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12 de fevereiro de 2025

Os comunismos originários de nossos dias

“A história da humanidade é a história das lutas de classes”, dizia o "Manifesto do Comunista", de Marx e Engels, publicado em 1848. Mas vários anos depois, seus autores tomaram contato com evidências cientificas de antigas sociedades em que a divisão de classes não teria ocorrido. Era o chamado “comunismo primitivo”, conceito que alguns preferem traduzir como “comunismo originário”.

Desse modo, o comunismo que os socialistas tentavam construir como projeto de futuro encontrava precedentes positivos num passado longínquo. Ao mesmo tempo, já nos tempos de Marx e Engels, a Comuna de Paris surgia como possibilidade concreta de uma organização social radicalmente democrática e igualitária. Uma experiência que permaneceu como referência até que veio a Revolução Russa, cujos líderes também haviam se inspirado nos revoltosos parisienses. A partir de então, a União Soviética passou a servir como modelo de sociedade socialista em construção.

Ocorre que a contrarrevolução stalinista logo substituiu as possibilidades emancipatórias da Revolução Russa pelo objetivo de construir uma superpotência capaz de disputar o jogo imperialista. Derrotada, a União Soviética poderia ter dado lugar à China como novo paradigma se esta não tivesse escolhido integrar-se à produção capitalista para aperfeiçoá-la. Revoluções como a cubana e as africanas jamais tiveram condições de se colocar como alternativas viáveis.

Assim, os socialistas entraram no século 21, aparentemente, desprovidos de referenciais concretos de sociedades igualitárias. Mas só aparentemente. Atualmente, existem e resistem muitas sociedades comunais igualitárias no mundo. Muito especialmente, as indígenas, repletas de elementos capazes de inspirar modos de viver plenamente humanos. Os comunismos originários podem apontar caminhos para fora dos becos sem saída do comunismo europeu.

Leia também: Um Marx não branco e periférico

30 de outubro de 2024

Um Marx não branco e periférico

Em 1703, aqueles sóbrios expoentes do protestantismo, os puritanos da Nova Inglaterra, por meio de decretos, fixaram uma recompensa de 40 libras por cada escalpo indígena e cada pele vermelha capturados; em 1720, fixou-se uma recompensa de 100 libras por cada escalpo; em 1744, depois que a Baía de Massachusetts declarou uma tribo como rebelde, estabeleceram-se os seguintes preços: pelo escalpo de um homem de 12 anos ou mais, 100 libras esterlinas; por um prisioneiro homem, 105 libras; por prisioneiros mulheres e crianças, 50 libras...

O trecho acima é do capítulo 24, volume 1, de “O Capital”. Foi citado no artigo Marx e os Povos originários, recentemente publicado por John Bellamy Foster, Brett Clark e Hannah Holleman. O texto demonstra como Marx denunciou firmemente toda a brutalidade do processo histórico que deu origem ao capitalismo e o mantém ainda hoje. Mas Marx também encontrou na organização social igualitária e solidária dos indígenas elementos fundamentais para inspirar a construção de uma sociedade radicalmente justa.

Não à toa, diz o artigo, Marx estudou obras como "As Raças Nativas dos Estados do Pacífico da América do Norte", de Hubert Howe Bancroft, sobre os indígenas do sudeste do Alasca e do noroeste do Pacífico. Também dedicou-se à leitura de pesquisas sobre os Delaware, Iroqueses, Mohegan, Cree, Chickasaw, Choctaw, Cherokee, Seminole, Dakota, Pawnee, Fox, Blackfoot e muitos outros povos indígenas. Sem falar nas investigações sobre a comuna russa e a história da Índia.

Ou seja, Marx foi um dos primeiros a entender que a luta pela emancipação universal da humanidade tem muito a aprender com sociabilidades não brancas e periféricas.

Leia também: Os idiomas artificiais e o extermínio das línguas indígenas

25 de setembro de 2024

A fenda irreparável do Antropoceno capitalista

Em “O Capital”, Marx procurou mostrar como os imperativos do crescimento capitalista inevitavelmente entram em conflito com as leis da natureza. A economia capitalista, escreveu, não pode "fazer nada melhor com os excrementos produzidos por 4,5 milhões de londrinos do que poluir o Tâmisa a um custo monstruoso".

Marx considerou tais fenômenos como "uma fenda irreparável no processo interdependente do metabolismo social e natural". Abaixo, alguns exemplos dessa “fenda irreparável”:

- Em 1925, eram necessárias dezesseis semanas para criar uma galinha de 2,5 kg. Hoje, são apenas seis semanas para criar uma com o dobro do peso. Criação seletiva, hormônios e ração química permitiram que as fazendas industriais produzissem não apenas mais carne, mais rápido. O sofrimento dos animais e a qualidade da comida são preocupações secundárias ou simplesmente inexistem.

