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11 de junho de 2024

O avanço da extrema direita e a política das selfies

Jordan Bardella tem 28 anos e é conhecido como "Rei da Selfie" porque multidões de jovens querem tirar fotos com ele. Com mais de 1 milhão de seguidores nas redes virtuais, poderá tornar-se o mais jovem primeiro-ministro da França, se seu partido, o Reagrupamento Nacional (RN), de extrema direita, obtiver maioria nas próximas eleições para a Assembleia Nacional. Possibilidade fortalecida pelas recentes eleições para o Parlamento Europeu, nas quais o RN mais que dobrou sua bancada.

Em reportagem para o jornal italiano Repubblica, Anais Ginori cita as palavras do marqueteiro de Bardella, Pascal Humeau: “Esse sorriso parece natural, mas trabalhamos nele durante meses. O objetivo era que as pessoas dissessem: para um fascista, ele parece bonito”.

Sem dúvida, um fenômeno assustador. Mas apesar de novo, não é tão recente. Faz parte da onda conservadora que começou a nascer há dez anos no rastro da crise de 2008.

Desde então, surgiram novos tipos de organização partidária ligados à enorme influência das redes virtuais na vida social. Alguns estudiosos chamam essas organizações de “partidos digitais” ou “partidos plataforma”. Muitas delas até surgiram a partir da militância de esquerda, mas sua tendência à fragmentação, superficialidade e irracionalismo se adequou melhor ao ideário ultraconservador.

A necessária e urgente reação da esquerda não pode se limitar à luta nas redes. A raiz das vitórias da extrema direita está nas respostas que oferece aos problemas concretos da vida cotidiana das maiorias. Respostas absolutamente equivocadas, mas que conseguem se impor, frente a uma esquerda que ou se limita a administrar a barbárie neoliberal ou não consegue enxergar para além de suas selfies políticas.

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6 de março de 2023

A disputa nas redes não deve ser menosprezada

Voltamos ao tema da disputa nas redes virtuais. Matéria da Folha de 06/03/2023 alerta “Bolsonarismo cresce e esquerda encolhe nas redes desde as eleições”.

Segundo a nota, levantamento da agência .MAP mostra que perfis de direita fecharam fevereiro com 30,7% dos engajamentos no Twitter e no Facebook, sendo 87% deles bolsonaristas. A aprovação a Bolsonaro estaria em 41,9%, tendo sido citado em 3,17 milhões de publicações. Já a esquerda, estaria em queda desde outubro, ficando com 13% de participação do total. A análise foi feita a partir de um universo de 1,4 milhão de publicações no Twitter e no Facebook.

O engajamento nas redes não pode ser menosprezado por ocorrer em ambiente virtual. Partidos, sindicatos e associações continuam passando por uma grave crise de representatividade e confiança. A direita buscou alternativas, contando com a boa vontade dos monopólios capitalistas das redes.

Vale a pena lembrar a elaboração do sociólogo italiano Paolo Gerbaudo. Em seu livro “The Digital Party”, de 2019, ele alertava para a importância e os riscos da organização partidária pelas redes. Uma forma de organização que encantou setores da esquerda no começo da década passada, mas que acabou se revelando mais adequada à dinâmica alienante, despolitizada e irracional típica da extrema-direita.

Em sua obra, Gerbaudo mostra como o tradicional partido de massas estava ligado ao modelo fordista de produção. Depois, veio o “partido-televisão” correspondente ao mundo “pós-industrial”. Finalmente, chegamos ao partido-plataforma, reproduzindo a lógica das redes digitais.

Nada disso quer dizer que a esquerda deve abandonar suas tradicionais formas de organização. Apenas que não pode ficar presa somente a elas.
 
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3 de março de 2023

A batalha nas redes é parte fundamental da guerra

Em 26/02/2023, o Globo publicou matéria sobre a disputa entre apoiadores de Lula e de Bolsonaro em torno da expressão “faz o L”. Os primeiros usando o slogan para comemorar medidas tomadas pelo novo governo. Os segundos, para criticá-las.

O jornal encomendou um levantamento sobre a utilização do “faz o L” no Twitter, desde o começo do governo Lula até 23 de fevereiro. Os dados apontaram que a oposição bolsonarista é a que mais adotou a expressão, com 52,5% de um total de 538 mil usuários.

Essa situação volta a demonstrar que os fascistas continuam a ganhar a guerra nas redes, mesmo fora do governo federal. Mas não se trata de apenas um dos aspectos da luta contra a extrema-direita. É uma questão fundamental.

