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3 de julho de 2023

Sobre toupeiras, serpentes e águias

Em recente artigo sobre Junho de 2013, Vladimir Safatle discute a hipótese de que “a característica política mais relevante do século 21 foi uma impressionante sequência de insurreições populares de luta contra o capital e de recuperação paulatina da soberania das massas espoliadas”.

O autor cita eclosões populares como aquelas ocorridas desde 2010, com Occupy Wall Street, Primavera Árabe, manifestações em Madri e Istambul, o próprio Junho de 2013, os Coletes Amarelos na França, até chegar às grandes marchas de 2019, em Santiago do Chile.

Mas há até quem identifique o início desse processo nos protestos de Seattle, em 1999, e lembre também as manifestações contra a Guerra do Iraque, em 2003.

Neste exato momento, chama a atenção do mundo uma grande revolta que vem ocorrendo nos subúrbios de Paris.

Tudo isso faz pensar na metáfora da toupeira, muito utilizada por Marx. Tal como aquele animal, dizia ele, o processo revolucionário ocorreria nos subterrâneos da sociedade e irromperia do solo nos lugares e momentos mais inesperados.

Além disso, o bicho também representaria a militância cotidiana. Persistente, pouco gloriosa e voltada para a união das forças que lutam contra a exploração e a opressão a partir de baixo.

Ao mesmo tempo, a toupeira é nossa melhor aposta contra o fascismo. Enquanto ela abre seus caminhos sob a terra, aproveita para destruir os ninhos de ovos de serpente que encontra pela frente.

Águias, falcões e gaviões são bonitos e impressionantes. Mas costumam simbolizar a rapina das classes dominantes e voam distantes dos perigos que ameaçam a maioria cá embaixo. Sem falar que também botam uns ovos muitos suspeitos.

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22 de junho de 2023

Junho de 2013 como final de uma longa onda progressista

Retomando as contribuições de Rudá Ricci para o debate sobre Junho de 2013, vale a pena ler um recente artigo de autoria dele. Principalmente, quando cita o que chamou de “ciclo virtuoso do final do século XX”, referindo-se à década de 80, quando surgiram PT, CUT e MST no Brasil. Três grandes forças forjadas nas grandes lutas contra a ditadura de 64.

O período é lembrado porque, para o sociólogo, 2013:

...pode ser compreendido como o estertor da onda progressista inaugurada na década de 1980. Não como o desaguadouro do movimento surgido com a Nova República, mas como sua negação, retomando parte da ousadia dos movimentos sociais daquela década. Lembremos que aqueles movimentos surgidos nas últimas duas décadas do século XX eram anti-institucionalistas, pregavam a radical autonomia frente aos governos e partidos e adotavam uma agenda de radicalização da democracia e controle social sobre as políticas públicas. Algo que ressurgiu nos discursos difusos de junho de 2013.

O que parecia uma mobilização potente, possivelmente foi um suspiro final da onda progressista iniciada na transição democrática. Suspiro sufocado em plena democracia, sob comando de um partido progressista que governava o país pela terceira vez consecutiva.

Ora, fenômenos sociais desse tipo jamais se acabam simplesmente. Sua superação acontece de forma dialética, na qual alguns de seus elementos se esgotam, outros mudam de forma e novos vêm à luz.

Nosso desafio maior é descobrir nesse processo os elementos capazes de apontar caminhos para a transformação social aqui e agora, ao invés de nos dedicar a acusações paranoicas e caças às bruxas entre as próprias fileiras da esquerda socialista.

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19 de junho de 2023

Junho de 2013: serpentes e possibilidades

Junho de 2013 foi um acontecimento objetivo da luta de classes. Iniciado por movimentos como o da luta pelo Passe Livre, a dimensão gigantesca que suas manifestações assumiram não foi resultado da ação de nenhum ator político.

As forças que participavam dos acontecimentos não conseguiram ou não pretendiam imprimir-lhes uma direção centralizada ou pauta unificada. Mas seu perfil de esquerda era inegável.

Se a situação econômica era relativamente estável, não se podia dizer o mesmo das lutas sociais. Em 2013, o número de greves no país atingiu o maior índice em décadas. Mas nem a esquerda governista nem a oposicionista conseguiram transformar essa elevada temperatura sindical em apoio a seus respectivos projetos.

Elemento fundamental era uma sociedade com uma enorme demanda represada por justiça social frente a uma estrutura de dominação totalmente avessa a tal pretensão. Mesmo a chamada “inclusão pelo consumo” promovida pelo projeto petista mostrou-se tão inaceitável pelos de cima como insuficiente diante dos anseios vindos de baixo.

Outro elemento objetivo era um partido de esquerda ocupando a presidência da república há uma década. Refém e cúmplice do pacto pela “governabilidade”, a reação do petismo oficial foi truculenta e intolerante.