- Terras férteis são destruídas, florestas são desmatadas e populações de peixes entram em colapso, tudo porque o capitalismo precisa operar em velocidades muito mais rápidas do que os ciclos naturais de reprodução e crescimento.

- O carbono que levou centenas de milhões de anos para se formar vem sendo consumido pelo capitalismo há menos de dois séculos. Milhões de toneladas de CO2 são liberados muito mais rapidamente do que os oceanos e outros elementos naturais conseguem removê-los da atmosfera.

A crise climática está levando o caos a centenas de milhões não porque os mercados não estejam funcionando bem o suficiente, mas porque funcionam bem demais na aceleração dos ciclos globais de energia e materiais.

As informações acima estão no livro “Enfrentando o Antropoceno”, de Ian Angus. Explicam porque o Antropoceno é tragicamente capitalista.

Leia também: O Antropoceno e o fio vermelho da resistência

19 de setembro de 2024

O Antropoceno e o fio vermelho da resistência

Em seu livro “Enfrentando o Antropoceno”, Ian Angus lembra que, certa vez, Marx comparou o progresso capitalista àquele "ídolo pagão hediondo, que não beberia o néctar senão dos crânios dos mortos".

Essa incapacidade do capitalismo de criar sem destruir, afirma o autor, corre como um fio vermelho pela obra do grande revolucionário alemão. Mas nem ele poderia imaginar o quão extrema essa contradição se tornaria.

O Antropoceno é algo nunca visto na história do planeta, diz Angus. As mudanças que ocorreram antes, não importa quão extensas ou destrutivas, não causaram “mudanças significativas na estrutura ou funcionamento do Sistema Terrestre como um todo.”

Não é que haja vários focos de destruição ecológica espalhados pelo mundo. A catástrofe ambiental é sistêmica, planetária. São tempestades, furacões, incêndios, ondas de calor e de frio nos vários continentes. Além das cada vez mais frequentes epidemias ameaçando se transformar em nova pandemia. Até o equilíbrio das camadas geológicas mais profundas está ameaçado pela exploração de petróleo e gás usando a técnica do “fracking”.

Nenhum desses fenômenos respeita fronteiras ou trará consequências mais amenas para países ou regiões menos poluentes. Ao contrário, muitos deles afetarão principalmente as nações menos industrializadas e ambientalmente sujas.

Segundo o autor, o Antropoceno também é um território desconhecido. Ninguém pode assegurar qual será a dimensão dos efeitos das pesadas intervenções promovidas pela humanidade sob o domínio do capital. Um sistema cuja sanha por lucros para poucos está colocando em risco a vida da grande maioria explorada e oprimida.

Eis porque é preciso seguir aquele “fio vermelho” da obra marxista para rompermos definitiva e radicalmente com o capitalismo.

Leia também: A assinatura do Antropoceno com firma reconhecida

3 de julho de 2023

Sobre toupeiras, serpentes e águias

Em recente artigo sobre Junho de 2013, Vladimir Safatle discute a hipótese de que “a característica política mais relevante do século 21 foi uma impressionante sequência de insurreições populares de luta contra o capital e de recuperação paulatina da soberania das massas espoliadas”.

O autor cita eclosões populares como aquelas ocorridas desde 2010, com Occupy Wall Street, Primavera Árabe, manifestações em Madri e Istambul, o próprio Junho de 2013, os Coletes Amarelos na França, até chegar às grandes marchas de 2019, em Santiago do Chile.

Mas há até quem identifique o início desse processo nos protestos de Seattle, em 1999, e lembre também as manifestações contra a Guerra do Iraque, em 2003.

Neste exato momento, chama a atenção do mundo uma grande revolta que vem ocorrendo nos subúrbios de Paris.

Tudo isso faz pensar na metáfora da toupeira, muito utilizada por Marx. Tal como aquele animal, dizia ele, o processo revolucionário ocorreria nos subterrâneos da sociedade e irromperia do solo nos lugares e momentos mais inesperados.

Além disso, o bicho também representaria a militância cotidiana. Persistente, pouco gloriosa e voltada para a união das forças que lutam contra a exploração e a opressão a partir de baixo.

Ao mesmo tempo, a toupeira é nossa melhor aposta contra o fascismo. Enquanto ela abre seus caminhos sob a terra, aproveita para destruir os ninhos de ovos de serpente que encontra pela frente.

Águias, falcões e gaviões são bonitos e impressionantes. Mas costumam simbolizar a rapina das classes dominantes e voam distantes dos perigos que ameaçam a maioria cá embaixo. Sem falar que também botam uns ovos muitos suspeitos.

