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28 de janeiro de 2025

Lênin e as civilizações alienígenas

Juan R. Posadas foi um líder trotskista argentino, que viveu entre 1912 e 1981, e ficou conhecido principalmente por algumas de suas ideias envolvendo a possibilidade da existência de civilizações extraterrestres, cujo avanço tecnológico só poderia ter sido alcançado pela adoção do socialismo em seus mundos.

A.M. Gittlitz publicou recentemente uma biografia de Posadas chamada “Eu quero acreditar: posadismo, OVNIs e comunismo apocalíptico”. Entre os vários trechos curiosos está este:

Em uma visita à Rússia em 1920, H.G. Wells, embora um crítico do marxismo, ficou impressionado com o progresso soviético em direção a um comunismo que Lênin havia recentemente definido como sovietes mais eletrificação, e a inspiração que Lênin aparentemente havia tirado de seu trabalho. Wells afirma que Lênin elogiara seu livro “A máquina do tempo” por ajudá-lo a perceber "que as ideias humanas são baseadas na escala do planeta em que vivemos (...). Se tivermos sucesso, teria dito o revolucionário bolchevique, em fazer contato com outros planetas, todas as nossas ideias filosóficas, sociais e morais terão que ser revistas, e neste caso essas potencialidades se tornarão ilimitadas e porão fim à violência como um meio necessário para o progresso...”

Pois é, de repente, até para Lênin a verdade podia estar lá fora. Mas, ao que se sabe, ele jamais ampliou o conceito de revolução internacionalista para o nível intergaláctico em sua obra.

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6 de novembro de 2024

Um papo reto sobre coisas muito tortas

“Problema é esquerda playboy, não pobre de direita”, essa afirmação de Paulo Galo, militante do movimento dos trabalhadores em aplicativos, deu título a uma recente entrevista concedida por ele ao portal UOL.

Galo referia-se ao livro “O pobre de direita”, recém-lançado por Jessé Souza. Segundo ele:

...não existe “pobre de direita”. Existe alienação. A alienação que afeta o pobre também afeta a classe média branca de esquerda. Ela é tão presa à sua própria bolha que só consegue dialogar consigo mesma.

A esquerda, diz Galo, ignora a “materialidade” da vida das quebradas periféricas. E para superar essa limitação, precisaria:

...chegar aqui na periferia, tomar uma cerveja e trocar uma ideia normal, do dia a dia. Tem um trabalho possível de ser feito aqui. Dá para cair dentro das necessidades e se conectar. Mas quem é que está fazendo isso? O problema é que a esquerda parece não saber fazer nada que não envolva voto.

Dentre as várias afirmações polêmicas, afirmou, por exemplo, que a esquerda se tornou legalista e que seus partidos representariam uma “luta com CNPJ”.

A entrevista despertou tanto a animosidade como a simpatia de setores da militância. Mas Lênin dizia que para endireitar uma vara torta para um lado, é preciso vergá-la para o outro. Por isso, muitas vezes exagerava na defesa de certas linhas políticas que nem eram tão corretas para enfraquecer uma orientação oposta, que considerava ainda mais danosa.

Galo não é nenhum Lênin. Mas procura chamar a atenção para o atual estágio da luta de classes, cuja materialidade contraditória não comporta o simplismo de respostas retas para tantos conflitos tortos.

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A luta de classes no oco do mundo
Um pé na luta, outro no pedal

12 de setembro de 2024

Sílvio Almeida: autocrítica radical, coletiva e sem punitivismo

Lênin referiu-se pela primeira vez ao conceito de “autocrítica” no livro “Um Passo em Frente, Dois Passos Atrás”, ao afirmar que o partido deveria adotar uma "autocrítica e exposição implacável de suas próprias deficiências". Já na obra “Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo”, defendeu que uma organização partidária séria deveria "admitir com franqueza seus erros, apurar suas razões, analisar as circunstâncias que os originaram e discutir exaustivamente os meios de corrigi-los".

Stálin transformaria a prática em arma de perseguição política. Quem desafiasse a burocracia dirigente partidária e estatal era considerado criminoso a ser purgado ou expurgado. A “autocrítica” era individualizada e após sofrerem tortura e extensos períodos de detenção, os acusados muitas vezes confessavam crimes que não haviam cometido. Eram métodos comparáveis aos piores procedimentos da justiça burguesa.

Acabamos de sofrer uma terrível derrota envolvendo Silvio Almeida, referência importante para milhares de militantes de esquerda. Cabe, agora, esperar que a justiça seja feita, sem linchamentos e perseguições. Com amplo direito de defesa, apuração rigorosa e responsabilização severa. As vítimas devem receber total solidariedade e apoio.