Bolsonaro foi eleito sem uma estrutura partidária forte. Governou quatro anos sem formar um partido próprio. Mesmo assim, quase foi reeleito.

O fato é que a nova extrema-direita vem utilizando outra forma de organização. A organização em rede pela internete. Fragmentada na estrutura, mas com forte capacidade de arregimentar multidões quando necessário. Movida não por debates democráticos e formação política, mas por informações distorcidas, mentirosas, passionais, alarmantes.

Sob o pretexto de adotar formas de participação ágeis e acessíveis, a organização pelas redes virtuais permite o controle de milhões em tempo real, com efeitos de manada.

É o partido digital em ação. Forma organizativa correspondente ao atual estágio do capitalismo, dominado pelos mega-monopólios das big-techs. Fenômeno presente no crescimento da extrema-direita em muitos lugares do mundo.

Precisamos debater essa questão e pensar em formas eficazes de reagir e avançar. Urgentemente!

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22 de setembro de 2020

Do partido blockbuster ao partido netflix

Giuliano Da Empoli inicia seu livro “Os Engenheiros do Caos” sustentando que, no decorrer de todo o século 20, a Itália foi “o laboratório onde foram conduzidas experiências políticas vertiginosas”. Do fascismo ao maior partido comunista do Ocidente.

Portanto, afirma ele, não deveria surpreender que, no início do século 21, surgisse na Itália o “Vale do Silício do populismo”, referindo-se à utilização das redes digitais por forças políticas em disputas eleitorais.

O primeiro relato do livro envolvendo esse tipo de atuação é sobre o Movimento 5 Estrelas (M5S). O grande atrativo dessa organização seria uma proposta de democracia direta, em que seus participantes tomam todas as decisões por um processo de consulta on-line permanente.

Mas, na verdade, diz o autor, o M5S funciona como o “PageRank” do Google. Ele não tem visão, programa, qualquer conteúdo ou agenda positivos. É um simples algoritmo construído para aferir o consenso sobre certos assuntos e tópicos.

Segundo esse método de funcionamento, para onde quer que a opinião pública se inclinasse, o M5S mudaria de posição. Esse “partido-algoritmo” teria por único objetivo satisfazer de modo rápido e eficaz a demanda de consumidores políticos.

Numa entrevista ao Corriere della Sera, o chefão do M5S, Davide Casaleggio, definiu desse modo a organização que comanda: “A velha partidocracia é a Blockbuster, nós somos a Netflix".

O problema é que, prisioneiro da mesma lógica que rege os negócios da locadora de vídeos ou do serviço de streaming, o M5S jamais irá além dos limites impostos pelo sistema de dominação. Não à toa, surgiu como movimento de esquerda e se inclina cada vez mais à direita.

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21 de setembro de 2020

Um país governado por um blog

Um país governado por um blog, criado e administrado por um único homem. Esse homem controla com mão de ferro dezenas de milhares de inscritos em uma plataforma cujo funcionamento é mantido em sigilo absoluto, principalmente quanto a seus algoritmos.

Grande parte do alto escalão do governo desse país é ocupado por campeões de "likes" e "cliques". Mas tais pessoas são chamadas de "avatares", no sentido de que são meras representantes do dono do blog, não tendo qualquer autonomia para decidir coisa alguma enquanto ocupam seus cargos.

São obrigadas, inclusive, a revelar as senhas que dão acesso a suas redes sociais ao administrador do blog. Caso tentem qualquer rebeldia, serão imediatamente acusadas de traição e linchadas virtualmente até sua completa aniquilação no mundo digital.

Comportamentos inadequados serão imediatamente submetidos a votações virtuais, cuja efetivação e formas de apuração são completamente desconhecidas de suas dezenas de milhares de participantes.

Segundo essa poderosa personalidade, o movimento por ela dirigido os indivíduos são "formigas", cujo comportamento deve ser vigiado e controlado.

O programa desse movimento foi lançado como um não-programa e seu estatuto seria um não-estatuto. Mas ambos estabelecem regras e compromissos em relação aos quais não se admite indisciplina.

Não. O que está descrito acima não é o roteiro de uma distopia ficcional. O país em questão é a Itália, o blog é do Movimento 5 estrelas e o nome do todo poderoso que controla tudo isso é Davide Casaleggio.

Mais detalhes nas próximas pílulas sobre o livro "Engenheiros do Caos", de Giuliano Da Empoli, que descreve esse e outros fenômenos políticos atuais e muito assustadores.

