Doses maiores

Mostrando postagens com marcador Labirintos do Fascismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Labirintos do Fascismo. Mostrar todas as postagens

31 de janeiro de 2024

O racismo sionista instrumentaliza o racismo antissemita

No momento em que o Estado de Israel aprofunda sua política de genocídio contra os palestinos, atingindo principalmente a população da Faixa de Gaza, é importante recuperar um pouco da história do sionismo.

É o que faz João Bernardo, em seu livro “Labirintos do Fascismo”, ao lembrar que na obra considerada fundadora do movimento sionista, “O Estado Judeu”, publicada em 1896, Theodor Herzl dizia que bastava uma presença substancial de judeus para necessariamente provocar reações antissemitas. Desse modo, a única alternativa seria a separação e o estabelecimento dos perseguidos num território autônomo. Tal território seria a Palestina.

Já Chaim Weizmann, que se tornaria o primeiro presidente de Israel, declarou em 1912, em uma palestra feita em Berlim, que “para evitar perturbações internas, cada país só pode absorver um número limitado de judeus. E a Alemanha já tem judeus demais”.

Segundo Bernardo, era essa a doutrina básica do sionismo, cujos dirigentes encontravam no racismo dos outros povos a condição indispensável para se tornarem, eles também, governantes de um povo eleito. Por isso desde muito cedo o movimento sionista procurou estabelecer acordos com governos hostis aos judeus e convencê-los de que ambos convergiam no mesmo objetivo imediato. Se os antissemitas queriam desembaraçar-se dos compatriotas judaicos e os sionistas pretendiam aumentar o número de judeus na Palestina, por que não unirem os esforços?

Um século depois, o sionismo continua usando o antissemitismo para falsear a realidade. Confunde as denúncias contra o governo assassino de Israel com ataques aos judeus. Quer sobrepor o legítimo direito à autodeterminação dos israelenses à própria existência de outros povos.

Leia também: A estupidez do sionismo de esquerda

26 de julho de 2023

Racismo operário na África do Sul

Segundo João Bernardo, em seu livro “Labirintos do Fascismo”, a primeira greve da África do Sul ocorreu em 1850. Mas sua motivação não foi das mais nobres. O movimento se restringia a operários brancos e pretendia impedir o desembarque de condenados a trabalhos forçados. Temia que uma colônia penitenciária fosse transformada em reserva de mão-de-obra gratuita, levando a um achatamento salarial.

Momento mais significativo, porém, ocorreu em 1911, quando foi promulgada uma lei estabelecendo demarcação rigorosa entre trabalhadores brancos e negros nas minas e fábricas, com pouca resistência dos sindicatos. Essa forma embrionária de apartheid acabou por institucionalizar as barreiras racistas que impediriam o proletariado de se constituir como classe e, portanto, de enfrentar de maneira eficaz o capital.

Em 1921, os donos das minas iniciaram uma grande ofensiva para que os mineiros negros mais habilidosos tivessem acesso a funções semiqualificadas. Surgiu uma enorme onda de greves em defesa dos privilégios da mão-de-obra de origem europeia que logo se transformou numa grande insurreição. Alguns sindicatos armaram os operários e cerca de 50 deles morreram.

Ao mesmo tempo em que defendiam a separação racial dos mercados de trabalho, os grevistas procuravam fundar uma república dos trabalhadores. Dos trabalhadores brancos, claro. A palavra de ordem era “Proletários de todo o mundo uni-vos por uma África do Sul branca”. O mais lamentável é que o movimento foi impulsionado por militantes da Internacional Comunista.

A este fenômeno Bernardo chama de “nacional-bolchevismo”. Ou seja, a luta socialista subordinada a objetivos nacionalistas. O caso sul-africano mostra que as consequências de uma concepção como esta podem ser as mais trágicas e vergonhosas.

Leia também:
Do socialismo nacional ao nacional-socialismo
Wagner, Hitler, Prigojin, Putin, Otan: uma ópera infernal!

26 de junho de 2023

Wagner, Hitler, Prigojin, Putin, Otan: uma ópera infernal!

Richard Wagner não foi nazista porque não deu tempo. Mas o nazismo certamente contaria com o apoio do grande compositor alemão, se ambos fossem contemporâneos.