Mas os valores emancipatórios e princípios organizativos da esquerda exigem que seja feita uma autocrítica de tipo leninista. Ou seja, reveses e erros são de responsabilidade coletiva e devem ajudar a iluminar o contexto em que surgiram. Não podem se restringir a episódios e indivíduos isolados. É preciso identificar as estruturas e comportamentos que permitiram que os acontecimentos tivessem o desfecho que tiveram e trabalhar para superá-los com radicalidade.

Não podemos nem nos render ao punitivismo típico da estrutura dominante, nem deixar que permaneça aberto o caminho para novos e maiores equívocos.

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6 de agosto de 2024

Lênin: organização ampla e flexibilidade tática

Como internacionalista convicto e maior liderança da Revolução Russa, Lênin tornou-se a principal referência de revolucionários no mundo todo. Durante o 3º Congresso da Internacional Socialista, em 1921, ao discutir com camaradas italianos, alemães e outros, ele fez a seguinte observação:

Terracini diz que fomos vitoriosos na Rússia, embora nosso partido fosse muito pequeno. O camarada entendeu muito pouco a revolução russa. Na Rússia, éramos um partido pequeno, mas tínhamos conosco, a maioria dos Sovietes de Deputados Operários e Camponeses em todo o país. Fomos vitoriosos na Rússia não apenas porque a maioria indiscutível da classe trabalhadora estava do nosso lado (durante as eleições de 1917, tivemos uma votação esmagadora contra os mencheviques), mas também porque metade do exército, imediatamente após a tomada do poder, e 90% dos camponeses, no decorrer de algumas semanas, passaram para o nosso lado...

Já em seu panfleto “Comunismo de Esquerda”, Lênin enfatizou que ”a história como um todo, e a história das revoluções em particular, é sempre mais rica em conteúdo, mais variada, mais multiforme, mais viva e engenhosa do que imaginam até mesmo os melhores partidos”.

Ainda segundo Lênin, os “verdadeiros revolucionários” não devem perder de vista os objetivos que compartilham com os camaradas ao redor do mundo. Devem levar em conta “as características concretas que esta luta assume em cada país, em conformidade com o caráter específico de sua economia, política, cultura, composição nacional, divisões religiosas, e assim por diante”.

Ou seja, Lênin nunca defendeu o partido como organização cuja influência deveria se limitar aos revolucionários convictos nem fórmulas rígidas e válidas para todas as revoluções.

Leia também: Lênin e a dialética das revoluções

25 de julho de 2024

Lênin e a dialética das revoluções

Em dezembro de 1917, Gramsci publicou um artigo chamado “A revolução contra o Capital”. O “Capital” de que fala o título era a famosa obra de Marx. O revolucionário italiano considerava a façanha bolchevique uma negação das conclusões simplistas deduzidas das elaborações de Marx.

Segundo tais conclusões, revoluções socialistas somente seriam possíveis em nações altamente industrializadas, como Inglaterra, França, Alemanha. Países “atrasados”, como a Rússia, teriam que superar algumas etapas. Primeiro, industrialização e democracia, a cargo da burguesia. Depois, socialismo e liberdade, conquistados pelos trabalhadores.

Marx nunca disse que a revolução só seria possível em países em que o capitalismo alcançasse seu auge. O mais importante não é o nível de desenvolvimento do capitalismo, mas seu caráter contraditório. Tanto é assim que Marx achava mais provável acontecer uma revolução na Alemanha, cujo desenvolvimento industrial era bem menor que o da Inglaterra, mas que apresentava contradições mais radicais entre o que o capitalismo prometia e aquilo que entregava.

A partir desse entendimento, Lênin criou a “teoria do elo mais fraco da cadeia imperialista”, segundo a qual o capitalismo é uma totalidade mundial cuja integridade pode ser abalada pelo rompimento de seus elementos mais frágeis. Na época, a Rússia seria um desses elos fracos.

Essa dinâmica do funcionamento capitalista escapava a muitos marxistas dos países da Europa ocidental. Por eles, não apenas a revolução russa não teria ocorrido, como qualquer outra seria adiada indefinidamente. Aliás, foi o que aconteceu.

A mesma dialética explica tanto a ousadia da vanguarda de um país “atrasado” como a tacanhez de sua equivalente nos países “avançados”. É a dialética das revoluções.

