Doses maiores

Mostrando postagens com marcador marx bicentenário. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador marx bicentenário. Mostrar todas as postagens

12 de dezembro de 2018

Gramsci explica o que é ser marxista

Karl Marx não é para nós nem a criança que geme no berço nem o terror barbado dos sacristãos. Não é nenhum dos episódios anedóticos de sua biografia, nenhum gesto brilhante ou grosseiro de sua animalidade humana exterior. É um cérebro vasto e sereno que pensa, um momento único da busca laboriosa e secular que a humanidade faz para se conscientizar de seu ser e de sua mudança, capturar o misterioso ritmo da história e dissipar seu mistério, ser mais forte em pensar e fazer. É uma parte necessária e integrante do nosso espírito, que não seria o que é se Marx não tivesse vivido, pensado, rasgado faíscas de luz com o choque de suas paixões e suas ideias, suas misérias e seus ideais.

O trecho acima é de um artigo escrito por Antonio Gramsci em 1918 para o centenário de nascimento do grande revolucionário.

O texto começa perguntando: “Somos marxistas?”. Uma pergunta, diz ele, cujas possíveis respostas consumirão “rios de tinta e estupidez”. Mas para enfrentar essa questão de modo adequado, afirma, o mais importante é entender que “Marx não escreveu um evangelho”. Que ele:

...não é um messias que deixou uma série de parábolas carregadas de imperativos categóricos, regras absolutas e indiscutíveis, fora das categorias de tempo e espaço. Seu único imperativo categórico, sua única norma é: "Proletários do mundo todo, uni-vos". Portanto, a diferença entre marxistas e não marxistas teria que consistir no dever de organização e propaganda, no dever de organizar e associar-se. Demais e muito pouco...

É o básico e o fundamental. É só o começo, mas indispensável.

Leia também: As feministas que leem Marx não estão contentes

7 de dezembro de 2018

As feministas que leem Marx não estão contentes

Um belo texto de Laura Fernández Cordero sobre a obra de Marx e o feminismo está disponível no portal da Unisinos. Doutora em Ciência Sociais pela Universidade de Buenos Aires, ela afirma ser um “veredicto muito infeliz” dizer que Marx era "cego ao gênero".

Laura começa por descrever Marx como:

...o marido da abnegada Jenny, companheira no caminho do exílio e da miséria. O obstinado por um empreendimento revolucionário, que estava sempre acima de sua família. Aquele que, apesar do anacronismo, mereceria a acusação homofóbica. Aquele que fez teoria sobre a situação das mulheres em termos antropológicos, históricos e políticos. E também aquele Marx que acompanhou o crescimento de três filhas e escritoras políticas e, quando isso não era comum, levou a sério o questionamento de uma mulher (sabe-se que foram necessários muitos rascunhos para responder Vera Zasúlich sobre a viabilidade de uma revolução na atrasada Rússia czarista).

Exatamente por isso, diz ela, havia mulheres que prestavam atenção ao que ele fazia. Foram elas que “tiraram-lhe as barbas junto com outros feminismos não marxistas”. “Traduziram a dominação patriarcal em teorias, em conceitos, em revoluções pessoais, em práticas políticas”. Seriam:

Laboriosas mineiras dessa mina falaciosa que é a "natureza humana". Escavadoras que perfuraram o solo tranquilo do Ocidente viril, assim como aquela velha escavação da revolução que Marx esperançava.

Estariam ajudando a promover “uma revolução da subjetividade que, longe do novo homem, continua a pôr em xeque a tão mencionada universalidade do humano”.

Afinal, conclui Laura, Marx “não era um conciliador, nem um cara gentil. Ele não estava contente. Nós feministas que lemos Marx também não estamos”.

Leia também: Os preconceitos raciais de Marx

3 de dezembro de 2018

Os preconceitos raciais de Marx

Em 1862, Marx escreveu o seguinte sobre Ferdinand Lassalle, socialista alemão com quem mantinha relações conflituosas:

...essa mistura de judaísmo e germanismo, de um lado, e o estoque básico de negroide, de outro, devem inevitavelmente dar origem a um produto peculiar. A impertinência do sujeito também é do tipo crioulo.

Comentários vergonhosos como esse, vez ou outra, aparecem nos escritos de Marx. E não só em relação a Lassalle. Mas isso bastaria para caracterizá-lo como racista?

Em primeiro lugar, tais opiniões estão registradas apenas em cartas. A grande maioria delas, dirigidas a Engels, seu melhor amigo e confidente. Ou seja, tinham um caráter muito pessoal e privado. É como se fossem aquelas conversas de boteco em que muita bobagem é dita sem cuidado algum.

