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29 de janeiro de 2025

A Estátua da Liberdade e o supremacismo branco

Há um poema inscrito em uma placa instalada no interior da Estátua da Liberdade. É "O Novo Colosso", da poeta estadunidense Emma Lazarus. Abaixo um trecho:

Aqui nos nossos portões banhados pelo mar e dourados pelo sol, se erguerá
Uma mulher poderosa, com uma tocha cuja chama
É o relâmpago aprisionado e seu nome
Mãe dos Exílios. Do farol de sua mão
Brilha um acolhedor abraço universal; os seus suaves olhos
Comandam o porto unido por pontes que enquadram cidades gêmeas.
"Mantenham antigas terras sua pompa histórica!", grita ela
Com lábios silenciosos: "Dai-me os seus fatigados, os seus pobres,
As suas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade
O miserável refugo das suas costas apinhadas.
Mandai-me os sem abrigo, os arremessados pelas tempestades,
Pois eu ergo o meu farol junto ao portal dourado”.

Os versos são considerados uma declaração de acolhimento da nação estadunidense aos foragidos e exilados do mundo todo.

A
estátua foi inaugurada apenas 20 anos depois do fim da escravidão nos Estados Unidos. Sem a força de trabalho de milhões de africanos escravizados, era necessário atrair os que não tinham outra opção além de serem explorados pelos capitalistas ianques. Após o jugo que submeteu pessoas cativas por séculos, surge o abraço “acolhedor” discriminatório e xenófobo que vitimou irlandeses, italianos, judeus e chineses e, mais recentemente, alcançou latinos e muçulmanos. Isso para não falar dos territórios indígenas ocupados a ferro e fogo.

Trump pode ser acusado de tudo, menos de não ser coerente com a tradição racista e genocida que tornou grande a América supremacista branca.

Leia também: Trump e o ancestral racismo da América

5 de novembro de 2024

De quem seria a culpa por um retorno de Trump?

“Não vai acontecer aqui” é um romance, de 1935, do escritor estadunidense Sinclair Lewis. Publicado durante a ascensão do fascismo na Europa, descreve a eleição de um senador fictício para Presidente dos Estados Unidos. Suas promessas de campanha incluíam reformas econômicas e sociais drásticas e o regresso ao patriotismo e aos valores tradicionais. Após a eleição, o novo presidente se torna ditador com a ajuda de uma implacável força paramilitar à semelhança das SS nazistas.

As informações acima são da Wikipédia.

Em 1931, três anos antes da publicação do livro de Lewis, “policiais de Los Angeles cercaram um parque público frequentado por latinos, prenderam 400 pessoas, todos de pele escura, enquanto o mesmo se repetia em hospitais, mercados, igrejas, clubes e associações. Em pouco tempo, mais de 1,8 milhão de mexicanos foram deportados por ordem do governo de Herbert Hoover – 60% com cidadania americana”.

O relato acima é da jornalista Dorrit Harazim. E o trecho abaixo é de um artigo de Vijay Prashad:

Em 1964, o marxista polonês Michał Kalecki escreveu o artigo “O fascismo de nossos tempos”. Nele, Kalecki disse que “embora não aprecie a ideia de grupos fascistas tomarem o poder, a classe dominante como um todo não faz nenhum esforço para suprimi-los e se limita a reprimendas por excesso de zelo”.

Essa atitude persiste até hoje: a classe dominante como um todo não teme a ascensão desses grupos fascistas, mas apenas seu comportamento “excessivo”, enquanto as seções mais reacionárias das grandes empresas apoiam financeiramente esses grupos.

Ou seja, se Trump voltar ao poder, os últimos na fila dos culpados serão os eleitores estadunidenses.

Leia também: Destino Manifesto: a doutrina genocida estadunidense

30 de agosto de 2023

O poder paralelo de Elon Musk e outros magnatas

Em 21/08/2023, a edição digital da revista New Yorker publicou o artigo “O governo paralelo de Elon Musk”, em tradução livre. Refere-se à grande sombra que o bilionário projeta sobre a administração da mais poderosa nação do mundo.

Para começar, a SpaceX, fábrica de foguetes de Musk, é atualmente o único meio pelo qual a Nasa faz seus voos para o espaço. Já os planos do governo estadunidense de priorizar a indústria de carros elétricos demandam estações de recarga, muitas das quais pertencem a outra empresa do bilionário, a Tesla. Enquanto isso, os militares ucranianos contam com os terminais de internete da Starlink, também de Musk, para comunicações na guerra contra a Rússia. “Estamos vivendo das boas graças dele”, disse um funcionário do Pentágono. "E isso é péssimo."

