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5 de fevereiro de 2025

Jus soli, jus sanguinis e racismo sanguinário

“Jus soli” é uma expressão latina que significa "direito de solo" e indica um princípio pelo qual uma nacionalidade pode ser atribuída a um indivíduo de acordo com seu lugar de nascimento.

O jus soli contrapõe-se ao “jus sanguinis” que significa "direito de sangue". Trata-se do princípio pelo qual a nacionalidade é determinada ou adquirida pela nacionalidade de um ou de ambos os progenitores.

Os esclarecimentos acima estão na Wikipédia e são necessários para explicar por que Donald Trump anunciou que pretendia revogar a nacionalidade de filhos de imigrantes sem cidadania que nasceram nos Estados Unidos. Ou seja, o presidente estadunidense pretendia adotar o "direito de sangue" como única forma de permitir a concessão de cidadania a imigrantes.

Não deu certo porque há um princípio equivalente ao “jus soli” na Constituição estadunidense. Mas as ameaças não levadas à frente por Trump não costumam gerar frustrações entre seus seguidores. Ao contrário, acabam por inflamar neles mais racismo e xenofobia. A discriminação racial que ele não consegue incorporar na lei insufla ainda mais o ódio racista das ruas e aparatos de repressão.

Na verdade, são muito fortes as suspeitas de que por trás das legislações dos países que optam pelo “jus sanguinis” há motivações racistas. Por consequência, nada mais coerente com o fascismo de Trump que a tentativa de adotar uma prerrogativa baseada na herança sanguínea.

Até porque tudo indica que o novo chefe de um dos países mais racistas do mundo pretende derramar muito sangue de não brancos em solo estadunidense e fora dele.

Leia também: Trump, Debord e a prevalência do falso

29 de janeiro de 2025

A Estátua da Liberdade e o supremacismo branco

Há um poema inscrito em uma placa instalada no interior da Estátua da Liberdade. É "O Novo Colosso", da poeta estadunidense Emma Lazarus. Abaixo um trecho:

Aqui nos nossos portões banhados pelo mar e dourados pelo sol, se erguerá
Uma mulher poderosa, com uma tocha cuja chama
É o relâmpago aprisionado e seu nome
Mãe dos Exílios. Do farol de sua mão
Brilha um acolhedor abraço universal; os seus suaves olhos
Comandam o porto unido por pontes que enquadram cidades gêmeas.
"Mantenham antigas terras sua pompa histórica!", grita ela
Com lábios silenciosos: "Dai-me os seus fatigados, os seus pobres,
As suas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade
O miserável refugo das suas costas apinhadas.
Mandai-me os sem abrigo, os arremessados pelas tempestades,
Pois eu ergo o meu farol junto ao portal dourado”.

Os versos são considerados uma declaração de acolhimento da nação estadunidense aos foragidos e exilados do mundo todo.

A
estátua foi inaugurada apenas 20 anos depois do fim da escravidão nos Estados Unidos. Sem a força de trabalho de milhões de africanos escravizados, era necessário atrair os que não tinham outra opção além de serem explorados pelos capitalistas ianques. Após o jugo que submeteu pessoas cativas por séculos, surge o abraço “acolhedor” discriminatório e xenófobo que vitimou irlandeses, italianos, judeus e chineses e, mais recentemente, alcançou latinos e muçulmanos. Isso para não falar dos territórios indígenas ocupados a ferro e fogo.

Trump pode ser acusado de tudo, menos de não ser coerente com a tradição racista e genocida que tornou grande a América supremacista branca.

Leia também: Trump e o ancestral racismo da América

21 de novembro de 2024

Trump e o ancestral racismo da América

“Make America Great Again”, brada Donald Trump. A tradução seria “Faça a América Grande Novamente”.

Para que não restem dúvidas sobre qual é a grandeza “americana” a que ele se refere, que tal lembrar as palavras de alguns daqueles que são considerados os maiores homens da história estadunidense.

Em 1785, Thomas Jefferson escreveu em “Notas sobre o estado da Virgínia”:

Sugiro, portanto, apenas como conjetura, que os negros, quer constituindo originalmente uma raça distinta, quer diferenciados pelo tempo e pelas circunstâncias, são inferiores aos brancos tanto física como mentalmente.


Em 1751, Benjamin Franklin publicou “Observações sobre o aumento da humanidade”, no qual manifestava sua contrariedade em relação ao tráfico negreiro pelas seguintes razões:

Por que incrementar o número dos filhos da África transportando-os para a América, onde nos é oferecida uma oportunidade tão boa de excluir todos os negros e escuros, e de favorecer a multiplicação dos formosos brancos e vermelhos?

