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4 de junho de 2019

Os 50 anos da resistência gay de Stonewall

Em junho de 1969, estourava uma revolta no bar Stonewall, no Greenwich Village, Nova York. Foram seis noites de manifestações violentas.

O lugar era muito frequentado por gays pobres. Batidas policiais abusivas eram constantes. Mas a daquela noite acendeu o estopim.

Uma das lideranças surgidas naquele momento foi Sylvia Rivera. Segundo ela:

Fomos levados para fora do bar e a polícia nos encurralou. As pessoas começaram a jogar moedas nos policiais. Mas depois foram arremessadas garrafas. Nós não íamos mais aguentar aquela merda quietos.

Começaram a aparecer sem-tetos gays que viviam no parque, próximo ao bar. E, atrás deles, vieram as drag queens e depois veio todo mundo da região.

Muitos dos revoltosos eram latinos, como a própria Sylvia, ou negros, como sua amiga e camarada Marsha P. Johnson. A partir do tumulto, foi formada a Gay Liberation Front (GFL), com o seu próprio programa em defesa da revolução.

Sylvia e Marsha também ajudaram a formar a STAR (Street Transvestites Action Revolutionaries) que ocupou um prédio vazio para servir de moradia e base organizativa para travestis moradores de rua.

Em 1971, aconteceu a Convenção Revolucionária do Povo, na Filadélfia. Os Panteras Negras estavam presentes. Sylvia reuniu-se com seu líder, Huey Newton. Segundo ela, Newton concordou que grupos como GLF e STAR deveriam ser apoiados, pois eram revolucionários.

Cada um desses momentos de luta e organização devem ser sempre lembrados. Principalmente, quando mostram que é possível unificar a resistência de todas as vítimas da exploração e opressão capitalistas.

Mais informações podem ser encontradas em When gays and Panthers were United.

Leia também: Os Panteras Negras contra a homofobia

14 de junho de 2016

Sobre bichas e armas

“Suas bichas, vou atirar em vocês!". Esta frase não está relacionada ao recente massacre ocorrido em uma boate gay, em Orlando, Estados Unidos. Foi berrada em Recife e se dirigia ao publicitário Marlon Parente e um grupo de amigos.

O episódio levou Parente a juntar seis amigos homossexuais para produzir "Bichas, o documentário". Concluído em tempo recorde e custo zero, o vídeo está disponível no youtube e já alcançou 490 mil visualizações.

O documentário permite conhecer uma pequena, mas importante, parte dos conflitos que envolvem a subjetividade homoerótica. Principalmente, o preconceito e a violência física e simbólica que a cercam.

É o tipo de produção que deveria ser amplamente divulgada pelos meios de comunicação. No lugar dos casais gays bonitos e ricos das telenovelas, um pouco da realidade massacrante do país que é campeão mundial de violência homofóbica.

Mas a matança que vitimou pelo menos 50 pessoas em Orlando tem servido de pretexto para tudo, menos para a discussão da condição homossexual.

Não faltam descrições detalhadas das armas utilizadas pelo assassino e da biografia do assassino. Sem falar em debates vazios sobre controle de armamentos.

Não à toa, já começam a dizer que o próprio assassino era homossexual, transformando tudo em um drama restrito ao “mundo doentio dos gays".

Enquanto isso, a programação de TVs e rádios espalha diariamente preconceitos que reforçam a homofobia e as estruturas policial e judiciária só sabem punir ainda mais suas vítimas.

Entre bichas e armas, os aparelhos de dominação públicos e privados perseguem e ridicularizam as primeiras para torná-las alvos fáceis das últimas. Orlando também é aqui.

Leia também: Homofobia e fotossíntese no inferno

14 de abril de 2016

O amor e seu oposto, o Vaticano

Em meio a uma crise tão dura, que tal falar de amor?

Melhor, não. O documento recentemente lançado pelo Papa Francisco sobre o tema também tem causado muita confusão.

Segundo muita gente “Amoris laetitia” (“A alegria do amor”) estaria abrindo a Igreja aos divorciados, pregando tolerância cristã aos homossexuais etc. Não é bem assim.

O “New Ways Ministry”, grupo de defesa voltado à comunidade católica LGBT, por exemplo, afirma que ninguém esperava “uma bênção para o casamento entre pessoas do mesmo sexo”, mas uma “mensagem afirmativa a eles”. No lugar disso, “os mesmos comentários mal informados”.

