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1 de outubro de 2024

A economia idiota dos exploradores

“É a economia, idiota”. Esta frase ficou famosa nas eleições presidenciais estadunidenses de 1992. Foi dita por James Carville, estrategista da campanha de Bill Clinton contra George Bush.

Na época, a reeleição de Bush parecia garantida graças à rápida vitória estadunidense na primeira Guerra do Golfo e ao fim da União Soviética. Mas a recessão econômica que castigava o país levou os eleitores a escolher Clinton.

Algo semelhante, mas invertido, parece estar ocorrendo nas atuais eleições municipais brasileiras. O desemprego está baixo, a renda aumentou, as projeções de crescimento do PIB subiram e a inflação quase zerou, em agosto.

Apesar disso, o PT patina nas projeções das eleições municipais. Nas capitais, por exemplo, não há nenhum favorito petista. Há várias explicações para isso, incluindo o apoio a candidaturas de terceiros devido a alianças julgadas necessárias para a “governabilidade”.

Mas, talvez, o problema seja o modo como se costuma entender a economia. Muitos a veem de forma reducionista, matemática, de curto prazo. Uma concepção que interessa aos poderosos.

Um dos criadores da economia política clássica e herói de muitos neoliberais é Adam Smith. Mesmo para ele, porém, a dimensão moral é fundamental para compreender os fenômenos econômicos. Esse tipo de reflexão aparece em sua obra “A Teoria dos Sentimentos Morais”, que os neoliberais preferem ignorar.

O problema é que a esquerda também teima em agarrar-se à macroeconomia abstrata do capital. Com isso, deixa a direita à vontade para defender seus valores conservadores e reacionários na realidade cotidiana de milhões de explorados que lutam para sobreviver.

É a economia, sim. Mas não a economia idiota dos exploradores.   

Leia também: Bets, tigrinho, Uber e Marçal no selvagem jogo neoliberal

23 de setembro de 2024

Os gastos sociais sob a ditadura neoliberal

Governar sob a ditadura neoliberal resume-se a separar centavos para as áreas sociais e destinar caminhões de dinheiro para os juros da dívida pública.

Essa lógica, por si só, já impõe sacrifícios cruéis à enorme parte da população. Mas o modo como ela é aplicada é ainda pior. É o que mostra um estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades, da USP.

O levantamento divulgado pelo Brasil de Fato, em 08/08/2024, mostra que aumentar o gasto público com investimentos sociais é mais eficiente na redução do endividamento do país do que cortar outras despesas.

Os subsídios concedidos pelo governo, por exemplo, direcionam volumosos recursos públicos para setores poderosos como montadoras de veículos, companhias aéreas, petroleiras e agronegócio.

Pois bem, o estudo constata que um corte de 1% do PIB dos recursos destinados a benefícios sociais diminui o endividamento público apenas 0,2%. Já se for feito sobre subsídios governamentais, o déficit cai 1,6%, oito vezes mais.

Isso para não falar que raramente subsídios públicos se transformam em mais postos de trabalho. Ao contrário, os próprios beneficiários admitem que os recursos são utilizados para manter a produção e o nível de emprego. O que também é duvidoso.

O economista Pedro Faria explicou ao Brasil de Fato que o “gasto do governo atende majoritariamente pessoas mais pobres, via programas sociais, saúde, educação. Com todo aumento de renda dessas pessoas, elas consomem e o efeito multiplicador é grande".

Ninguém nem está falando em auditoria da dívida pública. Seria apenas um arranjo menos injusto dentro da austeridade fiscal. Mas nem isso é possível sob a ditadura neoliberal.

Leia também: O PIB  e a ditadura do Banco Central

5 de setembro de 2024

O PIB e a ditadura do Banco Central

O PIB brasileiro cresceu acima do esperado, “superando as expectativas do mercado”. Esta notícia mereceu grande destaque nos jornais, recentemente.

Mas, talvez, superação de “expectativas do mercado” possa ser traduzida por frustração de seus desejos. Não é que o “mercado” torça contra o governo Lula. A torcida é contra qualquer número que envolva crescimento econômico e, principalmente, diminuição do desemprego. Fatores que fortalecem os trabalhadores nas negociações salariais.

O pretexto é o combate à inflação. Alegam que economia aquecida estimula o consumo. Como a produção costuma não acompanhar esse aumento, o resultado seria aumento de preços. O jeito, então, seria elevar os juros para encarecer o crédito, provocando queda do consumo, diminuição do emprego e da massa salarial.