Poucos meses antes de morrer, Wagner fez o seguinte comentário ao célebre livro de Arthur de Gobineau “Ensaio Sobre a Desigualdade das Raças Humanas”, de 1853:

A mais nobre das raças brancas, a raça ariana, degenera unicamente, mas infalivelmente, porque, sendo menos numerosa do que os representantes das raças inferiores, está obrigada a cruzar-se com eles. Ora, o que ela perde ao adulterar-se não é compensado pelo que estes ganham ao enobrecer-se.

Hitler se inspirou na estética wagneriana para construir sua imagem política. O criador de “Tannhäuser” considerava a ópera a obra de arte total, juntando música, teatro, artes visuais, arquitetura, dança.
Já Hitler, como observa João Bernardo em seu livro “Labirintos do Fascismo”, fazia:

...da assembleia política uma representação, da propaganda um teatro filmado, da arquitetura um cenário, finalmente da guerra uma coreografia. Arte do totalitarismo, a encenação converteu-se na arte absoluta e nela se operou a síntese de todas as outras.

Foi em homenagem a esse gênio musical e patife racista que o neonazista russo Yevgeny Prigojin batizou o bando de soldados mercenários que criou. Em 2022, o grupo Wagner vendeu seus serviços para Putin na guerra da Ucrânia. Mais recentemente, foi parar nas manchetes porque ameaçou se voltar contra o Kremlin.

Wagner escapou por pouco de ser nazista. Mas ele e Hitler se mereciam, assim como se merecem Prigojin, Putin e a Otan. A grande maioria da humanidade é que não merece essa ópera dos infernos.

Leia também: EUA e Ucrânia: uma cajadada, muitos coelhos

20 de junho de 2023

A aliança entre o fascismo e a ralé criminosa

Em 1940, Himmler, inspirado por Hitler, decidiu criar um corpo especial recrutado entre presos condenados por caça ilegal. Segundo o Führer: “Em combate, eu preferia comandar uma seção formada por caçadores ilegais do que pelos advogados que os condenaram”.

Hitler era vegetariano, mas considerava a caça ilegal o “lado romântico” da matança de animais.

À frente do “comando de caçadores” foi colocado Oskar Dirlewanger, um misto de facínora e valentão. Em agosto de 1934, por exemplo, fora condenado a dois anos de prisão por ter provocado vários acidentes de automóvel ao dirigir bêbado e por manter relações sexuais com uma menor de idade.

Recrutados nas cadeias em que cumpriam sentença, os caçadores foram transferidos para um campo de concentração, onde receberam treinamento militar e desde julho de 1940 até junho de 1942 constituíram 94% dos efetivos daquela divisão. Dirlewanger chefiou com mão de ferro aquele contingente de presidiários e o usou para ações de enorme crueldade.

Mas o elevado número de baixas entre os caçadores levou a que, em setembro de 1942, começassem a ser alistados contrabandistas presos com armas na mão. Possivelmente, rodeados da mesma aura romântica que Hitler enxergava nos caçadores ilegais.

Acontece que os contrabandistas também não foram suficientes para compensar as baixas e Himmler propôs a Dirlewanger o recrutamento de bandidos comuns, presos em campos de concentração.

O relato acima está no livro “Labirintos do Fascismo”, de João Bernardo. Mostra como as relações da extrema-direita com a criminalidade mais rasteira e truculenta são antigas. Não é inovação de Bolsonaro, seus caçadores milicianos, motoristas bêbados, sociopatas pedófilos e contraventores em geral.

Leia também: As eleições como lava-jato de criminosos fascistas

12 de maio de 2023

A suja história da eugenia: a vitória nazista

Em 1924 , os Estados Unidos aprovaram a Lei Johnson-Reed que impedia a entrada de imigrantes da Ásia e estabelecia cotas para aqueles vindos do sul e do leste da Europa.

Em seu livro “Mein Kampf”, Hitler saudou a lei como o início “de uma perspectiva que é específica da concepção racista de Estado”. Não à toa, as relações entre eugenistas estadunidenses e alemães eram estreitas desde antes da Primeira Guerra.

Em nome dessas relações amistosas, a Fundação Rockefeller contribuiu financeiramente para o movimento eugenista tanto nos Estados Unidos como na Alemanha, inclusive entre 1933 e 1939, período de auge do poder de Hitler.