Leia também: Junho de 2013 como final de uma longa onda progressista

3 de junho de 2023

As fake news e a realidade grávida

Combater as fake news apelando às verdades cínicas do capitalismo é trocar a farsa pelo logro. Mas se os que se aproveitam dessa falência cognitiva são os conservadores e suas tropas fascistas, é o próprio sistema que roda em falso desde que surgiu.

A burguesia nasceu bradando “liberdade, igualdade e fraternidade”. Nada mais que cantos traiçoeiros para atrair o apoio da plebe contra seus desafetos aristocratas. Uma vez no poder, os senhores endinheirados fraudaram suas promessas de emancipação generalizada.

Ao longo do tempo, essa comédia grosseira vem conseguindo envolver as forças da resistência popular. Principalmente, ao oferecer uma democracia meramente cenográfica. Diante disso, só o foco na luta de classes permite enxergar o real em meio às seduções do ilusionismo institucional.

Por outro lado, os explorados e oprimidos tampouco foram ungidos pela clarividência divina. Mas, mesmo involuntariamente, são arrastados para a luta imposta por um sistema que fabrica injustiça e frustrações em escala industrial. Nesses momentos, descobrem como combater, combatendo.

Se Marx dizia que o concreto é produto de múltiplos fatores, também chamou o proletariado mundial a se unir e lutar. E se as determinações do capital subjugam toda a humanidade, somente suas maiores vítimas podem fazer valer os elementos concretos da realidade capazes de impedir a completa instalação da barbárie.

O real não está em disputa nas redes, ainda que estas façam parte daquele. Não é embate de narrativas. É luta de classes e enfrentamento ideológico. Segundo, Rosa Luxemburgo o presente pode ficar grávido de futuro pela ação militante consciente e combativa. E é somente essa ação que pode deixar a realidade prenhe de verdade.

Leia também: Fake news e a doença terminal do capitalismo

30 de novembro de 2022

Barreiras naturais e ameaças catastróficas

Para Marx a capacidade de “afastar as barreiras naturais” constitui um traço essencial de nossa espécie. O bicho humano é biologicamente incapaz de voar ou de mergulhar a grande profundidade, por exemplo. Mas tais limitações foram superadas.

Ainda segundo Marx, a constante diminuição dessas restrições naturais é que nos tornariam cada vez mais humanos. Teoricamente, quanto menos necessidade tivermos de trabalhar pela reprodução meramente biológica, mais tempo teríamos para nos dedicar a atividades artísticas e intelectuais, ao lazer, às relações pessoais, a práticas lúdicas, etc.

O problema é que forçar os limites naturais também pode nos levar a situações arriscadas. É o que mostram os inúmeros desastres ecológicos ocorridos na história da humanidade.

Mas as coisas ficaram ameaçadoras mesmo quando a Revolução Industrial levou esse processo a um ritmo, alcance e intensidade inéditos. Desde então, passamos a destruir barreiras naturais pelo planeta todo na insana busca por lucros.

Um exemplo muito próximo foi a pandemia do covid-19. É muito provável que o vírus tenha se espalhado devido à invasão humana de espaços que antes estavam isolados por barreiras naturais.

Outro caso grave é o derretimento das calotas polares causado pelo aquecimento global. Um fenômeno que pode libertar patógenos que estão presos no gelo. Recentemente, cientistas franceses conseguiram “ressuscitar” vírus que estavam congelados há 48 mil anos na Sibéria.

Enquanto isso, a recém-encerrada conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas não conseguiu nem mesmo aprovar um cronograma para a eliminação dos combustíveis fósseis, importante fator de desequilíbrio ecológico.

É assim que o capitalismo vem fazendo as barreiras naturais avançarem perigosamente sobre nós.

Leia também:
A COP-25 e o princípio da sétima geração
A febre amarela e as barragens do capital

26 de setembro de 2022

Quando e porque Marx disse que não era marxista

Em maio de 1880, Marx e o líder operário francês Jules Guesde redigiram um programa para disputar as eleições francesas. Segundo Marx, o documento trazia “demandas que surgiram espontaneamente do próprio movimento operário”. 

Apesar de apresentar uma introdução onde o objetivo comunista era definido em poucas linhas, as medidas propostas eram muito concretas. Por exemplo: 

- Abolição das leis que estabelecem a inferioridade do trabalhador em relação ao patrão, e da mulher em relação ao homem;

- Fim da dívida pública;

- Um dia de descanso por semana ou proibição de trabalho por mais de seis dias em sete. Redução da jornada de trabalho para oito horas para adultos. Proibição de trabalho para menores de 14 anos e, entre 14 e 16 anos, redução de oito para seis horas diárias.