Em segundo lugar, não há nada na obra de Marx que justifique discriminações desse tipo. Ao contrário, toda ela é marcada por um constante esforço de desnaturalização das diferenças entre povos e pessoas. Nela não há espaço para hierarquias raciais.

Isso não significa ficar cego ao racismo de alguns de seus pretensos seguidores. Stalin, por exemplo, era antissemita. Mas esta era só uma das muitas traições do ditador soviético em relação às principais concepções marxianas.

Comemorar o bicentenário do nascimento de Marx não significa destacar apenas suas inegáveis qualidades. Ele não era racista, mas podia ceder a preconceitos raciais. E o exame detalhado de sua correspondência pessoal certamente encontrará outras manifestações discriminatórias.

O fato é que Marx foi um grande revolucionário, mas também um homem de seu tempo. Na verdade, de nosso tempo, ainda muito mergulhado em preconceitos e discriminações sociais.

Leia também:

14 de novembro de 2018

As incríveis contradições da “universidade com partido” chinesa

Nas últimas semanas, pelo menos 12 estudantes universitários em cinco cidades chinesas foram detidos pelo governo. Seu crime? Promover manifestações em favor de direitos dos trabalhadores, como liberdade de organização sindical e melhores condições de trabalho.

O curioso é que os acusados se reivindicam marxistas e foram inspirados pelas obras de Marx que estudam em sala de aula. O ensino do marxismo é obrigatório nas universidades chinesas. Uma espécie de “universidade com partido” oficializada.

Além disso, nas comemorações pelo 200º aniversário de Marx, o presidente Xi Jinping afirmou que o revolucionário alemão estava “totalmente correto”.

Tudo muito contraditório, sem dúvida. Mas nada que deveria surpreender em um país cujo regime político continua se afirmando comunista, ao mesmo tempo em que sua economia tornou-se fundamental para o equilíbrio do capitalismo mundial.

Além disso, há certa coerência no que disse Jinping. Muito do que aconteceu no capitalismo global nas últimas décadas dificilmente pode ser explicado sem auxílio da teoria econômica marxista. Não à toa, as obras de Marx voltaram às livrarias no mundo todo.

O problema é que Marx nunca foi apenas um teórico. Se não existe prática revolucionária sem teoria revolucionária, o oposto também é verdadeiro. E os estudantes entenderam isso muito bem. Para azar deles, mas também do governo chinês.

Tudo isso, porém, pode ser apenas uma advertência. No país que tem a maior classe operária de todos os tempos, é razoável a chance de que seus membros construam seu próprio marxismo. Na periferia das universidades, mas no centro da luta de classes.

Seria um desastre para o regime chinês. Uma esperança para a humanidade.

Leia também:
Nova crise mundial pode arrastar até a China

26 de outubro de 2018

Lutar. Sempre!

O relato abaixo é baseado na biografia de Marx, escrita por Francis Wheen.

Nos anos 1870, o jornal francês “L'Avenir Libéral” relatou que Marx havia morrido. Ele, então, leu seu próprio obituário no “New York World”. A nota dizia que havia falecido "um dos mais devotos, mais destemidos e mais altruístas defensores de todas as classes e povos oprimidos”.

Nada mal, deve ter pensado o precoce homenageado. Apesar disso, quando a morte realmente chegou, em 1883, apenas onze pessoas compareceram ao funeral.

Três anos antes, meados de 1880, Marx estava de férias no litoral de Ramsgate, Inglaterra. Também estava por lá um jovem jornalista americano. Era John Swinton, do diário “The Sun”, de Nova York, que logo se tornou amigo de Marx.

Em uma tarde, enquanto o patriarca do socialismo internacional brincava com seus netos à beira-mar, Swinton arriscou uma conversa mais séria. Ocorreu ao jornalista perguntar a Marx qual seria a razão final, aquilo que justificaria a existência de todos os seres.

“Fiz a pergunta na esperança de receber uma resposta que aquele sábio julgasse definitiva”, relatou o jornalista. Algo que pudesse figurar como um epitáfio que honrasse e resumisse o que foi a vida e a obra do grande revolucionário.

Olhando para as ondas arrebentando na praia e para o sol que já ia se pondo, em tom profundo e solene, Marx respondeu: "A luta!”