Já Marco Politi, em reportagem publicada no jornal “Il Fatto Quotidiano”, em 12/04, esclarece que o documento papal é baseado no relatório final de uma reunião geral dos bispos católicos realizada em 2015. Mas resultou muito mais moderado que as posições aprovadas na conferência.

No caso do casamento gay, havia um “reconhecimento também do caráter positivo da vida de casal homossexual”. Mas na redação de Francisco, a condição homoerótica foi tratada de forma puramente negativa na seção “Iluminar crises, angústias e dificuldades”.

Além disso, todos os trechos da “Amoris laetitia” sobre homossexualidade já faziam parte de documentos do papa arquiconservador Bento 16.

Quanto aos divorciados, o relatório dos bispos admitia que eles “poderiam ter acesso à comunhão, satisfeitas certas condições”. Pelo documento papal, cada caso será analisado pelo sacerdote de plantão. Procedimento que já é prática comum.

As mansas palavras de Francisco não mudarão uma instituição ultraconservadora como o Vaticano. No lugar do respeito a toda forma de amor, permanece a vocação para ceder apenas a paixões alimentadas pela intolerância.

21 de maio de 2015

Homofobia e fotossíntese no inferno

De volta ao livro “Sapiens – Uma Breve História da Humanidade”, de Yuval Noah Harari. Para aqueles que gostam de classificar alguns comportamentos humanos como “biologicamente anormais”, o autor propõe o seguinte raciocínio: 

Como podemos diferenciar aquilo que é biologicamente determinado daquilo que as pessoas apenas tentam justificar por meio de mitos biológicos? Um bom princípio básico é “a biologia permite, a cultura proíbe”. A biologia está disposta a tolerar um leque muito amplo de possibilidades. É a cultura que obriga as pessoas a concretizar algumas possibilidades e proíbe outras. A biologia permite que as mulheres tenham filhos – algumas culturas obrigam as mulheres a concretizar essa possibilidade. A biologia permite que homens pratiquem sexo uns com os outros – algumas culturas os proíbem de concretizar essa possibilidade. 

E ele ainda reforça com exemplos bem didáticos: 

Nenhuma cultura jamais se deu ao trabalho de proibir que os homens realizassem fotossíntese, que as mulheres corressem mais rápido do que a velocidade da luz, ou que elétrons com carga negativa atraíssem uns aos outros.
 
Na verdade, arremata Harari, os conceitos de “natural” e “não natural” não são tirados da biologia, mas da teologia cristã. E esta atribui a nossos órgãos finalidades bem específicas. Algo que se choca frontalmente com tudo o que sabemos sobre a evolução da vida.

Ninguém é obrigado a acreditar nas ciências biológicas. Mas, da mesma maneira, ninguém merece que lhe berrem nos ouvidos sua pretensa “anormalidade”, ou simplesmente resolvam combatê-la com violência física.

Para quem a evolução das espécies não vale, deveria valer a evolução cultural. Se nem isso for possível, pode ir fazer fotossíntese no inferno.

Leia também:
No auge de nossa evolução, a fofoca

3 de fevereiro de 2015

O orgulho de ser gay e anticapitalista

Há filmes que surpreendem pela capacidade de nos deixar otimistas. “Orgulho” (“Pride”), de Matthew Warchus, é um deles. A trama é relativamente simples, mas envolve situações muito complexas.

Trata-se da história de um coletivo gay que decide apoiar trabalhadores em greve nos anos 1980, na Inglaterra. Mais especificamente, os mineiros que, em 1984, iniciaram uma paralisação que duraria dois anos.

O movimento grevista não envolvia apenas salários ou condições de trabalho. Seu maior objetivo era impedir que o neoliberalismo de Margareth Thatcher triunfasse, destruindo sindicatos e empregos.

O problema é que o preconceito impedia as lideranças dos mineiros de aceitar a ajuda dos ativistas homossexuais. A aliança somente se consolidaria em uma pequena cidade próxima a Londres. Lá também os gays foram recebidos com hostilidade. Mas contando com a ajuda das mulheres do lugarejo, conquistaram a tão necessária unidade de classe entre explorados e oprimidos.

As contradições são mais agudas porque os homossexuais também passavam por um momento terrível. As inúmeras mortes que a AIDS começava a causar eram comemoradas como manifestação do castigo divino pelos conservadores. Infelizmente, entre estes últimos também estavam muitos trabalhadores. Daí, a resistência de muitos gays em apoiar os grevistas.