- Salário mínimo legal, reajustado anualmente de acordo com preços definidos por uma comissão estatística dos trabalhadores;

- Salário igual para trabalho igual, para trabalhadores de ambos os sexos.

Há outras medidas interessantes e que poderiam estar em qualquer lista de reivindicações atual. 

Depois que o programa foi acordado, no entanto, surgiu uma polêmica sobre seus objetivos imediatos. Enquanto Marx os entendia como um meio de agitação em torno de demandas alcançáveis no âmbito do capitalismo, Guesde considerava essas reformas como “uma isca para atrair os trabalhadores mais radicais”. 

Acusando Guesde e seus companheiros franceses de serem meros criadores de “frases revolucionárias” e de negar o valor das lutas reformistas, Marx fez sua famosa observação de que, se essas políticas representavam o marxismo, “eu mesmo não sou marxista”.

A íntegra pode ser acessada aqui, em inglês.

28 de setembro de 2021

O delivery é o capitalismo com pressa

“Briga no varejo, agora, é para produto chegar à casa do cliente em horas e não mais em dias”, diz matéria publicada no Globo, em 09/08/2021.

O Magazine Luiza pretende “fazer entregas em até uma hora em todas as capitais do país para produtos de até 15 quilos”, reforça a reportagem. Já a Amazon, anunciou entrega gratuita em um dia útil em mais de 50 cidades e iniciou testes para fazer os produtos chegarem no mesmo dia da compra.

A reportagem arrisca uma explicação que não explica nada: “Para especialistas e empresas, o esforço ocorre por uma necessidade do próprio consumidor, que tem cada vez mais pressa para receber as compras em casa”.

Mas em um trecho de seus rascunhos para “O Capital” (Grundrisse), Marx oferece uma explicação muito mais convincente:

Enquanto o capital deve por um lado, esforçar-se por derrubar todas as barreiras espaciais para realizar o intercâmbio (isto é, a troca), e conquistar todo o mundo como seu mercado, esforça-se, por outro lado, em anular o espaço pelo tempo, isto é, reduzir a um mínimo o tempo despendido no movimento de um lugar ao outro. Portanto, quanto mais desenvolvido o capital, mais extenso o mercado pelo qual ele circula, (...) a órbita espacial de sua circulação, mais ele se esforça simultaneamente em direção a uma ainda maior ampliação do mercado e a uma maior anulação do espaço pelo tempo.

Este texto de 1858 já mostrava uma tendência inevitável do capital. É a pressa de lucrar, mesmo que isso destrua tudo a sua volta. Nós é que deveríamos ter pressa de nos livrarmos dele.

Leia também: Marx e o espaço anulado pelo tempo

12 de abril de 2021

As mulheres iroquesas e o bafo da civilização

A última pílula comentava como Marx ficara impressionado com o poder das mulheres entre os iroqueses. Tais observações aparecem nos chamados “Cadernos Etnológicos”, que reúnem anotações sobre vários estudos antropológicos.

Veremos mais sobre essa questão no relato abaixo, retirado do artigo “Karl Marx and the iroquois”, de Franklin Rosemont.

Na verdade, entre os iroqueses, qualquer decisão final era tomada pelo Conselho de Chefes, inteiramente masculino. Mas às mulheres era permitido nomear um orador para expressar suas opiniões junto ao conselho e aprovar a nomeação de novos chefes.

Parece pouco, mas trata-se de “um grau de envolvimento social muito além do desfrutado pelas mulheres (ou homens!) de qualquer nação civilizada”, diz Marx. Afinal, ele está escrevendo em 1883. Nessa época, poucos países contavam com o sufrágio masculino universal e o voto feminino só começaria a ser respeitado amplamente muitas décadas depois.

Segundo Rosemont, essa tendência igualitária entre os sexos aparecia em registros referentes a várias outras sociedades ditas “primitivas”. Essa característica interessava muito a Marx. Afinal, quando jovem, ele escreveu em “A Sagrada Família” que a melhor forma de medir o progresso de qualquer sociedade é verificar o grau de liberdade e poder com que contam suas mulheres.

É por isso que ele argumenta em uma de suas anotações que "as comunidades primitivas tinham vitalidade incomparavelmente maior do que as sociedades semíticas, gregas, romanas e, posteriormente, as sociedades capitalistas". Acrescentando, ainda, que a sociedade iroquesa era muito mais elevada do que qualquer uma das sociedades "envenenadas pelo hálito pestilento da civilização".

Infelizmente, são essas últimas sociedades que continuam a prevalecer, sem nada perder de seu bafo insuportável.