Junho surpreendeu a esquerda moderada e a radical; a direita tradicional e sua ala selvagem. Mas somente esta última saberia explorar, nos anos seguintes, as contradições expostas pelos acontecimentos de 2013.

Tudo isso mostra que menos que ovos de serpente, havia muitas possibilidades promissoras que foram pisoteadas. Ignorar toda essa complexidade nos levará a cometer erros ainda mais graves na eventualidade nada desprezível de outro Junho acontecer.

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16 de junho de 2023

Junho de 2013: o ovo de quatro estrelas

Momento definidor da intervenção política das Forças Armadas no caminho da ascensão de Bolsonaro ao poder foi a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti. Entre 2004 e 2017, o braço militar dessa missão foi comandado pelo Exército brasileiro, que enviou 37,5 mil soldados ao país caribenho.

Em 6 de julho de 2005, as tropas comandadas pelos brasileiros iniciaram o que chamaram de operação de pacificação na Cité Soleil, maior favela de capital haitiana. Cerca de 300 homens fortemente armados invadiram o bairro e assassinaram 63 pessoas, deixando outras 30 feridas. Na época, o comandante da operação era o general Augusto Heleno.

Pacificação. Esse nome também batizaria as intervenções em grandes favelas brasileiras. Consideradas bem-sucedidas durante um tempo, essas operações nunca superaram seu caráter estritamente repressivo, sem maiores preocupações relacionadas à melhora nas condições de saúde, educação, saneamento e empregos nos lugares em que foram implantadas.

Pacificação é o que os governos petistas propuseram, enquanto milhares de pobres e não brancos continuavam a morrer na guerra que o Estado trava contra eles. Este é outro elemento fundamental a permitir que a cobra fascista preparasse seu bote.

Anos depois, Bolsonaro, eleito presidente, nomeou para o Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno; para a Secretaria de Governo, Carlos Alberto dos Santos Cruz; e para Comandante do Exército, Edson Leal Pujol. Todos estiveram no Haiti entre 2007 e 2014.

As informações acima estão no livro “O Fascismo Brasileiro”, de Rudá Ricci. Mostram, novamente, que o ovo da serpente fascista estava sendo incubado nas barbas do governo. Não nas ruas, em junho de 2013.

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15 de junho de 2023

Junho de 2013: o ninho fisiológico

Em 6 de junho de 2005, o então deputado Roberto Jefferson declarou à Folha de S. Paulo que o PT pagava a parlamentares R$ 30 mil mensais para votar pela aprovação de projetos de interesse do governo petista na Câmara Federal.

O partido se defendeu dizendo que eram recursos financeiros oriundos de Caixa Dois, utilizados para acertar dívidas de campanhas eleitorais. A grande imprensa e o Judiciário encontraram no episódio a oportunidade de ouro para abreviar o primeiro mandato de Lula. Acabou não dando certo, mas o caso mostrou até que ponto o PT se deixou enredar nos esquemas corruptos presentes na administração pública nacional desde sempre.

Mas o pior é que não serviu de lição. O PT continuou se submetendo aos esquemas fisiológicos impostos pela política institucional. Esses métodos sempre contaram com a tolerância cúmplice e interesseira do judiciário e da grande imprensa. O problema é que o tratamento mudou radicalmente frente ao governo de um partido ligado aos movimentos sociais e por eles apoiado.

Assim, o que parecia superado pela reeleição de Lula em 2006, estava apenas incubado, esperando por novas oportunidades. E elas vieram com a confiança em nomeações pretensamente amigáveis no STF, a postura submissa frente às manipulações dos monopólios de comunicação e a escolha de um Michel Temer para vice de Dilma. Sem falar na inexplicável crença no compromisso das Forças Armadas com a democracia. Mas isso fica para depois.

Por ora, voltemos à inevitável e já repetitiva pergunta: diante de todo esse histórico, alguém ainda acha que o ovo da serpente fascista foi chocado em Junho de 2013?

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14 de junho de 2023

Junho de 2013: o ninho empresarial

Em seu livro “Fascismo Brasileiro”, Rudá Ricci destaca o modo como empresariado nacional reagiu aos direitos sociais reconhecidos pela Constituição de 1988. Para eles, tratava-se de uma ameaça ao livre-mercado e uma “retomada da pauta comunista”.

Surgem, então, organizações como a União Democrática Ruralista, União Brasileira de Empresários, Câmara de Estudos e Debates Econômicos e Sociais e Grupo de Líderes Empresariais.

A partir de 1990, a militância política do alto empresariado nacional se intensificou e passou a disseminar seus valores, recrutando militantes jovens e organizando mobilizações de massa. Nesse período surgiu o Instituto Millenium, fundado por acadêmicos, executivos e profissionais liberais, como Denis Rosenfield, Paulo Guedes, Rodrigo Constantino e Hélio Beltrão. Os três últimos envolvidos diretamente com o golpe contra Dilma e o apoio a Bolsonaro.