O filme aborda, de modo direto e claro, o enorme desafio que é unir a luta contra a exploração com o combate à opressão. No caso desta produção baseada em fatos reais, o final é emocionante e capaz de enternecer até os mais amargos corações socialistas. 

O filme parece não ter marcado presença nos cinemas brasileiros. Mas vale a pena procurá-lo na internete. Dá orgulho de ser gente.

Leia também:
A onda conservadora não é evangélica

1 de outubro de 2014

Levy Fidelix e os macacos bonobos

Manolis Glezos é considerado um grande herói de guerra na Grécia. Aos 19 anos, ele arrancou a bandeira nazista do alto da Acrópole. Aos 92 anos, o parlamentar do Syriza foi o mais votado nas eleições que colocaram seu partido no governo do país.  

Em recente pronunciamento, Glezos não escondeu seu descontentamento em relação aos posicionamentos assumidos pelo governo que ajudou a eleger. Principalmente, nas negociações com a chamada “troika”, formada por
Banco Central Europeu, FMI e Comissão Europeia.

Glezos acha que o primeiro-ministro Alexis Tsipras vem fazendo concessões demais. O voto do povo grego, diz ele, foi pela imediata abolição das medidas de austeridade e rompimento com a troika. E é este compromisso que deve ser respeitado acima de todos os outros.

Alguns companheiros de seu partido não concordam. Dizem que o rompimento seria o caos causado por fortes medidas de retaliação por parte dos credores da Grécia. Mas tudo indica que o veterano combatente tem razão.

A única saída que interessa ao povo grego é deixar a zona do euro. O caos já está instalado no país desde 2008. A vitória do Syriza já provocou uma grande fuga de capitais. Nenhum dos outros 18 governos da união monetária apoia medidas de alívio para os gregos.

Para a Grécia, manter a situação atual significa continuar na condição de colônia econômica da Alemanha. Permanecer presa a um mercado cativo voltado para a exploração pelo imperialismo germânico.

“Não pode haver compromisso entre o escravo e o tirano. Liberdade é a única solução”, diz Glezios, como se ainda avistasse uma bandeira inimiga fincada na Acrópole.

Leia também:
Grécia e Alemanha. Quem deve a quem?

A Europa corroída por sua moeda

1 de setembro de 2014

Marina Silva e a poeira de nossos pés

   Latuff
A liberdade sexual volta ao centro dos debates nas eleições presidenciais. Mais especificamente, pela decisão de Marina Silva de retirar de seu programa a defesa do casamento gay.

O recuo deveu-se a pressões de lideranças cristãs que condenam o homoerotismo com base em passagens da Bíblia. Uma das mais lembradas envolve Sodoma e Gomorra, destruídas por Deus porque seus moradores seriam adeptos do amor homossexual. Daí, o termo “sodomia”.

O trecho mais lembrado está em Gênesis (19:5). Descreve o modo como homens que visitavam Ló foram tratados pelos moradores de Sodoma. Eles teriam exigido: “Traze-os a nós para que os conheçamos.”

A expressão “conhecer”, na Bíblia, é muito utilizada como sinônimo de relação sexual. Há quem negue que o termo tenha sido utilizado nesse sentido na passagem em questão. Mas mesmo que assim fosse, ainda é possível enxergar a falta de hospitalidade como o grande pecado dos sodomitas.

Em Ezequiel (16:49), Sodoma é condenada por nunca ter amparado “o pobre e o necessitado”, por exemplo. Já em Mateus (10:13/15), Jesus teria advertido contra o pecado da falta de hospitalidade, dizendo:

... se alguém não vos receber, nem der ouvidos às vossas palavras, assim que sairdes daquela casa ou cidade, sacudi a poeira dos vossos pés. Com toda a certeza vos afirmo que haverá mais tolerância para Sodoma e Gomorra, no dia do Juízo, do que para aquelas pessoas.

Ou seja, há muitas maneiras de interpretar textos tidos como sagrados. As escolhas dizem mais sobre os intérpretes do que sobre o objeto interpretado. No caso de Marina e seus aliados religiosos, melhor sacudi-los de nossos pés.

