Doses maiores

Mostrando postagens com marcador pedagogia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador pedagogia. Mostrar todas as postagens

28 de fevereiro de 2024

Os professores Nádia e Lênin

Quando Nádia Krupskaya conheceu Lênin, seu futuro companheiro, não gostou muito do comportamento implacável que ele adotava nas polêmicas partidárias. Por outro lado, a capacidade pedagógica de Lênin a impressionou muito positivamente. Nos grupos de estudos com trabalhadores, por exemplo, a primeira metade da aula era dedicada a uma apresentação de algum aspecto do “Capital”, de Marx. Na outra metade, Lênin estimulava os alunos a falarem sobre detalhes de suas vidas profissionais, relacionando os relatos ao que já haviam discutido.

Lênin também esteve na vanguarda daqueles que defendiam um método de agitação centrado nas necessidades cotidianas dos trabalhadores, apoiando ativamente suas lutas por melhorias no local de trabalho e combinando as lutas econômicas e políticas. Em suma, escreveria Nádia sobre Lênin mais tarde, ele fornecia “um exemplo brilhante de como abordar o trabalhador médio da época”.

Mas a própria Nádia era uma professora popular e respeitada entre os trabalhadores. Também era considerada uma organizadora extraordinariamente esforçada e eficaz, seja na sala de aula ou na clandestinidade. Por toda a sua vida, continuaria demonstrando talento em atrair mulheres trabalhadoras e jovens para a luta. Profundamente consciente das injustiças que permeavam a sociedade, ela comentava várias vezes, quase compulsivamente: “o trabalhador russo vive mal”, “nossos camponeses não têm direitos” e “a autocracia é inimiga do povo”, sempre procurando fazer avançar a si mesma e aos outros na luta por uma vida mais justa.

As informações acima estão no livro “Lenin: Responding to Catastrophe, Forging Revolution“, do marxista estadunidense Paul Le Blanc. Voltaremos a comentar essa obra durante este ano, que marca o centenário da morte do líder bolchevique.

Leia também: O Pravda enganando a perseguição czarista

14 de agosto de 2016

A Escola sem Partido na caverna de Platão

A famosa parábola de Platão narra a situação de alguns homens que sempre viveram em uma caverna. Obrigados a ficar voltados para seu interior, eles acreditavam que as sombras projetadas nas paredes pela luz externa representavam toda a realidade.

Quando um deles consegue sair, descobre que do lado de fora, a vida real apresentava muito mais cores, sons, volume, sensações. De volta à escuridão, tentou convencer seus pares da ilusão de que eram vítimas. Foi considerado louco e morto por eles.

Os partidários do Escola Sem Partido tentam identificar os professores de esquerda como os cultuadores das sombras dessa fábula platônica. Seriam eles os responsáveis por manter seus alunos escravizados a suas ideologias sombrias.

Mas o principal alvo dos defensores dessa proposta é o direito à explicitação das diferenças. Sejam elas religiosas, sexuais, étnicas, culturais, políticas...

Os promotores da Escola sem Partido fingem ignorar que divergir entre si é uma das “especialidades” das forças de esquerda. Muitas delas gostam de se considerar superior às outras. Mas nem por isso, a maior e melhor parte delas defende exclusividade para suas visões.

Já a direita, adota um comportamento fundamentalista, tal como definido pelo marxista Terry Eagleton em entrevista publicada pelo El País em 12/08:

“...o fundamentalismo tem suas raízes não no ódio, mas no medo. O medo de um mundo moderno e mutante, em que tudo está em movimento. Onde a realidade é transitória e com um final não definido. Onde as certezas e os pilares mais sólidos parecem ter desaparecido”.

Contra a escola das cavernas, a coragem da educação exposta à luz do dia.

Leia também: Escola sem Partido, mas dominada por ideologias conservadoras

9 de agosto de 2016

Escola sem Partido, mas dominada por ideologias conservadoras

O projeto Escola Sem Partido é pura desonestidade. A começar por seu nome, que procura transformar seus opositores em defensores de algo que não apoiam: o proselitismo político-partidário dentro das salas de aula.

A pretensão do projeto é combater a presença de qualquer ideologia nas escolas, seja de direita ou de esquerda.

