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4 de março de 2024

Fé e fuzil: espiritualidade, religião e emancipação humana

Se quiserem ter uma ideia sobre o que eram as primeiras comunidades cristãs, observem uma seção local da Associação Internacional de Trabalhadores.

A frase acima é de Joseph-Ernest Renan, filósofo francês do século 19. Ele se refere à chamada I Internacional, que teve entre seus fundadores Marx e Engels. E é este último que cita Renan em sua obra “Contribuição para a História do Cristianismo Primitivo”, buscando mostrar o potencial emancipador das primeiras comunidades cristãs.

Rosa Luxemburgo faz o mesmo em “O Socialismo e as Igrejas”. Ela transcreve, por exemplo, a passagem bíblica de "Atos dos Apóstolos", em que a primeira comunidade de Jerusalém é descrita desse modo:

Entre eles não havia ninguém necessitado, pois todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas, traziam o produto da venda e depositavam-no aos pés dos Apóstolos. E a cada um era distribuído de acordo com a sua necessidade.

Essas passagens ajudam a mostrar como as contradições da luta de classes atravessam as mais variadas esferas das sociedade, em épocas e situações  mais díspares. Vivemos um momento em que a religião é fortemente utilizada por projetos autoritários. É o que evidencia o livro “A Fé e o Fuzil”, de Bruno Paes Manso, que comentamos nas últimas pílulas.

Mas Manso também mostra que há muita gente atuando em defesa da fraternidade e da justiça social nas várias denominações religiosas. Além disso, o ateísmo ou agnosticismo são igualmente capazes de alimentar fundamentalismos.

Se a espiritualidade é uma importante afirmação da condição humana, a religiosidade que justifica a exploração e a opressão nas relações sociais é sua negação.

Leia também: Fé e Fuzil: o crime como modo capitalista de funcionamento

27 de fevereiro de 2024

Fé e Fuzil: o crime como modo capitalista de funcionamento

Já comentamos o estatuto que rege o funcionamento do PCC, a partir de informações do livro “A Fé e o Fuzil”, de Bruno Paes Manso. Segundo este autor, trata-se da “governança do PCC”, com a qual “procurava-se garantir a justiça e a concorrência entre os irmãos, cabendo à mão invisível do mercado ilegal empurrar seus membros para uma ação mais racional e lucrativa”.

O bandido impulsivo, com sangue nos olhos, disposto a matar ou morrer, diz Manso, tinha dado lugar a uma gama de profissionais, como doleiros e advogados capazes de comprar fazendas, postos de gasolina, bares e emissoras de rádio que podiam esquentar o capital fazendo apostas em sites esportivos, criando contas-laranja, investindo em criptomoeda, paraísos fiscais, empresas e imóveis.

Afinal, informa o autor, já que crimes e dinheiro ilegal são inevitáveis, o jeito era enquadrar os criminosos dentro de certos limites para diminuir os danos. Se o dinheiro viesse do crime, mas o ladrão seguisse uma ética mínima, evitando a violência quando possível, emprestando dinheiro e empreendendo em negócios legais, as portas do sistema se abririam para ele. Foi o que aconteceu.

Foram encontrados fortes indícios de participação do PCC em empresas de transporte alternativo em São Paulo. O mesmo acontecendo no Rio, mas, neste caso, sob controle das milícias. O objetivo principal? Criar firmas legais para lavar dinheiro e desviar recursos públicos.

Tudo isso sem preferências partidárias. A criminalidade empreendedora interage com representantes da esquerda e da direita. Afinal, ambas precisam de dinheiro para vencer eleições, conclui Manso.

Tá errado? Sim, muito. Mas o crime sempre fez parte do modo capitalista de funcionamento.

Leia também: Fé e Fuzil: PCC, religião e racionalidade

26 de fevereiro de 2024

Fé e Fuzil: a revolta aliada da barbárie

Abaixo, outro relato do livro “A Fé e o Fuzil”, de Bruno Paes Manso.

Ney Santos nasceu em um bairro pobre de Embu das Artes, na Grande São Paulo. Não veio de movimentos sociais ou das comunidades católicas. Em 1999, foi condenado por receptação. Quatro anos depois, foi preso em flagrante, dentro de um automóvel utilizado em um assalto, passando dois anos na cadeia. De volta à liberdade, montou uma ONG que distribuía brinquedos no Dia das Crianças e passou a produzir shows na cidade.

