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4 de junho de 2024

Mais parteiras da revolução: Konkordia e Vera

Abaixo, novos relatos do livro “Parteiras da Revolução”, de Jane McDermid.

Uma grande lutadora bolchevique em defesa dos direitos das mulheres foi Konkordia Samoilova. Em 1903, quando fazia um trabalho militante entre ferroviários de Baku, ela foi acusada por algumas das esposas deles de tentar “roubar” seus maridos. O incidente ajudou a convencê-la da necessidade de concentrar-se no trabalho junto às mulheres da classe trabalhadora.

Dez anos mais tarde, Konkordia desempenhou papel fundamental na organização da primeira manifestação do Dia Internacional da Mulher na Rússia. Embora ela tivesse dificuldades em convencer seus camaradas bolcheviques a apoiarem suas ações, a persistência e seriedade de sua atuação conseguiu atrair muitas trabalhadoras.

Konkordia ajudou a fundar o “Rabotnitsa”, jornal bolchevique voltado para as mulheres operárias. Nessa condição, desenvolveu atividades de educação política através de cursos voltados às das trabalhadoras das fábricas. Trabalho que seria fundamental para a criação da seção feminina do partido. Konkordia morreria em 1921, aos 43 anos, vítima de cólera.

Assim como Nádia Krupskaya, esposa de Lênin, Vera Slutskaia atuava no importante distrito industrial de Vyborg, em Petrogrado. Inicialmente, ela resistia à organização separada das mulheres. Mas, diante da decisiva participação feminina na Revolução de Fevereiro, ela passou a organizar as trabalhadoras a fim de manter o seu impulso revolucionário.

Vera ajudou a promover grandes comícios de mulheres em Vyborg, mostrando ao partido bolchevique que era necessário criar uma sessão especial para coordenar esse trabalho. Perdeu a vida defendendo a Revolução de Outubro, logo depois da tomada do poder pelos sovietes.

Essas são apenas duas das muitas guerreiras anônimas que foram fundamentais para a vitória bolchevique.

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25 de maio de 2024

As mulheres bolcheviques e o machismo bolchevique

Em seu livro “Parteiras da Revolução”, Jane McDermid lembra que, embora seu ideal de militante revolucionário fosse o homem operário da grande indústria, os bolcheviques foram os primeiros a notar o surgimento da combatividade proletária em setores como o de serviços. Entre estes, se destacavam as mulheres empregadas em lavanderias. Foi assim que uma das principais organizadoras bolcheviques, Alexandra Kollontai, passou a concentrar grande parte do seu esforço no trabalho junto a elas.

Outra notável militante bolchevique foi Sofia Goncharskaia, que nasceu em uma família de mineiros de carvão. Tendo sido exilada no período posterior à Revolução de 1905, ela regressou a Petrogrado depois da Revolução de Fevereiro de 1917, assumindo a tarefa de organizar as lavadeiras. Percorreu as principais lavanderias da cidade, buscando convencendo suas trabalhadoras a aderir à greve de maio daquele ano, importante marco da resistência proletária ao governo provisório.

Anastasia Deviatkina foi mais uma militante bolchevique valorosa, desempenhando papel fundamental na organização das esposas dos combatentes russos, desde o início da Primeira Guerra. Um trabalho que levaria à criação de uma aguerrida associação de esposas de soldados, após o levante de fevereiro de 1917.

A intervenção das militantes bolcheviques e de outras organizações de esquerda foi essencial também em setores com maioria feminina, como as tecelãs.

O fato é que por melhores que fossem as intenções dos militantes homens, seu comportamento em relação às trabalhadoras muitas vezes refletia o tratamento desrespeitoso que elas recebiam dos capatazes e patrões.

A participação das trabalhadoras foi decisiva para a vitória em 1917, mas não aconteceu graças aos homens bolcheviques. Aconteceu apesar deles.

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14 de maio de 2024

Parteiras da revolução: as irmãs Ulianova

Anna e Maria Ulianova não foram apenas irmãs de Lênin, mas suas colaboradoras, participando durante muitos anos do trabalho de propaganda e agitação dos bolcheviques.