Norberto Bobbio (1909-2004) é um respeitado filósofo italiano. Democrata liberal, sempre foi um crítico do marxismo. Em sua famosa obra "Dicionário de Política", o verbete “Ideologia” é assim descrito:

Tanto na linguagem política prática, como na linguagem filosófica, sociológica e político-científica, não existe talvez nenhuma outra palavra que possa ser comparada à Ideologia pela freqüência com a qual é empregada e, sobretudo, pela gama de significados diferentes que lhe são atribuídos.

A publicação também afirma que por Ideologia, os marxistas entendem “ideias e teorias que são socialmente determinadas pelas relações de dominação entre as classes”. Portanto, queiramos ou não, estamos sempre mergulhados em ideologia.

Segundo Gramsci, a ideologia dominante é formada por uma maçaroca de concepções de mundo, misturando religião, filosofia, valores tradicionais e modernos, crenças e preconceitos etc.

Mas toda essa confusão é conduzida de modo a levar à aceitação da sociedade tal como ela é, com suas injustiças e desigualdades. É a esta tarefa que se dedicam aparatos ideológicos como jornais, TVs, instituições religiosas e estatais, incluindo as próprias escolas.

A escola não deve ensinar ideologias. Deve desvendá-las. Mostrar seus condicionantes sociais e julgá-las segundo valores como solidariedade, igualdade, respeito à diferença, democracia, justiça social.

O contrário disso é querer impor o monopólio de apenas algumas ideologias. Principalmente, as conservadoras.

5 de agosto de 2016

Escola sem Partido e sem Cidadania recruta fascistas

Os defensores do Projeto Escola sem Partido alegam combater o ensino de temas considerados de esquerda. Mas basta observar algumas de suas afirmações para verificar a enorme confusão que procuram fazer.

Um exemplo é o que afirma sobre o conceito de cidadania o advogado Miguel Nagib, principal porta-voz do projeto. Em depoimento publicado na revista da EPSJV/Fiocruz, em 06/04, ele comentou uma pesquisa do Instituto CNT/Sensus em que 78% dos professores consideram “formar cidadãos” sua principal missão. Segundo Nagib:

Esse “formar cidadãos” tem um significado muito claro: a ideia é de você despertar o senso crítico para que um estudante tenha uma visão política e crítica sobre a realidade. E todos esses dados convergem no sentido de que isso efetivamente acontece.

Ou seja, o que deveria ser comemorado, o ilustre advogado lamenta. Mas lamentável mesmo é que ele simplesmente ignore que “formar para o exercício da cidadania” está previsto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.

Por outro lado, Nagib tem toda razão em se preocupar. Afinal, a esquerda realmente pode fazer um bom uso da educação para a cidadania em sua luta por justiça social. Não se pode dizer o mesmo das forças de extrema-direita em relação aos seus objetivos.

Mesmo a mais liberal das abordagens sobre cidadania pressupõe uma igualdade pouco compatível com racismo, machismo, homofobia e outras formas de discriminação e opressão tão caras às forças ultraconservadoras.

Ou seja, formar cidadãos só não combina mesmo com os valores defendidos pelos partidos que estão por trás do projeto Escola Sem Partido.

Escolas sem cidadania podem se tornar bons lugares para recrutar fascistas.

1 de dezembro de 2015

Ocupar as escolas, educar para a liberdade

Publicada em abril de 2014, a pílula Escolas públicas, só para minorias disciplinadas tinha como tema um estudo da Fundação Lemann que atribuía grande parte dos problemas do sistema escolar nacional à indisciplina reinante entre a maioria dos alunos.

Segundo aquela pesquisa, a escola pública estaria muito bem se a grande maioria de seus alunos não atrapalhasse. Mas, na verdade, dizia o texto, é exatamente o comportamento dessa maioria que atesta a falência do modelo educacional moderno, inspirado em quartéis, mosteiros e hospícios.

Afirmava, ainda, que a saída para esta situação viria da rebeldia que o próprio sistema provoca. Não a revolta cega, mas aquela que liberta a criatividade necessária a qualquer verdadeiro processo de aprendizado.

Desde o início de novembro passado, os estudantes da rede pública estadual de São Paulo vêm ocupando suas escolas. O objetivo imediato era impedir o fechamento de 93 unidades programado pelo governo Alckmin. Mas o número de escolas ocupadas já chega a quase 200.