Nos últimos 20 anos, diz a matéria, Musk buscou oportunidades de negócios em áreas cruciais onde, após décadas de privatizações, o Estado retrocedeu. O governo agora depende dele. Funcionários atuais e antigos da NASA, dos departamentos de Defesa, Transportes, Administração Federal de Aviação e Administração de Segurança e Saúde Ocupacional disseram que a influência de Musk havia se tornado inevitável em seu trabalho e agora o tratam como uma espécie de autoridade não-eleita. Um porta-voz do Pentágono procurado pela reportagem, respondeu que só poderia falar sobre a presença da Starlink na Ucrânia com a permissão de Musk.

A publicação considera essa situação um produto do “capitalismo extremo”. Não é. É só capitalismo mesmo. E não é apenas Musk, mas uma longa linhagem de magnatas: Carnegie, Rockfeller, Gould, Morgan, Gates, Bezos. Todos sob a sombra do governo de plantão.

Leia também: Fascismo atualizado por algoritmos

8 de outubro de 2022

Deus nos salve da América

“Ideias de 'guerra civil' nos EUA incendeiam redes sociais” diz reportagem de Ken Bensinger e Sheera Frenkel publicada no The New York Times e reproduzida pelo Globo, em 06/10/2022. 

Segundo o texto: 

Mais de um século e meio depois do fim da Guerra Civil verdadeira, o mais violento conflito da História dos EUA, as referências a uma nova guerra civil se tornaram lugar comum na direita. Embora o termo seja usado de maneira dispersa em alguns casos, como em uma analogia à crescente divisão partidária no país, especialistas afirmam que, para alguns, a expressão é bem mais do que uma metáfora.

Após a apreensão de documentos na residência do ex-presidente Donald Trump, “publicações no Twitter mencionando uma ‘guerra civil’ dispararam quase 3.000% em questão de horas”, diz a reportagem.

Mas o fenômeno não se limita à internete. Em campanha para as eleições legislativas de novembro, multiplicam-se os casos de republicanos prevendo uma guerra civil nos comícios que realizam por todo o país. 

“No final de agosto, informa o texto, uma pesquisa com 1,5 mil adultos conduzida pelo instituto YouGov e pela revista Economist apontou que 54% dos entrevistados que se identificaram como ‘republicanos convictos’ acreditavam que uma guerra civil era algo provável na próxima década.”

Estamos falando de uma sociedade com elevado índice de armamento da população. Some-se a isso a mentalidade delirante que prevalece em grande parte do país, além do racismo a rasgar-lhe as entranhas. Por fim, trata-se da nação cuja contribuição para todo tipo de desequilíbrio no planeta já é decisivo. Imagine se resolver se dilacerar...

Deus nos salve dessa América dos infernos!

Leia também: Destino Manifesto: a doutrina genocida estadunidense

8 de junho de 2020

Racismo ianque: entre a suástica e a cruz inflamada

“O Homem do Castelo Alto” é um livro de ficção científica escrito pelo norte-americano Philip K. Dick. A trama se passa em 1962, quinze anos após o fascismo derrotar os Aliados na Segunda Guerra, ficando o território dos Estados Unidos dividido entre a Alemanha nazista e o Japão imperial.

Recentemente, o livro foi transformado em série televisiva produzida pela Amazon, exibida de 2016 a 2019. Nesta versão, aparece um personagem que não está na obra original. É Edgar J. Hoover, que foi chefe absoluto do FBI por quase quatro décadas.

No mundo distópico da série, Hoover é um dos homens de confiança da ditadura nazista que domina os Estados Unidos. Mas o que chama a atenção é que a “liberdade ficcional” adotada pela adaptação seja bastante coerente em relação à possibilidade histórica explorada por Dick.

Na vida real, à frente da polícia federal americana, Hoover foi um feroz anticomunista, chantagista, corrupto e racista. Transformou o FBI em uma polícia política aos moldes da Gestapo. E perseguiu de forma impiedosa principalmente o movimento negro e lideranças como Malcolm X e Luther King. Mas também pessoas como John Lennon, por sua oposição à Guerra do Vietnã.

Na verdade, a série apenas mostra que alguém como Hoover pode servir perfeitamente tanto à democracia supremacista e elitista de Washington como à ditadura fascista de Berlim. Hipótese confirmada por cada ação assassina e covarde do aparelho de repressão ianque contra os não brancos.

O fato é que para uma parte considerável da população norte-americana, a vitória aliada sobre os nazistas fez pouca diferença. No lugar da suástica, a cruz em chamas.

