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24 de novembro de 2020

A transformação do mundo como aposta melancólica

Encerrando os comentários sobre o belo livro “Melancolia de esquerda”, de Enzo Traverso, segue abaixo um sumário muito pessoal e incompleto de suas conclusões finais.

O marxismo não pode ser amputado de seu princípio de esperança. Sua arte consiste em organizar o pessimismo: tirar lições do passado, reconhecer a derrota sem capitular ao inimigo, com a consciência de que recomeçar significa inevitavelmente empreender caminhos desconhecidos.

Em seu livro “Marx o intempestivo”, Daniel Bensaïd afirmou não acreditar em teleologia histórica. É melancólica essa consciência de que não há nada pré-estabelecido, que tudo é frágil e incerto, que "o inimigo continua a vencer" e que, "no cálculo das probabilidades, a barbárie não tem menos chance que o socialismo".

Ou seja, a transformação do mundo é uma aposta melancólica, nem arriscada nem sem sentido. Alimentada pela memória. Baseada na vontade, mas também na razão. Ao mesmo tempo, "hipótese estratégica e horizonte regulatório". 

Nela não há conflito entre o “pathos” das lágrimas e o “logos” do discurso político, pois o afeto é inerente à prática revolucionária. Não há ação sem fundamento estratégico (ideias, projetos, reivindicações), mas também não há sem fundamento emocional (dor, desconforto, indignação, raiva, esperança, alegria, exaltação).
 
A melancolia de esquerda não se limita à pena das vítimas. Não vê os escravos como objetos de compaixão, mas como sujeitos rebeldes.
 
Melancolia e revolução andam juntas. A primeira segue a segunda como uma sombra, tornando-se discreta durante o seu surgimento, manifestando-se no final, envolvendo-a completamente após a derrota.
 
É pela derrota que a experiência revolucionária se transmite de geração em geração. O olhar do vencido é sempre crítico.

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23 de novembro de 2020

Melancolia, memória e revolução

Em seu livro “Melancolia de esquerda”, Enzo Traverso também trata da relação entre os traumas das derrotas da esquerda e memória. Em especial, em uma de suas correntes mais importantes, o marxismo.

Segundo ele, a relação entre o marxismo e a memória nunca foi estudada seriamente, mas isso não significa que não exista. Como espelho de expectativas, visões e percepções do passado que há mais de um século habitaram inúmeros movimentos coletivos, o marxismo implica uma certa concepção de memória.
 
Em “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, a memória é evocada como "a tradição de todas as gerações desaparecidas" que "oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos”. Mas a memória cultivada para o futuro anunciava as batalhas que viriam.

Apesar de todas as suas derrotas, o socialismo permaneceu um “telos”, uma meta que orientou e construiu sua própria memória. E a teleologia marxista fez da memória um elemento-chave de seu imaginário utópico.


Claro, os indivíduos não podem mudar o que aconteceu, mas eles são capazes de mudar o presente e essa transformação é capaz de "redimir" o passado. Ou seja, afirma Traverso, para salvar o passado é preciso reavivar as esperanças dos vencidos, dar nova vida às expectativas insatisfeitas das gerações que nos precederam.


O autor lembra que para Trotsky, a revolução não surge de uma tábula rasa, pois tem uma visão própria do passado. Uma espécie de “contra-memória” em oposição às interpretações oficiais da história. A revolução foi o momento em que essa visão "veio do fundo da memória" e impulsionou seus atores a "abrir uma brecha para o futuro”.

Sigamos abrindo brechas.

Continua...

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A aposta da melancolia na emancipação coletiva

20 de novembro de 2020

A aposta da melancolia na emancipação coletiva

Em seu livro “Melancolia de esquerda”, Enzo Traverso explica que essa melancolia não decorre de uma excessiva nostalgia do socialismo real ou de outras formas naufragadas de stalinismo. Ela implica memória e consciência do potencial do passado: uma fidelidade às promessas emancipatórias da revolução, não a suas consequências.
 
É uma identificação com o comunismo como foi sonhado e esperado, não como foi alcançado. Traverso lembra o escritor inglês Raymond Williams, para quem tragédia e revolução são mutuamente excludentes. Por sua visão determinista da história, o socialismo não admitia a tragédia.
 
A dialética marxista da derrota frequentemente assumiu a forma de uma teodiceia secular: pode-se extrair o bem do mal. A vitória final resultaria de uma série subsequente de derrotas.
 
Um dos teóricos destacados pelo autor foi Ernst Bloch. Ele concebeu o marxismo como uma "consciência antecipatória" que transformou o sonho de emancipação, presença constante nas sociedades humanas, em uma visão filosófica do futuro.