Tudo isso é um claro exemplo das inversões típicas da economia política do grande capital. São exatamente os juros altos que ajudam a impedir a produção de acompanhar o aumento da demanda.

Mas não há nada de novo nisso tudo. Quem determina a taxa de juros é o Comitê de Política Monetária, do Banco Central. E quem faz parte desse comitê? Meia dúzia de pessoas cujos nomes não são revelados, mas, certamente, são gente de confiança do capital financeiro.
 
Além disso, a principal fonte de informação utilizada pelo Banco Central é o relatório Focus. Este documento também é elaborado por instituições do setor privado que ninguém sabe quais são. Mas, provavelmente, são as mesmas a quem interessa manter um dos juros mais altos do planeta.

Enquanto isso, a cada quatro anos, elegemos o governo que vai se dobrar com menos ou mais docilidade à ditadura financista do BC.

Leia também: O comitê secreto que manda no País

1 de julho de 2024

Plano Real: democracia tutelada e fascismo

Os 30 anos do Plano Real estão sendo comemorados com muita festa e unanimidade pelas grandes mídias. Segundo os promotores dessas celebrações, o único objetivo da política econômica é controlar a inflação, mesmo que isso implique manter uma das piores concentrações de riqueza do planeta.

Um bom texto para entender esse fenômeno é “Por outra história do Real”, publicado por Luiz Filgueiras no portal Outras Palavras. Mas lembremos rapidamente a que finalidades realmente serviu o surgimento do Real.

Na época da inflação galopante da década de 1980, as lutas sindicais estavam no centro do cenário social, com greves grandes e frequentes. Os trabalhadores se envolviam em conflitos diretos com um adversário visível, os patrões.

Quando a inflação diminuiu drasticamente, em meados dos anos 90, as greves também se reduziram e a defesa de conquistas e direitos contra a lógica dos mercados mudou para a arena eleitoral.

Logo a seguir, impôs-se a austeridade fiscal, que levou a vida de milhões a depender de decisões de entidades multilaterais, grandes corporações financeiras e outras instituições semelhantes. Todas situadas em lugares isolados da experiência cotidiana e totalmente impenetráveis à pressão popular.

A democracia foi definitivamente dissociada da economia. O mandato dos bancos centrais tornou-se mais importante que os dos governantes e parlamentares. A já limitada vontade popular expressa pelo voto quase completamente tutelada pelos dogmas do neoliberalismo.

Era a mais recente metamorfose de uma democracia que sempre foi de fachada. Uma dominação secular autoritária que continua a convocar as feras do fascismo para defendê-la, cada vez que suas promessas de prosperidade se revelam falsas e despertam a revolta popular.

Leia também: Na pós-democracia, a política comandada pela economia

24 de junho de 2024

Inflação made in USA

Na semana passada, o Congresso americano anunciou que a dívida pública dos Estados Unidos deve fechar 2024 em 99% do PIB. O que significa um montante de US$ 34 trilhões. Imensa dívida que o Tesouro Americano rola, imprimindo dólares.

Mas, muito diferente do que acontece aqui e em muitos outros países, ninguém liga muito pra isso. Essa é a diferença entre quem manda na economia mundial e quem sofre as consequências de seus desmandos. Especialmente, os países periféricos e dependentes.

No Brasil, o aumento da dívida é pretexto para asfixiar investimentos em programas sociais e de geração de emprego e renda. Nos Estados Unidos acontece algo semelhante, mas o governo tem meios de transferir os problemas de sua economia interna para o resto do mundo.

O dólar como moeda do comércio internacional foi imposto pelo imperialismo ianque desde o início dos anos 1970. Desse modo, o Tesouro Americano passou a decidir quando e em que quantidade imprimir dinheiro e as outras economias que se virem para acompanhar.

Em economias de mercado, mais dinheiro em circulação costuma provocar elevação de preços. Mas quando os Estados Unidos imprimem dólares, inflam os preços indexados na moeda utilizada em grande parte das transações internacionais. Desse modo, exportam sua inflação para o resto do planeta.

Tudo isso mostra que a dura batalha entre os bancos centrais, sequestrados pelos financistas, e governos que tentam priorizar investimentos públicos também tem esse importante elemento. Um componente que torna qualquer projeto de emancipação nacional e progresso social uma luta internacionalista e anti-imperialista. Por consequência, anticapitalista.

