Doses maiores

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18 de maio de 2024

Jornalões também podem fazer mal à saúde

“Philip Morris e Folha de S. Paulo se unem para checagem de fatos”, diz a revista Meio & Mensagem, em 26/04/2024

É isso mesmo. A Folha e uma empresa tabagista se uniram para criar a agência “Checamos”, que pretende combater fake news compartilhadas nas redes virtuais.

Mas que bela parceria hein, Folha? O problema não é apenas se aliar a uma poderosa produtora de uma das substâncias que mais causam dependência química, doenças e mortes.

Como alertam vários estudos, em especial um da Fiocruz, durante décadas, os grandes fabricantes de cigarros fizeram uso das seguintes táticas para influenciar as pesquisas científicas e desvincular seus produtos das patologias que causam:

–  Criar dúvidas sobre evidências, negando publicamente a relação entre fumo e câncer e o alto poder da nicotina na geração de dependência química;

–  Desviar a questão da ligação causal entre fumo e câncer para uma série de outros temas, como doença hereditária ou cigarros saudáveis.

Além disso, recentemente a Organização Mundial da Saúde, lançou uma campanha para “proteger os jovens da indústria do tabaco e dos seus produtos mortais”. O nome da campanha? "Parem as Mentiras".

Eis um exemplo do que está na raiz da onda de fake news que invade a sociedade no mundo todo. A extrema direita apenas se aproveita com mais eficiência e descaramento daquilo que o grande capital sempre fez. Manipular e distorcer a verdade para aumentar seus lucros.

Talvez fosse bom estender aquele aviso impresso nos maços de cigarro aos produtos de quem se une à indústria mortal do tabagismo. Eles também podem fazer muito mal à saúde da comunicação pública.

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O combate ao terrorismo como pretexto

13 de novembro de 2023

A esquerda e sua fatal dependência das redes

“Sem nenhuma explicação, o YouTube excluiu nesta segunda-feira (30/10) o canal do Brasil de Fato RS e seu podcast De Fato”, diz uma nota do site do Brasil de Fato. “No final da tarde, a redação recebeu uma mensagem breve informando que a plataforma havia encontrado ‘violações graves ou repetidas de nossa política de spam, práticas enganosas e golpes. Por isso, removemos seu canal do YouTube’”, complementa a nota.

Felizmente, o canal já foi restabelecido. Mas que nos sirva de advertência. Há uns 10 anos, jamais imaginaríamos algo assim. Não havia a menor possibilidade de que qualquer um dos nossos veículos populares de esquerda viesse a integrar a grade de programação de uma Globo ou SBT.

Uma de nossas principais lutas sempre foi pela democratização dos meios de comunicação e o combate a seus monopólios. Só que eles continuam por aí, fazendo os estragos de sempre. E não apenas paramos de avançar nessa frente de combate, como nos deixamos enredar pelas redes virtuais controladas por monopólios ainda mais poderosos. Inicialmente, alimentamos a ilusão de que se tratava de um meio mais permeável a nossa militância. Mas fomos nós que nos tornamos ainda mais vulneráveis aos caprichos e desmandos desses gigantes da mídia cibernética.

Os grandes grupos tradicionais de comunicação ainda podem ter seus poderes questionados na condição de concessão pública. Youtube, Facebook, Google e assemelhados, nem isso. Foram se impondo ou comprando cumplicidade pelo alto e, com nossa ajuda, minando nossa resistência por baixo. Criaram um meio perfeito para o crescimento da extrema-direita e para nós, um ambiente muito tóxico, quase fatal.

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7 de novembro de 2023

Micro-lição de cinismo capitalista

A série é “A queda da Casa de Usher”, exibida pela Netflix. As palavras abaixo estão no terceiro episódio, ditas por Roderick Usher, personagem principal, ao se deparar com um famoso ditado:

Quando a vida te der limões, faça uma limonada? Não. Primeiro você torna escassa a oferta de limões, o que só acontece se você os estocar, controlar seu fornecimento e fazer uma campanha de mídia dizendo: limão é a única maneira de dizer “eu te amo”. É o acessório indispensável para noivados ou aniversários. Rosas estão por fora, limões estão na moda. Ela não fará sexo com você a menos que você tenha limões. Lance pulseiras de limões de ouro com edição limitada e diamantes chamados gotas de limão. Faça com que a Apple chame seu novo sistema operacional de OS-Lemon. Encha o Capitólio com lobistas de limão e faça com que uma Kardashian chupe uma rodela de limão em um vídeo de sexo que vazou. Um astro de cinema usando sapatos cor de limão em Cannes. Legal, irado, demais? Não. Limão. “Você viu aquele filme? Você viu aquele show? Foi muito limão!”. Aí, você obtém uma patente genética para a sequência de DNA do limão. Faz polinização cruzada. Faz com que essas sementes circulem na natureza, e então, processa o agricultor por violação de direitos de propriedade quando esse código genético aparecer nas terras dele. Sente-se, arrecade milhões e, quando terminar, e tiver vendido seu império cítrico por alguns bilhões de dólares, então, e só então, você fará a porra da limonada.

