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10 de abril de 2019

Globo, Facebook e outros fatores tóxicos do debate público

Em sua coluna publicada no Globo, em 29/02/2019, Pedro Doria discute a Esfera Pública na era digital. Ele começa lembrando como o impacto da criação da imprensa no século 16 teria levado a uma repentina explosão de acesso à informação.

E quanto mais informação circula, diz o colunista, maior a consciência do quão pouco se sabia antes. Mais se questionam as instituições estabelecidas e menos se acredita “nas fontes tradicionais”. Histórias estapafúrdias se popularizaram. Viralizaram, diríamos hoje. Naquela época, os relatos “fake” envolviam “sereias e monstros marinhos”, por exemplo.

“Esfera Pública é aquela parcela da sociedade que participa do debate a respeito das coisas de interesse comum a todos”, define Doria. Após o Iluminismo, a “implantação das democracias” levou à Esfera Pública “uma série de critérios para orientar os debates”, afirma. Entre eles, a ideia de que “fatos científicos não seriam questionados”. Ou de que opções religiosas não poderiam “se intrometer como critério no debate público”.

Mas estes valores jamais foram unânimes na sociedade. ”E pessoas que antes não participavam da Esfera Pública (...) agora participam graças às novas tecnologias. Isso quer dizer que democracias precisarão sobreviver a ambientes nos quais o consenso possível é muito menor”, conclui o colunista.

Sem dúvida, uma leitura muito interessante sobre o que vem acontecendo. Mas esse levantamento histórico precisaria considerar outras fases. Principalmente, aquela da criação dos grandes monopólios da comunicação.

Foi essa fase que tornou possível o surgimento dos poderosíssimos controladores digitais de informações contemporâneos. Novíssimas ou nem tanto, Facebook ou Globo, são corporações como estas as maiores responsáveis pelo clima tóxico do debate público atual.

29 de agosto de 2018

A lógica antidemocrática dos memes

Já circula pelas redes a foto da palma da mão de Bolsonaro, captada durante sua entrevista ao Jornal Nacional, ontem. Nela estavam escritas as palavras Deus, Família, Brasil.

Óbvio que nem ele teria dificuldades para lembrar de palavras tão simples. Muito provavelmente, foram inscritas para gerar “memes”. Segundo a Wikipedia:

Meme é um termo criado em 1976 por Richard Dawkins no seu bestseller “O Gene Egoísta” e é para a memória o análogo do gene na genética, a sua unidade mínima. É considerado como uma unidade de informação que se multiplica de cérebro em cérebro ou entre locais onde a informação é armazenada (como livros).

O candidato Enéias Carneiro marcou as eleições presidenciais de 1989 a 1998. Muito antes de os memes se popularizarem, ele já tinha o seu. Era o bordão “Meu nome é Enéias”.

Com tempo minúsculo no horário eleitoral, a isso se resumiam as propostas de Enéias. Apesar disso, foi eleito deputado federal em 2002, com mais de 1,3 milhão de votos.

A grande popularidade de Enéias mostrava que o pouco tempo para propaganda eleitoral não lhe era necessariamente prejudicial. Ao contrário, ele tinha menos chance de revelar suas ideias políticas grosseiras. Ruim, mesmo, só para o debate político.

No horário eleitoral, Bolsonaro terá direito a apenas 9 segundos diários. É o que basta para disparar muitos memes, enquanto suas ideias pré-históricas e propostas sem consistência ficam em segundo plano.

Qual a solução? Para começar, tempo igual e suficiente para que todas as candidaturas exponham seus programas e ideias. Mais horário eleitoral obrigatório, menos Jornal Nacional. Mais democracia, menos memes.

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1 de novembro de 2017

Mais-valia ideológica e as telinhas nossas de cada dia

Em 2011, no artigo “Reflexões sobre a mais-valia ideológica”, Elaine Tavares, apresentava um interessante conceito do marxista venezuelano Ludovico Silva.

Segundo a jornalista, Silva especula se seria possível que à mais-valia produzida na “oficina material capitalista” correspondesse uma mais-valia produzida na “oficina de produção espiritual, subjetiva”. Um excedente que “serviria para fortalecer e enriquecer o capital ideológico do capitalismo, que por sua vez tem como objetivo proteger e preservar o capital material”.

Para Ludovico, diz Elaine:

...os meios de comunicação de massa, com mais força a televisão, seriam o espaço da mais completa expressão dessa mais-valia que se produz na mente do ser que está exposto ao bombardeio sistemático dos meios. O capitalismo precisava de um instrumento para justificar-se perante os homens, e os meios massivos de comunicação vieram bem a calhar, pela sua capacidade de penetração. Segundo ele, a televisão é verdadeiramente uma extensão do mundo material do trabalho, e um homem ou uma mulher, sentados diante da telinha, seguem absolutamente conectados ao processo produtivo. Seja no intervalo das propagandas, que nada mais são do que a ideologia agindo de maneira voraz, ou nos programas de entretenimento, novelas e de notícias. Tudo está eivado de ideologia.