Leia também:
A real sobre o “Plano Real” de Sérgio Moro
Na pós-democracia, a política comandada pela economia

30 de maio de 2023

A economia política das fake news

“Infocalipse” é um conceito criado por Aviv Ovadya, pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Em 2018, ele descrevia esse fenômeno assim:

...à medida que a qualidade das informações no geral diminui, a inteligência de todos os membros da sociedade e de todas as diferentes organizações que a tornam funcional também diminui. E, se você vai muito fundo nisso, a sociedade basicamente desmorona.

Na época, Ovadya afirmou que só chegaríamos a esse ponto se coisas como a falsificação de áudios e vídeos se tornassem frequentes. Cinco anos depois, chegamos lá.

Estamos em plena era das fake news. Mas isso só ocorreu porque sua disseminação em larga escala foi viabilizada pelas redes virtuais. Estas, por sua vez, surgiram como resposta à necessidade de encurtar o tempo de circulação das mercadorias para realizar os lucros nelas embutidos. Google, Facebook, Youtube, Whatsapp, TikTok não são monopólios de interação social, mas de comercialização de publicidade. A principal função dos celulares não é agilizar a comunicação entre as pessoas, mas as trocas mercantis.

Desse modo, as informações sofreram a mesma metamorfose que já havia atingido outras bens sociais. Seu valor de troca vem eliminando seu valor de uso. A informação passou a ser valiosa apenas quando circula rapidamente. Se ela tem ou não alguma relação com fatos objetivos, pouco importa. Importam os cliques, retuítes, likes e zapeadas que movimentam a roda do consumo.

Assim, tudo indica que as fake news vieram para ficar. Pelo menos, enquanto a sociedade permanecer sob a lógica do capital.

Mas e os conceitos de realidade e verdade, como ficam? Bom, ficam para a próxima pílula.  

Leia também: As fake news e o jornalismo conservador

4 de maio de 2023

Os neoliberais têm um comunismo pra chamar de seu

O fantasma alardeado pela direita fanatizada é o comunismo. A mera defesa de direitos básicos, liberdade de comportamento, diversidade religiosa e sexual, combate à desigualdade, a estupidez fascista transforma em silenciosa e sistemática revolução comunista. Segundo esses maníacos-repressivos, nossos ordeiros partidos de esquerda defenderiam programas tão radicais quanto o repertório dos primeiros discos dos Titãs ou dos Racionais.

Mas os fanáticos da direita neoliberal também têm um comunismo pra chamar de seu. É o “populismo econômico”, no qual se enquadra qualquer um que ouse apenas desconfiar da “austeridade fiscal”. Uma fórmula econômica grosseira que se resume ao “não pode gastar mais do que se arrecada”. Mantra que só não serve quando se trata de pagar a impagável dívida pública.

Sob essa ladainha presente na grande maioria dos textos editoriais e colunas de especialistas medíocres, esconde-se o escoadouro de recursos públicos para a roleta do cassino das Letras do Tesouro Nacional, em torno da qual sentam-se banqueiros e grandes empresários em geral. Tanto locais como alienígenas.

É isso que explica a teima do BC em manter os juros altos, apesar das humildes genuflexões petistas diante desse altar da ortodoxia neoliberal. Esse episcopado zeloso dos interesses de seitas como a da Faria Lima. Com mandato todo-poderoso, sem um único voto popular.

De modo que o governo Lula continuará acossado pelo fanatismo fascista e pela intolerância neoliberal. O primeiro atacou em 8 de janeiro e não pretende parar. O segundo faz o mesmo há décadas e deve continuar. Ambos mal disfarçam sua simpatia mútua, baseada no ódio aos pobres e a qualquer política com cheiro de redistribuição de renda.

Leia também: Pandemia e oportunismo: keynesianismo para ricos

10 de março de 2023

O capitalismo gângster à moda Americanas

Quando estourou o escândalo das Americanas surgiram nas redes memes como: “Vendendo Kit-kat a R$ 1,99, Americanas só podia acabar quebrando”. Involutariamente, a piada apontava um sintoma. O preço baixo jamais fez desaparecer as pilhas do chocolate das lojas. Afinal, não havia renda suficiente no mercado para desencalhar essa e outras mercadorias.