Verdade ácida proporcionada pelo entretenimento capitalista, cada vez mais cínico.

Leia também: O espelho escuro do capitalismo

25 de setembro de 2023

Colonização do futuro e distopias

Já se tornou comum dizer que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.

Em seu livro “Uma arqueologia da era contemporânea”, Alfredo Gonzalez-Ruibal alerta para o que chamou de “colonização do futuro” pela “modernidade tardia”, conceito que ele usa para caracterizar o capitalismo.

De fato, é o que se verifica ao observarmos a indústria cultural e suas inúmeras megaproduções audiovisuais sobre o pós-apocalipse. Aquelas em que o mundo tal como conhecemos aparece em um futuro não tão distante, quase totalmente destruído.

São cidades habitadas por poucos e tomadas por destroços. Ruas e estradas cheias de carcaças de veículos. Grandes prédios em ruínas, ocupados por sobreviventes que lutam entre si em selvagem competição. A diversidade biológica substituída por algumas raras espécies, tão resistentes quanto perigosas para a vida humana.

Na melhor das hipóteses, muitas dessas produções passam por ser uma advertência sobre as consequências dos desequilíbrios ambientais e da barbárie social causada pela distribuição cada vez mais injusta da renda e da riqueza.

Mas na medida em que só conseguem apresentar o futuro como uma versão piorada do presente, esses filmes e séries acabam por nos impor a catástrofe como inevitabilidade. Também nos distraem do apocalipse que já chegou para alguns setores da população, que a ele resistem heroicamente. É o caso dos povos indígenas e dos moradores de regiões empobrecidas das grandes cidades.

É a distopia nos impedindo de enxergar a existência de utopias concretas, representadas pela solidariedade surgida das lutas dos explorados e oprimidos.

Enquanto nossa imaginação se restringir aos elementos doentios e suicidas do capitalismo será assim.

Leia também: Capitalismo, arqueologia, mandantes e executores

21 de junho de 2023

O espelho escuro do capitalismo

A sexta temporada de “Black Mirror” chegou à Netflix com elevada audiência. O primeiro episódio faz uma ácida e bem humorada crítica ao poder das grandes corporações tecnológicas. Principalmente em relação a ameaças aos direitos do consumidor, violação de privacidade e uso ilegal de dados.  

O próprio serviço de streaming tornou-se alvo da trama. A vinheta da Netflix aparece claramente, ainda que o nome exibido seja outro. Ao mesmo tempo, fica demonstrado mais uma vez que até a crítica aos males do capitalismo contemporâneo foi capturada pelos aparelhos de hegemonia da classe dominante.

Segundo a definição de Gramsci, aparelhos privados de hegemonia são aqueles que são acessados pela sociedade voluntariamente. Ou seja, não se trata de órgãos públicos ou entidades estatais, aos quais a população recorre para buscar serviços ou cumprir obrigações legais. Sua função primordial é atrair a atenção popular para fazer a disputa da hegemonia em favor da ideologia dominante. Os monopólios de mídia são importantes e poderosos aparelhos desse tipo. Constroem um consenso de aceitação da vida tal como ela é, com todas as suas contradições, injustiças, sofrimentos, opressões e exploração.

O problema é que desde o final da União Soviética, o cenário ficou sem um vilão assustador o suficiente para ser responsabilizado pelas mazelas causadas pelo capitalismo. Na ausência de um malvado favorito, uma boa válvula de escape é fabricar um anticapitalismo alienado, tentando manter as massas apáticas e distantes de ações verdadeiramente contestatórias.

Precisamos parar de nos deixar hipnotizar por esses espelhos escuros e apavorantes. Do contrário, não conseguiremos nem evitar um fim com terror nem impedir um terror sem fim.

Leia também: A moda anticapitalista não é anticapitalista

29 de maio de 2023

As fake news e o jornalismo conservador

Como já vimos, apelar às verdades científicas para combater as fake news é insuficiente e contraditório. O mesmo vale para o jornalismo.