O livro em que Elaine baseia seus comentários é “A mais-valia ideológica”, de 1977. Não é preciso concordar com a polêmica tese Ludovico para perceber que, quarenta anos depois, homens e mulheres já não ficam mais apenas sentados “diante da telinha”. É ela que nos acompanha em quase todos os lugares. E a aparente variedade dos atuais dispositivos só aumenta sua eficácia como reprodutores dos valores da ideologia dominante.

Leia também: Marx e Engels 4.0

14 de abril de 2015

A bancada BBB: Bíblia, Boi e Bala

Dizem que foi a deputada petista Erika Kokay que criou a expressão “Bancada BBB: Bíblia, Boi e Bala”. A expressão se refere à aliança entre deputados federais religiosos, ruralistas e defensores de soluções violentas para as questões sociais.

Somados, os BBB representam uns 40% dos votos da Câmara, segundo o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar. Mas podem ampliar sua influência facilmente junto a outros deputados.

Um exemplo de BBB é Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Em sua pretensa condição de representante dos evangélicos, ele procura favorecer propostas como a criminalização total do aborto e inviabilizar qualquer discussão sobre legalização das drogas ou combate à homofobia.

Por outro lado, foi ele que desengavetou o projeto de liberação total para a terceirização, atraindo o apoio do conjunto de parlamentares cuja prioridade é defender os interesses empresariais.

Ou seja, para muito além de quaisquer particularidades religiosas ou setoriais, a
bancada BBB tem opções de classe bem definidas. Seu objetivo é aprovar não apenas propostas conservadoras envolvendo direitos humanos e o agronegócio. Também é defender os interesses gerais do grande capital.

Retomando Eduardo Cunha como exemplo, a
ntes assumir a presidência da Câmara, ele já havia se destacado por sua
atuação como representante das operadoras de telefonia, liderando a oposição à aprovação do Marco Civil da Internete, um ano atrás.

Portanto, também a grande mídia desfruta do auxílio generoso dos BBBs. E estes contam com a tolerância dos monopólios de comunicação. Trata-se de uma poderosa aliança à qual só os trabalhadores precisam responder com a unidade de suas lutas. E, claro, com as armas de nossa mídia contra-hegemônica.

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A esquerda que só fala para si mesma


25 de fevereiro de 2014

Cabras marcados para viver

A notícia da semana nos mercados foi a compra do WhatsApp pelo Facebook. Por US$ 19 bilhões, o gigante das redes virtuais comprou o aplicativo que facilita a comunicação entre celulares de forma simples e gratuita.

Mas os investidores querem saber: como o dono do Facebook fará para recuperar um investimento tão grande com uma ferramenta que não utiliza anúncios? Mark Zuckerberg teria dito que anúncios não são a única maneira de ganhar dinheiro com mensagens.

A resposta poderia ser enigmática, mas não é. Basta assistir ao documentário “Sujeito a Termos e Condições” para começar a entender. A produção de Cullen Hoback mostra o que acontece quando aceitamos utilizar os serviços online "gratuitos".

Basicamente, o filme mostra que as condições de adesão permitem que todos os nossos dados fiquem à disposição de empresas e governos por tempo indefinido. E não adianta apagar suas contas e perfis. As informações continuarão lá, invisíveis para todos, menos para o poder político e econômico.

Mas não é só isso. As identificações biométricas também se tornarão obrigatórias em muito breve. Os registros eletrônicos de digitais, palmas da mão, íris dos olhos serão cada vez mais frequentes. Sem eles não poderemos, por exemplo, movimentar a conta bancária ou comprar mercadorias em promoção no supermercado.

E para que serve tudo isso? Para nos assediar com “ofertas imperdíveis”, mas também para nos controlar. Seremos cada vez menos seres humanos complexos e mais identidades biológicas simplificadas. Cada escolha e opção, uma obrigação. Teleguiados pelo Estado e tutelados pelo mercado. Cabras marcados para viver segundo normas que nos são totalmente alheias.

Texto inspirado em “Por uma Teoria do Poder Destituinte”, de Giorgio Agamben

22 de março de 2013

BBB é a realidade do capitalismo

Enquanto estudava a exploração no mundo do trabalho, a socióloga Silvia Viana enxergou aquilo que estava pesquisando nos reality shows. O tema virou seu doutorado e foi lançado o livro "Rituais de sofrimento", no qual ela revela que a sociedade tem mais semelhanças com o ambiente cruel e brutal dos BBBs do que se imagina.

Esta é a introdução da ótima entrevista feita por Luís Brasilino sob o título “Reality Show: mais real do que se gostaria”, publicada em 21/03 no Le Monde Diplomatique Brasil.

