual sabemos que estamos limitados por determinadas regras, o que acontece com os nacional-populistas, com os neofascistas, podemos chamá-los por vários nomes, é que fundamentalmente eles têm uma atitude de insinceridade em relação ao jogo. Participam, mas não acreditam nele e querem acabar com ele.

Há cem anos, decidiram ser tolerantes com Hitler depois que ele passou alguns meses preso por uma tentativa de golpe de Estado. Ele acabou sendo libertado. Acreditou-se que o regime democrático, na Alemanha de então, era um recipiente vazio em que todas as posições deviam estar em pé de igualdade.

É impossível não pensar o que teria acontecido se a República alemã tivesse sido um pouco mais convicta e menos ingênua na defesa de seus valores. A democracia não se defende passivamente, e não podemos ficar de braços cruzados.

Para bom entendedor, meia palavra: Bolso...

Mas os recentes ataques ocorridos em Brasília parecem desmentir Tavares quando ele compara a democracia a um jogo. Seria melhor lembrar Clausewitz, que considerava a guerra como continuação da política por outros meios. Para os fascistas, porém, não há diferença substancial entre guerra e política. Esta última, para eles, apenas deve utilizar a mesma violência contra os de baixo que já faz parte do funcionamento corriqueiro da dominação capitalista.

Leia também: O fracasso e o vexame do 8 de Janeiro

11 de setembro de 2024

Marçal: um “downgrade” no bolsonarismo

A extrema-direita, como muitos já observaram, é um simulacro de revolução. E a revolução tem seu lado destrutivo e iconoclasta, mas também seu lado esperançoso, afirmativo, com promessa de futuro. O bolsonarismo é a encenação falsa do primeiro aspecto, o Pablo Marçal do segundo – por isso tem potencial de ser ainda mais atrativo.

As palavras acima foram postadas por Diogo Fagundes, no Facebook. As que estão logo abaixo são do colunista Juliano Spyer, na Folha:

Marçal é um candidato duro de ser combatido por representar um pacote que reúne defesa da família e combate ao comunismo, visto como doutrina que escraviza o pobre a sua condição de dependência. Ele encarna a ideia de que "aprender a pescar" é melhor do que depender do governo. E se apropriou da mensagem pentecostal antissistema, de quem é perseguido por seguir o chamado de Deus.

Isso deixa adversários de Marçal em uma posição incômoda. Ao atacá-lo, atacam também o sonho – muitas vezes desesperado – de quem se sente perseguido e busca, pelo cristianismo, um caminho para prosperar.

Por fim, uma citação da coluna de Miriam Leitão no Globo, sobre a manifestação de Bolsonaro, na Paulista, no dia 07/09/2024:

Na disputa paulista também o que se vê é que o prefeito Ricardo Nunes foi esquecido no fundo do palanque e o candidato Pablo Marçal usou a passeata para fazer seu show à parte.

Três fragmentos que indicam a formação de um todo: a extrema direita conseguindo reciclar e piorar o bolsonarismo. A palavra “upgrade” costuma ser traduzida como “atualização”, no sentido positivo. No caso, trata-se de um “downgrade” e em ritmo acelerado.

Leia também: O PT virou unidade de política pacificadora

21 de maio de 2024

O PT virou unidade de política pacificadora

A frase acima é de Pedro Arantes, professor da Unifesp, em entrevista concedida ao podcast “Ilustríssima Conversa” e publicada em 18/05/2023. O tema do programa é o lançamento de "8/1: a Rebelião dos Manés", livro que o entrevistado escreveu junto com Fernando Frias e Maria Luiza Meneses.

O título da obra se refere à tentativa de golpe ocorrida em janeiro de 2023 pelos bolsonaristas. Ou pelos “manés”, segundo a terminologia adotada pelo ministro do STF, Luís Barroso, para os apoiadores de Bolsonaro.

Arantes considera equivocada a postura de menosprezar e ridicularizar os “manés”. Afinal, a eleição de Bolsonaro provou que o grotesco e o caricato devem ser levados muito a sério.