Diante do ataque a suas comunidades escolares, os estudantes se descobrem questionadores de um modelo educacional autoritário. Inventam atividades didáticas, organizam debates, descobrem material e equipamentos abandonados e mofando em salas trancadas.

Em resposta, o governo tucano utiliza a violência policial, única política que conhece para os mais pobres.

Infelizmente, é provável que essa saudável onda de rebeldia seja esmagada pela truculência policial combinada às mentiras e traições em que se especializou a política institucional. Mas, mais uma vez, nossas escolas públicas terão provado que podem superar os limites que o poder tenta lhes impor e podem educar para a liberdade.

9 de junho de 2015

Redução da maioridade e voto aos 16 anos

Quem defende a redução da maioridade penal gosta de argumentar que se alguém com 16 anos pode votar, também deveria estar sujeito às punições do código penal.

Os que são contra costumam negar que se possa comparar as duas situações. Muito corretamente, lembram que, num caso, trata-se do exercício da cidadania, no outro, de sua cassação. Além disso, a lei pressupõe a imaturidade do eleitor menor de idade ao barrar-lhe o direito a se candidatar.

Mas, talvez, fosse interessante admitir que realmente há algo que pode ser comum às duas situações. Cada uma a seu jeito, ambas podem ganhar um importante caráter pedagógico.

O que aprende um jovem quando vota? A participar da cidadania, diriam alguns. Pode ser, mas, de preferência, para descobrir como a atuação política precisa avançar muito além do mero sufrágio universal inofensiva e sazonalmente registrado em urnas.

O que o sistema prisional ensina a quem está sob sua custódia? A aperfeiçoar-se nas artes bárbaras da criminalidade junto a outros detentos, mas também com o competente auxílio e orientação dos próprios agentes da lei.

O que tudo isso deveria ensinar ao jovem eleitor e ao adolescente infrator?

A respeitar as leis, claro. Desde que isso jamais signifique abrir mão do direito de desafiá-las quando servirem para assegurar privilégios para minorias poderosas. Não através da delinquência, mas por uma atuação política que não se contente com o simples exercício de direitos eleitorais.

O que num caso e outro podem aprender os jovens? A lutar. Principalmente, contra uma tirania classista que transforma alguns jovens em apáticos eleitores e trancafia muitos outros para doutorá-los no crime.

Leia também: Aantiga conspiração das facas

21 de setembro de 2014

Paulo Freire, educador a serviço da libertação popular

Em 19/09, completaram-se 93 anos do nascimento de Paulo Freire. Não à toa, o grande pedagogo é mais lembrado por seu nome do que por sua obra.

O educador pernambucano defendia a pedagogia como formação de consciência política. Principalmente, entre os mais pobres. Não por acaso, dedicou-se à alfabetização de adultos, cuja ignorância da cultura letrada é aproveitada pelas elites para aumentar sua exploração e opressão.

Mas Freire deveria ser mais estudado pela forças de esquerda que se reivindicam revolucionárias. Para ele, a educação a serviço da revolução não é compatível com a relação que opõe pessoas desprovidas de saberes próprios a quem domina o conhecimento de forma absoluta. Como disse Freire: “... ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção”.

Não basta às práticas educativas que se pretendam revolucionárias apenas afirmarem a defesa da revolução. É preciso tornar consequente, do ponto de vista pedagógico, a terceira tese marxiana sobre Feuerbach. Ela afirma a necessidade de “o educador também ser ele próprio educado”. Do contrário, acabamos por “separar a sociedade em duas partes, uma das quais fica elevada acima da sociedade”. Ou seja, relações autoritárias se estabelecem mesmo entre os que dizem combatê-las.

No mesmo sentido, é importante lembrar a afirmação gramsciana segundo a qual todos os seres humanos são intelectuais. E devem ser respeitados como tal.

Por defender tais princípios, Paulo Freire foi encarcerado pela ditadura militar. Apesar disso, recebeu de universidades como Harvard, Cambridge e Oxford 41 títulos de Doutor Honoris Causa. Certamente, nenhum deles tão honroso como o de educador dos humilhados e ofendidos.