Por fim, em  1858, durante campanha eleitoral em que disputava uma cadeira no senado, Abraham Lincoln declarou:

Existe uma diferença física entre as raças branca e negra que, em minha opinião, sempre impedirá que as duas raças vivam juntas em condições de igualdade social e política. E, na medida em que não podem viver dessa maneira, enquanto permanecerem juntas deverá existir uma posição de superioridade e uma de inferioridade, e eu, tanto quanto qualquer outro homem, sou a favor de que essa posição de superioridade seja conferida à raça branca.

Como se vê, Trump não representa nenhuma ruptura com a tradição histórica estadunidense e prova que a “América” jamais foi grande.

Leia também: De quem seria a culpa por um retorno de Trump?

20 de fevereiro de 2024

Sionismo e Apartheid irmanados

Desmond Tutu ganhou o Prêmio Nobel da Paz de 1984 por sua luta contra o Apartheid na África do Sul. Em agosto de 2009, ele afirmou: "O Ocidente se envergonha do Holocausto, com razão, mas quem paga por isso? Os palestinos estão pagando".

Em junho de 2015, Tutu repetiu a dose:

Nós, sul-africanos, sofremos décadas de apartheid e podemos reconhecer isso em outros lugares. Eu, pessoalmente, testemunhei a realidade de apartheid que Israel criou dentro de suas fronteiras e nos territórios palestinos ocupados.

Mas muito antes, em 1987, um israelense já havia chegado a essa conclusão. Militante do movimento por direitos civis, Uri Davis escreveu um livro cujo título é autoexplicativo: “Israel: An Apartheid State”.

E, em 2006, o ex-presidente estadunidense Jimmy Carter em seu livro “Palestine: Peace not Apartheid”, definiu a situação na Palestina como:

... um sistema de apartheid, com dois povos ocupando a mesma terra, mas completamente separados uns dos outros, com os israelenses totalmente dominantes e com extrema violência, privando os palestinos de seus direitos humanos básicos.

Há quem diga, com razão, que foi o sionismo que inspirou o nazismo. No caso da relação entre os apartheids sul-africano e israelense é difícil afirmar algo parecido. Mas o regime segregacionista da África do Sul foi implantado em 1948. No mesmo ano, aconteceu a "nakba", que em árabe quer dizer "catástrofe". A palavra refere-se à expulsão de 750 mil palestinos de seus territórios para dar lugar ao Estado de Israel.

Assim, o que é possível concluir, com certeza, sobre os dois regimes é que ambos se irmanam nas implementação de políticas estatais genocidas.

Leia também: O sionismo inspirando o nazismo

31 de janeiro de 2024

O racismo sionista instrumentaliza o racismo antissemita

No momento em que o Estado de Israel aprofunda sua política de genocídio contra os palestinos, atingindo principalmente a população da Faixa de Gaza, é importante recuperar um pouco da história do sionismo.

É o que faz João Bernardo, em seu livro “Labirintos do Fascismo”, ao lembrar que na obra considerada fundadora do movimento sionista, “O Estado Judeu”, publicada em 1896, Theodor Herzl dizia que bastava uma presença substancial de judeus para necessariamente provocar reações antissemitas. Desse modo, a única alternativa seria a separação e o estabelecimento dos perseguidos num território autônomo. Tal território seria a Palestina.

Já Chaim Weizmann, que se tornaria o primeiro presidente de Israel, declarou em 1912, em uma palestra feita em Berlim, que “para evitar perturbações internas, cada país só pode absorver um número limitado de judeus. E a Alemanha já tem judeus demais”.

Segundo Bernardo, era essa a doutrina básica do sionismo, cujos dirigentes encontravam no racismo dos outros povos a condição indispensável para se tornarem, eles também, governantes de um povo eleito. Por isso desde muito cedo o movimento sionista procurou estabelecer acordos com governos hostis aos judeus e convencê-los de que ambos convergiam no mesmo objetivo imediato. Se os antissemitas queriam desembaraçar-se dos compatriotas judaicos e os sionistas pretendiam aumentar o número de judeus na Palestina, por que não unirem os esforços?

Um século depois, o sionismo continua usando o antissemitismo para falsear a realidade. Confunde as denúncias contra o governo assassino de Israel com ataques aos judeus. Quer sobrepor o legítimo direito à autodeterminação dos israelenses à própria existência de outros povos.

Leia também: A estupidez do sionismo de esquerda

31 de outubro de 2023

Einstein denuncia o terrorismo na Palestina

Eles inauguraram um reino de terror na comunidade judaica da Palestina. Professores foram espancados por proferirem falas contrárias a esses grupos e adultos foram fuzilados para impedir que crianças se juntassem a eles.

