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5 de junho de 2024

Do “doomscrolling” ao infocalipse

“Doomscrolling” é a palavra inglesa para o hábito de rolar imagens e notícias na tela do celular em busca de fatos negativos, tristes e deprimentes. Parece o antigo costume de “zapear” na TV em busca dos programas de notícias policiais mais escabrosos. Só que agora em maior velocidade e com oferta praticamente inesgotável.

Inesgotável porque os agentes produtores dessas imagens e informações são muitos. Em contrapartida, os centros distribuidores são bem menos. Não se trata dos inúmeros grupos de zap. Estes são apenas vetores que transmitem a doença.

O foco da moléstia são os poucos e poderosos monopólios de dados e algoritmos, como Facebook, Youtube, X... Esses abutres das redes virtuais precisam manter a atenção e a tensão dos usuários para extrair-lhes os dados e vender-lhes porcarias, enquanto os premia com ansiedade e depressão.

Outro efeito dessa situação é a infodemia, caracterizada pela Organização Mundial da Saúde como um “excesso de informações, algumas precisas e outras não, que torna difícil encontrar fontes idôneas e orientações confiáveis quando se precisa”.

Informação distorcida e alarmista não atenua situações críticas nem mitiga consequências de eventos negativos ou catastróficos. Ao contrário, torna-as ainda mais nocivas e graves.

Mas não podemos ignorar a base material de todo esse caos. É o capitalismo em sua fase de colapsos cumulativos. Colapso político, social, ambiental, moral, sanitário...

O lado mais perverso disso tudo é que o sistema nos massacra com suas mazelas, enquanto nos distrai e nos torna viciados nelas. Vai nos acostumando com a ideia de que o mundo pode até acabar, mas o capitalismo tem que continuar.

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12 de janeiro de 2022

Não olhe para cima: capitalismo suicida

Para encerrar os comentários sobre o filme “Não olhe para cima”, seria bom lembrar o que disse Fredric Jameson em seu livro “Arqueologias do futuro”, de 2009.  Segundo o filósofo  estadunidense, as pessoas conseguem imaginar o fim do mundo, mas jamais o fim do capitalismo. O sucesso dos filmes-catástrofe seria uma confirmação disso.  

A diferença de “Não olhe para cima” para os outros filmes do gênero é que nele a grande maioria se recusa a acreditar na iminência do desastre, apesar de todas as evidências científicas. É também a ideia de que tudo o que diz respeito ao que é real está sob intensa disputa, menos a realidade da tragédia capitalista.

Outro autor a destacar a incapacidade generalizada de imaginar o fim do capitalismo foi Mark Fisher em seu livro “Realismo Capitalista: não há alternativa?”.  O realismo capitalista, diz o filósofo britânico, seria uma espécie de barreira que impede pensar em alternativas ao atual modo de vida.

Ou seja, como demonstra o personagem do filme, Pete Isherwell, não há motivos para pânico. Um planeta prestes a ser destruído pode ser abandonado a qualquer momento a bordo de uma nave espacial. O fato de que somente uma pequena minoria se salvaria é só uma extrapolação das condições imensamente mais vantajosas de que as classes dominantes dispõem para escapar das catástrofes que já ocorrem todos os dias pelo mundo e que, mesmo sendo menos espetaculosas, seguem fazendo vítimas aos milhões entre os mais pobres.

Tudo se resume a saber se permitiremos que o capitalismo morra de morte morrida ou de morte matada. No primeiro caso, trata-se de suicídio.

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11 de janeiro de 2022

Não olhe para cima: infodemia

Em 2003, o jornalista estadunidense David J. Rothkopf criou o termo infodemia, em artigo sobre a epidemia da Síndrome Respiratória Aguda Grave. Dezessete anos depois, a Organização Mundial da Saúde adotou o conceito para a pandemia do Covid.

Segundo a organização, a infodemia caracteriza-se por um “excesso de informações, algumas precisas e outras não, que torna difícil encontrar fontes idôneas e orientações confiáveis quando se precisa”.

Desde então, Covid e infodemia passam por momentos de alívio e agravamento, mas não cedem. As cepas do coronavírus se multiplicam tanto quanto as falsidades em relação a elas.

É um pouco disso que trata o filme “Não olhe para cima”, de Adam Mckay. Obter informações apenas não basta. É preciso literalmente fazê-las valer. Ou seja, agregar-lhes valor necessário para que circulem.

Mas o modo como isso vem sendo feito nos últimos anos é pela quantidade de cliques obtidos nas redes virtuais. Quanto mais cliques, mais a informação circula e mais se torna passível de monetização.

A lógica não é muito diferente da velha mídia empresarial. Mas nesta, a informação ainda mantinha um valor de uso residual necessário para a manutenção dos monopólios do setor.

Com os novíssimos gigantes midiáticos surgidos no Vale do Silício e arredores, o valor de troca da informação passou a engolir seu valor de uso ainda mais rapidamente. Paradoxalmente, o filme de Mckay faz parte dessa onda ao atrair para a plataforma que o divulga a audiência necessária para manter essa roda girando. Em falso, mas girando.

Na próxima pílula, porque é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.

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10 de janeiro de 2022

Não olhe para cima: infocalipse

Dois astrônomos descobrem que em poucos meses um cometa destruirá a Terra. Mas seus alertas são ignorados, menosprezados ou ridicularizados por governantes e mídia. No final, o mundo acaba para todos, menos para uma pequena minoria poderosa e rica que foge do planeta num foguete.

Este é o resumo da trama de “Não olhe para cima”, grande lançamento da Netflix na virada de 2020/2021. O enorme sucesso da atração certamente deve-se às semelhanças com a vida real dos últimos tempos, em que desinformação, mentiras deslavadas e guerra de versões chegaram a um ponto inédito na sociedade de massas.

O apocalipse retratado pelo filme teve seu advento facilitado pelo que Aviv Ovadya, membro do Centro de Responsabilidade para Mídias Sociais do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, chamou de “infocalipse”. Um fenômeno que ocorreria:

...à medida que a qualidade das informações num geral diminui, a inteligência de todos os membros da sociedade e de todas as diferentes organizações que a tornam funcional, no geral, diminui, e, se você vai muito fundo nisso, sua sociedade basicamente desmorona.

Certamente, há uns 10 anos, o filme de Adam McKay seria considerado bizarro demais. Hoje, somente seu tom fortemente satírico impede que a produção ganhe ares de documentário.

Alguns críticos condenam o filme por passar longe das causas profundas que levaram ao “desmoronamento social” de que fala Ovadya. Algo que McKay até certo ponto fez em seu filme “A Grande Aposta”, sobre a crise dos subprimes. Mas, talvez, a própria produção seja parte da “infodemia” que acomete o mundo atual. Fenômeno que abordaremos na próxima pílula.

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