Por décadas, a esquerda denunciou e combateu os monopólios de comunicação, controlados pelo grande capital e a serviço das classes dominantes. É o que mostram, por exemplo, o apoio à ditadura militar, o boicote às Diretas-Já, o favorecimento a Collor e a campanha pelo impeachment de Dilma. São episódios que evidenciam a atuação desse verdadeiro partido informal na defesa da ordem conservadora.

Ocorre que, à medida que a esquerda ganhava espaço nos governos e parlamentos, deixava de lado o combate aos impérios midiáticos, ao mesmo tempo em que se afastava do cotidiano das camadas populares. Confundimos luta contra-hegemônica com disputa eleitoral.

Livres para atuar, lideranças conservadoras se aproveitaram dessas contradições para convencer vastos setores populares de que os veículos da grande mídia são utilizados pelos comunistas para atacar os “sagrados” valores patriarcais, cristãos, nacionalistas e hierárquicos.

De modo oportunista, a extrema-direita declarou guerra contra algumas alas do partido midiático, como os grupos Globo e Folha. Diante disso, a defesa que muitos de nós, corretamente, assumem da atividade dos jornalistas é distorcida de modo a parecer cumplicidade com seus patrões. Para piorar, setores importantes da esquerda passaram a confiar à grande imprensa a tarefa de resistir às mentiras e distorções da extrema-direita.

Esses elementos mostram que a atividade jornalística, por si só, é incapaz de resistir às ofensivas mentirosas do fascismo. Afinal, como disseram Marx e Engels, nas sociedades de classe, as ideias dominantes tendem a ser as ideias das classes dominantes.

Leia também: Ciência e fake news: eugenia e negacionismo

22 de março de 2023

Grande Mídia: cercados por inimigos de um lado e do outro

“As plataformas digitais são coniventes com a campanha contra a imprensa orquestrada por grupos de extrema direita nas redes sociais e deveriam ser responsabilizadas por isso”, diz editorial do Globo, de 19/03/2023.

O texto utiliza dados da pesquisa “Ataques à imprensa”, do laboratório NetLab, da UFRJ. Apresenta números sobre o poder de fogo das plataformas YouTube, Facebook, WhatsApp, Telegram e Tik Tok. Por fim, revela quais seriam as narrativas de ataque à imprensa identificadas pelo levantamento:

1) a “mídia” representa o “establishment” e manipula o “povo”; 2) os grupos de extrema direita defendem a “liberdade de expressão” e revelam a “verdade”; 3) a imprensa profissional é “autoritária” e quer calar a extrema direita; 4) ela defende imoralidades contra a família; 5) ela conspira com os institutos de pesquisa; 6) ela dá muito espaço às mulheres.

Com alguns ajustes, nós, da esquerda, poderíamos até assinar embaixo dos pontos 1 e 5 desse diagnóstico. Os outros são coisa de lunáticos.

Mas o que o texto mostra, mesmo, é como perdemos espaço nessa arena tão fundamental para a disputa de hegemonia com as classes dominantes. Estamos reduzidos a assistir a uma guerra entre antigos e novíssimos monopólios midiáticos. Conflito que pode ter como
provável resultado a derrota das forças populares. Principalmente, se resolvermos apoiar um dos lados.

E é assim que parecem estar se comportando o governo Lula, o PT e a esquerda em geral. Continuamos menosprezando a necessidade de uma rede própria de comunicação popular. Um erro histórico, renovado periódica e frequentemente. Nossos inimigos, de um lado e do outro, agradecem.

Leia também: A disputa nas redes não deve ser menosprezada

13 de dezembro de 2021

Ilusões Perdidas ou a imprensa como armazém de palavras

“Ilusões Perdidas”, de Xavier Giannoli, é um belo filme. Baseado na obra-prima homônima de Honoré de Balzac, a abordagem do diretor privilegiou o comércio de informações a que parte da imprensa francesa das primeiras décadas do século 19 se dedicou. Mas, certamente, o objetivo é fazer referência aos tempos atuais, empesteados pelas chamadas “fake news".

Alguns trechos do romance original mostram essa situação, quando um dos personagens afirma: ”a polêmica, meu caro, é o pedestal das celebridades”. Ou quando alguém diz que todo jornal é “um armazém onde se vendem ao público palavras da cor que ele quiser”. Um jornal, reforça ele:

...não é mais feito para esclarecer, mas para adular as opiniões. Assim, todos os jornais serão, mais cedo ou mais tarde, covardes, hipócritas, infames, mentirosos, assassinos; matarão as ideias, os sistemas, os homens, e florescerão exatamente por isso. Terão o benefício de todos os seres da razão: o mal será feito sem que ninguém seja culpado por ele.