Em 1934, o diretor de Ciências da Natureza da Fundação Rockefeller, Warren Weaver, perguntava “se será possível desenvolver uma genética tão extensiva e bem fundamentada que possa viabilizar a criação, no futuro, de homens superiores”. Era precisamente a esta questão que Hitler pretendeu responder do modo que ficou tragicamente notório nos anos seguintes.

Em 1932, quando era previsível a tomada iminente do poder pelos nazistas, o Eugenical News, verdadeiro órgão oficial do movimento eugenista norte-americano, publicara dois artigos em louvor ao programa racial de Hitler.

Se definirmos o nacional-socialismo como a aplicação à política de critérios procedentes da biologia, então as leis eugenistas promulgadas por vários governos “democráticos” no mundo não foram menos hitlerianas. Com certeza, os princípios eugenistas continuam por trás do racismo e das políticas que o sustentam pelo mundo. O nazismo foi derrotado, mas não algumas de suas principais ideias.

Com essa pílula, encerram-se os comentários sobre eugenia a partir do livro “Labirtintos do Fascismo”, de João Bernardo.

Leia também: A suja história da eugenia nas “democracias”

11 de maio de 2023

A suja história da eugenia nas “democracias”

Em 1928, o parlamento da província de Alberta, no Canadá, aprovou uma lei permitindo esterilização em certos casos. Mas foi remodelada nove anos mais tarde de modo a admitir a esterilização forçada. Até a lei ser cancelada em 1972, de um total de 4.700 procedimentos desse tipo, 60% haviam sido autorizadas.

Na Suíça, uma lei permitindo a esterilização sexual compulsiva de deficientes mentais manteve-se em vigor no cantão de Vaud de 1928 até a década de 1970. Enquanto isso, no resto do país, mesmo sem cobertura legal, havia médicos que executavam esterilizações sob pretextos terapêuticos.

Na Dinamarca, uma lei de 1929 garantiu a esterilização de cerca de 11 mil pessoas até 1967. Na Suécia, legislação semelhante foi aprovada em 1934. Quando ela foi abolida, em 1976, haviam sido praticadas cerca de 63 mil operações, na maioria em mulheres. Na Noruega, a lei é do mesmo ano. Quando foi revogada em 1977, já haviam sido feitas 41 mil intervenções desse tipo.

A partir das primeiras décadas do séulo 20, racistas germânicos e eugenistas estadunidenses estabeleceram relações amistosas e de colaboração. Era possível encontrar na correspondência acadêmica trocada entre cientistas de ambas as origens descrições em que as chamadas “raças inferiores” eram comparadas a bactérias infecciosas ou ratos e suas migrações a invasões de animais pestilentos.

As informações acima estão no livro “Labirintos do Fascismo”, de João Bernardo. Mostram como aquilo que seria tratado como uma aberração nazifascista após a Segunda Guerra era muito comum entre governantes e cientistas do chamado mundo democrático.

Na próxima pílula, mais detalhes sobre a suja colaboração germano-norte-americana no campo da eugenia.

Leia também: A suja história da eugenia: Estados Unidos

10 de maio de 2023

A suja história da eugenia: Estados Unidos

Continuamos destacando algumas das terríveis consequências da eugenia, descritas no livro “Labirintos do Fascismo”, de João Bernardo. Os casos abaixo ocorreram nos Estados Unidos.

Em 1896, em Connecticut, a legislação local proibia o casamento de deficientes mentais, alcoólicos, pessoas com doenças venéreas e dos considerados anormais, caso a noiva estivesse em idade de procriar.

Em 1907, uma lei de Indiana permitia a esterilização sexual forçada dos deficientes mentais, presos e residentes em abrigos para indigentes. Dois anos depois, o estado de Washington adotou medidas de esterilização compulsiva para criminosos reincidentes e estupradores. O mesmo fez a Califórnia em relação a criminosos e crianças com deficiências mentais. Nevada seguiu o exemplo e autorizou a esterilização de criminosos reincidentes, e Iowa de criminosos, deficientes mentais, bêbados, drogados, epilépticos e dos pervertidos moral ou sexualmente. Nova Jersey promulgou legislação idêntica em 1911, assim como Nova Iorque, no ano seguinte.