Leia também: As cores que importam na tragédia capitalista

3 de março de 2020

Sanders: quando o voto útil é o voto incendiário

Em momentos eleitorais, a esquerda mais radical e combativa costuma ser pressionada a aceitar o chamado “voto útil”. Raramente, esse voto pragmático coincide com a opção mais próxima às propostas comprometidas com as lutas populares. Sua função seria apenas evitar o mal maior.

Pois não é o que vem acontecendo na campanha eleitoral pela presidência dos Estados Unidos. A candidatura considerada “incendiária” vem se mostrando a mais preparada para derrotar Donald Trump. É o que indica, por exemplo, recente matéria de Meagan Day e Matt Karp sobre as primárias democratas, publicada pela Revista Jacobin:

As pesquisas são unânimes: uma maioria considerável dos eleitores nas primárias dos democratas (entre 60% e 65%) dizem que é mais importante encontrar um candidato que possa vencer Trump do que um que eles concordem com as pautas. Isso não é um padrão para eleitores que fazem oposição a um presidente em exercício. Na prévia da sua campanha de reeleição em 2004, por exemplo, menos da metade de todos os democratas diziam o mesmo sobre George W. Bush.

Ao longo das primárias, Bernie Sanders e muitos de seus apoiadores têm argumentado que não é suficiente vencer Trump: precisamos nos organizar para transformar as condições econômicas abismais que produziram Trump também. E isso é extremamente verdadeiro.

Situações extremas exigem soluções extremas, costuma-se dizer. Mas a persistência dessas situações vem de longe. Não surgiram com Trump, por lá, ou Bolsonaro, por aqui.

É exatamente a recusa em enxergar a necessidade de combater radicalmente o extremismo capitalista que nos empurra para situações-limite que disputas eleitorais estão longe de resolver.

De qualquer maneira, agora somos Sanders.

13 de fevereiro de 2020

Fraturas na ditadura democrática estadunidense

A mais perfeita ditadura do mundo funciona há séculos sob o domínio de um partido único, com duas alas: a republicana e a democrata.

A ditadura estadunidense funciona tão bem que elege presidentes em um colégio eleitoral que, frequentemente, ignora a vontade popular. O último deles foi Trump. Com três milhões de votos populares a menos que Hillary Clinton, esse sistema não foi contestado nem mesmo por ela.

Este forte aparato político funciona como um muro contra alternativas mais democráticas. Principalmente, contra forças de esquerda. É este muro que coloca do mesmo lado Bush, Trump, Obama, Clinton...

Mas surgem sinais de rachaduras nesse paredão. Uma onda rebelde de esquerda vem varrendo grande parte da sociedade estadunidense. À frente dela, o senador Bernie Sanders.

Sanders luta para ser o candidato democrata nas eleições presidenciais defendendo uma plataforma política considerada radical. Na verdade, apenas propõe políticas de redistribuição de renda, ampliação dos serviços públicos, taxação da riqueza e limitações à especulação financeira. Mas basta isso para ser considerado um incendiário.

Sanders conta com forte apoio em categorias sindicais recentemente envolvidas em grandes greves e lutas. Suas propostas também vêm conquistando jovens, latinos, negros e muçulmanos.

Para muitos comentaristas, Sanders representa a maior chance de uma vitória democrata nas próximas eleições. Mas o maior inimigo dele hoje não são os republicanos. É a direção de seu próprio partido, que prefere ver Trump reeleito a permitir a vitória de um “incendiário”. Daí, as recentes sabotagens contra sua candidatura nas primárias democratas.

Há possíveis fraturas na poderosa muralha conservadora estadunidense. E isso é muito importante para os socialistas no mundo todo.

Leia também:
Privacidade hackeada, democracia comprada
Donald Trump: tragédia nada acidental
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23 de setembro de 2019

Washington e a política dos passeadores de cachorro

A jovem Alexandria Ocasio-Cortez, do Partido Democrata, surgiu como uma nova liderança nas eleições do ano passado. Um sopro de ar fresco na atmosfera poluída da política estadunidense.

Nove meses após sua posse, já não é bem assim. Pelo menos, é o que diz recente matéria publicada no New York Times, segundo a qual Alexandria estaria aprendendo a “jogar pelas regras de Washington”.

A deputada e sua equipe chegaram ao Congresso decididos a respeitarem mais a vontade das ruas que a dos chefes de seu partido.

Entre as propostas inovadoras que lideraram, está, por exemplo, o “New Deal Verde”, um pacote de medidas para combater as mudanças climáticas e as desigualdades econômicas.

