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6 de agosto de 2024

Olimpíadas anticapitalistas

Nas Olimpíadas de Paris, estão competindo cerca de 10.700 atletas, vindos de 206 países. Mas houve uma olimpíada em que os competidores chegaram 100 mil e não representavam nenhum país específico.

Estamos falando da olimpíada que aconteceu na Áustria em 1931 e foi organizada por dezenas de entidades de trabalhadores socialistas. As únicas bandeiras hasteadas eram vermelhas, simbolizando a verdadeira pátria dos socialistas: a classe trabalhadora. O grande número de atletas se devia ao fato de que participavam aqueles que se sentiam aptos a competir e não apenas os “melhores”.

Esses jogos passaram a acontecer em 1925, em vários países da Europa. Mas vinham sendo organizados desde 1920, quando representantes de organizações esportivas proletárias da Alemanha, Inglaterra, Bélgica, França e Áustria se reuniram para formar uma associação internacional, a Sportintern.

Em 1936, mais uma edição dos jogos proletários ocorreria em Barcelona. Mas o golpe fascista inviabilizou o evento. Muitos dos participantes que já haviam chegado, porém, permaneceram na Espanha para combater os fascistas. Em seguida à derrota das forças socialistas, começou a Segunda Guerra e as Olimpíadas Populares não voltaram mais a se realizar.

Este relato está contado em detalhes no artigo Quando as Olimpíadas eram anticapitalistas, de Gabriela Leite, recentemente publicado no portal Outras Palavras. Uma história bonita e que pode inspirar novas iniciativas semelhantes.

Leia também: Pílulas antigas sobre os jogos olímpicos

1 de agosto de 2018

Cristiano Ronaldo e a luta de classes na Itália

No início de julho, trabalhadores de uma fábrica da Fiat ameaçaram parar por dois dias devido à contratação de Cristiano Ronaldo pela Juventus, de Turim.

O time é controlado pela empresa e os trabalhadores que ameaçavam entrar em greve pertencem à unidade de Melfi, no sul da Itália. São cerca de 7 mil operários diretos e 3 mil indiretos.

O movimento considera inaceitável que a empresa venha pedindo enormes sacrifícios a seus trabalhadores, enquanto gasta centenas de milhões de euros para contratar um único jogador de futebol.

Claro que os trabalhadores têm toda razão. Mas descontando possíveis manobras para lavagem de dinheiro, o elevado montante envolvido na operação não se deve a uma suposta maluquice dos donos da Fiat.

Há décadas, supersalários são pagos a atletas, cantores, atores etc. Se ganham muito acima da média mundial, o fato é que sua atuação alavanca valores muito maiores.

Calcula-se que somente o futebol europeu movimente 35 bilhões de euros anuais. A contratação do jogador português representa uma pequena fração desse total: cerca de R$ 450 milhões.

Em “Teorias sobre a mais-valia”, Marx usa como exemplo o trabalho de uma cantora. Ao se apresentar em um cabaré, o talento dela está sendo explorado pelo proprietário do lugar.

Ou seja, não é preciso ser operário para gerar valor para o capital. Desse ponto de vista, a atividade de Cristiano seria tão produtiva quanto a dos trabalhadores mobilizados.

Do ponto vista da luta de classes, porém, o episódio denuncia não só a enorme concentração de riqueza e patrimônio, como mostra que radicalizações podem surgir até onde menos se espera.

29 de junho de 2018

O futebol é cheio de planícies imensas

No romance “O drible”, Sérgio Rodrigues “recupera episódios sombrios da história recente do país e faz uma celebração do futebol raras vezes empreendida na literatura brasileira”, diz a apresentação da Companhia das Letras, editora da obra. E é verdade.

Em um trecho, por exemplo, o personagem Murilo Filho faz considerações muito bonitas, ao observar que no futebol:

...não é como no basquete, no vôlei, esses esportes em que a equipe mais talentosa e mais bem preparada faz valer sua superioridade noventa e nove por cento das vezes. O futebol é cheio de planícies imensas, horas mortas como a que nós acabamos de ver. Um bololô de ruído, intenções que não se concretizam, acidentes, lances de sorte e azar. Nas horas mortas pode acontecer tudo. Tudo mesmo, não é força de expressão. E quando acontece é de repente, um raio que cai e muda a paisagem por completo. É isso, Tiziu, que torna tão chato o videoteipe de um jogo que nós já sabemos como terminou. O futebol só pode ser revivido em melhores momentos, editado, enxugado, porque é a expectativa de ver qualquer momento se revelar um desses melhores momentos que leva a gente a transpor seus desertos imensos. Se nós já sabemos quais serão eles, e quando, a seca nos mata de sede. Pense naquele puto do Heráclito. Não se entra duas vezes no rio de uma partida, do mesmo jeito que ninguém vive duas vezes, sabe por quê? Porque sem a interrogação do futuro o futebol e a vida são de uma pobreza de bocha.