Finalmente, em 1927, a Suprema Corte admitiu a esterilização sexual dos criminosos e dos deficientes mentais. Desse modo, de 1907 à década de 1960, cerca de 70 mil pessoas teriam sido esterilizadas sexualmente contra sua vontade. A grande maioria delas, mulheres.

A eugenia encontrou toda essa aceitação em terras americanas porque a doutrina que justificou a fundação dos Estados Unidos era o “Destino Manifesto”, segundo a qual os brancos daquele país formavam o povo eleito por Deus para civilizar o mundo. De modo que expandir territorialmente os Estados Unidos era “realizar a Providência Divina”.

Tudo isso muito antes de Hitler com sua defesa da criação de um “espaço vital” para os arianos, às custas do massacre de “povos inferiores”.

Leia também: A suja história da eugenia: Darwin

9 de maio de 2023

A suja história da eugenia: Sócrates e Platão

24 séculos atrás, no quinto livro da “República”, Platão colocou na boca de Sócrates a seguinte passagem:

É necessário (...) que as relações sexuais sejam o mais possível frequentes entre as pessoas de elite de ambos os sexos e o mais possível raras entre as pessoas inferiores. Além disso, é necessário cuidar dos filhos dos primeiros e educá-los, mas não dos segundos, se quisermos garantir a excelência do rebanho.

O trecho acima está no livro “Labirintos do Fascismo”, de João Bernardo, no capítulo dedicado à eugenia. O autor acha importante lembrar os ensinamentos de Platão, dada “a enorme importância que os estudos filosóficos tiveram nas escolas médias e superiores ocidentais”.

É desse modo que, durante o século 19 e início do século 20, as medidas introduzidas pela eugenia faziam parte do horizonte ideológico da classe dominante, justificadas por Platão, considerado pela cultura burguesa como o pai de toda a filosofia. Em especial, na nação cuja maior patologia é  acreditar ser destinada a dominar o mundo.

Em 1911, foi criado um comitê especial nos Estados Unidos, cujo objetivo era defender a eliminação de dez grupos populacionais: “retardados mentais, indigentes, alcoólicos, criminosos, epiléticos, loucos, os fisicamente débeis, os predispostos a certa doenças, aleijados e, finalmente, os portadores de deficiências como cegueira e surdez”.

Várias figuras conceituadas no meio científico norte-americano consideravam que o pauperismo era congênito e podia ser transmitido hereditariamente. Ao mesmo tempo em que se acreditava na existência de ligações genéticas entre epilepsia e pobreza e deficiência mental.

Eis aí mais nomes de prestígio utilizados para colocar em prática os ensinamentos nada saudáveis da eugenia.

Leia também: A suja história da eugenia: Darwin

8 de maio de 2023

A suja história da eugenia: Darwin

Entre os selvagens, são rapidamente eliminados os indivíduos física ou mentalmente fracos. E os sobreviventes demonstram geralmente uma saúde vigorosa. Nós, os civilizados, pelo contrário, fazemos todo o possível por travar o processo de eliminação. Construímos hospícios para os atrasados mentais, os aleijados e os doentes, promulgamos leis de auxílio aos pobres e os nossos médicos empenham-se com toda a habilidade em salvar a vida de cada um até ao último momento. (...) Assim se propagam os membros fracos das sociedades civilizadas. Ninguém que tenha participado na criação de animais domésticos pode duvidar de que isto é forçosamente muito prejudicial à raça humana.

(...)

Se os vários obstáculos mencionados (...), e talvez outros ainda desconhecidos, não impedirem os imprevidentes, os depravados e os restantes membros inferiores da sociedade de aumentar a uma taxa mais rápida do que a dos homens de melhor categoria, a nação retrocederá, como sucedeu já tão frequentemente na história do mundo. Devemos lembrar-nos de que o progresso não é uma regra invariável.

Os trechos acima são do livro “A Origem do Homem e a Seleção Sexual”, de Charles Darwin. Mostram que até um gênio pode acabar por colaborar, mesmo que inconscientemente, para o surgimento de uma das teorias fundamentais para formação da ideologia nazifascista. Trata-se da eugenia, cujo objetivo principal era promover a “melhoria genética” da humanidade. Seu criador foi Frances Galton, primo de Darwin, que organizou e levou às últimas e piores consequências alguns equívocos espalhados pelas obras de seu famoso parente.  

