Doses maiores

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27 de maio de 2024

O apocalipse é lucrativo demais para ser adiado

Uma das séries de maior sucesso em exibição atualmente é “Fallout”. Adaptação de um videogame de sucesso, ela tem como cenário um mundo destruído por guerras nucleares.

A radiação mata e adoece gravemente todos os habitantes do planeta, exceto uns poucos privilegiados que vivem em refúgios subterrâneos vendidos pela empresa Vault Tec.

Bem antes das guerras devastadoras, os executivos da Vault Tec apostaram nos enormes lucros decorrentes da venda de bunkers em uma situação de apocalipse nuclear. O problema é que o evento tardava a acontecer e as vendas despencavam. A oportunidade não podia ser desperdiçada e a empresa providenciou para que não fosse.

Fora do mundo das séries e games, a realidade é um pouco mais sutil e complexa. Mas a lógica parece ser a mesma. Poderosos trilionários fabricam foguetes e idealizam colônias espaciais e interplanetárias como refúgio para o fim do mundo.

Mas uma guerra nuclear traria consequências imprevisíveis. Mais eficiente é apressar o aquecimento global. Seus efeitos são mais graduais e tudo indica que pouparão os poucos ultraprivilegiados do mundo e seus auxiliares de luxo infiltrados nos governos.

Nenhum desses trilionários e seus serviçais vai para o espaço. Preparam bunkers para seu próprio uso e daqueles poucos que podem pagar.

Enquanto isso, automóveis elétricos engrossam o trânsito das grandes cidades. Enormes redes varejistas turbinam ainda mais o consumismo gerador de lixo e de ocupações sub-remuneradas. Imensos monopólios de informação semeiam o caos nas relações sociais. Combustível fóssil continua queimando, vegetação virando carvão, cidades inteiras são inundadas, rios são envenenados...

Não há tempo a perder. O apocalipse é lucrativo demais para ser adiado.

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21 de dezembro de 2023

Sobrevivencialismo e bunkerização

O mais recente sucesso da Netflix é “O Mundo Depois de Nós”. Um dos personagens do filme é um “sobrevivencialista”. Ou seja, alguém preparado para sobreviver a catástrofes extremas, o que inclui transformar sua casa em um bunker. Ele é de classe média remediada, mas seus medos são compartilhados com gente com muito mais dinheiro.

É o caso dos multibilionários que há alguns anos se preparam para uma hecatombe decorrente de mudanças climáticas ou guerras generalizadas. É o caso de Mark Zuckerberg, que está construindo um abrigo subterrâneo com fontes de energia próprias, no Havaí.

Mas esse fenômeno não é tão restrito. Na verdade, a “bunkerização” se espalha pela sociedade. O que muda é sua forma e eficácia. Pode ser um enorme porão com alimentos, rádio por satélite e forças armadas particulares. Mas também um condomínio cercado tanto de muros e vigilantes, como de muita pobreza e injustiça. O que torna sua segurança bastante vulnerável, inclusive frente à ação de milícias.

O empreendedorismo popular é outro desses castelos de areia, cuja proteção contra tormentas econômicas é quase nula. Planos de saúde e de previdência complementar iludem com garantias que podem desaparecer graças a qualquer instabilidade empregatícia ou remuneratória.

Tudo isso é produto de décadas de neoliberalismo. Aqui e no mundo, foram sendo abandonadas diversas formas de resistência e proteção coletivas, muito mais eficazes para a defesa não apenas da subsistência, mas da dignidade. Não há sobrevivencialismo que dê jeito. Não é o mundo depois de nós, mas um mundo infernal que uma minoria minúscula e cada vez mais covarde e irresponsável está querendo nos deixar.

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