Giacomo Matteotti era um
traidor de sua classe. Filho da burguesia agrária italiana, foi um respeitado parlamentar
socialista. Politicamente moderado, ajudou a fundar o Partido Socialista Reformista
em 1922, após abandonar o Partido Socialista.
Ainda assim, demonstrava
enorme coragem pessoal e compromisso com a democracia. Alvo do ódio da
extrema-direita, por duas vezes, pelo menos, quase foi linchado ao ser
reconhecido por hordas fascistas na rua.
Em maio de 1924, fez um duro
discurso contra o governo Mussolini diante de um parlamento acovardado. Despertou
a ira do “Duce”. Em junho, em plena luz do dia, capangas fascistas sequestram Matteotti.
Seu corpo seria encontrado dois meses depois. Havia sido morto a pauladas. Tinha
39 anos.
A comoção é grande. Até setores
fascistas desaprovam o ocorrido. A crise ameaça derrubar o governo. Tudo indica
que Mussolini foi o mandante. No entanto, como mostra o livro “M, O Filho do
Século”, de Antonio Scurati, um discurso do líder fascista diz tudo sobre a situação
da esquerda italiana naquele momento.
Nesse pronunciamento feito
durante o Grande Conselho do Fascismo, em 22 de julho de 1924, Mussolini diz:
Afinal,
o que as oposições estão fazendo? Eles fazem greves gerais ou parciais? Alguma
manifestação de rua? Ou tentativas de revolta armada? Nada disso. As oposições
conduzem uma controvérsia puramente jornalística. Eles não podem fazer mais
nada.
Infelizmente, Mussolini estava
certo. E ao sobreviver à crise, novamente fortalecido, consegue aprovar uma lei
eleitoral que viria garantir a seu partido ampla maioria parlamentar nas eleições
seguintes.
É leviano traçar
paralelos entre situações tão diferentes. Mas amanhã completam-se dois anos da morte
de Marielle Franco.