O problema é que o velho cretinismo parlamentar não demorou a se impor.

Até agora, os veteranos tiveram paciência, afirma Alexandria: “Podiam ter me colocado na Comissão de Passeadores de Cachorro”. Mas o fato, diz a reportagem, é que:

...a abordagem que ela e seus aliados defendem – de empurrar a instituição para a esquerda, ameaçando as carreiras de democratas que não abracem suas ideias – afastou muitos de seus colegas, dificultando sua tarefa de tirar as coisas do papel.

Desse modo, Alexandria admite estar passando por um processo de “perda de inocência e ingenuidade”, percebendo ser “impossível separar o trabalho no Congresso e a política envolvida nas campanhas à reeleição”.

Rosa Luxemburgo dizia que quando os socialistas acham que estão mudando o Estado, é o Estado que está mudando os socialistas.

Ocupar assentos no parlamento, sim. Mas tentar empurrá-lo para a esquerda por dentro dele... Só vai sobrar a Comissão dos Passeadores de Cachorro, mesmo.

2 de agosto de 2018

Trump e Xi Jinping: possíveis aproximações

Voltando às recentes confusões entre Estados Unidos e China, seria importante lembrar alguns fatos meio esquecidos na relação entre as duas potências.

Nesse sentido, é bastante esclarecedor o artigo “Raízes da guerra comercial entre EUA e China”, de Francesco Sisci, professor da Renmin University of China. Publicado pelo “Settimana News”, em 25/07/2018, o texto diz que tudo começou em 1971, quando Mao Tsé-Tung deu boas vindas a Nixon em Pequim. A partir daí:

...a América ganhou um novo aliado que poderia compensar a derrota política no Vietnã, e a China teria uma recompensa ainda maior. Sob a ameaça de uma invasão por parte da União Soviética, os Estados Unidos melhoraram dramaticamente a capacidade chinesa de defesa aprimorando suas estratégias, táticas e armas.  

Já sob Deng Xiaoping, a China ajudou o exército americano na Guerra do Afeganistão, por exemplo. Não por acaso, os Estados Unidos fizeram vistas grossas diante do massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989.

Essa relação especial com o imperialismo ianque abriu caminho para que o gigante asiático desempenhasse papel fundamental no posterior aprofundamento da globalização capitalista. Nesse período, a produção dos Estados Unidos deslocou-se para a China, que também se tornou um enorme mercado para a produção americana.

Tudo isso mostraria os equívocos da atual política de Trump em relação à China. Mas Sisci também enxerga sérios problemas do lado chinês.

A recente política de combate à corrupção do presidente Xi Jinping teria desorganizado o sistema político e concentrado ainda mais o poder. Aparentemente, eles têm uma espécie de Trump por lá também. Se isso for verdade, melhor nem pensar nas consequências.

Leia também: Estados Unidos e China, da guerra comercial à guerra quente

10 de fevereiro de 2017

Yes, vocês podem! Não é, Trump?

Em 12/01, Reginaldo Moraes publicou “O círculo de fogo americano – dinheiro, poder, poder, dinheiro” no Jornal GGN. É mais um artigo sobre aspectos importantes da sociedade estadunidense. Neste, o assunto é o sistema político norte-americano.

O texto começa lembrando a enorme concentração de riqueza e poder nos Estados Unidos. Uma realidade em que cerca de 0,1% da população, ou umas 14 mil pessoas, ganham US$ 24 milhões, por ano. Aí, o texto pergunta em que gastaria tanto dinheiro essa elite minúscula. Em muito luxo, claro. Mas, há um item que não é apenas consumo, diz Moraes. É investimento:

Os 0,1% dos cidadãos mais ricos dos Estados Unidos são responsáveis por 85% do financiamento das campanhas políticas. Simples assim. Eles compram política. Compram campanhas políticas, compram leis, compram interpretações da lei (juízes e suas sentenças), compram vereadores, prefeitos, governadores, deputados, senadores, xerifes. O que vier eles traçam. Ah, sim, não vamos nos esquecer: eles também compram organizações especializadas em impedir ou desestimular o voto dos desgraçados. E assim, como têm muito dinheiro, compram a política. E comprando a política isso lhes garante mais dinheiro. O círculo se fecha. O único risco que correm é essa coisa ficar tão podre, mas tão podre, que a insatisfação saia por outros poros, como o crime, a violência aparentemente “gratuita”. Mas, para isso, bom, para isso eles compram mais leis, mais policiais, mais presídios. E mais pastores, radialistas e locutores de TV despejando lixo para seu respeitável público.