Outro sintoma dessa situação é aquilo que foi apontado como causa da quebra da varejista. O buraco de 20 bilhões no balanço da empresa tem cheiro de fraude. Mas também é resultado de uma economia mergulhada na recessão devido a vários fatores: achatamento salarial e elevado desemprego causados pela reforma trabalhista; a criminosa administração da crise pandêmica pelo governo genocida e a opção deste último pelo liberalismo mais selvagem, incluindo taxas de juros pornográficas.

Os controladores das Americanas optaram por esconder os prejuízos causados por essa situação. Desde que foram revelados, no entanto, a oferta de crédito despencou. Os bancos não querem correr o risco de conceder novos empréstimos sem lastro. Menor oferta de crédito, menos produção, consumo e empregos.

A crise de 2008 foi causada por empréstimos podres (subprimes) escondidos em derivativos financeiros. Os débitos podres ocultos no balanço das Americanas é nossa versão do subprime.

Claro que as consequências estão longe de ser as mesmas que as da crise estadunidense. Até porque já vivemos há anos uma situação de quebradeira de empresas e desemprego elevado. A crise que começou lá periodicamente ganha novos impulsos por aqui.

É o capitalismo gângster, à moda americana. De Wall Street à Faria Lima. Tudo muito conveniente para fortalecer o gangsterismo fascista no cenário social e político.

Leia também:
A pandemia e os gatilhos do caos
Por trás da mutação subprime/coronavírus, o capitalismo em crise

20 de março de 2020

A ordem é sacrificar primeiro idosos e vulneráveis

Michael Roberts é um respeitado economista marxista inglês. Recentemente, publicou um esclarecedor artigo sobre o coronavírus-19 em seu blog. Merece ser lido na íntegra. São informações muito importantes.

E assustadoras.

Em relação aos meios de contenção da doença, por exemplo, ele comenta que “a Itália segue a abordagem chinesa do bloqueio total”, cujo efeito imediato é a paralisação da economia, aumentando a “recessão macroeconômica”.

Mas, no caso britânico, diz ele, a abordagem é diferente e “muito arriscada”. Trata-se:

...de auto isolamento para os vulneráveis​, permitindo que jovens e saudáveis ​​sejam infectados, a fim de criar a chamada imunidade de rebanho e evitar que o sistema de saúde seja sobrecarregado. O que essa abordagem significa é basicamente deixar morrerem os velhos e vulneráveis, porque eles vão morrer de qualquer maneira se infectados e evitar um bloqueio total que danificaria a economia (e os lucros). A abordagem dos EUA é basicamente não fazer nada: nenhum teste em massa, nenhum auto isolamento, nenhum fechamento de eventos públicos; apenas esperar até as pessoas ficarem doentes e depois lidar com os casos mais graves.

Poderíamos chamar essa última abordagem de resposta malthusiana. O mais reacionário dos economistas clássicos no início do século 19 foi o reverendo Thomas Malthus, que argumentou que havia muitas pessoas pobres “improdutivas” no mundo, então pragas e doenças regulares eram necessárias e inevitáveis ​​para tornar as economias mais produtivas.

Não à toa, diz Roberts, Marx chamou a “economia clássica” do século 19 de filosofia da miséria. O problema é que o século 19 ficou para trás, mas não sua filosofia. Muito menos a miséria causada por ela.

Leia também: Coronavírus-19 e luta de classes

8 de maio de 2019

No fundo do poço, rosnados e grunhidos

A economia brasileira pode estar na antessala da recessão. É o que afirma reportagem de Eduardo Maretti, publicada pela Rede Brasil Atual, em 05/05/2019.

A matéria ouviu João Sicsú, professor do Instituto de Economia da UFRJ. Segundo ele, a economia nacional:

...mergulhou no fundo do poço e está lá, dando suspiros. Nesses suspiros, às vezes há sinais positivos, às vezes negativos. O saldo é que caminhamos no fundo do poço e estamos nessa situação. Desde o final de 2014, e em 2015 e 2016, mergulhamos no poço. E em 2017, 2018 e 2019, estamos dando suspiros dentro do fundo do poço.

Sicsú diz que Bolsonaro não apresentou nenhum programa de retomada do crescimento e redução do desemprego. Seu foco, afirma ele, são as reformas como a da Previdência. Para o economista, independentemente de se concordar com tais propostas:

...o fato é que não dão nenhum resultado imediato. Portanto, o governo não tem instrumento de combate à depressão. O problema imediato é o desemprego, que só pode ser reduzido com política de retomada de crescimento, que não é o foco do governo. O resultado é a continuidade do estado de depressão.