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19 de maio de 2014

Os Panteras Negras contra a homofobia

17 de maio foi Dia Mundial contra a Homofobia. Infelizmente, é mais uma daquelas datas com pouco ou nenhum efeito prático. Mas serve para lembrar como é dura a luta contra a perseguição aos homossexuais. Mesmo em setores populares de esquerda esta é uma bandeira pouco respeitada.

Mas há exemplos históricos que são exceção importante a esta regra. Um deles é oferecido pelo Partido dos Panteras Negras, que atuou nos Estados Unidos de 1966 ao início dos anos 1980. As informações são do livro “Praise for Black against Empire”, de Joshua Bloom e Waldo E. Martin, ainda sem edição em português.

Em 1970, os Panteras divulgaram um documento sobre o Movimento Feminista e o Movimento de Libertação Gay assinado por Huey Newton, um de seus fundadores. O texto caracterizou os homossexuais e as mulheres como “oprimidos”, observando que os homossexuais "podem ser considerados as pessoas mais oprimidas da sociedade” e argumentando que todos devem ter “liberdade para usar seu corpo da maneira que quiserem.”

O texto também recomendava aos membros do Partido que evitassem utilizar ofensas como “veado” e “bicha” entre eles próprios e em relação a “inimigos do povo”. “Os homossexuais não são inimigos do povo”, dizia.

Apesar disso, o machismo permanecia forte entre os membros do Partido, segundo o testemunho de lideranças como Angela Davis e Erica Huggins. Uma das razões para esta persistência era a enorme repressão que se abatia sobre a organização. Segundo Erica, os militantes não tinham muito tempo para pensar em machismo e homofobia, pois estavam tentando permanecer vivos.

Esta desculpa nossos partidos e organizações não têm.

Leia também: Panteras Negras: contra a polícia, a legalidade armada

5 de maio de 2014

A esquerda e a luta por liberdade sexual

“O AI-5 atrasou por anos o movimento gay no Brasil", diz o historiador James Green, da Universidade de Brown, Estados Unidos. A afirmação foi feita em entrevista a Tatiana Merlino, publicada pela Carta Capital em 29/04.

Green é fundador do grupo “Somos”, pioneiro na afirmação homossexual durante a ditadura militar no Brasil. Para ele, a decretação do AI-5, em 1968, não atingiu apenas a dimensão política da oposição ao Regime Militar. A época era de grande questionamento ao conservadorismo, incluindo a luta por liberdade sexual e de afirmação gay.

Green acha que não fosse a ditadura, “o mesmo tipo de organizações que existiam na Argentina ou em Nova York, organizações LGBT, feministas, também surgiriam aqui para forjar movimentos de questionamento do conservadorismo da sociedade brasileira”. Mas a intolerância com a diversidade sexual não era exclusividade da direita.

O entrevistado menciona um episódio vergonhoso. Uma organização da luta armada chegou a considerar a possibilidade de “justiçar” dois de seus militantes por serem homossexuais. Felizmente, o ato não se concretizou.

Os ativistas gays só conseguiriam se manifestar abertamente na época das grandes greves, no final dos anos 1970. Vários de seus coletivos apoiaram as lutas operárias, defendendo a inclusão do respeito ao trabalhador homossexual nas pautas sindicais. Claro que os sindicatos não lhes deram ouvidos.

Na verdade, a grande maioria da esquerda continua avessa a lutas envolvendo a liberdade e a diversidade sexual. No momento em que se exige a punição aos crimes dos carrascos da ditadura, esta deveria ser mais uma questão a diferenciar todos nós da direita. Ainda não é.

30 de julho de 2013

O Papa sabonete

Em artigo publicado na Folha em 29/07, Reinaldo José Lopes avisa: “Francisco muda ênfase, mas não conteúdo de doutrina sobre gays”. Ele refere-se à aparente tolerância do novo Papa em relação à homossexualidade. Para Lopes:

...a rigor, não há nada de inovador em Francisco afirmar que é preciso acolher as pessoas com "tendências" homossexuais e, inclusive, citar o Catecismo da Igreja Católica, o guia doutrinal máximo do catolicismo, a esse respeito. É o que os últimos papas ou seus "czares" doutrinais, os chefes da Congregação para a Doutrina da Fé, têm dito reiteradas vezes.