Leia também: A família Marx despejada

3 de outubro de 2018

O proletariado nasceu mulher

Sobre a presença feminina entre os setores explorados merece destaque um trecho do livro “Marx estava certo”, de Terry Eagleton:

...o proletariado original não era a classe operária, mas as mulheres de classe baixa na sociedade antiga. O termo “proletariado” vem da palavra latina “prole”, referindo-se àquelas que eram pobres demais para servir ao Estado com algo além de que seus úteros. Desprovidas para contribuir para a vida econômica de qualquer outra forma, essas mulheres produziam mão de obra na forma de filhos. Nada tinham para entregar, salvo o fruto de seus corpos. O que a sociedade demandava delas não era produção, mas reprodução. O proletariado começou a vida entre os alijados do processo de trabalho, não entre os que faziam parte dele (...). Hoje, na era das “sweatshops” do Terceiro Mundo e do trabalho agrícola, a proletária típica continua a ser a mulher. O trabalho colarinho-branco, que na época vitoriana era desempenhado, em sua maioria, por homens da classe média baixa, hoje se encontra, basicamente, confinado a mulheres, que, em geral, recebem menos do que operários braçais sem qualificação. Foram elas, também, que em grande parte preencheram as vagas decorrentes da enorme expansão das atividades em lojas e escritórios, surgidas com o declínio da indústria pesada após a Primeira Guerra Mundial. Na própria época de Marx, o maior grupo de trabalhadores assalariados não era a classe operária industrial, mas a dos empregados domésticos, dos quais a maioria era formada por mulheres.

Essa enorme importância jamais se viu representada na mesma proporção em nossas “vanguardas”. Ajuda a explicar porque tanta coisa vem dando tão errado.

Leia também:
A luta de classes tem que ser feminista

27 de setembro de 2018

A família Marx despejada

Em março de 1850, incapaz de pagar aluguéis atrasados, a família Marx foi despejada. Jenny descreve a situação em uma carta:

...tivemos de deixar a casa; estava frio, úmido e nublado; meu marido saiu à procura de alojamento; quando mencionava as quatro crianças, ninguém queria nos aceitar. Finalmente um amigo veio em nosso socorro; nós pagamos e eu vendi às pressas todas as minhas camas para acertar as contas com farmácia, padeiros, açougueiros e leiteiros, que, assustados com o escândalo provocado pelos oficiais de justiça, de repente me assediaram com suas contas. As camas que vendi foram levadas para a calçada e postas numa carroça — e depois, o que acontece? Já passa muito do pôr do sol, a lei inglesa proíbe isso, o senhorio nos pressiona com a presença da polícia, declara que talvez tenhamos incluído coisas suas no meio das nossas, que estamos nos escafedendo e indo embora do país. Em menos de cinco minutos, uma multidão de duzentas ou trezentas pessoas fica parada, boquiaberta, na frente da nossa porta, toda a canalha de Chelsea. As camas vão para dentro de novo; só podem ser entregues ao comprador na manhã seguinte, depois da alvorada; assim, com a venda de tudo que era nosso, tendo conseguido pagar cada centavo, me mudo com minhas pequenas crianças queridas para dois pequenos quartos que agora ocupamos no Hotel Alemão, na Leicester Street, número 1...

Poderia ser o trecho de uma obra de Dickens. Mas era só um dos vários episódios de dificuldades financeiras envolvendo a família daquele cuja obra seria uma das grandes contribuições para a ciência econômica.

20 de setembro de 2018

Marx pira na teoria da conspiração russa

David Urquhart era um aristocrata escocês que chegou a ser representante do Partido Conservador no parlamento britânico. Mas é mais lembrado por ter introduzido as saunas a vapor na Inglaterra.

Esse personagem, certa vez, cismou que o ministro das Relações Exteriores, Lorde Palmerston, seria um agente secreto russo. Tendo conhecido Urquhart em um jantar, Marx tomou conhecimento da esdrúxula tese e aderiu a ela com entusiasmo.

Afinal, a teoria combinava perfeitamente com o ódio e a desconfiança de Marx em relação à Rússia czarista. A ideia estapafúrdia chegou a render vários artigos para o “New York Tribune”, no final de 1853.

Mas o próprio Marx parecia saber de onde estava metido. Em uma carta a Engels de 9 de fevereiro de 1854, referiu-se ao escocês, escrevendo:

A ideia mais cômica desse sujeito é esta: os russos dominam o mundo por terem uma região no cérebro que os outros povos não têm. E para enfrentá-los, é preciso ter o cérebro de um Urquhart. Mas se você tiver a infelicidade de não ser um Urquhart, deve, pelo menos, acreditar no que Urquhart acredita. Ou seja, deve ser um urquhartitista.