O entrevistado também acha que o combate ao fascismo pela política de “redução de danos” pode acabar aumentando os danos. Os dados da realidade mostram que vivemos sob um sistema incapaz de atender as necessidades e anseios da grande maioria da população. Mesmo assim, grande parte da esquerda insiste em defendê-lo a qualquer custo. O resultado é mais frustração e ressentimento funcionando como combustível para forças extremistas conservadoras como o bolsonarismo.

Ao mesmo tempo, assistimos apáticos ao crescimento do punitivismo promovido por figuras como Alexandre de Moraes. A mesma justificativa jurídica utilizada contra os golpistas de janeiro pelo ministro do STF, por exemplo, levou à prisão de manifestantes do Movimento do Passe Livre em São Paulo. Enquanto isso, diz Arantes, a “esquerda institucionalizada deixou de construir a luta social, a formação, a educação”.

Difícil discordar. O PT tenta manter uma paz que não existe. Abana uma bandeira branca que já foi toda rasgada por tiros.

Leia também: Dobrando a aposta neoliberal no fascismo

7 de maio de 2024

Combatendo o bolsonarismo sem moderação

“Bolsonarismo moderado”. Essa expressão anda provocando debates nas redes virtuais nos últimos dias. Teria surgido a partir de uma coluna publicada por Joel Pinheiro da Fonseca, na Folha de S. Paulo.

Moderação e bolsonarismo são incompatíveis. Mesmo assim, há quem acredite nessa possibilidade e acha que um dos candidatos a encarná-la seria o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

Mas basta observar o desempenho do governador na segurança pública para constatar que o bolsonarismo é incapaz de ser moderado. O número de pessoas mortas por policiais militares em São Paulo mais que dobrou no primeiro trimestre deste ano. Tarcísio também promoveu no Guarujá a maior chacina desde a matança do Carandiru. Atrocidades que ele cita com orgulho.

Tarcísio sabe que qualquer moderação é eleitoralmente suicida para quem quer manter os votos bolsonaristas. O governador sustenta altos níveis de aprovação popular, não apesar da truculência de sua política de segurança, mas graças a ela.

O Bolsonarismo é uma espécie de fascismo. E o fascismo não se deixa moderar porque se alimenta de uma realidade social cujas consequências catastróficas castigam a grande maioria sem qualquer comedimento.

Foi assim no século passado, quando o liberalismo capitalista causou crises que mergulharam o mundo no fascismo e em duas grandes guerras. O mesmo está acontecendo agora, com o neoliberalismo provocando novas e maiores catástrofes, não só econômicas, mas humanitárias, sanitárias, ambientais e bélicas.

Combater o bolsonarismo é combater o fascismo. Mas só é possível derrotar ambos atacando o sistema que alimenta essas bestas feras. Quem fala em luta antifascista sem falar em luta anticapitalista ou está enganado ou está enganando.

Leia também: A besta do fascismo continua fora da jaula

15 de setembro de 2023

Um Tribunal de Nuremberg para os crimes da pandemia

Renato Tasca, Rebeca Freitas, Júlia Pereira e Evelyn Santos publicaram um artigo na Folha, em 12/09/2023, com importantes informações e fatos a serem lembrados sobre o Covid-19.

Em primeiro lugar, a pandemia acabou, mas o coronavírus ainda circula no Brasil, infectando muitos e, às vezes, matando. Entre janeiro e junho deste ano, cerca de 10 mil morreram em decorrência da Covid-19. Mais do que doenças como diabetes e muitos tipos de câncer.

Em segundo lugar, em 2022, no Brasil, foi notificado quase o mesmo número de casos de Covid-19 do que em 2021. No entanto, os óbitos caíram seis vezes de um ano para o outro graças à vacinação, que finalmente chegou, apesar do criminoso boicote bolsonarista.

Falando em bolsonarismo, não podemos esquecer as 700 mil mortes, entre as quais destacam-se as de 4,5 mil profissionais de saúde, principalmente, auxiliares ou técnicos de enfermagem e enfermeiros.