O trecho acima é de uma carta assinada por Albert Einstein, Hannah Arendt e mais 26 personalidades judias. Segundo o documento publicado no New York Times em 1948, esses “bandos terroristas” atacaram uma pequena vila árabe sem envolvimento em atividades militares, matando 240 de seus habitantes, incluindo mulheres e crianças. Dentre aqueles que sobreviveram, alguns foram levados para desfilar como prisioneiros pelas ruas de Jerusalém.

A maior parte da comunidade judaica ficou horrorizada. Mas os responsáveis, longe de se envergonhar, ficaram orgulhosos do massacre, convidando os correspondentes estrangeiros presentes no país a ver “o amontoado de cadáveres e a devastação generalizada na vila”, afirma a carta.

A organização denunciada pelo texto era o Herut (Partido da Liberdade), “agremiação política fortemente aparentada, em sua organização, métodos, filosofia política e apelo social, a outras organizações políticas nazistas e fascistas”, descrevem os autores. A preocupação dos signatários do documento era que seu líder, Menachem Begin, fosse recebido com honrarias na visita que faria, em breve, aos Estados Unidos.

A carta também acusa o Herut de esmagar greves e fazer pressão para destruir sindicatos, defendendo a criação de organizações no modelo fascista italiano.

A título de esclarecimento, o Likud, partido do atual premiê israelense Benjamin Netanyahu, foi formado por grupos oriundos do Herut. Como se vê, a tolerância em relação a essas práticas terroristas e fascistas vem de longa data e continua a alimentar o genocídio sionista.

Leia também:
Gaza e os cachorros loucos de Hollywood
O povo judeu também é vítima do sionismo

26 de junho de 2023

Wagner, Hitler, Prigojin, Putin, Otan: uma ópera infernal!

Richard Wagner não foi nazista porque não deu tempo. Mas o nazismo certamente contaria com o apoio do grande compositor alemão, se ambos fossem contemporâneos.

Poucos meses antes de morrer, Wagner fez o seguinte comentário ao célebre livro de Arthur de Gobineau “Ensaio Sobre a Desigualdade das Raças Humanas”, de 1853:

A mais nobre das raças brancas, a raça ariana, degenera unicamente, mas infalivelmente, porque, sendo menos numerosa do que os representantes das raças inferiores, está obrigada a cruzar-se com eles. Ora, o que ela perde ao adulterar-se não é compensado pelo que estes ganham ao enobrecer-se.

Hitler se inspirou na estética wagneriana para construir sua imagem política. O criador de “Tannhäuser” considerava a ópera a obra de arte total, juntando música, teatro, artes visuais, arquitetura, dança.
Já Hitler, como observa João Bernardo em seu livro “Labirintos do Fascismo”, fazia:

...da assembleia política uma representação, da propaganda um teatro filmado, da arquitetura um cenário, finalmente da guerra uma coreografia. Arte do totalitarismo, a encenação converteu-se na arte absoluta e nela se operou a síntese de todas as outras.

Foi em homenagem a esse gênio musical e patife racista que o neonazista russo Yevgeny Prigojin batizou o bando de soldados mercenários que criou. Em 2022, o grupo Wagner vendeu seus serviços para Putin na guerra da Ucrânia. Mais recentemente, foi parar nas manchetes porque ameaçou se voltar contra o Kremlin.

Wagner escapou por pouco de ser nazista. Mas ele e Hitler se mereciam, assim como se merecem Prigojin, Putin e a Otan. A grande maioria da humanidade é que não merece essa ópera dos infernos.

Leia também: EUA e Ucrânia: uma cajadada, muitos coelhos

15 de maio de 2023

Mais uma história suja: ginecologia racista

O estadunidense James Sims é considerado o pai da ginecologia. Ainda hoje, costuma ser homenageado por seus feitos no exercício da medicina voltada para a saúde das mulheres, durante o século 19. Não deveria.

Seus métodos de investigação incluíam fazer experimentos em mulheres escravizadas. Uma delas foi Anarcha Westcott, jovem de 17 anos. Grávida, ela sofria de raquitismo crônico, condição que dificultava o parto.

Sims se ofereceu para ajudar no nascimento da criança e Anarcha sofreu por três dias em suas mãos. Apesar de métodos anestésicos já estarem disponíveis, a intervenção foi feita a sangue frio.

Na época, acreditava-se que as mulheres negras sentiam menos dores. Ainda hoje, muita gente crê nisso, incluindo médicos.