Leia também:
Marx e o poder das mulheres iroquesas
A luta de classes tem que ser feminista

10 de abril de 2021

Marx e o poder das mulheres iroquesas

Os iroqueses são um povo nativo do norte do continente americano, ainda muito numeroso. Alguns aspectos de seu modo de viver mereceram destaque especial nos chamados “Cadernos Etnológicos”, de Karl Marx. Trata-se de anotações sobre estudos de vários antropólogos, feitas por ele em 1883, pouco antes de morrer.

Esse material só foi publicado em 1974. Portanto, muito tempo depois de consolidada a imagem de um Marx eurocêntrico entre seus críticos, mas também entre alguns de seus seguidores.

Os trechos comentados aqui são do artigo “Karl Marx and the iroquois”, de Franklin Rosemont, ainda sem tradução do inglês.

Entre os cientistas estudados por Marx, estava Louis Henry Morgan, cujas observações sobre os iroqueses ganharam atenção especial. Na verdade, diz Rosemont, elas constituem uma das maiores seções dentre as anotações de Marx.

No entanto, afirma o autor, não era apenas a organização social iroquesa que atraía Marx, mas sim todo um modo de vida que se contrapunha nitidamente à civilização industrial moderna, em várias dimensões.

Marx cita particularmente uma carta enviada a Morgan por um missionário que vivia entre os Sêneca, um dos povos iroqueses. Segundo o relato transcrito por Rosemont:

As mulheres eram a grande força entre os clãs, como em todos os outros lugares. Quando a ocasião exigia, elas não hesitavam em “arrancar os chifres da cabeça de um chefe”, expressão utilizada para o ato de mandá-los de volta às fileiras dos comandados. A nomeação original do chefe também sempre foi atribuição delas.

Então, as mulheres eram as verdadeiras chefas entre os iroqueses? Não exatamente. Mas esta questão ficará melhor esclarecida na próxima pílula.

Leia também: Um Marx selvagem e uma esquerda domesticada

Errata: A primeira versão desta pílula dizia que o povo iroquês está "quase desaparecido". Graças à oportuna correção do camarada Sean Purdy, agora sabemos que os iroqueses vivem em grande número nas províncias canadenses de Ontário e Quebec e no estado de Nova York. E que suas reservas estão entre as maiores nos dois países, sendo bastante organizados e militantes.

8 de agosto de 2019

Vendem nosso ar, roubam nosso sono

Em “O Capital”, Marx chama a força natural proporcionada pela água e pelo ar de “serviço gratuito”. O trecho pressupõe o entendimento de que havia recursos naturais não mercantilizados. Há tempos, já não é assim.

Segundo reportagem de Silvia Scaramuzza, publicada pelo portal “Business Insider Italia”, em 01/08/2019:  

Em Nova York, cada metro quadrado é precioso. Em uma cidade onde falta espaço, só resta ir para cima. Para os construtores de arranha-céus de Nova York, a última fronteira a conquistar é o céu. Como? Comprando o ar inutilizado dos edifícios adjacentes à área onde se pretende construir, apossando-se dos chamados air rights [direitos do ar].

Mas há coisas piores, como mostra Ronaldo Lemos, em sua coluna na Folha de 05/08/2019. O artigo descreve, entre outros produtos tecnológicos, colchões “inteligentes” que:

...monitoram cada movimento, virada ou variação de temperatura do corpo. No momento em que a pessoa está adormecendo, ele aquece. Quando a pessoa adormece, ele diminui um pouco a temperatura, aprofundando assim o ciclo de sono profundo...

Tudo isso para “minerar dados” que permitirão a fabricação dos mais diversos produtos, capazes de gerar muitos lucros para alguns poucos. Dentre os quais, dificilmente, estará o dono do colchão.

Certamente, Marx imaginou que algo assim aconteceria. Afinal, ele foi um dos principais “profetas” da mercantilização de cada aspecto da vida humana pelo capitalismo.

Mas, pelo menos, no caso de Nova York, a operação é um pouco mais transparente que o ar poluído da cidade. Já quanto a nosso sono, trata-se de roubo, mesmo. E cometido, literalmente, na calada da noite.

É de tirar o fôlego. E o sono.

11 de abril de 2019

Fragmentos do real sob o capital

Primeiro fragmento:

Em 1997, o computador Deep Blue, da IBM, venceu o campeão do mundo de xadrez, Garry Kasparov. No fim de 2017, foram dois algoritmos que se enfrentaram no tabuleiro: Stockfish 8, campeão do mundo, contra AlphaZero, criado pelo Google. A novidade é que AlphaZero ensinou a si mesmo a jogar xadrez, sem auxílio humano. Após nove horas de jogo, AlphaZero derrotou Stockfish 8, com 28 vitórias, 72 empates, nenhuma derrota.