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29 de março de 2019

O potencial transformador dos partidos digitais

Encerrando esta série de comentários sobre o livro “The Digital Party”, de Paolo Gerbaudo, destaquemos que, para o autor:

...o partido digital responde a uma questão fundamental: a necessidade de atualizar radicalmente as formas organizacionais de política e adaptá-las à era digital.

O problema, diz Gerbaudo, “é como abordar os limites do partido digital e transformar essa proposta partidária em um meio não apenas para a democracia digital, mas para a democracia amplamente definida”.

Esta tarefa mostra-se mais urgente, diz ele, porque esse modelo organizacional continuará a se espalhar em diferentes sistemas políticos, incluindo os partidos tradicionais.

Para Gerbaudo quatro questões deveriam nortear a construção dos partidos digitais como instrumentos de verdadeira transformação social.

Primeiro, mais peso precisa ser dado às iniciativas de baixo para cima.

Em segundo lugar, a gestão de plataformas e processos de tomada de decisão devem ser atribuídas a um comitê independente, democraticamente eleito.

Terceiro, é preciso buscar novas formas de integração social, além de ampliar os contatos presenciais.

Quarto, é preciso abandonar o preconceito excessivo contra a burocracia, bem como a obsessão com o participacionismo.

Além disso, evitar a dependência exagerada da exploração do trabalho voluntário dos membros do partido.

Também é importante ter consciência de que “relações de poder podem ser rearranjadas, mas nunca completamente eliminadas, independentemente da perfeição e suposta neutralidade das ferramentas utilizadas”.

Por fim, é preciso combater as utopias tecnológicas ingênuas, mas também a fobia em relação ao novo que, frequentemente, atinge muitos setores da esquerda.

Aliás, diríamos, o novo jamais deveria nos assustar. Deve ser, antes de tudo, compreendido e, conforme o caso, assimilado ou combatido.

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Partidos digitais, precisamos falar sobre eles

28 de março de 2019

A crise de 2008 e os partidos digitais

Em seu livro “The Digital Party”, Paolo Gerbaudo destaca a importância da Grande Recessão mundial iniciada em 2008 para o surgimento dos partidos digitais.

A crise fez disparar em muitos países o número dos que vivem uma condição social e econômica instável, lutam para sobreviver e veem seus direitos sociais cada vez mais desrespeitados.

Aprofundou-se o caráter fragmentado, precarizado e disperso de amplos setores da classe trabalhadora. Mas eles também passaram a incluir muitos jovens que dominam as ferramentas digitais.

É exatamente essa juventude dinâmica que os partidos digitais vêm atraindo.

O Movimento de cinco estrelas é forte, particularmente, entre pessoas com idades entre 35 e 44 anos. A esmagadora maioria dos eleitores do Podemos tem menos de 35 anos. Nas eleições presidenciais de 2017, o França Insubmissa conseguiu 30% de seus votos entre os que tinham entre 18 e 24 anos.

Jeremy Corbyn lidera o “Momentum”, no interior do Partido Trabalhista inglês. A organização tem forte presença nas redes virtuais. Nas últimas eleições, 66% de seus votos vieram de eleitores com idade entre 18 e 19 anos.

Bernie Sanders, do Partido Democrata estadunidense, lidera uma equipe que utiliza bastante as ferramentas digitais. Aos 78 anos de idade, a base eleitoral do senador tem, em média, menos de 45 anos.

Ou seja, com todas as contradições, limites, riscos e ilusões que os partidos digitais apresentam, eles não podem ser simplesmente descartados. Provavelmente, vieram para ficar e já influenciam fortemente o funcionamento dos partidos tradicionais.

Mais que isso, Gerbaudo entende que podem se tornar instrumentos importantes para a transformação social, desde que...

Fica para a próxima pílula.

27 de março de 2019

Os riscos para a democracia de base nos partidos digitais

O que era sólido nos partidos tradicionais, desmanchou-se no ar nos partidos digitais, afirma Paolo Gerbaudo em “The Digital Party”. O livro aborda organizações como o Podemos espanhol e o Cinco Estrelas italiano.

O autor compara os partidos digitais a empresas “startups”. Com seu pequeno “capital inicial” e equipe central enxuta, conseguem se movimentar agilmente, desorganizando o “mercado” e atraindo “clientes”.