Eles, sim, podem encher o peito e dizer: “Yes, We can!” Podem tudo. Inclusive, fabricar merdas homéricas como Donald Trump.

9 de fevereiro de 2017

Trump e seus algoritmos suicidas

Estamos muito felizes que nossa abordagem revolucionária de comunicação dirigida por dados tenha desempenhado papel tão essencial na extraordinária vitória do presidente eleito Trump.

As palavras acima foram atribuídas a Alexander Nix, executivo britânico da Cambridge Analytica. Estão no artigo “Big Data: Toda democracia será manipulada?”, publicado no portal Caros Amigos, em 06/02.

Segundo o texto, a Analytica estaria por trás da campanha online de Trump, assim como de parte da campanha “Brexit”, na Inglaterra. Atualmente, Nix considera inúteis campanhas de marketing que tratam de forma uniforme grupos sociais inteiros.

Por exemplo, enviar as mesmas mensagens a todas as mulheres em razão do seu gênero, ou a “todos os afroamericanos por causa de sua raça.” Já não se fazem mais campanhas baseadas “em demografia”, diz ele. No lugar dela, entraram os algoritmos.

Com base neles, afirma Nix, fomos “capazes de formar um modelo para diagnosticar a personalidade de cada um dos adultos dos Estados Unidos.” Essa metodologia teria permitido à campanha de Trump concentrar-se em determinados segmentos, deixando outros de lado. Cabos eleitorais, por exemplo, sabiam quais casas visitar em busca de votos e quais ignorar.

A façanha teria sido possível graças à vinculação de certos produtos e mensagens de marketing a características da personalidade dos consumidores. Tudo capturado em tempo real por meio de redes como WhatsApp e Facebook, movimentações financeiras e compras.

Assusta. Mas é só mais um passo na captura definitiva da política institucional pelo poder econômico. É a democracia colonizada pelo capital e o consumidor no lugar do eleitor. No comando, um vendedor maluco oferecendo um test drive suicida ao planeta.

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Com Trump, o terrorismo venceu. É fato

1 de fevereiro de 2017

O “Bolsa-Família” dos trabalhadores estadunidenses

“A classe trabalhadora norte-americana: o gigante adormecido está se mexendo?” é um artigo de Reginaldo Moraes com informações bastante interessantes sobre a força de trabalho norte-americana.

Publicado em 17/12, no Jornal GGN, o texto mostra que os proletários estadunidenses continuam lá. Só mudaram de perfil. Concentram-se mais no setor de terciário e são chamados de ”fornecedores de serviço”. Uma designação que esconde grande desrespeito a direitos trabalhistas e enorme concentração de riqueza nas mãos da minoria que os explora.

É neste cenário que existe o “Food Stamp”. Uma ajuda federal instituída durante a grande depressão nos anos 1930 para comprar alimentos. Como diz o autor, “guardadas as muitas diferenças, uma espécie de Bolsa-Família ou Fome Zero norte-americano”.

O programa tinha sido desativado nos anos 1960. Voltou nos anos 1970, quando começou “a grande virada da desigualdade na sociedade norte-americana”. E, em 2014, “nada menos que 46 milhões faziam uso do Food Stamp para cobrir seus gastos de ‘mercearia’”.

A maioria dos que utilizam o Food Stamp trabalha, ”em tempo parcial ou integral, naquilo que consegue arrumar”. Muitos deles em empresas gigantes, como a Walmart. Uma delas, diz Moraes, criou um “site para ‘educar’ seus funcionários (ou terceirizados) para que fizessem orçamentos ‘inteligentes’”. E “teve a cara de pau de sugerir a eles que se candidatassem ao Food Stamp para completar a renda!”

Ao mesmo tempo, continua o artigo, há políticos americanos que atacam esses programas sociais como “atrativos para preguiçosos e aproveitadores”.

Pois é, nem na adoção do programa, nem nas críticas conservadoras a ele somos muito originais. E, provavelmente, nos resultados extremamente limitados, também.

Leia também: Donald Trump: tragédia nada acidental

27 de janeiro de 2017

Em meio à confusão neoliberal, dois presidentes ilegítimos

Em 27/01, Antonio Luiz M. C. Costa publicou na Carta Capital artigo mostrando como “o consenso neoliberal” anda “de pernas para o ar”. Um trecho:

Com o Reino Unido, o mais tradicional arauto do livre-comércio, entregue ao nacionalismo, os Estados Unidos às vésperas de empossar um presidente em confronto aberto com as organizações multilaterais e a União Europeia em risco de desintegração, sobrou Xi Jinping, herdeiro da revolução maoísta e líder do maior partido comunista do planeta, para abrir os trabalhos e salvar a globalização da orfandade.