O texto cita ainda um estudo que calcula que mais de quatro em cada 10 pessoas tiveram problemas de ansiedade por conta da pandemia, para não mencionar o aumento da violência doméstica e da taxa de suicídio. Também merece destaque a elevada mortalidade da população negra e entre os mais pobres, em relação à média da população.

Tudo isso deveria estar sendo julgado em uma espécie de “Tribunal de Nuremberg” relacionado aos crimes cometidos durante a pandemia do coronavírus no Brasil.

Um julgamento paralelo ao que começou ontem sobre o 8 de Janeiro. Ainda que com a dificuldade operacional, mas não intransponível, de exigir a presença de muitos de seus réus tanto em um como no outro tribunal.

Leia também: 8 de Janeiro: nenhuma graça, só tragédia

13 de setembro de 2023

8 de Janeiro: nenhuma graça, só tragédia

Começou hoje o julgamento pelo STF dos golpistas de 8 de janeiro. Naquela data, as sedes dos três poderes em Brasília foram invadidas por fascistas que defendiam uma intervenção militar para depor o governo Lula.

Marx popularizou a ideia de que a história se repete primeiro como tragédia, depois como farsa.

Seguindo essa lógica, o tribunal que se instalou hoje poderia ter como causa a ser julgada apenas uma comédia tosca, encenada por bolsonaristas que tentaram repetir o trágico golpe de 1964.

Ou será que o Supremo poderia redimir o embuste sinistro produzido pela lei da anistia aprovada no final dos anos 1970? Aquela que assegurou impunidade aos assassinos e torturadores a serviço de uma ditadura que, naquele momento, começava a se recolher aos bastidores.

Mais de 40 anos depois, os togados da mais alta corte estariam prontos a levar a julgamento não apenas os golpistas patéticos de agora, mas também aqueles que, outrora, ficaram livres para voltar a cometer suas tenebrosas transações?

Ocorre que da mesma forma que Marx falava da famosa alternância histórica entre drama e comédia em termos puramente metafóricos, não há nada de caricato ou burlesco em todo esse processo.

Muitos dos que, hoje, deveriam ter amanhecido sentados no banco dos réus ocupam tranquilamente tribunas e gabinetes parlamentares e cargos no próprio governo que foi ameaçado de deposição.

Sem falar que na mesma corte cujas dependências foram depredadas pelos golpistas sentam dois juízes que se opuseram ao indiciamento dos responsáveis pelo vandalismo.

Enquanto isso, os porões das casernas continuam a reproduzir e chocar seus ovos de serpentes. Graça, nenhuma. Só desgraça persistente.

Leia também: Alexandre, o paladino da democracia tutelada

9 de agosto de 2023

Alexandre, o paladino da democracia tutelada

Ele tem uma… uma vantagem em relação a todos os ministros… ele tem uma experiência enorme, efetiva, com segurança pública. E segurança pública do estado de São Paulo (...). E tem muito diálogo, tem diálogo com os militares, tem diálogo com a polícia. Ele consegue entender a lógica e a linguagem militar, nós não teríamos ninguém aqui, … afeito a esse tipo de compreensão. Então, de fato, como eu já disse, também no TSE, ele foi o homem certo, no lugar certo, na hora certa.

As palavras acima são do ministro do STF, Gilmar Mendes. Referem-se a Alexandre de Moraes. Estão no podcast da Radio Piauí intitulado “Alexandre”, apresentado e roteirizado por Thais Bilenky.

O depoimento de Mendes dá uma ideia do personagem que se tornou o paladino da resistência institucional ao golpismo bolsonarista. Diante das ameaças de uma intervenção armada pela deposição de um presidente eleito pelo voto popular, o “homem certo” foi aquele que tem “diálogo com os militares” e entende sua “linguagem”.

De fato, Alexandre foi titular da Secretaria da Segurança de São Paulo em 2015. Nesse período ocorreu uma onda de ocupações das escolas públicas paulistas por estudantes secundaristas. E Alexandre mostrou que, mais que entender a linguagem dos militares, sabia colocar em prática a metodologia truculenta deles. Houve vários casos de estudantes menores de idade retirados com violência das escolas ocupadas.