17 de abril de 2014

A escolarização e os artesanatos de Deus

Uma das primeiras cenas do documentário “Escolarizando o mundo” mostra um quadro pintado em 1872. A imagem exibe uma mulher branca em vestido alvo, flutuando por cima de uma planície americana. Colonos brancos a seguem, enquanto índios e animais nativos fogem. Ela representa o progresso. Em sua testa, a estrela do império. Em sua mão direita, um livro escolar.

Durante o século 19, os Estados Unidos avançaram rumo ao Oeste. Em sua marcha, internaram milhares de crianças indígenas nas escolas das reservas. Queriam educá-las, diziam. Na verdade, estavam destruindo seu modo de vida. À violência das armas juntava-se o massacre cultural.

A este processo, a produção chama de escolarização ocidental. Ela representa a imposição de uma monocultura nas relações humanas. A enorme diversidade dos modos de ser de nossa espécie resumida e unificada em torno dos restritos e mesquinhos valores do mercado. O mesmo currículo aplicado por toda parte, sempre buscando formar mão de obra a ser explorada.

Um dos entrevistados diz que a pergunta sobre o que significa ser humano ainda é respondida por 6 mil vozes diferentes. Correspondem às várias culturas da humanidade espalhadas pelo planeta. Mas esta riqueza polifônica vem sendo transformada em uma cantoria de uma nota só pelo padrão escolar imposto pela sociedade industrial.

Este processo priva humanidade das inúmeras formas que desenvolveu para se relacionar entre si e com o restante da natureza. Um metabolismo cuja riqueza se manifesta principalmente nas relações com o divino. Como disse o Prêmio Nobel de Poesia de 1927, Rabindranath Tagore, a escolarização “arranca as crianças de um mundo repleto de artesanatos de Deus…”.



16 de abril de 2014

Escolas públicas, só para minorias disciplinadas

Em 14/05, O Globo publicou na capa: “Rotina de indisciplina explica nota vermelha do ensino no Brasil”. A matéria aborda uma pesquisa feita com diretores de escolas pelo Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) em 2012.

Dados “tabulados com exclusividade” pela Fundação Lemann apontariam fatores importantes para a “baixa qualidade“ da educação no Brasil. Entre eles, “evasão, atraso e falta a aulas por alunos e professores, uso de álcool e drogas por estudantes, bullying e falta de respeito com os docentes”.

Nenhuma palavra sobre os péssimos salários dos trabalhadores e a falta de estrutura do setor. O que interessa é denunciar a indisciplina no ambiente escolar. Pretensão confirmada pela opinião de um professor do ensino médio.

O educador dá aulas em uma escola pública de Duque de Caxias, Rio de Janeiro. Ele reclama da falta de respeito dos alunos em relação aos docentes e diz com a maior naturalidade:

A agressividade e a falta de respeito atrapalham os alunos bons que querem participar, mas ficam cansados com essas situações. A grande maioria atrapalha os outros.

Em outras palavras, a escola estaria muito bem se a grande maioria de seus alunos não atrapalhasse. Na verdade, é exatamente o comportamento dessa maioria que atesta a falência desse modelo escolar. Um modelo disciplinador, inspirado nos quartéis, mosteiros e hospícios.

Ao contrário do que diz a reportagem, a saída para esta situação virá da rebeldia que o próprio sistema provoca. Não a revolta cega, nem a que atinge professores e outros profissionais da educação. Mas aquela que liberta a criatividade necessária a qualquer verdadeiro processo de aprendizado.

15 de abril de 2014

Educação e escolas têm pouco em comum

“Deixe tudo que for indígena dentro de você morrer”. O Capitão Richard Henry Pratt costumava dirigir essas palavras aos alunos de sua escola para índios, fundada na Pensilvânia, Estados Unidos. Outra afirmação de mesmo quilate é de Ellwood P. Cubberly, respeitado professor da Universidade de Educação de Stanford:

Nossas escolas são, em certo sentido, fábricas, nas quais as matérias primas -crianças- são moldadas e modeladas em produtos. As especificações para a produção vêm das demandas da civilização do século XX, e é o dever da escola construir seus alunos de acordo com as especificações dadas.

Para William Torrey Harris, ministro da Educação dos Estados Unidos, o ensino é melhor praticado “em lugares feios, escuros e sem ar”. Isso afastaria o indivíduo das belezas do mundo exterior. O educador Thomas Babington Macaulay pretendia que as escolas coloniais inglesas na Índia tornassem as crianças nativas “brancas por dentro”.