Xi prometeu manter suas fronteiras abertas, defendeu o Acordo de Paris contra a mudança climática e deu lições de liberalismo contra a guerra comercial: “O protecionismo é como se trancar em um quarto escuro: vento e chuva ficam do lado de fora, mas também a luz e o ar. Cortar os fluxos de capital, produtos e pessoas entre economias e canalizar as águas do oceano para baías e lagos isolados é impossível”.

Diante dessa confusão toda, como fica a política externa do governo golpista? Segundo seu formulador, José Serra, é hora de abandonar alinhamentos sem “conotação ideológica”. Com destaque para a “reaproximação” com os Estados Unidos.

Mas o que fez Temer no dia de sua posse? Viajou para a China, alvo principal dos ataques de ninguém mais que Donald Trump. Ou seja, a política externa de Serra bateu de frente com a de seu parceiro comercial prioritário “não ideológico”.

Felizmente, em relação a suas políticas internas, os dois países têm em comum algo muito importante. Ambos são governados por presidentes escolhidos por sistemas políticos sem legitimidade popular.

13 de janeiro de 2017

Realmente, Obama é de chorar

Correram o mundo as imagens de Obama às lágrimas durante seu discurso de despedida da Casa Branca. Certamente, fizeram muita gente chorar. Mas as lamentações relacionadas ao presidente que está de saída nem sempre ocorrem por simpatia a suas realizações.

É o caso do filósofo estadunidense Cornel West, que também é militante pelos direitos civis e líder dos Socialistas Democráticos da América. Professor da Universidade de Harvard, ele publicou o artigo “É lamentável o triste legado de Barack Obama” no The Guardian, em 09/01.

Os trechos abaixo servem como amostra para o que diz o restante do texto:

A falta de coragem de Obama para enfrentar os criminosos de Wall Street e seu lapso de caráter ao ordenar os ataques de drones deflagraram involuntariamente revoltas populistas de direita no país e terríveis rebeliões fascistas islâmicas no Oriente Médio. E, (...) com cerca de 2,5 milhões de imigrantes deportados, as políticas de Obama prenunciaram os planos bárbaros de Trump.

West também atribui ao atual presidente grande parte da responsabilidade pela eleição de seu sucessor. Segundo ele, é provável que Bernie Sanders tivesse chances maiores de derrotar o republicano. Mas sua candidatura “foi esmagada por Clinton e Obama nas desleais primárias do Partido Democrata”.

O resultado foi a vitória de “um presidente branco mentiroso e repugnante”, cuja posse West considera ser o início de uma “era neofascista”. Um período marcado por “uma economia neoliberal de esteroides, uma atitude repressiva reacionária a ‘alienígenas’ domésticos, um arsenal militar ansioso por uma guerra e a negação do aquecimento global”.

Mas digno de lamento, mesmo, é o fim definitivo da democracia estadunidense.

Leia também: Ficar à esquerda para escolher qual direita apoiar

3 de janeiro de 2017

Uma nação que vive de suas mortes escuras

Em 2016, Nate Paker lançou o filme “O Nascimento de uma Nação”, dirigido e estrelado por ele. A produção estadunidense dramatiza uma rebelião de escravos ocorrida em 1831, que foi rapidamente massacrada e teve seus líderes enforcados.

O título do filme é o mesmo do clássico dirigido David W. Griffith, lançado em 1915. Mas, ao contrário de Parker, Griffith mostrava os negros como animais brutos e estupradores de mulheres brancas. Além disso, apresentava a Ku-Klux-Klan como uma organização de heróis justiceiros.

A trama dos dois filmes se passa no século 19, mas o racismo americano vem de data muito anterior. Já em 1776, a declaração da independência dos Estados Unidos descrevia os indígenas como seres “selvagens e impiedosos, que adotavam como regra de guerra a destruição sem distinção de idade, sexo e condições”.

As linhas acima foram escritas tendo como inspiração os ideais de George Washington, Benjamin Franklin e Thomas Jefferson, considerados “pais fundadores” da “América Livre”. E, de fato, é a essa tradição que a classe dominante americana é leal. Exemplos não faltam.

Bush considerou o furacão Katrina um castigo divino contra a população negra de Nova Orleans. Obama foi, no mínimo, omisso diante dos terríveis episódios de violência racista que marcaram seu governo. A eleição de Trump foi comemorada pela Klu-Klux-Klan.

Quando Griffith lançou seu filme, negros eram espancados, enforcados e queimados em macabros espetáculos públicos. Cem anos depois, Parker estreou sua produção num país em que os negros são oito vezes mais sujeitos a serem assassinados do que brancos.