Outra reportagem, do mesmo dia, destaca a grande habilidade política do novo papa. Trata-se de entrevista com o jornalista Marco Politi, um dos vaticanistas mais respeitados de Roma. No depoimento publicado pelo Globo, ele diz:

É um Papa político. Na composição do conselho de oito cardeais (que vai propor uma reforma da Cúria Romana) ele escolheu todas as correntes da Igreja: tem progressista como Oscar Andrés Maradiaga (cardeal-arcebispo de Honduras), mas também o cardeal conservador George Pell, da Australia, e um centrista ligado à Ratzinger, como o cardeal Reinhard Marx (da Alemanha). O Papa poderá sempre justificar decisões dizendo: foram tomadas por todos.

Para resumir o que pensa sobre Bergoglio, o entrevistado afirma: “é o Papa não-Papa, que interpreta muito bem a situação de crise do mundo contemporâneo”.

Em tempos que viram a ascensão de Lula e Obama ao governo, é possível alinhar Francisco às figuras históricas que facilitam a vida dos poderosos. São os famosos e populares “sabonetes” da alta política mundial.

29 de janeiro de 2013

A Bíblia não é manual de instruções

Diante da ofensiva religiosa contra o casamento gay, nada como um pouco da lucidez de um católico. Trata-se de Clifford Longley, jornalista e importante liderança leiga da Inglaterra.

Em artigo publicado pela revista The Tablet, em 12/01, ele lembra que, em 2008, o Vaticano aceitou a compatibilidade da teoria da evolução com a Bíblia. Se é assim, diz Longlley:

...a Igreja aceita que a sexualidade humana evoluiu. Isto significa que nossos órgãos sexuais e a maneira como funcionam juntos não foram sempre assim como são agora. Eles são produto de milhões de anos de adaptação para melhorar as chances de sobrevivência da espécie.

Isso se aplica a todas as outras faculdades humanas (...). Elas evoluíram e, tanto quanto sabemos, ainda estão evoluindo. Nós abandonamos a ideia de que Deus criou o mundo de uma vez para sempre em seu estado final e perfeito e que, por isso, podemos descobrir como Deus queria que nos comportássemos olhando a forma como as coisas estão projetadas. Não houve um projetista mestre, e, por conseguinte, não há “instruções do fabricante” às quais possamos fazer referência. Num mundo pós-darwiniano, não há “ordem” divinamente sancionada em nossa biologia, de modo que nada pode ser “intrinsecamente desordenado”. Há simplesmente o estado até o qual a evolução nos trouxe, por um processo que Darwin chamou de seleção natural.

Mas o Vaticano não está disposto a aceitar esse tipo argumentação. Nem muitas das principais instituições religiosas. Elas continuam tratando a Bíblia como um manual de instruções que prescreve valores conservadores e autoritários.

14 de maio de 2012

Igrejas e empresários: diabólica aliança

“Parceria CNI-igrejas derruba votação para tributar fortunas” diz reportagem de Evandro Éboli publicada pelo Globo, em 09/05. A matéria refere-se a parceria entre a entidade que representa grandes empresários e parlamentares católicos e evangélicos. Seu objetivo? Impedir a aprovação de uma contribuição sobre grandes fortunas pelo Congresso Nacional.

A reportagem explica que a nova contribuição geraria recursos que seriam destinados exclusivamente para a saúde. O interesse dos religiosos seria evitar a chegada desses recursos para outro projeto, que tramita há anos no Congresso e que cria direitos previdenciários para dependentes de homossexuais.

Já a CNI pretende impedir a taxação das fortunas de seus associados, obviamente. Éboli explica que a proposta cria nove faixas de contribuição. A primeira atinge patrimônios acima de R$ 4 milhões e a última atinge os que ultrapassam R$ 115 milhões.

O que mais espanta é o minúsculo número dos que seriam atingidos: 38 mil pessoas. Ainda segundo a matéria, o novo tributo renderia “R$ 14 bilhões a mais para a saúde por ano”. Mas desse total, R$ 10 bilhões viriam de apenas 600 pessoas.

Opor-se à taxação de milionários em nome do bloqueio à cobertura previdenciária para homossexuais. Eis aí uma causa nada nobre a unir as cúpulas católica e evangélica ao grande capital. Por outro lado, entre os patrimônios ameaçados podem estar os de muitas instituições religiosas.
 

Difícil imaginar pacto mais carregado de pecados. Talvez, ajude a explicar a secular injustiça social que atinge um país que se orgulha de ter Deus como conterrâneo.