A criança nasceu saudável, mas a jovem escravizada continuou servindo de cobaia para Sims. Foram mais 30 operações experimentais. Sempre sem anestesia.

Somente depois de aprovadas como seguras e eficientes, as intervenções cirúrgicas eram feitas em mulheres brancas, devidamente anestesiadas.

Estima-se que cerca de 75 mulheres escravizadas passaram pelo mesmo tormento. Foi o caso das também jovens Betsy e Lucy. Hoje, as três estão representadas em um conjunto de esculturas no Central Park. O monumento substituiu a estátua de James Sims, retirada em 2018, após as denúncias contra ele ganharem maior publicidade.

Ainda que trágico e revoltante, esse é só um pequeno capítulo da história racista da medicina e da ciência em geral. Seria necessário instalar muitos tribunais de Nuremberg. No lugar disso, há muitos genocidas espalhados pelas datas comemorativas de nossos calendários.

Leia também: A suja história da eugenia: a vitória nazista

12 de maio de 2023

A suja história da eugenia: a vitória nazista

Em 1924 , os Estados Unidos aprovaram a Lei Johnson-Reed que impedia a entrada de imigrantes da Ásia e estabelecia cotas para aqueles vindos do sul e do leste da Europa.

Em seu livro “Mein Kampf”, Hitler saudou a lei como o início “de uma perspectiva que é específica da concepção racista de Estado”. Não à toa, as relações entre eugenistas estadunidenses e alemães eram estreitas desde antes da Primeira Guerra.

Em nome dessas relações amistosas, a Fundação Rockefeller contribuiu financeiramente para o movimento eugenista tanto nos Estados Unidos como na Alemanha, inclusive entre 1933 e 1939, período de auge do poder de Hitler.

Em 1934, o diretor de Ciências da Natureza da Fundação Rockefeller, Warren Weaver, perguntava “se será possível desenvolver uma genética tão extensiva e bem fundamentada que possa viabilizar a criação, no futuro, de homens superiores”. Era precisamente a esta questão que Hitler pretendeu responder do modo que ficou tragicamente notório nos anos seguintes.

Em 1932, quando era previsível a tomada iminente do poder pelos nazistas, o Eugenical News, verdadeiro órgão oficial do movimento eugenista norte-americano, publicara dois artigos em louvor ao programa racial de Hitler.

Se definirmos o nacional-socialismo como a aplicação à política de critérios procedentes da biologia, então as leis eugenistas promulgadas por vários governos “democráticos” no mundo não foram menos hitlerianas. Com certeza, os princípios eugenistas continuam por trás do racismo e das políticas que o sustentam pelo mundo. O nazismo foi derrotado, mas não algumas de suas principais ideias.

Com essa pílula, encerram-se os comentários sobre eugenia a partir do livro “Labirtintos do Fascismo”, de João Bernardo.

Leia também: A suja história da eugenia nas “democracias”

11 de maio de 2023

A suja história da eugenia nas “democracias”

Em 1928, o parlamento da província de Alberta, no Canadá, aprovou uma lei permitindo esterilização em certos casos. Mas foi remodelada nove anos mais tarde de modo a admitir a esterilização forçada. Até a lei ser cancelada em 1972, de um total de 4.700 procedimentos desse tipo, 60% haviam sido autorizadas.

Na Suíça, uma lei permitindo a esterilização sexual compulsiva de deficientes mentais manteve-se em vigor no cantão de Vaud de 1928 até a década de 1970. Enquanto isso, no resto do país, mesmo sem cobertura legal, havia médicos que executavam esterilizações sob pretextos terapêuticos.

Na Dinamarca, uma lei de 1929 garantiu a esterilização de cerca de 11 mil pessoas até 1967. Na Suécia, legislação semelhante foi aprovada em 1934. Quando ela foi abolida, em 1976, haviam sido praticadas cerca de 63 mil operações, na maioria em mulheres. Na Noruega, a lei é do mesmo ano. Quando foi revogada em 1977, já haviam sido feitas 41 mil intervenções desse tipo.

A partir das primeiras décadas do séulo 20, racistas germânicos e eugenistas estadunidenses estabeleceram relações amistosas e de colaboração. Era possível encontrar na correspondência acadêmica trocada entre cientistas de ambas as origens descrições em que as chamadas “raças inferiores” eram comparadas a bactérias infecciosas ou ratos e suas migrações a invasões de animais pestilentos.

As informações acima estão no livro “Labirintos do Fascismo”, de João Bernardo. Mostram como aquilo que seria tratado como uma aberração nazifascista após a Segunda Guerra era muito comum entre governantes e cientistas do chamado mundo democrático.