Leia também: Lênin contra cancelamentos

20 de julho de 2024

Lênin contra cancelamentos

Logo após a Revolução Russa de 1917, um dos debates que tomou conta do partido bolchevique envolvia a necessidade da construção de uma cultura proletária. Uma proposta que pretendia negar radicalmente a “decadente cultura burguesa”. Tudo o que representava aquilo que a revolução havia derrotado deveria ser simplesmente substituído pela “cultura proletária” ou “Proletkult”.

Lênin era frontalmente contrário a essa política e escreveu uma proposta de resolução intitulada “Sobre a Cultura Proletária”. Publicado em 9 de outubro de 1920, um trecho do texto afirmava:

O marxismo ganhou seu significado histórico universal como a ideologia do proletariado revolucionário porque não rejeitou de forma alguma as conquistas mais valiosas da época burguesa, mas, ao contrário, assimilou e reformulou tudo o que era de valor em mais de dois mil anos de desenvolvimento do pensamento e da cultura humanos. Somente o trabalho posterior nessa base e nessa direção, inspirado pela existência prática da ditadura do proletariado como a luta do proletariado contra toda exploração, pode ser considerado como o desenvolvimento de uma cultura verdadeiramente proletária.

A resolução foi aprovada pelo 1º Congresso de Toda a Rússia da Proletkult, realizado em outubro de 1920. Mas essa elaboração acabaria sendo derrotada na década seguinte pela imposição do realismo socialista. Uma concepção grosseira, parte integrante da onda contrarrevolucionária que tomou conta da sociedade soviética.

De qualquer modo, é importante lembrar como Lênin concebia a forma dialética em que o velho e o novo se relacionam. Afinal, se o principal líder de uma ruptura radical como a revolução bolchevique era contra cancelamentos, quem somos nós pra dizer o contrário.

Leia também: Lênin, ocupado demais fazendo a revolução

11 de julho de 2024

Lênin, ocupado demais fazendo a revolução

No 100º ano da morte de Lênin, é importante destacar uma de suas obras mais importantes: “O Estado e a Revolução”.

Em seu livro “Lênin: Responding to Catastrophe, Forging Revolution“, Paul Le Blanc lembra que a obra foi escrita a partir de algumas conclusões de Marx e Engels sobre a experiência da Comuna de Paris. A mais importante delas, a de que a dominação política pela classe trabalhadora exigiria uma nova máquina estatal radicalmente democratizada.

No livro, Lênin diz:

A partir do momento em que todos os membros da sociedade, ou pelo menos sua grande maioria, aprenda a administrar eles próprios o Estado, tomem este trabalho nas suas mãos, organizem o controle sobre a insignificante minoria capitalista, sobre a pequena nobreza que deseja preservar seus privilégios e sobre os trabalhadores que foram completamente corrompidos pelo capitalismo – a partir deste momento, a necessidade de qualquer tipo de governo começa a desaparecer completamente.

Além disso, o líder bolchevique afirma: “Para Marx, o proletariado precisa apenas de um Estado que esteja constituído de tal forma que comece a definhar imediatamente”. Infelizmente, até hoje, isso nunca se concretizou.

Mas Lênin jamais concluiu a segunda parte de “O Estado e a Revolução”. Em um posfácio à obra, escrito em novembro de 1917, logo depois da vitória dos sovietes, ele explica o motivo:

A redação da segunda parte deste panfleto (...) provavelmente terá de ser adiada por muito tempo. É mais agradável e útil viver a “experiência da revolução” do que escrever sobre ela.

Quanto a isso, Lênin tinha toda razão. Muito melhor que teorizar sobre revoluções, é realizá-las.

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26 de junho de 2024

A principal fonte do marxismo de Lênin

No livro “As três fontes e as três partes constitutivas do marxismo”, publicado em 1913, Lênin afirma que as fontes a que se refere o título são a filosofia alemã, a economia política inglesa e o socialismo francês.

Trata-se de uma definição eurocêntrica para dizer o mínimo. Incoerente com uma teoria que defende a emancipação da humanidade de um domínio que nasceu do colonialismo europeu, responsável por mergulhar povos inteiros em um mar de “lama e sangue”, nas palavras do próprio Marx.

A questão é que mesmo Lênin jamais se deixou orientar apenas pelas correntes intelectuais da Europa Central. Ao contrário, os bolcheviques basearam muito de sua atuação na militância dos populistas russos, enraizada no trabalho junto aos camponeses da Rússia czarista.

Além disso, Lênin procurou compreender as especificidades da sociedade russa em sua grande obra “O desenvolvimento do capitalismo na Rússia”. Escrito de 1896 a 1899, o estudo é um exemplo de como adequar a teoria revolucionária à realidade concreta de uma sociedade periférica.