Todas essas “pérolas” de estupidez pedagógica são do século 19. Mas as escolas continuam a aperfeiçoar estas ideias absurdas. Albert Einstein sempre foi um aluno considerado medíocre. Fez o que fez na ciência apesar da escola, não por causa dela. Não à toa, disse uma vez:

É quase um milagre que os métodos modernos de instrução não tenham exterminado completamente a sagrada sede de saber, pois essa planta frágil da curiosidade científica necessita, além de estímulo, especialmente de liberdade; sem ela, fenece e morre.

Estas e outras frases estão no documentário “Escolarizando o Mundo”, que pode ser encontrado facilmente na internete. A produção mostra mais uma vez que escolas e educação têm muito pouco em comum.

Leia também: A casa das estrelas e as fábricas de zumbis

2 de dezembro de 2013

A casa das estrelas e as fábricas de zumbis

"Ainda pequeno tive que interromper minha educação para ir à escola", disse George Bernard Shaw (1856-1950). O famoso dramaturgo irlandês é autor de várias frases espirituosas como esta. Mas talvez jamais as produzisse se dependesse da “pedagogia” do século 21.

É que “zumbis” não costumam ser muito criativos. E é este tipo de aluno que os “modernos” meios didáticos estão gerando. O mais novo ingrediente dessa produção é a ritalina. Trata-se de substância receitada por médicos para tornar cérebros infantis e adolescentes mais concentrados nos estudos.

É o que revela o artigo “Ritalina, a droga legal que ameaça o futuro”, de Roberto Amado, publicado no blog Diário do Centro do Mundo, em 25/11. Segundo o texto, “com efeito comparável ao da cocaína, a droga é receitada a crianças questionadoras e livres”. Sob seu efeito, a criança “para de viajar, de questionar...”.

Mas a droga é só mais um produto da ditadura da competição capitalista. A mesma que transforma escolas em fábricas de “robozinhos sem emoções”.

A frase de Shaw está na introdução do livro "Casa das estrelas: o universo contado pelas crianças", de Javier Naranjo. Recém-lançada no Brasil, a obra colombiana contém definições de crianças pequenas para várias palavras. O nome do livro, por exemplo, surgiu da definição de um garoto para a palavra Universo.

O livro mostra elaborações criativas, que ganham sentidos poéticos e adivinham o sentido profundo de certos conceitos. É o caso da definição de Igreja: “Onde as pessoas vão perdoar Deus”. Ou de Solidão: “Uma novela de televisão”. Ou ainda de Professor: “É uma pessoa que não se cansa de copiar”.

6 de novembro de 2013

Desmontar a produção de vontades domesticadas

Encerrando os comentários ao livro de Lauro de Oliveira Lima, “Pedagogia: reprodução ou transformação”, mais alguns de seus trechos.

Aprender (aptendere) é “pegar no ar” algo que foi jogado, como se faz quando alimentam-se os cães: joga-se o naco de carne para ser abocanhado, num pulo pelo animal. O professor joga, também, o “ensino” no ar, e o aluno que “apreenda” (aprenda) se quiser e como puder...

Citando Rousseau: “A mania pedantesca do mestre é sempre ensinar às crianças aquilo que elas aprenderiam melhor por si mesmas”. E Jean Piaget: “Tudo o que se ensina à criança impede que ela descubra ou invente”. E o autor propõe:

...o ápice do êxito do professor é TORNAR-SE DESNECESSÁRIO, suicídio profissional que só pode ser praticado pelos educadores que, em vez de fazerem da classe um palco para seu HAPPENING, fazem dela uma plataforma donde os jovens autônomos alçam voo para outras galáxias!

Lima também sugere que os professores deixem de se comportar como “capatazes encarregados de fazer os operários trabalharem para o patrão”.

Mas como alcançar algo assim atuando no interior de um sistema criado para fazer o exatamente o oposto? Talvez, aproveitando suas brechas. E as mais importantes delas surgem nos momentos de greve e outras lutas. Mas é preciso ir muito além da pauta salarial.