A trama de Balzac se passa durante a restauração da nobreza na França. Mas o verdadeiro poder já era o das finanças. O valor de troca iniciava seu longo império sobre o valor de uso, inclusive nos meios de comunicação.

Agora, como antes, não interessa saber o quanto de verdade há numa informação. Apenas o quão rápida e amplamente ela circula. Ontem, eram os jornais vendidos nas esquinas. Hoje, são cliques e likes.

Ilusão, mesmo, é a crença de que as manipulações cometidas por séculos pela imprensa empresarial não acabassem por jogar a tal esfera pública de volta ao pântano da desinformação em larga escala.

Leia também: A economia política da “pós verdade” (3)

8 de março de 2021

Os persistentes elos entre escravocratas e grande imprensa

O Conselheiro Antônio Prado é outro personagem que mereceu destaque em “Raízes do conservadorismo brasileiro”, livro de Juremir Machado da Silva sobre a atuação dos escravocratas no Segundo Império.

Prado votou contra a Lei do Ventre Livre e só abraçou a causa da abolição quando não havia mais volta, diz Silva. Além disso, como adversário do que chamava de "abolicionismo cego e apaixonado", Prado:

...aderiu à abolição na reta final para ajudar seus amigos fazendeiros a tirarem o que ainda fosse possível dos escravos: um período adicional de trabalho de cada negro como indenização aos donos, o que chamou de política razoável, sensata e flexível. Prado é o autor de uma das pérolas contra os escravos fujões. Segundo ele, a miséria e a fome eram os "primeiros castigos de sua negra ingratidão para com seus ex-senhores".

Em 1882, passou a controlar o jornal Correio Paulistano. Silva cita palavras de Lilia Moritz Schwarcz:

O Correio (...) passa de monarquista conservador e escravocrata, até 1887, a abolicionista e republicano em 1889, ganhando louvores e principalmente postos destacados na nova configuração política que se montava.

“De uma costela do Correio Paulistano, explica o autor, surgiria, em 1875, A Província de São Paulo, que se tornaria abolicionista em 1884, mesmo publicando anúncios de venda de escravos, e mais tarde passaria a ser o para sempre conservador O Estado de S. Paulo. Tudo se encadeia”, conclui Silva.

Um dos sentidos do verbo “encadear” é ligar os elos de uma corrente. No caso acima, trata-se de uma ligação entre os de cima que até hoje procuram manter acorrentados muitos dos de baixo.

Leia também: José de Alencar, o escravocrata dos lábios de sangue

3 de março de 2021

Abolição: para jornais, ex-escravos eram vadios em potencial

“Um furacão varreu o Brasil entre 8 e 13 de maio de 1888”, diz Juremir Machado da Silva no livro “Raízes do conservadorismo brasileiro”.

A imprensa brasileira estava eufórica. Ele cita o Diário de Notícias, edição do dia 14/05/1888:

Quem dissera há três meses que seria um fato antes do fim do século o sucesso glorioso que todos festejamos?! No entanto, o fato realizou-se rápida e incruentamente! Não há mais escravos no Brasil!

Enquanto isso, O Paíz comemorava: “Fizemos sem derramar uma gota de sangue uma revolução que a outros países custou todos os horrores de uma guerra fratricida”.

Mas a “festa ainda estava nas ruas e já o Diário do Maranhão cobrava”:

Centenas de indivíduos sem ofício, e que terão horror ao trabalho, entregando-se por isso a toda sorte de vícios, precisam ficar sob um rigoroso regime policial para assim poderem ser mais tarde aproveitados, criando-se colônias, para as quais vigore uma lei, como a que foi adotada na França, recolhendo a estabelecimentos especiais os vagabundos, sujeitando-os à aprendizagem de um ofício, ou da agronomia, para que mais tarde o país utilize bons e úteis cidadãos. Assim se praticou nos Estados Unidos depois da emancipação.”

E propunha:

...legislação para o trabalho agrícola; aumento das polícias nas províncias; escolas e núcleos agrícolas nas comarcas; leis coercitivas do vício e da ociosidade; tribunais correcionais com processos sumários...

“Desde o primeiro dia do fim da escravidão, o negro liberto seria visto como vagabundo e bêbado em potencial”, conclui Silva.

Essa era a verdadeira linha editorial da imprensa da época. Não muito diferente do que acontece nos jornais atuais.