E Heráclito, todos sabemos, batia um bolão!

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15 de junho de 2018

No meio do caminho tinha uma bola

Pérolas de Carlos Drummond de Andrade retiradas do livro “Quando é dia de futebol”, que reúne várias de suas crônicas e poemas sobre o ludopédio nacional:

O campeão não é campeão vinte e quatro horas por dia; chega uma hora de calçar os chinelos, e bocejar; um tempo de ver as flores; tempo de não sofrer mais do que o estritamente necessário, e desconfiar das glórias incômodas. De resto, não somos sessenta milhões de campeões, o que inflacionaria a espécie; eles são apenas onze e seus reservas. Penso nas coronárias e sugiro (diante do espelho): Calma, torcedor.

Desabafou comigo, diante do chope amargo: – Se fosse só a Hungria contra nós, eu ainda aguentava. Se fosse a Hungria mais o juiz, que anulou dois gols da gente, ainda aguentava. Mas a Hungria, o juiz e os nossos locutores, tudo junto, espera lá, não há tatu que aguente!

Não há nada mais triste do que o papel picado, no asfalto, depois de um jogo perdido. São esperanças picadas.

Eu sei que futebol é assim mesmo, um dia a gente ganha, outro dia a gente perde, mas por que é que, quando a gente ganha, ninguém se lembra de que futebol é assim mesmo?

E já estou pensando em um futebol lento, mais do que lento, imóvel, em que os jogadores de ambos os times se sentem no chão para assistir à lenta germinação de uma folhinha de grama: o verde da vida.

Futebol se joga no estádio?
Futebol se joga na praia,
futebol se joga na rua,
futebol se joga na alma...

E também é poesia, poeta, poesia!

14 de junho de 2018

O futebol na confusa terra dos irmãos do vento

O livro “O goleiro e outros textos sobre futebol” reúne nomes como Otto Lara Resende, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, José Miguel Wisnik e Tostão.

O trecho que segue abaixo é de Paulo Mendes Campos. “História do Brasil” é uma crônica publicada na Revista “Manchete”, em 06/08/1966.

No texto, o cronista cita a derrota da seleção brasileira pelo Uruguai, em 1950, sua eliminação pela Hungria, em 1954 e o bicampeonato conquistado em 1962. Portugal eliminaria o Brasil na Copa de 1966.

E o Senhor disse:

Agora criarei o mais estranho de todos os países. E ele será verde-amarelo e atenderá no concerto das nações pelo nome de Brasil.

E o tórrido Brasil amará o futebol acima de pai e de mãe. Então criarei a Copa do Mundo. E um dia o Brasil perderá esse galardão na última batalha, dentro de seus próprios muros, quando lhe bastaria o empate. Quatro anos depois caberá aos comunistas eliminar os brasileiros, para que se aumente a confusão. E para que se aumente a confusão, criarei uma comissão técnica que não entenda nada de futebol. E esta será bicampeã do mundo. E o tórrido Brasil, chorando de alegria, beberá muita cachaça, e comerá muito pastel, e tocará muita cuíca. Aí, eis que farei o Brasil perder o Tri, e a Taça, e a Alegria para Portugal. Pois assim está escrito. Para que o brasileiro continue na sua confusão, irmão do vento, que ninguém entende.

O Tri, o Tetra e o Penta finalmente vieram. Mas nada disso parece ter nos tirado, irmãs e irmãos de vento, de nossa invicta confusão.