Operários em greve tentam superar a mera negociação econômica quando procuram controlar a produção. Nas escolas, não basta paralisar a fabricação de vontades domesticadas. É preciso desmontá-la e convidar educadores, alunos e responsáveis a descobrir como criar jogos pedagógicos no lugar de técnicas de adestramento.

4 de novembro de 2013

A pedagogia que violenta carcereiro e encarcerado

Continuamos a discutir o livro de Lauro de Oliveira Lima, “Pedagogia: reprodução ou transformação”. Publicado em 1982, algumas de suas afirmações podem parecer descabidas atualmente. O autor diz, por exemplo, que “a maioria dos professores comporta-se como carcereiros ou guardas que vigiam o trabalho forçado dos presídios”.

Ocorre que carcereiros podem tornar-se tão prisioneiros quanto aqueles a quem devem guardar. E é isso o que vem acontecendo com o sistema escolar. Não só na rede pública. Nas escolas particulares, as condições de aprendizagem são muito melhores, claro. No entanto, seus métodos exigem obediência cega à lógica da competição mais extrema.

Assim, o que continua comum a todo o sistema escolar é seu caráter disciplinador. Com razão, Lima afirma que grande parte do tempo dos educadores “é dedicada à disciplina, como ocorre no exército”. Professores exigem, acima de tudo, respeito, diz ele. E respeito, em latim, significa “olhar para trás, demonstrando medo”.

As escolas já não são tão autoritárias como no tempo da ditadura, claro. Mas seus altos muros continuam vedando o acesso às falsas promessas de prazer e liberdade que o mercado faz.

Para muitas famílias pobres, a escola é, principalmente, um lugar para deixar as crianças enquanto trabalham. Esta é a principal queixa dos pais quando greves paralisam a rede pública. Já os ricos, consideram o estudo de seus filhos como investimento para o futuro, tal como ações na Bolsa.

Tudo muito distante das origens do sistema escolar. Formado, segundo Lima, pela “scholé” (lazer) e pelo “ludus” (jogo). Processo de desenvolvimento de atividades livres e situações problemáticas que "levam o pensamento para todas as direções".

Leia também: Micro dicionário da pedagogia de quartel

Micro dicionário da pedagogia de quartel

O livro “Pedagogia: reprodução ou transformação”, de Lauro de Oliveira Lima (1982), é um clássico da teoria da educação. Discípulo de Piaget, Lima era extremamente crítico à atual instituição escolar. Para dar uma ideia, segue abaixo a origem etimológica de alguns termos pedagógicos destacados pelo autor.

A palavra educação vem de “dux” e “ducis”, em latim “condutor”, “general”. “Educere” significa também puxar a espada. “Mestre” está ligado a “dominus”, o dono da casa. “Professor” vem do latim “profieri”, que quer dizer “ir na frente, gritando”, como fazem os “vaqueiros que conduzem a manada”.

Lente é “lector”. Na Idade Média, era aquele que lia pergaminhos e papiros para seus alunos. Com o tempo, o lente terminava por recitar o texto de cor. Provável origem do decoreba de nossos dias. A expressão latina “in signum” gerou “ensinar” e significa “dar ou colocar um sinal”, como fazem os pecuaristas com seu gado. No caso das escolas, o “ferro em brasa” deu lugar a “medalhas, notas e diplomas”.

Tudo isso pode parecer exagero. Mas serve como provocação para discutir nosso atual modelo pedagógico, resultado de uma longa evolução autoritária. Escolas são como quartéis que pretendem formar pessoas prontas a mandar nos de baixo e a obedecer os de cima. Servem à perfeição para uma sociedade autoritária, voltada para a exploração do trabalho humano.

Felizmente, os motins dentro dessas “casernas” escolares são cada vez mais comuns. Para os pedagogos conservadores, representam a “desmoralização da autoridade do professor”. Para a educação libertária, são gritos desesperados pela liberdade que deveria estar na base de todo processo pedagógico.

Leia também: Da pedagogia dos escravos à pedagogia da exploração

17 de outubro de 2013

Na pedagogia da revolução, revolucionário é aprendiz

A educação política dos trabalhadores sempre esteve entre as grandes preocupações dos revolucionários. Desde comunistas como Marx, Engels, Lênin, Trotsky, Rosa e Gramsci aos anarquistas Goodwin, Proudhon e Bakunin.