Na próxima pílula, mais sobre essa doutrina que emporcalhou e ainda emporcalha a história humana.

Leia também: A suja história da eugenia: Frances Galton

5 de maio de 2023

A suja história da eugenia: Frances Galton

A eugenia foi uma disciplina acadêmica que contribuiu decisivamente para a formação da ideologia e prática nazistas. Segundo essa concepção, as contradições sociais seriam patologias e a política, um ramo da medicina.

Frances Galton, considerado o fundador da eugenia, desenvolveu o racismo em dois aspectos que teriam grandes repercussões. Em primeiro lugar, ele entendia que haveria diferenças biológicas não só entre os povos, mas também no interior deles. Desse modo, as classes dominantes seriam superiores física e mentalmente em relação ao restante da sociedade.

Nesse contexto, a Comuna de Paris, por exemplo, foi considerada uma prova da degenerescência biológica do proletariado.

Em segundo lugar, Galton considerava necessário aperfeiçoar a raça por meio de matrimônios entre os membros das elites, ao mesmo tempo em que defendia medidas para condenar à extinção as famílias consideradas social, moral e biologicamente indesejáveis.

A difusão destas concepções nos meios científicos foi facilitada pela notoriedade das investigações do médico Cesare Lombroso. Pressupondo que os criminosos eram biologicamente degenerados, Lombroso propôs condenar à morte todos aqueles que sofressem desde o nascimento de características regressivas. Para ele, este era o caso de cerca de um terço da população carcerária.

É assim que a futura política hitleriana estava traçada em suas linhas fundamentais já no século 19.

As informações acima estão no livro “Labirintos do Fascismo”, de João Bernardo, e esse autor alerta que a eugenia não interessou apenas a setores marginais ou alheios ao pensamento científico. Galton era primo de ninguém mais do que Charles Darwin e, segundo Bernardo, suas ideias racistas estão presentes na obra do ilustre parente. Mas veremos isso mais adiante.

Leia também: Destino Manifesto: a doutrina genocida estadunidense

2 de dezembro de 2022

A paz dos banqueiros e a paz dos cemitérios

Em seu livro “Labirintos do Fascismo”, João Bernardo comenta o que considera um dos episódios menos conhecidos da segunda guerra mundial. Envolve o Banco de Compensações Internacionais (BCI), instituição criada na Basileia, Suíça, em 1930. Sua função era permitir que os bancos centrais dos vários países cooperassem tecnicamente sem intromissões políticas. Ainda hoje, seu conselho de administração é composto por dirigentes de bancos centrais.

É muito provável que durante os seis anos de guerra não houvesse outro organismo onde os países inimigos estabeleceram oficialmente uma colaboração tão sistemática, afirma o autor. Nada mais lógico. Por um lado, é precisamente no plano financeiro que a internacionalização do capital chegou mais longe, já que o dinheiro circula muito fácil e velozmente. Por outro lado, no plano estritamente técnico, as operações envolvidas ficaram distantes dos olhos leigos das populações tão duramente afetadas por elas.

A existência do BCI reunindo pacificamente todas as partes das nações beligerantes prova que o capital estava já completamente globalizado.

Bem antes do final da guerra, a tecnocracia financeira do Reich se ocupava, juntamente com os seus colegas anglo-americanos, em definir o lugar da Alemanha vencida num mundo politicamente democrático e economicamente liberal. Os serviços de espionagem nacional-socialistas pressentiam os novos rumos ou até os conheciam e tomavam parte neles.

Era a concórdia reinando entre os capitalistas em suas salas acarpetadas, fossem liberais ou fascistas. Independente de suas nacionalidades, os donos dos meios de produção sempre tiveram uma única pátria, a do capital. Enquanto isso, para os soldados nas trincheiras e as populações bombardeadas nas cidades, a única paz possível sempre foi a dos cemitérios.

Leia também: A falsa oposição entre autoritarismo e totalitarismo

10 de novembro de 2022

Marx e Engels também fizeram merda

As últimas duas pílulas abordaram um grave equívoco teórico cometido por Marx e Engels. Trata-se da ideia de que nações e povos inteiros podem ser classificados como reacionários ou revolucionários. 