Felizmente, Marx estava ocupado demais sendo marxista e logo se afastou do escocês maluco para voltar a se dedicar à redação de “O Capital”.

Marx só voltaria a ter notícias sobre o aristocrata excêntrico por Engels, que, em carta de 1858, informou que Urquhart tinha sido condenado por infanticídio. Ele havia causado uma congestão cerebral num bebê ao levá-lo para uma sauna.

Esse é mais um curioso episódio revelado por Francis Wheen em sua biografia de Marx.

12 de setembro de 2018

Um duende ronda a Europa. Ops...

“A inesquecível primeira frase do Manifesto Comunista tem a força de um raio”, diz Francis Wheen em sua biografia sobre Marx: "Um temível duende ronda a Europa". Ops...

Estranho, certo? Mas foi assim que a famosa sentença apareceu na primeira edição em inglês, publicada pelo jornal “Red Republican”, em 1850.

A tradução era de Helen Macfarlane, feminista que conhecia Marx e Engels e era muito admirada por ambos. Para traduzir o “espectro” do original alemão, Helen escolheu “hobgoblin”, cuja tradução mais aproximada seria “duende”.

Infelizmente, a imagem do “duende” nunca pegou, lamenta Wheen. A versão que todos conhecem é de Samuel Moore, publicada pela primeira vez em 1888: "Um espectro assombra a Europa. O espectro do comunismo”.

Mas detalhes góticos à parte, um documento interessante foi publicado por Marx e Engels um mês depois do Manifesto. Trata-se de "Demandas do Partido Comunista da Alemanha".

Como o proletariado alemão praticamente não existia ainda, os autores entendiam que o primeiro estágio da luta comunista no país deveria ser uma revolução burguesa.

Assim, as “Demandas" eram bastante modestas. Incluíam apenas quatro dos dez pontos do Manifesto: imposto de renda progressivo, liberdade de ensino, propriedade estatal dos meios de transporte e criação de um banco nacional.

Enquanto o Manifesto propunha a nacionalização de todas as terras, o documento se limitava a "propriedades da nobreza e feudais em geral". Também defendia o sufrágio universal e o pagamento de salários para parlamentares.

Reivindicações muito moderadas, mas que exigiram muita luta para serem atendidas nas décadas seguintes.

De qualquer forma, as “Demandas”, sim, poderiam ter sido iniciadas com a imagem daquele temível duende.

Leia também: Marx correu sério risco de se tornar respeitável

6 de setembro de 2018

Marx correu sério risco de se tornar respeitável

Uma das medidas propostas por Marx e Engels no Manifesto Comunista era o fim do direito à herança. Um privilégio que perpetuava fortunas e concentrava riqueza.

Mas isso nunca impediu Karl e Jenny de receberem alguns reforços no orçamento graças ao falecimento de vários parentes. Muitos deles, tão ricos quanto distantes.

É o caso da tia Henriette, morta em 1863. O sobrinho mal a conhecia, mas recebeu 100 libras. Uma soma considerável para a época e suficiente para que a família quitasse débitos antigos e ficasse livre para iniciar novos.

Como diz Francis Wheen, em sua biografia sobre Marx, sempre que “colocava as mãos em algum dinheiro, ele gastava de forma imprudente, como se não houvesse amanhã”.

O dinheiro da herança possibilitou à família alugar uma espaçosa mansão em Maitland Park, bairro rico de Londres.

As crianças ganharam três cães, dois gatos e dois pássaros.

Um grande baile foi promovido para que suas filhas, Jenny e Laura, recebessem amigos. As duas passaram muitos anos recusando convites para eventos desse tipo por medo de que não pudessem retribuir.

Em meados de 1864, Marx escreveu a um amigo: “Você vai ficar surpreso ao saber que ando especulando com títulos financeiros. Parte deles, de fundos americanos. Desse modo, já lucrei mais de 400 libras”.

“Jogando nos mercados, organizando bailes e jantares, passeando com os cachorros no parque: Marx corria sério risco de se tornar respeitável”, brinca Wheen.

Esse risco logo seria afastado, com a volta das dívidas e da precariedade econômica. Mais uma vez, ficava comprovado o que Marx sempre afirmara. A vida verdadeiramente burguesa é para muito poucos.

Leia também: Um pensador que sonha, um sonhador que pensa

31 de agosto de 2018

Um pensador que sonha, um sonhador que pensa

A lembrança da Comuna de Paris foi durante muito tempo o pesadelo das classes dominantes mundiais. E uma das lendas sobre ela atribui seu surgimento à Internacional Comunista, sob a liderança de Marx.