Segundo Silvia, com o “capitalismo flexível” atual, “a exclusão tornou-se o pesadelo, necessário e irreversível, de um exército de `inúteis para o mundo`”. Referindo-se ao desemprego, ela afirma que:

...a eliminação tornou-se um ritual ao qual estamos permanentemente submetidos; esse ritual tem a forma da seleção, seja ela de “fora para dentro”, nos incontáveis processos seletivos pelos quais passamos ao longo da vida, seja de “dentro para fora”, na triagem em que se converteu o próprio trabalho sob incessante avaliação. Não é à toa que os reality shows têm a forma preferencial da seleção – e, quando não a têm, ela está pressuposta. O “paredão” é a ritualização desse descarte “necessário e inelutável”, contra o qual é necessário se mobilizar, aceitar quaisquer provas, lutar e, principalmente, participar sempre.

A confirmar essa avaliação, ela cita o próprio Pedro Bial, perguntando aos participantes do programa: “Vocês acham que o BBB é colônia de férias?”. “Não”, responderam todos em uníssono. Silvia concorda. É “trabalho flexível, explorado e degradado”. Não deixem de ler a entrevista.

15 de agosto de 2012

No ar, o Jornal Impossível

Boa noite! Eu sou Roque.

E eu sou Hudson.

(Juntos) Um casal que traz pra você as notícias que realmente importam!

Esta noite, boletins sobre as greves que estão acontecendo em todo o País. As reivindicações, a adesão, como vão as negociações, os próximos passos.

Sim, Hudson, e não perca também nossas reportagens sobre as principais atividades comunitárias de seu bairro. É só localizar com seu controle remoto a região que você quer consultar. Toda a agenda de lazer, diversão, e formação cultural e política para você participar. 

Você também pode se informar sobre os horários de ônibus e trens em seu bairro. Não é Hudson?

Claro, Roque! E para ficar sabendo sobre o atendimento de seus amigos e parentes no SUS, entre em nosso sistema e coloque o nome e CPF do paciente. Em poucos segundos, você conseguirá todos os detalhes.

Tem mais: como montar sua própria rádio ou TV comunitária. Onde comprar os equipamentos. Todos os detalhes técnicos e dicas para uma boa programação. E o melhor é que você monta sua emissora agora, começa a transmitir e legaliza depois.

Na seção de esportes, cobertura especial dos campeonatos de seu bairro. Do futebol ao atletismo, são dezenas de modalidades a sua disposição. Basta clicar na aba “esportes” de sua TV digital para escolher o local a ser consultado.

E não perca nossa reportagem especial de hoje. Mais um capítulo do dossiê sobre irregularidades cometidas por grandes empresários. E nosso editorial vai explicar porque não aceitamos patrocínio de monopólios privados.

Eu sou Hudson.
E eu sou Roque.

(Juntos) E este jornal é impossível!

6 de agosto de 2012

Falem mal, mas falem da greve

“Falem mal, mas falem de mim”. Os movimentos populares estão reduzidos a essa situação há muito tempo. Principalmente, no caso das greves. Mas não só. Os caminhoneiros e os motoboys foram parar nas manchetes dos jornais semana passada.

Os primeiros bloquearam estradas, paralisaram o tráfego e provocaram algum desabastecimento. Os motociclistas fizeram manifestações em grandes cidades, aumentando o já costumeiro caos do trânsito. As duas categorias protestavam contra mudanças na legislação que lhes trariam prejuízo.

Alguns profissionais da grande imprensa chegaram a dar razão aos manifestantes. Mas reclamaram do “método”. Não deveriam ter atrapalhado a vida daqueles que nada tinha a ver com as medidas. O fato é que os atingidos só foram ouvidos depois de partir para a ação. Antes disso, ficou tudo restrito aos gabinetes dos parlamentos e governos.

A grande mídia faz sua parte silenciando sobre questões como estas. É o que ocorre com as greves. Elas praticamente só aparecem nos boletins de trânsito, ao promoverem passeatas e manifestações. E o tom é sempre o de condenação: “atrapalham a vida do cidadão comum”, dizem. Pouco ou nenhum detalhe sobre as reivindicações, os problemas profissionais, a realidade salarial dos grevistas.

Isso tudo é produto de uma imprensa monopolizada e a serviço dos patrões. As greves no setor público, por exemplo, são apontadas como resultado de um “Estado ineficiente” que “paga altos salários a gente incompetente”. Discurso que os vários governos, do federal aos municipais, de oposição ou não, aceitam docilmente.

Bem feito pra nós. Continuamos sem um projeto de comunicação popular, rendidos à lógica da grande mídia e com as orelhas a queimar.

Leia também: As greves nos manuais da grande mídia

17 de julho de 2012

As greves nos manuais da grande mídia

Há mais de dois meses, os trabalhadores das universidades federais estão em greve. A grande mídia quase não falou dela. O silêncio fazia coro com a indiferença governamental.

Em 13/07, o governo apresentou proposta. Os jornais anunciaram com estardalhaço. Da recusa em negociar, surgiram mágicos 45% de correção salarial. Alguns detalhes mereceram pouco destaque.

Feitas as contas, descobre-se que aquele índice representa reajuste negativo ou nulo para a grande maioria dos professores. Além disso, aos funcionários administrativos nada foi oferecido.