Em seu livro “Labirintos do Fascismo”, João Bernardo argumenta que esse erro teria aberto uma brecha política que foi aproveitada por forças de direita para iniciar um processo que viria a desembocar no fascismo. 

Afinal, se há povos reacionários, como eslavos e turcos, seria justo que fossem atropelados pela vanguarda revolucionária da civilização. Que alguém tirasse conclusões racistas disso não deveria surpreender.

Mas em defesa de Marx e Engels, é importante considerar que as evidências documentais utilizadas por Bernardo saíram principalmente de suas correspondências. Em suas obras de maior fôlego, aqueles raciocínios estapafúrdios praticamente não aparecem.

Além disso, já no fim da vida, Marx começou a manter contato frequente com os revolucionários russos, fazendo questão de aprender seu idioma. Mais do que isso, ele chegou a admitir um caminho russo para o socialismo, ainda que achasse que isso dependeria da vitória da revolução no Ocidente. O desprezo que a dupla nutria pelos povos eslavos parecia ter ficado no passado. 

De qualquer maneira, Marx e Engels tiveram sorte de não viverem para ver o surgimento do fascismo entre os trabalhadores ser facilitado por algumas de suas teses infelizes. Assim como foi pena não terem visto os eslavos abrirem uma ruptura histórica sem precedentes em 1917. E tampouco tiveram o desgosto de testemunhar sua Alemanha, que consideravam um berço de revolucionários, enviando tropas para esmagar a vitoriosa revolução socialista russa. 

Pois é, até grandes revolucionários podem fazer merda.

Leia também: Do socialismo nacional ao nacional-socialismo 

9 de novembro de 2022

Do socialismo nacional ao nacional-socialismo

Entre 1908 e 1910 o político e pensador nacionalista Enrico Corradini começou a apresentar a Itália como uma “nação proletária”. Tratava-se de transformar a luta de classes numa luta entre nações. 

“Há nações que estão numa situação de inferioridade relativamente a outras, tal como há classes que estão numa situação de inferioridade relativamente a outras classes”, escreveu Corradini em outubro de 1910.

Nos anos que precederam a Primeira Guerra, Corradini esforçou-se por consolidar uma aliança entre nacionalistas radicais e sindicalistas revolucionários, que transportasse a luta da classe trabalhadora do interior da Itália para o exterior, convertendo uma nação proletária numa nação imperial.

O génio de Corradini consistiu em renovar a direita politicamente, usando para isto o proletariado. Residiu aqui a substância mesma do fascismo. Era o socialismo, mas um socialismo encerrado na nação logo transformou-se no nacional-socialismo. Assim começou a maior tragédia do século passado. Se Mussolini levou o fascismo para as massas, Corradini forneceu a formulação teórica que nortearia a fundação do Partido Nacional Fascista, em 1923. Mussolini não inovou nada. Realizou.

O relato acima é do livro “Labirintos do Fascismo”, de João Bernardo. Segundo ele, uma das raízes dessa enorme confusão teórica está na própria obra de Marx e Engels. Afinal, diz o autor, foram eles que cometeram o terrível erro de separar nações e povos entre reacionários e revolucionários em muitos de seus escritos. Equívoco que seria mantido pela 2ª Internacional, quando sua ala alemã considerou a entrada de seu país na Primeira Guerra como uma intervenção modernizadora contra o atraso das colônias. Outro enorme disparate. 

Concluiremos na próxima pílula.

Leia também:  Um grande equívoco de Marx e Engels

8 de novembro de 2022

Um grande equívoco de Marx e Engels

Em uma carta endereçada a Wilhelm Liebknecht, em fevereiro de 1878, Marx afirmou que só conseguia ver por detrás das lutas de independência nacional dos sérvios a sinistra mão do Império Russo. 

Em 1839, Engels escreveu que a “próxima guerra mundial não só fará desaparecer do globo terrestre as classes e as dinastias reacionárias, mas igualmente povos reacionários inteiros. E também isto será um progresso”.

Nas palavras de Engels, em uma correspondência de 1849, “o ódio à Rússia foi e continua a ser a primeira paixão revolucionária dos alemães”.  

As informações acima são do livro “Labirintos do Fascismo”, de João Bernardo. Estão no capítulo em que o marxista português condena Marx e Engels por cometer um de seus equívocos teóricos mais lamentáveis. 