Em sua biografia sobre o grande revolucionário, Francis Wheen revela o contrário. Apesar de alguns de seus membros terem sido eleitos para a Comuna, a Internacional nem mesmo se posicionou oficialmente sobre ela durante os dois meses de sua duração. Apenas encarregou Marx de escrever um discurso de apoio, que só apareceria após a derrota dos “comunardos”.

Mas por muito tempo, prevaleceu a lenda. E com base nela um correspondente do “New York World” foi à Inglaterra, em julho de 1871. Sua missão, “inspecionar a toca” daquele “ogro” incendiário. Chegando à residência de Marx, relata ele:

...enquanto esperava meu anfitrião, observei cuidadosamente um vaso na mesa lateral em busca de uma bomba. Procurava cheiro de pólvora, mas só encontrei aroma de rosas. Rastejei sorrateiramente de volta ao meu lugar, e esperei melancolicamente pelo pior. Ele entrou, cumprimentou-me cordialmente e nos sentamos frente a frente. Sim, eu estava diante da revolução encarnada, do verdadeiro fundador e espírito orientador da Associação Internacional. Daquele que advertiu ao capital que jamais lutasse contra o trabalho, ou teria sua casa incendiada. Em uma palavra, diante do grande patrono da Comuna de Paris

Mas Marx também impressionou o jornalista de um outro jeito:

É só olhar para sua imensa testa, para saber imediatamente que estamos diante da mais formidável união de forças: um sonhador que pensa, um pensador que sonha.

Esta, certamente, foi a parte mais verdadeira da reportagem.

24 de agosto de 2018

Marx bebe todas e vandaliza

Que Marx gostava de uns bons goles é relativamente conhecido. Mas Francis Wheen dá mais alguns detalhes em sua biografia sobre ele.

Por exemplo, quando jovem, Marx foi co-presidente do Trier Tavern Club, uma sociedade com cerca de trinta estudantes universitários de sua cidade natal, cuja principal ambição era embebedar-se o mais frequentemente possível: o que lhe custou certa vez uma detenção por 24 horas, embora a prisão não impedisse que seus amigos lhe trouxessem ainda mais bebida e um baralho para aliviar o cumprimento da sentença.

Já em idade mais madura, Marx, Edgar Bauer e Wilhelm Liebknecht saíram para um passeio etílico por Londres. Pretendiam tomar pelo menos um copo de cerveja em cada bar pelo caminho. Como a rota incluía nada menos que dezoito pubs, chegaram ao último dispostos a alguma confusão.
Foi o que aconteceu. Bauer tropeçou em uma pilha de pedras de pavimentação. “Opa, tive uma ideia!” disse. Pegou uma delas e acertou um lampião de gás em cheio. O absurdo contagiou seus acompanhantes, que acertaram mais quatro ou cinco lampiões. Era madrugada e as ruas estavam desertas. Mas o barulho atraiu a atenção de um policial, que rapidamente chamou reforços.

Felizmente, o pequeno bando de baderneiros conhecia bem as redondezas. Segundo Liebknecht:

Eram três ou quatro policiais atrás de nós. Marx mostrou uma agilidade de que eu jamais suspeitara. Depois de alguns minutos de perseguição, conseguimos entrar numa rua lateral e passar por um beco, despistando completamente os policiais. Agora estávamos a salvo. Eles não tinham nossa descrição e chegamos a nossas casas sem mais aventuras.

Muito bonito, hein!


21 de agosto de 2018

Marx mostra que a ocasião não faz apenas ladrões

Uma das características mais marcantes dos textos de Marx é a ironia. Importante lembrar disso ao ler o trecho abaixo. Pertence a um rascunho para “O Capital” chamado “Teorias da Mais-Valia”, escrito entre 1861 e 1863:

Um filósofo produz ideias; um poeta, poesia; um pastor, prédicas; um professor, compêndios etc. Um criminoso produz crimes. Observe-se mais de perto a relação desse ramo de produção com o todo da sociedade e dar-se-á conta de muitos preconceitos. O criminoso produz não apenas crime, mas também o direito criminal e assim também o professor que dá palestras sobre direito criminal e ademais o inevitável compêndio de onde o professor retira a "mercadoria" que lança no mercado. Disso advém incremento da riqueza nacional. Sem falar no prazer privado que a leitura dos compêndios criminais proporciona - como nos ensina o Prof. Roscher, referindo-se àquele que ele mesmo produziu. O criminoso produz além disso a polícia e a justiça criminal, juízes, carrascos, jurados e assim por diante. E todos esses ramos de atividade, que compõem grande parte das divisões sociais do trabalho, desenvolvem certas faculdades do espírito humano, inventam novas necessidades e novas formas de satisfazê-las.