Outras lideranças e teóricos marxistas procuraram fazer o mesmo em suas sociedades. É o caso de Gramsci, na Itália, Mariátegui, no Peru e Zavaleta Mercado, na Bolívia. Mas em relação aos efeitos práticos, certamente a abordagem leninista foi a mais bem-sucedida.

Na verdade, a própria Revolução Russa foi considerada uma heresia pelos marxistas ortodoxos dos países europeus industrializados. No ano em que se completam 100 anos de sua morte é importante lembrar que a principal fonte do marxismo de Lênin era o que ele definia como a “análise concreta da situação concreta”.

Leia também: Lênin, o revolucionário que sabia recuar

18 de junho de 2024

Lênin, o revolucionário que sabia recuar

No período posterior à Revolução de 1905, os bolcheviques avaliaram que haveria um ressurgimento da atividade revolucionária na Rússia. Portanto, consideravam fundamental preparar a insurreição armada das massas operárias.

Os mencheviques, corrente rival dos bolcheviques dentro do partido socialdemocrata russo, achavam o contrário. Para eles, a disposição de luta dos trabalhadores diminuíra drasticamente. Defendiam um mergulho no trabalho legal, eleitoral e por reformas possíveis.

Mesmo assim, Lênin e outras lideranças bolcheviques concentraram-se em questões como proteger, armazenar e distribuir armas, munições, explosivos. Organizar unidades armadas e destacamentos de guerrilha urbana. Executar ações armadas de pequena escala, incluindo “expropriações” na forma de assaltos a bancos.

No entanto, Lênin logo chegaria à conclusão de que os mencheviques estavam certos. A luta armada já não fazia sentido, revelando-se contraproducente e autodestrutiva. Não teve dúvidas em romper drasticamente com o que ele mesmo defendera, chegando a votar junto com os mencheviques em plenárias partidárias. O que não significou aderir às teses reformistas defendidas por eles.

Nádia Krupskaya, esposa de Lênin, descreveria assim essa atitude:

Dizem que um bolchevique deve ser firme e inflexível. Lênin considerava esta atitude falaciosa, pois significaria desistir de todo trabalho prático, ficar à parte das massas em vez de organizá-las no enfrentamento de seus problemas concretos (...). A capacidade de ajustar-se às condições mais adversas e, ao mesmo tempo, não perder de vista os princípios revolucionários é a essência do leninismo.

O relato acima está no livro “Lênin: Responding to Catastrophe, Forging Revolution“, de Paul Le Blanc. Demonstra que uma das maiores qualidades de um revolucionário é saber quando reconhecer seus erros e recuar.

Leia também: Lênin e o militante como tribuno popular

16 de maio de 2024

Lênin e o militante como tribuno popular

No ano em que se completam 100 anos da morte de Lênin, voltamos ao livro “Lenin: Responding to Catastrophe, Forging Revolution“, de Paul Le Blanc. Agora, para lembrar como deveria ser comportar um verdadeiro militante socialista, segundo o que pensava o grande revolucionário russo.

Na Rússia do começo do século passado, havia uma tendência muito comum entre os marxistas, chamada “economicismo”. Seus adeptos sustentavam que os socialistas deveriam evitar questões não econômicas que pudessem ser de pouco interesse para o trabalhador médio, priorizando atividades práticas como a ação sindical.

Lênin, pelo contrário, entendia que o militante socialista tinha que ser, antes de tudo, um “tribuno do povo”. Em seu famoso livro “O que fazer?”, publicado em 1902, ele afirma que o militante socialista teria que ser alguém “capaz de reagir a qualquer manifestação de tirania e opressão, não importa onde apareça, nem qual seja a classe das pessoas atingidas por ela”. Uma de suas principais tarefas era denunciar e combater práticas como a violência policial contra trabalhadores, o castigo físico de camponeses, a repressão à luta popular por educação e saúde, a perseguição religiosa e a brutalidade contra estudantes e intelectuais.

Um tribuno revolucionário popular, dizia ele, seria aquele:

...que é capaz de aproveitar cada acontecimento, por menor que seja, para expor suas convicções socialistas e suas reivindicações democráticas, a fim de esclarecer a todos e cada um o significado histórico da luta mundial pela emancipação do proletariado.

Mais de um século depois, a defesa dessa concepção permanece fundamental, diante do individualismo militante e da fragmentação e compartimentação das lutas populares.