É assim que a grande imprensa vem tratando as greves há muito tempo. Para a alegria de governos e patrões. Talvez, fosse bom rever os manuais de redação. Sugestão para um verbete:

Greve: movimento paredista de caráter trabalhista. Deve ser noticiada com moderação. Os leitores devem ser poupados de detalhes como os motivos da paralisação e suas reivindicações. Mas é importante ressaltar que os maiores prejudicados são os usuários e/ou consumidores do setor afetado.

As propostas feitas pelo empregador devem ser noticiadas o mais genericamente possível. Índices de reajuste salarial devem ser apresentados em números redondos. Sem detalhes quanto ao verdadeiro impacto de sua aplicação. Do contrário, poderia ficar clara a eventual insignificância da proposta e a notícia perderia relevância.

Nota: os grevistas têm utilizado o expediente de bloquear ruas e avenidas para chamar a atenção da população. É importante que nos limitemos a informar sobre as regiões afetadas sem dar maiores detalhes quanto a reivindicações e causas do movimento. A prioridade é mostrar os transtornos causados aos motoristas.

Correções como esta tornaria os fatos mais fiéis à notícia, já que o contrário foi descartado.

Leia também: Arrocho salarial e lavagem cerebral

30 de maio de 2012

Quantos bytes fazem um monstro?

“O mundo está diante de um verdadeiro tsunami de informações”. A afirmação é de Ethevaldo Siqueira, em matéria publicada no Estadão em 20/05. Segundo ele, o “volume global de dados produzidos ou replicados em 2011, por exemplo, chegou a 1,8 zettabyte, segundo o IDC (International Data Corporation)”.

O título da reportagem é “Chegou a Era do Zettabyte”. Siqueira explica o que é um zettabyte:

Meu computador tem um disco rígido (HD) com capacidade para armazenar um terabyte, ou mil gigabytes. Pois bem: um sistema com a capacidade de um zettabyte (ZB) poderia armazenar o conteúdo de 1 bilhão de HDs iguais ao de meu desktop.

Segundo a matéria, é mais um fenômeno da ordem da “Teraescala”. Ou seja, aquela de grandezas gigantescas:

Na computação do passado, as arquiteturas de sistemas lidavam com centenas de processadores. No mundo virtual de hoje, trabalham com milhões.

Mas para que serve tanta informação? Claro que não se trata de informação pura. É informação como valor, como capital. E já sabemos o que acontece quando alguma coisa se torna capital. Não à toa, Siqueira diz que:

Para lidar com situações de elevada complexidade, os cientistas criaram até uma especialidade chamada engenharia do caos, cujos recursos lhes permitem controlar situações próximas da desordem total.

“Complexidade, no sentido tecnológico, diz o jornalista, refere-se à extrema diversidade de elementos”. Mas se tudo acaba sendo intercambiável na forma de valor, o que parece diversidade torna-se igualdade. Qualidades transformadas em quantidades.

Ao que o jornalista chama de complexidade, poderíamos chamar de outra coisa. Lembremos que o prefixo “tera” vem da palavra grega “teratos”, que quer dizer "monstro". É a monstruosa desordem com que o capital e suas metamorfoses nos assombram.

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11 de maio de 2012

Estranhas formas de viver

A TV paga anda exibindo as coisas mais bizarras. É o caso do programa “As mais estranhas formas de morrer”, do Discovery. Um exemplo:

Mortes estranhas acontecem quando estudantes de engenharia competem para ver quem cospe mais longe; uma mulher fica em segundo lugar em uma prova de beber água; e um casal fica abraçado por 86 horas.

Outro caso curioso é o do “homem-tronco”. Seu corpo desenvolve tantas e tão grandes verrugas que suas mãos e pés ficam com aspecto de galhos de árvore. Também há uma mulher cujo pé cresce tanto que sua perna pesa mais de 44 kg.

“Histórias de Pronto-Socorro”, da Discovery, mostra um homem que grita o tempo todo sem motivo aparente. Enquanto a equipe médica socorre um homem com uma ereção de quatro dias, uma mulher aparece com uma faca enterrada no peito.

Em matéria de doenças há tumores de todos os tipos. Um deles atacou um português. Uma pequena lesão nos lábios evoluiu para um enorme tumor que cobre seu rosto inteiro e cai pelo peito.

Muito provavelmente, todas essas doenças, distúrbios e casos estranhos sempre ocorreram. A diferença é que hoje são mais visíveis. Mas há alguns casos que podem ser mais recentes.

Um exemplo é a atração erótica que duas mulheres sentem por pontes. Mas uma delas também faz sexo com cercas. Ela realiza seu grande sonho ao acariciar as ruínas do Muro de Berlim.

Por fim, uma dona de casa americana que não pode ficar longe de seu secador de cabelo. O aparelho fica ligado o tempo todo, inclusive na cama. O marido reclama da enorme conta de luz. E de um princípio de incêndio.