Tudo isso durante o governo de Geraldo Alckmin, outro a se tornar integrante do dispositivo de segurança da democracia nacional. Uma democracia ameaçada por golpistas 
numa ponta e sob tutela autoritária, na outra. Todos, mais ou menos, do mesmo lado.


Leia também: Primeiros ensaios para a repressão aos movimentos sociais

19 de maio de 2023

A besta do fascismo continua fora da jaula

Não nos enganemos, o governo Lula é uma ponte a ser queimada. E, se for necessário, ainda durante a travessia.

Bolsonaro não foi um raio num céu azul. A possibilidade de sua vitória foi um ponto cego até meses antes da eleição, mas apenas para as forças de esquerda e setores da direita tradicional. A maior parte da burguesia graúda começou a apostar suas fichas no capitão fascista logo que ele se tornou competitivo.

Era uma aposta que tinha seus riscos, mas o baronato capitalista nacional preferiu isso a aceitar o petismo liberal da candidatura Haddad por causa da sombra de Lula que pairava sobre ela.

É costume dizer que o fascismo é uma fera que a burguesia mantém na jaula até que seja preciso libertá-la. Mas, quando solto, todo animal desembestado pode causar tantos problemas que não há exorcismo que dê jeito. Foi o que aconteceu com a besta de plantão. Alguns de seus cuidadores, como a Globo e alguns outros monopólios de comunicação, chegaram a ter as mãos mordidas pela ingrata criatura.

Mas se Bolsonaro acabou se dando mal, o bolsonarismo continua vivo e operante. No Congresso, no governo de estados importantes como São Paulo, Rio e Minas, nos parlamentos pelo país afora e na própria base de apoio do governo petista.

A tarefa das classes dominantes agora é se livrar de Lula o quanto antes. Com menos de seis meses de governo, os editoriais dos grandes jornais não deixam dúvidas sobre isso. Incluindo aqueles cujas patas dianteiras ainda estão envolvidas em ataduras.  

A besta recuou, mas não voltou pra jaula. Está disponível.

Leia também: Os neoliberais têm um comunismo pra chamar de seu

6 de março de 2023

A disputa nas redes não deve ser menosprezada

Voltamos ao tema da disputa nas redes virtuais. Matéria da Folha de 06/03/2023 alerta “Bolsonarismo cresce e esquerda encolhe nas redes desde as eleições”.

Segundo a nota, levantamento da agência .MAP mostra que perfis de direita fecharam fevereiro com 30,7% dos engajamentos no Twitter e no Facebook, sendo 87% deles bolsonaristas. A aprovação a Bolsonaro estaria em 41,9%, tendo sido citado em 3,17 milhões de publicações. Já a esquerda, estaria em queda desde outubro, ficando com 13% de participação do total. A análise foi feita a partir de um universo de 1,4 milhão de publicações no Twitter e no Facebook.

O engajamento nas redes não pode ser menosprezado por ocorrer em ambiente virtual. Partidos, sindicatos e associações continuam passando por uma grave crise de representatividade e confiança. A direita buscou alternativas, contando com a boa vontade dos monopólios capitalistas das redes.

Vale a pena lembrar a elaboração do sociólogo italiano Paolo Gerbaudo. Em seu livro “The Digital Party”, de 2019, ele alertava para a importância e os riscos da organização partidária pelas redes. Uma forma de organização que encantou setores da esquerda no começo da década passada, mas que acabou se revelando mais adequada à dinâmica alienante, despolitizada e irracional típica da extrema-direita.

Em sua obra, Gerbaudo mostra como o tradicional partido de massas estava ligado ao modelo fordista de produção. Depois, veio o “partido-televisão” correspondente ao mundo “pós-industrial”. Finalmente, chegamos ao partido-plataforma, reproduzindo a lógica das redes digitais.

Nada disso quer dizer que a esquerda deve abandonar suas tradicionais formas de organização. Apenas que não pode ficar presa somente a elas.
 
