O que era pra ser eleições diretas, em 84, tornou-se eleição indireta, em 85. O presidente deveria ser o opositor Tancredo Neves. Acabou sendo seu vice, criatura da ditadura supostamente derrotada.
O que era pra ser uma anistia que faria justiça às vítimas dos generais ditadores, garantiu impunidade aos que as perseguiram e torturaram.
Era para ser uma nova constituição que assegurasse conquistas sociais. Muitas delas ficaram no papel, mas manteve-se a tutela militar sobre o poder civil.
Era pra ser Lula presidente em 89, representando uma década de lutas populares radicalizadas. O eleito foi um nordestino corrupto com o decisivo e fraudulento apoio da oligarquia sudestina.
Fracassada a aventura mafiosa collorida, o que era pra ser uma vitória eleitoral de Lula foi abortada pelo Plano Real. As perdas salariais foram congeladas e os conflitos sindicais neutralizados. A dívida externa transformada em dívida pública passou a saquear orçamentos como os da Educação, Previdência e Saúde. Bilhões de reais dos cofres públicos passaram a ser apropriados diariamente por rentistas nacionais e estrangeiros.
O PT só chegou ao poder após o neoliberalismo desarmar os movimentos populares e domesticar a esquerda institucional. O poder público transformado em dócil gerente da austeridade fiscal.
Todas essas contradições se acumularam até que a crise econômica mundial passou de “marolinha” a “tsunami”. E o que era pra ser Dilma reeleita, em 2014, tornou-se um golpe liderado por seu vice, em 2016.
Era pra ser Bolsonaro reeleito e o fascismo consolidado. Felizmente, Lula não permitiu. Mas continuamos dependendo do que era pra ser, enquanto as coisas nunca deixaram de ser o que são.
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