Mas não há qualquer ironia em muitas situações sociais contemporâneas produzidas pela criminalidade. Um instantâneo delas pode ser flagrado em reportagens corriqueiras cujos títulos são, por exemplo, “Segurança privada fatura bilhões com violência nas ruas” ou “Segurança é tema central de candidatos ao governo do estado”. E ainda, “Violência faz audiência de programas policiais na TV disparar”.

Ou seja, a ocasião não produz apenas ladrões, mas principalmente enormes lucros e mais repressão.

14 de agosto de 2018

O jovem Marx antecipa o Marx maduro

Em uma bela passagem de sua biografia sobre Marx, Francis Wheen descreve uma importante continuidade entre um Marx muito jovem e aquele das barbas grisalhas:

A vida adulta de Marx tem o ritmo das marés. Avanços e recuos, no quais surtos de espuma são seguidos pelos longos rugidos da água recuando. Essa alternância entre envolvimento e isolamento estava em grande parte fora de seu controle. Era ditada por acidentes e circunstâncias - doença, exílio, problemas domésticos, reversões políticas, amizades rompidas. Mas também pode ser visto como um experimento voluntário na conciliação entre as demandas da teoria e prática, a contemplação privada e o engajamento social.

(...)

E ele sentiu esse dilema mais agudamente do que a maioria, já que manter-se integrado à sociedade sempre foi uma de seus maiores obsessões.

(...)

Aos dezessete anos, em um trabalho de escola, Marx escrevia: "O principal guia a nos orientar na escolha de uma profissão é o bem-estar da humanidade e nossa própria perfeição", escreveu. "Não se deve pensar que esses dois interesses possam estar em conflito". Afinal, afirmava, a natureza humana foi constituída de tal maneira que os indivíduos somente alcançaram o apogeu quando se devotaram aos outros. Alguém que trabalha apenas para si mesmo "talvez se torne um homem famoso por seu conhecimento, um grande sábio, excelente poeta, mas jamais poderá ser um homem verdadeiramente grande". A história aclama apenas os que enobreceram sua tribo e "a própria religião nos ensina que o ser ideal a quem todos se esforçam por copiar se sacrificou pela humanidade”.

Era fácil perceber que aquele rapaz iria longe! E sempre bem acompanhado.

Leia também: Marx e Engels, devotos de Santo Agostinho

7 de agosto de 2018

Marx e Engels, devotos de Santo Agostinho

Um dos livros mais famosos da dupla Marx e Engels é “A Ideologia Alemã”, de 1846. Seu trecho mais conhecido é o que imagina como seria a atividade humana em uma sociedade comunista.

Nela ninguém estaria restrito a um círculo exclusivo de atividades, mas seria possível atuar nos mais diversos ramos de trabalho. A sociedade regularia a produção geral, de modo que seria possível:

...que eu faça hoje uma coisa e amanhã outra, que cace de manhã, pesque á tarde, crie gado à tardinha, critique depois da ceia, tal como me aprouver, sem ter de me tornar caçador, pescador, pastor ou crítico.

Na biografia que escreveu sobre Marx, Francis Wheen brinca ao perguntar quem, afinal, limparia os sanitários ou cortaria o carvão nesse “Nirvana” social.

Wheen também conta que a um espertalhão que perguntou quem iria engraxar-lhe os sapatos sob o comunismo, Marx teria respondido irritado: “Você!”. E a um amigo que disse não conseguir imaginar Marx vivendo satisfeito em uma sociedade igualitária, ele teria dito: "Nem eu. Estes tempos virão, mas já estarei longe.”

Apesar da constante penúria, Marx levava um estilo de vida burguês o suficiente para que lhe viessem a lhe fazer falta certas mordomias numa sociedade mais justa.

Poderíamos acusá-lo de defender posturas do tipo “faça o que digo, mas não o que faço”. Mas nem ele nem Engels jamais tentaram esconder ou negar suas origens sociais. Muito menos se privavam de luxos como bons vinhos, excelentes jantares, charutos, etc.

Nesse particular, os dois estariam mais para seguidores de Santo Agostinho, que teria dito: “Senhor, livrai-me das tentações, mas não hoje”.

Leia também: Vitórias de Marx nos tribunais

6 de agosto de 2018

Marx, inteligência artificial e polinização humana

O trabalho da abelha não é apenas a produção de mel e cera. Seu verdadeiro trabalho ecológico e reprodutor da vida é a polinização, infinitamente mais produtivo.