Entre nossos militantes da educação para a liberdade, destacam-se Dermeval Saviani e Paulo Freire. Saviani, por exemplo, definia a pedagogia contra-hegemônica como um processo que procura:

... desarticular dos interesses dominantes aqueles elementos que estão articulados em torno deles, mas não são inerentes à ideologia dominante e rearticulá-los em torno dos interesses populares, dando-lhes a consistência, a coesão e a coerência de uma concepção de mundo elaborada, vale dizer, de uma filosofia.

Ou seja, valores como solidariedade, justiça, igualdade não são propriedade da classe que mais os proclama e jamais os coloca em prática. Foram sequestrados por quem quer dourar sua dominação. A atividade educativa de contestação deve resgatá-los desse cárcere a serviço de interesses privados. Colocá-los à disposição dos únicos interessados na derrubada da ordem social atual: os que são explorados e oprimidos por ela.

Para Paulo Freire, somente na medida em que se descubram “hospedeiros do opressor”, os oprimidos poderão contribuir para o “partejamento de sua pedagogia libertadora”. Mas ele também adverte:

O caminho, por isto mesmo, para um trabalho de libertação a ser realizado pela liderança revolucionária não é a “propaganda libertadora”. Não está no mero ato de “depositar” a crença da liberdade nos oprimidos, pensando conquistar a sua confiança, mas no dialogar com eles.

Com tal afirmação, Freire dizia pretender apenas “defender o caráter eminentemente pedagógico da revolução”. Postura que permite deduzir a permanente condição de aprendiz que todo revolucionário deve assumir.

Leia também:

16 de outubro de 2013

A pedagogia da resistência está nas ruas

Uma das grandes contribuições do marxista Antônio Gramsci à teoria socialista foi o conceito de hegemonia. Segundo o revolucionário italiano, hegemonia é a liderança cultural-ideológica que uma classe exerce sobre as outras.

Vivemos em um sistema baseado na oferta voluntária de força de trabalho no mercado. Nenhuma lei  obriga a trabalhar em troca de salário ou remuneração. Portanto, a coerção não pode ser principal pilar da dominação da sociedade capitalista. É verdade que são muitas as vezes em que a classe dominante faz uso da violência estatal. Mas é o consenso social em torno dela que torna possível sua utilização.

Portanto, a dimensão consensual da dominação burguesa é fundamental. E seus elementos pedagógicos desempenham papel essencial na construção desse consenso. É por meio deles que são impostos valores que justificam a exploração e a opressão. Daí decorre a afirmação gramsciana de que “toda relação de hegemonia é necessariamente uma relação pedagógica”.

Felizmente, ao longo de séculos de luta, os dominados também desenvolveram sua própria pedagogia. Criaram suas práticas educativas de resistência e transformação social. E elas ensinam que construir consensos contra qualquer tipo de dominação implica convencimento, não coação. São as relações baseadas na persuasão que devem predominar entre os explorados e oprimidos, em suas lutas e organizações.

O combate sem tréguas e vitórias impiedosas devem ser reservados a nossos inimigos: a classe dominante, seus aliados, instrumentos políticos, aparelhos de dominação e de repressão. É como ensina a antiga palavra de ordem do pacifismo revolucionário: “Paz entre nós, guerra aos senhores”.

É esta pedagogia da resistência que vem sendo experimentada nas ruas brasileiras desde junho.

15 de outubro de 2013

Da pedagogia dos escravos à pedagogia da exploração

A reitoria da USP está sendo ocupada por seus alunos e funcionários. Entre as reivindicações, a eleição direta para reitor. Em 12/10, a Folha de S. Paulo publicou artigo de Marcos Fernandes G. da Silva sobre a questão. O título não deixa dúvidas: “Universidade não é nem deve ser democrática”.

Para o doutor em Economia da USP, a democracia deve ficar longe da administração e da gestão acadêmica. “A USP é como uma empresa e funcionário trabalha para os alunos e professores produzirem conhecimento e ensino”, diz Silva.

Pelo menos, o doutor não esconde seu desapego pela democracia. Mas sua concepção de universidade também tem pouco a ver com pedagogia. A palavra vem do grego “paidagogós”, produto da combinação entre “paidós” (da criança) com “agogós” (condutor). “Pedagogo” seria aquele que acompanhava a criança até o local de estudos, ocupação reservada aos escravos.