25 de maio de 2018

Homero narrando futebol seria uma tragédia

Em 17/06/1954, Carlos Drummond de Andrade iniciava sua crônica no Correio da Manhã assim:

Quando Bauer, o de pés ligeiros, se apoderou da cobiçada esfera, logo o suspeitoso Naranjo lhe partiu ao encalço, mas já Brandãozinho, semelhante à chama, lhe cortou a avançada. A tarde de olhos radiosos se fez mais clara para contemplar aquele combate, enquanto os agudos gritos e imprecações em redor animavam os contendores. A uma investida de Cárdenas, o de fera catadura, o couro inquieto quase se foi depositar no arco de Castilho, que com torva face o repeliu. Eis que Djalma, de aladas plantas, rompe entre os adversários atônitos, e conduz sua presa até o solerte Julinho, que a transfere ao valoroso Didi, e este por sua vez a comunica ao belicoso Pinga. A essa altura, já o cansaço e o suor chegam aos joelhos dos combatentes, mas o Atrida enfurecido, como o leão que, fiado na sua força, colhe no rebanho a melhor ovelha, rompendo-lhe a cerviz e despedaçando-a com fortes dentes, para em seguida sorver-lhe o sangue e as entranhas — investe contra o desprevenido Naranjo e atira-o sobre a verdejante relva calcada por tantos pés celestes. Os velozes Torres, Lamadrid e Arellano quedam paralisados, tanto o pálido temor os domina; e é quando o divino Baltasar, a quem Zeus infundiu sua energia e destreza, arremete com a submissa pelota e vai plantá-la, como pomba mansa, entre os pés do siderado Carbajal…

Assim gostaria eu de ouvir a descrição do jogo entre brasileiros e mexicanos, e a de todos os jogos: à maneira de Homero...

Felizmente, ninguém atendeu-lhe o pedido.

13 de setembro de 2016

Paraolimpíadas e esperanças mutiladas

Em 11/09, o atleta argelino Abdellatif Baka venceu os 1.500 metros em prova para deficientes visuais, sem guia. Aconteceu nas Paraolimpíadas 2016, mas a marca também lhe daria o ouro nas Olimpíadas.

Já o alemão Markus Rehm é campeão no salto em distância. Usando prótese em uma das pernas, ele quebrou o recorde mundial chegando aos 8,40 metros. A marca ultrapassa em 2 cm a do vencedor das Olimpíadas 2016.

Essas façanhas permitiriam esperar para breve a participação de paratletas nas Olimpíadas. Mas somente no primeiro caso, que não envolve próteses. Sobre estas últimas pesam suspeitas de que favoreçam artificialmente seu portador. Principalmente, as eficientes lâminas de fibra de carbono que substituem pernas amputadas.

Por enquanto, a Federação Internacional de Atletismo resolveu a polêmica decidindo que cabe ao paratleta provar a igualdade de condições para concorrer a uma vaga olímpica. No caso de Rehm, avaliações feitas por pesquisadores na Alemanha, Japão e Estados Unidos indicaram que a prótese ajuda no salto, mas atrapalha na corrida.

Ainda assim, o debate está longe de acabar.

De qualquer maneira, não seria difícil que, em breve, a tecnologia das próteses leve o desempenho paratlético a níveis inimagináveis. Neste caso, grandes empresas do ramo podem transformar a paraolimpíada em vitrine para a promoção de tecnologia biônica.

Também é possível que algumas pessoas recorram a amputações voluntárias para garantir patrocínios esportivos graúdos ou acrescentar a suas vantagens econômicas superpoderes físicos. Não se pode descartar, ainda, que essa tecnologia seja usada para formar exércitos biônicos.

Enfim, seria mais uma possibilidade de alívio para dramas humanos mutilada pela lógica do lucro e do poder.

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6 de junho de 2016

O ferrão da borboleta na luta contra o racismo

"Flutuar como uma borboleta. Picar como uma abelha". Era assim que Muhammad Ali definia sua vitoriosa forma de lutar boxe.

Nascido Cassius Clay em 1942, trocou de nome para afirmar sua fé no islamismo e abandonar o nome de escravo, tal como fez seu amigo e ídolo, Malcolm Littel, ou Malcolm X.

Ao recusar o alistamento para a Guerra do Vietnã, Ali afirmou:

...o real inimigo do meu povo está aqui. Eu não vou desonrar minha religião, meu povo ou a mim mesmo ao me tornar uma ferramenta para escravizar aqueles que estão lutando por sua própria justiça, liberdade, igualdade (...). Eles dizem que vou para a cadeia. E daí? Nós estamos na cadeia por 400 anos.

Como punição, teve seu título de campeão mundial cassado e ficou impedido de lutar por três anos.

Quando foi impedido de comer em uma lanchonete por causa da cor de sua pele, Ali atirou no Rio Ohio a medalha de ouro conquistada nas Olimpíadas de Roma, em 1960.