Em 2010, se candidatou a deputado estadual. Durante a campanha, foi acusado de lavar dinheiro para o PCC em seus quinze postos de gasolina. Não foi eleito. Em 2012, elegeu-se vereador, mas foi condenado por compra de votos. Conseguiu manter o mandato graças a uma decisão judicial.

Teve a candidatura à prefeitura de Embu barrada pela Lei da Ficha Limpa, em 2016. Com uma liminar, venceu a disputa e assumiu o cargo. Criou uma guarda municipal ao estilo da Rota. Simpático e comunicativo, administrava em contato direto com a população nas redes sociais. Promoveu shows populares com celebridades do sertanejo e atuou com agilidade durante a Pandemia. Enfrentou novos processos, mas foi reeleito em 2020.

Durante a campanha, pesquisas mostraram que seu suposto envolvimento com o PCC era considerado positivo pela maioria. Facilitaria o controle dos roubos na cidade.

Apoiou Bolsonaro em 2018 e 2022.

Esse  caso é apenas mais um exemplo dos caminhos que tomou a frustração popular frente à “democracia racionada” da qual também nos tornamos reféns. No lugar da revolução, a revolta que se alia à barbárie.

Leia também: Fé e Fuzil: PCC, religião e racionalidade

23 de fevereiro de 2024

Fé e Fuzil: PCC, religião e racionalidade

O primeiro estatuto do PCC tinha como uma de suas referências os Dez Mandamentos. “Não usarás o nome do Senhor em vão”, por exemplo, inspirava um item que proibia o uso do PCC para objetivos pessoais. Quem flertava com as mulheres de outros presos infringia proibição semelhante ao mandamento “Não cobiçarás a mulher do próximo”. E havia o batismo, em que o novo integrante assumia a defesa da organização e das leis do crime.

O PCC também criou um sistema de comunicação eficiente para disseminar suas leis. Os “torres” usavam telefones para ditar as regras aos “sintonias”. Estes, espalhados pelos presídios e quebradas, rapidamente repassavam as mensagens.

Os “disciplinas” faziam funcionar um sistema informal de justiça com espaço para acusação, defesa, análise das provas e prolação de sentenças.

Os sintonias e os disciplinas formavam as células do PCC espalhadas pelas novas unidades penitenciárias construídas depois de 1995, durante a gestão do governador Mário Covas. Entre 1990 e 2020, mais de 1 milhão de pessoas passaram por uma de suas unidades.

Quanto maior a quantidade de presos, mais crescia o tamanho do contingente à disposição da facção e o volume de conexões entre as prisões e as ruas. Era uma estrutura inteligente e durável que não estava ligada a nomes ou pessoas, mas a funções. O isolamento ou morte de um “sintonia” ou “disciplina” não afetava o funcionamento do sistema.

As informações acima estão no livro “A Fé e o Fuzil”, de Bruno Paes Manso. Mostram como doutrina religiosa e racionalidade capitalista se combinaram para criar uma nova forma de organização do crime.

Leia também: Fé e Fuzil: a gênese da teologia do domínio

21 de fevereiro de 2024

Fé e Fuzil: a gênese da teologia do domínio

"Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra", diz a famosa passagem do Gênesis.

Nos final dos anos 1980, setores evangélicos interpretaram o trecho acima como um mandato para dominar o mundo, inclusive nas esferas não religiosas. Surgia a teologia do domínio.

“Chegara a hora de os ímpios serem governados pelos abençoados”, pregavam os evangélicos adeptos dessa doutrina. E para chegar ao poder, eles precisam avançar sobre os “Sete Montes”: família, religião, educação, mídia, entretenimento, finanças e governo.

Em 1987, o deputado da Assembleia de Deus, Matheus Iensen, propôs a emenda parlamentar que aumentou de quatro para cinco anos o mandato de José Sarney. Três dias antes da votação da proposta, foram liberados 110 milhões de cruzados para a Confederação Evangélica do Brasil

As concessões de rádio e TV se tornaram importantes moedas de troca. Entre 1985 e 1989, o presidente concedeu 632 canais FM e 314 AM. Deputados da bancada evangélica receberam sete concessões de rádios e duas de TV.

Em 2005, com uma grande emissora de TV nas mãos, a Universal fundou o Partido Republicano Brasileiro. Entre seus filiados, estava o então vice-presidente da República de Lula, o empresário José de Alencar.