A “América” branca e elitista só consegue trazer à luz incontáveis mortes escuras.

Leia também: EUA: nasce um monstro imperialista

20 de novembro de 2016

A raiva que elegeu Trump

Em 08/11, o Portal Outras Palavras publicou entrevista com a socióloga estadunidense Arlie Russell Hochschild.

Ela é autora do livro “Strangers in their Own Land: Anger and Mourning on the American Right’ (“Estrangeiros em sua própria terra. Raiva e luto na direita americana”). A obra surgiu de quatro anos de convivência com moradores brancos e pobres no interior da Luisiana. Gente que muito provavelmente votou em Trump.

Para esses segmentos sociais, diz a socióloga, realizar o “sonho americano” da prosperidade compara-se à espera em uma longa fila que não só teria parado de andar, como estaria sendo cortada por “fura-filas”. Mais precisamente, pelos beneficiários de políticas afirmativas, como negros, indígenas, hispânicos...

É assim que as razões econômicas pelas quais a fila não anda são ignoradas em nome do conservadorismo mais rasteiro. É essa percepção distorcida pela ideologia dominante que reina nos milhares de comunidades americanas como a estudada por Arlie.

O outro lado desse acanhamento ideológico é o estreito funil do sistema político americano. Se os brancos pobres acreditam que a fila da prosperidade vem sendo retardada por pretensos favorecimentos a “minorias”, estas últimas são desestimuladas ou impedidas de entrar nas filas de votação.

O processo eleitoral americano é tão habilmente controlado pela minoria branca e rica que a impossibilidade de os mais pobres serem minimamente representados aparece como uma questão a ser resolvida entre eles mesmos.

Enquanto explorados e oprimidos, brancos ou não, brigam raivosamente entre si por um lugar numa fila paralisada, o grande capital troca de gerentes sem maiores problemas.

E ainda dizem que é o Brasil que não é para amadores.

Leia também: Hillary x Trump: escolha a barbárie

28 de setembro de 2016

Hillary x Trump: escolha a barbárie

Em 27/09, Hillary Clinton e Donald Trump realizaram o primeiro debate como candidatos oficiais de seus partidos. Levantamentos indicam que Hillary venceu o confronto.

Ainda assim, as pesquisas mostram que Trump continua com chances de vitória. E se esta situação causa pânico em muita gente, há os que não consideram a eleição do republicano um desastre completo. Afinal, dizem eles, a “democracia americana” é maior do que qualquer lunático.

Não é bem assim. Ninguém chamaria Obama de louco ou truculento. No entanto, ele é o único presidente na história de seu país a completar dois mandatos em guerra. Além disso, a radicalização do racismo também é uma marca do primeiro negro na presidência americana.

São evidências de que as características pessoais dos ocupantes da Casa Branca fazem pouca diferença sob a mais eficiente ditadura de classe do mundo. O bipartidarismo que bloqueia qualquer desafio aos interesses do grande capital também promove tragédias humanas nos Estados Unidos e no resto do planeta.

Voltando ao debate presidencial, a vitória de Hillary foi recebida com alívio por Wall Street e pelas principais bolsas de valores do mundo. Estes setores temem as ameaças de Trump contra uma globalização econômica extremamente vantajosa para o sistema imperialista mundial.

Ou seja, de um lado, temos uma candidatura apoiada pela turma responsável pela maior crise econômica desde 1929. Do outro, a ditadura perfeita pode finalmente encontrar um chefe sob medida.

O viciado sistema político americano jamais permitiu que o socialismo se colocasse como horizonte possível. Desse modo, foi abrindo caminho para que a “maior democracia do mundo” decida qual versão da barbárie adotará.

19 de maio de 2016

Socialismo e barbárie nos Estados Unidos

Na corrida presidencial estadunidense, surpreende o sucesso do pré-candidato democrata Bernie Sanders contra Hillary Clinton.

Qualquer político americano sabe que apenas se parecer com um socialista é garantia de fim de carreira.

Sanders, porém, faz questão de se apresentar como socialista. O centro de sua campanha é a denúncia dos privilégios do 1% da população estadunidense frente à pobreza e exploração que atinge os outros 99%. Mas não apenas isso.

Sanders é homem, branco, de classe média, idoso e heterossexual. Mesmo assim, se transformou no candidato favorito dos jovens americanos progressistas, incluindo negros, mulheres, LGBT, assim como vários setores de trabalhadores.

