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13 de março de 2020

Itália, 1924. Brasil, 2020: a esquerda paralisada

Giacomo Matteotti era um traidor de sua classe. Filho da burguesia agrária italiana, foi um respeitado parlamentar socialista. Politicamente moderado, ajudou a fundar o Partido Socialista Reformista em 1922, após abandonar o Partido Socialista.

Ainda assim, demonstrava enorme coragem pessoal e compromisso com a democracia. Alvo do ódio da extrema-direita, por duas vezes, pelo menos, quase foi linchado ao ser reconhecido por hordas fascistas na rua.

Em maio de 1924, fez um duro discurso contra o governo Mussolini diante de um parlamento acovardado. Despertou a ira do “Duce”. Em junho, em plena luz do dia, capangas fascistas sequestram Matteotti. Seu corpo seria encontrado dois meses depois. Havia sido morto a pauladas. Tinha 39 anos.

A comoção é grande. Até setores fascistas desaprovam o ocorrido. A crise ameaça derrubar o governo. Tudo indica que Mussolini foi o mandante. No entanto, como mostra o livro “M, O Filho do Século”, de Antonio Scurati, um discurso do líder fascista diz tudo sobre a situação da esquerda italiana naquele momento.

Nesse pronunciamento feito durante o Grande Conselho do Fascismo, em 22 de julho de 1924, Mussolini diz:

Afinal, o que as oposições estão fazendo? Eles fazem greves gerais ou parciais? Alguma manifestação de rua? Ou tentativas de revolta armada? Nada disso. As oposições conduzem uma controvérsia puramente jornalística. Eles não podem fazer mais nada.

Infelizmente, Mussolini estava certo. E ao sobreviver à crise, novamente fortalecido, consegue aprovar uma lei eleitoral que viria garantir a seu partido ampla maioria parlamentar nas eleições seguintes.

É leviano traçar paralelos entre situações tão diferentes. Mas amanhã completam-se dois anos da morte de Marielle Franco.

Leia também: Itália, 1920: os socialistas vacilam. Os fascistas, não

27 de março de 2018

Marielle e a falsidade mais oportunista

O Facebook parece estar passando por uma crise séria. À frente da crise, acusações de que agentes do governo russo teriam usado a plataforma para espalhar mensagens falsas que teriam influenciado as últimas eleições presidenciais estadunidenses. As chamadas “fake news”.

Mas por trás dessa confusão, parece haver muito mais. Há algum tempo, gigantes da grande mídia vêm reclamando do comportamento de gigantes das redes, como Facebook e Google. Eles não só vêm atraindo muito mais anunciantes, como compartilham conteúdo dos grandes veículos de comunicação sem pagar por ele.

O pretexto é combater a indústria de “likes”, cuja lógica despreza o quanto de veracidade há numa informação. Vale apenas o quão rápida e amplamente ela circula. O que importa é seu valor de troca. Seu valor de uso, enquanto verdade, torna-se só mais um detalhe.

Mas tudo isso é só a radicalização de uma tendência mais antiga. No capitalismo, o valor de troca acaba por dominar o valor de uso em todos os campos da vida humana. Desse modo, aqueles jornais “populares” que, torcidos, despejam sangue são apenas uma versão menos sofisticada da “respeitável” imprensa empresarial.

Que isso tenha ficado tão evidente nas redes virtuais permitiu abrir uma brecha que a grande mídia pretende aproveitar para recuperar o mercado que seus rivais lhe tomaram.

Nos Brasil, ocorre algo parecido. De repente, a grande imprensa tornou-se campeã do combate às fake news. Mas, aqui, o oportunismo envolve a execução de uma liderança que era mulher, socialista, preta e homossexual. Representa tudo a que se opõem esses pretensos defensores de sua memória.

A falsidade nunca foi tão verdadeiramente imoral.

Leia também: A economia política da “pós-verdade”