8 de março de 2012

A revolução liderada por operárias negras, jovens e gays

É mais ou menos isso que pensava Tony Cliff, revolucionário inglês nascido na Palestina. A ideia está num artigo escrito por ele em 1978. Com o título “Por que os socialistas devem apoiar a luta dos gays”, o texto denuncia a dificuldade dos socialistas em assumir a luta contra a opressão. Contra a perseguição e humilhação que atinge grupos sociais como as mulheres, negros e gays.

Cliff afirma que somos produto de uma sociedade “ordenada e hierárquica”. Segundo ele:
As regras do sistema foram feitas para nos dividir. Isto significa que a identificação entre os vários grupos oprimidos não acontece de forma natural. Os racistas mais fanáticos dos Estados do Sul da América são os brancos pobres - e não os brancos ricos.
A opressão que muitos de nós sofrem costuma ser redirecionada a outros. É por isso que gays podem ser racistas, muitos negros são machistas e há mulheres homofóbicas. É por isso que também há negros racistas, mulheres machistas e gays homofóbicos. Cliff cita ainda os preconceitos contra os mais jovens. Quase sempre considerados esquerdistas ingênuos pela militância mais madura.

A classe dominante assiste feliz a tudo isso. Segue sustentando seu sistema de exploração.

O desafio do movimento socialista é oferecer uma alternativa de luta que supere todos esses obstáculos internos aos explorados. Se um dia conquistarmos essa vitória, nosso movimento será liderado por várias mulheres trabalhadoras, que sejam ao mesmo tempo negras, gays e jovens.

Leia também: Eleger ladrão pode. Ateus e gays, não

2 de setembro de 2011

Apple e homofobia

A aposentadoria de Steve Jobs chamou a atenção do mundo. O fundador da Apple é considerado um gênio da tecnologia digital. Mas, não só. O empresário sabe tudo de mercado. A começar pela marca escolhida para sua companhia.

A famosa maçã mordida tornou-se ícone. Há várias versões sobre sua origem. Uma delas diz que é uma homenagem ao pai da física moderna, Isaac Newton. Outra versão afirma que se trata da maçã oferecida pela serpente a Eva. Motivou a expulsão do Paraíso, mas também abriu as portas da ciência para a humanidade.

Outra versão tem Alan Turing como homenageado. Nascido em 1912, em Londres, Turing era um gênio da matemática. Aos 25 anos, escreveu um artigo chamado "Sobre as Máquinas Computáveis". O estudo dizia ser possível criar uma máquina capaz de fazer cálculos altamente complexos. Era o rascunho dos atuais computadores.

Poucos anos depois, Turing entraria de cabeça na 2ª Guerra. Dedicou-se a decifrar os códigos de mensagens do inimigo. Criou o Colossus, antepassado dos atuais PCs. Graças a ele, os ingleses decifravam 50 mil mensagens por mês, em 1942.

O problema é que Turing era homossexual. Motivo pelo qual foi preso em 1952. Ajudara a derrotar o nazismo para ser vítima de preconceitos em seu próprio país. Foi condenado a tomar hormônios que deformaram seu corpo. Em junho de 1954, desesperado, matou-se, mordendo uma maçã cheia de veneno.

Improvável que tal história tenha inspirado Jobs. Mas, serve como denúncia. Continuamos a sofrer com as intolerâncias mais estúpidas e violentas. Muitas vezes, utilizando modernos aparelhos eletrônicos e redes virtuais para fazer suas vítimas.

Leia também:
Velhas intolerâncias atuais
CNBB e Forças Armadas contra a causa gay

17 de maio de 2011

CNBB e Forças Armadas contra a causa gay

Saiu na coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S. Paulo, em 16/05/2011. A CNBB e o Exército estariam se mobilizando para barrar o projeto que torna crime a homofobia.

Cardeais teriam telefonado para o presidente do Senado, José Sarney, manifestando essa preocupação. Já o senador Marcelo Crivella, evangélico, teria recebido ligação do comando do Exército.

É triste ver a CNBB fazer coro com as Forças Armadas. Afinal, a entidade católica se manifestou, por exemplo, pela abertura dos arquivos da ditadura militar. Ou pela realização de uma reforma agrária de verdade.

Mas, estas posições contraditórias da CNBB mostram como a instituição é passível de ser pressionada. Não é o caso das Forças Armadas. Estas fazem parte do núcleo do Estado. Estão totalmente comprometidas com a ordem autoritária. Quando silenciam, esperam apenas o melhor momento para dar o bote.