As informações acima estão no livro “A Fé e o Fuzil”, de Bruno Paes Manso. Mostram a gênese de um fenômeno que viria a ajudar a fortalecer algo que, sem ser divino ou diabólico, manifesta-se como uma das piores formas da maldade humana: o fascismo.

Leia também: Fé e Fuzil: lições sobre hegemonia pentecostal

8 de fevereiro de 2024

Fé e Fuzil: lições sobre hegemonia pentecostal

O movimento social está dizendo que o mundo está acabando, que o fascismo está tomando conta, uma série de desgraças. Mas o pessoal da favela já é doutor em desgraça, ele não precisa ouvir mais essas. Já os pastores estão lá, dizendo para o desgraçado que ele é tudo pra Jesus. Se eu estou numa situação de abandono, eu me agarro.

As palavras acima são do dirigente da Central Única das Favelas (Cufa), Preto Zezé. Estão no livro de Bruno Paes Manso “A fé e o fuzil”. Organizações como a Cufa, lembra ele, são moldadas pelos valores da era pentecostal, ligados ao empreendedorismo.

Os evangélicos pentecostais ofereciam algo que outras estruturas de poder seculares, criadas para produzir controle e ordem, não conseguiam, afirma o autor. Isso ocorria, em primeiro lugar, pela força de suas mensagens. As pessoas as obedeciam porque acreditavam nas explicações, seguiam suas regras e mudavam de comportamento porque queriam ser recompensadas por isso.

Como a competição com os mais ricos era inglória, o crime surgia como opção para os revoltados e cínicos. Já a crença em um poder divino podia favorecer o amor-próprio e trazer satisfação pessoal. Os pentecostais também conseguiram criar uma poderosa estrutura de comunicação, diz o autor.

Quanto maior o alcance da mensagem, menos exótica ela se tornava, e conforme deixava de ser estranha ao senso comum, mais normalizada e mais adeptos conquistava. Templos surgiam com a mesma agilidade que botecos e biroscas, tornando-se presença inseparável do ambiente das favelas, conclui Manso.

Nesses poucos parágrafos, muitas lições sobre disputa de hegemonia, ainda que orientada por valores conservadores e neoliberais.

Leia também: Fé e fuzil: o sagrado e a luta de classes

6 de fevereiro de 2024

Fé e fuzil: o sagrado e a luta de classes

Com a chegada dos pentecostais à arena política no início do século, o debate passou a girar em torno dos costumes que, teoricamente, numa república democrática, deveriam ficar restritas ao universo privado, diz Bruno Paes Manso, em seu livro “A fé e o fuzil”.

Os temas morais ganharam destaque. As leituras da Bíblia e não os debates técnicos indicavam o caminho sobre políticas públicas e os rumos do país. Nesse sentido, o que aconteceria se os pentecostais se tornassem a maioria do eleitorado? Uma guerra santa? Não necessariamente.

Pentecostalismo não é sinônimo de alienação ou de fanatismo, afirma Manso. Marina Silva foi senadora, deputada federal e ministra de Estado. Apesar de ser missionária da Assembleia de Deus, sempre evitou levar suas crenças para o debate público. Manteve um diálogo ecumênico com indígenas, quilombolas e ribeirinhos em defesa de causas comuns. Nas três eleições presidenciais que disputou, entre 2010 e 2022, nunca usou a religião para ganhar votos, ressalta o autor.

Anthony Garotinho foi o primeiro candidato à Presidência a ser apoiado pelos evangélicos. Apesar da boa votação, não chegou ao segundo turno. Os governos Lula e Dilma receberam o apoio dos evangélicos nos partidos do centrão. A eleição de Marcelo Crivella, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, para a prefeitura do Rio foi um primeiro sinal de alerta.

Depois, Bolsonaro recebeu sólido apoio das cúpulas evangélicas. Pouco importava que fosse um dos políticos mais infames da história brasileira. O “sagrado” sempre esteve em disputa nas lutas pelo poder. Ultimamente, inclinando-se fortemente à direita.

A luta de classes escreve reto por linhas tortas ou vice-versa.