Começava a ser montado o cenário que levaria aos ataques abertamente golpistas até desembocarem no impeachment, em 2016.

Presente em todas essas iniciativas estava Jorge Gerdau. Presidente da maior empresa brasileira produtora de aço, ele teve grande influência na gestão de estatais brasileiras nos governos petistas. Em especial, sob Dilma Rousseff, quando presidiu o Conselho de Administração da Petrobrás e o Conselho de Desenvolvimento.

Mas nada disso impediu, por exemplo, que num jantar promovido pela Fiesp, em 27/08/2015, Gerdau afirmasse que a indústria estava “morrendo”. Sobre o governo Dilma, já sob forte ataque golpista e que o acolheu tão bem, nenhuma palavra de defesa.

Tem gente da esquerda que enxerga em Junho de 2013 o ovo da serpente fascista. Mas na época, um desses ninhos amaldiçoados já estava instalado nas dependências do Palácio da Alvorada há muito tempo.
 
Leia também: Junho de 2013: vai prevalecendo a versão conservadora

13 de junho de 2023

Junho de 2013: vai prevalecendo a versão conservadora

“A tradição de todas as gerações passadas é como um pesadelo que oprime o cérebro dos vivos”. Esta passagem do “18 Brumário”, de Karl Marx, foi citada na apresentação feita por Luís Carlos Petry para o livro “Fascismo Brasileiro: e o Brasil gerou o seu ovo da serpente”, de Rudá Ricci.

Petry utiliza a citação para abordar as idas e vindas do fenômeno fascista em nossa história. Mas, talvez, ela sirva para mostrar como uma imagem distorcida de Junho de 2013 também vem oprimindo cérebros no interior da própria esquerda.

A esse propósito, vale destacar uma pesquisa feita recentemente pelo Ipec/O GLOBO sobre os eventos de 2013. Ela revela, por exemplo, que para 38% dos eleitores lulistas, “os protestos trouxeram consequências negativas ou mais negativas do que positivas”. Já entre os eleitores bolsonaristas, esse número cai para 30%. Além disso, entre os bolsonaristas, 21% se dizem orgulhosos de terem apoiado os atos, contra apenas 13% dos lulistas.

A pesquisa ajuda a mostrar como a representação social das Jornadas de Junho foi sendo apropriada pelo campo conservador, de modo a parecer um momento de despertar de sua militância. Na verdade, a tomada das ruas pela extrema-direita viria a ocorrer somente em 2014.

Essa confusão é conveniente para que os ultraconservadores tentem se legitimar como força antissistêmica. Por outro lado, essa “narrativa” também foi endossada por setores da esquerda.

Nesse caso, tais segmentos tratam Junho de 2013 como o momento em que foi chocado o “ovo da serpente” fascista. Mas veremos, em breve, que os ninhos malditos estavam localizados bem menos nas ruas e muito mais nos palácios.

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12 de junho de 2023

Junho de 2013: em busca do ninho da serpente

“Junho talvez seja a primeira grande revolta popular na história brasileira a ter sido demonizada pela esquerda – por parte dela, pelo menos – e não pelo conservadorismo de direita de sempre”. Esta frase está num artigo publicado pelo cientista político Marcos Nobre, em 03/06/2023, na Folha de S. Paulo.

O enunciado captura uma parte importante das contradições que envolvem as enormes manifestações populares que abalaram as grandes cidades, há uma década. Diz respeito à ideia de que a origem da onda ultraconservadora que tomou conta do País, anos depois, tem naqueles acontecimentos sua origem.

Teria sido o momento em que se pôs a chocar o "ovo da serpente" do fascismo. “Ovo da serpente, diz Nobre, tornou-se a senha para quase todas as desgraças dos últimos dez anos”. Principalmente, o golpe do impeachment e a eleição de Bolsonaro.

Segundo os defensores dessa tese, os responsáveis seriam setores da própria esquerda e dos movimentos sociais, mesmo que involuntariamente. Como diz Nobre, pouco importa que todas as evidências mostrem que as forças da direita eram absolutamente minoritárias nas ruas naquele momento.

Muito se debateu e escreveu sobre Junho, mas qualquer consenso mais amplo está distante. Até porque estamos falando de eventos historicamente recentes e ainda sob o forte efeito de uma ofensiva fascista que está longe de ser derrotada.

Um dos livros que tratou do tema de maneira ágil, bem documentada e precisa é “Fascismo Brasileiro: e o Brasil gerou o seu ovo da serpente”, de Rudá Ricci. Passaremos a comentá-lo nas próximas pílulas para tentar deixar mais claro onde, afinal, estavam depositados os ovos amaldiçoados.

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