Nessa situação, ajuda pouco recente anúncio de Sérgio Cabral. Segundo o governador fluminense, policiais homossexuais poderão participar uniformizados da próxima Parada Gay. Utilizando, inclusive, viaturas da polícia. A medida pode dar a ilusão de que o Estado se compromete com a luta por liberdade sexual.

Não é verdade. O compromisso é do governo. De uma instância do poder que é passageira. As Forças Armadas são o escudo blindado dos valores conservadores. Sua ação é permanente, secular e violenta. Entre um e outro, o Estado ficará ao lado dos generais.

O movimento gay precisa avançar com suas próprias forças. Através do trabalho de base junto à sociedade. Incluindo soldados e policiais. Conquistar um apoio popular e independente para suas lutas. Sempre desconfiando das instituições governamentais e estatais.

Leia também: União gay, homofobia e democracia

6 de maio de 2011

União gay, homofobia e democracia

O Supremo Tribunal Federal aprovou o direito à união homoafetiva. Ótimo!

A chance de um homossexual ser assassinado no Brasil é 785% maior que nos Estados Unidos. Lamentável!

Mesmo assim, a lei de combate à homofobia enfrenta dificuldades para ser votada no Congresso.

Alguém poderia dizer que o direito à união gay é “perfumaria” perto da tragédia nacional que é a violência contra homossexuais. Não é bem assim. Apesar de tudo, foi uma vitória importante.

Mas, o fato é que nossas lutas não podem ficar dependendo das instituições que estão aí. Os onze figurões que vestem camisolas pretas no STF já cometeram muitas injustiças. E a pressão das ruas já obrigou os muitos picaretas do Congresso a engolir várias conquistas.

A verdade é que a política tem que ser feita nos bairros, locais de trabalho, escolas. Em conselhos e comitês populares. Envolvendo o conjunto das lutas dos explorados e perseguidos.

Precisamos esvaziar o poder dos parlamentos oficiais e das altas cortes. Eles foram feitos para ficar isolados do povo e íntimos dos poderosos.

Leia também: Carta à Roma Antiga

24 de janeiro de 2011

O BBB e 250 gays no paredão

Big Brother Brasil chega a sua 11ª edição. O programa consegue ser uma amostra de tudo o que há de mais podre no convívio social. São indivíduos voltados para o sórdido. Se for preciso, um usa o machismo. O outro, o racismo. Esta participante apela sexualmente. Aquele competidor semeia a discórdia. Uma outra é boa na mentira. Um grande ralo juntando podridão.

A crescente ridicularização de homossexuais na atração só reforçou esse quadro. É certo que houve até um vencedor gay, uma vez. Mas não é a regra. E muitos dos outros vencedores parecem ter sido deportados diretamente da era paleolítica. Além disso, o que não faltam são cenas eróticas entre casais heterossexuais. O mesmo não vale para pessoas do mesmo sexo. Gay tem que ser bem comportadinho. De preferência, um pouco folclórico. Vida afetiva devidamente reprimida. Caso contrário, dança.

Foi o que aconteceu agora com o transexual Ariadna, expulsa da casa depois de ter sua condição sexual utilizada para conquistar pontos na audiência. Talvez, seu maior crime tenha sido se envolver com um dos integrantes da casa. Claro que o rapaz logo se declarou desavisado.

Enquanto isso, o projeto contra a homofobia em discussão no Congresso acaba de ser arquivado. Ainda pode ser desarquivado, mas enfrenta muitas resistências. Seguimos sendo campeões mundiais em violência contra gays. Segundo levantamento do Grupo Gay da Bahia, foram mais de 250 casos de homossexuais assassinados no Brasil em 2010. Recorde histórico.

A eliminação de Ariadna foi simbólica, claro. Simboliza a violência física bem real de que são vítimas os homossexuais no Brasil. Um paredão de preconceitos com conseqüências fatais.

Leia também Pacote de maldades: homofobia racista

17 de novembro de 2010

O destino fatal dos gays

No começo de novembro, o Rio de Janeiro ganhou o título mundial de Destino Mais Sexy pelo público gay. A votação foi organizada pelo site TripOutGayTravel.com e pelo Logo, canal da MTV americana. Há um ano, a cidade já havia sido eleita o Melhor Destino Gay do Mundo.