Tornaram-se integrantes do comitê central bolchevique e contribuíram para o jornal do partido que era dedicado às mulheres trabalhadoras, o “Rabotnitsa” (“A mulher trabalhadora”). Após a Revolução de Fevereiro de 1917, elas ajudaram na produção do Pravda, para o qual escreveram textos e artigos.

Embora sua trajetória no movimento revolucionário tenha sido ofuscada pelo papel crucial do irmão, a atuação delas foi fundamental para a sobrevivência e eficácia de uma organização cujo líder foi jogado na clandestinidade e no exílio pela repressão czarista.

Anna revisou todos os livros de Lênin até 1917. Desempenhou um papel importante na manutenção da imprensa partidária, especialmente em julho daquele ano, quando sua gráfica foi invadida pelo governo.

Infelizmente, nem elas escaparam à sobrecarga imposta pelo acúmulo de tarefas entre trabalho, militância e serviços domésticos. Maria, cuidando da mãe idosa, enquanto Anna desempenhava o típico papel de esposa junto a seu marido, militante revolucionário como ela.

As mulheres na vida de Lênin parecem ter aceitado sua condição de auxiliares, tanto na política como na organização partidária. Mas isso não impediu que fizessem contribuições vitais para o movimento revolucionário que eclodiu em 1917. Pena que continuem sem o devido reconhecimento.

Mesmo em meio a todas essas dificuldades, militantes revolucionárias, como Maria e Anna, foram essenciais para que o estado soviético adotasse a legislação mais avançada do mundo em relação aos direitos das mulheres.

Este é mais um relato do livro “Parteiras da Revolução”, de Jane McDermid.

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10 de maio de 2024

Não há revolução possível sem a luta das mulheres

Segundo o livro “Parteiras da Revolução”, de Jane McDermid, muitos historiadores costumam considerar a Revolução de Fevereiro de 1917 como uma explosão espontânea. Afinal, ela foi produto de uma greve dirigida por mulheres e elas seriam demasiado atrasadas politicamente para se organizar conscientemente.

Ou seja, a ”espontaneidade” seria produto da ausência dos partidos políticos na organização e direção dos acontecimentos. Na verdade, as organizações socialistas nem mesmo previram aqueles momentos decisivos. Uma exceção importante eram algumas revolucionárias, incluindo as do partido bolchevique.

No período anterior à revolução, as militantes bolcheviques haviam criado núcleos de organização de trabalhadoras em toda a Petrogrado. Foram elas que decidiram transformar o Dia Internacional da Mulher em manifestação anti-guerra. As direções revolucionárias não esperavam que o resultado fosse a queda do czarismo, mas as operárias e mulheres do povo de Petrogrado já haviam percebido que a revolução estava na agenda. Não estava relegada a um futuro indeterminado, esperando a aprovação das direções partidárias.

A historiografia que adotou o ponto de vista das lutas travadas no “rés do chão”, demonstrou que, em cada fase do processo revolucionário, a sorte dos bolcheviques e de outras organizações socialistas dependia da massa de trabalhadores com pouca qualificação profissional, entre os quais estavam as mulheres trabalhadoras.

Jane afirma que sua obra “pretende mostrar que as mulheres foram parte integrante do processo revolucionário russo, desafiando as suposições de que serviram apenas para desencadear uma revolta essencialmente masculina”.

Ela cita a historiadora francesa Dominique Godineau, para quem, muitas vezes, as mulheres são apresentadas à parte dos processos revolucionários. Mas não há revolução possível sem a luta das mulheres.

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9 de maio de 2024

As revolucionárias russas subestimadas pelos revolucionários russos

No início de 1917, com a Rússia mergulhada na Primeira Guerra, a polícia secreta czarista considerava as mulheres pobres a maior ameaça ao regime. Exaustas, ocupando intermináveis filas de pão racionado e sofrendo ao ver seus filhos esfomeados, elas formavam “uma massa inflamável que só precisaria de uma faísca para explodir”. Além disso, houve um forte aumento do número de mulheres nas fábricas, em substituição aos homens convocados para a guerra.

Essa situação passou quase despercebida pelas organizações socialistas. Mesmo os bolcheviques investiam pouco na organização da militância feminina. Uma das poucas exceções foi um panfleto escrito pelo partido para o Dia Internacional da Mulher, em 1915. A publicação chamava as trabalhadoras a parar “de sofrer em silêncio e agir para proteger seus homens”, adotando o lema “Abaixo a Guerra!”