Mais tarde, “pedagogia” passou a significar “ciência da educação”, e deixou de se limitar à formação da infância. Com os atenienses, aproximou-se do conceito de “paideia”, cuja tradução em nossos dias seria “processo civilizatório”. Seria a busca de um povo pelo que consideraria ser o melhor em termos de cultura ou civilização.

Desde os gregos antigos, melhoramos. Já não admitimos a escravidão legal, por exemplo. Progrediríamos ainda mais se considerássemos a pedagogia como tarefa de todos os envolvidos nas atividades educativas. Não apenas de alguns doutores trepados em suas cátedras.

Nosso processo civilizatório também ganharia muito se a prática educativa deixasse de ter como modelo relações sociais humilhantes. No caso, as que resultam da exploração do trabalho humano que a atividade empresarial necessariamente implica.

Leia também:

14 de outubro de 2013

O animal que calcula

Somos os únicos animais que fazem cálculos. Um clássico da literatura brasileira trata dessa habilidade de modo mágico. É o livro “O Homem que Calculava”, de Malba Tahan, pseudônimo de Júlio César de Mello e Souza.

São histórias narradas na Bagdá muçulmana do século 13. O personagem principal é Beremiz Samir, que ao longo da narrativa soluciona e explica problemas, resolve quebra-cabeças e conta curiosidades da matemática.

O livro pretende diminuir o pânico de crianças e adolescentes em relação à matemática das salas de aula. Infelizmente, nem sempre consegue. A matéria continua a ser ensinada de modo abstrato e sem sentido. Parece uma religião para poucos, com garantia de castigo infernal para muitos.  

Muito provavelmente, a matemática tem esse ar ameaçador devido à divisão social do trabalho que impera em nossa sociedade. Uma repartição de ocupações em que a grande maioria executa tarefas sem ter a mínima ideia sobre os fins a que elas servem. Tal como a álgebra, cuja misteriosa mistura entre números e letras toma o lugar da transparente aritmética.

Além disso, sob a ditadura da circulação da mercadorias que nos governa, a quantidade é tudo. A qualidade pouco importa. Daí, a crescente precificação de tragédias sociais e problemas de saúde, por exemplo. Não importa quem são as vítimas, mas que prejuízos econômicos suas dores causaram.

Calcular é uma habilidade maravilhosa. Mas jamais deve se impor às inúmeras outras características de nossa espécie. Ao contrário, é a combinação delas todas que nos torna especiais.

Como diz o livro de Tahan: “É preciso desconfiar sete vezes do cálculo, e cem vezes do calculista.”

Leia também: A turbulenta infância da espécie humana

5 de setembro de 2013

O “Criança Esperança” e a pedagogia do opressor

A 28ª edição do Criança Esperança, promovida pela TV Globo, aconteceu no Rio de Janeiro, em 31/08. Trata-se do maior evento de filantropia do País. Mobilizou quase 800 mil doadores e arrecadou, pelo menos, R$10 milhões para a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).

Há muito tempo correm boatos de que a Globo lucra com a campanha. Mas o maior problema não é este. Se há crianças que são vítimas da injustiça social, monopólios como a Globo são os principais responsáveis. A seus proprietários deveria ser dirigida a pergunta que fez São Gregório de Nissa em seu “Sermão contra os Usuários”: “De que vale consolar um pobre, se tu fazes outros cem?”

O sermão é citado no livro “Pedagogia do Oprimido”, de Paulo Freire. Nesta obra tão importante, o autor diz que um dos mecanismos de dominação é aquele em que o oprimido incorpora a lógica do opressor. É isso que leva centenas de milhares de explorados a ajudar outros de seus pares, enquanto seus exploradores assistem de camarote.

Não se trata de condenar a caridade. Mas de defini-la como fez Freire na mesma obra. Referindo-se às mãos estendidas dos pobres, ele diz:

...a grande generosidade está em lutar, cada vez mais, para que estas mãos, sejam de homens ou de povos, se estendam menos, em gestos de súplica. Súplica de humildes a poderosos. E se vão fazendo, cada vez mais, mãos humanas, que trabalhem e transformem o mundo.

A transformação do mundo pelos oprimidos é condição para derrotar a pedagogia do opressor.