Segundo fragmento:
Mohammed diz trabalhar para os passageiros. Só não escolhe quem são, não elege o melhor trajeto, a forma de pagamento, não tem direito de negar uma corrida e nem define as áreas de atuação na cidade, etc. Ele não é patrão, não é funcionário e não é prestador de serviço. Dirige por mais de 40 horas semanais o carro do amigo para proporcionar uma vida melhor para sua família a partir das ordens que recebe dos algoritmos. Sempre que tem uma dúvida sobre seu trabalho, envia um e-mail para uma plataforma e recebe uma resposta padrão como resposta. Na maior parte das vezes, não tem seu problema resolvido....
O trecho acima é de um texto do blog de Michel Alcoforado, de 10/04/2019. Obviamente, refere-se a um motorista da Uber.

Os dois fragmentos mostram que somos cada vez mais espectadores do que fazem as máquinas. Mais que isso, somos seus serviçais.

Máquinas são coisas. A maioria das coisas torna-se mercadoria sob o domínio do capital. E o conceito marxista de “fetichismo da mercadoria” afirma que no capitalismo as relações entre as mercadorias tendem a ocupar o lugar das relações entre as pessoas. Xeque-mate!

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10 de julho de 2018

Karl Marx era satanista?

A pergunta acima está no título de um livro publicado em 1976 por um evangelista americano, o reverendo Richard Wurmbrand.

A informação consta da divertida biografia de Marx escrita por Francis Wheen, que também cita um trecho da “obra”:

Já que uma seita satanista é altamente secreta, nós só podemos contar com algumas pistas sobre possíveis conexões entre uma delas e Marx. Quais seriam elas? Bem, quando era estudante, Marx escreveu uma peça de teatro cujo título, “Oulanem”, é mais ou menos um anagrama de Emanuel, o nome bíblico de Jesus - e, portanto, nos lembra das inversões típicas de uma missa negra satanista.

Outra dessas pistas seria o “penteado” de Marx. Segundo o tal reverendo algumas características ligadas à aparência dele eram típicas dos discípulos de Joanna Southcott, uma sacerdotisa satânica que manteria contato com o demônio Shiloh. Mais especificamente, o cabelo grande e cheio, assim como a barba espessa.

Na verdade, diz Wheen, na Inglaterra da época de Marx não faltavam cavalheiros com características “capilares” semelhantes. Do famoso jogador de críquete W.G. Grace ao renomado político Lord Salisbury. “Será que eles também andavam conversando com o demônio Shiloh?”, pergunta o biógrafo.

Se depender dessas “pistas” para ser confirmada, a hipótese realmente não faz nenhum sentido. Mas há outras mais promissoras, ignoradas por Wurmbrand.

Entre elas, a opinião do pai de Marx, para quem o filho tinha um “espírito demoníaco”. Ou um poema em que Engels acusava o parceiro de, muitas vezes, se comportar como “se dez mil demônios o agarrassem pelos cabelos...”.

Mas, afinal, por que não considerar também o conjunto da obra?

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9 de maio de 2018

Marx, economia e comunismo despudorado

Heitor dos Prazeres
O marxismo reduz tudo à economia: arte, religião, política, direito, guerra, moralidade... Esta é mais uma crítica à qual Terry Eagleton procura responder em seu livro “Marx estava certo”.

Em “A ideologia alemã”, Marx diz que o primeiro ato histórico é a produção dos meios para satisfazer nossas necessidades materiais. Mas se isso significasse que tudo é determinado pela economia, o próprio marxismo seria impossível, afirma Eagleton.

Por outro lado, de fato:

...Marx insiste no papel central desempenhado até hoje pelo fator econômico (...) na história. Isso, porém, é uma crença que nem de longe lhe é exclusiva. Cícero defendia a tese de que a finalidade do Estado era proteger a propriedade privada (...). Um bom número de pensadores do Iluminismo via a história como uma sucessão de modos de produção, acreditando, também, que isso pudesse explicar status, estilos de vida, desigualdades e relações sociais, tanto dentro da família quanto do governo. Adam Smith encarava cada estágio de desenvolvimento social na história como gerador de suas próprias formas de direito, propriedade e governo. Jean-Jacques Rousseau afirma em seu Discurso sobre a desigualdade que a propriedade traz em seu rastro a guerra, a exploração e o conflito de classes. Insistia, ainda, que o chamado contrato social é uma fraude perpetrada pelos ricos contra os pobres a fim de proteger seus privilégios.