Em 1974, recuperou o título enfrentando George Foreman, em lendária luta no Zaire. Ali era uma celebridade mundial, mas misturou-se ao povo local, percorrendo principalmente seus bairros pobres. Enquanto isso, Foreman, negro como ele, mantinha distância.

Durante o combate, o povo gritava “Ali, boma ye” (“Ali, mata ele!”). Mas o alvo principal não era Foreman. Era a ditadura que dominava o país e o racismo armado e sustentado pelo imperialismo estadunidense, ferozmente combatido por Ali.

O grande peso-pesado levantou voo de vez. Mas antes ensinou a borboleta a picar como a abelha enquanto voa rumo à justiça e à liberdade.

Leia também: Sobre homens e meninos negros

28 de janeiro de 2016

Olimpíadas da exclusão: menos ônibus para os pobres

Mantelli
Em 2012, um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada concluiu que, desde 2006, os gastos com transporte público subiram mais de 30% para famílias com renda até meio salário mínimo por pessoa. Mas entre as famílias com renda acima de oito salários mínimos, houve uma queda superior a 15%.

Estes números ajudam a entender o que detonou as manifestações de junho de 2013 e por que a luta contra o aumento de passagens e por tarifa zero são tão radicais. É uma espécie de luta de classes pelo direito à cidade. Mas não se trata apenas do preço do transporte. O acesso a ele também está em disputa.

No Rio de Janeiro, por exemplo, desde outubro, a prefeitura cortou 11 linhas de ônibus entre a Zona Oeste e o Centro da cidade. Oito linhas entre a Zona Norte e do Centro da cidade à Zona Sul foram eliminadas. Outras oito linhas foram encurtadas. A redução prevista da frota é de 35% até março de 2016.

O que a prefeitura chama de racionalização parece ter o objetivo de construir uma cidade com dignidade para poucos. Na verdade, as medidas procuram dificultar e encarecer o acesso da população pobre às áreas consideradas nobres, como as praias da Zona Sul, ou que vêm se tornando refúgios de luxo da cidade, caso da Barra da Tijuca.

O maior pretexto para a implementação de medidas como essas é a realização dos Jogos Olímpicos. Não à toa, chamados de Jogos da Exclusão pelos movimentos sociais.


15 de janeiro de 2016

Os buracos do golfe olímpico e outros tantos


Mantelli
Todos sabem que o golfe é um esporte das multidões. Exceto, as próprias multidões.

O que nem tanta gente sabe é que a competição estava fora das Olimpíadas há 112 anos. Assim, a volta da modalidade aos jogos brasileiros fará justiça a seus 50 e poucos praticantes e duas dúzias de torcedores no país.

As autoridades políticas e esportivas brasileiras alegam que a reaparição do golfe foi decidida após a escolha do Rio de Janeiro como sede olímpica. Daí a necessidade de apressadas providências para a construção das instalações adequadas para sua disputa.

O problema é entender por que já havendo dois grandes campos de golfe na capital carioca, decidiu-se pela construção de um terceiro. Principalmente, quando os dois já existentes vêm sendo utilizados para competições internacionais sem maiores dificuldades.

Pesa como agravante o fato de que o novo campo situa-se em uma zona de conservação, dentro da Área de Proteção Ambiental de Marapendi. Tudo isso na Barra da Tijuca, bairro escolhido pela grande capital para ser um santuário composto por enormes edifícios luxuosos, cercados de engarrafamentos de automóveis por todos os lados.

Talvez, as coisas comecem a se esclarecer se lembrarmos que a área a ser utilizada equivale a 100 campos de futebol e, após os Jogos, será destinada a condomínios de luxo, construídos por uma grande imobiliária, com entrega prevista para 2018. Tudo isso, claro, sem os obrigatórios estudos de impacto ambiental.

Mas este é apenas um dos problemas relacionados a um megaevento, cujos rombos são tão numerosos quanto os buracos jogados em uma partida de golfe.

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Rio: cidade olímpica, cidade para poucos

9 de dezembro de 2015

Rio: cidade olímpica, cidade para poucos

O Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas do Rio de Janeiro acaba de lançar o Dossiê Megaeventos e Direitos Humanos no Rio de Janeiro. Trata-se de um levantamento detalhado das violações dos direitos humanos causadas pelos megaeventos, desde a Copa do Mundo de 2014.