Com esse governo, no entanto, nunca se sabe se a situação tal como está não serve a algum propósito perigoso e traiçoeiro. Um “quanto pior, pior”, que convidaria a soluções conservadoras extremas. Afinal, Bolsonaro nunca escondeu que, para ele, a ditadura nunca deveria ter acabado.

Talvez, não sejam apenas suspiros que saiam do fundo do poço. Com alguma atenção, também seria possível ouvir os grunhidos e rosnados de uma besta que se alimenta do desespero popular.

26 de abril de 2019

Novo surto da crise mundial no horizonte

A revista eletrônica espanhola Sin Permiso publicou um artigo de Michael Roberts, em 19/04/2019. O economista marxista britânico inicia o texto alertando que em recente reunião conjunta, FMI e Banco Mundial novamente avaliaram que se tornou muito provável uma “nova recessão” na economia mundial.

Mas o que interessa destacar são as conclusões do próprio Roberts:

Toda crise possui um gatilho diferente ou causa próxima. A recessão internacional de 1974-5 foi provocada por um forte aumento dos preços do petróleo e o abandono dos Estados Unidos do padrão dólar-euro. A crise de 1980-1982 foi provocada por uma bolha imobiliária na Europa e uma crise industrial nas principais economias. A recessão de 1990-2 foi provocada pelos preços do petróleo e a guerra do Iraque. A leve recessão de 2001 foi o resultado da explosão da bolha dot.com. E a Grande Recessão se iniciou com o colapso da bolha imobiliária nos Estados Unidos (...). Mas, por trás de cada uma destas crises está o movimento de queda na rentabilidade do capital produtivo e, finalmente, uma desaceleração ou diminuição da massa de lucros.

Desta vez, acredito que o deflagrador será a dívida empresarial, já que as empresas conseguem acumular um excesso de créditos baratos e quando os lucros caem e o custo dos juros sobe, tornam-se insolventes.

Importante acrescentar que, de todas as crises acima, a mais profunda foi a de 2008. Aquela que nunca terminou e trouxe com ela uma onda ultraconservadora que vem varrendo muitos países importantes.

Quando um novo surto da crise vier, ou a classe trabalhadora responde com suas alternativas socialistas ou haverá ainda mais barbárie.

Dez anos de uma crise que não terminou

1 de novembro de 2018

Desesperadamente otimistas

“Desesperadamente otimista”, foi assim que Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI, declarou estar se sentindo quanto ao futuro próximo da economia mundial.

Foi na reunião anual entre Banco Mundial e FMI, ocorrida de 9 a 14/10/2018, na Indonésia. Provavelmente, ela quis dizer que precisa estar otimista ou terá que admitir que é grande a possibilidade de uma nova catástrofe econômica para breve.

Entre as maiores preocupações, um nível de endividamento jamais visto desde a Segunda Guerra, a guerra comercial entre Estados Unidos e China e as “fintechs”. Estas últimas são a mais recente invenção infernal do capital.

As fintechs são instituições financeiras de alta tecnologia, que fogem às regulamentações do setor. Por isso, até recentemente, eram chamadas de “bancos das sombras”.

Ganharam status de “novas tecnologias”, mas continuam perigosas. Talvez, um novo tipo de subprime, que, tal como as fintechs, surgiu com o pretexto de facilitar crédito aos mais pobres.

Enquanto isso, no Brasil, não poderíamos estar em pior situação para enfrentar um novo surto da crise que começou em 2008. O governo eleito prometeu coisas contraditórias a públicos diferentes.

Se apresenta tanto como protetor da soberania nacional, como ultraliberal, disposto a escancarar a economia aos investimentos estrangeiros.

Afirma que não quer vender o país para a China, mas ataca o Mercosul, cujo enfraquecimento poderia deixar terreno livre para o capital chinês.

Para não falar na disposição de lidar com crises sociais decorrentes de uma nova recessão mundial na base da repressão mais brutal.

Enfim, tal como a diretora do FMI, também estamos desesperadamente otimistas, mas nosso otimismo depende demais de nossa vontade. Que ela seja poderosa.

Leia também: Lutar. Sempre!

16 de agosto de 2018

Notícias póstumas sobre um capitalismo moribundo

Em 12/08/2018, o Estadão reproduziu reportagem publicada pelo “The Economist” sobre o livro “Quebradeira: como uma década de crises financeiras mudou o mundo”, ainda sem edição brasileira.