O Cinco Estrelas, por exemplo, tem um “não-estatuto” e seu endereço oficial é o blog de Beppe Grillo, seu dirigente máximo. O mesmo a quem seus liderados se referem, muito contraditoriamente, como um “não-líder”.

Lideranças influentes, grandes sedes, regulamentos detalhados, corpos profissionalizados. Tudo isso deve ser abandonado. Simbolizariam opacidade, burocratização, falta de democracia e sigilo.

Já as estruturas locais, devem ser soltas, informais e em rede. Mas Jorge Lago, dirigente do Podemos, por exemplo, argumenta que essas instâncias não são um espaço para decisão, mas para ação. O grande risco está na velha separação entre decisão e execução.

O Cinco Estrelas começou a organizar seus grupos de base em 2005. Eram assembleias abertas, discutindo diferentes questões. Em 2013, o partido entrou no parlamento. Em 2015, os coletivos locais perderam poderes. Passaram a falar em nome do partido apenas seus representantes institucionais.

Nas atuais condições sociais, as pessoas estão mais relutantes ou ocupadas demais para participar de reuniões presenciais do que na era industrial. Nesse contexto, fragilizar grupos locais de debate e deliberação fragmenta a participação.

O processo decisório passa a depender do acesso individual a computadores e smartphones. Algo que pode ser desastroso para a democracia partidária. Afinal, não existe tecnologia neutra.

26 de março de 2019

A ideologia do participacionismo nos partidos digitais

Pawel Kuczynski
“Participacionismo” é como Paolo Gerbaudo chama o que ele considera ser uma poderosa ideologia dos partidos digitais, em seu livro “The Digital Party”.

Segundo ele, trata-se de um credo democrático radical que considera a participação e não a representação a fonte última de legitimidade política.

Baseia-se em noções de abertura, espontaneidade, transparência, autenticidade e intermediação zero. Valores profundamente influenciados pela tecnologia digital e sua cultura correlata.

Essa ideologia é perfeita para que Facebook, Twitter, Google, Youtube, Uber e Airbnb ganhem muito dinheiro. Já na esfera política, tende ao hiperindividualismo neoliberal, diz Gerbaudo.

Uma visão em que a participação individual se opõe ou desconfia da participação coletiva. Pessoas isoladas ou em pequenos grupos no lugar de associações, sindicatos ou partidos tradicionais.

Por outro lado, esse fenômeno pode criar uma "tirania de pessoas com tempo". Aquelas que têm a possibilidade e dedicação suficientes para se engajar em discussões qualitativas complexas. Geralmente, pouco preocupadas com sua sobrevivência.

Para ilustrar, o autor cita a “Lei da participação 1-9-90” de Jakob Nielsen: em qualquer comunidade, a grande maioria - 90% ou mais - é feita de usuários passivos. Cerca de 10% dos participantes são ativos, mas dentro dos quais apenas 1% é realmente atuante. Na Wikipédia, por exemplo, 0,003% dos usuários criam dois terços do conteúdo do site, exemplifica Gerbaudo.

Por fim, alerta o autor, a tomada de decisão é limitada por uma série de regras embutidas no design do software e nos processos de gerenciamento e moderação das discussões coletivas. E o círculo se fecha. Tais processos funcionam sob a lógica neoliberal dos novíssimos monopólios da informação.

Leia também: O “partido plataforma” e suas contradições

25 de março de 2019

O “partido plataforma” e suas contradições

Em seu livro “The Digital Party”, Paolo Gerbaudo afirma que:

Assim como o partido de massa refletiu a natureza e as tendências da sociedade industrial, o partido digital internaliza o modelo de plataforma popularizado por empresas como Google, Facebook e Amazon.

Por isso, o autor também chama essa nova organização de "partido plataforma". Um modelo partidário que procura reproduzir a lógica das plataformas das redes digitais em sua própria estrutura de tomada de decisões.

Tão "faminto por dados" como as corporações nascidas no Vale do Silício, o partido plataforma procura expandir constantemente sua base de dados e rede de contatos.

Essa configuração baseada na utilização da tecnologia digital proporcionaria uma nova democracia de base, mais aberta à sociedade civil e à intervenção ativa de cidadãos comuns.

Semelhante a uma “startup”, como Uber e Airbnb, teriam a mesma capacidade de crescer muito rapidamente. Um exemplo é o Movimento Cinco Estrelas, que, com menos de uma década de existência, tornou-se o maior partido italiano e atualmente integra o governo nacional.