O foco agora são as Olimpíadas 2016, envolvendo moradia, transportes, trabalho, esporte e segurança pública, entre outras questões.

O irônico é que uma das primeiras vítimas dos Jogos foi o próprio esporte. O estádio de atletismo Célio de Barros, pertencente ao complexo do Maracanã, por exemplo, foi fechado em 2013.

Desde então, as cerca de 800 pessoas que frequentavam suas instalações diariamente estão sem onde treinar e competir. A grande maioria formada por atletas sem dinheiro para acessar clubes e academias.

Mais de 22 mil famílias já foram removidas de maneira autoritária e injusta. Deslocadas para abrir espaço a projetos imobiliários de alto luxo ou centros comerciais e empresariais.

Segundo o documento, o orçamento da Olimpíada alcançaria RS 38,7 bilhões de reais. Mais de R$ 10 bilhões acima do orçamento da Copa do Mundo, que construiu 12 arenas superfaturadas e voltadas para a elite.

O dossiê também mostra que o poder público entra com a maior parte desses recursos. De fato, como aconteceu em outras sedes olímpicas, os Jogos são um pretexto para privatizar os espaços públicos e expulsar os mais pobres de áreas posteriormente entregues à especulação imobiliária.

Talvez inspirados no Olimpo dos deuses gregos, os três níveis de governo tentam tornar a cidade do Rio de Janeiro um lugar confortável apenas para alguns poucos poderosos.

Baixe o dossiê aqui.

Leia também: Olimpíadas e nazismo marchando juntos

3 de junho de 2015

Entre a sujeira da Fifa e um juiz muito suspeito

O recente escândalo envolvendo a Fifa e Joseph Blatter tem origem na enorme mercantilização do futebol, com a inevitável corrupção de seus gestores. Mas todo este processo deve muito ao brasileiro João Havelange, presidente da Fifa por 24 anos antes de fazer Blatter seu sucessor.

Em uma passagem de
seu livro “Futebol ao sol e à sombra”, Eduardo Galeano cita
Havelange falando a um grupo de “homens de negócios”, em 1994: “Posso afirmar que o movimento financeiro do futebol chega, anualmente, à soma de 225 bilhões de dólares”. Na ocasião, Havelange comparou a soma aos 136 bilhões lucrados pela General Motors para dizer que o “futebol é um produto comercial que se deve vender o mais sabiamente possível”.

Desde então, a “sabedoria” inventada por Havelange e cultivada por Blatter tem se mostrado cada vez mais rentável. A comparação com a General Motors é que não faz muito sentido. A Fifa só fatura o que fatura e permite as roubalheiras que permite porque encontra generosos patrocinadores. Principalmente, entre grandes empresas como a GM, incluindo os bancos e a grande mídia, ainda que os governos façam sua parte.

Havelange chegou aonde chegou graças às articulações políticas da ditadura militar brasileira junto aos outros governos, ditadores ou não. Ele e Blatter permaneceram onde estavam graças aos governos seguintes e ao apoio econômico do grande capital.

Por isso mesmo, tudo indica que se repetirá a velha marmelada: alguns corrompidos punidos, todos ou quase todos os corruptores poupados. Tudo isso sujeito ao apito do mais sujo dos juízes: o aparato de segurança do imperialismo estadunidense.

Leia também: Saúde e educação a cargo de mafiosos

30 de novembro de 2014

A concentração no futebol e fora dele

     Buchenwald
O Atlético Mineiro sagrou-se campeão da Copa do Brasil. A imprensa esportiva debate se a abolição da concentração para os jogadores não teria colaborado para a conquista. Afinal, desde que liberou seus jogadores, o Galo obteve 16 vitórias, sendo três goleadas sobre Flamengo e Corinthians.

Acaba de ser lançado o belo documentário "Democracia em Preto e Branco", de Pedro Asberg. A produção lembra que uma das principais conquistas da Democracia Corintiana foi exatamente o fim da concentração.

No filme, Sócrates defende a medida de forma pragmática. Preso na concentração, o jogador teria como meta principal não a realização da partida, mas a reconquista de sua liberdade. Sem a restrição, o objetivo passaria a ser o próprio jogo.

Porém, alguns comentaristas e dirigentes ainda hoje discordam. Liberados, dizem, os jogadores podem abusar da comida e da bebida, por exemplo. Ou se dedicar a atividades pouco saudáveis. Também podem se atrasar para treinos de vésperas de jogo. São justificativas nada pragmáticas. Mal escondem seu racismo e preconceito de classe.