Ao retirar os favos de mel preenchidos pelo trabalho reprodutor das abelhas, o apicultor se apropria do mel e da cera e as obriga a trabalharem além do que fariam sem a sua intervenção. O trabalho de polinização é ignorado pelo apicultor, mas fundamental para manter o ciclo natural que torna possível sua atividade.

A atividade humana é muito mais do que o trabalho remunerado. Abrange, por exemplo, criação, educação, aprendizagem da linguagem, da escrita, produção da língua, dos símbolos, da cultura, trabalho voluntário, trabalho doméstico...

Conforme o capitalismo se desenvolve, essa “polinização humana” também vai sofrendo uma predação contínua. Na época da inteligência artificial, do digital e da ciência e suas aplicações, a captação do valor começa a se dar também pelas plataformas interativas digitais e pelos aplicativos em rede. São novas formas de aproveitar essa polinização humana, a partir de um imenso volume de interações.

Esse novo e mais esperto tipo de apicultor atende pelos nomes de Google, Amazon, Facebook, Apple, Microsoft, IBM, Twitter, Instagram e seus equivalentes chineses.

Tudo isso é um resumo da elaboração do economista e sociólogo francês Yann Moulier Boutang. Sem dúvida, uma hipótese bastante criativa sobre o funcionamento atual do capitalismo. Mas sua fonte de inspiração é de 1857. Trata-se do “Fragmento sobre as máquinas”, retirado dos chamados “Grundrisse”, uma espécie de rascunho de “O Capital”.

E Marx ainda vivia dizendo que não queria ser chamado de profeta. Vai se f%*#$@!

Leia também:

31 de julho de 2018

Vitórias de Marx nos tribunais

Em sua biografia sobre Marx, Francis Wheen conta que em 1849, ele e Engels foram levados a julgamento em Colônia, na Alemanha, acusados de insultar o promotor público local. Em um discurso de uma hora, Marx mostrou a mente brilhante que o Direito perdeu quando ele se recusou a seguir a carreira do pai:

Prefiro seguir os grandes acontecimentos do mundo, analisar o curso da história, do que ocupar-me com chefes locais, com a polícia e com magistrados de acusação. Por maiores que esses senhores possam imaginar-se em sua própria fantasia, não são nada, absolutamente nada, nas gigantescas batalhas da atualidade. Eu considero que estamos fazendo um verdadeiro sacrifício quando decidimos cruzar lanças com esses oponentes. Mas, em primeiro lugar, é dever da imprensa avançar em nome dos oprimidos (...). Seu dever prioritário é minar todos os fundamentos da situação política existente.

E sentou-se sob os aplausos de uma sala de audiências lotada. Marx e Engels tinham conquistado sua absolvição.

Mal houve tempo para comemorações. No dia seguinte, Marx estava de volta ao tribunal com outros membros do Comitê Distrital dos Democratas do Reno. Desta vez, acusados ​​de "incitamento à revolta". Tratava-se de uma manifestação do Comitê em apoio a uma milícia popular formada para lutar contra impostos extorsivos que haviam sido aprovados pouco antes. Marx arrancou nova absolvição, ao lembrar o direito reconhecido pela constituição vigente à “revolta por todos os meios” contra abusos fiscais.

Foi a gota d´água para o governo. Em alguns meses, Marx seria expulso da Alemanha, sem direito a julgamentos e a novas chances de proferir seus brilhantes discursos de defesa.

Leia também: Engels, o agente secreto de Marx em Manchester

25 de julho de 2018

Engels, o agente secreto de Marx em Manchester

Segundo a biografia “Karl Marx”, de Francis Wheen, em agosto de 1850, os problemas financeiros da família Marx eram tão graves que Jenny foi à Holanda implorar ajuda a um tio de Karl.

Era Lion Philips, rico empresário cujo sobrenome é famoso, hoje, por seus aparelhos eletroeletrônicos. Consciente das atividades de seu sobrinho, a ajuda de Philips limitou-se a um pequeno presente ao mais novo dos filhos do casal.

Diante disso, só restou apelar novamente ao amigo de todas as horas. Engolindo sua enorme repulsa ao mundo dos negócios, Engels foi trabalhar no escritório da tecelagem de seu pai em Manchester.

De seu gabinete, Engels agia como uma espécie de agente secreto por trás das linhas inimigas. Enviava a Marx detalhes confidenciais do comércio de algodão, observações especializadas sobre o estado dos mercados internacionais e, principalmente, pequenas remessas de dinheiro desviado do caixa da empresa.