O autor lembra que Pascal imaginou a existência de Deus como uma aposta. Já o filósofo materialista Lucien Goldmann defendeu a esperança de um futuro comunista como uma aposta secular, nem mística nem religiosa, mas enraizada em uma ideia de comunidade.
 
Em seu livro “Deus Oculto”, Goldmann escreve:   

A fé marxista é uma fé no futuro histórico construída pelos homens, ou, mais exatamente, uma aposta no sucesso das ações que devemos construir com nossa atividade. A transcendência que constitui o objeto desta fé não é mais sobrenatural ou supra-histórica, mas supra-individual. Nada mais, nada menos.

Sim. Mas nada mais, nada menos já é muito.

Aposta mantida, continuaremos na próxima pílula.

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A consciência crítica dos vencidos

19 de novembro de 2020

A consciência crítica dos vencidos

A história do socialismo é uma constelação de derrotas que ocorreram continuamente por quase dois séculos. Mas, em vez de destruir suas ideias e aspirações, essas derrotas traumáticas, trágicas e muitas vezes sangrentas, as consolidaram e legitimaram. Cair depois de lutar bravamente dá dignidade ao vencido e pode ser fonte de orgulho.

As palavras acima estão no livro “Melancolia de esquerda” de Enzo Traverso. Seguem abaixo mais trechos interessantes.

Não podemos fugir de nossa derrota, nem descrevê-la ou analisá-la de fora. A melancolia da esquerda é o que resta após o naufrágio; seu espírito paira sobre os escritos de muitos de seus "sobreviventes", amontoados em botes salva-vidas após a tempestade.
 
O autor transcreve uma passagem do sociólogo alemão Siegfried Kracauer, para quem a “melancolia, como disposição íntima”, tem como importante consequência fomentar “o distanciamento de si mesmo", que seria uma premissa da compreensão crítica. Em vez de reforçar identificações patológicas com um passado esgotado, essa visão melancólica nos ajuda a superar seus traumas, conclui Traverso.
 
Ele também cita o historiador Reinhart Koselleck: “A história é feita pelos vencedores, mas, no longo prazo, os benefícios do conhecimento vêm dos vencidos.” Os vencedores inevitavelmente caem em uma visão apologética do passado baseada em um esquema providencial, explica o autor.
 
Os vencidos, por outro lado, repensam o passado com um olhar agudo e crítico: “A experiência de ser vencido contém um potencial epistemológico que transcende sua causa.” Ainda segundo Koselleck, “a confirmação mais brilhante dessa tese é Karl Marx, que escreveu sem parar sobre as revoluções do século 19, adotando o ponto de vista das classes proletárias derrotadas”.

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18 de novembro de 2020

A melancolia da esquerda: militância com luto

“Melancolia de esquerda: Marxismo, história e memória” é o título de um livro do historiador italiano Enzo Traverso. Publicado originalmente em 2016, a obra volta-se para a história dos “vencidos”.

A melancolia de esquerda quase nada tem a ver com a forma épica e gloriosa, muitas vezes falsa e ilusória, de muitos triunfos e conquistas, com suas bandeiras ao vento, heróis reverenciados, antevendo um "destino magnífico e progressista" escondido no futuro. Em vez disso, trata-se da grande tradição de derrotas que marcou a história das revoluções.

É a melancolia de Auguste Blanqui e Louise Michel após a repressão sangrenta à Comuna de Paris. Mas também de Rosa Luxemburgo, Gramsci, Trotsky, Walter Benjamin, Che Guevara...
 
Essa melancolia foi escondida, removida ou sublimada pelas representações de um futuro emancipado, diz Traverso. “Ela irriga a história dos movimentos revolucionários como um rio subterrâneo, como um riacho poderoso mas invisível, exorcizado por narrativas edificantes”.
 
Tendo irrompido no século 20 como promessa de libertação, o comunismo terminou como um símbolo de opressão. Diante das imagens da demolição do Muro de Berlim, tem-se a impressão de assistir o filme “Outubro”, de Eisenstein, “sendo rebobinado”.
 
Referindo-se às primeiras mortes causadas pela AIDS, pandemia contemporânea ao fim do socialismo real, o autor lembra que muitos ativistas gays viviam com um sentimento permanente de abandono. Sabiam que logo morreriam, compartilhando o mesmo destino de seus companheiros. Mas muitos deles jamais abandonaram a militância.

Traverso considera que o significado dessa experiência poderia ser resumido em uma fórmula que reflete bem o espírito de seu livro: "Militância, é claro, mas também luto: luto e militância".

Continua...

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