Leia também:
130 anos depois da Abolição, a mentalidade escravocrata domina
Machado de Assis e o escravocrata abolicionista

22 de março de 2019

Antes do partido digital, o “partido televisão” e o partido de massas

Em seu livro “The Digital Party”, Paolo Gerbaudo descreve a teoria do intelectual italiano Marco Revelli, que vê no partido de massas o equivalente político da fábrica fordista no nível econômico.

Primeiro, por seu "gigantismo" e esforço "para incorporar grandes massas de pessoas de maneira estável, organizadas em estruturas sólidas e permanentes".

Depois, por seu "trabalho político" coletivo, inspirado por critérios tayloristas de eficiência e racionalização. Os militantes seriam os trabalhadores da linha de montagem. Os dirigentes locais, os supervisores. O comitê central, os executivos.

Mas a crise do capitalismo fordista também afeta o partido de massas, que se vê enfraquecido diante da crença imposta pelo neoliberalismo num mundo “pós-industrial, pós-ideológico e pós-classe”.

Surge, então, o “partido televisão”, fortemente influenciado pela ascensão da TV como o canal dominante da comunicação.

O modelo fordista dá lugar ao paradigma “midiático-marqueteiro”, derivado de ramos considerados representantes da vanguarda da economia pós-industrial.

O partido televisão não tem mais o apoio de uma base militante ativa. São, principalmente, seus líderes que apelam diretamente aos eleitores em programas televisivos.

Essa nova organização política já não tem uma base de classe claramente definida. De forma oportunista, procura atrair diferentes camadas sociais. O eleitorado é um mercado a ser conquistado.

Há também um fortalecimento da liderança partidária, com campanhas personalizadas e centradas nos candidatos. Essa mediação política à distância corroeu o papel das bases no partido e contribuiu fortemente para gerar uma atitude passiva no eleitorado.

Aparece, então, o partido digital, prometendo resolver ou minimizar os problemas introduzidos pelo partido televisão. Será capaz de cumprir o que promete? Continua na próxima pílula.

20 de março de 2019

Os antigos e os novíssimos monopólios da verdade

Pawel Kuczynski
Os primeiros aparelhos de rádio serviam tanto para recepção como para emissão. Uma troca que ficava fora do alcance da indústria e dos governos.

As estações de rádio permitiram opor alguns emissores a milhões de receptores. Um monólogo que, geralmente, trata somente do que interessa ao mercado e ao poder.

A TV já surgiu sob a lógica do monólogo. Não à toa, nos países economicamente dependentes as redes de difusão audiovisual foram priorizadas em relação à estrutura telefônica.

No início do século 21, surge a maior empresa de mídia da história. O sucesso do Facebook se deveu muito à restauração dos contatos interpessoais. Ainda que virtuais.

Décadas de neoliberalismo criaram o ambiente ideológico perfeito para a volta do diálogo sem risco para os poderes estabelecidos. Ao contrário, tinha tudo para os favorecer.

Associações, clubes, sindicatos, partidos esvaziados. A família reduzida a, no máximo, quatro ou cinco membros. Os apartamentos no lugar de aldeias, vilas, paróquias.

O individualismo no lugar da solidariedade, a competição ao invés da colaboração. Empreendedorismo, sim, consciência de classe, jamais.

Cenário perfeito para que os diálogos se limitassem ao nível virtual. Inclusive, da sala para o quarto.

Evidentemente, a maior empresa de mídia já formada também é o maior anunciante. O Facebook monetizou os contatos entre as pessoas, alavancando bilhões de dólares por hora.

Enquanto isso, o Google monetizou radicalmente a informação. Vale como fato objetivo aquele que recebe mais cliques.

Esta é basicamente a economia política que opõe os interesses de antigos e novíssimos monopólios da verdade. Nosso grande desafio é saber explorar as contradições dessa briga. Estaremos à altura da tarefa?

19 de março de 2019

O combate às mentiras e aos monopólios da verdade

A pílula de ontem citou recomendações adotadas pelo colunista Helio Gurovitz para que a imprensa enfrente as “vozes discordantes” que acreditam no festival de mentiras que empesteia as redes virtuais. Seria preciso:

...respeitá-las, ouvi-las, manter a calma e não entrar em gritaria, não adotar um tom de queixa, ser sincero e determinado nas próprias crenças, pensar e tratar não só de fatos, mas sobretudo dos valores...

Certo, tudo muito válido. Mas será que a imprensa que vem dominando a distribuição de informações no mundo há décadas teria condições de adotar tal postura? Impossível.

Os atuais monopólios de comunicação só sabem despejar seus produtos em larga escala. Falta-lhes a capacidade de dialogar porque sua lógica é unidirecional.