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3 de março de 2023

A batalha nas redes é parte fundamental da guerra

Em 26/02/2023, o Globo publicou matéria sobre a disputa entre apoiadores de Lula e de Bolsonaro em torno da expressão “faz o L”. Os primeiros usando o slogan para comemorar medidas tomadas pelo novo governo. Os segundos, para criticá-las.

O jornal encomendou um levantamento sobre a utilização do “faz o L” no Twitter, desde o começo do governo Lula até 23 de fevereiro. Os dados apontaram que a oposição bolsonarista é a que mais adotou a expressão, com 52,5% de um total de 538 mil usuários.

Essa situação volta a demonstrar que os fascistas continuam a ganhar a guerra nas redes, mesmo fora do governo federal. Mas não se trata de apenas um dos aspectos da luta contra a extrema-direita. É uma questão fundamental.

Bolsonaro foi eleito sem uma estrutura partidária forte. Governou quatro anos sem formar um partido próprio. Mesmo assim, quase foi reeleito.

O fato é que a nova extrema-direita vem utilizando outra forma de organização. A organização em rede pela internete. Fragmentada na estrutura, mas com forte capacidade de arregimentar multidões quando necessário. Movida não por debates democráticos e formação política, mas por informações distorcidas, mentirosas, passionais, alarmantes.

Sob o pretexto de adotar formas de participação ágeis e acessíveis, a organização pelas redes virtuais permite o controle de milhões em tempo real, com efeitos de manada.

É o partido digital em ação. Forma organizativa correspondente ao atual estágio do capitalismo, dominado pelos mega-monopólios das big-techs. Fenômeno presente no crescimento da extrema-direita em muitos lugares do mundo.

Precisamos debater essa questão e pensar em formas eficazes de reagir e avançar. Urgentemente!

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16 de janeiro de 2023

Dando nome às serpentes

“É preciso dar nomes aos bois”, brincam alguns memes que circulam nas redes, referindo-se à necessidade de identificar o “gado” bolsonarista que atacou as sedes dos “Três Poderes” em 08/01/2023. É verdade. Mas se identificar e punir os golpistas é importante, também é fundamental fazer o mesmo com seus mandantes, seus financiadores.

E eles não são terroristas. Essa caracterização, não à toa rapidamente adotada pela grande imprensa, é perigosa. Costuma ser muito utilizada para acusar militantes de esquerda e dos movimentos sociais. O nome correto é “fascista”, designação que deixa muito menos dúvidas sobre de quem e do quê se trata.

Também não está claro que 93% “dos brasileiros condenam os ataques dos bolsonaristas”, como diz a pesquisa Datafolha divulgada em 11/01/2023. Afinal, segundo um levantamento da pesquisadora de Comunicação da PUC-Rio, Letícia Capone, “a narrativa de que os atos teriam sido praticados por infiltrados da esquerda alcançou 327 mil usuários no Facebook e Instagram”, logo após os episódios de Brasília.

Ao mesmo tempo, dados da consultoria Bites apontaram que, entre 9 e 12 de janeiro, 2,8 milhões de postagens no Twitter afirmavam que os bolsonaristas presos no DF estariam em “campos de concentração”.

Os dados acima aparecem em reportagem no jornal o Globo de 13/01/2023, permitindo à sua autora, a jornalista Luísa Marzullo, afirmar que após a tentativa golpista dos fascistas, o “bolsonarismo se reagrupa e domina narrativa nas redes”.

Tudo isso agravado pela notícia de que a rede de comunicação antifascista, tão importante durante a campanha eleitoral de Lula, foi desarticulada.

Mais importante que identificar bovinos é nomear e dar cabo das serpentes.

Leia também: O quebra-cabeça e as cabeças quebradas

13 de janeiro de 2023

O  abismo da estranheza

Vale da estranheza é uma hipótese surgida nos campos da estética, robótica e computação gráfica. Segundo ela, quando réplicas humanas se comportam de forma muito parecida, mas não idêntica, a seres humanos reais, provocam repulsa em observadores humanos. O "vale" em questão refere-se a um gráfico que mede a reação positiva de um ser humano diante da verossimilhança de um robô. A expressão foi criada pelo professor Japonês de robótica, Masahiro Mori.