E segundo um grande pensador:

...sem o trabalho, ficaríamos simplesmente à toa o dia todo, cedendo aos impulsos de nossa libido de forma despudorada.

Foi Freud que disse isso e, mesmo sem saber, estava falando de algo muito parecido com a sociedade comunista defendida por Marx.

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Para Marx, igualdade é coisa de burguês

13 de abril de 2018

O desprezo ultraesquerdista às tradições de luta

No livro “Marx Estava Certo”, Terry Eagleton conta que, ao ser perguntado sobre como chegar a uma estação ferroviária, um cidadão responde: “Bem, eu não partiria daqui.”

A frase poderia resumir a situação da Rússia alguns anos após a Revolução de 1917. Diante da perspectiva de “construir o socialismo num país sitiado, isolado e semi-indigente”, a conclusão seria: “Bem, eu não partiria daqui.”

Mas quando se trata de situações históricas, diz o autor, não existe um lugar ideal de onde partir. E continua:

Marx escreve em “Crítica ao Programa de Gotha” sobre como a nova sociedade estará marcada com os sinais de nascença da velha ordem de cujo útero emerge. Assim, não existe um ponto “puro” a partir do qual começar. Acreditar em sua existência é a ilusão do chamado ultraesquerdismo.

E os ultraesquedistas, afirma Eagleton:

...em seu fanatismo revolucionário, se recusam a ter algo a ver com as ferramentas comprometidas do passado: reforma social, sindicatos, partidos políticos, democracia parlamentarista e daí por diante, conseguindo, assim, acabar de forma tão imaculada e impotente.
(...)

As políticas emancipadoras inserem o primeiro passo do futuro no coração do presente. Elas representam uma ponte entre o presente e o futuro, o ponto onde os dois se cruzam. E ambos são alimentados pelos recursos do passado, no sentido das preciosas tradições políticas que precisam de luta para ser mantidas vivas.

(...)

A história precisa ser rompida e refeita — não porque os socialistas arbitrariamente preferem a revolução à reforma, sendo bestas sedentas de sangue surdas à voz da moderação, mas devido à gravidade da doença que precisa ser curada.

Leia também: Marx e a natureza humana

10 de abril de 2018

Marx e a natureza humana

Mais trechos de “Marx Estava Certo”, livro do marxista britânico Terry Eagleton, publicado originalmente em 2011. Agora, sobre a existência ou não de uma natureza humana:

...alguns marxistas insistem em que não existe uma essência imutável nos seres humanos. Em sua opinião, é nossa história, não nossa natureza, que nos faz ser o que somos, e, como a história tem tudo a ver com mudança, podemos nos transformar alterando nossas condições históricas. Marx não era adepto integral desse argumento “historicista”.

(...)

No volume I de “O capital”, Marx fala da “natureza humana em geral e depois (...) conforme modificada em cada época histórica”.

(...)

Os seres humanos, por exemplo, nascem todos “prematuramente”. Durante muito tempo após o nascimento, são incapazes de cuidar de si mesmos, tendo necessidade, em consequência, de um prolongado período de assistência

(...)

Ainda que os cuidados recebidos sejam péssimos, os bebês logo assimilam uma noção do que é cuidar dos outros. Esse é um dos motivos por que, mais tarde, talvez sejam capazes de identificar todo um estilo de vida como insensível às necessidades humanas. Nesse sentido, podemos passar do nascimento prematuro para a política.

(...)

...é um erro pensar que a ideia de natureza humana não passa de uma apologia do “status quo”. Ela também pode agir como um poderoso desafio a ele.

(...)

Somente por meio dos outros podemos, enfim, ser nós mesmos. Isso significa um enriquecimento, e não uma redução, da liberdade individual. É difícil pensar numa ética mais perfeita. Em nível pessoal, chamamos a isso amor.

Mais do que concordar com essa concepção, precisamos apostar nela.

2 de abril de 2018

Para Marx, o socialismo não era inevitável

Mais trechos do livro “Marx Estava Certo”, de Terry Eagleton. Dessa vez, respondendo a quem acusa o marxismo de considerar inevitável o advento do socialismo.

Realmente, Marx achava que, “uma vez que o capitalismo fracasse em definitivo, os trabalhadores não terão motivo algum para deixar de assumir o poder”, afirma Eagleton.

Mas um grande problema da luta de classes é que “seu resultado não pode ser previsto”. Talvez, não seja o socialismo que venha a substituir o capitalismo, mas a barbárie. Uma possibilidade presente no próprio Manifesto Comunista, quando afirma que a luta de classes pode resultar na “ruína coletiva” das classes em luta.