Mas é pior que isso. Tratar não só de fatos, mas sobretudo de valores, recomenda o colunista. Para a grande imprensa isso equivaleria a admitir que defende certos valores. E que eles são os dos poderosos. Da minoria.

Ou seja, os instrumentos de comunicação melhor preparados para travar esse combate são os alternativos. A extrema-direita já começou a trabalhar nisso há vários anos. O resultado é óbvio.

Falta à esquerda fazer o mesmo. Deixar de priorizar eleições para disputar cabeças e almas. Parar de depender de estruturas sob controle estatal ou empresarial. Travar a batalha da contra-hegemonia, que exige menos recursos financeiros e muito mais trabalho cotidiano.

Só quem tem uma visão de mundo radicalmente diferente àquela defendida por criaturas como Trump e Bolsonaro pode derrotá-los.

Mas é crucial para travar essa luta compreender o papel dos novíssimos monopólios de mídia. Facebook e Google, principalmente. Fica para a próxima pílula.

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18 de março de 2019

O festival de falsidades e os monopólios da verdade

Em 14/03/2019, na revista Época, Helio Gurovitz abordou “O desafio da imprensa diante de Trump e Bolsonaro”.

Basicamente, tal desafio envolveria o combate ao festival de falsidades que gira em torno dos presidentes nomeados no título.

O colunista cita o livro “Don’t think of an elephant!” (Não pense num elefante!) do linguista estadunidense George Lakoff. Para ele, fatos são cruciais, mas:

...precisam ser emoldurados de modo adequado para que entrem no discurso público de modo eficaz. Acreditar que apenas apresentá-los de maneira competente basta para que o cidadão “acorde” é uma ilusão”.

Nos conservadores, exemplifica o linguista, as crenças derivam da imagem da família com pai rigoroso. Nos progressistas, da família com pais carinhosos.

Segundo Lakoff, “muitas das ideias que ultrajam os progressistas são o que os conservadores veem como verdade” e vice-versa. Referindo-se a Trump, Bolsonaro e seus aliados, afirma: “Eles não são estúpidos. Estão ganhando porque são inteligentes. Entendem como as pessoas pensam e falam.”

Por fim, o colunista transcreve alguns princípios úteis recomendados pelo linguista “para dialogar com vozes discordantes”.

...é preciso respeitá-las, ouvi-las, manter a calma e não entrar em gritaria, não adotar um tom de queixa, ser sincero e determinado nas próprias crenças, pensar e tratar não só de fatos, mas sobretudo dos valores — e evitar adotar a moldura do adversário ao rebater ataques. “Não use a linguagem deles. A linguagem seleciona uma moldura — e não será a moldura que você quer.”

Dicas importantes, sem dúvida. Mas que imprensa poderia adotá-las? Certamente, não a dos monopólios que se declaram isentos e objetivos, mas também defendem verdades interessadas.

Continua na próxima pílula.

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15 de fevereiro de 2019

Ei, você, a Neflix tem ideologia, sabia?

Em 13/02/2019, Ezequiel Rivero, pesquisador da Universidade Nacional de Córdoba, Argentina, publicou interessante artigo sobre a Netflix no portal Página/12.

Segundo ele, a grande promoção de conteúdos como “Narcos”, “El Chapo” ou “O Mecanismo”, gerou suspeitas quanto à linha editorial adotada pela Netflix na América Latina. Um levantamento descobriu que dos 90 títulos de séries oferecidos para sete países da América Latina e Caribe, trinta abordam temáticas vinculadas com crime organizado, narcotráfico, corrupção política e violência social. Mas, diz Rivero, esses números são mais reveladores se levarmos em conta que são os conteúdos mais divulgados e com maior relevância ou visibilidade dentro do catálogo.

Em meio a sua imensa vastidão e fragmentação, o que diferencia a Netflix é precisamente a personalização, afirma. Ou seja, a formação de “silos culturais” que transcendem nacionalidades e que a empresa consegue criar com a ajuda de um fantástico e opaco trabalho de automatização de seu funcionamento. Assim, consegue ser muitos serviços ao mesmo tempo e cada usuário terá mais possibilidades de ver “sua Netflix”, ignorando, em geral, as outras opções do catálogo total.

Ainda que se mostre imprevisível, aleatória e nos envolva por horas em sua amigável interface, a Netflix, sabe muito bem como induzir o gosto de seus assinantes. Cada vez fica mais claro que por trás de caracterizações tão assépticas como “plataforma” ou “aplicativo”, esconde-se uma empresa de meios audiovisuais que toma decisões editoriais, tem ideologia e influencia na formação da opinião pública, conclui Rivero.