Segundo o autor, em muitas de suas análises geopolíticas, os pais do marxismo teriam “convertido cada um dos campos das lutas nacionais em representante de uma ou outra classe social”. O alvo favorito dos ataques da dupla eram os eslavos, considerados povos “sem história”.

Tratar alguns povos como inerentemente reacionários, enquanto outros seriam vocacionados para a revolução é um equívoco sério demais para ser ignorado. E não só porque foram exatamente os eslavos que, no século seguinte, protagonizariam a primeira revolução socialista, em plena Rússia. Como diz Bernardo, tal posicionamento também “teria aberto a brecha teórica e prática onde mais tarde o fascismo haveria de se instalar”. 

Para dar um exemplo concreto, essas concepções teriam sido fundamentais para fazer Mussolini de um revolucionário socialista um ditador fascista. 

Muito grave, não? Voltaremos a isso na próxima pílula.

Leia também: A histórica tolerância dos “democratas” com o fascismo

10 de outubro de 2022

A histórica tolerância dos “democratas” com o fascismo

Durante os anos 1930, os chamados regimes “democráticos” viam com bons olhos a perseguição feita pelos fascistas às organizações da classe trabalhadora. Afinal, no começo de 1939 já existiam campos de concentração na França, onde foram internados anarquistas, comunistas e republicanos espanhóis, que haviam lutado contra as tropas fascistas de Franco e buscaram refúgio em território francês. Enquanto isso, falangistas espanhóis, fascistas italianos, russos contrarrevolucionários e nazistas autênticos passeavam livremente pela França.

Só quando o exército germânico se aproximou de Paris, o ministro do interior francês ordenou a captura de meia dúzia de notórios jornalistas e políticos partidários de Hitler. Tarde e sem efeito.

No Reino Unido, em julho de 1940, contavam-se já 27 mil detidos. Alguns eram reconhecidamente partidários de Hitler e Mussolini, mas muitos outros haviam emigrado por razões políticas e eram antifascistas de longa data ou judeus fugidos do Reich.

O conflito entre os regimes parlamentares e os regimes fascistas surgiu do expansionismo alemão e japonês, que ameaçava o equilíbrio internacional. Só a necessidade de conquistar a população trabalhadora para o esforço de guerra levou os governos aliados a dar um verniz antifascista ao que, na realidade, constituía apenas uma preservação de esferas de influência.

O morticínio causado pela Segunda Guerra serviu depois para que as chamadas democracias, adulterando o seu passado, apresentassem como uma incompatibilidade o que fora uma estreita colaboração com o fascismo.

As informações acima estão no livro “Labirintos do Fascismo”, de João Bernardo. Não são histórias do passado. A tolerância dos falsos democratas de direita com o fascismo se renova periodicamente. Estamos vivendo um desses momentos. Inclusive, no Brasil.

Leia também: O irracionalismo fascista da psicologia de capitão

12 de setembro de 2022

Mussolini venceu matando um morto

Em 1929, o romancista português Manuel Ribeiro diagnosticou: “Nos fins de 1920 a situação era esta: dum lado o Socialismo que frustrara a Revolução e não se decidia por coisa nenhuma; do outro, o país em terror a tremer dum furacão que ulula ainda, mas que vai já longe. Mussolini aproveita o pânico, corre a matar um morto e é acolhido como salvador. Eis o singelo esquema do triunfo mussoliniano”.

A citação acima está no livro “Labirintos do Fascismo”, de João Bernardo. Segundo ele, o fascismo somente venceu onde a burocratização já havia rendido o movimento operário. Mas para nosso autor, “a burocratização é gerada sempre pela base de um movimento, nunca pelo topo”.

Por mais que os dirigentes queiram consagrar seus privilégios, afirma Bernardo, “jamais o poderão fazer se a luta mantiver um dinamismo coletivo e os trabalhadores comuns se conservarem ativos e vigilantes”.

Os primeiros ensaios de violência contrarrevolucionária das milícias de Mussolini “foram inseparáveis da denúncia do reformismo socialista”. Foram muitos meses de lutas radicais nas fábricas italianas no início dos anos 1920. Mas se as direções do Partido Socialista e dos sindicatos se recusaram a avançar rumo à tomada do poder, “os trabalhadores tampouco conseguiram organizar de maneira estável a sua iniciativa própria”, diz ele.