Felizmente, existe uma corrente de pensamento na obra de Marx, para a qual são os seres humanos os autores da própria história, por meio de sua ação nas relações sociais e na lutas de classe.

Por outro lado, “apenas de vez em quando esse conflito ‘objetivo’ de interesses toma a forma de uma batalha política de grande escala”. Na maior parte do tempo, predominam as lutas cotidianas, cansativas e pouco gloriosas.

Mas para não restarem dúvidas, em “A Sagrada Família”, Marx afirma:

A história nada faz, não possui uma riqueza imensa, não promove batalhas. É o homem, o homem vivo, de verdade, que tudo faz, tudo possui e que luta; a “história” não é, com efeito, uma pessoa independente, que utiliza o homem como meio para atingir seus objetivos, a história nada mais é senão a atividade do homem em busca de seus objetivos.

Determinista, mesmo, é a economia política burguesa, que considera impossível surgir algo para além da triste realidade capitalista.

Leia também: Marx era um profeta, não um adivinho

26 de março de 2018

Marx era um profeta, não um adivinho

Diego Rivera
“Marx Estava Certo” é um livro do marxista britânico Terry Eagleton, publicado originalmente em 2011.

Apesar do título, o autor diz que pretende “apresentar as ideias de Marx não como perfeitas, mas como plausíveis”. Para demonstrar isso, ele tenta refutar, uma a uma, “dez das críticas mais frequentes a Marx”.

Ao mesmo tempo, pretende “fornecer uma introdução clara e acessível ao pensamento de Marx para aqueles que desconhecem sua obra”.

Por exemplo, à acusação de que o marxismo é uma especulação ingênua sobre um futuro de paz, amor e alegria para toda a humanidade, Eagleton lembra que:

Marx não demonstra o menor interesse em um futuro livre de sofrimento, morte, perda, fracasso, colapso, conflito, tragédia nem mesmo trabalho. Na verdade, ele não demonstra muito interesse pelo futuro em si.

Segundo o autor:

É o capitalismo, não o marxismo, que faz transações futuras. Em “A ideologia alemã”, Marx rejeita a ideia do comunismo como “um ideal ao qual a realidade terá de se ajustar”. Ele o vê como “o movimento real que abole o presente estado de coisas”

Para o revolucionário alemão, inevitável mesmo era o futuro. Mas “o inevitável não é, necessariamente, o desejável. A morte também é inevitável, mas, aos olhos da maioria, não é desejável”, diz Eagleton. E arremata:

Equivoca-se quem crê que os profetas bíblicos buscavam prever o futuro. Em vez disso, o profeta denuncia a ganância, a corrupção e a ânsia de poder atuais, alertando-nos para o fato de que, a menos que mudemos nossos métodos, poderemos muito bem não ter futuro. Marx era um profeta, não um adivinho.

2 de março de 2018

O comunismo antes e depois de Marx e Engels

Como Marx e Engels se tornaram comunistas? Segundo o livro “The Revolutionary Ideas of Karl Marx”, de Alex Callinicos, foi assim.

Em 1842, Marx era editor-chefe da Gazeta Renana, na província alemã de Colônia. Quando acusaram seu periódico de ser comunista, ele respondeu que “as ideias comunistas em sua forma atual não chegam a possuir nem mesmo realidade teórica e, portanto, podem ainda menos chegar a se realizar na prática".

Mas em seu exílio em Paris, Marx conheceu as sociedades comunistas francesa e alemã, tendo sua primeira experiência junto a um movimento organizado de trabalhadores. O impacto foi enorme. Ele escreveu a Feuerbach em agosto de 1844:

Você deveria comparecer a uma reunião dos trabalhadores franceses para apreciar o puro frescor, a nobreza que irrompe desses homens cansados... É entre esses "bárbaros" da nossa sociedade civilizada que a história está preparando o elemento prático para a emancipação da humanidade

Em “A ideologia alemã”, de 1845, Marx e Engels argumentavam que a possibilidade da revolução social dependia das condições materiais criadas pelo próprio capitalismo. A mais importante delas era a classe trabalhadora. "O comunismo", escreveu Engels nesta época, "é a doutrina das condições para a emancipação do proletariado".

Em 1847, Marx e Engels entraram para a Liga dos Justos e a transformaram de uma sociedade secreta conspiradora em uma organização revolucionária aberta. O lema "Todos os homens são irmãos!" tornou-se "Trabalhadores de todos os países, uni-vos!". Com palavras semelhantes eles concluiriam o Manifesto Comunista, publicado pouco depois.

Nada disso altera o fato de que o comunismo será sempre a resposta dos trabalhadores à exploração e opressão capitalistas.

Obs.: doses suspensas até abril.

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