Casos como esses fazem pensar na sociedade de consumo. Não chegamos todos a fazer sexo com objetos. Mas o grupo de risco é grande.

Leia também: Steve Jobs prova a atualidade deMarx

19 de março de 2012

Marx e os Irmãos Marx contra a Google

A unificação das políticas de privacidade da Google tem dado o que falar. Até o início de março, o portal armazenava informações de seus assinantes em separado. Elas eram agrupadas e relacionadas a cada um dos 60 serviços oferecidos pela empresa.

Muita gente desconfia da medida. De fato, apenas alguns dados de uma pessoa, entre dezenas de milhões de cadastrados, dificilmente permitirão que ela seja identificada. Mas quando eles são cruzados, é bastante provável que se chegue a uma identificação precisa.

No entanto, há outro aspecto negativo nessa questão. E está ligado exatamente à justificativa da Google para adotar a unificação. O cruzamento dos dados permite que sejam oferecidos bens, serviços e informações de acordo com os gostos, preferências e necessidades do usuário.

Por exemplo, o que resultaria de uma busca com a palavra “Marx”? Depende. A pessoa que pesquisa pode ser um militante político. Seu perfil de compras e interesses no sistema indicará essa condição. Serão apresentadas informações sobre Karl Marx. Do contrário, podem ser exibidas páginas sobre os Irmãos Marx.

Desse modo o sistema elimina buscas inúteis. Impede que sejamos expostos a dados que não desejamos. E aí é que está o problema. O outro lado dessa moeda é uma crescente padronização. Uma domesticação de nossa curiosidade. Uma proteção contra surpresas que podem ser muito agradáveis.

Em nosso exemplo, alguém pode ficar sabendo tudo sobre a obra revolucionária de Marx e nada sobre o humor anárquico dos Irmãos Marx. E vice-versa. Mas precisamos de ambos para derrotar a chatice reinante. Revolucionar uma vida cada vez mais guiada por mecanismos de buscas.

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4 de março de 2012

O Rio de Janeiro de verdade

É bem antipático criticar a aniversariante em plena festa. Perdoável quando os festejos dizem respeito a uma cidade com cerca de 6,5 milhões de habitantes. A maior parte deles muito maltratada por seus governantes.

As belezas naturais cariocas são inegáveis, é verdade. Mas são para poucos. É o que revela reportagem do caderno “Razão Social”, de O Globo, publicado em 28/02. A matéria cujo título é “Índice verde do Rio revela cidade partida” diz:
Cálculo inédito da prefeitura mostra que, enquanto na Baixada de Jacarepaguá há 145 m2 de cobertura florestal por habitante, na Zona Norte o índice é de apenas 3,44.
O texto afirma também que:
São 80 os bairros que já possuem menos de 1% de cobertura vegetal nativa de Mata Atlântica e 63 estão na Zona Norte.
Por outro lado, pesquisa realizada em 2007 pela UniverCidade concluiu que metade dos cariocas nunca foi ao Pão de Açúcar, 40% nunca foram ao Corcovado e 45% jamais visitaram o Jardim Botânico.

Bem longe do quesito belezas naturais, há outros dados. Muito feios, segundo a edição de O Globo de 02/03:
Na comemoração do aniversário de 447 anos da cidade do Rio de Janeiro, pesquisa divulgada pelo Ministério da Saúde em 01/02, o município aparece em último lugar em relação aos serviços oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Pode parecer estranho que a divulgação de tais dados seja feita exatamente por quem promove todo o “oba-oba” em torno da cidade. Mas é assim que a grande mídia mostra como sabe fazer cabeças.

Festejos são exibidos no atacado. No varejo, as contradições. Em geral, para que o povo confie mais na grande imprensa e menos nos governantes que ela própria ajudou a eleger.

Enquanto for assim, fica valendo o Rio exibido pelas novelas da Globo. O resto é que é fantasia.

Leia também: O Rio no cinema: fofura e violência

1 de março de 2012

Direitos autorais e o lampião de Jefferson

Se a natureza produziu uma coisa menos suscetível de propriedade exclusiva que todas as outras, essa coisa é a ação do poder de pensar que chamamos de idéia, que um indivíduo pode possuir com exclusividade apenas se mantém para si mesmo. Mas, no momento em que a divulga, ela é forçosamente possuída por todo mundo. Seu caráter peculiar também é que ninguém a possui de menos, porque todos os outros a possuem integralmente. Aquele que recebe uma idéia de mim, recebe instrução para si sem que haja diminuição da minha, da mesma forma que quem acende um lampião no meu, recebe luz sem que a minha seja apagada.
Estas palavras não são de nenhum defensor do livre compartilhamento de arquivos digitais. São de Thomas Jefferson e foram escritas em 1813. Elas têm tudo a ver com duas propostas de lei em discussão nos Estados Unidos: o Stop Online Piracy Act (SOPA) e o Protect IP Act (PIPA).