Na próxima pílula, mais detalhes sobre a suja colaboração germano-norte-americana no campo da eugenia.

Leia também: A suja história da eugenia: Estados Unidos

10 de maio de 2023

A suja história da eugenia: Estados Unidos

Continuamos destacando algumas das terríveis consequências da eugenia, descritas no livro “Labirintos do Fascismo”, de João Bernardo. Os casos abaixo ocorreram nos Estados Unidos.

Em 1896, em Connecticut, a legislação local proibia o casamento de deficientes mentais, alcoólicos, pessoas com doenças venéreas e dos considerados anormais, caso a noiva estivesse em idade de procriar.

Em 1907, uma lei de Indiana permitia a esterilização sexual forçada dos deficientes mentais, presos e residentes em abrigos para indigentes. Dois anos depois, o estado de Washington adotou medidas de esterilização compulsiva para criminosos reincidentes e estupradores. O mesmo fez a Califórnia em relação a criminosos e crianças com deficiências mentais. Nevada seguiu o exemplo e autorizou a esterilização de criminosos reincidentes, e Iowa de criminosos, deficientes mentais, bêbados, drogados, epilépticos e dos pervertidos moral ou sexualmente. Nova Jersey promulgou legislação idêntica em 1911, assim como Nova Iorque, no ano seguinte.

Finalmente, em 1927, a Suprema Corte admitiu a esterilização sexual dos criminosos e dos deficientes mentais. Desse modo, de 1907 à década de 1960, cerca de 70 mil pessoas teriam sido esterilizadas sexualmente contra sua vontade. A grande maioria delas, mulheres.

A eugenia encontrou toda essa aceitação em terras americanas porque a doutrina que justificou a fundação dos Estados Unidos era o “Destino Manifesto”, segundo a qual os brancos daquele país formavam o povo eleito por Deus para civilizar o mundo. De modo que expandir territorialmente os Estados Unidos era “realizar a Providência Divina”.

Tudo isso muito antes de Hitler com sua defesa da criação de um “espaço vital” para os arianos, às custas do massacre de “povos inferiores”.

Leia também: A suja história da eugenia: Darwin

9 de maio de 2023

A suja história da eugenia: Sócrates e Platão

24 séculos atrás, no quinto livro da “República”, Platão colocou na boca de Sócrates a seguinte passagem:

É necessário (...) que as relações sexuais sejam o mais possível frequentes entre as pessoas de elite de ambos os sexos e o mais possível raras entre as pessoas inferiores. Além disso, é necessário cuidar dos filhos dos primeiros e educá-los, mas não dos segundos, se quisermos garantir a excelência do rebanho.

O trecho acima está no livro “Labirintos do Fascismo”, de João Bernardo, no capítulo dedicado à eugenia. O autor acha importante lembrar os ensinamentos de Platão, dada “a enorme importância que os estudos filosóficos tiveram nas escolas médias e superiores ocidentais”.

É desse modo que, durante o século 19 e início do século 20, as medidas introduzidas pela eugenia faziam parte do horizonte ideológico da classe dominante, justificadas por Platão, considerado pela cultura burguesa como o pai de toda a filosofia. Em especial, na nação cuja maior patologia é  acreditar ser destinada a dominar o mundo.

Em 1911, foi criado um comitê especial nos Estados Unidos, cujo objetivo era defender a eliminação de dez grupos populacionais: “retardados mentais, indigentes, alcoólicos, criminosos, epiléticos, loucos, os fisicamente débeis, os predispostos a certa doenças, aleijados e, finalmente, os portadores de deficiências como cegueira e surdez”.

Várias figuras conceituadas no meio científico norte-americano consideravam que o pauperismo era congênito e podia ser transmitido hereditariamente. Ao mesmo tempo em que se acreditava na existência de ligações genéticas entre epilepsia e pobreza e deficiência mental.

Eis aí mais nomes de prestígio utilizados para colocar em prática os ensinamentos nada saudáveis da eugenia.

Leia também: A suja história da eugenia: Darwin

8 de maio de 2023

A suja história da eugenia: Darwin

Entre os selvagens, são rapidamente eliminados os indivíduos física ou mentalmente fracos. E os sobreviventes demonstram geralmente uma saúde vigorosa. Nós, os civilizados, pelo contrário, fazemos todo o possível por travar o processo de eliminação. Construímos hospícios para os atrasados mentais, os aleijados e os doentes, promulgamos leis de auxílio aos pobres e os nossos médicos empenham-se com toda a habilidade em salvar a vida de cada um até ao último momento. (...) Assim se propagam os membros fracos das sociedades civilizadas. Ninguém que tenha participado na criação de animais domésticos pode duvidar de que isto é forçosamente muito prejudicial à raça humana.