O futebol movimenta milhões de reais, mas todo este lucro não é controlado por seus jogadores. Estes são formados por uma maioria negra de origem pobre. Para seus patrões, não passam de pessoas indisciplinadas. Fora de campo, seriam pouco inteligentes, andariam em más companhias e cultivariam vícios nada sofisticados.

Por sua origem social e cor da pele, jogadores de futebol não passariam de animais de puro sangue. Apenas músculos e uma inteligência para uso exclusivo nos gramados. Mas nada disso permite afirmar que a restrição a sua liberdade recebeu um nome inspirado pelos campos nazistas de trabalho forçado, certo?

Leia também:
A democracia corintiana e a nobreza dos meios
O Corinthians e o futebol têm pouco a comemorar

4 de setembro de 2014

O caso Grêmio: nosso racismo exige discrição

    Latuff
De forma inédita, o Grêmio foi eliminado da Copa do Brasil pelos atos racistas de alguns de seus torcedores. Mas nem deu tempo de comemorar a decisão do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD). Logo surgiram evidências de que o mesmo crime foi cometido por um dos membros do próprio tribunal.

Trata-se de Ricardo Graiche, que teria postado fotos racistas nas redes virtuais, em 2012. Uma delas mostra um bebê negro enrolado em um rótulo de Pepsi. Uma estupidez das mais repugnantes.

Mas o episódio pode ajudar a explicar a decisão do STJD. Apesar de justa, ela pode ser interpretada como uma forma de isolar o caso. A pressa e o rigor do tribunal, talvez, tenham menos a ver com o combate ao racismo que seu ocultamento. Prontamente condenadas, as atitudes seriam apenas manchas em nossa “democracia racial”.

Essa ideologia racial branca afirma que os negros sofrem constrangimentos por sua condição social e não devido à cor de sua pele. Assim, um negro rico sofreria menos discriminação que um pobre. A ascensão social seria suficiente para lhe garantir tratamento respeitoso.

Ou seja, o discurso dominante prefere admitir a existência de injustiças sociais que as de caráter racial. Afinal, temos uma das maiores populações negras do planeta. Seria perigoso uni-la em torno de algo que a ofende em seu conjunto. Melhor que seja convencida de que as condições sociais muito piores em que vive são resultado de situações individuais.

Essa lógica explicaria por que um juiz condena o racismo berrado nos estádios, enquanto discretamente alimenta o seu. Silencioso e letal como um bicho peçonhento.

16 de julho de 2014

Sobre a vitória alemã, a vergonha e as suspeitas

Circula nas redes virtuais e está nos jornais. Os jogadores da seleção alemã teriam estragado a imagem de simpatia que conquistaram em terras brasileiras. Na comemoração do título mundial em Berlim executaram danças supostamente ofensivas a brasileiros e argentinos.

Mas há quem diga que as tais coreografias fazem parte da tradição local. Seriam praticadas entre os próprios times alemães como manifestação de mera rivalidade esportiva. É possível, mas os efeitos negativos da exibição podem ter sido amplificados pela desconfiança em relação às atitudes amáveis dos alemães durante a Copa. Aumentam os sinais de que grande parte delas seja produto de uma estratégia friamente montada para conquistar a torcida brasileira.

Tudo isso contrasta com um marcante momento do futebol mundial. Trata-se do jogo final da Copa de 50, no Brasil, famoso pela derrota sofrida por nossa seleção diante do Uruguai. Um dos responsáveis pela tragédia brasileira foi o capitão do time uruguaio, Obdulio Varela.

Eduardo Galeano, em seu livro “Futebol ao sol e à sombra”, tem um capítulo sobre Varela. Segundo o autor, o jogador uruguaio se recusou a dar declarações arrogantes sobre a conquista de seu time. A vitória teria sido apenas uma “casualidade”, declarou o capitão aos jornalistas.

Logo depois do jogo, Obdulio saiu a caminhar pela cidade carioca. Encontrou um comovente clima de luto. Circulou pelos bares quase insuspeito. Bebeu em mesas e balcões junto a chorosos brasileiros. Sentiu-se constrangido e envergonhado.

Eram tempos em que o futebol não fazia parte de um circuito bilionário de circulação de mercadorias. Hoje, a vergonha mal atinge os derrotados. As suspeitas cercam as vitórias quase sempre.