Leia também: Fé e fuzil: o Jesus pacifista cancelado

1 de fevereiro de 2024

Fé e fuzil: o Jesus pacifista cancelado

Em meio ao caos violento da vida urbana nacional, uma leitura belicosa da Bíblia justifica o tratamento truculento das contradições e problemas sociais. É o que mostra Bruno Paes Manso, em seu livro “A fé e o fuzil”.

Do Velho Testamento emergia a autoridade superior, infinita, onipresente, onisciente, que criou o universo e estabeleceu uma série de regras a serem obedecidas pelos descendentes de Abraão e do povo de Israel, afirma o autor.

A aliança divina entre o povo de Deus e seu criador garantia o triunfo dos que obedeciam e o castigo aos que desacreditavam. Deuteronômio 32,41-42 é particularmente explícito: “Embriagarei minhas flechas com sangue e minha espada devorará a carne, sangue dos mortos e cativos, das cabeças cabeludas do inimigo.”

O episódio bíblico da invasão de Jericó por Josué costuma ser muito citada. É nele que Deus autoriza o assassinato de velhos e crianças para poder governar por intermédio de reis e profetas comprometidos com suas leis.

O apóstolo Paulo instrui os crentes a permanecer em estado de alerta contra o inimigo que nos afasta de Jesus. O inimigo interno, dentro de nós, mas também o externo.

As passagens bíblicas também podem servir para justificar as execuções sumárias. Em Êxodo 22,1: “Se um ladrão for surpreendido arrombando um muro, e sendo ferido morrer, quem o feriu não será culpado do sangue”.

Não à toa, as bancadas da Bala e da Bíblia são aliadas permanentes no Congresso Nacional. Integraram os mesmos partidos do Centrão que apoiaram Bolsonaro.

O Jesus fraterno e pacifista da Teologia da Libertação foi silenciado e cancelado, conclui Manso.

Leia também: Fé e Fuzil: a Teologia da Libertação contra a ditadura

24 de janeiro de 2024

Fé e fuzil: a Cristolândia tocando “pragod” na Cracolândia

Sérgio é um personagem do livro “Fé e Fuzil”, de Bruno Paes Manso. Membro da instituição evangélica Cristolândia, ele e outros “missionários” percorriam a Cracolândia paulistana tentando convencer os usuários de drogas a mudar de vida. Chegavam tocando samba (que chamavam de “pragod”), oravam para expulsar demônios e distribuíam sopas e cobertores.

Ainda menino, Sérgio foi abusado por um homem de sua família. Adulto, tornou-se travesti e foi para a Europa, onde caiu vítima de uma gangue de tráfico humano. De volta ao Brasil, acabou na Cracolândia, mas foi “resgatado” pelos religiosos da Cristolândia.

Sérgio não condenava moralmente os transexuais ou travestis. Sua missão na Cracolândia era trabalhar com elas, não para que mudassem suas identidades ou orientações, mas para que deixassem as drogas e as ruas. Quando os transexuais e travestis aceitavam dormir no abrigo da instituição, recebiam calcinhas e roupas femininas, não cuecas, camisetas e bermudas. Sérgio defendia que o trabalho de doutrinação religiosa só seria efetivo se essas pessoas fossem respeitadas e aceitas como tais.

Depois de se converter ao cristianismo, Sérgio fez várias cirurgias para retirada de silicone e frequentou um curso de teatro para “recuperar o que entendia como comportamento masculino”. Na época que Manso o conheceu, estava prestes a se casar com uma missionária de Curitiba.

Se Sérgio livrou-se do inferno das drogas e das ruas, sua conversão pode representar o ingresso em nova etapa de sofrimento, ao ceder à repressão religiosa e violentar sua sexualidade. Mas, mesmo equivocada em seus fins, a abordagem emocional e afetiva que adotou em seu trabalho deveria servir de exemplo à militância de esquerda.

Leia também: Fé e Fuzil: a Bíblia como manual de instrução

22 de janeiro de 2024

Fé e Fuzil: a Bíblia como manual de instrução

“A vida nas cidades não permite um respiro sequer”, diz Bruno Paes Manso em seu livro “Fé e Fuzil”. Ele se refere à urbanização desenfreada da sociedade brasileira desde meados do século passado. Para as populações vindas do campo que desembarcavam nas grandes cidades, era “cada um por si, numa competição desesperada para superar a pobreza”.

Nessa situação, “ganha quem consegue mais dinheiro, não apenas para as necessidades urgentes e concretas, mas também para as conquistas materiais simbólicas que garantem respeito, status e protegem de situações violentas e humilhantes”, diz ele.