No entanto, diz Gerbaudo, diferente do que dizem alguns de seus defensores, tal reestruturação organizacional do coletivo partidário não resultou em uma difusão radical do poder ou levou a uma situação na qual todos têm peso igual.

Uma das principais razões para isso é que o partido plataforma tende a deslocar a ênfase do conteúdo para o processo. Como nas redes virtuais, é fácil entrar e participar. E, como nelas, muito difícil entender do que exatamente se está participando e quais seus objetivos globais concretos.

Não à toa, o Cinco Estrelas descambou rapidamente para posições de direita.

Leia também: Antes do partido digital, o “partido televisão” e o partido de massas

22 de março de 2019

Antes do partido digital, o “partido televisão” e o partido de massas

Em seu livro “The Digital Party”, Paolo Gerbaudo descreve a teoria do intelectual italiano Marco Revelli, que vê no partido de massas o equivalente político da fábrica fordista no nível econômico.

Primeiro, por seu "gigantismo" e esforço "para incorporar grandes massas de pessoas de maneira estável, organizadas em estruturas sólidas e permanentes".

Depois, por seu "trabalho político" coletivo, inspirado por critérios tayloristas de eficiência e racionalização. Os militantes seriam os trabalhadores da linha de montagem. Os dirigentes locais, os supervisores. O comitê central, os executivos.

Mas a crise do capitalismo fordista também afeta o partido de massas, que se vê enfraquecido diante da crença imposta pelo neoliberalismo num mundo “pós-industrial, pós-ideológico e pós-classe”.

Surge, então, o “partido televisão”, fortemente influenciado pela ascensão da TV como o canal dominante da comunicação.

O modelo fordista dá lugar ao paradigma “midiático-marqueteiro”, derivado de ramos considerados representantes da vanguarda da economia pós-industrial.

O partido televisão não tem mais o apoio de uma base militante ativa. São, principalmente, seus líderes que apelam diretamente aos eleitores em programas televisivos.

Essa nova organização política já não tem uma base de classe claramente definida. De forma oportunista, procura atrair diferentes camadas sociais. O eleitorado é um mercado a ser conquistado.

Há também um fortalecimento da liderança partidária, com campanhas personalizadas e centradas nos candidatos. Essa mediação política à distância corroeu o papel das bases no partido e contribuiu fortemente para gerar uma atitude passiva no eleitorado.

Aparece, então, o partido digital, prometendo resolver ou minimizar os problemas introduzidos pelo partido televisão. Será capaz de cumprir o que promete? Continua na próxima pílula.

14 de março de 2019

Facebook, partidos digitais, “tecnopólio”

Vivemos sob uma espécie de “tecnopólio”, diz Siva Vaidhyanathan no livro “Mídia antissocial: como o Facebook nos desconecta e enfraquece a democracia”.

Para explicar, ele cita o teórico da comunicação estadunidense, Neil Postman:

O tecnopólio é um estado de cultura. Também é um estado de espírito. Consiste no endeusamento da tecnologia, o que significa que a cultura busca sua aprovação na tecnologia, encontra suas satisfações na tecnologia e recebe ordens da tecnologia.

Sob seu império, diz Vaidhyanathan:

A aprendizagem torna-se uma questão de pesquisar, copiar e colar em vez de imergir, considerar e deliberar. Todos são quantificados. Todos estão expostos. Todos estão em guarda. Todos exaustos.

O tecnopólio surgiu sorrateiro no alvorecer do século 20, diz ele. Em 1992, uma canção de Bruce Springsteen descreveu seu poder sem explicitá-lo: "Cinquenta e sete canais e nada". “Hoje, perdemos a conta de quantos canais são”, afirma.

Apesar disso, Vaidhyanathan afirma que não pretende sair do Facebook. “O longo e lento processo de mudar mentes, culturas e ideologias nunca produz resultados em curto prazo”, diz.

Para ele:

...a resposta mais frutífera aos problemas que o Facebook cria, revela ou amplifica seria reinvestir e fortalecer instituições que geram conhecimento profundo e significativo.

Seria possível concordar com o autor se gerar conhecimento profundo e significativo em uma sociedade movida pela busca do lucro acima de tudo não fosse cada vez mais inviável.

É o que mostra, por exemplo, o surgimento dos chamados partidos digitais, cujo funcionamento fortemente condicionado pela tecnologia parece potencializar a democracia, mas pode derrotá-la definitivamente.

Tecnopólio, enfim, é só outra forma de monopólio do poder. Poder de classe.

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