Deveria ser óbvio, mas nossas incessantes interações com telas nada inocentes andam nos cegando para as coisas mais óbvias.

Leia também: Jornada de trabalho e vampirização de almas

5 de novembro de 2018

O fim da imprensa e da internete

“Não ignore as mudanças do Brasil de Bolsonaro”, adverte Leandro Demori em artigo publicado no Intercept Brasil, em 28/10/2018.

Dois trechos se destacam. O primeiro fala em “fim da internet”:

Todo o caos fértil que a rede nos pareceu em meados dos anos 90 e depois, toda aquela libertação dos meios tradicionais nos anos 2000, se transformou em um engenho de algoritmos no qual nós somos os animais a empurrar a roda. Animais que votam com a cabeça entupida de desinformação.

O segundo é sobre uma imprensa moribunda:

É preciso também falar sobre a insistência da imprensa em conversar só com a elite intelectual. Sobre o linguajar complicado, a profusão de jargões, as matérias escritas para serem elogiadas pelos colegas jornalistas, para terem lugar cativo nas newsletter de iniciados, e para serem ignoradas pela população em geral. Esse sistema perdeu, foi humilhado por memes e notícias falsas. A separação antiga entre “jornalismo e opinião” – como se não pudesse haver “jornalismo” mentiroso e “opinião” informativa e embasada – perdeu o sentido. Porque não importa o que nós, jornalistas, achamos sobre esses velhos cânones, o que importa é a percepção das pessoas.

Segundo ele, não “é mais possível construir uma manchete em que Bolsonaro acusa o PT de fraude nas urnas sem dizer que ele não tem provas”.

E conclui: “O jornalismo precisa parar de fingir que não é parte do jogo e que existe só para ‘reportar os fatos’”.

Se Demori espera ser ouvido pela grande mídia, jamais conseguirá. Mas suas advertências são perfeitas para a imprensa de esquerda. Este setor que também precisa ser salvo do falecimento.

19 de outubro de 2018

Vem aí o infocalipse. Ou não...

Infocalipse. Este conceito foi criado por Aviv Ovadya, membro do Centro de Responsabilidade para Mídias Sociais do Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

Em entrevista concedida à agência Pública, em 30/05/2018, ele explica o que seria o infocalipse:

Você pode pensar na ideia como se, à medida que a qualidade das informações num geral diminui, a inteligência de todos os membros da sociedade e de todas as diferentes organizações que a tornam funcional, no geral, diminui, e, se você vai muito fundo nisso, sua sociedade basicamente desmorona.

Mas, segundo Ovadya, só chegaríamos a esse ponto se coisas como a falsificação de áudios e vídeos se tornassem regra. Pode ser, mas as atuais eleições no Brasil parecem mostrar que, entre nós, falta pouco.

Por outro lado, mentiras e distorções grotescas não surgem e se espalham do nada. Elas precisam ter alguma base real. Uma delas é formada por valores comportamentais. Por exemplo, é preciso haver um elevado nível de homofobia numa sociedade para que uma notícia falsa sobre distribuição de kits gays nas escolas sejam assumidas como verdade.

Outro fator importante é o velho e eficiente controle sobre as narrativas históricas. É o caso da Ditadura Militar. Somente o enterro proposital de fatos inegáveis da vida nacional possibilita ao primeiro colocado nas pesquisas eleitorais afirmar que esse terrível período de nossa história fez bem ao País.

Nesse último caso, são vários os responsáveis: monopólios da grande mídia, instituições coalhadas de antigos membros do regime ditatorial e até a omissão de algumas de suas maiores vítimas.

Coisas assim indicam que, talvez, estejamos mais próximos do apocalipse tradicional, mesmo.

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27 de março de 2018

Marielle e a falsidade mais oportunista

O Facebook parece estar passando por uma crise séria. À frente da crise, acusações de que agentes do governo russo teriam usado a plataforma para espalhar mensagens falsas que teriam influenciado as últimas eleições presidenciais estadunidenses. As chamadas “fake news”.

Mas por trás dessa confusão, parece haver muito mais. Há algum tempo, gigantes da grande mídia vêm reclamando do comportamento de gigantes das redes, como Facebook e Google. Eles não só vêm atraindo muito mais anunciantes, como compartilham conteúdo dos grandes veículos de comunicação sem pagar por ele.

O pretexto é combater a indústria de “likes”, cuja lógica despreza o quanto de veracidade há numa informação. Vale apenas o quão rápida e amplamente ela circula. O que importa é seu valor de troca. Seu valor de uso, enquanto verdade, torna-se só mais um detalhe.