Agora, em meados de novembro, aconteceu a 15ª Parada do Orgulho Gay, no Rio. Cerca de 250 mil pessoas desfilaram em Copacabana. O tema do evento era a luta contra a perseguição e violência contra os homossexuais.

No mesmo dia e local da Parada, um dos participantes do evento levou um tiro na barriga. Ele está fora de perigo e alega ter sido agredido por um militar. Em São Paulo, nenhum evento gay acontecia na Avenida Paulista. Quatro adolescentes de classe média agrediram jovens homossexuais.

Segundo o Grupo Gay da Bahia, 198 gays são assassinados no Brasil, por ano. À frente do México com 35 casos e dos Estados Unidos, com 25. A média é um homossexual é assassinado a cada dois dias, vítima da homofobia. O que nos dá o primeiro lugar nesse tipo de violência.

Tem algo de muito errado nisso tudo. O melhor lugar para exercer a liberdade sexual não pode ficar no país que é campeão mundial de homicídios contra gays. Pergunta ingênua: será que tem a ver com a indústria do turismo?

Leia também A Bíblia, o aborto, a homossexualidade

15 de outubro de 2010

Marx apaixonado

“Amadinha do meu coração”. É assim que Marx começa uma carta a sua mulher, Jenny, em junho de 1856. Algo surpreendente para quem o vê como alguém incapaz de tais delicadezas. Vejamos outro trecho:
Basta que estejas longe e meu amor por ti aparece tal como ele é: como um gigante, no qual se acham reunidas toda energia do meu espírito e toda a vitalidade do meu coração. Sinto-me outra vez um homem, na medida em que me sinto vivendo uma grande paixão. A complexidade na qual somos envolvidos pelos estudos e pela educação modernos, bem como o ceticismo com que necessariamente relativizamos todas as impressões subjetivas e objetivas, tudo isso nos leva, muito eficazmente, a nos sentir pequenos, fracos, indecisos e titubeantes. Porém, o amor – não o amor feurbachiano pelo ser, não o amor moleschottiano pela transformação da matéria, não o amor pelo proletariado, mas o amor pela amada (no caso, o amor por ti) – torna a fazer do homem um homem.
Nada disso o desculpa de ter engravidado Helene Demuth, criada da família. O filho foi assumido por Engels, companheiro de todas as horas, para o bem e para mal.

De qualquer maneira, o que a carta revela é o que Marx imaginava serem as relações afetivas em uma sociedade justa. Aquela em que o amor tornasse cada um mais humano. Sem os obstáculos econômicos, as imposições sociais, os preconceitos. Inclusive, o machismo a que Marx fazia concessões em sua vida pessoal.

Um debate bem atual. Em pleno 2º turno eleitoral, as candidaturas abordam relações amorosas da maneira mais conservadora. Principalmente, as relações homoafetivas.

28 de junho de 2010

A Bíblia, o aborto, a homossexualidade

A revista Época desta semana traz uma entrevista com o Pastor Sóstenes Apolos da Silva, líder religioso da candidata do PV, Marina Silva. Quanto ao direito ao aborto, o pastor disse que o estatuto do PV libera seus membros para votar segundo sua consciência.

Ora, é exatamente disso que se trata. Legalizar o aborto significa deixar às consciências dos envolvidos (principalmente, as mulheres) a opção por fazê-lo ou não. Com a vantagem de que para as mais pobres, a interrupção da gravidez poderia ser feita de modo mais digno e seguro.

O pastor também afirma que a Bíblia considera a homossexualidade uma “prática abominável”. E cobra coerência: “Ou cremos na Bíblia ou não cremos.”

A resposta do pastor lembra uma mensagem que ficou famosa na internete há alguns anos. O ouvinte de um programa religioso de rádio questiona a citação dos “textos sagrados” para condenar a homossexualidade. Segundo Levíticos 25:44, diz o ouvinte, a posse de escravos é possível desde que sejam comprados de nações vizinhas. Êxodo 21:7 autoriza a venda de filhas como escravas. Ainda segundo Êxodo 35:2, aqueles que trabalham aos sábados estão sujeitos à pena de morte.

Assim, ao pastor deveria ser lembrado que a Bíblia não deve ser utilizada como um manual de conduta. Ainda menos, para quem não crê na santidade de seus preceitos. Vários de nós têm todo o direito de dizer “não cremos nela”. Mas muitos outros têm o mesmo direito de afirmar “não cremos nela do mesmo modo”.