11 de julho de 2014

Por que a seleção alemã visitou Auschwitz

A atual seleção alemã vem sendo preparada há seis anos. Em junho de 2012, membros desse mesmo time visitaram os campos de concentração e extermínio de Auschwitz-Birkenau, na Polônia.

Os alemães estavam às vésperas de disputar a Eurocopa, que aconteceria na Ucrânia e na Polônia. Nesses dois países, milhões foram massacrados pelas tropas alemãs durante a 2ª Guerra. O diretor-técnico da seleção Oliver Bierhoff explicou a iniciativa: “Com essa visita a Auschwitz quisemos fazer um gesto. É um capítulo escuro da história alemã que não pode se repetir”.

Isso não quer dizer que a Alemanha mereça vencer a Copa ou nossa torcida. Apenas poderia sugerir que o futebol é mais do que festa, diversão, otimismo e, principalmente, enxurrada publicitária. Não precisa se restringir apenas a planos táticos, escalações, “cotidiano dos craques” e participação em programas de variedades cada vez mais estúpidos.

Um pouco de inteligência e posicionamentos sobre as coisas do mundo seria fundamental. Principalmente, em momentos tristes como o que estamos passando. Como alguns andam dizendo, vergonhoso mesmo foi a escravidão. Que tal uma visita da seleção brasileira a alguma comunidade quilombola? Vexaminosas mesmo foram as mortes nas obras para a Copa. Nenhuma palavra sobre elas por parte de jogadores e comissão técnica.

O futebol é importante demais para que fique restrito ao campo. No domingo, que a Argentina vença. Mas saudemos os “hermanos” germânicos. Foram dignas e leais suas declarações sobre o massacre que nos impuseram. Eles parecem saber que há coisas mais importantes que vitórias e derrotas esportivas. Por mais gloriosas ou vergonhosas que venham a ser.

1 de julho de 2014

O futebol em meio a duas geopolíticas

A pílula sobre a geopolítica do futebol rendeu comentários pertinentes. Alguns notavam que a divisão entre potências grandes, médias e emergentes do futebol não considera a enorme internacionalização de seus jogadores.

O caso brasileiro é exemplar. Apenas quatro dos 23 convocados jogam aqui. O restante está espalhado por Inglaterra, Espanha, Itália, Alemanha, França, Canadá e Rússia.

Uma das implicações dessa situação é o racismo e a xenofobia que atingem esses jogadores. Mas as seleções europeias sofreriam sem os filhos de seus imigrantes. É o caso do atacante Benzema, considerado francês quando marca gols e árabe quando os perde.

Outra dimensão importante é a econômica. Os dados são de Armando Sartori em reportagem publicada no Retrato do Brasil, em 27/06: os 23 jogadores que compõem nossa seleção valem cerca de 714 milhões de dólares. Montante equivalente a 9% dos 7,9 bilhões de dólares estimados para todas outras 32 seleções que participam do torneio.

Parece muito dinheiro, mas não é. Só a Fifa pode faturar 5 bilhões de dólares com a Copa deste ano. Fortuna garantida pelo trabalho dos jogadores em campo.

Nesse mercado, diz Sartori, o Brasil “é exportador, enquanto os times de países da Europa Ocidental, principalmente, e também os da Europa Oriental, do Leste Asiático e até alguns do Oriente Médio são importadores”.

Portanto, a geopolítica do mercado de jogadores seria mais fiel àquela vigente na economia em geral. A grande diferença é que não se trata de commodities. São talentos de que somos privados.

Ou seja, as contradições entre as duas geopolíticas não impedem que ambas sirvam à acumulação e concentração de capital. 

27 de junho de 2014

A geopolítica invertida do futebol

Em “Veneno Remédio: O Futebol e o Brasil”, José Miguel Wisnik discute uma curiosa inversão entre o mundo do futebol e as relações de poder no mundo. Citando Pierre Brochand, ele nota que:

... o mapa geopolítico do futebol inverte em boa parte a ordem das potências econômicas: Estados Unidos e Ásia são “minipotências” periféricas, Europa e América do Sul são “as superpotências consagradas”, e a África, graças ao futebol e só nele, uma potência emergente inserida simbolicamente “no jogo mundial do poder e da influência”.

A Copa em andamento parece dar razão a esta observação. Caíram Inglaterra, Espanha, Itália, Portugal. Ficaram times como Colômbia, Costa Rica, Nigéria e Argélia. As antigas colônias desbancando ex-metrópoles.