Em vários momentos, os bolcheviques até enfatizaram que a luta por aumento salarial e redução da jornada só seria possível com a plena participação das trabalhadoras. Mas viam na luta pelas questões especificas das mulheres uma ameaça à unidade operária.

Em fevereiro de 1917, a direção bolchevique orientou as trabalhadoras a priorizar a organização do 1º de Maio em prejuízo do Dia Internacional da Mulher. Pois foi exatamente este o dia escolhido por operárias têxteis para iniciar uma grande greve, que detonaria a primeira fase da Revolução Russa.

Nem assim, a luta das mulheres conquistou o respeito que merecia. Aquela paralisação decisiva ainda é considerada por muitos apenas uma explosão social espontânea.

O relato acima está no livro “Parteiras da Revolução”, de Jane McDermid. Obra que voltaremos a comentar, em breve.

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19 de março de 2024

Alexandra Kollontai contra as feministas burguesas

Alexandra Kollontai foi a primeira mulher a integrar o alto escalão de um governo. Nada menos que o governo bolchevique. Sua trajetória mostra a importância do papel feminino no processo revolucionário russo.

Em “As Bases Sociais da Questão Feminina”, documento publicado em 1909, ela diferencia claramente as feministas das operárias:

O mundo das mulheres está dividido, tal como o mundo dos homens, em dois campos: os interesses e aspirações de um grupo de mulheres aproximam-no da classe burguesa, enquanto o outro grupo tem ligações estreitas com o proletariado e as suas reivindicações de libertação abrangem uma solução completa para a questão da mulher. Por mais aparentemente radical que sejam as demandas das feministas, não se deve perder de vista o fato de que elas não podem, tendo em conta a sua posição de classe, lutar pela transformação fundamental da estrutura econômica e social contemporânea da sociedade, sem a qual a libertação das mulheres não pode ser completada.

Claro que muita coisa mudou nesse debate, desde então. Mas a revolução que Alexandra ajudou a construir trouxe medidas radicais e inéditas de emancipação feminina. Aboliu, por exemplo, a inferioridade legal das mulheres e extinguiu a obrigatoriedade do casamento religioso. Simplificou o divórcio e ampliou a garantia do pagamento de pensões alimentícias. Remuneração igual para trabalho igual entre mulheres e homens também ganhou força de lei.

Mais tarde a reação conservadora stalinista viria a enterrar muitas dessas conquistas. Mas elas nunca deixaram de servir como referência fundamental para a luta das mulheres em todo o mundo. Alexandra é mais uma personagem do livro “Parteiras da Revolução”, de Jane McDermid.

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13 de março de 2024

Parteiras muito radicais da revolução

Em seu livro “Parteiras da Revolução”, Jane McDermid dedica um capítulo a mulheres militantes radicais que atuaram durante o processo revolucionário russo do começo do século 20. Entre elas, estava Vera Zasulich.

Na juventude, Vera abraçara o terrorismo dos populistas russos. Em 1878, atentou contra a vida do governador de São Petersburgo. Inesperadamente absolvida, ela fugiu para Genebra para escapar a novas prisões. Na capital suíça, aderiu ao marxismo, abandonando as ações violentas.

Vera considerava o feminismo divisionista e as concepções partidárias de Lenin elitistas. Para ela, a tomada do poder pelos sovietes em outubro de 1917 foi prematura. Apesar disso, sempre foi muito respeitada pelos bolcheviques.

Outra figura feminina radical era Ekaterina Breshko-Breshkovskaia. Integrante dos Socialistas Revolucionários (SRs), organização de esquerda adversária dos bolcheviques, era contrária às orientações da direção de seu partido, que condenava ações violentas. Defendia a necessidade de pegar em armas contra o Estado.

Maria Spiridonova também foi uma militante dos SRs que contrariava seus dirigentes, defendendo o assassinato de autoridades do regime czarista. Em 1907, ao tentar matar um guarda carcerário enquanto estava presa, foi condenada à morte. Aceitou sua execução como forma de dar novo impulso à luta. Mas a sentença foi anulada e ela passou dez anos na Sibéria.

