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30 de novembro de 2024

Utopia, atopia, distopia

Pawel Kuczynski
A atopia não é um não lugar. A atopia não é um novo tipo de espaço, nem um território simulacro, nem poderia ser definida inteiramente como uma pós-territorialidade, no sentido único do superamento das formas físicas e geográficas do espaço. Melhor seria defini-la como a substituição destas por uma forma informativa digital e transorgânica, cujos elementos constitutivos são as tecnologias informativas digitais, os ecossistemas informativos elaborados pelos sistemas informativos geográficos e territoriais e as redes sociais, compostas pela fusão de coletivos inteligentes e pelas formas híbridas do dinamismo das linguagens transorgânicas. O habitar atópico se configura, assim como a hibridação, transitória e fluida, de corpos, tecnologia e paisagem...

A definição acima é do professor da USP, Massimo Di Felice. Apesar da abordagem exageradamente acadêmica e, sem necessariamente concordar com tudo o que ela propõe, traz um elemento importante para pensar a organização social tal como a vivemos na segunda década do século 21.

Uma sociabilidade marcada pelas redes digitais, por meio das quais acessamos e somos acessados, quase sem restrições de tempo e espaço. Seja no trabalho, na vida afetiva ou na militância, nos relacionamos instantaneamente, sem deslocamentos, lugares fixos, respeito a horários e, muitas vezes, sem nem mesmo recorrer às tradicionais saudações de chegada e partida.

Um fenômeno que vem se tornando presente na vida cotidiana dos últimos 10 ou 12 anos e mudando tudo de forma mais radical do que imaginamos. Principalmente, quanto às disputas de poder e na luta de classes, em geral.

Atopia não é utopia e tem grandes chances de nos levar às piores distopias. Voltaremos ao tema.

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10 de janeiro de 2024

A cabeça ferve diante da insensatez dominante

Está disponível na Netflix “Cabeça Quente”. Produzida na Turquia, a minissérie retrata um mundo em que uma doença altamente contagiosa transforma-se em uma pandemia que leva a sociedade ao caos.

Diante disso, é criado um órgão de controle sanitário que estabelece zonas de quarentena, além de impor uma lei marcial para diminuir os contágios. Mas as preocupações com a saúde pública logo se tornam pretexto para instalar uma ditadura. Desse modo, neutralizar ou erradicar a doença deixa de interessar aos ocupantes do poder.

O personagem Murat Siyavus, interpretado por Osman Sonant, é a única pessoa imune ao distúrbio. Portanto, interessa ao regime ditatorial impedir que o estudo de seu organismo possibilite encontrar a cura para a doença. Enquanto isso, uma organização de resistência à ditadura quer convencer Siyavus a colaborar na fabricação de uma vacina.

Mas o mais interessante na trama é a forma como a doença se manifesta. As pessoas infectadas passam a repetir coisas sem sentido, ficando incapacitadas de se comunicar.  O contágio ocorre pela fala. Desse modo, o uso de tampões de ouvidos torna-se medida fundamental para evitar mais contágios.

Siyavus é um linguista e não deixa de ser irônico que um estudioso da comunicação humana seja exposto ao besteirol dominante, sem sofrer maiores consequências do que um forte aumento na temperatura de sua caixa craniana. É dele a cabeça quente que dá título à série.

Trata-se de uma distopia da indústria de entretenimento. Mas parece a vida real, em que uma praga de opiniões e informações delirantes nos faz ferver a cabeça há algum tempo. E não há tampão que dê jeito!

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9 de janeiro de 2024

Distopia capitalista: do gemido ao estrondo

Distopia vem do grego e pode ser traduzida como um lugar ruim, mas imaginário. Há décadas, tornou-se tema favorito de filmes, peças, séries, livros e quadrinhos. Geralmente, ambientados em um cenário pré ou pós-apocalíptico.

Elementos clássicos dessas tramas ficcionais são enorme repressão estatal, robôs e dispositivos eletrônicos descontrolados, vigilância e controle cibernéticos da vida social, multidões de miseráveis, hordas de criminosos, a sociedade dominada pela lei do mais forte, pandemias, hecatombes naturais, crises climáticas, extinções em massa, insanidade mental generalizada, minúsculas elites ricas, poderosas e fortemente protegidas.

A questão é que esse lugar ruim já deixou de ser imaginário há muito tempo. É só olhar em volta: caos violento nas cidades, desemprego e precarização, ilhas de prosperidade em oceanos de miséria, truculência policial contra pobres, facções e milícias criminosas presentes tanto no contexto urbano, como rural. Tudo isso promovido por uma elite cada vez menor e mais poderosa.

São famosos os versos de T.S. Eliot, que afirmam: “É assim que o mundo acaba.\ Sem estrondo, num gemido.” Ou seja, diferente do que vemos nos filmes ou lemos nos livros, não há uma grande e definitiva hecatombe. Só o ruído de fundo do capitalismo funcionando, enquanto destrói grande parte da humanidade.

Mas o poeta estadunidense era branco e viveu no século 20. Bem antes disso, a distopia já era o cotidiano de grande parte da população não europeia ou anglo-saxã. Para muitos dos povos não brancos, o apocalipse das crenças religiosas da colonização branca chegou para ficar. E é com eles que temos que aprender a resistir e lutar. Respondendo com estrondo, não com gemidos.

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25 de setembro de 2023

Colonização do futuro e distopias

Já se tornou comum dizer que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.

Em seu livro “Uma arqueologia da era contemporânea”, Alfredo Gonzalez-Ruibal alerta para o que chamou de “colonização do futuro” pela “modernidade tardia”, conceito que ele usa para caracterizar o capitalismo.

De fato, é o que se verifica ao observarmos a indústria cultural e suas inúmeras megaproduções audiovisuais sobre o pós-apocalipse. Aquelas em que o mundo tal como conhecemos aparece em um futuro não tão distante, quase totalmente destruído.

São cidades habitadas por poucos e tomadas por destroços. Ruas e estradas cheias de carcaças de veículos. Grandes prédios em ruínas, ocupados por sobreviventes que lutam entre si em selvagem competição. A diversidade biológica substituída por algumas raras espécies, tão resistentes quanto perigosas para a vida humana.

Na melhor das hipóteses, muitas dessas produções passam por ser uma advertência sobre as consequências dos desequilíbrios ambientais e da barbárie social causada pela distribuição cada vez mais injusta da renda e da riqueza.

Mas na medida em que só conseguem apresentar o futuro como uma versão piorada do presente, esses filmes e séries acabam por nos impor a catástrofe como inevitabilidade. Também nos distraem do apocalipse que já chegou para alguns setores da população, que a ele resistem heroicamente. É o caso dos povos indígenas e dos moradores de regiões empobrecidas das grandes cidades.

É a distopia nos impedindo de enxergar a existência de utopias concretas, representadas pela solidariedade surgida das lutas dos explorados e oprimidos.

Enquanto nossa imaginação se restringir aos elementos doentios e suicidas do capitalismo será assim.

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