Para ter uma ideia do que essas propostas representam, veja abaixo trecho de uma entrevista com Vicente Aguiar. Ele é mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia, e falou para o site IHU On-Line.
Por exemplo, se o site de vocês publica uma informação que veio de um livro, mas vocês não podem usar tal informação, porque estarão infringindo o copyright, já será alvo de uma possível denúncia. Ou se decidem extrair uma citação, uma imagem, ou um conteúdo pego com referência, mas que foi mal citado, o autor pode discordar ideológica ou politicamente da sua abordagem na reportagem e tirar o conteúdo do ar. E você, ou o site que você representa como provedor de conteúdo, terá que ser obrigado a retirar o conteúdo por causa da denúncia e não em função da comprovação. Esse é o problema. Como tirar um conteúdo do ar se não existe prova de que aquilo, de fato, foi uma violação a determinado copyright?
Aguiar ainda alerta para os efeitos mundiais que a aprovação dessas leis traria:
...a maioria da infraestrutura que garante o funcionamento da internet é dos Estados Unidos. Então, hoje, tudo o que impacta nos Estados Unidos em termos de internet acaba também impactando para o mundo de uma forma muito intensa.
O respeito a direitos autorais é mais do que justo. Ele serve para incentivar a criação e a invenção. Mas não pode virar privilégio permanente nem ser controlado por uma poderosa minoria. A criatividade e engenhosidade individuais são produto de um longo acúmulo de conhecimento social. Não deve tornar-se propriedade de alguns poucos.

A verdade é que a legislação em debate nos Estados Unidos pretende manter e fortalecer os enormes grupos empresariais de comunicação, tecnologia e diversão. Seus representantes não querem apenas roubar a luz do lampião de Jefferson. Querem seu monopólio total. A maioria da sociedade que fique no escuro.

Leia também: O livro já teve seus dias de facebook

23 de fevereiro de 2012

A advogada sob a luz da mídia

"No meu ponto de vista, há dois corresponsáveis por este processo. Alguns membros da imprensa e alguns policiais". Estas palavras teriam sido ditas por Ana Lúcia Assad, advogada de Lindemberg Alves, condenado pela morte de Eloá Pimentel. Esta teria sido uma das teses usadas por ela durante o julgamento de seu cliente.

A hipótese faz sentido. A inabilidade da polícia é conhecida demais. Quanto à imprensa, é só lembrar o espetáculo em que foi transformado o seqüestro que antecedeu a morte da jovem.

O problema com a argumentação da advogada é outro. Aparentemente, ela também procurou tirar vantagem da exposição aos holofotes, flashes e microfones. Ou seja, entrou no jogo tentando usar as armas daqueles que elegeu como adversários.

Não funcionou, mas, pelo menos, ajudou a mostrar como é pesada a presença da grande mídia. O fato é que ela não se limita a registrar os fatos. Ao contrário, na medida em que o faz, interfere em suas conseqüências. Distorce o passado, condiciona presente e futuro. Lembra o chamado "princípio da incerteza", da física quântica.

Em 1927, Werner Heisenberg afirmou que em nível subatômico o próprio ato de observar altera as propriedades do objeto observado. Por outro lado, quanto maior o objeto, menor a incerteza quanto a suas características.

No caso da grande mídia, não é o objeto que é pequeno. Foi ela que se agigantou diante de outros elementos. Sua condição de monopólio compromete a objetividade que afirma ter. A advogada entrou num terreno controlado pela grande mídia. Perdeu-se na ofuscante luz que mistura fatos e versões.

Leia também: A grande mídia e o princípio da incerteza

14 de fevereiro de 2012

O livro já teve seus dias de facebook

O impacto das novas mídias sobre os processos de conhecimento e informação preocupam pais, professores, estudiosos e militantes sociais. Há muitos sinais negativos vindos das chamadas redes sociais e assemelhados.

Mas é preciso manter certa distância crítica em relação a previsões alarmistas. Um pouco de perspectiva histórica também ajuda. É o que possibilitam alguns trechos do artigo “Desdramatizando a crise da crítica”, de João Cezar de Castro Rocha, publicado em O Globo, em 11/02.