A hipótese de Masahiro diz que, à medida que a aparência do robô vai ficando mais humana, a resposta emocional do observador humano em relação ao robô vai se tornando mais positiva e empática, até um dado ponto onde a resposta rapidamente se torna uma forte repulsa. Entretanto, à medida que a aparência volta a ser menos distinguível de um ser humano, a resposta emocional passa a ser positiva novamente.

São aquelas sensações que temos ao ver um personagem humano com pretensões realistas em um videogame e uma caricatura divertida de desenho animado. O primeiro dificilmente será mais simpático que a segunda. Essa área de resposta repulsiva gerada entre um caso e outro é o vale da estranheza.

A definição acima é da Wikipedia. A hipótese serve também para a produção de animações computadorizadas utilizadas em filmes, anúncios, avatares, videogames, etc.

Mas, talvez, seria o caso de utilizá-la para certos processos que acontecem no convívio social. Mais especificamente, naquelas relações que vão da familiaridade simpática ao estranhamento e, finalmente, caem na mais forte repulsa. E se isso valer para a atual polarização política, estamos perigosamente próximos de um abismo da estranheza.

Leia também: Uma etnografia dos delírios do fascismo nacional

9 de janeiro de 2023

O Lula empossado e o Lula possuído

Lula subiu a rampa acompanhado de uma mulher negra, liderança dos catadores de materiais recicláveis; do cacique Raoni; de um menino negro; um metalúrgico; um professor; uma cozinheira e um militante em defesa de pessoas com deficiências.

Todos encarnados em representatividade. Mas quem viu a cena do ponto de vista da sagrada tradição das lutas populares, enxergou muito mais gente subindo aquela rampa.  

Estavam presentes os espíritos de Palmares, Canudos, Contestado, Conjuração Baiana, Revolta Malê, Cabanagem, Sete Povos das Missões. Também compareceram Sepé Tiaraju, Zumbi, Marighella, Chico Mendes, Dorothy Stang, Marielle, Bruno, Dom e muitos outros que adotaram o ex-metalúrgico e eterno sertanejo como seu cavalo de santo. Aquele que recepciona a energia de resistência popular. Aquela que nunca se acaba, apenas se transforma.

É certo que também havia os espectros de capitães-do-mato, bandeirantes, cangaceiros, jagunços, carrascos, torturadores e fascistas. Pois a mediunidade de Lula encarna as contradições da luta de classes da história nacional. Atrai não apenas os bons espíritos, mas também arrasta consigo os piores.

Lula tomou posse ao mesmo tempo em que era possuído. Governo de frente ampla pode até ser de salvação nacional, mas tanto invoca como é presa de coisas ruins.

É verdade que, durante a posse, o ar estava leve e limpo como nas matas guardadas pelos orixás e encantados. Mas criaturas malignas continuam circulando pelo terreiro nacional. Foi o que se viu ontem, na Praça dos Três Poderes. Por algumas horas, imperou o poder trevoso do fascismo bolsonarista, enquanto as forças da ordem conjuravam a desordem.

É resistência, povo lutador! Mbaraeté! Empunhemos com firmeza o machado de Xangô!

Leia também: Lula, o cavalo do terreiro nacional

14 de dezembro de 2022

O quebra-cabeça e as cabeças quebradas

São muitas as peças a serem encaixadas. Ministérios disfuncionais, decretos absurdos, políticas públicas destruídas, órgãos inteiros abandonados, servidores perseguidos, números sem lógica.

No Congresso Nacional, o apoio a um governo de frente ampla exige alianças das mais razoáveis às mais temíveis. O espaço para traições e sabotagens é enorme. Fora dos palácios, a grande mídia faz de tudo para enquadrar o novo governo em sua agenda neoliberal e antipopular.

Mas algumas peças desse complicado quebra-cabeças são muito perigosas e de ajuste quase impossível. São peças de artilharia. Uma verdadeira derrama de armamentos ocorreu entre a população desde que o governo Bolsonaro facilitou sua aquisição.