A obra do historiador britânico Adam Tooze mostra que os principais mecanismos causadores da crise mundial de 2008 continuam em pleno funcionamento.

Um trecho da resenha afirma:

Ninguém que dormisse em 2006 e despertasse para observar os mercados financeiros hoje teria ideia de que houve uma crise. Os preços das ações nos EUA tiveram repetidamente novas altas e as valorizações foram superadas apenas pelas épocas de bolha de 1929 e 2000. As taxas de juros pagas por governos e corporações para tomar dinheiro emprestado são muito baixas, tomando-se por base padrões históricos. Em termos globais, o volume da dívida em relação ao PIB é quase tão alto quanto era antes da crise.

Outra passagem utiliza a seguinte metáfora:

Os bancos centrais interromperam um ataque cardíaco econômico global com uma cirurgia de emergência, mas o paciente voltou aos velhos hábitos de fumar, beber demais e se encher de comida gordurosa. Ele pode até parecer saudável, mas o próximo ataque poderá ser mais violento, e as técnicas de ressurreição que funcionaram uma década atrás podem não dar certo uma segunda vez.

Chris Harman, no entanto, prefere outra imagem. Em seu livro “Capitalismo Zumbi”, de 2009, ele afirma que o capitalismo estaria “morto para o efeito de atingir objetivos humanos e de responder a sentimentos humanos”, mas é “capaz de exercer atividades causadoras de caos em seu próprio entorno”.

Em outras palavras, seja agonizando, seja morto, o sistema permanece fatal.

Leia também: Nova crise mundial pode arrastar até a China

30 de julho de 2018

Estados Unidos e China, da guerra comercial à guerra quente

A Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética causou muito medo pelo mundo. Mas jamais chegou a esquentar porque os arsenais das duas potências seriam capazes de fritar todo o planeta em poucas horas.

A atual guerra comercial que Trump iniciou contra a China também assusta. Mas, tal como aconteceu naquela, não interessa aos envolvidos elevar demais sua temperatura.

Trump aumentou as tarifas sobre exportações chinesas, por exemplo. Mas o governo chinês poderia fazer algo muito pior. Beijing é o maior investidor mundial em papéis do Tesouro Americano. Basta que pare de comprá-los para que o crédito nos Estados Unidos encareça e ameace a atividade econômica ianque.

No entanto, os chineses dificilmente farão isso porque significaria menos encomendas americanas para suas fábricas. Além disso, a maior empresa do mundo é a estadunidense Apple, cuja produção vem em grande parte da China.

Por fim, os chineses criaram, recentemente, a estratégia “Zhongguancun Development Group”, que estabeleceu vários centros de inovação tecnológica fora da China. Os mais importantes estão na Califórnia, onde ficam a Universidade de Stanford e as sedes de Google e Apple, e em Boston, próximos de Harvard e do MIT.

Toda essa inter-relação sino-americana tenderia a manter a guerra comercial em baixa temperatura não fosse por um detalhe.

A China criou a maior classe operária da história, concentrada em unidades imensas que produzem para o mundo todo. Os níveis de desigualdade são brutais e há pouca liberdade política e sindical.

Portanto, há material inflamável suficiente para colocar fogo no cenário. Principalmente, com um piromaníaco como Trump rebolando no palco principal.

27 de abril de 2018

O exército de trabalhadores e suas divisões

É costume dizer que Marx falhou completamente em sua previsão de que o desenvolvimento capitalista levaria a que a burguesia se visse cercada por uma grande e homogênea classe social: o proletariado. Tais críticas costumam traduzir proletariado por “classe operária”, quando a interpretação correta seria “classe trabalhadora”.

Mas no volume 3 de “O Capital”, Marx argumentou que mesmo essa grande classe trabalhadora está marcada por:

...uma hierarquia de forças de trabalho, à qual corresponde uma escala de salários (...). Ao lado das gradações da hierarquia, aparece a simples separação dos trabalhadores em qualificados e não qualificados.

De fato, em 1997 foi publicado um estudo sobre a estrutura de classes de Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Suécia, Noruega e Japão. Nele, Erik Olin Wright descobriu entre os setores que não possuem grandes meios de produção (fábricas, fazendas, supermercados etc.), três divisões com base nas habilidades (especialista, qualificado, não qualificado) e três baseados na autoridade (gerente, supervisor, sem autoridade). O resultado geral, portanto, foram nove frações internas à classe trabalhadora.