Por outro lado, surpreendeu a classificação dos Estados Unidos. Afinal, em território estadunidense o futebol está longe de fazer sucesso. Um dos motivos para essa antipatia em relação ao esporte seria a anemia de seus números. Em 90 minutos de jogo, são, no máximo, cinco ou seis gols. Muito diferente da enxurrada de pontos dos esportes americanos favoritos.

Então, o que explicaria a evolução do desempenho ianque, além da ação do acaso, que é exatamente um daqueles atrativos do futebol que o público estadunidense não compreende? Difícil saber, mas será que a presença de sobrenomes como González, Rimando e Bedoya na seleção americana não ajudariam a explicar?

A classificação americana bem que poderia ser uma pequena vitória contra o racismo ianque. Se for isso, aplausos para a façanha. Mas, dentro do campo, pode parar por aí. Que a maior potência mundial recolha-se a sua merecida insignificância futebolística.

18 de junho de 2014

A prosa e a poesia do futebol, segundo Pasolini

Logo após o tricampeonato brasileiro no México, Pier Paolo Pasolini escreveu um inspirado artigo sobre futebol. O cineasta italiano começa dizendo que o “futebol que exprime mais gols é o mais poético”. Portanto, o gol é um elemento poético por excelência. “O drible é também essencialmente poético (embora nem sempre, como a ação do gol)”, diz ele.

“A retranca e a triangulação é futebol de prosa”, diz Pasolini. “Baseia-se na sintaxe, isto é, no jogo coletivo e organizado, na execução racional do código”. “Em suma, o momento poético do futebol parece ser (como sempre) o momento individualista (drible e gol; ou passe inspirado).”

Mas, de vez em quando essa prosa é interrompida e surgem, de repente, “dois versos fulgurantes”. O bastante para cometer um gol. Este pode vir acompanhado do “passe inspirado” ou não, mas é sempre poético. Daí, a inevitável conclusão:
Quem são os melhores dribladores do mundo e os melhores fazedores de gols? Os brasileiros. Portanto o futebol deles é um futebol de poesia - e, de fato, está todo centrado no drible e no gol.
Pasolini afirma que não pretende fazer distinção de valor. No caso da final mexicana entre Brasil e Itália, a poesia venceu a prosa. Mas isso não provaria a necessária superioridade do jogo poético. Até porque a própria prosa não pode dispensar a poesia dos gols.

Tudo isso para fazer pensar no que disse Tostão em sua coluna de hoje nos jornais. O alto nível da Copa do Mundo deve-se à presença de jogadores do melhor futebol no mundo. Aquele jogado na Europa.


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17 de junho de 2014

Jogando em busca do empate

O antropólogo Claude Lévi-Strauss publicou o livro “O Pensamento selvagem” em 1962. Nele o pesquisador francês estudou povos não europeus, contestando o racismo e a ideia de que há povos “primitivos”. Comparando estudos realizados em várias partes do mundo, Lévi-Strauss mostrou que o mito e o rito são elementos do que ele chamou de pensamento mítico. Uma forma de apreensão da realidade que merece tanto respeito quanto a ciência entre nós, por exemplo.

Mas há um trecho em que Lévi-Strauss descreve como membros da tribo dos gahuku-gama, da Nova Guiné, aprenderam a jogar futebol. Segundo o autor, eles “jogam durante vários dias seguidos, tantas partidas quantas forem necessárias, para que se equilibrem exatamente as perdidas e ganhas por cada campo”. Ou seja, o objetivo era sempre o empate.

Não se trata de uma evidência sobre uma sociedade que se recusa a ser competitiva. O registro, aí, é outro. Segundo o antropólogo, tratava-se menos de um jogo que de um rito envolvendo a relação com mortos e vivos. As regras do jogo foram respeitadas apenas para que servissem aos propósitos míticos de seus praticantes. A exata explicação do fenômeno é complicada demais para ser transcrita aqui.

O que importa é pensar que mesmo algo tão universalizado possa ser apropriado de maneiras tão diferentes. Não apenas por interesses políticos, poder econômico e propósitos mafiosos. Um dia, talvez, sejamos capazes de fazer isso com muitas outras atividades. Aí, a humanidade poderia se ver como um imenso torneio cheio de equipes, cujos jogadores buscam vitórias, à espera das necessárias derrotas. Campeonatos cujos resultados permitam comemorações universais.