“Muitos ficam pelo caminho, pobres, com fome, sem emprego”. Não poucos encontraram no crime um atalho ilusório e fatal para a resolução de seus problemas. “Entre matadores, policiais, grupos de extermínio e criminosos, o sistema funcionava como uma máquina bem azeitada de produzir pecadores, enquanto os pentecostais tentavam faturar oferecendo um antídoto para essas almas”, afirma Manso.

O remédio fornecido pelos “crentes” converteu os mais convictos “pecadores”.  Foi o caso do tenente Pereira, policial militar condenado e preso por executar suspeitos. Segundo ele, sua conversão para uma vida livre da dominação demoníaca aconteceu graças a um manual de instruções chamado Bíblia. “Se você não ler o manual, não seguir o manual, a sua tendência é ser destruído”, assegura.

Nada disso seria problema se não servisse para ocultar o que realmente está por trás do massacre cotidiano da população pobre e explorada das grandes cidades. São os poderes entranhados na materialidade da máquina de exploração e opressão do capitalismo contemporâneo. Poderes que podem até ser diabólicos, mas não têm nada de sobrenaturais.

Leia também: Na periferia do Rio, Faixa de Gaza e Complexo de Israel

17 de janeiro de 2024

Na periferia do Rio, Faixa de Gaza e Complexo de Israel

Em 2016, na periferia da zona norte do Rio, havia uma região dividida por conflitos violentos conhecida como Faixa de Gaza até que foi pacificada e unificada sob o nome de Complexo de Israel. Essa operação foi feita de forma violenta e liderada por um traficante chamado Peixão.

Leitor da Bíblia, Peixão compara sua trajetória à de personagens sagrados nas guerras de conquistas territoriais do povo de Israel. Ele alega que sua autoridade decorre diretamente do Criador. Para além dos lucros do tráfico, sua governança baseia-se nos textos sagrados.

“Traficrentes” é o apelido que convertidos como Peixão receberam no Rio. Diferente de outros que aderiram à fé cristã e abandonaram as atividades ilegais, ele continua ganhando dinheiro com o crime. Ostenta fuzis, corrompe policiais e é implacável com os inimigos.

Por outro lado, investiu em pavimentação e coleta de lixo, além de construir uma ponte que a comunidade esperava da prefeitura há muitos anos. Com direito até a prestação de contas, revelando para a população os custos da construção.

Tudo isso está no livro “Fé e Fuzil”, de Bruno Paes Manso. O discurso de Peixão não é simples simulação para enganar os incautos, diz o autor. Ele atribui um sentido para sua missão. Sustentar e fortalecer os guerreiros de Deus, vendendo drogas para os adoradores do diabo.

No Rio de Janeiro, com seu longo histórico de governadores presos, “é como se as leis republicanas estivessem suspensas”, afirma Manso. Mas, certamente, para a grande maioria pobre e marginalizada da população, leis republicanas são mais abstratas que fanatismos religiosos ou as regras brutais do crime.

Leia também: Fé e fuzil: a metanoia e os traficrentes

16 de janeiro de 2024

Fé e fuzil: a metanoia e os traficrentes

“Metanoia” é um conceito que aparece no livro “Fé e Fuzil”, de Bruno Paes Manso. Representa “uma mudança de consciência e de comportamento que não acontece por ameaça de punição, nem por mera pressão social, mas por convicção pessoal, em decorrência de uma crença que faz o sujeito passar a enxergar o mundo de outra forma e a agir conforme ela.”

O processo é radical e quase sempre envolve uma religião, diz o autor. Quem passa por ele adota “outro programa mental”, que o torna um “abençoado”.

Segundo Manso, a partir da metanoia, o “abençoado” iniciava seu caminho sem passivos. Mesmo porque para boa parte dos pentecostais, “a perversidade pregressa, a maldade, as pisadas na bola em geral, tinham sido resultado da ausência de Jesus na vida do indivíduo” e da “influência do Diabo, o inimigo de Cristo”.

Essas conversões ofereciam respostas para suportar o cotidiano das misérias materiais e existenciais dos centros urbanos, criar oportunidades, abrir caminhos. “Bastava crer para ver o portal se abrir. O crente ganhava passaporte para um novo mundo que direcionava suas escolhas, dava uma missão transcendente e preenchia o vazio da vida”, afirma o autor.

