A sexta temporada de “Black Mirror” chegou à Netflix com elevada audiência. O primeiro episódio faz uma ácida e bem humorada crítica ao poder das grandes corporações tecnológicas. Principalmente em relação a ameaças aos direitos do consumidor, violação de privacidade e uso ilegal de dados.
O próprio serviço de streaming tornou-se alvo da trama. A vinheta da Netflix aparece claramente, ainda que o nome exibido seja outro. Ao mesmo tempo, fica demonstrado mais uma vez que até a crítica aos males do capitalismo contemporâneo foi capturada pelos aparelhos de hegemonia da classe dominante.
Segundo a definição de Gramsci, aparelhos privados de hegemonia são aqueles que são acessados pela sociedade voluntariamente. Ou seja, não se trata de órgãos públicos ou entidades estatais, aos quais a população recorre para buscar serviços ou cumprir obrigações legais. Sua função primordial é atrair a atenção popular para fazer a disputa da hegemonia em favor da ideologia dominante. Os monopólios de mídia são importantes e poderosos aparelhos desse tipo. Constroem um consenso de aceitação da vida tal como ela é, com todas as suas contradições, injustiças, sofrimentos, opressões e exploração.
O problema é que desde o final da União Soviética, o cenário ficou sem um vilão assustador o suficiente para ser responsabilizado pelas mazelas causadas pelo capitalismo. Na ausência de um malvado favorito, uma boa válvula de escape é fabricar um anticapitalismo alienado, tentando manter as massas apáticas e distantes de ações verdadeiramente contestatórias.
Precisamos parar de nos deixar hipnotizar por esses espelhos escuros e apavorantes. Do contrário, não conseguiremos nem evitar um fim com terror nem impedir um terror sem fim.
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