O número de licenças para armas de fogo subiu 473% de 2018 a 2022, segundo dados do Anuário de Segurança Pública divulgados em junho passado. Antes, a população civil podia adquirir até 4 armas e 100 munições para cada arma por ano. Bolsonaro baixou portarias que permitem o acesso a até 60 armas e 180 mil munições, anualmente.

Os Colecionadores, Atiradores desportivos e Caçadores possuíam cerca de 648 mil armas, em junho de 2021, enquanto as Polícias Militares totalizavam 583 mil. Até novembro de 2021 havia no país um total de 2,3 milhões de armas registradas. Trata-se de um aumento de 78% em relação a 2018, quando havia 1,3 milhão de armas contabilizadas.

Com toda a violência que marca nossa sociedade há séculos, desarmar essa bomba-relógio não será fácil. Mas ficará impossível se seu principal estopim não for desativado. É o aparato sob controle dos generais infiltrado nas instituições militares e civis.

São essas as cabeças a serem quebradas...

Leia também: E a encrenca continua enorme

24 de novembro de 2022

O negacionismo e a guerra civil não declarada

É costume definir guerra civil como um confronto entre cidadãos de uma mesma sociedade. Mas o que ocorre se as vítimas do conflito não são consideradas cidadãs?

Por exemplo, na antiguidade grega, quando cidadãos atenienses trocavam espadadas tratava-se de uma guerra civil. Mas essa classificação já não servia se a agressão partia dos cidadãos contra escravos ou estrangeiros.

Muitos séculos depois, essa regra continua valendo. Quando as vítimas são indígenas, negros, homossexuais, mulheres, pobres ninguém chama de guerra civil.

Mas e se universitários, profissionais liberais, pacatos frequentadores de restaurantes, enfim “cidadãos”, são agredidos apenas por usar roupas vermelhas? Aí, sim, é guerra civil.

O raciocínio acima serve para introduzir o que diz o professor de filosofia Pedro Rocha de Oliveira no interessante artigo “As razões do negacionismo: guerra civil e imaginário político moderno”.

Segundo Oliveira, o negacionismo não é uma recusa irracional de verdades estabelecidas. É uma postura ideológica compatível com as enormes contradições da sociedade contemporânea. Ele surge de um sistema social que se pretende justo, mas garante alguns direitos para uma minoria cidadã, enquanto castiga uma grande maioria marginalizada.

Diante de tanta disparidade, recusar fatos jornalísticos, evidências científicas, consensos historiográficos não é tão absurdo. Há muitos anos, Bolsonaro nega os crimes da ditadura. E suas promessas de matar “uns 30 mil” só escandalizavam quem estava distante das mortes violentas presentes no cotidiano da população pobre.

Quando o bolsonarismo toma como alvo aqueles tidos como esclarecidos e progressistas, fica oficializada a guerra civil. O problema é que dificilmente contaremos com grande apoio daqueles que já vinham sendo vítimas de uma guerra civil jamais declarada.

Leia também: A polícia bolsonarista é anterior ao bolsonarismo

17 de novembro de 2022

Lula e STF facilitando para o bolsonarismo

“Discurso de Lula na COP27 resgata papel do Brasil”, diz o título do editorial do Globo de hoje sobre o pronunciamento do presidente eleito na conferência do clima das Nações Unidas.

Mas, segundo o jornalão, Lula “errou feio” ao aceitar carona no avião de José Seripieri Junior, dono da Qualicorp, um dos maiores grupos de saúde privada do País.

Depois de saudar o pronunciamento de Lula, o editorial termina, esperando que “doravante” ele saiba “separar o espaço público de interesses privados”.

Por falar em mistura de interesses públicos e privados o jurista Conrado Hübner Mendes, tratou do tema em sua coluna publicada também hoje, na Folha. Mendes destacou a presença de seis ministros do STF na "Lide Brazil Conference", em Nova York.

O evento foi organizado pela "Lide - Grupo de Líderes Empresariais", empresa de João Doria, que segundo o articulista, dedica-se a "fazer pontes" entre o mundo corporativo e o mundo público. “Não precisa chamar de lobby se tiver apego ao eufemismo”, adverte ele.