Manter a regularidade dos envios sem levantar suspeitas, no entanto, significava, algumas vezes, deixar a família Marx sem dinheiro. Em uma ocasião, escreveu: “Infelizmente ainda não estou em condições de lhe enviar as duas libras que prometi, pois o valor total no caixa é de apenas quatro libras. Infelizmente, será preciso esperar um pouco”.

Mas nem sempre Engels conseguia evitar atitudes estranhas. Aqueles com quem convivia em Manchester não entendiam, por exemplo, seu desânimo quando a economia ia bem e bom humor quando o contrário acontecia.

Na verdade, Engels ansiava desesperadamente por uma grande crise econômica que abrisse oportunidades revolucionárias. Não apenas para libertar grande parte da humanidade de sua condição proletária, como a ele mesmo de seu calvário burguês.

18 de julho de 2018

Marx participa de um programa do Monty Python

A primeira versão do Manifesto para a Liga Comunista feita por Engels era, na verdade, uma "profissão de fé". O rascunho que escreveu em junho de 1847 mostra como ele e Marx ainda estavam apegados aos rituais de iniciação das seitas clandestinas francesas.

Chamava-se "Princípios do Comunismo" e continha mais de sete páginas com perguntas que deveriam ser respondidas pelos candidatos a participar da Liga. Por exemplo:

Pergunta 1: Você é comunista?

Resposta: sim.

Pergunta 2: Qual é o objetivo dos comunistas?

Resposta: Organizar a sociedade de tal maneira que cada membro dela possa desenvolver e usar todas as suas capacidades e poderes com total liberdade e sem infringir as condições básicas desta sociedade.

Em sua biografia de Marx, Francis Wheen não resiste a usar o episódio para lembrar um quadro feito para a TV pelo grupo britânico Monty Python, exibido em 1970.

Nele, Marx aparece em um daqueles programas de perguntas e respostas:

Apresentador: O desenvolvimento do proletariado industrial é condicionado por qual outro desenvolvimento?

Marx: O da burguesia industrial.

Apresentador: Sim, muito bem, Karl! Você está a caminho de uma suíte presidencial!

Marx vai bem na competição até chegar à pergunta decisiva:

Apresentador: Quem ganhou a Copa da Inglaterra em 1949?

Marx: Hã... hã..., o controle dos trabalhadores sobre os meios de produção? A luta do proletariado urbano?

Apresentador: Não, foi o Wolverhampton Wanderers, que derrotou o Leicester por 3 a 1.

Marx: Merda!

Não à toa, Marx escreveu a Engels em 23 de novembro de 1847:

Creio que seria melhor abandonar sua proposta e pensar numa coisa tipo “Manifesto Comunista”.

Leia também:

13 de julho de 2018

Marx, Engels e o quebra-cabeças capitalista

Na biografia “Karl Marx: Grandeza e ilusão”, Gareth Stedman Jones destaca o papel fundamental de Engels na obra de Marx. Foi ele, por exemplo:

...o primeiro a identificar as possibilidades revolucionárias da indústria moderna, a ressaltar o lugar do operário fabril e a dramatizar para socialistas alemães o caráter da moderna luta de classes industrial. Seu estudo sobre a Inglaterra ligava os estágios da formação da consciência de classe proletária a fases do desenvolvimento industrial. Seu interesse central pela fábrica movida a energia a vapor, em vez da oficina, também o levou a enfatizar a relação entre trabalhadores e meios de produção, em vez do produto isolado, e a descrever a relação entre as classes, em vez da competição entre indivíduos alienados; e esse relato impressionou Karl profundamente. Quase vinte anos depois, Karl escreveu para Engels: “No que diz respeito às principais teses do seu livro […] elas foram confirmadas até o último detalhe pelos acontecimentos posteriores a 1844”.

Foi assim que Engels levou Marx a buscar outros autores fundamentais. É o caso especialmente de Simonde de Sismondi, David Ricardo e Adam Smith, cujas contribuições foram devidamente reconhecidas por ele.

Mas foi a genialidade de Marx que tornou possível juntar os elementos capazes de dar um panorama coerente para o enorme e confuso quebra-cabeças que é a sociedade capitalista.

Não para resolvê-lo, mas para desmontá-lo. Na maior parte do tempo, peça por peça. Mas, muitas vezes, com uns bons chutes. Para Marx, e principalmente para o belicoso Engels, havia momentos em que a luta de classes tornava inevitável quebrar algumas cabeças.

Engels, o anjo torto de Marx