Leia também: Lênin sem tempo pra conversa fiada

22 de março de 2024

No peito dos cristãos, pode bater um coração revolucionário

Christina Vital da Cunha, professora da UFF e autora do livro “Oração de traficante: uma etnografia” publicou um artigo no portal da Unisinos sobre a teologia do domínio, essa perigosa ameaça da extrema direita teocrática contra a democracia. Mas no final do texto, ela faz uma ressalva:

...vem crescendo no Brasil aqueles evangélicos críticos desta extrema direita, da politização das igrejas. Esses evangélicos críticos não defendem todas as bandeiras progressistas, mas são mais afinados com a defesa da justiça social, missão deixada por Jesus Cristo, do que com os interesses dos chamados “coronéis da fé”. Há ainda uma esquerda evangélica diversificada internamente e que se reúne em algumas denominações e comunidades, afastados da vida eclesiástica, mas com vigor na fé. Dado o crescimento evangélico na sociedade como um todo, em especial em suas bases, observaremos cada vez mais essa face evangélica na esquerda popular, engajada ou não em partidos, mas sempre em defesa da democracia e diversidade. As forças democráticas liberais ou de esquerda, acadêmicos em suas pesquisas, partidos em suas convenções, vão precisar considerar cada vez mais esses atores sociais em suas investigações e/ou ações políticas.

Lênin assinaria embaixo, uma vez que ele não cansava de alertar para a necessidade de prestar atenção às contradições presentes nos meios populares. Na época dele, o setor social mais conservador era o camponês. Mas isso não impediu que a Revolução de 1917 ocorresse graças à unidade operário-camponesa.

Lênin costumava dizer que no peito de um rude camponês pode bater um coração revolucionário. No íntimo de muitos cristãos também.

As doses diárias das pílulas ficarão suspensas até maio.

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Fé e fuzil: espiritualidade, religião e emancipação humana
Aprendendo com Lênin a aprender com os camponeses

20 de março de 2024

Lênin sem tempo pra conversa fiada

Em seu livro "Lenin: Responding to Catastrophe, Forging Revolution“, Paul Le Banc define o leninismo como “um marxismo com pressa”. O autor também cita as palavras de Ana, irmã do líder russo, segundo as quais:

Vladimir não tinha paciência para a passividade, menos ainda para conversa fiada e exibicionismo. Ele queria levar seu conhecimento e suas habilidades para a classe que ele considerava destinada a realizar a revolução – a classe trabalhadora. Procurava pessoas que, como ele, estivessem convencidas de que a revolução na Rússia seria feita pela classe trabalhadora ou não seria feita.

Em 1900, ele expressou isso no ensaio “As Tarefas Urgentes do Nosso Movimento”:

Se tivermos um partido fortemente organizado, uma única greve pode transformar-se numa manifestação política, numa vitória política sobre o governo. Uma revolta numa única localidade pode transformar-se em revolução vitoriosa. Devemos entender que as lutas por reivindicações parciais e pela obtenção de certas concessões são apenas escaramuças leves com o inimigo, encontros entre postos avançados, enquanto a batalha decisiva ainda está por vir. Diante de nós, ergue-se a fortaleza inimiga, que faz chover tiros e granadas sobre nós, ceifando nossos melhores combatentes. Devemos capturar esta fortaleza, e iremos capturá-la, se unirmos todas as forças do proletariado que desperta com todas as forças dos revolucionários russos num partido que atrairá tudo o que é vital e honesto na Rússia.

O líder bolchevique tinha pressa porque sabia que capitalismo e barbárie são causa e efeito. Mais de 120 anos depois, as crises do sistema são cada vez mais frequentes e destrutivas. Estamos com cada vez menos tempo para conversa fiada.

Leia também: Lênin, sempre atento à luta de classes

14 de março de 2024

Lênin, sempre atento à luta de classes

Mais relatos do livro “Lenin: Responding to Catastrophe, Forging Revolution“, de Paul Le Blanc.

No final de 1904, o padre ortodoxo Georgi Gapon liderava um numeroso setor dos operários russos. Como havia fortes suspeitas de que ele trabalhasse para a polícia czarista, os bolcheviques se negaram a participar do movimento.

Lênin também achava que o padre colaborava com as autoridades, mas avaliava que o movimento liderado por ele poderia levar a confrontos importantes para a conscientização da classe. Portanto, deveria ser fortalecido e disputado pelos bolcheviques.

Em janeiro de 1905, Gapon organizou uma grande marcha para pedir ao czar o atendimento de reivindicações populares. A marcha foi massacrada e o episódio serviu de estopim para a Revolução de 1905.

No mesmo ano, a direção bolchevique decidiu que não era hora de ajudar a criar sindicatos. Em vez disso, era preciso preparar uma revolta armada. Lênin discordou. Para ele, sindicatos eram organizações fundamentais para a conscientização dos trabalhadores e não havia qualquer sinal de disposição da população para um confronto armado.