Realmente, não há o que justifique seis dos togados mais poderosos do país juntos e misturados com quem manda em grande parte da economia nacional. Apesar disso, não houve editoriais condenatórios nem toda a comoção que se verificou no caso de Lula.

Além disso, comparando os dois casos, note-se que, diferente de magistrados pretensamente neutros, Lula nunca escondeu suas amizades com empresários desde que era metalúrgico.

Mas, de um jeito ou outro, é preciso levar a sério a advertência do colunista da Folha: “há várias formas de Bolsonaro sair vitorioso após a derrota eleitoral”. Toda essa promiscuidade é uma delas.

Leia também: Lula sob ameaça de prisão

31 de agosto de 2022

Por uma ecologia da organização política

Rodrigo Nunes encerra seu livro “Do transe à vertigem” preocupado com a questão ecológica. Segundo ele, daqui para frente:

...só pode haver combate à pobreza que seja também parte da construção de outro sistema global, só pode haver luta contra a fome que dê passos na transição para outro regime energético, econômico e social.

Mas a ecologia também serve como metáfora para outra grande preocupação do autor. São as questões organizativas da esquerda. Mais especificamente, aquele que ele considera ser “um trauma que atravessa a história da esquerda desde o século 20”. Qual seja, “o medo de que a organização de que se necessita para mudar o mundo seja também aquilo que pode nos impedir de fazê-lo”.

Obviamente, ele está se referindo às contradições causadas pelo modelo de partido rígido e hierarquizado adotado por grande parte do movimento socialista no último século e meio. Contradições que se tornaram mais agudas onde a esquerda tornou-se governo.

Mas, para Nunes, é possível explorar essas contradições de modo que a esquerda deixe de “conceber sua unidade em termos de homogeneidade e centralização de comando” e passe a compreendê-la “em termos ecológicos, como uma forma de cooperação que não exclui a diferença, o dissenso e a competição”.

Nas preocupações acima, o autor antecipa brevemente a proposta principal de seu livro seguinte. Uma teoria ecológica da organização política dos de baixo como resposta à ameaça de um apocalipse ambiental provocado pelo capitalismo. Estes são os temas centrais de "Nem vertical nem horizontal", obra mais recente de Nunes, que, em breve, também comentaremos aqui.

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23 de agosto de 2022

Respostas moderadas para tempos extremados

Assim como o chavão “dialogar com o centro”, “radicalizar” em abstrato tampouco quer dizer grande coisa. O mais provável é que acabe significando apenas a radicalização da própria identidade.

Ser politicamente radical é ser radical em relação a uma situação concreta. Não é demarcar uma posição independentemente de qualquer contexto, mas descobrir aqui e agora qual é a posição mais transformadora capaz de conquistar um máximo de adesão e produzir os maiores efeitos. De maneira que, num momento futuro, objetivos maiores e melhores sejam possíveis.

Por outro lado, se uma quantidade crescente de pessoas vem assumindo posições que antes seriam tidas como “extremas”, sejam à direita ou à esquerda, é em primeiro lugar porque o “centro” não consegue mais convencê-las de que tem condições de manter suas promessas. É por isso que o meio-termo entre neoliberalismo conservador e neoliberalismo progressista perdeu sua aura de ponto de equilíbrio.

Os parágrafos acima foram retirados do livro “Do transe à vertigem”, de Rodrigo Nunes. Nele, o autor procura discutir um momento da história humana que pode deixar no chinelo a famosa “Era dos Extremos”, de Eric Hobsbawm.

Afinal, o que dizer de um período em que as figuras de maior destaque e poder são gente como Bolsonaro, Trump, Putin, Johnson e Orban, entre outros?

Tal situação, diz Nunes, mostra que a maioria das vozes que, hoje, se dizem “realistas” repetem dogmas de uma realidade que sequer existe mais.

Nesse cenário extremado, a moderação de Lula pode ser tão decisiva para sua vitória quanto um fator fortemente limitante para seu governo. Já uma derrota seria igualmente decisiva, mas completamente desastrosa.

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