Em 1917, presidiu o Primeiro Congresso dos Sovietes Camponeses. Apesar de rejeitar o marxismo, aliou-se aos bolcheviques na Revolução de Outubro. Acabou voltando ao terrorismo, ao tentar matar o embaixador alemão na Rússia, em julho de 1918.

Mas o stalinismo não poupou sua rebeldia. Maria desapareceu por volta de 1937, provavelmente executada por ordem de um tribunal militar soviético.

Leia também: Mais parteiras da revolução: Sanité Bélair

11 de março de 2024

Mais parteiras da revolução: Sanité Bélair

O livro “Midwives of the Revolution (Parteiras da Revolução)”, de Jane McDermid, relata a participação das trabalhadoras russas no processo revolucionário de 1917.

Mas se entendermos as parteiras da revolução como agentes imprescindíveis tanto na preparação do parto como no nascimento de uma nova ordem, elas estão presentes em vários momentos da história. Às vezes, atuam discretamente, mas sempre de forma persistente e decisiva.

Sanité Bélair era uma delas. Nascida em 1781, foi uma das poucas mulheres a integrar o exército de Toussaint Louverture, consagrando-se como grande combatente da luta revolucionária que livrou o Haiti tanto da domínio colonial como da escravidão. Um fenômeno raro nas lutas anticoloniais, que costumavam defender as liberdades sem abolir o trabalho servil.

Em 1791, Sanité liderou uma rebelião de escravizados ao lado de Charles Bélair, que se tornaria general das tropas revolucionárias e com quem ela se casaria. A seu lado, Sanité chegou ao posto de tenente, combatendo as forças coloniais francesas com tanta bravura e determinação que passou a ser chamada de “Tigresa” por seus companheiros de armas.

Quando Sanité foi capturada pelos franceses em 1802, Charles Bélair entregou-se aos inimigos para juntar-se a ela na prisão. Foram executados um ao lado do outro. Pouco antes de morrer fuzilada, Sanité teria gritado “Viva a liberdade, abaixo à escravidão!”

Assim são as parteiras que não só preparam o nascimento das revoluções como as acompanham em seus primeiros momentos. E nem os erros e frustrações tão frequentes nos processos revolucionários as impedem de persistir em seus esforços para trazer à luz novos momentos emancipatórios.

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7 de março de 2024

As parteiras da revolução

O livro é “Midwives of the Revolution: Female Bolsheviks and Women Workers in 1917”. Ainda sem edição em português, seu título pode ser traduzido como “Parteiras da Revolução: Mulheres Bolcheviques e Mulheres Trabalhadoras em 1917”.

A autora, Jane McDermid, decidiu chamar as revolucionárias russas de parteiras porque elas “estiveram presentes no nascimento da nova ordem, mas não se limitaram a entregá-la aos revolucionários profissionais, tendo sido fundamentais nas fases finais do parto. O modo como a nova ordem se desenvolveu posteriormente e o desempenho das parteiras não deve obscurecer o papel crucial que desempenharam tanto na gestação como no nascimento”.

A autora cita como exemplo um artigo das irmãs de Lênin, Ana e Maria, publicado no Pravda em 5 de Março de 1917. Segundo o relato delas:

No Dia da Mulher, 23 de Fevereiro, foi declarada greve na maioria das fábricas. As mulheres estavam animadas de um espírito muito militante. E não apenas as trabalhadoras, mas também as que estavam nas filas do pão. Elas realizaram reuniões políticas. Eram a maioria nas ruas. Deslocavam-se pela cidade exigindo pão dos governantes. Paravam os bondes e gritavam aos passageiros: “Camaradas, saiam!”. Foram de fábrica em fábrica, convocando os trabalhadores a cruzarem os braços. Em suma, o Dia da Mulher foi um tremendo sucesso e deu origem ao espírito revolucionário.

23 de fevereiro correspondia a 8 de março no calendário ocidental. E o que as irmãs Ulianov relataram foram as manifestações do Dia Internacional da Mulher se transformando nas primeiras dores do parto da revolução que ocorreria meses depois, em outubro. As parteiras eram imprescindíveis e estavam na vanguarda.

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