Foi assim que o fascismo conseguiu reforçar sua penetração social e radicalizar sua atuação. Foi este o terreno da vitória de Mussolini, conclui o autor.

O grande diferencial dessa crítica é a recusa em culpar apenas as direções operárias pelas derrotas sofridas pela classe. Como se os trabalhadores organizados não pudessem se encarregar de seus próprios fracassos.

Leia também: As versões sutis e discretas do fascismo

26 de agosto de 2022

As versões sutis e discretas do fascismo

Em seu livro “Labirintos do Fascismo”, João Bernardo afirma que o fascismo só venceu onde o movimento operário já estava derrotado por suas próprias contradições internas. Mas se esta era uma condição necessária, nem por isso seria suficiente.

Outra condição fundamental para o crescimento do fascismo, diz ele, reside em determinações econômicas. Nos países onde o capitalismo está mais avançado, a forma de exploração acontece pela mais-valia relativa. Ou seja, o trabalho é explorado principalmente pelo aumento da produtividade.

Já nos países onde a industrialização é menor impera a mais-valia absoluta, em que a exploração se dá pelo aumento do volume de trabalho. Por exemplo, pela ampliação da jornada de trabalho.

Desse modo, diz Bernardo, o trabalho de um operário dos países industrializados equivale ao esforço de vários trabalhadores de países predominantemente agrícolas. Portanto, a exploração bruta tem que ser muito maior. E quanto mais brutalidade, mais agudas as contradições de classe. Mais violento tende a ser o sistema de dominação.

Seria por isso que o fascismo, a mais truculenta das formas de dominação, jamais se estabeleceu nos países onde a mais-valia relativa norteava o crescimento econômico. Casos de Estados Unidos, Inglaterra e França, em meados do século passado.

Nesses lugares, esse tipo de exploração levou o capitalismo a incorporar os mecanismos do totalitarismo, sem precisar alterar substancialmente as instituições da democracia representativa.

Para esse tipo de sociedade, conclui Bernardo, o fascismo teria se mostrado desnecessário porque “a evolução da democracia capitalista permitiu-lhe alcançar de um modo completamente diferente - discreto e sutil - alguns dos objetivos do fascismo”.

Faz sentido, mas o debate segue aberto.

Leia também: Os intermináveis labirintos do fascismo.

18 de agosto de 2022

Os intermináveis labirintos do fascismo

“Labirintos do Fascismo” é “um livro interminável”, diz seu autor, João Bernardo. Mas não porque tenha mais de 1.450 páginas. O caráter inconclusivo da obra, diz ele, deve-se ao fato de que o fascismo “foi destruído militarmente sem estar política e ideologicamente esgotado”.

Ele é um marxista português e militante antifascista de primeira hora. Afirma, porém, que não pretende abordar o fascismo a partir de fora, “mas desde o seu interior, nas encruzilhadas sociais e políticas em que se gerou e nos percursos paradoxais, quando não delirantes, em que prosseguiu a sua ideologia”.

Uma das teses centrais do livro é apresentada já na introdução. Para ele, os fascistas jamais conseguiram “ascender em confronto direto com as movimentações revolucionárias dos trabalhadores, mas somente após essas movimentações terem sido desarticuladas pelas suas contradições internas”.

Bernardo lembra Clara Zetkin que, ao discursar no Congresso da Internacional Comunista, em junho de 1923, advertiu:

O fascismo não é de modo nenhum a vingança da burguesia contra um proletariado que se tivesse insurreccionado de maneira combativa. Sob um ponto de vista histórico e objetivo, o fascismo ocorre sobretudo porque o proletariado não foi capaz de prosseguir a sua revolução.

Referindo-se à ascensão do nazismo nos anos 1930, o autor diz que o triunfo do fascismo só é compreensível se recordarmos que nessa ocasião as formas sociais inovadoras criadas pelo movimento operário haviam sido derrotadas e tinham degenerado.

Ou seja, as vitórias do fascismo teriam sido produto das derrotas do proletariado revolucionário para si mesmo.

Aos poucos, e na medida do possível, voltaremos a essa obra cheia de elementos importantes e provocativos.

Leia também: A ecologia dos nazistas