Em outra ocasião, os dirigentes bolcheviques defenderam que o soviete de deputados operários adotasse integralmente o programa do partido. Novamente Lênin se opôs, afirmando que mais importante que tentar engessar os sovietes com doutrinas abstratas era conquistá-los para uma prática revolucionária.

Estes exemplos mostram a capacidade de Lênin de enxergar as oportunidades da luta de classes sem dogmatismos. Evidenciam também como as relações entre ele e seus camaradas eram conflituosas sem levarem a divisões ou paralisia. Mas isso só era possível porque o forte enraizamento do partido entre os trabalhadores servia como bússola para seus militantes.

Leia também: Lênin e o marxismo libertário

6 de março de 2024

Lênin e o marxismo libertário

No ano do centenário da morte de Lênin, lembremos o pouco conhecido lado libertário de sua elaboração teórica. As informações abaixo estão no livro “Lenin: Responding to Catastrophe, Forging Revolution“, de Paul Le Blanc.

Piotr Kropotkin foi um importante anarquista russo da virada do século 19 para o 20. Tinha grandes divergências com os marxistas, principalmente em relação à manutenção do Estado após a revolução.

Mas Kropotkin elogiou Engels quando este afirmou que “o proletariado precisa do Estado, não no interesse da liberdade, mas para reprimir seus inimigos, e assim que se tornar possível falar de liberdade, o Estado como tal deixa de existir”.

Na “Crítica ao Programa de Gotha”, Marx distinguia os estágios inferiores e superiores do comunismo. No primeiro, a democracia se tornaria um hábito entre os produtores livremente associados, dispensando as leis repressivas impostas pela polícia. Em “O Estado e a Revolução”, Lênin classificou a fase inferior como “socialismo” e a superior como “comunismo”.

Somente na sociedade comunista, escreveu Lênin, quando a resistência dos capitalistas tiver desaparecido, quando não houver classes, só então o Estado romperá sua relação com os meios de produção e desaparecerá pelo esgotamento de sua função histórica.

Em 1921, último ano de sua vida, Kropotkin, expressou a esperança de que a Rússia Soviética acabaria por evoluir, tal como Lênin imaginou em seu livro, para uma “sociedade comunista sem Estado”.

Infelizmente, as convergências entre Engels, Marx, Lênin e Kropotkin não foram suficientes. Suas esperanças libertárias acabaram soterradas pela contrarrevolução stalinista. Mas a construção de uma sociedade radicalmente livre e justa continua a animar e mobilizar tanto anarquistas como comunistas.

Leia também: Um Lênin anarquista, louco, isolado

1 de março de 2024

O jornal revolucionário é como um andaime, dizia Lênin

“O jornal não é apenas um propagandista coletivo e um agitador coletivo; é também um organizador coletivo. A esse respeito, pode-se compará-lo aos andaimes que se levantam ao redor de um edifício em construção”.

O trecho acima está no livro “O que fazer”, de Lênin. Essa metáfora diz muito sobre as concepções organizativas defendidas por Lênin. O “andaime” de uma organização revolucionária não eram cargos em parlamentos, governos e direções sindicais, nem doações eleitorais ou contribuições dos filiados. É verdade que alguns desses recursos nem estavam ao alcance da esquerda socialista que atuava na Rússia czarista, dominada por um regime extremamente autoritário e com uma vida parlamentar e sindical muito frágil. Mas a questão central não era esta.

O fato é que a única força material com que podem contar os socialistas revolucionários é a capacidade organizativa dos explorados construída a partir das muitas formas de sua luta contra o capital. Depender de estruturas do Estado, aparatos burocráticos ou do mercado é caminho certo para a cooptação, destruição ou ambas.

Um jornal ou um instrumento equivalente de comunicação é fundamental para disputar a hegemonia com as classes dominantes, ao mesmo tempo em que organiza as forças dos explorados e oprimidos.

Mas nada disso deve ser encarado como uma receita. O próprio Lênin considerava datadas várias propostas apresentadas em “O que fazer”. Para ele, elemento fundamental e permanente era é o que já afirmava Marx: “A emancipação dos trabalhadores só pode ser obra dos próprios trabalhadores”. Por isso, o mais importante, dizia Lênin, é que o jornal revolucionário precisa ser feito para e pelos trabalhadores.

