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9 de dezembro de 2020

Videogames e luta de classes

Para concluir os comentários sobre o livro “Marx no Fliperama”, de Jamie Woodstock, segue abaixo um resumo de seu capítulo final.

Os videogames não são simplesmente uma diversão ou o ópio do povo, mas uma mercadoria cultural complexa. Os marxistas deveriam se interessar por eles porque sua produção, circulação e consumo podem fornecer informações importantes sobre o funcionamento interno do capitalismo contemporâneo.
 
“Gamificação” é um termo que alguns estudiosos vêm usando para se referir à aplicação de aspectos dos jogos em outros contextos.

Em um call-center, por exemplo, a performance de cada funcionário é acompanhada em tempo real. Um mau desempenho pode resultar em demissão. Uma eliminação de um jogo nada virtual e que pode comprometer a sobrevivência concreta do “jogador”. Por outro lado, a recompensa mais ambicionada nessa competição é sair mais cedo do trabalho. Nada poderia motivar tanto as pessoas quanto deixar para trás um local de trabalho “gamificado”.

A última onda de organização de trabalhadores do setor é uma notícia muito positiva. Isso não quer dizer que a indústria dos videogames seja o ramo mais importante atualmente, mas sua dinâmica pode fornecer pistas para a compreensão do capitalismo contemporâneo.

E se muitos jogos tendem a ser reacionários, começam a surgir aqueles que denunciam a exploração e a opressão. Um exemplo é o game “Last of Us”, campeão de vendas. Sua última versão começa com um beijo lésbico.

Os games também podem ser uma fuga do trabalho e oferecer uma forma de experimentar e explorar potenciais alternativas à sociedade atual.
 
Portanto, permanece válido aquele comando inicial do jogo “Assassin's Creed”: “Siga Marx!”.

Leia também: Videogames, economia, ideologia, dominação

7 de dezembro de 2020

Videogames, economia, ideologia, dominação

Em seu livro “Marx no Fliperama”, Jamie Woodcok aborda fenômenos culturais e estéticos, citando os estudiosos Nick Dyer-Witheford e Greig de Peuter:

Assim como o romance do século XVIII foi um aparato textual que gerou a personalidade burguesa exigida pelo colonialismo mercantil (mas também capaz de criticá-lo), e assim como o cinema e a televisão do século XX foram essenciais para o consumismo industrial (mas exibiu algumas de suas representações mais sombrias), os jogos virtuais são constitutivos do hipercapitalismo global do século XXI e, talvez, também de possíveis linhas de fuga dele.

Outro autor citado é Ernest Mandel, para quem “o materialismo histórico pode e deve ser aplicado a todos os fenômenos sociais. Nenhum é por natureza menos digno de estudo do que outros”.
 
Com base no que disseram esses autores, Woodcock entende que as relações econômicas específicas da produção capitalista moldam os tipos de hardware, software e videogames lançados no mercado. No entanto, isso não quer dizer que a economia determina inteiramente a superestrutura.
 
Uma crítica marxista da literatura, e mesmo dos videogames, diz ele, faz parte de um projeto de compreensão de ideologias. E a ideologia não é um comando direto, uma ordem a ser obedecida. É um fenômeno muito mais complexo, sutil, obscuro e até contraditório.
 
A situação econômica é a base, mas os vários elementos da superestrutura também exercem sua influência no curso das lutas históricas e, em muitos casos, preponderam na determinação de sua forma.

É a partir desse entendimento que Woodcok discutirá o lugar dos videogames na atual luta de classes.

Sigamos para próxima e última etapa.

Leia também: Videogames e socialismo de baixo para cima

3 de dezembro de 2020

Marx queria ouvir os trabalhadores

Em seu livro “Marx no Fliperama”, Jamie Woodcock ressalta que no 10º capítulo de “O Capital”, Marx traz informações importantes sobre o cotidiano dos operários industriais. Para isso, ele utilizou informações fornecidas por relatórios feitos por inspetores de fábricas.
 
Apesar disso, Marx considerava importante obter informações dos próprios trabalhadores. Então, em 1880, publicou em um jornal francês uma convocação solicitando a colaboração dos trabalhadores para responder um questionário:

Esperamos contar com o apoio de trabalhadores da cidade e do campo conscientes de que só eles podem descrever com pleno conhecimento os infortúnios que sofrem, e de que serão eles, e não salvadores enviados pela Providência, que poderão fazer uso com a energia necessária dos remédios que tragam a cura para os males sociais de que são vítimas. Também contamos com socialistas de todas as tendências que, defensores da necessidade de uma reforma social, também sabem da necessidade de chegar a um conhecimento exato e objetivo das condições em que a classe trabalhadora – a classe a que pertence o futuro – trabalha e se mobiliza.

Ou seja, diz Woodcock, mais do que apenas obter dados, Marx queria fazer contato com os trabalhadores. Por isso, enfatizou em sua convocação que nome e endereço deveriam ser fornecidos “para que, se necessário, possamos enviar comunicados”.
 
Woodcock procura fazer o mesmo em relação aos trabalhadores da indústria de tecnologia, sendo um dos criadores de uma pesquisa com os mesmos objetivos que os de Marx.

Esta postura tem como pressuposto o que o marxista estadunidense Hal Draper chamou de socialismo de baixo para cima. Mas isso será tema da próxima pílula.

Leia também: Trabalhadores de videogames do mundo, uni-vos!