(...)

Se os vários obstáculos mencionados (...), e talvez outros ainda desconhecidos, não impedirem os imprevidentes, os depravados e os restantes membros inferiores da sociedade de aumentar a uma taxa mais rápida do que a dos homens de melhor categoria, a nação retrocederá, como sucedeu já tão frequentemente na história do mundo. Devemos lembrar-nos de que o progresso não é uma regra invariável.

Os trechos acima são do livro “A Origem do Homem e a Seleção Sexual”, de Charles Darwin. Mostram que até um gênio pode acabar por colaborar, mesmo que inconscientemente, para o surgimento de uma das teorias fundamentais para formação da ideologia nazifascista. Trata-se da eugenia, cujo objetivo principal era promover a “melhoria genética” da humanidade. Seu criador foi Frances Galton, primo de Darwin, que organizou e levou às últimas e piores consequências alguns equívocos espalhados pelas obras de seu famoso parente.  

Na próxima pílula, mais sobre essa doutrina que emporcalhou e ainda emporcalha a história humana.

Leia também: A suja história da eugenia: Frances Galton

5 de maio de 2023

A suja história da eugenia: Frances Galton

A eugenia foi uma disciplina acadêmica que contribuiu decisivamente para a formação da ideologia e prática nazistas. Segundo essa concepção, as contradições sociais seriam patologias e a política, um ramo da medicina.

Frances Galton, considerado o fundador da eugenia, desenvolveu o racismo em dois aspectos que teriam grandes repercussões. Em primeiro lugar, ele entendia que haveria diferenças biológicas não só entre os povos, mas também no interior deles. Desse modo, as classes dominantes seriam superiores física e mentalmente em relação ao restante da sociedade.

Nesse contexto, a Comuna de Paris, por exemplo, foi considerada uma prova da degenerescência biológica do proletariado.

Em segundo lugar, Galton considerava necessário aperfeiçoar a raça por meio de matrimônios entre os membros das elites, ao mesmo tempo em que defendia medidas para condenar à extinção as famílias consideradas social, moral e biologicamente indesejáveis.

A difusão destas concepções nos meios científicos foi facilitada pela notoriedade das investigações do médico Cesare Lombroso. Pressupondo que os criminosos eram biologicamente degenerados, Lombroso propôs condenar à morte todos aqueles que sofressem desde o nascimento de características regressivas. Para ele, este era o caso de cerca de um terço da população carcerária.

É assim que a futura política hitleriana estava traçada em suas linhas fundamentais já no século 19.

As informações acima estão no livro “Labirintos do Fascismo”, de João Bernardo, e esse autor alerta que a eugenia não interessou apenas a setores marginais ou alheios ao pensamento científico. Galton era primo de ninguém mais do que Charles Darwin e, segundo Bernardo, suas ideias racistas estão presentes na obra do ilustre parente. Mas veremos isso mais adiante.

Leia também: Destino Manifesto: a doutrina genocida estadunidense

16 de setembro de 2022

Trabalhadores ingleses contra a escravidão

No terceiro volume de sua trilogia “Escravidão”, Laurentino Gomes esclarece os motivos por trás da condenação do governo britânico ao tráfico escravista no século 19.

O diplomata Robert Hesketh representou a Inglaterra no Brasil de 1808 a 1847, relata Gomes. Em depoimento ao parlamento em Londres, estimou que pelo menos a metade do capital britânico investido no Brasil nessa época tinha envolvimento direto com o tráfico clandestino. O mesmo tráfico que o governo inglês exigiu que fosse extinto no Brasil como condição para reconhecer nossa independência.

Já o historiador norte-americano Robert Edgar Conrad escreveu que “milhares de cidadãos britânicos e norte-americanos estiveram envolvidos direta ou indiretamente no complexo sistema do tráfico escravista e no comércio legal que sustentava a economia brasileira baseada no trabalho escravo”.

Segundo o autor, grandes traficantes de gente nas costas africanas emitiam faturas de compras de mercadorias usadas no tráfico que eram descontadas em todos os grandes centros financeiros europeus e norte-americanos da época, incluindo Londres, Bristol e Liverpool. Esses testemunhos mostram como a escravização interessava aos capitalistas ingleses.

Na verdade, diz Gomes, a exigência do fim do tráfico negreiro foi produto principalmente da atuação dos mais de mil comitês operários abolicionistas que existiam na Grã-Bretanha na primeira metade do século 19. Essas organizações eram decisivas na eleição de parlamentares, o que acabou pressionando o governo inglês a adotar medidas contra o trabalho servil em países como Brasil, Portugal e Espanha.