Leia também: Os professores Nádia e Lênin

28 de fevereiro de 2024

Os professores Nádia e Lênin

Quando Nádia Krupskaya conheceu Lênin, seu futuro companheiro, não gostou muito do comportamento implacável que ele adotava nas polêmicas partidárias. Por outro lado, a capacidade pedagógica de Lênin a impressionou muito positivamente. Nos grupos de estudos com trabalhadores, por exemplo, a primeira metade da aula era dedicada a uma apresentação de algum aspecto do “Capital”, de Marx. Na outra metade, Lênin estimulava os alunos a falarem sobre detalhes de suas vidas profissionais, relacionando os relatos ao que já haviam discutido.

Lênin também esteve na vanguarda daqueles que defendiam um método de agitação centrado nas necessidades cotidianas dos trabalhadores, apoiando ativamente suas lutas por melhorias no local de trabalho e combinando as lutas econômicas e políticas. Em suma, escreveria Nádia sobre Lênin mais tarde, ele fornecia “um exemplo brilhante de como abordar o trabalhador médio da época”.

Mas a própria Nádia era uma professora popular e respeitada entre os trabalhadores. Também era considerada uma organizadora extraordinariamente esforçada e eficaz, seja na sala de aula ou na clandestinidade. Por toda a sua vida, continuaria demonstrando talento em atrair mulheres trabalhadoras e jovens para a luta. Profundamente consciente das injustiças que permeavam a sociedade, ela comentava várias vezes, quase compulsivamente: “o trabalhador russo vive mal”, “nossos camponeses não têm direitos” e “a autocracia é inimiga do povo”, sempre procurando fazer avançar a si mesma e aos outros na luta por uma vida mais justa.

As informações acima estão no livro “Lenin: Responding to Catastrophe, Forging Revolution“, do marxista estadunidense Paul Le Blanc. Voltaremos a comentar essa obra durante este ano, que marca o centenário da morte do líder bolchevique.

Leia também: O Pravda enganando a perseguição czarista

7 de fevereiro de 2024

O Pravda enganando a perseguição czarista

No centenário da morte de Lênin, importante lembrar uma atividade que ele considerava fundamental para a construção de um partido revolucionário: o jornalismo militante.

Mas sob a ditadura czarista, publicar um diário proletário exigia muita astúcia. O relato abaixo está no artigo “Lenin’s Pravda”, de Tony Cliff, e refere-se ao período de 1912 a 1914:

O regulamento de imprensa da época exigia que os três primeiros exemplares de cada edição fossem enviados à censura. Os editores do Pravda tentavam ganhar o máximo de tempo possível entre o envio material e a muito provável chegada da polícia à gráfica. A lei não especificava limite de tempo máximo para o deslocamento entre a gráfica e a polícia. Assim, a tarefa diária de entregar os exemplares foi confiada a um trabalhador de 70 anos, cuja idade avançada era pretexto para a lentidão com que chegava ao seu destino. Depois de fazer sua entrega, o portador permanecia no escritório, fingindo descansar, mas observando tudo. Se depois de ler o Pravda, o inspetor passasse a examinar outro jornal, o emissário encerrava sua missão. Mas quando o censor telefonava para o distrito policial da jurisdição em que ficava a sede do jornal, o entregador saía rapidamente e chamava um táxi para avisar vigias que se postavam nos arredores da gráfica. Uma vez dado o alarme, todos começavam a trabalhar para retirar o máximo possível de exemplares. Quando a polícia chegava, a maior parte da edição já havia desaparecido, sobrando apenas uma quantidade mínima para que a manobra não fosse facilmente descoberta.

Não há movimento revolucionário, sem muita criatividade subversiva.

Leia também: Pravda: como fazer jornalismo revolucionário

2 de fevereiro de 2024

Pravda: como fazer jornalismo revolucionário

Continuamos a destacar algumas informações retiradas do artigo “Lenin’s Pravda”, de Tony Cliff, sobre o Pravda, jornal do partido bolchevique.

Para escapar às perseguições da ditadura czarista, o jornal nomeava editores nominais que iam para a prisão no lugar dos editores efetivos. Eram aproximadamente quarenta militantes, muitos deles quase analfabetos. Nos primeiros anos de existência do Pravda, eles passaram muitos meses na prisão.

Metade dos exemplares era vendida nas ruas e metade nas fábricas. Nas grandes empresas de São Petersburgo, cada departamento tinha um responsável que distribuía o jornal, arrecadava recursos e mantinha contato com os editores. A distribuição do Pravda fora da cidade acontecia por meio de seis mil assinaturas postais, mas distribuí-las era complicado. Os exemplares eram enviados a cinco ou seis agências de correio diferentes, que eram trocadas diariamente para despistar a polícia. Além disso, pacotes do Pravda eram entregues às províncias por diversas rotas complexas. Membros do partido ou simpatizantes que trabalhavam nas ferrovias jogavam os fardos ao longo da rota para serem recolhidos por outros integrantes.