Após a conversão, muitos abandonaram suas atividades criminosas. Mas outros se mantiveram fora da lei. É o caso de Peixão, um traficante que criou o Complexo de Israel na zona norte do Rio, unificando sob seu comando uma violenta região conhecida como “Faixa de Gaza”. É um exemplo do que se costuma chamar de “traficrente”.

Também mostra como o sistema de dominação utiliza os mais diversos elementos a seu favor, enquanto espalha a barbárie.

Leia também: PCC, pentecostais e reprogramação mental

12 de janeiro de 2024

PCC, pentecostais e reprogramação mental

No início dos anos 1990, imperava imensa desordem nas periferias paulistanas. Para grande parte da população periférica masculina restava como ocupação “um mercado ilegal, cheio de armas e altamente competitivo”.

As chacinas se multiplicavam. Os jovens pobres e negros viviam acuados. O consumo de crack se espalhava e os conflitos se intensificaram ainda mais. Surgiram justiceiros populares que acabaram alimentando um ciclo interminável de vinganças.

Nessa situação, “seria possível produzir outras verdades, capazes de reprogramar as mentes e mudar os comportamentos homicidas? Haveria espaço para mudar comportamentos a partir de um discurso que convencesse os matadores a pararem de se matar?”. É o que pergunta Bruno Paes Manso em seu livro “Fé e Fuzil”.

A resposta veio com uma queda vertiginosa nos homicídios nas periferias paulistanas a partir dos anos 2000. Resultado da maior presença do PCC, que proibiu as vinganças e impôs regras brutais, mas claras e eficientes para as atividades criminosas.

Ao mesmo tempo, diz o autor, os pentecostais cresciam mais do que nunca, promovendo milhares de conversões no mundo do crime. Justiceiros tornaram-se devotos, passando a pregar o bom comportamento e o respeito a Deus e à família. Conhecendo de perto os problemas e aflições das “quebradas”, tornavam-se pastores respeitados.

“Tanto o PCC como as igrejas pentecostais são instituições criadas pelos pobres, para os pobres, que produziam discursos capazes de reprogramar as mentes. O novo Brasil pobre e urbano começava a inventar formas de se governar”, afirma Manso. Enquanto isso, a esquerda perdia terreno.

Reprogramação também pode ser chamada de disputa de hegemonia. Embate decisivo que, em breve, seria vencido pela extrema-direita.

Leia também: Fé e fuzil: crime e religião no Brasil do século XXI

11 de janeiro de 2024

Fé e fuzil: crime e religião no Brasil do século XXI

A população rural brasileira representava 69% do total em 1940. Em 1991, esse percentual havia caído para 26%. Os quase 75% que migraram para as cidades encontraram uma estrutura urbana incapaz de acolhê-los.

Diante da incapacidade do Estado e outras instituições para responder a essa situação, duas “soluções” surgiram “para organizar a vida caótica das cidades: a fé e o fuzil”. É o que afirma Bruno Paes Manso, utilizando a expressão que dá nome a seu livro.

Quanto à fé, diz o autor, verifica-se o fortalecimento da autoridade religiosa representada pelo crescimento dos pentecostais, a partir dos anos 1950. No lugar da Teologia da Libertação, que pregava a organização coletiva dos pobres, surge o neopentecostalismo, baseado na fé e empenho individuais, com foco na família, para combater o mal e prosperar em um mundo condenado ao apocalipse.

Com relação à ordem imposta pelo fuzil, verifica-se o aumento da violência policial e da criminalidade nos bairros pobres, a partir dos anos 1980, e a disseminação das facções nos presídios e o surgimento das milícias, a partir dos anos 1990.

No Rio, o Comando Vermelho, fundado nas prisões, encontra na venda de cocaína uma maneira lucrativa de financiar sua organização. Priorizando o controle territorial, facções deste tipo tornaram-se donas dos morros.

Em São Paulo, o controle territorial não fazia parte da estratégia dos traficantes. Havia uma rede horizontal de pequenos empreendedores do crime atuando “sem regulação”. O PCC surgiria dentro dos presídios para se tornar uma “agência reguladora do mercado atomizado do crime paulista”.

Os elementos trazidos pela obra de Paes Manso são fundamentais. Continuaremos a comentá-la.

Leia também: Cangaço, criminalidade e lutas populares