Quem deu combate ao vergonhoso comércio de gente na Inglaterra foram os trabalhadores organizados. Não se tratava do humanitarismo esclarecido da elite britânica, mas da boa e velha luta de classes.


Leia também: Escravidão: a soberania nacional humilhada pelos ingleses

9 de setembro de 2022

Bondosos escravocratas bem no meio do inferno

No terceiro volume da trilogia “Escravidão”, Laurentino Gomes fala de um “traço comum na biografia dos grandes traficantes e senhores de escravos”. Segundo ele, esses mercenários impiedosos:

Patrocinaram artistas, apoiaram a construção de museus, organizaram teatros e companhias de dança, financiaram expedições científicas, doaram somas expressivas para igrejas, irmandades religiosas, hospitais, escolas e obras de assistência aos pobres e doentes.

Um dos mais famosos foi Pereira Marinho, que: 

... apontado como o grande benfeitor da capital baiana a partir da década de 1860, financiou a construção do hospital Santa Izabel (...) e doou dinheiro e alimentos para as vítimas da grande seca do Nordeste, a mais devastadora de todos os tempos, entre 1877 e 1879. Também apoiou financeiramente asilos e orfanatos. No seu testamento, declarou ter “a consciência tranquila de passar para a vida eterna sem nunca haver concorrido para o mal de meu semelhante”.

Em junho de 2020, o Coletivo de Entidades Negras, organização nacional do movimento negro, pediu à Santa Casa de Misericórdia da Bahia que retirasse a estátua de Pereira Marinho da frente do hospital Santa Izabel, em respeito às milhões de vítimas do tráfico de africanos escravizados no Atlântico. Mas, óbvia e vergonhosamente, a direção da instituição “recebeu polidamente o documento, mas desde então nenhuma providência foi tomada”.

Em comparação com os antigos escravocratas, os atuais nem mesmo se dão ao trabalho de praticar benemerências. Não compartilham a ilusão de Pereira Marinho de alcançar a vida eterna com a consciência tranquila. Sabem que todos se encontrarão em lugar a eles reservado nas mais profundas e assustadoras covas do inferno.

Leia também: O coração escravocrata da independência nacional

1 de setembro de 2022

O coração escravocrata da independência nacional

No início do século 17, Pernambuco era uma província rebelde tanto em relação a Portugal como à corte do Rio de Janeiro. Por isso, em julho de 1822, José Bonifácio enviou para lá um emissário com a promessa de que, em troca do apoio à independência, os senhores de engenho seriam protegidos de uma eventual rebelião escrava.

Muitos anos depois da Independência, os principais traficantes negreiros continuavam a ser portugueses. Um exemplo é o relatório do cônsul britânico Robert Hesketh, o qual mostra que dos 38 grandes mercadores de escravos em atuação no Rio de Janeiro, dezenove eram portugueses, doze brasileiros, dois franceses e dois norte-americanos. Havia ainda um espanhol, um italiano e um anglo-americano.

As informações acima estão no terceiro volume da trilogia “Escravidão”, de Laurentino Gomes.

Gomes também cita a impressionante “lista dos traficantes clandestinos de escravos agraciados com honrarias e títulos de nobreza em Portugal. Concedidos pela rainha Maria II, esses títulos costumavam ser oficialmente reconhecidos no Brasil pelo irmão dela”, o imperador Pedro II.

A escravidão já não existe e é até considerada crime. Mas o racismo jamais foi derrotado pela lei, tanto aqui como em Portugal. Basta verificar os inúmeros casos de crimes racistas que permanecem impunes, tanto lá como aqui.

O que antes era cumplicidade escravocrata, hoje é uma tolerância que reforça a violência racista. Situação perfeitamente simbolizada pela importação provisória do músculo cardíaco de Pedro I.

Que a iniciativa tenha partido de um governo explicitamente racista evidencia a persistência dos vícios de um processo de independência acertado entre os membros da mesma camada de nobres escravocratas.

Leia também: 1822: independência às custas da escravidão

15 de agosto de 2022

Escravocratas de alto a baixo

O Império Brasileiro foi, entre todos os governos da América Latina, o que mais deu apoio ao Sul escravista dos Estados Unidos durante a Guerra da Secessão. Contrariando o desejo do presidente Lincoln, para quem os confederados eram rebeldes a serem trazidos de volta ao seio da União pela força das armas, o Brasil concedeu à Confederação o status formal de nação beligerante, reconhecimento que poucos outros países concordaram em adotar. Nessa condição, navios sulistas foram acolhidos em portos brasileiros, onde receberam proteção contra eventuais hostilidades.