O texto reproduz, por exemplo, as palavras de Giambattista Vico, ditas em 1708:
Sem dúvida, a invenção dos tipos impressos representou uma valiosa ajuda para nossos estudos. Hoje (...) os livros estão disponíveis em grande abundância e variedade. (...) Receio, contudo, que a abundância e o baixo preço terminem por fazer com que fiquemos mais negligentes.
Por quê? O articulista responde citando o filósofo alemão Johann Fichte. Segundo Rocha, em 1807, Fichte:
...respondeu à pergunta, esclarecendo o vínculo entre difusão de textos impressos e negligência do corpo discente. Sua resposta descreve boa parte dos estudantes atuais (apenas substitua-se o livro pelo computador): “(...) os alunos preguiçosos prevalecerão, pois, tanto tendem a descuidar da aprendizagem oral, quanto da formação letrada. De um lado, faltam às aulas, já que o conteúdo das mesmas se encontra nos livros. De outro, negligenciam a leitura porque podem aprender de oitiva”.
E, em 1840, o historiador escocês Thomas Carlyle teria dito:
Com a invenção da Imprensa, todas as universidades sofreram uma transformação. Talvez as universidades tenham mesmo sido superadas! (...) A verdadeira Universidade de nossos dias é uma Biblioteca.
Como resposta a esta ameaça, o autor aponta a solução encontrada pelo filósofo alemão Wilhelm von Humboldt, em 1810:
Ele criou a associação indispensável entre ensino e pesquisa que fundou a universidade moderna. Ora, se além do ensino também se fomenta a pesquisa, produz-se conhecimento novo. Ou seja, que ainda não se encontra em livro algum!
Mal comparando, poderíamos dizer o mesmo em relação às novas mídias. Elas podem ser utilizadas para democratizar a troca de informações e o conhecimento. Ou para aumentar o potencial de nossas mobilizações sociais e políticas.

Mas tal como no caso da pesquisa nas universidades, é preciso muita clareza quanto aos objetivos. A pesquisa acadêmica voltada para os interesses do mercado só reforça a alienação geral da sociedade. O mesmo pode acontecer se as redes virtuais substituírem a experiência da luta e da organização reais.

Leia também: Briga de cachorro grande na internete

5 de fevereiro de 2012

Briga de cachorro grande na internete

A edição de 27/01 de CartaCapital traz bom material sobre as recentes tentativas de limitar o acesso à internete. São dois projetos em debate no Congresso dos Estados Unidos: o Stop Online Piracy Act (SOPA) e o Protect IP Act (PIPA). Eles pretendem tratar como criminosos sem direito a defesa quem compartilhar arquivos considerados propriedade intelectual. Principalmente filmes, músicas e videogames.

Em excelente artigo, Antonio Luiz M. C. Costa diz que a verdadeira batalha nessa questão está sendo travada “entre Hollywood e o Vale do Silício”. E explica:
No primeiro time contam-se as associações de produtoras, gravadoras e tevês a cabo e associações de artistas, cineastas, atores e técnicos, além da Câmara de Comércio dos EUA e a central sindical AFL-CIO. No segundo, empresas como Google, Yahoo, Mozilla, Facebook, eBay, American Express, Reddit, Foursquare, Twitter, a fundação Wikipedia, associações de ativistas digitais e organizações de defesa de direitos civis, incluindo a Repórteres sem Fronteiras e a Human Rights Watch. De ambos os lados há democratas e republicanos, conservadores e liberais, esquerda e direita.
A edição ainda alerta para a versão brasileira dos projetos em debate nos Estados Unidos. Trata-se de projeto de lei do deputado Eduardo Azeredo (PSDB-MG). É o criador do esquema do mensalão colocando seu mandato a serviço das grandes empresas de entretenimento.

Ao mesmo tempo, os dois maiores monopólios da atenção dos internautas lutam para aumentar seus lucros. O Facebook entrou pesado na bolsa de valores. E o Google responde com a integração de todos os seus sistemas de busca.

É a velha lógica capitalista de concentração econômica e guerra entre monopólios. Em outros momentos as maiores vítimas desse combate foram os explorados. Agora, não deve ser diferente. E entre os alvos está a liberdade de trocar informações.

Nessa briga de cachorro grande, podem ser eliminados os tímidos e valiosos espaços que o movimento social conseguiu conquistar na rede mundial.

Leia também:
Redes sociais podem ajudar ditaduras?
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2 de fevereiro de 2012

Anonymous, zumbis e coveiros

Em 31/01, o coletivo Anonymous iniciou ataques a sites de instituições bancárias brasileiras. Os principais alvos foram Bradesco, Itaú, Banco do Brasil e Santander. Não teria havido roubo de dados de clientes. Apenas dificuldades para acessar os sites bancários.

A intenção do coletivo seria chamar a atenção para “a corrupção e a podridão da política nacional”. Mas dificilmente ações desse tipo serão capazes de mobilizar a população. De qualquer maneira, o episódio revela contradições interessantes.

Uma das formas utilizadas nos ataques aos sites dos bancos é o uso de “máquinas zumbis”. Ou seja, os “hackers” instalam vírus em milhares de máquinas conectadas à internete. Em certo dia e hora ordenam que as máquinas infectadas acessem os sites bancários de uma vez só.

Em dezembro de 2010, o Anonymous promoveu ataques desse tipo a empresas de cartão de crédito. Era uma represália ao boicote das financiadoras ao site Wikileak. Na época, Jonathan Wood, analista da empresa Global Risks, disse o seguinte: “O gênio saiu da garrafa e pode ser muito difícil colocá-lo nela novamente”.

Mas quem foi que prendeu o tal gênio? Resposta: o próprio sistema capitalista. Afinal, foi ele que criou essa grande rede. Amarrou a criatividade cibernética a um emaranhado global a serviço da transação de valores. Despertou a cobiça ou a ira dos hackers. E forneceu a eles até seus robôs-zumbis.