Eram cerca de 40 mil durante a semana e 60 mil aos sábados. Números impressionantes, especialmente porque o partido era ilegal. No entanto, Lênin escreveu um artigo em abril de 1914, dizendo:

Precisamos distribuir três, quatro, cinco vezes mais exemplares. Publicar um suplemento sindical e ter representantes de todos os sindicatos e grupos no conselho editorial. Lançar suplementos regionais (Moscou, Urais, Caucasianos, Bálticos, Ucranianos)...

Mas uma de suas maiores preocupações era garantir a participação regular dos trabalhadores no trabalho editorial.

Sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário, dizia Lênin. Sem jornalismo revolucionário também não.

Leia também: Jornalismo revolucionário: os oito nomes do Pravda

30 de janeiro de 2024

Jornalismo revolucionário: os oito nomes do Pravda

No centenário da morte de Lênin, voltamos ao artigo “Lenin’s Pravda”, de Tony Cliff, sobre o jornalismo revolucionário defendido pelo líder russo. Nele ficamos sabendo que o Pravda, principal jornal do partido bolchevique, mudou de nome oito vezes. As constantes alterações aconteciam devido à forte perseguição que o periódico sofria da ditadura czarista.

Frequentemente, as instalações do jornal eram invadidas, edições confiscadas, multas impostas, editores presos, jornaleiros assediados. Mesmo assim, foram publicados 645 números de 1912 a 1914, quando deu lugar a outros jornais até retornar após a revolução de 1917. Isto foi possível em grande parte devido à engenhosidade da equipe editorial para contornar as perseguições, ao apoio financeiro dos leitores, a lacunas na lei de imprensa e à ineficiência da polícia.

Uma linguagem codificada procurava evitar o confisco imediato das edições. No lugar do nome do partido, “subterrâneo”, “buraco” ou “velho”. O programa bolchevique, que defendia a república democrática, confisco das propriedades fundiárias e jornada máxima de 8 horas era chamado de “exigências de 1905” ou os “três pilares”. Um bolchevique era um “democrata consistente” ou um “marxista consistente”. Os trabalhadores mais militantes conseguiam decifrar essa linguagem sem maiores problemas.

Essas e outras dificuldades para fazer circular um periódico revolucionário em plena ditadura autocrática na Rússia do início do século passado deveriam servir de exemplo. As dificuldades e obstáculos atuais são bem diferentes e igualmente enormes, mas Lênin defendia que o trabalho revolucionário era resultado de intervenções concretas adaptadas às situações concretas, sejam elas quais fossem. Hoje, como na época de Lênin, não adianta tentar combinar com os russos.

Voltaremos ao tema.

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25 de janeiro de 2024

O jornalismo revolucionário segundo Lênin

No mês do centenário da morte de Lênin, vale dar uma olhada em sua concepção de jornalismo revolucionário. O artigo “Lenin’s Pravda” de Tony Cliff, por exemplo, traz um trecho que diz:

O Pravda não era um jornal para trabalhadores; era um jornal dos trabalhadores. Era muito diferente de muitos outros jornais socialistas, escritos por um pequeno grupo de redatores brilhantes. Lenin dizia que nesses jornais não havia vestígios de iniciativa dos trabalhadores, ou de qualquer ligação com organizações da classe trabalhadora. No Pravda, ao contrário disso, mais de 11 mil cartas e notas de trabalhadores eram publicadas em um ano, média de 35 por dia.

Na passagem abaixo, é o próprio Lênin que deixa claro o que pensa sobre a função de um verdadeiro jornal operário:

Ao ler os relatos e as cartas dos trabalhadores de fábricas e escritórios em toda a Rússia, o público do Pravda, em sua maioria disperso e separado pelas grandes distâncias e severas condições geográficas da vida russa, conseguia ter uma ideia de como lutam os proletários dos vários ramos e localidades, assim como viam o despertar para a luta em defesa da democracia da classe trabalhadora.

Tudo isso pode cheirar a naftalina em pleno século 21, com seus meios de comunicação caóticos, mas sob firme controle de monopólios cada vez mais poderosos. No entanto, a situação na Rússia czarista, sob feroz repressão policial e pesada censura estatal, não era nem um pouco melhor que a nossa. Trata-se de encontrar formas de atuar nas condições concretas. De enfrentar o velho e fundamental desafio sobre o que fazer.

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