O trecho acima é do último volume da trilogia “Escravidão”, de Laurentino Gomes.

Mas os ianques nortistas não eram muito melhores. Lincoln, por exemplo, nomeou como diplomata no Brasil James Watson Webb, que afirmou o seguinte em uma carta:

É do interesse dos Estados Unidos e absolutamente necessário para sua tranquilidade interna que se livre da instituição da escravidão, mas também (...) se torna indispensável que o negro liberto seja exportado para fora de nossas fronteiras (...). A ausência [de negros] seria uma benção para os Estados Unidos, que se livrariam de uma maldição que quase os destruiu.

Enquanto isso, Matthew Fontaine Maury, comandante da Marinha sulista durante a guerra civil, defendia a ocupação da Amazônia brasileira por colonos norte-americanos e seus escravos. Para ele, somente assim a região seria habitada por um povo com a energia e a iniciativa necessárias para subjugar a floresta no lugar da raça imbecil e indolente que ocupava a Amazônia.

Tudo isso mostra como o racismo escravocrata imperava entre os brancos de sul a norte, no norte, e de norte a sul, no sul.

Leia também: Escravidão: os rugidos que fazem os senhores tremerem

10 de junho de 2022

Black Power: a revolução negra e a revolução socialista

Charles V. Hamilton e Kwame Ture defendem no livro “Black Power” que as relações entre negros e brancos nos Estados Unidos são uma forma de colonialismo.

Em 1967, ano de lançamento da obra, já existiam muitos presidentes africanos, mas os autores lembram que os países por eles governados eram, na verdade, controlados por França, Bélgica ou Inglaterra, suas antigas metrópoles coloniais.

A Los Angeles da época tinha um prefeito afrodescendente, mas ele era tenente da polícia e o terrorismo policial racista aumentou. Se isso não é o mais puro neocolonialismo, perguntam eles, o que é?

Não pode haver ordem social sem justiça social. Por isso, dizem eles, os brancos devem ser levados a entender que precisam parar de mexer com os negros, ou os negros vão revidar! Isso é o Poder Negro, afirmam.

Segundo eles, lideranças políticas negras que defendem uma atuação pacífica conseguem, no máximo, recompensas simbólicas que a parte rica da sociedade está disposta a conceder. Por isso, uma luta “não-violenta” é “um luxo que os negros não podem ter”.

Lembram que, certa vez, Malcolm X disse: “A revolução é sangrenta. Não conhece nenhum compromisso. Derruba e destrói tudo em seu caminho.”

Mas para os negros dos Estados Unidos, afirmam, mesmo a luta por reformas tem sido sangrenta. Portanto, derramamento de sangue não é um obstáculo para a revolução. “Nosso obstáculo é a falta de organização política de massa”.

Hamilton e Ture dizem que não defendem reformas para evitar a revolução. Em vez disso, pretendem que elas ajudem a avançar rumo à “revolução africana e, consequentemente, rumo à revolução socialista mundial”.

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9 de junho de 2022

Poder negro contra o colonialismo

Em seu livro “Black Power”, Charles V. Hamilton e Kwame Ture tratam o racismo institucional reinante nos Estados Unidos como um tipo de “colonialismo”.

Segundo eles, os chefes políticos brancos governam a comunidade negra da mesma forma que a Grã-Bretanha governava as colônias africanas: por governo indireto. A estrutura de poder branca domina a comunidade negra através de negros que aceitam esse papel de meros fantoches.

A atuação de associações de italianos e irlandeses, por exemplo, é respeitada como parte do jogo democrático. A união de negros em defesa de seus direitos é vista como uma ameaça à nação. Suas organizações estão sempre a um passo de serem considerados terroristas.

A estrutura de poder colonial colocou sua bota no pescoço dos negros e quando eles tentam se livrar dessa situação são acusados de “não estarem prontos para a liberdade”. A emancipação legal dos escravos jamais mudou a mente dos racistas. Eles acreditam em seu pretenso status superior, não em documentos de papel.

Dizem que vivemos todos em uma só nação, lembram os autores. Mas se essa nação falha em proteger seus cidadãos, ninguém pode condenar aqueles que recorrem à autodefesa para se preservar. Afinal, perguntam, quem não defenderia sua família e seu lar de um ataque?

É por isso que defendemos a necessidade de um Poder Negro, afirmam. Não há como fazer valer a liberdade e a dignidade da população negra se não a partir de uma posição de força. Enfrentando os opressores como aquilo que são: inimigos.

O livro foi lançado em 1967, em plena batalha por direitos para os negros estadunidenses. A guerra continua.

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