Os resultados correspondem ao que disse Marx em sua grande obra econômica:

Um exército industrial de trabalhadores sob o comando de um capitalista exige, como num exército normal, oficiais (gerentes) e sargentos (capatazes, supervisores) que comandam durante o trabalho o processo em nome da capital.

Ou seja, confirma-se não apenas a previsão marxista de que um imenso contingente de explorados cerca a burguesia por todos os lados. Mas também que, infelizmente, as tropas desse exército continuam muito divididas.


Leia também: No comunismo, ainda haveria inveja, sofrimento, mau gosto…

25 de abril de 2018

O fio da meada dos juros altos

"Precisamos falar sobre bancos”, diz Lauro Gonzalez, em artigo no Globo, de 24/04/2018. E, realmente, o que não falta é jornalista e especialista falando deles. Principalmente, sobre a persistência dos juros altos apesar da queda da taxa Selic, determinada pelo Banco Central.

Gonzalez e muitos outros comentaristas da grande imprensa apontam como causa principal do problema a concentração bancária. “No Brasil, diz ele, os cinco maiores bancos detêm quase 90% dos empréstimos”.

Seria ela que permite aos bancos cobrarem, por exemplo, juros nas operações de cartão de crédito de quase 400% anuais, contra um índice Selic de 6,5%. Ou seja, uma taxa 61 vezes maior!

Mas há outro fator. Recente levantamento do Centro de Estudos do Mercado de Capitais (Cemec), vinculado à Fipe-USP, mostrou que do total de recursos captados pelo sistema bancário 72% estão aplicados em títulos do Tesouro Nacional.

Ou seja, em papéis da imensa, imoral e ilegítima dívida pública, que tira, principalmente, dos serviços públicos, quase R$ 2 bilhões por dia. Aí, vender crédito, principal função dos bancos, virou mero detalhe.

Aparentemente, procuram culpar o crédito caro pela paralisia econômica do País. É verdade que os juros altos têm grande responsabilidade nisso. Mas foram os violentos cortes dos investimentos públicos adotados já por Dilma e aprofundados por Temer, que agravaram as consequências da crise mundial que chegou forte por aqui, por volta de 2014.

Somente a enorme concentração bancária nacional não explica o caos econômico atual. Há também a indecente dívida pública, a vergonhosa concentração de riqueza e, na origem da meada, o capitalismo asfixiando ainda mais uma sociedade já profundamente injusta.  

13 de dezembro de 2017

Tudo o que é sólido termina em exploração

“Capitalismo sem capital” é o nome de um recente livro publicado pelos britânicos Jonathan Haskel e Stian Westlake. Ainda sem edição no Brasil, a obra foi comentada por John Harris, em artigo reproduzido pelo portal IHU-Online.

Harris cita a famosa frase “Tudo o que é sólido desmancha no ar” para explicar o fenômeno que dá nome ao livro. Segundo ele, a nova economia dos aplicativos seria a melhor demonstração daquela passagem do Manifesto Comunista.

Afinal, a Airbnb não tem imóveis, o Alibaba não tem estoque e a Uber não tem automóveis, diz o artigo. Seriam exemplos perfeitos de capitalismo sem capital. Da crescente economia de bens intangíveis.

Mas, se realmente Haskel e Westlake utilizam como referência Marx e Engels, não entenderam nada de sua obra.

Primeiro, quando o Manifesto afirma que tudo que é sólido desmancha no ar, está se referindo à consolidação do capitalismo, não a seu desaparecimento. Airbnb, Alibaba e Uber são radicalizações dessa tendência, não sua negação.

Em segundo lugar, em “O Capital”, Marx deixou claro: “O capital não é uma coisa, mas uma relação social”.

A mercadoria mais valiosa na produção capitalista é a força-de-trabalho. Integrada à massa de forças-de-trabalho do conjunto dos trabalhadores, ela torna-se o mais intangível dos bens.

É exatamente esta intangibilidade da força-de-trabalho que permite esconder sua exploração como fundamento maior da sociedade atual.

Na verdade, a única coisa realmente sólida no capitalismo tem sido a exploração de uma maioria que só aumenta por uma minoria cada vez menor.

Mas Harris tem razão numa coisa. A atual fase do capitalismo “provavelmente disseminará incerteza e agitação como nunca”.

Leia também: Marx e Engels 4.0