Mas tudo isso é só a radicalização de uma tendência mais antiga. No capitalismo, o valor de troca acaba por dominar o valor de uso em todos os campos da vida humana. Desse modo, aqueles jornais “populares” que, torcidos, despejam sangue são apenas uma versão menos sofisticada da “respeitável” imprensa empresarial.

Que isso tenha ficado tão evidente nas redes virtuais permitiu abrir uma brecha que a grande mídia pretende aproveitar para recuperar o mercado que seus rivais lhe tomaram.

Nos Brasil, ocorre algo parecido. De repente, a grande imprensa tornou-se campeã do combate às fake news. Mas, aqui, o oportunismo envolve a execução de uma liderança que era mulher, socialista, preta e homossexual. Representa tudo a que se opõem esses pretensos defensores de sua memória.

A falsidade nunca foi tão verdadeiramente imoral.

Leia também: A economia política da “pós-verdade”

23 de novembro de 2017

Quando não há recuos porque não houve avanços

Desde a posse do governo golpista, a sucessão de retrocessos sociais e políticos acelerou fortemente. As poucas conquistas populares que não eram letra morta na legislação estão sendo eliminadas.

O conservadorismo atinge com rapidez e violência quase inédita todas as frentes de luta: trabalhista, ambiental, feminista, antirracista, sexual, educacional, agrária, indígena e direitos humanos em geral. Mas há uma exceção importante. A democratização dos meios de comunicação.   

Em 21/11, A organização Repórteres Sem Fronteiras e o coletivo Intervozes apresentaram o relatório “Monitoramento da Propriedade da Mídia no Brasil”. O levantamento envolveu os 50 veículos de comunicação com maior audiência no Brasil e os 26 grupos econômicos que os controlam.

Apenas um dos dados ajuda a entender todo o resto e mais além: 80% dos grandes grupos de mídia estão localizados nas regiões Sul e Sudeste do país. E a região metropolitana de São Paulo abriga 73% das empresas do Sudeste.

Toda essa concentração coincide e faz parte da concentração de poder econômico, político e social do país. Os mesmos grupos não apenas asseguram a defesa de seus interesses pelos Três Poderes. Eles também as justificam pelos meios de comunicação que controlam tranquilamente há muitas décadas.

É a maior prova de que o monopólio dos meios de comunicação é um pilar fundamental da dominação capitalista, em especial no Brasil. É a disputa de hegemonia feita de forma tão eficiente que faz parecer que o direito a informação é o único a se manter firme frente à atual onda conservadora.

Realmente, não há recuo possível se não houve avanço algum. Parabéns aos envolvidos. Parabéns para nós!

30 de janeiro de 2017

Pós-verdade ou pré-conceito?

A “pós-verdade” está na moda. Ganhou até um verbete no Dicionário Oxford de 2016, que a define como produto de “circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influentes para determinar a opinião pública do que apelos a emoções e crenças pessoais".

O ecossistema perfeito para sua reprodução seria a internete.

Um exemplo de usuário dependente da “pós-verdade” seria Donald Trump, especialista em fazer afirmações sem fundamentos. Não por acaso, recentemente uma assessora dele chamou algumas mentiras divulgadas por seu governo de “fatos alternativos”.

Mas a verdade é que há pouca novidade nisso tudo. E um artigo do sociólogo Muniz Sodré ajuda a demonstrar isso. Em “Diversidade e diferença”, publicado na “Revista Científica de Información y Comunicación”, em 2006, ele afirmava:

Você vê alguém com um turbante na cabeça e pensa que já sabe tudo sobre ele, que é, por exemplo, árabe, logo, islamita, logo investido de determinada disposição frente ao mundo. O racismo apresenta-se geralmente como esse “saber automático” sobre o Outro. Os preconceitos funcionam assim na prática...

É este “saber automático” que congela a imagem ou a primeira impressão na forma de uma verdade absoluta. Impede que o entendimento da realidade se transforme em um conceito que possa se abrir ao debate. Fica preso no nível do pré-conceito.

É com base nesse mecanismo ideológico, por exemplo, que a mídia estadunidense há anos vem transformando turbantes em símbolos de terrorismo. São este e muitos outros “fatos alternativos” que permitiram a Trump chegar aonde chegou.

Portanto, a pós-verdade não passa do velho preconceito. E a grande mídia ainda é sua maior divulgadora, nas redes virtuais ou não.

Leia também: O saber automático por trás do preconceito