Sanders defende os direitos das minorias oprimidas, sem ignorar as maiorias exploradas. A especialidade dos Clinton sempre foi a defesa dos direitos individuais e das “minorias”, enquanto desprezam a exploração das multidões.

Essa política foi adotada com sucesso por Obama. O problema é que os dois mandatos do simpático presidente estadunidense foram marcados pela pior distribuição de renda da história americana.

O fato é que as medidas adotadas contra os efeitos da crise de 2008 foram as piores possíveis. A dinheirama que saiu dos cofres públicos voltou para os mesmos especuladores que causaram a crise. Enquanto isso, foram gerados empregos insuficientes e mal pagos.

Teria chegado a vez do socialismo no centro do imperialismo mundial?

Pela via institucional, nem a versão suave de Sanders. Hillary deve ser a candidata democrata. A questão é sua fragilidade diante de Trump.

Sanders entusiasma o eleitorado democrata, tanto quanto Hillary o desanima. Altos níveis de abstenção podem eleger o republicano.

Teria chegado a vez da barbárie nos Estados Unidos?

Leia também: Donald Trump: tragédia nada acidental

3 de março de 2016

Donald Trump: tragédia nada acidental

A possibilidade de o bilionário ultraconservador Donald Trump ser eleito assusta até os ultraconservadores. Há quem o compare a Hitler ou Mussolini, com alguma razão.

Afinal, um e outro também chegaram ao poder por meios eleitorais. E em sistemas parlamentaristas, considerados mais equilibrados e confiáveis.

Ao contrário do que muita gente pensa, o sistema político estadunidense é mais parlamentarista do que presidencialista quanto a seus mecanismos eleitorais. E dos mais restritos, aliás.

Em primeiro lugar, o presidente não é eleito diretamente, mas por um colegiado formado por 538 delegados escolhidos nos estados. Para ser considerado vitorioso, o candidato precisa levar a este colegiado 270 representantes.

O problema é que o colégio eleitoral é composto de forma a favorecer os estados menos populosos. Assim, o presidente pode ser eleito sem ter obtido a maioria dos votos diretos. Foi o que aconteceu com George Bush, em 2000.

Há mais de 140 partidos legalizados, mas o sistema distrital favorece apenas republicanos e democratas. Na verdade, duas alas de um partido único. Só divergem quanto à melhor maneira de preservar os interesses da classe dominante.

Grande parte dos eleitores está encarcerada. São os pobres e negros que formam a grande maioria dos 2,3 milhões de presos americanos. A maior população carcerária do mundo.

A agravar todo esse quadro, a economia em frangalhos. Um exemplo: as vagas de trabalho no setor industrial caíram 36%, de 19,3 milhões, em 1979, para 12,3 milhões, em 2015. Enquanto isso, a população cresceu 43%, de 225 milhões para 321 milhões.

Se Trump for eleito, não será algo acidental, portanto. Ainda que venha a ser trágico.

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29 de julho de 2013

Um cineasta negro contra a Ku-Klux-Klan

A absolvição de George Zimmerman no julgamento pelo assassinato do jovem negro Trayvon Martin causa uma onda de protestos nas ruas norte-americanas. O acusado é branco e era segurança voluntário em um bairro da cidade de Sanford, Flórida.

Apesar de serem governados por um negro, os Estados Unidos continuam a mostrar um racismo violento. Na verdade, trata-se de um traço que está no DNA da formação da sociedade ianque. A tal ponto que uma das primeiras grandes produções do cinema estadunidense tem como heróis os encapuzados da Ku-Klux-Klan. Não por acaso, o filme chama-se "O Nascimento de uma Nação", dirigido por D. W. Griffith e lançado em 1915.

Felizmente, havia quem também combatesse o racismo na trincheira cinematográfica. Quatro anos depois do surgimento de "O Nascimento de uma Nação", Oscar Micheaux lançava "Dentro de Nossas Portas". Era a resposta ao filme de Griffith por parte do primeiro cineasta negro dos Estados Unidos.

Produzido, escrito e dirigido por Micheaux, o filme mostra a violência contra os negros como produto da intolerância racial da violenta e covarde “supremacia branca”. Outra realização de Micheaux é "O Exílio", de 1931, primeiro longa-metragem sonoro realizado por um afro-americano.

A boa notícia é que 27 produções de Micheaux estão sendo exibidas na mostra “O Cinema Negro e a Segregação Racial”, promovida pelo Centro Cultural Banco do Brasil. As exibições começaram no dia 24/07, em São Paulo, e serão levadas ao Rio e Brasília. Mas alguns dos filmes de Micheaux podem ser encontrados no Youtube.