Os hackers não são os coveiros do capitalismo de que falava Marx. Só poderão sê-lo juntando-se à luta dos explorados. Mas suas ações não deixam de revelar mais uma contradição causada pelo próprio funcionamento do sistema.

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30 de janeiro de 2012

204 anos de monopólio das comunicações

Mais um artigo de Matías M. Molina sobre a história da imprensa no Brasil saiu no jornal Valor de 20/01. “Uma gazeta na corte” relata a criação da "Gazeta do Rio de Janeiro", que começou a circular em setembro de 1808. Segundo Matías:
Depois de impedir durante três séculos que o Brasil tivesse acesso às artes gráficas, os primeiros prelos não chegaram ao Rio de Janeiro porque o governo de Portugal subitamente considerasse que eram necessários para o desenvolvimento da colônia. Foi uma consequência da atabalhoada saída da corte de Lisboa ante a invasão francesa. O equipamento estava encaixotado no cais, recém-chegado da Inglaterra, e foi embarcado na frota em fuga, na última hora, por iniciativa pessoal do secretário dos Negócios Estrangeiros e da Guerra.
D. João, que somente soube da existência de uma tipografia no Brasil depois que fora desembarcada e instalada, percebeu sua utilidade para o funcionamento do governo recém-chegado e para a divulgação de seus atos.
O artigo diz que o novo jornal copiava a “‘Gazeta de Lisboa’, que divulgava os atos oficiais e notícias laudatórias, previamente censuradas”. Além disso, diz o autor:
Até a curiosa estrutura societária da publicação portuguesa foi mantida. Como compensação salarial aos oficiais da Secretaria dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, que reclamavam de remuneração inferior à de outros funcionários, o governo lhes cedera, em 1760, a propriedade e os lucros da "Gazeta de Lisboa". Quase meio século mais tarde, a corte no Brasil entregou aos oficiais dessa mesma Secretaria o privilégio de publicar não apenas a "Gazeta do Rio de Janeiro", mas também "gazetas e papéis periódicos de qualquer natureza". Isto é, o monopólio da imprensa em todo o país. Como se tornaria hábito no Brasil, um bem público era usado em benefício privado.
Como se vê, são antigos os problemas de monopólio das comunicações no País.

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30 de outubro de 2011

A fantástica fábrica de novelas

O jornal Valor de 28/10 lembrou os 60 anos de telenovela no Brasil. A primeira foi ao ar em dezembro de 1951, pela TV Tupi. Mas o destaque da reportagem foi a Globo, atual potência em termos de teledramaturgia no País. A matéria traz dados e informações impressionantes. Por exemplo:
...as roupas usadas nas tramas das telenovelas da Rede Globo nunca têm a aparência de que acabaram de sair da loja (...). [Elas] são lavadas com uma substância que tem tonalidade cinza, secadas e passadas para convencer o telespectador de que o figurino faz parte de um mundo real, palpável e próximo.
A produção cenográfica também é espantosa. A reportagem cita a Galeria do Rock, que fica na capital paulista e é cenário da novela "Tempos Modernos":
Muita gente queria saber em que horário eram feitas as gravações - nas madrugadas ou aos domingos? Nada disso. A cenografia construiu uma réplica do centro comercial alternativo paulistano. Absolutamente todas as fachadas das lojas foram reproduzidas, com seus acervos de discos, camisetas, sapatos etc.
Alguns números:
- O principal estúdio da emissora é o Projac, que ocupa uma área de 1,65 milhão de metros quadrados.

- 6,5 mil pessoas circulam diariamente pelo Projac. Destas, cerca 6 mil são funcionários, prestadores de serviço, atores e figurantes.

- Todas as etapas de produção são integradas - pré-produção, gravação, pós-produção e atividades de infraestrutura - e resultam todo ano em 2,5 mil horas de programação - equivalentes a cerca de 1,2 mil filmes em longa-metragem.

- Cada novela conta com 160 cenários de estúdio, refeitos três vezes, o que dá um total de 480 unidades.

- Só em 2009, foram produzidas 60 mil peças cenográficas, entre elas 17 cidades. O acervo de figurinos soma 280 mil peças.

- Cada capítulo custa cerca de R$ 450 mil. Ao multiplicar por 180, chega-se a um custo de de R$ 81 milhões.

- Estima-se que o faturamento no horário das 21 horas chegue a R$ 300 milhões, sem contar a venda de novelas para outros países, como Portugal.
Como se vê, tanto investimento dá lucro. Ao mesmo tempo, a emissora funciona como um poderoso aparelho privado de hegemonia a favor da ordem. Fazendo cabeças com muita competência.

Por outro lado, trata-se de uma verdadeira fábrica, com um exército de trabalhadores. Já pensou uma greve? Ia ser um drama e tanto!

Leia texto de 2005 sobre o tema: Aos 40 anos, a Globo quer ser a senhora do destino

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